Universidade do estado do rio de janeiro


CONCEITOS SOBRE ALCOOLISMO FEMININO EM TRANSMUTAÇÃO A PARTIR DE UMA PRÁTICA DE SAÚDE



Baixar 1.01 Mb.
Página15/23
Encontro11.06.2018
Tamanho1.01 Mb.
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   23

CONCEITOS SOBRE ALCOOLISMO FEMININO EM TRANSMUTAÇÃO A PARTIR DE UMA PRÁTICA DE SAÚDE
Leticia Costa Barbosa
Este trabalho é um projeto de pesquisa em andamento que aborda a construção e as repercussões do grupo de mulheres TransmUTAção, um trabalho desenvolvido com mulheres alcoolistas usuárias do ambulatório e hospital dia da Unidade de Tratamento de Alcoolismo (UTA) do Instituto Municipal Philippe Pinel. A pesquisa é tema de um projeto de mestrado em curso na área de Saúde e Sociedade, Departamento de Ciências Sociais da Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. O objetivo do projeto consiste em compreender o grupo como uma prática de saúde diferenciada das demais propostas terapêuticas, na medida em que considera as peculiaridades do beber feminino, ou seja, as especificidades do alcoolismo feminino que aparecem na forma como as mulheres chegam ao serviço, pelo estado em que chegam, pelo seu discurso, pelo tempo em que abusam da bebida se comparado ao tempo que levam para procurar ajuda, e pelo tipo de inserção ao tratamento, denotando a existência de um modo de beber entre as mulheres diferente do alcoolismo entre os homens. A maior parte dos serviços destinados a dependentes químicos, mais especificamente alcoolistas, é misto, acolhendo, juntos, homens e mulheres. Os assuntos, interesses e opiniões predominantes em grupos terapêuticos costumam ser identificados com questões masculinas – o que não surpreende, já que esses dispositivos abarcam quase sempre um número significativamente maior de homens que de mulheres. Além disso, a maior parte das pesquisas sobre alcoolismo está baseada em amostras masculinas. Isso pode nos levar a levantar diversas hipóteses: que o número de mulheres que bebem é irrelevante em relação ao número de homens; ou mesmo que não há diferença entre a forma como o alcoolismo se dá em ambos os sexos e que, por isto, os resultados de muitas dessas pesquisas acabam se generalizando às mulheres. Estas hipóteses, no entanto, não se confirmam no cotidiano da clínica. Assim como a maioria dos tratamentos oferecidos, o tratamento para alcoolistas na UTA, antes do surgimento do grupo, atendia homens principalmente e, ainda, quando atendia mulheres, o tratamento se dava de forma indiferenciada. Contudo, a forma como as mulheres respondiam à proposta terapêutica denunciou o quanto esta parecia inadequada, pois o índice de reinternação entre elas era muito alto, além da não adesão da maioria delas ao tratamento ambulatorial; a procura feminina pelo serviço quando acontecia, era, muitas vezes, somente para desintoxicação. Ao criar o grupo de mulheres, as participantes passaram a experimentar outras possibilidades de vivenciar o processo de adoecimento além abstinência e cura do alcoolismo, uma vez que ampliavam suas redes de relações, suas ações para além do hospital, buscando construir atividades que tornassem públicos os trabalhos e as reflexões produzidas neste. O trabalho do grupo se dá pela elaboração de questões relativas a temas como alcoolismo, gênero, preconceito, violência, maternidade, amizade, abandono, sexualidade, imagem, diferenças, hormônios, condições sócio-econômicas, trabalho e exclusão. A elaboração dos temas acontece de forma criativa, através da construção de projetos e produções concretas, inventando, assim, novas possibilidades de vivenciar o beber feminino, construindo uma nova representação desta problemática para o próprio grupo e para a sociedade. Se, antes da criação do grupo, as mulheres que chegavam ao serviço não aderiam ao tratamento ambulatorial e hospital-dia, agora passavam a apontar o tratamento criado especificamente para este público como um aumento da qualidade de vida, criação de novas normas de vida e de saúde, o que leva a pensar que o trabalho do Grupo de Mulheres parece situar-se dentro da estratégia de redução de danos enquanto um espaço implicado em refletir e reelaborar uma prática que se revelava insuficiente ao atendimento de mulheres alcoolistas, trazendo inúmeras questões que desafiam a clínica em diversos âmbitos, a saber: os modos de relações entre equipe técnica e usuários, concepções de saúde/cura e adoecimento, práticas terapêuticas e saberes já instituídos. Nossa intenção é contextualizar o trabalho do grupo como um dispositivo de saúde em seu panorama histórico, político e estratégico, analisando as singularidades da prática voltada para o alcoolismo em mulheres, onde são consideradas em suas ações os atravessamentos das representações, estigmas, condições sócio-econômicas e culturais nas quais estão inseridos as usuárias atendidos por este serviço, levando em conta as diferenças de gênero se constituindo em um processo, a partir de determinadas circunstâncias materiais (econômicas, sociais, políticas, culturais e geracionais), não sendo diferenças “naturais” (ainda que “naturalizadas” nas e por inúmeras práticas) e, por isso mesmo, podem servir como analisadores de propostas e ações de saúde. Ao tentar se compreender como se constituíram práticas terapêuticas para mulheres alcoolistas, ou como as mulheres se inseriam em tais práticas e, ainda, como o trabalho do grupo se diferencia das demais propostas hegemônicas, a percepção das peculiaridades do beber feminino parece “emergir” como um campo de reflexão bastante rico e complexo a ser investigado. Neste sentido, o grupo de mulheres, ao realizar uma reflexão crítica sobre conceitos de gênero e alcoolismo, entendendo-os como categorias sócio-históricas, parece se colocar como um importante analisador do percurso da mulher alcoolista nas práticas terapêuticas até as propostas atuais.
DITOS E ADICTOS

