Universidade do estado do rio de janeiro


ENTRE A AUTONOMIA E O CONTROLE: O INDIVÍDUO COMO CONDIÇÃO DE POSSIBILIDADE DOS SABERES PSICOLÓGICOS



Baixar 1.01 Mb.
Página21/23
Encontro11.06.2018
Tamanho1.01 Mb.
1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   23

ENTRE A AUTONOMIA E O CONTROLE: O INDIVÍDUO COMO CONDIÇÃO DE POSSIBILIDADE DOS SABERES PSICOLÓGICOS.
Arthur Arruda Leal Ferreira

Professor adjunto do Instituto de Psicologia da UFRJ

André Schimidt da Silva

Felipe Alves Fonseca

Filipe Herkenhoff Carijó

Karina Padilha

Maria Clara de Almeida

Mariama Augusto Furtado

Míriam Starosky

Nira Kaufman

Estudante de graduação do Instituto de Psicologia e estagiário do projeto: “A diferença que nos une: um estudo sobre as condições de surgimento da psicologia em sua dispersão”
Ao contrário do que alguns imaginam, a noção de indivíduo não existe desde sempre, isto é, não se trata de algo universal e dado desde que o homem se reconhece como tal. A noção de indivíduo como um valor social, como uma categoria existencial é algo historicamente constituído.O que queremos mostrar neste estudo é quais foram as condições históricas que possibilitaram o surgimento do indivíduo e sua tomada como valor mais precioso na sociedade moderna; e como a invenção do indivíduo ocupa um lugar relevante na história do surgimento da psicologia. A psicologia surge, a partir do século XIX, não como fruto de uma única origem, mas como resultado de diversas mudanças no campo das práticas sociais – dentre as quais o surgimento do indivíduo. Para este estudo, partimos da revisão bibliográfica de fontes primárias - historiadores clássicos como Edwin Boring – e fontes secundárias – a partir da leitura de autores tais como Luis Dummont, Luiz Cláudio Figueiredo, Jean Pierre Vernant, Norbert Elias e, principalmente, Michel Foucault e Nikolas Rose. Durante a antiguidade e boa parte da idade média, eram raras as experiências de individualização no campo social, pois na organização hierárquica da sociedade havia pouco espaço para mobilidade. Segundo Elias, até o século XIII não existia nem a palavra indivíduo. Para Dumont, o surgimento dos Estados-Nação foi a força motriz para o aparecimento das primeiras experiências de individualização generalizadas no campo social e político. Sendo assim, temos no início da modernidade (século XVI) a constituição de indivíduos autônomos, singulares, iguais juridicamente e dotados de foro íntimo. Surge o indivíduo soberano regulado pela lei. O indivíduo, neste momento, é fonte e não alvo do poder. Isto quer dizer que o Estado ainda não se preocupa com a vida e o bem-estar dos cidadãos.O Estado pode, portanto, tirar a vida destes ou ainda submetê-los aos suplícios em nome do suposto pacto de todos em torno da lei.Com o aumento da população, o inchaço das cidades, a invenção de novas técnicas, e as novas relações de produção baseadas no trabalho contratual, surge a demanda por uma nova tecnologia de poder, que não mais se basearia na lei, mas sim na vigilância constante dos indivíduos. Temos o que Foucault chama de Poder Disciplinar, que se define num conjunto de saberes e práticas que singularizam os indivíduos, através do exame e em torno de uma norma. Surge, portanto, para além do indivíduo autônomo, um indivíduo que é determinado, objeto de saberes e intervenções políticas. O Estado, neste momento, passa a ter interesse pela vida dos cidadãos, e a preocupação com a gestão desta vai constituir os saberes médicos e psicológicos. Esta experiência de individualização marcaria não apenas a psicologia funcional, evolutiva, comparativa e diferencial, que seria gestada nos países de língua inglesa a partir do fim do século XIX, mas toda a prática psicológica, oscilando entre a busca de autonomia e controle dos seus sujeitos. Assim se estabelece uma das tensões que dispersam os saberes psicológicos: alguns sistemas psicológicos irão valorizar a autonomia do indivíduo (como os construtivistas, gestaltistas, humanistas); enquanto outros partirão da disciplina para a constituição do indivíduo autônomo – como faz o behaviorismo. Algumas psicologias, pois mesmo que privilegiem a autonomia do ser humano, remetem-no a uma norma; outras, ainda que tentem disciplinar os sujeitos, fazem-no de modo a favorecer o seu autocontrole autônomo. Sem essa dicotomia moderna entre indivíduo autônomo x controlado, talvez nem houvesse psicologia; pois uma vez que o indivíduo fosse pensado unicamente como autônomo, não poderíamos tomá-lo como objeto de estudo. Ao passo que se houvesse apenas determinações, cairíamos no fatalismo e não seria necessária nenhuma intervenção psicológica. É nesse sentido que Nikolas Rose supõe que a psicologia só é possível em sociedades liberais e democráticas. Não que não tenha sido utilizada em governos autoritários, mas não “vingou” da mesma forma. Só é possível em sociedade liberais porque são estas que articulam o direito da liberdade, uma liberdade quase que fundamental, com um quase que imperceptível controle. Isto é, a liberdade articulada ao controle das normas, a liberdade articulada a certos modos de exercer poder sobre os outros. As formas de liberdade que nós vivemos hoje estão intimamente ligadas a um regime de subjetivação no qual os sujeitos não são meramente “livres para escolher’, mas são obrigados a serem livres, ainda que sejam controlados pela norma, pelas responsabilidades e pelas regras de ajustamento”.

