Universidade do estado do rio de janeiro


FRAGMENTOS DE UMA ARQUEOLOGIA DA ALTERIDADE NO DISCURSO FILOSÓFICO CONTEMPORÂNEO



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FRAGMENTOS DE UMA ARQUEOLOGIA DA ALTERIDADE NO DISCURSO FILOSÓFICO CONTEMPORÂNEO.

Guilherme Almeida Ribeiro



Mestrando PPGPS-UERJ
A crítica às noções de representação e identidade, bem como às práticas a elas referendadas, tem sido possibilitada, em grande parte, pelas chamadas “filosofias da diferença” ou, como querem alguns, num esforço classificatório bem ao gosto dos historiadores das idéias, pelo “pós-estruturalismo”. Neste ponto, é o caso de se fazer notar que as denominações “filosofias da diferença” e “pós-estruturalismo” constituem-se, em parte, por meio de um efeito ordenador do discurso através da figura do comentador no campo da história intelectual. Portanto, tal modo de nomear e agrupar discursos de proveniências diversas que se debruçam sobre as questões da alteridade e da diferença no âmbito da filosofia contemporânea acaba por nos arrastar para o terreno da identidade... De qualquer forma, mesmo considerando suas proveniências tão diversas, tal denominação tem a intenção de marcar um certo estilo de filosofia cuja emergência está vinculada ao pós-guerra francês, muito embora tais discursos tenham fornecido as bases para um tipo de pensamento crítico também fora da Europa. Nas décadas de 60 e 70, por exemplo, quando muitas etnias e culturas marginalizadas obtiveram maior visibilidade de suas lutas e conseqüente reconhecimento político, a demanda por uma lógica que não fosse pautada por uma identidade construída com base em oposições binárias (cidadão/não-cidadão, responsável/irresponsável, racional/irracional, etc) possibilitou uma difusão das contribuições de autores e obras que partissem, principalmente, de uma suspeita em relação a argumentos baseados em pontos de vista transcendentais e com pretensões universalizantes. Não obstante se admita que por detrás desta denominação habitam obras e percursos teóricos bastante heterogêneos entre si, tais como os de Foucault, Derrida, Deleuze e Lyotard, entende-se que há uma confluência ao menos nos efeitos teóricos de seus trabalhos em uma variedade de disciplinas, incluídas aí as disciplinas psi em suas versões mais críticas. Tais efeitos teóricos, do ponto de vista epistemológico, podem ser entendidos como um certo modo de operacionalizar conceitos em uma perspectiva anti-essencialista e anti-fundacionalista, ou seja, um posicionamento que rejeita a descrição do conhecimento como uma representação exata da “realidade”, a ser obtida por meio de uma concepção de verdade como correspondência e, igualmente, descarta as descrições canônicas e vocabulários finais e totalizantes. No entanto, as “filosofias da diferença” não podem ser reduzidas a um conjunto de pressupostos compartilhados, nem muito menos a um método ou uma escola, sendo esta denominação, como já adiantamos, um efeito da ordenação do discurso e, portanto, a ser usada com cautela no sentido de não ofuscar suas especificidades. Talvez seja pertinente referir-se a elas como um movimento de pensamento que corporifica diferentes formas de exercício crítico. O objetivo deste trabalho será abordar historicamente algumas das condições de possibilidade de emergência deste modo de filosofar e, sobretudo, alguns dos rearranjos na economia discursiva no campo filosófico do pós-guerra que impulsionaram, dentre outras coisas, o debate em torno da questão da diferença em novas formas de análise (tais como a desconstrução em Derrida, a arqueologia e a genealogia em Foucault, por exemplo), estas direcionadas para a crítica de instituições específicas, como a família, a prisão, a escola, os hospícios, o Estado e, por último, mas não menos importante, a própria filosofia.( FAPERJ – Programa Bolsa Nota 10)

O PRINCÍPIO DO CUIDADO DE SI NA HERMENÊUTICA DO SUJEITO DE MICHEL FOUCAULT
Nádia Filomena Ribeiro da Silva

Pós-doutoranda do Programa de Pós -graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
O princípio do “cuidado de si” aparece como objeto de investigação central de Michel Foulcaut, na obra A Hermenêutica do Sujeito, publicada na França, dezessete anos depois de sua morte. Neste trabalho, encontramos um estudo minucioso e descritivo acerca do modo de subjetivação antiga. Foucault demonstra a importância do princípio do “Cuidado de si” na cultura antiga e sua conexão com o tema do “Conhecimento de si”. Além disso ele busca, através de suas análises, tornar patente a precariedade do modo de subjetivação que tem se engendrado no mundo moderno. Desse modo, apostando que é na imanência da história que as identidades se constituem e, que é também ali que elas se desfazem, descreve o sujeito em sua determinação histórica, mas também em sua dimensão ética. O que o autor descreve do ideal de dominação ativa dos outros e de si na filosofia grega clássica, do cuidado de si na filosofia helenística e romana, são possibilidades éticas do sujeito. A investigação de Foucault dedica-se à formação do tema da hermenêutica de si, não somente em suas formulações teóricas, mas também em relação ao conjunto de práticas de si, em grego epimeleia heautou. Esse conjunto de práticas é concebido como procedimento civilizatório, proposto ou prescritos para fixar identidades, mantê-las ou transformá-las em função de determinados fins, graças à relação de domínio de si sobre si ou de conhecimento de si sobre si. Penso que o que há de mais potente nestas análises de Foucault é a possibilidade de acompanharmos o redimensionamento da relação subjetividade/ética, na medida em que autor sinaliza para um desprendimento em relação ao prestígio do sujeito jurídico-moral constituído pelos sistemas éticos modernos e estruturado pela obediência à Lei, para fazer aparecer, ao mesmo tempo, sua precariedade histórica. O último Foucault, longe de considerar essas práticas de si um possível “modismo filosófico”, as considera a ponta de lança de uma idéia nova de sujeito, um sujeito concebido distante das constituições transcendentais e das fundações morais. Este curso de 1982 exprime um novo pensamento sobre a concepção de verdade, sobre o logos — o discurso verdadeiro. Foucault escreve no dossiê “Cultura de si”, a propósito deste saber, entendido como preparação para a vida, que não devemos compreendê-lo como um simples quadro teórico de onde se poderá, quando for o caso, tirar as conseqüências práticas de que se tem necessidade (mesmo se ele comporta em seu fundamento princípios teóricos); tampouco se deve tomá-lo como um simples código...”. Nessa discussão, Foucault está vinculado à descrição de uma verdade que denomina de “etopoiética”: “uma verdade que pode antes ser lida na trama dos atos realizados e das posturas corporais, do que decifrada no segredo das consciências ou elaborada no gabinete de filósofos profissionais.” Neste sentido, sou tocada por uma resistência ao devir social contemporâneo, onde o comércio e o controle técnico da felicidade imperam, ambos sustentados pelo mito da salvação individual (este veiculado por práticas psi sintonizadas às leis soberanas e determinantes do mercado). Sinto-me também justificada em vislumbrar, através do trabalho de Michel Foucault, um redimensionamento da relação entre subjetividade e ética, pensando a possibilidade da psicologia funcionar, e isto é um grande desafio, antes de tudo, como dispositivo etopoiético. Resumidamente, a título de implicações éticas destes últimos trabalhos de Michel Foucault, podemos ressaltar que o que o autor entenderá como ética do cuidado de si helenístico e romano é uma ética da imanência, da vigilância e da distância. Foucault encontra neste momento da história do pensamento ocidental, mesmo sem comprometimento factual com ela, a idéia de se inscrever uma ordem na própria vida, uma ordem imanente, que não seja sustentada por valores transcendentais ou condicionada do exterior por normas sociais. “ A moral dos gregos, diz Foucault, está centrada em um problema de escolha pessoal e de uma estética da existência.” Repetidamente, no sentido de caracterizar a ética do cuidado de si, o autor evoca o deleite, conquistado, diga-se de passagem, da relação consigo. Entretanto, o princípio do cuidado de si nada tem a ver com autocontemplação satisfeita e prazerosa. Vale ressaltar a declaração feita por Foucault em relação a algumas formas de introspecção (procura de uma via pessoal, busca e desenvolvimento de um eu autêntico, etc.) que ele reconhecia avançar na costa oeste dos Estado Unidos: “Não apenas não identifico a cultura antiga de si ao que poderíamos chamar de culto de si californiano, como penso que são diametralmente opostos.” Demonstra, assim, que longe de ser uma busca narcísica, o cuidado de si designa uma tensão vigilante de um eu que vela para não perder o controle sobre suas representações. Finalmente, somos levados a pensar o cuidado de si como uma prática social, demonstrando que este princípio não implica em um exercício de solidão, mas, ao contrário, que este é atravessado pela presença do Outro: o outro como diretor da existência, o outro como correspondente a quem escrevemos, o amigo que socorre, o parente benfeitor, etc. Não podemos negar que em todo este trabalho-experiência de Foucault podemos encontrar, eminentemente, um trabalho de resistência...E qualquer discussão teórica a propósito da constituição de um sujeito ético, efetivamente, traz consigo o direito à resistência, o direito de resistir às piores situações, uma afirmação da vida; como ressalta Baruch de Spinoza, uma alegria renovada que vem “do fato de o homem considerar a si mesmo e à sua potência de agir”. Enfim, positivando as práticas psicológicas como práticas de natureza híbrida, e agenciando-me aos dispositivos produzidos de maneira intensa, pela filosofia foucaultiana (filosofia dos dispositivos: forma perspectivada do trabalho de Foucault por Gilles Deleuze), endereço, deste modo, as questões referentes à constituição do sujeito ético no mundo contemporâneo.

Imanência e Transcendência do Corpo: o biopoder na contemporaneidade
Gabriela Bastos Soares

Centro Universitário Metodista Bennett
Desde a modernidade, o corpo e a saúde vêm se tornando referentes imprescindíveis para a formação das identidades. Michel Foucault desenvolveu uma perspectiva analítica rica e complexa desse tema a partir dos estudos sobre o biopoder. Na atualidade, uma série de transformações culturais imprimiu uma nova configuração à questão. Bioidentidades, biossociabilidade e bioasceses passaram a ser termos essenciais no vocabulário do sujeito contemporâneo. As bioasceses reproduzem no foco subjetivo as regras da biossociabilidade. A referência da biossociabilidade é a política, ao passo que a bioascese remete à moralidade. A ascese é atributo de um exercício de autotransformação, de um operador volitivo da autoconstituição. Esse trabalho analisa os recursos inseridos nos domínios da moralidade e da política que vêm contribuir para a construção de estilos de vida diversos na contemporaneidade. Apesar da valorização extrema do bios, outros referentes despontam como alternativa para a vida das pessoas. Nas bioasceses atuais é possível distinguir os aspectos constitutivos dos meios e dos fins. No que diz respeito aos meios, são plausíveis os materiais e os simbólicos. Em relação à finalidade, diferenciam-se as transcendentes das não-transcendentes. O primeiro tipo de bioascese é o mais claramente reconhecido na atualidade. É uma espécie de somatização da subjetividade, analisada por diversos autores. Em suas proposições, percebe-se uma certa estratégia argumentativa. Mesmo ao afirmarem a supremacia da materialidade, procuram formular categorias que concedem uma superação da natureza física das coisas, uma formulação que transcende tal natureza. Nesses termos, pode-se dizer que, ao ampliar essa noção, o tipo de bioascese descrita também visa à transcendência. Não haveria, mesmo no terreno da bioascese, objetivos imanentes. Provavelmente, essa é uma das razões de não se encontrar, na bibliografia investigada, qualquer descrição que se encaixe no modelo de bioascese do corpo visto como simbólico com objetivos imanentes. O terceiro tipo de bioascese procura, por meio da materialidade do corpo, alcançar fins transcendentais. Ortega (2002) avalia que neste tipo de bioascese a vontade não está a serviço da liberdade, pois é uma forma de disciplinamento corporal. Há uma série de cuidados a serem perseguidos, por meio de uma vigilância constante de si mesmo. Essas bioasceses vinculam-se à disciplina e deixam de lado a dimensão política das antigas asceses. Nas perspectivas das bioaseces que consideram a importância da transcendência pode-se encontrar o exercício mais próximos das asceses clássicas. O objetivo transcendente pode não ter relação direta com qualquer religião institucionalizada. Esse referente das bioasceses está implicado com valores importantes para o sujeito e a sociedade contemporâneos. Para explicitar a viabilidade do exercício de si nos moldes desse tipo de bioascese pode ser citado o uso do budismo no Ocidente, na atualidade. Diferente da utilização da religião pelo catolicismo, o budismo ressalta a descrição de um tipo de recorrência à transcendência que não procura a auto-anulação em função de uma força superior, mas uma transformação de si que supera o limite do próprio corpo. Portanto, há um uso simbólico do corpo com fins transcendentes. A valorização do corpo e da biologia serviram, na modernidade, como ferramentas para alcançar outros objetivos, como os relacionados ao trabalho ou à família. Hoje se tornaram não apenas meios, mas também os próprios fins. A abordagem realizada tentou vislumbrar as dificuldades desse modelo. O corpo, concreto ou simbólico, foi visto como passível de ser utilizado como meio ou a ferramenta para a constituição das subjetividades. Entretanto, seu uso como objetivo das bioasceses incorre em alguns impasses. Dois argumentos endossam tal afirmação: o corpo como referente é extremamente limitado em termos de alternativas para as práticas de si, pois suas descrições são restritas; e esses referentes demandam do sujeito um processo interminável de construção do significado último da vida, o que se transforma em uma constante busca de bem-estar que, paradoxalmente, acarreta mal-estar. A questão não é mostrar qual delas é mais pertinente à atualidade, afinal todas são pensadas como interpretações plausíveis, mas sublinhar os ganhos de uma determinada descrição. Nesse sentido, o mundo atual concede ao sagrado um novo impulso e revaloriza a religião como fonte de significado para a experiência humana. A perspectiva desenvolvida destaca o exercício do budismo hoje no Ocidente, pela afinidade eletiva existente entre suas características e as regras da cultura somática, e pela plausibilidade dessas equivalências serem adequadas para a resolução de alguns impasses para o sujeito advindos da configuração do biopoder na atualidade. O budismo é visto como um caminho alternativo para a valorização dos referentes morais e políticos implicados na constituição das subjetividades. Assim, a religião articula-se à valorização do corpo e volta à cena como referente da transcendência importante para conceder sentido último à vida do sujeito contemporâneo.

15 - Cidades


O historiador não é mais um homem a constituir um império (...). Trabalha nas margens. Sob esse ponto de vista, torna-se um andarilho” (Michel de Certeau).



DA EXCLUSÃO AO EXCLUSIVO: AS PRÁTICAS PARA COM A DIFERENÇA NO URBANO
Luis Artur Costa

Mestrando em Psicologia Social e Institucional UFRGS

Tânia Mara Galli Fonseca (orientadora)



Profª Drª do PPG em Psicologia Social e Institucional da UFRGS
A cidade, uma aglomeração de estranhos. Mas mesmo assim, um lugar de pares que delimita espaços para os seus e para aqueles que de algum modo fogem da moda na curva normal. No decorrer da sua história o urbano utilizou-se de estratégias diversas para gerar alguma homogeneidade para seus cidadãos: fechou-se em muros que delimitavam rigidamente sua identidade, cercou-se de uma periferia-alteridade formada pela população deslocada do centro, criou espaços de segregação, fragmentou-se em uma diversidade de cidades-bairro e condomínios privativos, etc. Assim também se coadunavam a tais táticas uma diversidade de definições deste outro, desta diferença a ser segmentada e/ou reformada, e os modos de fazê-lo. O presente estudo propõe-se a fazer uma reflexão sobre estes deslocamentos das práticas para com a diferença no urbano, a partir de uma breve genealogia destas na cidade de Porto Alegre, focando-se nas transformações de espaços e práticas do Hospital Psiquiátrico São Pedro até nossos dias. Pretende-se com isso apontar algumas reflexões parciais sobre a situação atual: a reforma psiquiátrica e a cidade contemporânea. Surgido na virada do século XIX para o XX, em uma cidade que reformava seu espaço urbano em busca de sua melhor ordenação (com a disciplinarização dos dejetos em esgotos, das ruas em retas e das casas em numerações), o HPSP surgiu como um eloqüente projeto da razão branca monolítica e neoclássica. Nascido ainda sob a égide do Império, viu-se tornar republicano aos poucos, sendo tomado passo a passo pela ciência médica que o esquadrinhou de acordo com a sintomatologia dos manuais de então. Assim, de Hospício passou a Hospital Psiquiátrico: máquina de produção de saberes e normalização, que não mais apenas resguardava aos estranhos do convívio com os demais, mas também buscava de algum modo realoca-los no contexto produtivo urbano através de novas tecnologias do agir sobre o corpo insano: clinoterapia, malarioterapia, balneoterapia, etc. Época esta na qual as fronteiras do HPSP vão para além do seu frontispício, esquadrinhando o espaço da cidade em torno de si: é necessário prevenir e prever a loucura no cidadão. Multiplicar o olhar médico dentro do HPSP, pelas enfermeiras, e fora, pelas assistentes sociais. De tal posição advém a já esperada superlotação, pacientes de todas partes do estado provocam um inchaço do qual não se pode dar conta, e em decorrência do qual se declaram múltiplas falências e renascimentos para o antigo Hospício. Dentre diversas perspectivas humanistas que vão tentar a reanimação do espaço do HPSP a partir de “novos” valores, vemos, após uma forte tentativa iluminista centrada na eficácia científica do tratamento, a elaboração, na década de setenta, de outra linha baseada nos direitos individuais dos pacientes. Cria-se um setor jurídico através do qual se buscam as identidades dos que lá estão encarcerados e desconhecidos. Nesta jornada pelas origens dos internos se reorganiza o espaço em uma setorização a partir das regiões de origem destes, para facilitar as identificações e decorrentes retomadas de direitos: certidões, benefícios, bens, família. Deste movimento vemos posteriormente a visibilização contemporânea da cidadania, com os esforços para que esta seja retomada por populações marginalizadas, e o agenciamento deste conceito com o da reforma psiquiátrica: agora não bastará apenas reorganizar o espaço do HPSP e as práticas lá vigentes. O antigo hospício, alvo e higienizado, encontra-se agora tomado de vida desordenada por todos os lados: o musgo cresce por entre as fiações, há uma umidade constante no micro-clima desta cidadela secular, vê-se menos jalecos brancos e mais andrajos impregnados por sarro de cigarro e anti-psicóticos. As relações entre o HPSP, a cidade e o estado se modificam: as forças que mantinham as grades e trancafiamentos já não são as mesmas. As grades se degradam sem serventia e novas políticas espaciais para com a loucura passam a ser realizadas: da concentração estatal à dispersão privada. Dispersão privativa que se dá sobre um território disperso e pleno de “privatismos” envoltos pela fragmentação dos muros de velocidade das autopistas e avenidas. É sobre esta pequena história e a tentativa de pontuar algumas de suas implicações para as relações hoje estabelecidas entre loucura e urbanidade que versa este trabalho. (Bolsa de mestrado CAPES)

UMA NOVA ESPÉCIE DE OUTRO: INVISIBILIDADE E VISIBILIDADE DAS POPULAÇÕES DE RUA
Hamany Cursino Souza

Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO)

Marcelo Santana Ferreira



Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) e FEBF- Universidade do Estado do Rio de Janeiro
A partir do documentário brasileiro “Ônibus 174”, propomos uma reflexão que se encaminha a uma realização de pesquisa sobre a produção da estranheza por intermédio da gestão competente dos riscos sociais pelas imagens midiáticas. No filme em questão, a história de um seqüestrador é contada a partir de fragmentos de imagens construídas em diferentes momentos. Imagens do seqüestro que foram produzidas por redes de televisão, imagens cotidianas da existência precária do seqüestrador na infância e na adolescência e imagens captadas através de câmeras da CET-Rio são a base de sustentação da abordagem imagética da vida de Sandro do Nascimento, sobrevivente da Chacina da Candelária, mas protagonista transitório de um apelo, que foi compreendido como um “grito desesperado por visibilidade”. Gostaríamos de problematizar a noção de visibilidade defendida na análise do seqüestro televisionado e banalizado pelas mídias. Consideramos, a partir da base fornecida pelo trabalho de Michel Foucault sobre a infâmia e pela reflexão de Muniz Sodré sobre a função da televisão nas sociedades modernas e contemporâneas, que o “risco social” representado pelas populações de rua é uma versão contemporânea da produção de lugares fixos para os expurgados da lógica econômica dominante. Sandro do Nascimento é um frágil lugar instituído por um conjunto de fatores que gostaríamos de tornar legível a partir da nossa análise. Inicialmente, podemos afirmar que o próprio documentário – relevando sua análise contundente da condição dos excluídos em nossa sociedade – recorre a um modelo hegemônico de busca de coerência cronológica ou biográfica no entendimento da violência e dos conflitos sociais. No início do filme, a cidade do Rio de Janeiro é apresentada a partir de um olhar perturbador, que roça a contradição do tecido urbano, composto por planos (ou espaços) em que a classe média se fixa e também por construções irregulares em que os miseráveis buscam instituir suas moradas e prosseguir em suas existências. À medida em que a câmera mergulha no tecido da cidade, crianças, adolescentes e adultos de rua aparecem com tarjas em seus olhos, mas ao contrário das construções vislumbradas por cima, os indivíduos aparecem transitando pelas ruas, ou melhor, correndo, vendendo bala no sinal de trânsito e fazendo malabarismo com limões quando o sinal se fecha. Estes indivíduos são relampejos de existências vislumbradas através da lente espetacularizante da televisão. Na farmácia, no sinal de trânsito ou no ônibus, como foi o caso de Sandro, alguns homens e mulheres, meninos e meninas menos favorecidos pela sorte, eterna padroeira dos pobres, encontram a oportunidade perfeita para conseguirem o dinheiro necessário para a sua subsistência. O vício, remédio eficaz contra a dor, precisa ser mantido, a roupa suja e velha precisa ser trocada, a barriga vazia precisa ser novamente alimentada, o corpo acostumado com o sofrimento, precisa se sacrificar para amenizar a angústia da alma. Sem estudo, sem nome e sem esperança, resta ao pobre, flagelo da sociedade, continuar a sua batalha diária pela sobrevivência. A televisão que tornou público o seqüestro e o próprio documentário aposta na necessidade de uma visibilidade política do estranho, do miserável, do seqüestrador. Evoca imagens fortes de presídios falidos ao mesmo tempo em que mostra restos de uma experiência familiar em que Sandro do Nascimento surge como uma criança, ponto de irrupção de possibilidades infinitas de construção de si mesmo. O maniqueísmo do documentário, desta forma, recorre à docilidade e a virtualidade da infância, maculada pela efetividade de uma história que só ficamos sabendo a partir do lugar de consumidores de espetáculos.Estranhando as imagens propostas pelo documentário, propomos uma análise crítica da função da mídia na produção da estranheza. Situados num campo que podemos chamar de psicologia social, defenderemos os instrumentos teóricos que nos garantem um reconhecimento do que se passa na atualidade em relação às existências redundantes, na acepção do sociólogo Zygmunt Bauman. O presente trabalho é resultado provisório dos estudos e das análises que vimos realizando sobre a notoriedade trágica que a miséria conquista em nossa sociedade. Sandro do Nascimento, a infância que não vingou, tornou-se imagem exasperada de modos de existência dos quais não nos damos conta. Reconhecer teoricamente a produção de estranhos na atualidade é uma importante função que a psicologia social pode tentar realizar, opondo-se às leituras dicotômicas ou fatalistas acerca dos conflitos sociais enfrentados cotidianamente. O filme citado será uma espécie de dispositivo para uma compreensão crítica da produção da estranheza. Historicamente, a noção de estranheza ocupou lugares distintos, passando de uma região de sombra em que havia uma polimorfia do que era diferente a distintos espaços em que o saber psicológico iniciou o processo de gerenciamento do que se poderia considerar como “monstruosidades”. A emergência dos saberes psi engendrou, historicamente, os monstros a que se refere. Na psicologização das condutas humanas, o “negativo” do homem se constituiu de forma explícita, seja na figura do “onanista” no campo da sexualidade ou mesmo na figura da infância virtualmente perigosa no campo das considerações jurídicas e psicológicas. Apoiando-nos em pesquisas históricas sobre a criminalização da pobreza, encontramos distintas funções dos saberes e práticas psi na interpretação do fenômeno. A história de Sandro é apenas uma amostra – qualitativamente ponderável – do processo contemporâneo de redução de problemas de natureza sistêmica a questões de ordem biográfica ou psicológica. A contundência dos meios de comunicação contribui de forma significativa para o reducionismo em questão. Através do documentário sobre a vida de Sandro, gostaríamos de nos reportar ao campo de estudos históricos sobre as minorias e sobre a pobreza, frisando a função que, desde o século passado, a psicologia desempenha na compreensão dos mesmos. Apostamos que o reconhecimento da atualidade pode garantir à psicologia um desprendimento de uma das suas identidades históricas, na qual se acatava uma visão estereotipada da violência e das existências minoritárias. Indicaremos os instrumentos que viabilizam o reconhecimento das intervenções psi em seu devir histórico.



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