PERSPECTIVAS FOUCAULTIANAS NA ANÁLISE DO TRATAMENTO DE DEPENDENTES QUÍMICOS


Alexandre de Carvalho Castro

Doutor em Psicologia/UERJ

Giselle de Andrade Pais

Graduanda em Psicologia/Estácio de Sá


Há, no Brasil, muitas instituições que têm desenvolvido um trabalho de assistência e tratamento a dependentes químicos: grupos anônimos, clínicas, casas de recuperação, hospitais, etc. O quadro é plural e multifacetado, pois o número das diferentes instituições cresce à medida que a demanda aumenta, e as formas de atendimento variam de acordo com distintas visões de mundo e perspectivas teóricas, políticas, ideológicas e religiosas. Nesse contexto, as – assim chamadas – “comunidades terapêuticas”, que atuam em sistema de internamento, na perspectiva do Modelo Minessota, estão entre as mais difundidas. Do ponto de vista histórico, esse modelo surgiu na década de 50 nos Estados Unidos, mais propriamente no Willmar State Hospital, de Minnesota, em função de uma experiência inédita na qual psiquiatras e psicólogos começaram a adaptar seus métodos de tratamento a partir de relatos de alcoólatras em recuperação segundo o programa de doze passos dos alcoólicos anônimos. Como, segundo avaliação realizada à época, muitas tentativas de tratamento e desintoxicação típicas do saber psi não logravam tanto êxito quanto as reuniões do A.A., esses profissionais, motivados por um pragmatismo de resultados, desenvolveram diversos procedimentos ecléticos. Um dos objetivos desse programa, por exemplo, consistia em treinar “conselheiros”, geralmente pessoas recuperadas que, uma vez vinculados às comunidades terapêuticas, criariam grupos informais de dependentes químicos. Tais grupos, por compartilharem suas histórias e temores, acabariam então por desenvolver procedimentos de ajuda mútua.Com o passar do tempo esse método passou também a incluir, além dos alcoólatras, o atendimento aos dependentes de outras substâncias psicoativas, e por causa dos casos de dependência química que precisavam de medicação (principalmente durante a síndrome de abstinência), o Modelo Minnesota acabou por se configurar em torno de um eixo onde estavam presentes tanto os saberes psi — por conta do tratamento medicamentoso, da terapia de grupo e palestras informativas — quanto elementos oriundos do senso comum. Em 1982, o ex-padre John E. Burns, com apoio da Johnson & Johnson, trouxe o Modelo Minnesota para o Brasil, fato que implicou mudanças em comunidades terapêuticas estruturadas para o tratamento da dependência de álcool e drogas. Assim sendo, muitas delas assumiram novos perfis no Brasil, a partir dos anos oitenta. Esse fenômeno, por um lado, denuncia um problema social. Sem dúvida, vários fatores contribuíram para o surgimento desenfreado e desestruturado desses serviços: a ausência de tratamentos públicos de qualidade, a precária fiscalização das iniciativas privadas, e, principalmente, a idéia de que a internação do dependente químico é a solução mais adequada. Além disso, no entanto, do ponto de vista psicológico diante da historicização das formas de cuidado com o outro, a existência de comunidades terapêuticas orientadas para a recuperação de dependentes químicos é um fator que evidencia um discurso diferenciado na área de saúde mental. Um discurso, aliás, profundamente marcado por interditos que revelam, de imediato, o seu vínculo com o desejo e o poder. Dessa constatação, então, é que