MEMÓRIA E ALTERIDADE: O PROBLEMA DAS FALSAS LEMBRANÇAS
André do Eirado Silva

Eduardo Henrique Passos



Professores - UFF

Christian Sade Vasconcelos



Doutorando – UFRJ

Luiza Vardiero Correa

Júlia Florêncio Carvalho

Fernanda Rodrigues da Guia

Letícia Maria Renault de Barros

Carlos Vinícius Assumpção Fernandes



Fernanda Ratto de Lima

Graduandos – UFF
O campo da psicologia enquanto atividade de conhecimento parece não incluir a questão da alteridade, pois, supostamente, quando conhecemos (“cientificamente”) não conhecemos um outrem, mas sim um objeto. Entretanto, na história da psicologia teórica e experimental podemos destacar um problema (sintoma), o qual portaria em si a problemática da alteridade, e que nos serviria para reler a história da relação pesquisador e participante, a saber: o problema das falsas lembranças. Quando, no início dos anos oitenta, Elisabeth Loftus se debruça sobre os fenômenos de “falha” ou de “erro” da memória, ela já não o faz da mesma maneira que seus predecessores. Ao inventar a expressão “false memory”, Loftus traz à tona todo um questionamento sobre a relação entre acerto e erro, verdade e falsidade de um lado e verdade e perjúrio de um outro. O falso passa a ter pelo menos três sentidos: 1) erro, 2) perjúrio, 3) uma experiência subjetiva do lembrar que está em desacordo com o acordo intersubjetivo (ciência ou sociedade) e que afeta diretamente uma função social muito importante: o tribunal/julgamento. A questão das falsas lembranças questiona a objetividade da memória, mas não a objetividade do passado; a memória é ainda tomada como ato de promessa: o futuro prometido pelo passado. O que destacamos é como essa questão serve para repensar a relação pesquisador e participante. A psicologia experimental ao julgar como “erro” a resposta de seus participantes, concebe a falsa lembrança como uma falha objetiva do sistema de memória e estabelece uma relação sujeito-objeto característica da ciência natural, a qual não envolve a alteridade. Por sua vez, no tribunal torna-se importante poder distinguir, num depoimento acerca do passado, o “perjúrio” de uma “falsa lembrança” (erro da memória). Nessa cena em que a experiência cognitiva está sendo julgada reconfigura-se o setting da psicologia experimental de tal maneira que a relação sujeito-objeto cederia lugar a uma relação sujeito-sujeito (intersubjetiva), na qual o problema do conhecimento se torna inseparável de um problema ético. No entanto, a operação de juízo que modula a avaliação do acerto ou erro da atividade cognitiva para a sua verdade ou falsidade não descaracteriza essa operação de afastamento típica da relação sujeito-objeto. O sujeito da experiência cognitiva é nessa cena do tribunal tornado um objeto sobre o qual se realiza um procedimento judicativo, por definição uma abordagem de terceira pessoa. Porém, se entendermos, seja a fala do depoente, seja a resposta do sujeito experimental, como uma experiência subjetiva do lembrar, as duas esferas (do tribunal e da psicologia experimental) se interpenetram e mostram sua interdependência. Dessa forma, podemos ver que o tribunal está na ciência assim como a ciência está no tribunal, ou seja, a ciência é modelo de verdade para o tribunal assim como o tribunal é modelo de avaliação para a ciência; ambos colocam em cena um operador – o júri, o juiz, que julga o caráter de acerto ou erro, verdade ou falsidade dos comportamentos. Tal operador se faz como um ponto de vista desencarnado que “coisifica” o mundo da experiência, estabelecendo uma relação sujeito/objeto ao invés de uma relação com o outrem (com a alteridade). Na história da psicologia experimental esse ponto de vista (tribunal) sempre se estabeleceu como uma razão a posteriori. Tal modelo de conhecimento é marcante no behaviorismo. Neste, o experimentador apresenta-se como um ponto de vista desencarnado, em sobrevôo sobre o setting experimental. O behaviorismo destitui a consciência natural do lugar de objeto da psicologia assim como a destitui do lugar de quem opera a observação no experimento científico, de modo a instaurar a perspectiva científica, a consciência racional que opera de cima para baixo. Deste modo, afirma-se que para conhecer é preciso anular a experiência; não há observador encarnado. O rato não tem um ponto de vista que oriente o seu comportamento na caixa, ele não passa de um emissor de ações motoras às cegas; o experimentador, por sua vez, apenas registra a freqüência de respostas (atividade esta que pode ser dispensável, como se nota nas caixas informatizadas em que o registro das respostas é automático). A consciência racional vem a posteriori para sobrecodificar o registro, de acordo com a hipótese teórica do ambiente modelador (fundamento do comportamento). Olhar de terceira pessoa – comunidade científica julgando. A própria necessidade de replicação do experimento aponta para um coletivo desencarnado. Já na Psicologia da Gestalt essa operação judicativa não é tão bem camuflada (ou não é tão radical) como no behaviorismo, pois a consciência racional (científica) é encarnada. No experimento de Kohler com o macaco Sultão, este é um sujeito que se desloca em um meio comportamental. O experimentador, por sua vez, é um ponto de vista encarnado de terceira pessoa, pois o observador científico olha, supostamente, do mesmo plano de perspectiva que o macaco. Esse suposto compartilhamento de perspectiva autoriza julgar os diferentes comportamentos do animal, colocando-os em uma série progressiva em direção à solução de um problema pretensamente colocado para o animal. É por isso que se fala em “boas faltas”, isto é, uma hierarquia das diferentes paisagens na direção da solução do problema que Kohler supõe que o macaco persegue. De fato, o experimento gestaltista está só supostamente assentado no plano horizontal de uma observação face a face, pois se é possível identificar sinais de inteligência “científica” no comportamento do macaco, não se pode dizer o mesmo do experimentador, que se mantém longe de qualquer “macaquice”. Na Gestalt, o conhecimento é operado por essa (suposta) horizontalização, assegurada pelo isomorfismo. Desta forma, a operação judicativa é encoberta, pois não é Kohler que julga os comportamentos de Sultão, sua observação apenas expressa o isomorfismo da lei da boa forma.(FAPERJ; CNPq)

O VÔO DO CAVALO: REALIDADE, FICÇÃO, MENTIRA
Antônio Carlos Cerezzo

Programa de Pós-Graduação/IPUSP


Em um curso sobre História e Pós-Modernismo, Margareth Rago se refere à distinção feita por Veyne entre o escritor e o historiador: àquele seria permitido dizer que o cavalo voa. O verdadeiro, aqui, aparenta dar o tom daquilo que pode ser tomado como história. Não seria difícil, contudo, fazer essa diferença deslizar para o campo da verossimilhança e da credulidade: o fato relatado guardaria em si algo que o tornaria aceitável para a história. Além do rigor no relato e na comprovação, seria necessário, parafraseando Canguilhem, que o fato estivesse na história. Portanto, fora do campo da especulação ou da ficção. De modo a enfatizar esta última no procedimento historiográfico, parte-se da imagem cavalo que voa como limite: nela conjugam-se duas idéias plausíveis, aceitáveis – “existem cavalos” e “pode-se voar” –, ao mesmo tempo em que traz o questionamento da possibilidade dessa conjugação: afinal, “cavalos não voam”. De qualquer forma, pensar aquela imagem, sobre ela falar, ouvir e ler traz, constrói a realidade ”cavalo que voa”: as coisas passam a ser o que delas se fala. A ficção seria, segundo Foucault, “a trama das relações estabelecidas, através do discurso, entre aquele que fala e o que é falado”, diferindo-se da fábula, da ordem do que se conta, sendo aquela da ordem da narrativa, portanto, algo que se constrói na medida em que a ela é dada uma aparência de realidade. A ficção não dispensa a realidade, e, por tabela, aquilo que se pode tomar como verdadeiro. E mesmo a pressupõe na qualidade de algo com o qual deve parecer. Na ficção, portanto, há algo que a faz funcionar como que do lugar da realidade. Assim se dão Incitatus, cavalo preferido de Calígula, e sua égua Penélope; Bucéfalo, objeto da devoção de Alexandre, o Grande; e Pégasus, filho de Posêidon e nascido do pescoço de sua mãe, Medusa. Bem aceitos por via da escrita, enebriantes pelo estilo onírico das façanhas ali dispostas, instigantes, enfim, pela pertinência à mitologia, os relatos sobre esses cavalos guardam algo de estranheza, cuja impressão, uma vez localizada, levará à conceituação. Aquela estranheza e essa conceituação apontam a passagem ao verossímil, que desvanece em ordinário o que até então se tomava como acidental, portanto, imponderável. Imponderabilidade que perdura até o instante em que passa a ser possível um dado modo de ver, em que se torna possível uma “análise sobre o imediato confuso”, ou seja, em que novos referenciais são possíveis ao pensamento. Contrariamente à ciência, que explica, presa ao campo do necessário, e próxima à filosofia, que explicita, a história soma àquele campo o do ordinário e o do acidental e daí permite um conceito: “o cavalo voa”. Essa formulação de conceito seria, então, o estabelecimento de um dado conjunto de regras com o qual se apreenderia a realidade. Portanto, uma ficção em que se acredita: ela invade o mundo. Não que o mundo se torne, desde então, ficcional, e sim que ela, ficção, torna-se mundana. A história desse mundo é a história de suas ficções, e ser um ficcionista é fazer história. Para ilustrar esse entendimento, três breves relatos: a repercussão da passagem de Foucault por Belo Horizonte, na década de 70; a presença da aids na história de Foucault, através do personagem Muzil, do livro “Para o amigo que não me salvou a vida”, de Hervé Guibert; e, por fim, a situação que originou o livro “A História Verdadeira”, de Michael Finkel, demitido do New York Times após escrever uma matéria sobre Youssouf Malé. De um lado, a notícia; de outro, uma “obra de arte”. Por fim, uma mentira. Se na “obra de arte” é necessário ser por ela penetrado para que se a leia, e daí se ver o que até então não fora possível, em relação à notícia somos nós os penetrados, sem o saber: quão inadvertidamente sobre ela paramos os olhos, tanto mais, talvez, estejamos por ela sendo atingidos. De modo sutil, a escolha do que tornar notícia reveste o acontecimento – a atitude intolerável – de fato, no qual o estranhamento é apaziguado e se torna atração – a difamação. Em Finkel, o efeito da fricção entre o fato (aqui, a ficção que se contou) e a realidade foi uma mentira – na medida em que assim foi reconhecida –, ainda que resultasse de histórias verdadeiras. Não se trata de ser desobediente em relação ao que houve, não se trata de disfarce, não se trata de mentir – Sim, Foucault deixou a recepção que lhe fora oferecida em Belo Horizonte! Sim, Muzil é Foucault! Sim, Youssouf Malé jamais existiu! –, mas de selecionar os elementos que hão de compor a narrativa que então se fará, e das motivações que regraram os deslizes entre a realidade e a até então mera ficção. Se aqui a ficção escapa ao constatável; se ela não se perfaz como imaginação; e se, enfim, ela foge do registro do denunciável, impossível deixar de vê-la como algo perigoso; não aquele perigo ligado ao engodo, ao escamoteamento, à mentira, que forçam uma realidade, mas, ao contrário, àquele advindo da possibilidade de multiplicar os sentidos, ao perigo da forja. Foucault, Muzil e Finkel foram, a seus modos, protagonistas de ficções históricas, onde a realidade, longe de ser descartada, se fez presente de modo que fosse “possível efetuar não apenas uma constatação de verdade, mas também uma experiência que autoriza uma alteração, uma transformação da relação que temos com nós mesmos e com o mundo onde nos reconhecemos sem problemas (em uma palavra, com nosso saber)”. O essencial está na ficção que se permite ter; na fabricação que se outorga; na conceituação, enfim, que se dará nos novos regimes de pensamento. No modo como, sem mais, nos faremos parecer alterados. (CAPES)


