Universidade do estado do rio de janeiro


EM BUSCA DA PUREZA: CIÊNCIA, MEDICINA E A PRODUÇÃO DA DIFERENÇA



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EM BUSCA DA PUREZA: CIÊNCIA, MEDICINA E A PRODUÇÃO DA DIFERENÇA.
Hildeberto Vieira Martins

Doutorando da Universidade de São Paulo
O presente trabalho é o desdobramento de pesquisa bibliográfica anteriormente desenvolvida por nós e que tinha como objetivo discutir a produção médico-científica sobre o negro, cujo resultado foi a produção de um modelo explicativo acerca desse grupo social a partir de determinadas características definidas como raciais. Tomamos esse problema como ponto de partida, pois nos interessava discutir o processo de formação do Brasil, já que uma questão nos parecia recorrente quando nos deparávamos com os estudos sobre o nosso país e a sua história: a sua imagem foi e ainda é construída como um ícone da diferença, local de expressão por excelência desse acontecimento em suas mais variadas formas e manifestações. A questão da diferença marcou, pois, a constituição do brasileiro, dessa terra e de sua trajetória rumo a um suposto e desejável projeto civilizatório. A questão da diferença foi tema recorrente aos colonizadores europeus, inclusive os portugueses. O exotismo da nossa terra e de seu habitante nativo, o índio, anunciava o contraste com os ares “civilizados” do Velho Mundo. Com a chegada do escravo negro ainda no período colonial, essa questão só se acentuou, permitindo a construção de estratégias que definissem a presença negra em nosso solo. Essas estratégias produziam imagens/modos de ser que transitavam de sua definição como exótico para uma idéia romantizada ou alegórica do elemento negro. Se em um primeiro momento o escravo negro pôde ser visto através de uma ótica “positiva”, pois necessário à ordem escravocrata, não tardou para o forjamento de sua imagem de “perigoso”, a partir do prenúncio da Abolição. E esta última imagem foi aos poucos construída por nossos intelectuais ao longo dos anos a partir da absorção de um modelo racial de cunho biológico, o que permitiu expor, em um segundo momento, o negro como um problema para esse país. Tanto os nossos mandatários quanto o olhar “curioso” de alguns estrangeiros – como Johann Baptist von Spix, Carl Friedrich von Martius e o conde de Gobineau, para citar alguns – que aqui vinham buscar compreender os efeitos da mistura das raças e quais as conseqüências para o desenvolvimento da espécie humana, passaram a pensar a questão racial como de suma importância para explicar e compreender o Brasil e o seu povo. A diferença assumiu vários nomes ou definições ao longo desse processo histórico, mas o que nos interessa discutir em especial nesse trabalho é a efetivação de um deles, traduzido na naturalização da diferença presente no discurso racial. Partimos desse princípio, pois acreditamos que as problematizações e as práticas construídas e pensadas sobre a questão racial brasileira e dos projetos científicos de constituição de uma nacionalidade relacionados a ela têm como eixo norteador a questão da diferença. Pretendemos mostrar como esses dois temas também marcaram certas formulações científicas ainda nascentes em nossa sociedade de se pensar a construção de uma “identidade nacional” para o país, algumas delas utilizando-se de um verniz psicologizante na tentativa de descrever as peculiaridades de uma nação em desenvolvimento. Nosso propósito é discutir, à luz desses pontos de análise, quais razões determinaram a questão racial como um dos principais definidores do processo histórico que permitiu a construção de uma imagem do Brasil e, conseqüentemente, do brasileiro no século XIX. Utilizando de certa inspiração foucaultiana nos perguntamos como o ser humano da passagem do século XIX se reconhece como um sujeito pertencente a uma raça e como essa lógica pode estar ligada a certa constituição de si, como o brasileiro passará a se pensar e a se reconhecer como “sujeito racializado” ou “racial”. Buscamos investigar esse processo a partir da análise da produção de certos mecanismos ditos científicos. Se nós nos propusemos a tomar o “elemento negro” como ponto que nos leva adiante nessa discussão é porque nos perguntamos que ruptura, que deslocamento estratégico fez da polarização “branco/negro” o problema da nossa nação no século XIX, o que fez o brasileiro se pensar como ser cuja pertença está referida a uma raça? Interessa-nos, por isso, descrever a construção de um campo médico-psiquiátrico sobre a questão do negro brasileiro e quais foram as suas conseqüências para a formação de uma imagem acerca desse novo objeto de estudo para os nossos intelectuais. Utilizando como recurso analítico os trabalhos de Raimundo Nina Rodrigues e da denominada “Escola Baiana de Antropologia” pretendemos mostrar como a formulação desse saber acadêmico possibilitou a formulação de um modelo psicofísico de explicação sobre as “deficiências” do negro brasileiro, e quais seriam as conseqüências sociais da manutenção do convívio com essa raça. Isso não seria sem conseqüência, devido à proliferação de um discurso científico sobre a miscigenação e seus efeitos para o futuro de uma nação. Pretendemos discutir como essa discussão científica também se tornou um projeto social e político, que convergiu e tomou forma em determinado momento histórico nos trabalhos de Nina Rodrigues, permitindo a produção de uma leitura sobre o “elemento negro” como um sistema isolado no qual os sinais potenciais da mistura racial são antes de tudo um problema a ser controlado e eliminado. Um ideal de “pureza” estará em jogo nesse projeto científico, cuja tentativa é deixar claro os limites e as fronteiras que separam as raças no Brasil. Essa proposta científica propiciou a tentativa de constituição de um projeto para a exclusão de uma determinada parcela da população em decorrência de “estigmas” que permitissem reconhecer traços de diferenciação (degeneração), e teve como motor principal o projeto político desses autoproclamados cientistas na formulação de uma nação brasileira possível. Na tentativa de desenvolver uma análise preliminar sobre o tema da diferença e o modelo científico de Nina Rodrigues, esse trabalho baseou-se na discussão do conceito de sobrevivência presente em suas principais obras, como, por exemplo, Os africanos no Brasil. Acreditamos que esse recorte bibliográfico possa ser relevante para a compreensão das discussões em torno da questão racial e do processo de constituição do negro enquanto categoria científica no Brasil em finais do século XIX.

MEMÓRIA SOCIAL DE RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA
Gilmara Santos Mariosa

Programa de Pós Graduação em Psicologia Social/UERJ
Este projeto de pesquisa constitui um estudo sobre a memória social entre os negros da cidade de Juiz de Fora a respeito das religiões de matriz africana, especificamente do bairro Dom Bosco. Tem como formato uma introdução, onde apresentamos e definimos o tema das memórias das religiões de matriz africana. Uma justificativa, onde definimos o porque de estudarmos este tema neste bairro, que é uma região de grande concentração de população negra na cidade, onde podemos encontrar várias manifestações da memória negra em Juiz de Fora, como o fato de ter sediado um antigo quilombo, o fato de ser próximo de um antigo cemitério de escravos, ter atualmente grupos de Folias de Reis, terreiros de umbanda e benzedeiras. Nossa escolha por este tema se deve também aos poucos estudos da psicologia sobre este assunto, sendo mais explorado pela antropologia e socilogia, acreditamos que a psicologia social tem muito a contribuir em estudos desta temática. O problema da pesquisa é: Quais as representações e memórias sociais das religiões de matriz africana na população negra do bairro Dom Bosco? A fundamentação teórica que compõe tanto material sobre religiosidade de matriz africana como memória social e também sobre história da tradição africana em Juiz de Fora e Minas GeraisCertos historiadores consideram que história é a vida da memória, outros que a memória é a matéria-prima da história, material para que o historiador possa transformar, problematizar e desenvolver. Há ainda aqueles estudiosos da memória que consideram que esta se opõe à história. Porém, consideramos que ambas, história e memória estão interligadas; não se opõem mas se suplementam, cada uma com sua idiossincrasia mas sem negar a importância da história para a memória e vice-versa. Toda memória é construída coletivamente dentro do grupo e nele permanece. A memória mantém do passado somente o que permanece vivo na consciência dos membros do grupo. Ela não possui limites definidos, mas irregulares entre passado e presente. Ela não é fixa nem cristalizada ela é dinâmica e está sempre em processo de construção. Em se tratando da memória religiosa africana sabemos que quando se deseja apagar a memória de deuses antigos é necessário derrubar imagens e destruir templos, para, desta forma, apagarmos da memória dos homens a lembrança dos cultos. Os africanos foram arrancados de seu espaço religioso, proibidos de cultuar seus deuses, grupos étnicos e familiares foram separados, tudo como tentativa de destruir sua memória e desta forma os enfraquecerem para serem submetidos à escravidão. Porém, em qualquer lugar que se ergue um altar, o grupo religioso cresce e se consolida. Desta forma os negros reconstruíram a memória religiosa em solo brasileiro. Quando as memórias são reconduzidas de um grupo para outro, como ocorreu com africanos e descendentes, estes conteúdos são reconstruídos, o que marcaria a natureza psicossocial. A construção, manutenção e atualização da memória social estão intimamente relacionadas à interação social e à comunicação intra e intergrupal, erudita ou de massa. Este fator demonstra a construção das representações do passado em função das necessidades do presente. Tanto a memória quanto o pensamento social estão ligados de maneira indistinguível. O que se lembra do passado depende daquilo que se sabe sobre ele. O interesse e o sentimento que nutrimos, com relação aos afetos do que lembramos de determinado acontecimento, têm grande responsabilidade pelo conteúdo da memória produzida. A transmissão da memória ocorre dando forma e conteúdo a algo que é abstrato como as identidades. A memória é acessível a estes indivíduos através da transmissão da cultura africana. Ao lado das lembranças da memória social dos africanos encontramos também o esquecimento. Podemos dizer que sobre esquecimento se inscreve a nova linguagem da África revivida e reconstruída na realidade brasileira com as possibilidades que o nosso universo cultural a ela proporciona, através da ação ritual. Para reconstruir foi preciso esquecer que o retorno à África não era possível: era necessário refazer toda uma cultura e um culto religioso em uma terra estranha, hostil, inóspita. Esquecer foi preciso. A memória social será reconstruída por um misto entre lembrança e esquecimento, que de forma dinâmica e ativa determinarão esta reconstrução através do tempo e das interações sociais. O esquecimento social não representa vazio ou lacuna mas sim um espaço da memória cheio de significados representacionais. Esquecimento é definido então como uma construção social, compartilhada e estabelecida através das relações interpessoais em determinado grupo social. O objetivo geral do nosso trabalho é identificar a memória de religiões de matriz africana na população do bairro Dom Bosco. Quanto à metodologia, o perfil dos entrevistados é de homens e mulheres entre 20 e 60 anos, que se auto-identifiquem como negros moradores do bairro. Optamos por fazer uma pesquisa qualitativa buscando assim a compreensão do contexto mais amplo em que ocorre o fenômeno, privilegiando os aspectos subjetivos dos atores, levando em conta seus motivos, intenções, valores e crenças, visando o aprofundamento da realidade em estudo. A partir de entrevistas semi-estruturadas são exploradas questões a respeito do que estes moradores se lembram ou se esquecem a respeito de aspectos da memória afro-brasileira presente no bairro tais como o cemitérrio de escravos e o quilombo, dentre outros, quais as práticas religiosas de que se lembram e que identificam como práticas afro-brasileiras. A interpretação será feita com base na técnica de análise de conteúdo temática. Através de análise preliminar das entrevistas realizadas percebemos que as memórias dos moradores do bairro se constituem em: lembranças – benzedeiras, banhos de ervas, curas de doenças, dança, tambores e sacrifício de animais, são lembradas como práticas de origem africana; esquecimento – a maioria não lembra do que é Orixá e do que significa, nem do cemitério de escravos e nem do quilombo. Percebemos que eles se lembram das práticas do passado, que ainda fazem parte do presente, mas se esquecem daquelas que não existem objetivamente, apenas na memória.(CNPq)


A teoria de Jung como uma proposta metodológica de análise das metáforas urbanas e simbolismo social dos discursos de gênero na República Velha.
Clarisse Ismério

Profa. Dra.URCAMP
A pesquisa histórica através da corrente teórica da História Cultural tem proposto, nos últimos anos, trabalhar com uma abordagem aberta à utilização de novos objetos de estudo e uma metodologia que se submeta à reflexão de novas abordagens e novos problemas, abrindo um espaço para que as outras ciências humanas contribuam com suas teorias e metodologias, enriquecendo cada vez mais a análise do conhecimento histórico, e promovendo assim a integração das ciências. Para explorar a questão simbólica presente na mentalidade e no imaginário social que cercava a mulher no período da República Velha (1889-1930) no Rio Grande do Sul, buscamos subsídios na teoria de Carl Gustav Jung, que trata da formação de símbolos provenientes de processos instintivos universais herdados. Através dos estudos de Jung busca-se elucidar os arquétipos, símbolos e signos formadores da doutrina positivista, transpostos para o discurso da elite do PRR governante na República Velha, mostrando como foram manipulados através do imaginário popular. Selecionamos para análise na presente exposição dois títulos designados à mulher: o de rainha do lar e o de anjo tutelar. A formação do modelo de rainha do lar tem sua origem no arquétipo da Virgem Maria, uma mulher sem mácula que se dispôs a obedecer aos desígnios de Deus, sem nunca questioná-los. É o modelo da perfeição e do sacrifício feminino. Sua representação iconográfica tradicional era de uma jovem adolescente, por volta dos quinze anos, trazendo ao colo o Menino Jesus ainda bebê, representando o caráter da progenitura e do zelo. Essas características serviram como inspiração para a construção da figura da Religião da Humanidade, símbolo da Doutrina Positivista, baseada em Clotilde de Vaux, musa de Auguste Comte, outro símbolo da doutrina positivista. Pois, apesar de o Positivismo e a Igreja Católica se oporem frontalmente, nas questões referentes à moral, organização da família e modelo de conduta feminina, ambas as doutrinas tinham discursos semelhantes, porque Comte havia sido fortemente influenciado pela mentalidade cristã medieval. Portanto a Virgem Mãe Positivista foi representada por uma mulher madura para sua época, por volta dos seus trinta anos, mas que no conjunto da construção da imagem assemelha-se à Virgem Maria, tanto na representação de trazer a criança ao colo, como em seu significado: a mulher enquanto a guardiã da moral era responsável pela concepção e educação das futuras gerações. As duas idealizações femininas fundiam-se nos modelos perfeitos de rainha do lar e anjo tutelar, que deveriam ser seguidos por todas as mulheres, reunindo os deveres de esposa, mãe e educadora. A representação da guardiã da moral de símbolo para signo realizou-se através da estatuária tanto fachadista e monumental, como da funerária, as quais além de enfatizar o culto ao herói e os símbolos da República tinham fins educacionais e morais. Figuras femininas acompanhavam os grandes vultos políticos, e muitas vezes a sós figuravam em formas alegóricas, evidenciando o papel de guardiã. O mesmo vai ocorrer com o símbolo que vai influenciar a construção do modelo de anjo tutelar difundido pelo discurso positivista e católico na República Velha rio-grandense. O signo do anjo passa a ser definido como uma mulher, por ser ela a consoladora e orientadora de sua família. Tais anjos femininos são encontrados nos cemitérios da capital e de cidades do interior.Ao explorar as metáforas e os símbolos que cercavam a mulher no período da República Velha, no Rio Grande do Sul, através da teoria de Jung, constatamos que os discursos doutrinários moralistas atuaram como agente e reflexo da sociedade, impedindo a mulher de atuar no campo profissional, político e intelectual, para mantê-la restrita ao espaço privado como educadora e guardiã da moral.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A DINÂMICA PSÍQUICA ENVOLVIDA NA

RETÓRICA DAS IMAGENS
Celia Szniter Mentlik

Doutora FFLCH/USP
Seguindo uma tendência que pareceria observável desde o início do século XX, pelo menos, os povos ocidentais têm vivido em meio a uma acelerada profusão e vulgarização de imagens nos meios de comunicação de massa. O apelo à visão se intensificou mais ainda nas últimas décadas em função da expansão da produção industrial, dos mercados e do conseqüente aumento da disputa pela atenção do consumidor. Fotografias, cartazes e outdoors, o cinema e a televisão e, mais recentemente, também, grande parte do conteúdo do material virtual que circula nos computadores conectados em rede, ocupam o lugar da leitura de jornais e livros entre alguns segmentos, enquanto novas propostas educacionais envolvem, inclusive, a completa eliminação da pessoa física do educador em benefício da comunicação por imagens. A linguagem dirigida ao olhar atingiu tal grau de sofisticação e de eficiência, que o texto se tornou quase inteiramente obsoleto, como vemos ocorrer na publicidade. Tendo em vista essa realidade, de uma cultura dominada por imagens, buscamos nesse trabalho avaliar alguns aspectos da dinâmica psíquica envolvida na retórica das representações visuais, considerando suas relações com o contexto histórico-social no qual emergem. As imagens, enquanto artefatos culturais, sejam elas fixas ou móveis, nem sempre são experimentadas ou fruídas como construção de uma segunda pessoa com a qual estabelecemos um diálogo, não raro se estabelece um jogo no qual o receptor, assumindo o papel de um voyeur, as toma como sua própria apreensão de determinada situação, como o demonstra o olhar guiado, praticamente hipnotizado, da audiência a determinado tipo de narrativa ficcional no cinema e na televisão. Conteúdos de natureza visual apresentam o atributo de impressionar imediata e rapidamente os sentidos, e logo o aparelho psíquico como um todo, o que ocorre de forma relativamente fixa e durável, já que tendem a ser apropriados, retidos e evocados pela memória com muita facilidade. É possível distinguir nas imagens um discurso articulado, tanto quanto num texto escrito ou numa fala. Intrínseca à representação, sua retórica está presente em tudo que ali se encontra, desde a escolha de materiais e técnicas, ao objeto representado e à relação entre seus componentes; no claro, escuro e sombreado, nas cores, na forma, qualidades que “adjetivam” o objeto representado; no que foi “revelado” e no que foi omitido, nos lugares ou veículos de comunicação onde é divulgada. Esse discurso, entretanto, na maior parte das vezes desde a sua própria autoria, não é explícito, ele se dá implícita ou até subliminarmente, e a receptividade do público às suas mensagens tende a ter lugar de forma passiva e sem crítica. A representação visual simultaneamente apresenta, assim, a propriedade de “falar” muito diretamente aos afetos, aos aspectos emocionais de seu público, e a manipulação dessa qualidade caracteriza inúmeros artefatos visuais, fundamentalmente aqueles produzidos com a finalidade de veicular propaganda, seja de consumo, política ou ideológica. Assim, quando a imagem “escandaliza”, podemos estar quase certos de que seu(s) autor(es) desejaram provocar também essa reação, visando fins determinados. Observamos nas imagens produzidas, que se constituem em pelo menos parcela da realidade cultural, alguns aspectos relativos às elaborações oníricas. Aí também estariam presentes o que a psicanálise reconhece como conteúdo manifesto e conteúdo latente de diversas formações do inconsciente, e os mecanismos que Freud denominou de condensação e deslocamento, um dos fatores que talvez expliquem a “aderência” psíquica de algumas representações visuais. Enquanto a linguagem escrita é constituída de signos convencionais, dispostos em seqüência linear e destituídos de relações naturais, ou, motivadas, entre significante e significado, a iconicidade caracterizaria uma mensagem composta de signos icônicos, analógicos, e dispostos numa configuração global e contínua. Nesta o próprio formato ou disposição visual do significante já nos levaria ao significado, a exemplo do que ocorre com os sinais de trânsito. A mensagem icônica, por sua economia e rapidez de decodificação, apresentaria a vantagem de comunicar um máximo de informações ou significados com um mínimo de signos. Considerando que ideologias podem, igualmente, ser iconizadas, examinaremos alguns casos paradigmáticos, como a retórica visual da propaganda nazista, através de algumas representações do elemento judaico e do “ariano” encontradas em cartazes e no jornal Der Stürmer, um jornal dirigido às classes populares alemãs, fundado na cidade de Nuremberg em 1923 por Julius Streicher (1885-1946), veemente ideólogo do nazismo e do anti-semitismo.

19 - Alteridade


A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de agoras” (Walter Benjamin).



NÃO É CLUBE DE FUTEBOL!
Flora Moana Mascelani Van de Beuque

UFRJ
Nas últimas décadas, no Rio de Janeiro, cada vez mais, os espaços populares têm sua imagem associada ao tráfico de drogas e à violência. Nos meios de comunicação a favela é quase sempre apresentada como um lugar perigoso e sem lei. Há nisso grande parte de “ficção” que influencia o imaginário social e provoca, principalmente nas classes médias, uma sensação de grande medo e evitação em relação às favelas. De perto, a vida dos moradores das camadas populares é mais complexa do que essa visão unívoca. Convivem: momentos de simples cotidiano; alegrias que são quase que restritas aos espaços populares, como fortes laços de vizinhança, e também as mazelas do tráfico de drogas. As ações do narcotráfico que se dão na conjuntura de uma sociedade capitalista, extremamente desigual, realmente têm se apresentado como problema para as favelas. Até os anos 80, esse mercado era dominado pelo jogo do bicho, mas, no final dos anos 70, o tráfico de drogas, mais lucrativo, ganha espaço. Até a década de 80 o tráfico de drogas a varejo era de menor porte e mais voltado para a maconha sendo a transformação do mercado associada, além de outros fatores, a venda da cocaína em larga escala e a baixo custo. O Comando Vermelho é ainda a maior e mais poderosa facção de tráfico de drogas. Sua criação, nas prisões, marcaria o início da escalada da violência armada organizada. O processo de fragmentação interna e de disputas pelo poder que o Comando Vermelho sofreu no fim dos anos 80 deu origem à criação de outras facções. O que resultou, segundo ele, em mais disputas territoriais, maior militarização e, maior utilização de crianças e jovens nas funções do tráfico. Esse mercado de alta rotatividade, vê nas crianças uma boa oferta de mão-de-obra. As crianças têm facilidades legais, têm salários baixos e se entregam à atividade. Alguns trabalhos sobre crianças no tráfico como os de Luke Dowdney e Jailson Silva tentam responder, entre outras questões, sobre as razões que levam esses meninos a se envolverem nesse mercado ilícito. Silva aponta alguns caminhos para políticas a partir da pesquisa, como investimento em educação e lazer nas favelas. As práticas educacionais são quase sempre lembradas a partir de sua potencialidade transformadora da realidade social. Essa pesquisa tentou se aproximar da escola pública para ver o que ela tem feito desta posição em que foi colocada. Para alcançar esse objetivo realizaram-se entrevistas com professores e idas a campo na escola. Tentou-se responder algumas questões: como a escola tem podido contribuir para o debate dessa questão; como ela lida quando os temas do tráfico são postos em cena no ambiente escolar e, ainda, o que ela pode fazer diante a entrada de alguns alunos para o tráfico. No decorrer da pesquisa as entrevistadas contaram sobre alguns casos em que meninos da escola entravam para o tráfico. Nestes casos, a escola costuma chamar os responsáveis das crianças para uma conversa, mesmo que na maioria dos casos isso não impeça a permanência da criança ou jovem no tráfico. Uma professora de português nos fez um pequeno histórico da entrada de crianças e jovens para o tráfico. Ela começou a trabalhar na escola em 1977. Ela diz que naquela época era muito diferente: além das crianças serem mais disciplinadas, não havia crianças ligadas ao tráfico de drogas, o que ela localiza como um fenômeno que acontece da década de 90 para cá. Ela diz: “Tinha uns que você sabia, aquele dali escreve bicho e fuma maconha. Mas não tinha menino pegando em arma. Olha que eu morava em lugares assim...”. Alguns casos, de outra natureza, contados pelas professoras, também foram muito valorosos para a análise. Uma professora de artes fez referência a alunos que não gostavam de sentar no mesmo lado da sala, pois pertenciam a “morros rivais”. Ela disse que alguns alunos assumem a identidade das facções que “comandam” suas comunidades. Assumem rivalidades entre si, “eu sou do Fogueteiro, eu sou de outro Comando, eu não sento aqui, vocês são Alemães”. A professora contou que acha que por falta de pertencimento a algum lugar, eles assumem esta identidade do tráfico. Ela relata que diante destes casos diz: “Isso é código do tráfico, isso não faz parte do seu código, isso não é time de futebol”. Assim o tráfico, com seus nomes, suas disputas territoriais parece produzir um jogo lúdico eficaz. Esse caráter lúdico permite, no entanto, que essa filiação não seja total, que se possa recorrer a ela sem que se seja do tráfico. Assuntos relativos ao tráfico são postos em cena a todo o momento pelos alunos, mas pelas entrevistas percebeu-se que o assunto não parece ser escolhido como foco de trabalho dentro da escola. De um lado, parece que a escola se sente pequena diante do tráfico, mesmo que concretamente sejam poucos os meninos que se envolvem com a atividade; e também, parece temer o tráfico, como mostra a fala da professora de português: “como você vai ficar indo e vindo tocando nesse assunto?”. De outro lado, a escola parece não querer dar prestígio a um tema tão pouco nobre e tenta construir dentro da escola um espaço protegido, como disse a mesma professora de português, “um mundinho fechado”. A maioria das professoras apontou o maior diálogo entre escola e a comunidade como alternativa para a escola participar mais integralmente da vida de seus alunos. Com o findar da pesquisa, o quadro formado deixava clara a complexidade da situação. Parece não ter saídas fáceis. Mesmo assim, ficou claro que o tráfico de drogas é um assunto dentro da escola que todos sabem a respeito, mas que poucos falam dele abertamente. Embora seja evidente que a escola não tem condições de liderar um processo com vistas a reverter o quadro atual de entrada de crianças e jovens para o tráfico, um dos caminhos, ainda que seja delicado percorrê-lo, poderia ir na direção a aproveitar melhor o espaço escolar para se debater essa questão. (Fundação Ford)

OFICINAS DE CRIATIVIDADE COMO POSSIBILIDADE DE UM ABANDONO CONSENTIDO AO SISTEMÁTICO
Ângela Nobre de Andrade

UFES

Christina Menna Barreto Cupertino



UNIP
A explosão de pesquisas psicológicas sobre criatividade nas últimas quatro décadas não gerou uma definição geral do conceito, considerado como processo, padrão de personalidade, comportamento aprendido, entre outros. A maioria das posições converge, entretanto, para princípios de igualdade, em que a criatividade é universal e inata a todos, bastando um ambiente acolhedor (sem pré-julgamentos) e o esforço pessoal (vontade do sujeito em atualizar seu potencial) para que ocorra a criação. Tal definição é concebida tanto pelas psicologias defensoras das técnicas diretivas estimuladoras do desenvolvimento, quanto pela vertente humanista, essencialmente não diretiva. Esta visão mais democrática da criatividade retira-lhe o atributo de poucos gênios criadores, concebendo-a como característica humana universal. O paradoxo, ainda sem resolução, está em definir como avaliar se uma produção é ou não criativa, e a partir de quais critérios. Em outras palavras, o impasse está em conceituar objetivamente a própria criatividade. Os teóricos permanecem, entretanto, dispostos a domar tal paradoxo por meio da pretensão de explicitar, através de experimentação cada vez mais detalhada, conceitos que não se coadunam entre si. A idéia do esforço na criatividade alia-se à visão mais usual do processo criativo, segundo a qual esse se desenvolve ao longo do tempo, visando à resolução de um problema específico, passando por uma seqüência obrigatória de fases. No entanto, a presente proposta, voltada para a formação do psicólogo, descortinou outra configuração no decorrer da experiência com oficinas de criatividade; além de não haver um problema a priori solicitando resolução, a surpresa a respeito do que aconteceria em cada encontro era mais fundamental do que criar condições de acúmulo de conhecimentos que objetivassem melhores soluções. Contrariamente à formulação teórica, a riqueza estava justamente no estado de não solução, na vivência da suspensão que não permitia saber o que seria produzido. Essa possibilidade de gestação, de ser capaz de suportar, por longos períodos, a ausência de soluções, assume posição central nesse modo de trabalhar a Oficina, na medida em que essa ausência se apresenta como o espaço para a constituição de múltiplos sentidos, fundamental para o exercício profissional da Psicologia. Esta concepção acompanha as críticas, intensificadas nas últimas décadas, ao predomínio da racionalidade técnico-científica nas diversas áreas de conhecimento; críticas ao pensamento metafísico, que opera a duplicação da vida através da separação entre um mundo sensível (espaço do erro, ilusão, aparência e inconstância) e um mundo inteligível (espaço da objetividade, verdade e estabilidade), com supremacia deste sobre o primeiro. Tal deslocamento ótico, fruto de um desejo de explicar/justificar a vida, imprime uma inversão no modo de valorizar a existência: à experimentação, norteadora e suporte da avaliação ética, sobrepõem-se as abstrações arbitrárias que, baseando-se num sistema de julgamento externo, estabelecem uma valorização moral norteadora do existir humano. A imanente expansão da vida é negada/aprisionada por transcendentais de estabilidade, essências verdadeiras e modelos de julgamento. As conseqüências desta inversão estão na base do ‘sentir-se’ humano, coagido a um eterno sofrimento e/ou falta, uma vez que “existe” um modelo verdadeiro, sem contradições, naturalmente em equilíbrio/harmonia. As psicologias sustentadas pela metafísica instituem-se nessa dualidade, negando o universo sensível da experimentação e os estranhamentos geradores de sensibilidades inéditas, que são “explicados” como desequilíbrios; situam no indivíduo o foco do problema. Entretanto, como bem analisado por Foucault, é a experiência que nos leva ao imprevisto, ao des-locamento. Des-construção das configurações estáveis e cristalizadas para a produção conjunta de outros sentidos; invenção permanente de conhecimento que emerge no entre e extrapola o saber/fazer que cada um detém em sua singularidade e formação. Perante qualquer saber/produção, a pergunta é: qual sentido está sendo produzido? Avaliação da emergência de determinada prática/crença e em qual direção está remetendo a vida: para sua expansão/potência de agir (ética de afirmação da alteridade e do perspectivismo), ou para adaptação, conservação/constrição. Esse desmanche não se reduz ao conhecimento racional, mas implica um processo de ‘afetação’, que é da ordem da ação, da abertura para outras sensibilidades, e que advém dos múltiplos encontros. Uma ação ético/estético/política comprometida com a criação de outros modos de existência cotidiana. De onde emergem aquelas falas, posturas, angústias, crenças, olhares? Não estão situados dentro dos indivíduos, mas nos valores morais dominantes em determinado contexto, sustentando modos de pensar/sentir, ser afetado/afetar. O psicólogo jamais é neutro ou sem objetivos; tem por meta provocar aquela configuração cristalizada. Entretanto, não se trata de consertar o outro ou convencê-lo sobre, mas da produção de sentidos instituída por todos e ninguém jamais sabe o que será processualizado. Não se conta com a repetição, mas com aquilo que pode quebrar esta repetição para que algo seja criado. As Oficinas de Criatividade funcionam nesse propósito, tanto na formação do aluno como em sua atuação profissional, utilizando recursos expressivos como possibilidade de atualização do virtual. Não se trata de ensinar aos alunos técnicas novas; a proposta é de uma “anti-receita”, espaço para a experiência singular do fazer/sentir que, sendo única, implica em criação permanente; criação de si e, como conseqüência, do entorno ou de outros modos de existir/viver uma vida. Experimentação no campo intensivo, intensidades que deslocam o instituído (extensão/forma) na produção de outras configurações. Para que tal processo ocorra é necessário um acolhimento/afirmação a tais deslocamentos; uma postura afirmativa dessa expansão como imanente à vida, e não como algo a ser capturado pelo julgamento moral que des-potencializa e paralisa a ação. Estas experiências de livre expressão devem ser compartilhadas no grupo, momento/espaço em que vivenciam pessoal e coletivamente a inesgotável possibilidade anárquica e plural do fazer humano. Acontecimento vivenciado com angústia e incertezas que, entretanto, quando compartilhadas e sustentadas coletivamente, passam a ser com-sentidas e acolhidas em sua propriedade. Ou seja, as afetações inicialmente ameaçadoras na experiência da alteridade (estranhamento e deslocamento da suposta essencialidade do eu), passam a ser incorporadas como próprias e singulares, e vividas com a alegria e suavidade que advém do aumento da potência de agir. Esta experimentação própria do alunado é fundamental para que este possa sustentar esse lugar (múltiplo e nômade) em suas práticas profissionais, afirmando espaços de com-sentimentos em seus diversos encontros, pois que incorporado como um modo Ético de criar/experimentar uma vida.

JUVENTUDE TECNOLÓGICA: O PAPEL DAS NOVAS MÍDIAS NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO SOCIAL DA PESSOA ENTRE OS JOVENS
André Luiz Correia Lourenço

