Universidade do estado do rio de janeiro


HISTÓRIAS ANÔNIMAS DO COTIDIANO CARIOCA. NARRATIVAS URBANAS DE MORADORES QUE VIVEM SÓ



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HISTÓRIAS ANÔNIMAS DO COTIDIANO CARIOCA. NARRATIVAS URBANAS DE MORADORES QUE VIVEM SÓ.
Luis Antonio Baptista

Coordenador, Prof. UFF

Cláudia Freire Vaz

Estevão Santos Virginio

Gabriela Silva de Lima

Guilherme Candido da Costa

Lidiane Pereira Raposo

Rafael Moraes

Verônica Duarte Processi

Vinicius Teixeira Bandeira

Vivian da Rocha Pires



UFF
A pesquisa objetiva investigar as articulações da experiência urbana com os processos de subjetivação contemporâneos, desvitalizadores das possibilidades humanas de interferir no campo social - processos que paralisam o sujeito, formatando-o no inseguro e privatizado universo da falta. Simultaneamente, o projeto visa detectar resistências afirmativas de modos de operar sobre si que enfrentem, nas lutas minúsculas do dia-a-dia, o anestesiante torpor político da atualidade o qual nos lega a indiferença por tudo aquilo que não seja eu ou a impermeável comunidade dos iguais. Especificamente, investigaremos modalidades de criação de sentido a existência do homem comum, o anônimo na grande cidade, por meio de suas narrativas sobre o viver só no Rio de Janeiro. Pretendemos destacar, dessas narrativas, artes impessoais, astúcias e táticas no combate as forcas políticas que poderiam enfraquece-las remetendo-as a particularização da diferença. Desse homem anônimo, desejamos a inconclusividade daquilo que é narrado, para que as cidades estejam permanentemente ocupadas por misturas de histórias disponíveis a todos; do homem “sem qualidades”, das suas narrações sobre dores e artes na cidade, da precariedade aparente de seu viver só, pretendemos extrair experimentações de modos de operar a existência que tensionem projetos e fracassos alheios ao conflitivo e inacabado mundo da cotidianidade. Operacionalizaremos nossos objetivos através das narrativas de homens e mulheres de diferentes idades, etnias, práticas sexuais, religiosas, tipos de trabalho, escolaridade, entre outras particularidades, que vivem sozinhos em um prédio da zona sul do Rio de Janeiro, o qual possui 782 apartamentos conjugados e aproximadamente 3500 moradores. Com este universo heterogêneo, tentamos evitar de limitar a narrativa a características de tipos psicológicos ou isolar e agrupar a diferença em suas peculiaridades, mas ressaltar os modos impessoais de pensar e de formular questões. Inspirados na metodologia da História Oral utilizaremos entrevistas temáticas individuais. A escolha se justifica pelo fato destas, como aponta Verena Alberti, versarem principalmente sobre a participação do entrevistado no tema escolhido, diferenciando-se das entrevistas que priorizam a história de vida dos entrevistados. Os pesquisadores serão divididos em duplas, nas quais ambos exercerão, alternadamente, o papel de entrevistador e de comentador e cada um redigirá, em seu diário de campo, suas impressões, que serão depois lidas nas reuniões semanais da pesquisa. Do comentador, esperamos que ele seja capaz, tanto de produzir estranhamento ao que foi experienciado nas entrevistas, na medida em que interferirá na exclusividade do par entrevistador-entrevistado como produtos de uma história, quanto de criar o sentido de inacabamento naquilo que foi narrado. Assim, o comentador surge como potencializador do objetivo do projeto, tornando as entrevistas passíveis de inúmeras montagens. Walter Benjamim alerta-nos para a disponibilidade ou vulnerabilidade do pesquisador aos sobressaltos, estranhamentos disparados pelo anônimo que possam destruir uma narrativa finalizada, compacta, tornando-a aberta a parecerias que afirmem outras formas de existir e de se fazer história. Na formulação dessas entrevistas, adota-se a contribuição dos procedimentos utilizados pela equipe de filmagem do documentário “Edifício Máster”, dirigido pelo cineasta Eduardo Coutinho, que aponta um movimento de abertura para o outro apostando desta forma na imprevisibilidade e na força desacomodadora da alteridade. Desse modo, nossas análises utilizarão os seguintes eixos: Cidade, Dores e Artes. No eixo Cidade, pretendemos conhecer que Rio de Janeiro é esse que atravessa e apresenta-se como co-autor dos modos de existência. Do eixo Dores, objetivamos detectar a presença ou não de obstáculos e agruras no cotidiano de uma pessoa que vive só, destituindo, dessas dores, a exclusividade do sentido de quem a possui. A partir daí, criaremos contrastes entre isolamentos e formas de estar só, relacionando-os com os processos de subjetivação do capitalismo contemporâneo. Por fim, do eixo Artes, inspirados em Michel de Certeau, destacaremos astúcias ou artimanhas inventadas no enfrentamento do dia-a-dia, que serão traduzidas em modos de operar em si, em resistências afirmativas criadas no cotidiano.De cada eixo proposto, pretendemos elaborar narrativas onde o eu ou nós sejam apenas um ponto de partida na construção desse mosaico de narrações. Concluindo desejamos em nossa pesquisa, investigar o que tem a solidão nos chamados “homens sem qualidades” sobre a mesma cidade que partilhamos? – Pode o “lixo da metrópole”, as chamadas formas de vida deterioradas, propor operações sobre si onde persiste, apesar de tudo, arte e vigor? Como? – Nas zonas recônditas de uma cidade habitariam narrativas inconclusas propondo-nos o revezamento para continuarmos suas historias? Para que? – A experiência urbana tem algo a nos dizer sobre as astúcias do fazer humano no enfrentamento aquilo que o reifica? O que as pessoas que vivem só no Rio de Janeiro tem a nos dizer sobre essas astúcias? Por meio dessas indagações desejamos refletir sobre as tensões singulares do contemporâneo forjadas pelas articulações entre subjetividade e capitalismo.

PARADIGMA PREVENTIVO E LÓGICA IDENTITÁRIA NAS POLÍTICAS PARA JUVENTUDE: O CASO HIP HOP
Rodrigo Lages e Silva

Mestrando no PPG Psicologia Social e Institucional /UFRGS

Rosane Neves da Silva



Professora PPG Psicologia Social e Institucional /UFRGS

A pesquisa visa chamar a atenção para os pressupostos que estão em jogo nas políticas para a juventude na atualidade. Interessa-nos problematizar o modo como um paradigma preventivo se atualiza nos fazeres da psicologia por meio de uma lógica identitária. Tomando como cenário as manifestações culturais juvenis, em especial o Hip Hop, buscamos interrogar até que ponto o psicólogo tem se aliado às forças emancipatórias das manifestações culturais juvenis ou até que ponto estamos tratando de engajar a energia criativa e transformadora dos jovens em lógicas cujos fins servem aos interesses de uma sociedade que cada vez mais parece se estruturar sob uma índole paranóica. Entendemos que tais ações, embora operem nesta ótica do cuidado ou da responsabilidade com os jovens, sustentam ideais moralizantes fundados sobre um sentimento generalizado de insegurança e que está, por suas vez, imbricado com duas racionalidades que vamos apresentar nesta pesquisa: o paradigma preventivo e a lógica identitária. Esse sentimento de insegurança é muito menos justificável pela experiência fática da violência, cuja existência não negamos, do que por uma potência microscópica, 'molecular', que se espalha pelo corpo social, ativando-nos a capacidade de submissão aos procedimentos necessários para nos sentirmos seguros, engendrando uma racionalidade antecipatória com tecnologias específicas. Estas tecnologias não são apenas físicas (cadeados, grades e alarmes), apenas ostensivas (você está sendo filmado!), apenas funcionais (vigilantes, guarda-costas); estas tecnologias são também intelectuais, racionais. Neste sentido, buscamos explicitar o modo pelo qual este pensamento preventivo vai se imbricando nas ciências humanas e que na psicologia acaba por se traduzir no dispositivo da identidade como conceito ordenador do sujeito, ou numa lógica identitária que vai buscar em determinadas manifestações culturais juvenis a solução para esse problema, uma vez que esta cultura seria apropriada para o jovem 'construir uma identidade cidadã'. Assim, pretendemos explicitar as relações íntimas que esta perspectiva identitária mantém com uma lógica preventiva e segregadora, apontando para a facilidade com a qual podemos nos engajar nos discursos disponíveis da moralização e da higienização social. Estes discursos são consonantes com a apropriação que o Estado realiza, por meio de diferentes dispositivos, desta potência que existe nas culturas populares ou de periferia, incorporando-as a sua pedagogia corretiva e buscando uma adequação ao modo indivíduo e identitário que legitima uma noção de risco social. Não se trata de desprezarmos determinadas categorias analíticas como se elas fossem intrinsecamente moralizantes. Existe, sim, um tensionamento histórico nos processos de sociabilidade que conduzem a algumas práticas hegemônicas ou opressoras e que de alguma forma naturalizam-se em determinados discursos sobre os jovens de periferia. Através da problematização desta lógica identitária, pretende-se abrir espaços para pensar diferentemente eventuais estratégias de resistência juvenis, apontando formas diferentes de se trabalhar junto às culturas de periferia, colocando em primeiro plano sua potência de instauração de novos modos de existência. Utilizando uma estratégia baseada na genealogia foucualtiana, realizamos um levantamento bibliográfico sobre os modos pelos quais as culturas populares e juvenis, especialmente o Hip Hop, são abordadas. Em uma análise inicial, constatamos o atravessamento de um viés moralizante nos estudos sobre as culturas populares e uma certa cooptação ideológica que pretende sobrecodificá-las com sentidos revolucionários. Entendemos que podemos lançar o nosso pensamento em relação às comunidades periféricas, para além de uma operacionalização de categorias que só servem para respaldar uma lógica preventiva baseada no sentimento de insegurança que atravessa as relações entre os diversos segmentos da sociedade. (CAPES)

16 - História da Psicologia V


A intervenção do historiador que escolhe documentos insere-se numa situação inicial que é ainda menos neutra que sua intervenção” (Jacques Le Goff).



AS PAIXÕES E OS AFETOS NA PRODUÇÃO ESCRITA DA FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO NO SÉCULO XIX
Roberto Silva de Souza

Universidade do Estado do Rio de Janeiro
“Paixões” e “afetos” são, inequivocamente, palavras associadas ao campo psi no que se refere à ciência. Obviamente, outros se apropriam das mesmas, porém é mais comum serem encontradas na literatura, na poesia, na arte de modo geral... Procurar outras fontes onde tais palavras apareçam é um trabalho que nos leva a pensar que tipo de uso é feito das mesmas: haveria um “preconceito” dentro da Ciência ao tratar de tais temas? Seriam termos de “segunda classe”, logo, indignos de serem pesquisados? Poderiam ser vistos como “assunto pouco sério” para que se os associe a uma práxis científica? Qual o seu estatuto na ciência? Essas são algumas das questões que podem – e serão – levantadas no presente trabalho, que considerará a produção escrita da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro do século XIX como fonte de investigação sobre como as palavras “paixões” e “afetos” eram usadas e entendidas pelos médicos da época. Estes textos podem ser vistos como um “germe” de um debate que envolve termos que acabaram por ser associados à Psicologia, termos que ficam quase que exclusivamente ligados ao campo de saber psi, muitas vezes contestado enquanto “campo da ciência”. Há dúvidas sobre a legitimidade de tratar de “paixões” e “afetos”, bem como de “sentimentos”, “emoções”, “alma”, por se tratarem de termos que nos remetem a algo aparentemente inefável, distante de qualquer possibilidade de matematização ou quantificação, que seriam os meios mais “expressivos” ou “representativos” da “Verdadeira Ciência”. No século XIX, no entanto, vemos uma profusão de trabalhos, que são teses de doutoramento, nas quais muito se usa as duas palavras que são as “chaves” do título do presente trabalho. De alguma maneira, essas teses podem ser vistas como “raízes” de proposições que irão se desdobrar até que se configure o necessário surgimento de um tipo de linguagem muito própria que possa dar conta daquilo que vai além dos aspectos orgânicos e/ou fisiológicos do homem. A medicina, a princípio, trata desses temas, mas o desenvolvimento de certas concepções do que seja ciência exclui desse campo a possibilidade de continuar a falar sobre algo que não poderia ser mensurado. Já que é preciso quantificar, estabelecer estatísticas, ter dados “concretos” e “observáveis” para se reconhecer um trabalho como “verdadeiramente científico”, é preciso também que se excluam os temas que não são passíveis de passar por tal crivo. Daí é que emerge a possibilidade da criação de outras áreas que deverão tratar disso. Não é a Medicina, mas outro campo de saber que poderá se ocupar dessas discussões “menores”. Assim, embora não se possa querer afirmar que é a partir da desistência da Medicina em querer continuar a tratar dos assuntos relativos às “paixões” e aos “afetos” que se propicia o surgimento de uma psicologia autônoma, há que se reconhecer o quanto foi importante para o surgimento de uma Psicologia que anteriormente os mesmos tenham sido tratados como temas relevantes pela medicina, já que esta deveria tratar daquilo que diz respeito ao homem, independentemente de considerar seu caráter unicamente fisiológico, orgânico, corporal. Não se pode pensar, por isso, tratar-se de uma “gênese” – no caso, da Psicologia – que se evidencia, mas de uma contribuição para a formação de uma necessidade de criação de um novo campo de conhecimento, o qual deverá levar em consideração aquilo que foi relegado a segundo plano pela medicina, medicina esta que deverá tratar, quase que exclusivamente, do homem enquanto corpo.

A CRIANÇA/INFÂNCIA NA HISTORIOGRAFIA DA PSICANÁLISE BRASILEIRA – UM ESTUDO CRÍTICO DO ESTADO DA ARTE
Luís Antônio Gomes Lima

Doutorando na Área de Concentração Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano – IPUSP / Docente da Universidade São Judas Tadeu – USJT-SP
A leitura das formas de escrita da história da psicanálise no Brasil nos leva a uma série de perguntas, os quais tomam como ponto de partida o modo com que esse campo de conhecimento foi aqui interpretado, aplicado e praticado. A especificidade das questões e problemas que mobilizavam aqueles que se tornariam os pioneiros e precursores da psicanálise brasileira, no momento histórico em que essa introdução se operava, constitui-se na chave de compreensão de suas primeiras idéias e formulações. Quem são, assim, essas pessoas, de que lugar social elas falam, quais são seus propósitos e quais são seus interlocutores? É possível, face a essas perguntas, fazer uma distinção preliminar entre dois grupos, em relação às pesquisas que abordam a história da psicanálise no Brasil, referente à análise empreendida sobre os fatos e documentos que compõem suas fontes. Num primeiro grupo há uma exposição diacrônica de fatos e acontecimentos, aliada a considerações diretas sobre o teor manifesto dos documentos. No outro grupo, o objeto que se ergue à reflexão são as práticas discursivas que estabelecem o marco introdutório da psicanálise no Brasil. Dessa forma há, por exemplo, o reconhecimento da articulação entre a nascente psicanálise brasileira e o movimento higienista nas primeiras décadas do século XX, no conjunto de pesquisas nessa área temática. Porém em uma parte dessas produções esse fato é apresentado como dado histórico, ou seja, peça de uma seqüência localizada num passado mais distante e cindido de nós no tempo, sendo pensado, em outras produções, como constituinte das relações entre saber e poder no início de uma ciência brasileira. Há uma clara e forte presença, no segundo grupo, de uma historiografia foucaultiana na apreciação do tema. Faz-se necessário investigar as teses e pressupostos que subjazem a essas pesquisas, a fim de acompanharmos também o movimento histórico dessa história, histórias que se tocam e se imbricam. Para tanto, é possível estabelecer parâmetros para o curso dessa análise, identificando elementos nas investigações realizadas que permitam uma discussão mais detida e afinada com a complexidade do tema em causa. O início da psicanálise brasileira está ligado às reflexões e práticas levadas a efeito por um grupo de psiquiatras filiados ao discurso higienista entre as décadas de 20 e 30 do século passado, discurso por sua vez apoiado nas teorias raciais que aqui aportaram. Um primeiro ponto a ser assinalado é que a psicanálise brasileira estabelece-se não tanto enquanto prática clínica, prática entendida como ruptura que se opera a partir do saber psiquiátrico, e sim como ação articulada aos desígnios da Educação, visando à prevenção do abandono, da delinquência, da criminalidade e do que é tomado como distúrbios mentais na forma de desvios de um comportamento socialmente esperado. Alguns expoentes da história da psicanálise no Brasil vêem nessa forma de apropriação a tentativa realizada por parte desses membros da intelectualidade brasileira de se confrontarem com o problema da identidade nacional de um país marcado pela mestiçagem e por uma profunda desigualdade social, apoiada sobretudo no racismo das classes dirigentes. A Educação seria o caminho para viabilizar a construção de uma nação e um Estado brasileiros, sendo concebida como inculcação de uma disciplina enquanto substrato de controle social, visando a uma dócil submissão ao poder dessas classes. É dessa maneira que Afrânio Peixoto e Júlio Porto-Carrero concebem essa aproximação da psicanálise com a Educação, co-partícipes de uma cruzada moralizadora do povo brasileiro. Em Porto-Carrero, por exemplo, a sexualidade infantil é reconhecida e afirmada, porém derivada para a contenção do contato e do afeto entre pais e filhos em defesa da sublimação, cujo êxito ou não revelariam o nível de educação da raça na perspectiva de sua civilização. Esse psiquiatra, um dos primeiros estudiosos e divulgadores da psicanálise, propõe, com efeito, uma educação sexual com base nas teses freudianas como contraposição à educação sob as formas tradicionais da moralidade da família patriarcal. Afrânio Peixoto já estabelecera uma conexão entre o determinismo presente na psicanálise e as teses deterministas das teorias raciais do século XIX, vendo na Educação a possibilidade de recuperar, formar e controlar o que é inatamente criminoso e selvagem, níveis já supostamente superados pelo homem “civilizado”. Traça-se um verdadeiro paralelo entre as formulações do circuito pulsional na sexualidade infantil elaboradas por Freud e o que no Brasil é entendido como estágios primitivos da civilização, cujas origens são concebidas como barbárie e selvageria, além de serem marcadas pela desenfreada e caótica explosão das forças da natureza, da sexualidade, signo distintivo da pobreza, maioria da população brasileira. E a criança/infância são identificadas, no interior dessas primeiras interpretações da psicanálise no Brasil, como espaço-tempo no qual deve se operar uma ação de saneamento e prevenção, tendo em vista o que vem se apresentando como problema social, numa progressiva criminalização de qualquer comportamento que se desvie de um rígido e autoritário código de conduta em nossas nascentes cidades, estas em pleno processo de urbanização. É fundamental sublinhar que a incorporação da psicanálise operada por esses primeiros psicanalistas brasileiros vai se justapondo e se acomodando ao discurso psiquiátrico, tal como ele é pensado e exercido em nosso país, ao contrário da crescente composição de um campo novo de indagações e pesquisas no círculo mais próximo a Freud. Ainda chama a atenção o fato dos psiquiatras brasileiros serem, em grande número, expoentes de uma intelectualidade brasileira a pensarem os dilemas e os rumos de um projeto que viabilizasse a nação e o Estado brasileiros. Podemos falar de um saber totalmente alicerçado na busca de uma unidade nacional entranhada na manutenção de uma rígida hierarquia social via teorias raciais. Este saber acaba por se constituir num pretexto para a construção de uma nova ideologia de dominação no Brasil, a qual tenta sem conseguir, ao menos nesse momento, afinar-se com a modernização que se põe cada vez mais como necessidade no modo de produção capitalista. Tendo em mente esses elementos, as perguntas inicialmente postas encontram uma resolução que contemple as articulações e conexões nelas implicadas em relação aos referenciais teórico-metodológicos dos grupos de pesquisa na área?

O CARÁTER NACIONAL E DISCURSO PSICOLÓGICO NAS OBRAS DE MANOEL BOMFIM
Luisa Beatriz Pacheco Ferreira

UFRJ
Esse trabalho tem como objetivo fazer uma análise das categorias de identidade individual e coletiva, baseando-se em uma abordagem contemporânea do assunto, presente em autores como Marilena Chauí, Sílvia Lane e, sobretudo, Antonio da Costa Ciampa. Retrospectivamente, buscaremos fazer uma comparação desses autores com a obra de Manoel Bomfim, cuja produção teórica está concentrada na primeira metade do século XX.A metodologia utilizada se baseia em uma das formas de constituir uma historiografia da psicologia proposta por Josef Brozek e Marina Massimi (1998) no texto Historiografia da psicologia moderna. Por meio do método descritivo analítico, descrevem-se os pressupostos e o conteúdo de determinada teoria, analisado-a em comparação com abordagens alternativas. Manoel Bomfim, autor da virada do século XIX para o século XX, é reconhecido, sobretudo na área da sociologia, junto a outros autores de sua época como Silvio Romero, Raimundo Nina Rodrigues, Miguel Couto, Monteiro Lobato, Gilberto Freire, por sua contribuição no projeto de definição de uma identidade nacional. No Brasil, a virada do século XIX para XX é marcada pela passagem do Império para a República, estando em jogo no país a constituição de um novo regime político, e, conseqüentemente, a necessidade de um novo projeto político. Na constituição desse projeto estavam envolvidos diversos interesses políticos como a questão da substituição de mão-de-obra e a permanência de uma hierarquia social. Nesse sentido, as teorias que explicam cientificamente as diferenças sociais e individuais pelo conceito de raça, certamente serão alvo de extrema valorização e investimento. No Brasil, havia grande disseminação do ideário positivista e evolucionista, certamente influenciado pelos nacionalismos extremados, como o fascismo e o nazismo no âmbito europeu. Tais idéias ganhavam expressão privilegiada no discurso médico que procurava reduzir o homem ao seu plano biológico. Operação semelhante aconteceu no discurso psicológico, com a categorização da personalidade segundo traços biológicos específicos de cada raça. Ao caráter nacional são dispensados os mesmos atributos das raças constituintes de cada “povo” ou “nação”, o que explica a visão essencialmente pessimista que a maioria dos intelectuais brasileiros terá sobre a questão da mestiçagem.Como exemplo de um discurso totalizador da experiência social no final do século XIX e início do século XX, podemos citar o discurso médico que se insere nas diversas esferas sociais, e que em nome de uma suposta (e constantemente evocada) saúde coletiva realiza as chamadas práticas higienistas de saneamento, levando à reestruturação de costumes e gerando uma nova concepção de indivíduo ao subordiná-lo a um saber especialista que, aliado ao Estado, dita as normas e impõe um determinado modo de vida. As práticas higienistas decorrentes do discurso médico, a atuação vertical do Estado dando-se pelos ditames positivistas da manutenção da ordem e a busca pelo progresso encontram correspondência na proliferação de teorias eugenistas no mesmo período, centrada na figura de intelectuais como Nina Rodrigues e Oliveira Vianna.Dentro desse contexto, destacamos a figura de Manoel Bomfim como voz dissonante, em certa medida consonante aos caminhos atuais da Psicologia Social. Ao pensar a formação de uma cultura brasileira, Bomfim articulará a noção de parasitismo social ao analisar as relações entre colônia e metrópole. A metrópole corresponderia ao parasita e a colônia seria seu corpo hospedeiro, unidas em um regime de trocas desiguais.O problema colocado por nós diz respeito à construção da identidade como fato social. Até mesmo as teorias essencialistas produzidas no tempo em que foram escritos os textos de Manoel Bomfim se fizeram, como argumenta Marilena Chauí, dentro de determinado ambiente ideológico, atendendo aos condicionantes impostos por ele. Neste sentido, destacamos o caráter pioneiro, no que tange à reflexão psicológica elaborada no Brasil, da obra de Manoel Bomfim no devassamento das relações entre indivíduo e sociedade.A partir do conceito de nacionalidade, Bomfim explicou a formação do sujeito (e sua identidade) como determinada por uma dimensão social. Assinalou também a impossibilidade de estudar a identidade por meio do indivíduo desvinculado dos condicionantes histórico-sociais. Ainda que reflita a estrutura social, o indivíduo também atua sobre ela, podendo trabalhar para conservá-la ou transformá-la, em uma equação impossível de ser definida em termos exatos.Sobre a noção de uma identidade coletiva coloca que no último século e meio, a nação e o partido afirmaram-se como identidade coletiva e que estes fracassaram em elidir a identidade da sociedade, justamente onde elas estão sendo engendradas. Portanto, uma análise do processo grupal teria que partir tanto da dialética indivíduo-grupo, em que uma dupla negação possibilita a compreensão destes como membros indissociáveis, quanto da história que os produziu e que eles transformam por suas atividades também indissociáveis.Ciampa apresenta a noção de identidade como um conhecimento de si, produzido pelo conhecimento recíproco dos indivíduos identificados através de um grupo social que existe objetivamente com sua história, suas tradições, suas normas e seus interesses. Em Bomfim, o “espírito humano”, correspondente ao indivíduo de Ciampa, também é resultado da experiência social, constituindo uma espécie de capital representativo das características psicológicas da classe, da ordem e da espécie. Tanto Ciampa quanto Bomfim enfatizam a impossibilidade de estudar a identidade através do indivíduo desvinculado dos condicionantes histórico-sociais. Marilena Chauí (1990), em Cultura e democracia, afirma que no Brasil povo e nação foram impostos como realidades culturais prévias sem forma estabelecida, às quais veio se sobrepor o Estado que passou então a funcionar como grande artífice da identidade nacional, construindo-a de acordo com os seus interesses. Dessa forma, podemos concluir que uma identidade nacional não faria sentido se apresentada como definitiva e desligada de formas de relação e de poder próprias a determinado contexto histórico-social. De certa forma, re-atualizamos através de símbolos e características nacionais uma identidade pressuposta, como algo sempre existente, apagando, portanto, sua historicidade. (PIBIC)

17 - Temas historiográficos V


A história não está fora do âmbito do poder (...) Cada sociedade tem (...) sua política geral de verdade; isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros” (Michel Foucault).





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