REFLEXÕES SOBRE MÚSICA E PSICOLOGIA A PARTIR DE NIETZSCHE
Beatriz de Souza Bessa

Mestranda em Memória Social – UNIRIO
As idéias do filósofo Gilles Deleuze e, especificamente, sua reflexão sobre subjetividade remonta a um livro de Friederich Nietzche, O Nascimento da Tragédia. Nessa obra, ele vai refletir sobre o nascimento da tragédia ática na Grécia Arcaica, analisando a duplicidade de afetos existentes no mundo helênico e as expressões artísticas derivadas de dois impulsos estéticos: o apolíneo e o dionisíaco. Enquanto Dionísio, “Deus do caos, da desmesura, da fecundidade da terra e da noite criadora do som”, retrata as forças caóticas, a embriaguez, as paixões e a fragmentação do eu, Apolo é a medida, o belo, a temperança, a luminosidade, a forma, a ordem, a individuação. O filósofo alemão crê que o mundo olímpico de deuses homéricos foi construído pelos helenos contra a dor e o sofrimento a que estavam expostos. O uno originário, o uno primordial – o princípio criador - representado pela violência dionisíaca, é a verdadeira essência, sendo a beleza apolínea pura aparência. A essência da natureza não é a ordem, mas a destruição, a desmesura - o devir. Assim, o belo nasce da disformidade, e as coisas que nos rodeiam são obras de arte desse movimento tempestuoso de criação do mundo. O que resta no mundo que não se reveste de forma? O som. O som tem uma natureza pré-figurativa, e é, portanto em Nietzsche, a expressão mais clara do uno primordial – a gênese criativa da vida. A natureza verdadeira do som desconhecemos, pois o discurso não é capaz de captá-lo, nem de compreendê-lo, pois ele não é o visível, mas o extremo oposto: o invisível, o caótico. Nessa perspectiva, o som é aquilo que aniquila o eu e adoece a individualidade, abrindo ramificações para o mundo. Ao publicar suas idéias em 1872, Friederich Nietzche foi duramente criticado, conforme explora livro de Roberto Machado. Percebe-se, no entanto, que a música aparece em Nietzsche como metáfora do conceito de uma existência para além do ser e da metafísica: ele considerou as qualidades melódicas e harmônicas como dispositivos de uma concepção de homem que ultrapassava as estruturas psicológicas e as formas corpóreas. O som, em Nietzsche é a semente a partir de onde Deleuze construirá o conceito de singularidade – retrato de uma existência que abarca uma subjetividade extra-psicológica. A unidade e o contorno do humano são quebrados nos escritos deleuzianos, assim como o foram nas palavras de Nietzsche. Entretanto, em pleno século XXI, tempo de transdisciplinariedade e elogio das diferenças o discurso do filósofo francês se torna, ao menos, um discurso reconhecido pela academia. Com Nietzsche, contudo, não foi assim. A relação de si mesmo com a alteridade que lhe é exterior, abrindo caminhos para a abertura da individualidade e conquistando a singularidade através do caótico, é uma premissa teórica que ainda precisa ser analisada na área musical. No campo educacional, na utilização de música com as crianças, ainda predominam as funções apolíneas, como gestos, danças e ênfase no ritmo. Usualmente, prevalece na Musicoterapia a dimensão holística do homem, procurando tratar as suas mazelas através da integração do eu – e não da sua fragmentação conforme proposta de Nietzsche e Deleuze. No entanto, no tempo transcorrido entre os dois autores tem-se um grande avanço. A Psicologia hoje se abre muito mais a intervenções dessa qualidade, mas muita coisa ainda precisa ser conquistada. A dimensão subjetiva, caótica e transfigurada, para ser implementada em uma prática profissional que una música e psicologia com crianças, é uma idéia que ainda precisa ser lapidada. O conceito de desenvolvimento infantil ainda é muito aprisionado pelas convicções cognitivas e comportamentais. Mas há uma trajetória já percorrida que sinaliza breves transformações teóricas nesse campo de estudo.