PPGAS/MN-UFRJ
Atualmente tem se discutido muito a capacidade de agência do jovem, se ele está em condições de julgar o que é melhor para si – o tema das drogas é uma preocupação constante quando tocamos no assunto. Pretendemos destacar aqui pontos de uma realidade cotidiana bem mais comum e menos dramática. Vemos em nossas pesquisas jovens que se relacionam consigo mesmos e com os outros através de máquinas que, pretensamente, dão lhes condições de exercer seu desejo de escolha e de manifestar suas preferências individuais. Essas possibilidades têm ganhado maior escopo nos últimos dez anos com os avanços da telefonia (celular), eletrônica (câmeras digitais), da informática (computadores mais velozes e com mais recursos multimídias) e da Internet (Internet banda larga e programas de comunicação instantânea) – o velho ideal oitocentista da vitória da máquina e da mesma como forma de libertação vende-se como sendo altamente positivo (mas devemos observar com cuidado). A civilização moderna tem propiciado, portanto, em um ritmo cada vez mais acelerado, gerações de produtos que oferecem novas possibilidades de mediação mecânica entre as pessoas. Em contraposição às possibilidades de comunicação tidas como tradicionais que marcaram a maior parte da história da humanidade, como as cartas, os últimos duzentos anos têm trazido novas possibilidades de comunicação praticamente instantâneas e cada vez mais acessíveis a um número crescente de pessoas. A percepção de si e da realidade também se transformou. Enquanto a produção editorial (até o a invenção da imprensa) sempre fora quase artesanal tornando o livro quase um obra de arte, progressivamente temos a possibilidade de reprodução praticamente infinita do mesmo bem com a sua distribuição de forma cada vez mais ampla. O maior acesso à leitura, embora continue a persistir uma grande maioria de excluídos desse mundo letrado, contribuiu para um maior conhecimento e reflexão sobre o eu – vide o sucesso da “Nouvelle Heloise” de Rousseau, como bem destacou Robert Darnton. A literatura, principalmente a romântica, teve um papel fundamental nessa reelaboração e construção dos sentimentos, mas não foi a única. No início do século XX, a tecnologia pôde desempenhar através do rádio (a encenação da “Guerra dos Mundos” por Orson Welles mostrou as possibilidades de impacto dessa mídia) e, posteriormente, através do cinema, este último principalmente com toda a “mitologia” e linguagem criada pelo mesmo, papel fundamental entre os meios de comunicação de massa do século XX. Mais do que a produção de novos campos para manifestações artísticas, tivemos também, o desenvolvimento de meios de comunicação que permitem a veiculação das mesmas (rádio e cinema), bem como de novas formas de estabelecer comunicação “instantânea” (não mais face-a-face), como o telégrafo e o telefone – esse se tornando elemento essencial para o aumento do contato entre as pessoas sem necessidade do contato físico direto. A partir do telefone, temos um de seus desdobramentos mais importantes: a Internet. Inicialmente pensada como recurso militar e depois como instrumento acadêmico, no final dos anos 80 ela começa a aparecer como meio possível de estabelecer uma comunicação global. No final dos anos 90 e início do terceiro milênio surgem, por exemplo, os weblogs e photologs, utilizados principalmente por jovens para divulgação de seu cotidiano e de tomada de posição a respeito da sua visão do mundo. Essa possibilidade de se atualizar continuamente blogs e flogs, e a velocidade dessas mediações fazem com que o contato com o outro seja tão rápido quanto fugidio: fotos podem ser tiradas tão rapidamente quanto podem ser apagadas sem nunca serem impressas; programas de televisão podem ser assistidos na televisão, gravados e disponibilizados pela Internet. Tal atitude sinaliza uma das transformações da assim chamada “pós-modernidade” na qual o tempo se dilui tornando-se cada vez mais curto e a transitoriedade parece reinar. Essa capacidade de mutação é uma presença constante no universo juvenil que incorporou essas novas possibilidades midiáticas e as implementou de acordo com seus interesses. Essa transitoriedade através da qual as pessoas podem expor o que quiserem a respeito de si e conhecer a imagem que os outros querem mostrar tem sido vista por muitos como um sinal da agência crescente dos jovens, capazes de criar, assimilar, utilizar, etc. novas formas de comunicação – prática comum entre outros grupos de marginalizados como minorias étnicas, autistas, homossexuais, etc. que utilizam a Internet, por exemplo, para se contatarem (temos assim a possibilidade de um discurso do “outro”?). Uma nova forma de interação social tem se dado através dos MMORPGs (Massive multiplayer online role-playing games, como Ragnarok Online) por meio dos quais, de forma lúdica, as pessoas podem interagir sem maiores compromissos ou riscos. Diferentemente dos chats, nos quais as pessoas simplesmente conversam, esses MMORPGs permitem às pessoas criar perfis com atributos morais, capacidades especiais, vidas dentro de um mundo virtual onde se pode ser arqueiro, gatuno, sacerdote, etc., entrando em contato com centenas de pessoas em poucos minutos de jogo. Essas novas possibilidades de interação completamente novas, ou pelo menos consideravelmente atualizadas (por envolverem a decisão do jovem na escolha da mídia bem como do material que será usufruído) coloca em questão a imagem de um jovem passivo, submetido à tirania dos meios de comunicação de massa que teriam sobre ele uma influência quase esmagadora. Temos, assim, uma discussão que remonta ao tema clássico, colocado por Ariès, da questão da infância. Esse jovem, que está abandonando o universo infantil, é capaz de julgar, de desenvolver um juízo consistente do uso que está fazendo desses meios de comunicação? O fato de utilizá-los é realmente uma forma de conseguir maior agência no que se refere à sua construção de si? Ou será isso tudo uma contrapartida perversa do surgimento de um mercado voltado para criar e atender “necessidades” incutidas nos jovens, dentro de um processo iniciado na segunda metade do século XX com o surgimento de uma (ainda) incipiente cultura juvenil (o rock como exemplo clássico)? Essas preocupações ganham ainda mais fôlego ao percebermos que os jovens, por estarem passando por transformações biológicas, psicológicas e sociais, parecem ser os mais aptos a utilizar esses novos recursos, posto que tão logo eles estejam disponíveis, eles são prontamente incorporados ao universo juvenil muito antes dos adultos terem total conhecimento da natureza dos mesmos, bem como das suas potencialidades. Tal fato é visível se verificarmos a faixa de idade média dos possuidores de blogs e/ou flogs bem como dos usuários do Orkut – pessoas com mais de trinta anos são uma minoria. Quais as possibilidades oferecidas por esses meios para que os jovens possam construir relações sociais que lhes permitam interagir com outros e que lhes possibilitem desenvolver a si mesmos como pessoas plenas e autônomas? Essa pergunta é mais uma questão a ser discutida, e somente uma análise que conjugue um material etnográfico com um aporte psicológico levando em conta as transformações sofridas pelos meios de comunicação de massa nos últimos tempos poderá ser capaz de nos dar maiores esclarecimentos. Logo, somente os recursos conjugados da antropologia, da psicologia e da história podem nos ajudar a perceber em que medida os jovens de hoje têm maior agência individual para selecionar elementos para se autodefinirem do que anteriormente e quais as implicações dessa nova forma de construção da subjetividade interior e da identidade social.

DO DÉFICIT À DIFERENÇA: MODOS DE PESQUISAR O CONHECER ENTRE DEFICIENTES VISUAIS
Marcia Moraes

Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense

Doutora em Psicologia Clínica pela PUC/SP

Aline Alves de Lima

Ana Gabriela Rebelo dos Santos

Carolina Cardoso Manso



Luciana de Oliveira Pires Franco

Alunas de graduação do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense
Este trabalho tem como objetivo investigar os efeitos das distinções entre as noções de normal e patológico propostas pelo filósofo Georges Canguilhem. O modo como este autor reflete sobre tais noções nos leva a problematizar as formas de intervenção do psicólogo com o grupo de crianças e jovens cegos e com baixa visão. Teoricamente, entendemos a cegueira longe das noções de déficit ou falta que tradicionalmente permeiam reflexões sobre este tema. Historicamente, destacamos dois pontos relevantes acerca das pesquisas psicológicas sobre o perceber sem ver: de um lado, as pesquisas sobre percepção são prioritariamente sobre percepção visual, e de outro lado, as pesquisas acerca da cegueira têm sido orientadas por um referencial de tipo experimental, cujo delineamento baseia-se na comparação entre cegos e videntes. Em ambos predomina um enfoque visuocêntrico acerca da cegueira. Isto é, a cegueira é investigada em relação aos referenciais videntes acerca do conhecer e do perceber. Dito de outro modo, a cegueira é classificada como o diferente em relação ao conhecer e ao perceber do vidente; diferente porque se distancia do padrão, da norma estabelecida de antemão. Há, portanto, neste tipo de análise o predomínio de um paradigma visuocêntrico segundo o qual a cegueira é sempre definida como déficit ou falha por relação à percepção visual. Diferentemente desta perspectiva, em nossa pesquisa retomamos o trabalho de Georges Canguilhem com a finalidade de problematizar a noção de déficit e afirmar a positividade da diferença. Neste sentido, importa compreender o modo como o deficiente visual conhece o mundo, considerando-o em sua singularidade e não por suas comparações com o vidente. Nosso desafio teórico-metodológico é o de buscar referências imanentes para investigar o que é o conhecer sem o ver. É nesta medida que destacamos a atualidade do pensamento de Canguilhem, que já nos anos 60 do século XX, afirmava a vida como a capacidade de diferir. Assim, a anomalia só pode ser reconhecida como algo que está fora da ordem do normal quando é sentida pela consciência como um obstáculo às funções do organismo. Quando o indivíduo experimenta a “anomalia” como outra maneira de funcionar, não se pode considerá-la como patológica. Logo, só é considerado patológico aquilo que impede a vida de diferir. Pretendemos, então entender as formas de conhecer do cego, não a partir de referenciais que lhe sejam exteriores e sim a partir de referenciais que lhe sejam próprios e singulares. Por este viés, temos desenvolvido um trabalho de intervenção com um grupo de 16 jovens deficientes visuais, com idades entre 9 e 16 anos, todos alunos regularmente matriculados no Instituto Benjamin Constant, um centro de referência sobre deficiência visual, situado no Rio de Janeiro. Os jovens matriculados na oficina de teatro participam regularmente de uma Oficina de Corpo e Percepção coordenada pelas pesquisadoras. O objetivo da Oficina de Corpo e Percepção é criar dispositivos sensoriais e corporais que levem os jovens a elaborar os personagens que irão representar na peça de teatro que estão ensaiando na Oficina de Teatro. O trabalho de pesquisa parte, portanto, dos impasses que os jovens deficientes visuais encontram na elaboração de seus personagens no teatro. Ressaltamos que o grupo de jovens que participa da pesquisa é marcado pela heterogeneidade no que diz respeito às condições visuais de cada um, isto é, há pessoas com diferentes resíduos visuais, desde aqueles que são apenas capazes de distinguir sombra e luz até aqueles que têm um resíduo visual suficiente para permitir a percepção de obstáculos, ou de letras impressas com fontes aumentadas. Além disso, a encenação da peça ao final de cada ano letivo deve levar em conta uma platéia formada por cegos e por videntes, também eles com condições visuais bastante diversas. Desse modo, uma vez que em nossas intervenções levamos em conta os referenciais cognitivos dos membros do grupo, temos que pensa-las como intervenções que se fazem no “entre” o ver e o não ver. Este é o desafio ético deste trabalho de pesquisa. Até que ponto podemos intervir num grupo com tais características partindo da noção de diferença como positividade? Quais os limites e alcances deste modo de intervir? Como tratar metodologicamente de uma pesquisa que tem como objetivo encontrar unidades de medida imanentes ao grupo pesquisado? Tais questões têm nos levado a buscar a atualidade do pensamento de Canguilhem, tanto no que diz respeito às práticas psicológicas voltadas para pessoas cegas e com baixa visão, quanto no tocante às contemporâneas discussões acerca da inclusão, nas quais muitas vezes parece predominar uma proposta de incluir o diferente, em lugar de afirmar a diferença.(Pibic/CNPq; Pibic/FAPERJ; Pro-reitoria de extensão / UFF).

20 - Educação


O historiador do presente é necessariamente mais atento ao fato e sua experiência pode ser útil a todos os historiadores, aos quais ele lembra o peso da contingência na história” (René Remond).






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