emerge o propósito desta pesquisa. O objetivo foi analisar como, numa determinada “comunidade terapêutica” para adictos, a produção do discurso era simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por procedimentos de exclusão. A perspectiva metodológica que norteou a investigação girou em torno das análises do discurso conforme apresentadas por Foucault. Essa concepção teórica, de onde foram ressaltados tanto procedimentos de exclusão externos, quanto internos ao próprio discurso, basicamente pautou as entrevistas e depoimentos colhidos. De fato, segundo Foucault, é justamente mediante a instância integradora de um único conjunto de discursos que os indivíduos definem a sua pertença recíproca. Nesses casos, a única condição requerida é o reconhecimento das mesmas verdades e a aceitação de uma regra — mais ou menos flexível — de conformidade com os discursos validados. Assim, o controle não diz respeito unicamente à forma ou ao conteúdo do enunciado, mas ao próprio sujeito falante. Não diz respeito apenas ao que é dito, mas também ao adicto. A “comunidade terapêutica” em si, objeto do estudo, não é uma clínica do tipo tradicional com fechaduras, trancas e muros altos. Ao contrário: a sua aparência é de um sítio, com portão aberto, sem muros. Tal configuração – aparentemente bucólica, onde uma casa simples, rodeada de um jardim, fica próxima de um refeitório – permite apontar aquilo que Foucault verificou como marca na sociedade moderna: a arquitetura assumiu uma forma de planejamento espacial que se adequou com eficácia ao poder disciplinar. O que parece ser um espaço livre é, na verdade, “uma arquitetura de vigilância”, pois o sucesso dos mecanismos de poder/saber é proporcional à habilidade de se tornarem despercebidos. O Modelo de Minnesota, padrão de internação usado nessa comunidade, é marcado por uma vontade de saber cujos contornos permitem vislumbrar nitidamente um sistema de exclusão. O tratamento começa em regime fechado e isolado, podendo durar vários meses. Há um programa intensivo de terapia de grupo, palestras e leituras, que depois é seguido por reuniões de Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos. A equipe que coordena o tratamento é composta por antigos usuários, que completaram os “Doze Passos” (segundo norma do manual do A.A.) e passaram a colaborar com a recuperação de outros. Como resultado da investigação pode-se dizer que o discurso desenvolvido no interior da clínica é profundamente marcado por objetos tabus, notadamente a drogadicção, com suas idas e vindas, saídas e recaídas. Muito embora se verifique também, paradoxalmente, que a postura repressiva ocorre em um meio em que o poder circula de tal modo que não se dá a extinção do objeto-tabu — “a dependência química” — mas, ao contrário, uma valorização de sua condição como segredo. Enfim, o que é dito pelo adicto? Ele está recuperado de sua dependência? O discurso que permanece é aquele no qual não há um interdito absoluto, mas muitos silêncios que se constituem em partes integrantes das estratégias que apóiam e atravessam os discursos circundantes. O que ocorre não é o ocaso do objeto-tabu interditado na obscuridade, mas a condição de se devotar a falar do tabu sempre, perpetuamente, valorizando-o como segredo.

10 - Psicologia Jurídica II


A história do tempo presente é um vibrato do inacabado (...) que libera o presente de seu autismo” (J.-P. Rioux).



XENOFOBIA E ADOÇÃO: DESAFIOS À PSICOLOGIA.
Maria Regina Rocha

Universidade Mackenzie

Angela Nobre de Andrade



UFES
O tema adoção remete à complexa rede de (pre)conceitos dos diversos setores envolvidos desde os direitos, valores morais/éticos, sentimentos, concepções e, principalmente, remete ao imaginário “estrangeiro” ou “estranho”. A necessidade de intervenção da autoridade pública no processo de adoção é uma constante histórica desde o nascimento da instituição no Direito romano ante-justiniano, antecedente mais remoto da regulamentação atual de adoção jurídica brasileira. Nesse sentido, cabe a um Juiz deliberar sobre a adoção, baseado não somente nos requisitos legais, mas em seu “julgamento” ou concepção do que seja, por exemplo, “bem-estar da criança/adolescente”. Em outras palavras, a adoção é concebida como um instrumento de integração familiar de crianças/adolescentes e o Código civil é enfático em garantir o princípio geral deste bem-estar acima de quaisquer outros interesses. O referencial no qual o Poder Judiciário Brasileiro se baseia para realizar o processo de adoção legal é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cujo conteúdo destina uma subseção única (artigos 39-52) para tratar do assunto. Nesta, toda criança tem o direito de ser criada e educada no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta. Aqui já se inicia uma gama de incoerências presentes entre o processo de estabelecimento de leis e a viabilidade de cumpri-las. No Brasil, o número de crianças em condições de abandono/semi-abandono é enorme, devido a vários motivos, como: alguns dogmas religiosos, ainda pregnantes em boa parcela da população, proíbem o uso de contraceptivos e/ou aborto; as medidas adotadas há alguns anos pelo Estado, através do chamado “Programa de Educação Familiar”, apresentavam um caráter autoritário/impositivo e não educativo/promotor de outras mentalidades e/ou sensibilidades, pouco alterando o quadro de crescimento demográfico no país, principalmente entre a grande maioria de baixa (ou sem) renda; a Legislação brasileira proíbe o aborto, impedindo às mulheres liberdade de escolha ou de ter autoridade sobre a própria vida e, conseqüentemente, da vida da criança fruto de gravidez indesejada; as inúmeras “tentativas” de abortamento ilegal, sob condições precárias de higiene/assistência técnica, são geradoras de sofrimento, para a mulher e feto, ainda desconhecido, uma vez “escondido” na ilegalidade. Perante tais riscos, as mulheres, impossibilitadas de escolha, têm filhos sem os querer ou sem condições sócio-econômicas de criá-los; a política econômica neoliberal, adotada plenamente pelo Estado brasileiro, produz desemprego estrutural e acirramento das desigualdades sociais, agravando o quadro de pobreza e falta concreta de condições dos pais sustentarem seus filhos. Estas, entre tantas, são algumas das causas do abandono de crianças no país. Ao Estado cabe, por Lei, propiciar condições para que as famílias possam “sobreviver” ou os pais possam sustentar seus filhos; garantir moradia digna para crianças abandonadas, seja por falta de condições de sustento pelos pais, seja por terem sido geradas por falta de opção (indesejadas), entretanto essas leis não se cumprem. Criam-se abrigos – que ainda permanecem – como mecanismos da pseudo-ação de cuidado do Estado para com a infância brasileira, cumprindo um papel que a família deveria/poderia cumprir, não fossem os muitos absurdos político/econômicos citados acima. À unanimidade, trabalhos voltados para essa área denunciam a ordem cruel destinada a estas crianças: boa parte cresce e se "educa" nos limites da instituição, quase sempre mantida/dirigida por associações não governamentais, que dependem única e exclusivamente da “boa vontade” de voluntários e doações da comunidade para sua manutenção. Constata-se a premência de recursos financeiros, que deveriam vir do Estado, evitando o “desaparecimento” de muitos abrigos por falta de verba. A constatação dessa realidade aponta, de imediato, para a importância dos processos de adoção no país e os desafios aos quais o psicólogo é confrontado em sua atuação nas Varas da Infância e Juventude. Há, internacionalmente, uma concordância de que a criança deve ser adotada por uma família do próprio país, devido ao mesmo substrato cultural, evitando, assim, dificuldades de “adaptação” a outra cultura. Esse debate é acirrado e complexo, envolvendo xenofobias radicais, como o caso da Índia que, desde 1987, proibiu completamente a saída de menores do país. A afirmação do assessor do Ministério de Assistência Social da Índia é assustadora: reconhece que existe um sentimento humanitário em muitas famílias cristãs, ao querer adotar crianças procedentes da África, Coréia e Índia, que se encontram desnutridas e insuficientemente atendidas, mas a questão é se depois, no transcurso da vida, serão recompensadas por terem sido retiradas de seu entorno ou teria sido melhor deixá-las no mesmo, ainda que em condições desfavoráveis. Em outras palavras, ele afirma que é preferível a morte da criança (o enorme índice de mortalidade é conhecido) do que sua vida em uma cultura “estrangeira”. Entre os brasileiros, candidatos à adoção, essa xenofobia está presente, porém inversa. Como posso trazer para minha casa um estranho? A idéia de filiação permanece vinculada à continuidade de si mesmo, algo que (nascido de mim) não ameaça, pois posso lhe validar minhas convicções, evitando a ameaça do conflito, do embate de forças imanente a qualquer vida, porém negado racional/emocionalmente. Não se pensa em uma vida (ou naquele ser, que terá uma vida própria), mas nas convicções idealizadas do que seja a vida. De acordo com os dados dos fóruns de adoção, os brasileiros determinam um perfil da criança desejada: meninas, brancas, com até um ano de idade, “saudável física/emocionalmente” (qual diagnóstico atesta tal condição?). Mesmo casais com idade avançada, mostram interesse em adotar “bebês”, sem a menor reflexão de que morrerão antes deste filho chegar à vida adulta. Estes valores morais incorporados como verdades (menina é mais dócil, bebê vem sem “vícios de educação”, a pele branca legitima o “superior/inteligente”), precisam ser provocados e debatidos para que novas sensibilidades/potências tomem corpo. Ofício do psicólogo, voltado para a transmutação dos valores e produção de modos existenciais que considerem vidas humanas em suas singularidades/propriedades. Provocação e acolhimento à alegria da abertura ao estrangeiro que nos trans-torna em outros, uma vida sentida/experenciada na expansão de nossa configuração subjetiva sempre provisória e nômade. Uma suavidade na afirmação do ser humano como “demasiadamente humano”, sem pré-determinações, mas sempre surpresa ou, com Espinosa, a alegria da especulação/descoberta/acontecimento.

FRAGMENTOS PARA UMA HISTÓRIA DO CONFINAMENTO DO PRESENTE NO BRASIL
Manoel Mendonça Filho

Dep. Psicologia/UFS
‘Nova cultura de cidadania’, o anunciado projeto de ampliação da ‘democracia participativa’ cria imagens de ações e dispositivos que seriam adotados e criados por ‘organismos governamentais’ e setores da ‘sociedade organizada’, visando uma mudança de cultura orientada pelo paradigma da Cidadania e dos Direitos Humanos. Entretanto, a complexidade, e o decorrente grau elevado de dificuldade de qualquer processo de mudança cultural, é dimensão incontornável e inerente ao ritmo histórico que caracteriza os processos de valores e crenças em relação aos modos de funcionamento e às práticas cotidianas. Isto coloca o problema para além da facilidade com a qual é apresentado na propaganda oficial. Assim, intervenções relativas aos modos de subjetivação (historicamente constituídos, próprios a uma sociedade, ou segmento desta) sempre foram desafios das ciências humanas. Estamos aqui em meio a um ‘fenômeno reticular’: processo pelo qual os interlocutores formam idéias inéditas ou dão continuidade àquelas existentes – formação e transformação de idéias irredutíveis às características de um ou de outro interlocutor, apenas explicáveis pelo singular sócio histórico da relação que os constitui. Nossa proposta discute a hipótese de que ao invés de uma abertura, haveria indícios de uma mudança nas funções societárias de três grandes sistemas de sustentação do ‘estado de direito’ no Brasil, o que criaria uma convergência da rede pública de escolas, hospitais e unidades prisionais nas implicações destes com a produção institucional de violência. Após dois anos de pesquisa intervenção no Sistema Prisional aprendeu-se que a contradição enunciada na dupla função isolamento e reinserção compõe, coerentemente, a função institucional. O fato da idéia de re-socialização pelo trabalho aparecer como falseta surgia como analisador. Brecha paradoxal em uma sociedade em que, como nunca cultuado, o trabalho já não é valor absoluto. Progressivamente, suspeita-se: 1) da morte do deus trabalho e imediatamente de suas formas de culto: a Educação; 2) de sua finalidade: ‘melhoria da qualidade de vida das populações’. O que se faz então na rede de hospitais - já que não é produzir saúde? E na escola - se já não é educação o que aí se ativa? E na prisão - pela eloqüência da obviedade de que não é socialização o fazer no sistema prisional? Tropeços com práticas que enunciam características de possíveis mudanças históricas singulares: as conversas com agentes prisionais, técnicos administrativos e gestores de diferentes escalões do sistema mostraram a concordância das análises informais destes com as análises feitas pelos ‘internos’. Ninguém, com experiência neste sistema, defende, argumenta ou menciona com seriedade a tal função de ‘re-socialização’, desde que informalmente. A expressão no âmbito do sistema prisional é quase gíria. Aparece em segmentos como ‘Ah, mas segundo os princípios da re-socialização...’; ‘ Ô? A gente não tá aqui pra re-socializar?...’, em situações referidas à distância entre o que um grupo de agentes prisionais chamou de o real e o oficial. Assim, o termo ‘re-socialização’ aparece como marcador de conversações que sinalizam uma impossibilidade de seguir com uma linha de argumentação e raciocínio, por se deparar com o descolamento do discurso da experiência comum, portal do ‘sem sentido’. Não se daria o mesmo em conversas de professores sobre o que fazem nas escolas? E de enfermeiros e médicos em hospitais? No entanto, pelo tempo que ocupa nos discursos gestores e pelos esforços em difundir informações sobre o sucesso das finalidades institucionais dos três sistemas, faz repensar hábitos de análise. A pista veio da fala de um técnico de segundo escalão: “É uma sinuca de bico esse negócio de reabilitação pelo trabalho com tanto desemprego. Se dentro dos presídios a coisa funcionasse, ia ter gente cometendo crime para ter chance de ingressar no programa”. Depois de aprender a falar na gíria do sistema, a pesquisa viu-se colocada diante da questão da função efetiva do sistema: um confinamento de corpos que não se põe como segregação, uma vez que é o caso de lhes permitir uma vida em separado. Segundo nossa hipótese, trata-se, antes, de manter tais corpos com a vida em suspenso, numa latência ancorada na promessa de vida no futuro: pelo alcançar da justiça – como da saúde e da educação capacitadora para o mercado. Na história brasileira há um vetor invariante, verdadeira constante constitutiva: a concentração de renda. A articulação deste vetor com o advento do capitalismo financeiro e a perda de importância da produção e do trabalho, cria uma situação duplamente perversa que soma à antiga super exploração (trabalhar cada vez mais com cada vez menos) uma desimportância essencial dos corpos (já não é do trabalho que se alimenta o lucro do capital especulativo): desemprego crescente e concentração de renda contínua. A que será que efetivamente se destinam as políticas públicas em um modelo de organização da sociedade que passasse a ser assim marcado? A exclusão, na versão que desde meados da década de 80 vem emergindo como parâmetro de avaliação do equilíbrio e da estabilidade das organizações societárias atravessadas pela lógica das relações capitalísticas no império do financeiro, é efeito de um encolhimento contínuo do poder de alcance das populações. O território, coberto pela vigência de direitos e pelo acesso a bens e serviços, é cada vez menor. Caem corpos por suas bordas em retração. Os sistemas públicos, assumindo integralmente a contenção dos corpos ‘excedentes’ para que não reinvadam e tumultuem o espaço onde os serviços societários ainda funcionam. Jovens com a vida em compasso de espera, em uma pseudopreparação para um mercado de trabalho que nunca lhes abrirá suas portas; corpos patologizados, dos mais diferentes modos, aguardando pela saúde em corredores, antítese do que ali se produz; inconformados aspirantes ao consumo de bens e serviços encaminhados para os campos de concentração onde só existirão como “corpos matáveis”. Enquanto isto, o modo de governar retoricamente se reinventa, sustentado pela imagem oficial da realidade, inclusive a dos corpos que ‘sistematicamente’ desqualifica. Imagens de riscos e inseguranças como justificativa da incompetência em articular e considerar os interesses das pessoas, criando as condições para confinar o excesso de corpos de que não consegue dar conta.


11 - História da Psicologia IV


O xis da questão é este: aqueles que afirmam saber o que é a história sempre realizam (assim como eu) um ato de interpretação” (Keith Jenkins)





1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   23


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal