Universidade do estado do rio de janeiro


O ANIMAL COMO OUTRO DO HUMANO E O JOGO DAS SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS: IMPLICAÇÕES ÉTICAS DE UMA PERSPECTIVA DARWINISTA



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O ANIMAL COMO OUTRO DO HUMANO E O JOGO DAS SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS: IMPLICAÇÕES ÉTICAS DE UMA PERSPECTIVA DARWINISTA
André Luis de Lima Carvalho

Biólogo, doutorando no

Programa de Pós-Graduação em História das Ciências da Saúde, COC, FIOCRUZ, RJ

Ricardo Waizbort



Biólogo, professor do

Programa de Pós-Graduação em História das Ciências da Saúde, COC, FIOCRUZ, RJ

Nesse trabalho pretendemos discutir a idéia do animal como outro, de uma perspectiva darwinista. Fundamental para essa reflexão é a noção de continuidade mental, decorrente da tese darwiniana da origem comum entre animais e humanos. As implicações éticas dessa concepção serão estudadas a partir do pensamento de autores contemporâneos e de conceitos por estes defendidos quanto ao status ontológico e moral dos animais no universo humano. Desde tempos imemoriais o homem convive, interage, explora e representa os animais das mais diversas formas. Presentes em nossas vidas desde a aurora de nossa humanidade, os animais têm sido usados para obtenção de alimento, vestimenta, tração, caça, companhia, lazer. Suas qualidades e atributos têm inspirado criações artísticas, divindades, mitos milenares. Diferentes tradições religiosas, filosóficas e culturais têm apresentado o animal como referência de alteridade a partir de concepções as mais variadas. O termo ‘brutos’ como sinônimos de ‘animais’ atravessou séculos, enfatizando a bestialidade irracional que os diferenciava dos humanos, retratados como sensatos e sensíveis. Nesse sentido, a construção de nossa humanidade dar-se-ia pela rejeição de nossa animalidade. Numa perspectiva romântica, essa lógica se inverte. Na busca de um contato mais próximo com a natureza – incluindo-se a natureza humana – refletida no ideal do “bom selvagem”, o animal deixava de ser o outro bestial para ser o outro ingênuo, puro, imaculado pelos vícios humanos. Com o advento do darwinismo, em meados do século XIX, a noção de singularidade humana, defendida pelos adeptos da teologia natural, ver-se-ia ameaçada pela tese darwiniana da origem comum (common descent) entre animais e humanos. Tal noção postulava ter a vida surgido uma única vez no planeta, e todos os seres vivos - atuais ou extintos - seriam descendentes desse primeiro proto-organismo. A evolução da vida no planeta era representada pela imagem de uma árvore. Na base situar-se-ia o primeiro organismo, ancestral remoto de todas as formas de vida, e seus galhos representavam as complexas ramificações dos diversos grupos taxonômicos a compartilhar diferentes graus de parentesco. Retirando, assim, do homem seu status especial de criatura única de origem divina, a tese da origem comum o nivelava com os demais seres vivos como apenas mais um ator no palco do drama evolutivo. Essa origem comum não se restringia ao domínio físico. A partir de algum momento no processo evolutivo, alguns ramos da árvore da vida começam a gerar seres com um novo atributo adaptativo: a mente. Em Darwin essa mente não mais é o grande distintivo demarcador da singularidade humana, pois o primeiro broto de mente floresce como mente animal, muito antes do homem, em ramos muito mais antigos da árvore da vida. Uma mente que emerge da própria matéria viva, do inexorável processo evolutivo ao qual estão submetidos todos os seres orgânicos. Emergia, assim, um animal muito diferente do animal cartesiano, mero autômato desprovido de mente. Pois o animal darwiniano era capaz de pensar, sentir, sofrer, ponderar, escolher, amar, odiar. Um animal inteligente, complexo, sensível. Uma óbvia implicação ética da noção darwiniana de origem comum é que se animais e humanos têm uma relação de continuidade mental, os animais deveriam ser considerados dignos de consideração moral, pois são igualmente capazes de pensar, sentir, sofrer. Após um período de eclipse da noção de mente animal e hegemonia epistemológica behaviorista, os estudos de Jane Goodall, nos anos 1960, sobre os chimpanzés selvagens, reabilitaram a mente animal como tema legítimo de investigação. As semelhanças, e não mais as diferenças, entre homens e animais voltavam ao primeiro plano. Os primatas estudados por Goodall revelaram-se criaturas inteligentes, cujo comportamento baseava-se mais em reflexões que em reflexos. O aumento de estudos tem revelado que diversos grupos animais demonstram comportamentos insuspeitadamente complexos, e tais descobertas têm sido amplamente exploradas por acadêmicos preocupados com a questão da ética animal. O filósofo Peter Singer apropria-se do conceito de “pessoa” de John Locke, e defende que os chimpanzés adequam-se a esse conceito, motivo pelo qual deveriam receber o status de pessoas. A primatóloga Barbara Smuts ressalta a importância daquilo que os humanos aprendem em suas interações diretas com os animais. Denomina “pessoas não-humanas” todos aqueles animais capazes de reconhecer individualmente uns aos outros e estabelecer relações diferenciadas (‘intersubjetivas”) com diferentes membros da sua espécie ou de outra. E defende que, a despeito de todas as diferenças, podemos, amparados na faculdade da simpatia, estabelecer laços afetivos mesmo com seres de outras espécies.. O filósofo Thomas Nagel enfatiza o que chama de “caráter subjetivo da experiência”, que confere a cada ser sua individualidade ontológica (e, na relação com o homem, sua alteridade). Argumenta que o fato de sabermos como funciona fisiologicamente um morcego não nos franqueia o acesso à experiência interna da vida mental deste, que somente o próprio animal tem condições de usufruir, a partir de um “ponto de vista” de morcego. Já Tom Regan focaliza não as diferenças, mas as semelhanças compartilhadas entre humanos e animais. Afirma que “se olharmos a questão [ética] ‘com olhos imparciais’, veremos um mundo transbordante de animais que são não apenas nossos parentes biológicos, como também nossos semelhantes psicológicos”. Propõe como critério para o estabelecimento de políticas de exploração do mundo animal o respeito ao direito a uma vida livre e plena para aqueles animais com uma vida mental sofisticada o suficiente para que possam ser considerados “sujeitos-de-uma-vida”. Vemos, assim, que a teoria da mente animal em Darwin, apoiada na tese da origem comum, teve importante papel na história da psicologia comparada. As implicações éticas dessa noção de continuidade mental têm sido debatidas desde então, e o “eu animal” que já se delineava mesmo antes do período vitoriano ganhou novas tintas com Darwin e seus seguidores. Hoje a questão do animal como outro, que tanto difere como se assemelha ao humano, continua presente e relevante. Esse indivíduo não-humano, com vida e interesses próprios, está na ordem do dia, na polêmica e emergente disciplina da zooética, e a questão da alteridade está diretamente ligada aos discursos e práticas que propõem a inclusão ou a exclusão dos animais da comunidade moral dos homens.

PENSANDO VYGOTSKI COM VARELA: CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA
Beatriz Sancovschi

Doutoranda da pós-graduação em psicologia da UFRJ
Ao voltarmos nossa atenção para a história da psicologia, a produção singular desse campo chama atenção. A psicologia é um saber híbrido que vem se constituindo nas interfaces, por meio de conexões com diversos saberes. Como exemplo citamos a física, a fisiologia, a sociologia, a biologia, a cibernética. Neste sentido, parece correto afirmar que é apenas nessas interfaces, através das conexões que se pode ir além da psicologia constituída, caminhando em direção a um fazer da psicologia. Este, certamente, é um caminho que não se faz sem riscos. Novas articulações implicam, ao mesmo tempo, inúmeras possibilidades e também muitas incertezas. Assumindo os riscos propomos, neste trabalho, uma articulação entre a abordagem enativa de F.Varela e a psicologia histórico-cultural de L. S. Vygotski. Apesar de Varela e Vygotski se situarem em épocas e contextos bastante distintos, eles fornecem importantes contribuições aos estudos da cognição, na medida em que possibilitam repensar o funcionamento cognitivo. Vygotski é um pesquisador russo do início do século XX. Embora seu principal problema de investigação fosse explicar como se desenvolve o psiquismo humano, sua teoria é anterior à revolução cognitiva, sendo portanto anterior, tanto ao movimento cibernético, quanto às ciências cognitivas. O campo de interlocução de Vygotski é o da psicologia. O autor russo queria, através de sua teoria, ver solucionado o problema que ele nomeou de crise da psicologia. Já Varela é um pesquisador chileno do final do século XX e início do XXI. Sua teoria situa-se num momento em que a ciência vive a ruptura de antigos paradigmas, abrindo novas possibilidades para o fazer científico. Seu campo de interlocução é principalmente o das ciências cognitivas e sua teoria afirma-se ao mesmo tempo como uma crítica e uma alternativa aos paradigmas informacional (modelo inputs-outputs) e representacional. Não se trata aqui de uma simples comparação ou de uma mera curiosidade histórica, mas queremos sim, através das ressonâncias entre Varela e Vygotski, pensar contribuições para a psicologia hoje. Mais especificamente, estamos interessados nas ressonâncias entre eles, tomando como foco a questão da construção da cognição. É importante destacar que as ressonâncias incluem a conservação das singularidades de cada abordagem. A metodologia utilizada terá por base as indicações fornecidas por Y.Clot em seu livro Avec Vygotski. Neste sentido, trata-se aqui de pensar Vygotski com (avec) Varela. Assim, neste trabalho, analisaremos a forma singular com que Varela e Vygotski abordam o problema da construção da cognição. Veremos aí como esta construção, em ambos os autores, inclui o tempo criador, a participação do(s) outro(s) e segue uma lógica circular. Neste sentido Vygotski e Varela se afastam de uma concepção cognitivista da cognição. É interessante ressaltar que esta forma singular de conceber o processo de construção da cognição em ambos os autores tem por base um posicionamento ético-político. Tanto Varela quanto Vygotski ao formularem suas teorias se recusam a aceitar a determinação ambiental. Varela lança mão da noção de autonomia para pensar a cognição viva, e Vygotski traz a idéia de autodomínio, como sendo aquilo que singulariza o psiquismo humano. Autonomia e autodomínio estão longe de nomear um mesmo processo, no entanto, apontam para uma outra forma de se conceber a relação do sujeito com o mundo e do sujeito com ele mesmo no processo de construção da cognição. Tanto a autonomia quanto o autodomínio se referem a um tipo de relação consigo que não se reduz a um processo de “ensimesmamento” ou de fechamento sobre si. Ambos os conceitos pressupõem que nesta relação consigo seja acessado não o “Eu” ou o “Si” constituídos, mas o campo processual de onde o “Si” ou o “Eu” surgiram. Neste sentido, a nossa aposta neste trabalho é que a articulação entre Varela e Vygotski, mais do que uma simples comparação entre dois autores de épocas distintas, possa trazer contribuições à psicologia.(CNPq)
EXPERIÊNCIA DE PRIMEIRA PESSOA: A DISSOLUÇÃO DO PONTO DE VISTA DO OBSERVADOR
Eduardo Henrique Passos Pereira

André do Eirado Silva



Pprofessoes UFF

Carlos Vinícius de Assumpção Fernandes

Fernanda Ratto de Lima

Letícia Maria Renault de Barros

Fernanda Rodrigues da Guia

Júlia Florêncio Carvalho

Luiza Vardiero Corrêa

Graduandos UFF

Christian Sade Vasconcelos



Ddoutorando UFRJ
Na história da psicologia, o método da introspecção se apresenta como característica do momento inaugural dessa ciência. É por uma recusa da aposta metodológica da psicologia naturalista no século XIX que teorias e sistemas psicológicos se desenvolvem no século XX. Na cena teórica contemporânea, constatamos o retorno da abordagem do objeto da psicologia segundo uma metodologia de primeira pessoa, ou seja, é a partir do próprio sujeito da experiência que o conhecimento psicológico se constrói. Aponta-se o introspeccionismo do século XIX como momento histórico de nascimento da psicologia como disciplina científica. Trabalhos como o de Wundt (1874), Külpe (1893) e Titchener (1909) apontam para este momento de inauguração do projeto de uma psicologia científica. Esta constituição se deu através da utilização de uma metodologia que poderia ser considerada de primeira pessoa – o método da introspecção. No entanto, embora reconhecido como marco inaugural da psicologia, este método logo recebeu severas críticas. Já no início do século XX teve sua legitimidade de investigação questionada e foi, desde então, afastado do campo de pesquisa psicológica. As conseqüências deste fato na história da psicologia foram significativas, pois adveio daí o abandono das discussões acerca da consciência e da experiência em primeira pessoa. Cabe, contudo, indagar os motivos e conseqüências deste abandono. Até que ponto o afastamento da introspecção não reflete determinadas exigências metodológicas que se impuseram à psicologia? Por outro lado, até que ponto o introspeccionismo do século XIX pode ser considerado, de fato, uma metodologia de primeira pessoa? Em que consiste, afinal, uma experiência em primeira pessoa? Para responder a estas questões é necessário examinar de que forma o método da introspecção foi inicialmente concebido. A psicologia buscava se consolidar em meio às demais ciências e se afastar do campo da especulação filosófica. As ciências naturais serviam de parâmetro para a psicologia, que ao promover uma adequação de seus métodos aos ideais cientificistas da época, fez surgir o chamado naturalismo em psicologia, isto é, o emprego dos mesmos métodos utilizados pelas ciências naturais. Para o naturalismo, o conhecimento é assegurado pela observação; é através dela que se pretende obter as leis que expressam a regularidade dos fenômenos investigados. Esta observação deve ser passível de validação intersubjetiva e, portanto, não deve depender da experiência de um sujeito em particular. É característico da observação naturalista o estabelecimento de regras que garantam a neutralidade e a imparcialidade do observador, mantendo-se uma distinção rígida entre observador e observado, entre sujeito e objeto. O método da introspecção pretendia então investigar a experiência consciente através de uma observação controlada, por parte de um sujeito e de seus próprios processos psíquicos. Procurava-se obter meios de proceder a uma análise da consciência e estabelecer as leis que a regiam. Esperava-se observar o fenômeno diretamente. É justamente esta concepção que delimita o que poderia ser compreendido como uma tentativa de empregar uma metodologia de primeira pessoa: um sujeito observa a si próprio – a observação incide sobre um objeto que, à primeira vista, é pouco discernível em relação àquele que observa, e observador e observado tenderiam a se confundir. Foi justamente a coincidência entre o observador e o que se pretendia observar que constituiu um dos alvos das críticas feitas posteriormente ao introspeccionismo. No entanto, essas críticas não o atingiram apenas posteriormente; pelo contrário, fizeram com que os próprios introspeccionistas procurassem mitigar esta coincidência, garantindo os parâmetros de neutralidade e imparcialidade do pesquisador perante seu objeto de estudo. Há, portanto, um paradoxo na própria origem da psicologia: se a experiência subjetiva, alvo de sua investigação, se mostra pouco suscetível a uma abordagem que garanta a distinção entre sujeito e objeto, o método a ser empregado exige esta distinção como forma de legitimar o conhecimento a ser produzido. A introspecção realizada no século XIX foi uma tentativa de conciliação entre o projeto de psicologia e o ideal de inteligibilidade então vigente. Não se tratava de uma observação qualquer, e sim de um experimento guiado por regras e métodos específicos que poderiam ser reproduzidos por outros experimentadores. A consciência observada não era, em última instância, a mesma que observava. A experiência consciente foi duplicada na tentativa de garantir a distância entre sujeito e objeto, eliminando assim a relação do sujeito do conhecimento com outrem. Trata-se de uma repetida recusa da alteridade que, no setting experimental, é coisificada em uma operação dita de objetividade e neutralidade do conhecimento. Este mecanismo de duplicação estabelece um ponto de vista externo à experiência, que é fundamento para a formulação de juízos acerca do objeto; o conhecimento torna-se, assim, um mecanismo judicativo (conhecimento e juízo coincidem). Como é a exterioridade de um ponto de vista que caracteriza a metodologia de terceira pessoa, a introspecção tal como foi realizada na virada do século XIX para o século XX não pode ser concebida como uma metodologia de primeira pessoa. A experiência em primeira pessoa não pode, então, ser caracterizada como auto-observação dos dados da consciência. Esta auto-observação preconizada pelo introspeccionismo impôs tal distância em relação à experiência que impossibilitou, em sua abordagem, a apreensão daquilo que lhe é mais próprio: a gênese tanto do sujeito quanto do objeto. Nas discussões contemporâneas, verifica-se a retomada do que Chalmers designou como hard problem: o tema da experiência e o estudo da consciência tornam-se objeto das investigações atuais. O trabalho de Depraz, Varela e Vermersch (2003), “On becoming aware”, enfrenta esta problemática, recolocando em novas bases o que foi uma inquietação inaugural das pesquisas em psicologia. A experiência do “devir consciente” leva ao debate esta dimensão do fenômeno cognitivo, somente apreensível por uma metodologia que coloque entre parênteses a posição do observador de terceira pessoa. O desafio posto é o do estudo da experiência em sua impessoalidade, isto é, aquém da distinção sujeito e objeto, ali onde somos levados a pensar na dissolução do ponto de vista do observador.(CNPq; FAPERJ)

PARA UMA METODOLOGIA HISTÓRICA FEMININA, DO FEMININO NA PSICOLOGIA BRASILEIRA.
Flávia Moreira Oliveira,

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da UERJ; professora do



Centro Universitário São Camilo – ES.

Ana Maria Jacó-Vilela



Professora doutora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da UERJ.
A escolha de uma metodologia adequada a um determinado campo de estudo merece bastante atenção, pois a metodologia não somente define o modo de conduzir uma dada pesquisa, como também apresenta ao leitor a orientação do pesquisador. Ou seja, a escolha por uma metodologia fala das disposições e do tipo de envolvimento que este escolhe ter com o seu suposto objeto – ou como o objeto escolhe o seu pesquisador. Assim, a opção pela realização de uma pesquisa que não se restrinja unicamente à investigação dos desdobramentos internos de uma ciência, nem somente ao contexto social em que ela se desenvolveu, representa uma outra forma de embate com o que se decide estudar. Embate este que é caracterizado pelo risco da busca por um objeto e pelo desafio representado pela não neutralidade na metodologia escolhida, já que todos somos partícipes da visão de que nossa escolha representa uma implicação de nós mesmos. Neste sentido, a realização de um estudo sobre as várias possibilidades de se fazer história, especificamente de se fazer uma história da psicologia que tenha como eixo central a participação da mulher no processo constituinte/constitutivo desta disciplina/ciência, exige uma reflexão que leve em conta aspectos outros (sociais, culturais, econômicos, etc) que, também inscritos na história, fazem parte de um considerar e pensar mais geral das implicações do escrever, estudar e “cientificizar” a mulher. Mesmo não nos vinculando diretamente a uma perspectiva que podemos chamar de mais tradicionalista ou ortodoxa de ciência, que considera que esta só pode ser realizada quando o sujeito conhecedor encontra-se livre, limpo e desvinculado de qualquer relação que o aproxime do objeto a ser conhecido, acreditamos que o atual estudo proposto pode colaborar com o esclarecimento sobre as possíveis dificuldades encontradas na relação sujeito e objeto, quando estes praticamente são coincidentes: sujeito do conhecimento – mulher psicóloga; objeto a ser conhecido – mulher e psicologia. Assim, este trabalho representa um esforço inicial de delimitação de uma metodologia e de um objeto de pesquisa que possam atender às necessidades de um estudo que visa compreender o papel da mulher na constituição do espaço da psicologia no Brasil. Para tanto, tornou-se importante realizar inicialmente uma investigação teórica referente à metodologia de estudos históricos, etapa em que utilizamos principalmente o pensamento da história epistemológica e da arqueologia de Michel Foucault. Posteriormente, fez-se necessária uma investigação sobre questões relativas a estudos “feministas” ou “do feminino” que fundamentassem e colaborassem para o estabelecimento de uma opção metodológica – esta investigação lançou mão de autores como Pierre Bourdieu, Jane Flax e Joan W. Scott. Deste modo, neste trabalho apontamos algumas dificuldades encontradas na exploração do que chamaremos de “nível experiencial” da história, principalmente de uma história que se remeta à mulher. Para a avaliação da metodologia proposta, definimos uma instituição como ponto de reflexão sobre a participação da mulher na psicologia brasileira – o Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), fundado em 1947 por Emilio Mira y López, e reconhecido por seu pioneirismo na prática e no ensino da psicologia no Brasil. Por fim, sugerimos a arqueologia como uma possibilidade metodológica.

A ALTERAÇÃO E O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO
João Batista Martins

Prof. Dr.Depto. Psicologia Social e Institucional

Universidade Estadual de Londrina
Este trabalho é uma reflexão acerca das vicissitudes que circunscrevem o processo de produção de conhecimento, enfocando, especialmente, a relação sujeito x objeto. Esta temática é extremamente importante, uma vez que identificamos, nas discussões sobre a superação do paradigma científico tradicional, estruturado ao longo da modernidade, uma certa incoerência entre os aspectos teóricos que fundam esta nova perspectiva de ciência e seus desdobramentos metodológicos. Em seu texto “Pesquisa em psicologia social: de onde viemos e para onde vamos”, Neuza Guareschi chama de psicologia social crítica a corrente teórica que estabelece uma ruptura com o modelo tradicional de ciência. No entanto, apesar de muitos pesquisadores acolherem esse ideário em suas pesquisas, eles utilizam procedimentos metodológicos que remontam as técnicas positivistas e funcionalistas. Além disso, encontramos na literatura uma tendência em não aprofundar tal discussão e em defender o uso indiferenciado dos métodos qualitativos e quantitativos. Contrapondo-se a essa idéia, uma nova perspectiva de ciência vem desenhando seu campo epistemológico (como por exemplo, Edgard Morin e Boaventura Santos), no qual a dicotomia expressa na relação sujeito e objeto não é mais concebível, uma vez que se considera que os dois se fundam mutuamente: o pesquisador cria seu objeto de estudo, estando fatalmente entrelaçado a ele. Neste contexto, defendemos a idéia de que a alteração é um elemento instituinte no processo de construção de conhecimento. Isto é, entendemos que o conhecimento científico se realiza exatamente onde a ciência cartesiana e positivista não o reconhece: na relação (mesma) entre sujeito e objeto – na relação intersubjetiva. Nesse sentido, Ardoino, afirma que, no âmbito da pesquisa, os seres vivos (especialmente os humanos), quando submetidos a quaisquer que sejam os determinismos (econômicos, sociais, culturais etc.) que condicionam e podem explicar seus modos de funcionamento, têm em si um poder de negação, de contra-estratégia que lhes dá, ao menos em parte, a inteligência destes determinismos e uma certa capacidade de reagir e de adaptar-se, senão de transformá-los. Ardoino denomina esta capacidade de negatricidade, o que significa o reconhecimento de uma certa opacidade própria dos objetos que estão sob investigação. Isto quer dizer que o homem - tanto individual como coletivo - não é indiferente às produções de saber que lhe concernem e reagirá diante delas, interferirá constantemente com os dispositivos de análise e de investigação que lhe serão aplicados, perturbando seu funcionamento. Ainda, além de o pesquisador não dominar (no sentido de controle) seu objeto (em função da negatricidade que lhe é inerente), está implicado com (n)ele. Aqui, a idéia de implicação nos sugere que o processo de construção de conhecimento não se efetiva sob a égide exclusiva de uma determinada racionalidade. Pelo contrário, o conhecer se estabelece a partir de outros vários planos: das motivações mais profundas do pesquisador (inconscientes?), de seus desejos, de suas projeções pessoais, das suas identificações, de sua trajetória pessoal, etc. Nesse sentido, podemos dizer que a relação entre sujeito e objeto propicia tanto o desvelamento do objeto, como o desvelamento do sujeito. Com a idéia de implicação, assume-se que o conhecimento produzido é da ordem da intersubjetividade, e que ele se estrutura a partir de um processo de “negociação” entre as múltiplas referências que compõem o conjunto das representações de cada indivíduo envolvido no processo, ou seja, o conhecimento se produz a partir da heterogeneidade implícita nas relações que se estabelecem no campo da pesquisa. A noção de implicação, por sua vez, localiza o pesquisador em uma relação de negociação pois ele, ao se localizar em seu “campo de pesquisa”, ocupa um lugar onde ele “afeta” e é “afetado”, ele “altera” e é “alterado”: a alteração é essencial na produção de conhecimento a respeito da realidade, vindo a se influenciarem mutuamente. Queremos dizer com isso que a relação entre sujeito e objeto, entendida como um encontro intersubjetivo, requer o reconhecimento de dimensões que não estão relacionadas nem com os aspectos teóricos, nem com os aspectos metodológicos, utilizados quando da realização de nossas pesquisas. Tais dimensões estão circunscritas pela ordem do psíquico, do desejo, da vontade, que implicam afetos nem sempre “dizíveis” em nosso cotidiano acadêmico, mas que emergem durante a construção do conhecimento. Numa perspectiva psicológica, podemos dizer que a heterogeneidade intrínseca na relação entre sujeito e objeto se caracteriza como processo de alteração, já que ela é circunscrita por um jogo de influências mútuas. A interação (alteração) desencadeia jogos próprios das vontades, dos desejos, da angústia, das manifestações de uma vida inconsciente, de um funcionamento imaginário e assim por diante, que suscitam várias estratégias, resistências, ambivalências e opacidades: expressões de uma negatricidade que permanecem ininteligíveis para um aparato racional. Tal situação, em função de sua complexidade, geralmente nos leva para os caminhos das incertezas e do inacabamento, condições impensáveis na ótica de uma epistemologia tradicional - cartesiana, positivista. Tal abordagem do problema, enfim, nos abre a possibilidade de traçar um novo caminho no processo de elucidação dos fenômenos sociais, rompendo com a posição epistemológica desenvolvida ao longo da Modernidade. Podemos dizer que este rompimento restaura o espaço de sentido de cada participante da relação, além de nos permitir pensar esse espaço restaurado como circunscrevendo o discurso de um sujeito falante - tanto para aquele que se diz pesquisador, como para aquele que é olhado como objeto - libertando o homem da sua condição de objeto.

13 - Outras histórias I


A história estuda a história: indício de identificação que alimenta uma extraordinária presunção...” (Jean Chesneaux).





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