ESTRATÉGIAS DE CONSTRUÇÃO DE SI, DE INCLUSÃO-EXCLUSÃO, ENTRE JOVENS “ATÍPICOS”
Carlos Alberto Bizarro Rodrigues.

Universidade Estácio de Sá
Quando o homem foi retirado do centro do antropocentrismo aristotélico-cristão através dos eventos que precederam e da própria revolução científica moderna, este também foi destituído de sua dimensão ontológica, passando a ser o lugar daquele que tudo pode, mas nada é - o lugar do não-ser, um lugar ocupado pelo não. Tal negatividade desestabilizou todo Cosmo e abriu a possibilidade para o Universo. Assim surge um homem que é pura negatividade e possibilidade de escolha, que nasce sem natureza certa e habita um mundo infinitamente aberto ao seu engenho e arte, e que, agora, deve se preocupar com sua liberdade e destinação, deve depender sempre mais de sua consciência do que “do juízo dos outros”, mas deve também ser capaz de estabelecer contato com os outros para construir sua identidade. O espaço de liberdade resultante deste processo será o espaço das virtudes que agora consistem no bom uso desta liberdade, um espaço para uma aventura sem destino certo e também um espaço insólito da ignorância. Além disto, a ambigüidade da natureza humana implicou o desenraizamento humano do mundo das coisas e seres naturalmente determinados e a subjugação do homem ao império dos seus próprios desejos. Assim, agora cabe ao homem instituir suas próprias leis dentro deste imenso espaço de liberdade e se colocar sob o jugo que lhe pareça apropriado. Desta forma, muitos sistemas filosóficos, saberes científicos e outras formas de saberes mobilizaram-se, seja para descobrir no homem uma natureza e uma identidade, seja para lhe impor uma e outra. Neste período, o florescimento barroco corrobora tal zeitgeist, revelando a angústia humana presente nesta dualidade, na perda de um lugar na ordem natural das coisas e um apelo exacerbado pelos sentidos e sentimentos. Ainda nesta liberdade resultante, o espaço das virtudes foi reduzido e confinado às esferas cada vez mais íntimas da privacidade, que passaram a ganhar uma densidade e uma profundidade novas, originando experiências radicalmente subjetivas e individuais e promovendo o surgimento de um espaço psicológico. Ao mesmo tempo, a revolução científica moderna trouxe um acumulado de saberes científicos que explicavam, através de uma complexidade crescente, a vida e o Universo, assim como promoviam um distanciamento progressivo de outras formas de produção de conhecimento. Tal paradigma racionalizante, de certa forma, excluía uma diversidade de possibilidades de pensar, sentir e de construir uma subjetividade. Neste contexto, o movimento romântico, nos séculos XVIII e XIX, caracterizou-se por uma visão contrária ao racionalismo vigente, valorizando a intuição e a imaginação em detrimento à razão, exaltando a subjetividade, o individualismo e os sentimentos. Podemos observar um paralelismo a este descontentamento romântico ainda no século XX, nos movimentos de contracultura, como os beatniks nos anos 50 e a insatisfação de uma geração com os valores vigentes através da adoção de valores alternativos, principalmente derivados de saberes relacionados ao Oriente, aplicados na produção de conteúdos subjetivos. Tal atitude foi grandemente influenciada pelo transcedentalismo norteamericano do século XIX e a teosofia, o que gerou, no nível do dimensiomento do espaço das virtudes à esfera individual, a busca de uma espiritualidade particular - como construção de um sentido - e o surgimento da Nova Era. No Brasil, tais transformações ocorreram nos anos 60, mas é a partir dos anos 70, com o fechamento dos canais de participação e a repressão dos movimentos populares, que se criam condições para o surgimento de aspectos mais individualizados e espirituais, característicos da Nova Era e que se constitui, também aqui, num poderoso difusor de saberes relacionados a culturas orientais. Este movimento se diversifica, ganha proporções de mercado com demandas de inúmeros itens de consumo identificados com os diferentes sistemas que o integram e dão subsídios para o surgimento de outros movimentos que podem ter, em seu núcleo, a busca pela construção de uma identidade, um ajustamento, ou mesmo por uma espiritualidade. Na esteira destes movimentos surgidos pela difusão de saberes alternativos e a partir da visita a um evento que reunia aficionados pela cultura pop nipônica, analisamos as possibilidades e implicações psicológicas presentes nas relações entre jovens "atípicos" freqüentadores deste movimento e os seus pares, e tentamos evidenciar o processo de transformação parcial de uma realidade específica e a constituição de um espaço próprio, seguro para a construção da subjetividade, no qual pudemos perceber que, no processo de construção de si, tais jovens desenvolveram estratégias de autoafirmação, criando um mundo próprio, um mundo de dentro em oposição a um mundo de fora, que corresponderia à grande sociedade, do universo da popularidade. A definição dessas duas dimensões por esses jovens “atípicos” redefine a oposição inserido-excluído e promove uma inversão de posições, onde o excluído da "grande sociedade" juvenil passa a ser o inserido nesse universo de aficionados. Observamos o desenvolvimento de estratégias para a construção de um domínio na periferia do mundo juvenil par excellence, através de formas corporais, atitudes e conhecimentos particulares. Observamos ainda, que este espaço possui a capacidade de absorver novos membros, não sendo totalmente fechado e que, através de um processo de experimentação dos produtos culturais ali encontrados, há a possibilidade de se conhecer e de se inserir nesse mundo porque esse espaço de experimentação transforma todo este mundo de dentro num certo ambiente uterino, tornando-se um local para o desenvolvimento e o nascimento do adolescente para o mundo de fora. Assim, percebemos que o mundo de dentro é visto por estes adolescentes como um mundo provisório, um local para que o adolescente, um sujeito que se encontra num período de transição das práticas de si, onde os modos de interação com o mundo são progressivamente atualizados, possa transformar seus jogos e brincadeiras, acrescentando dimensões mais verossímeis, em consonância ao desenvolvimento de modos de subjetivação mais complexos e de acordo com a complexidade da realidade objetiva, levando ainda a uma “contaminação” progressiva da imaginação destes adolescentes com conteúdos do dia-a-dia e que podem, de alguma forma, contribuir para o seu processo de construção de identidade.

18 - Outras histórias II


É impossível (...) analisar o discurso histórico independente da instituição em função da qual ele é organizado em silêncio” (Michel de Certeau).





1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   23


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal