Universidade do estado do rio de janeiro


O RECONHECIMENTO DA ALTERIDADE E O MITO DA INDIFERENCIAÇÃO: CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESENVOLVIMENTO INFANTIL



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O RECONHECIMENTO DA ALTERIDADE E O MITO DA INDIFERENCIAÇÃO: CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESENVOLVIMENTO INFANTIL
Pedro Salem

Psicanalista – Doutor em Saúde Coletiva IMS/UERJ
A investigação acerca do momento inicial de reconhecimento da alteridade no curso do desenvolvimento infantil se apresenta como um tema tradicionalmente relevante para diversas teorias psicológicas. Pode-se, grosso modo, reconhecer duas principais correntes nesse debate. De um lado, encontram-se autores cujas teorias do desenvolvimento infantil baseiam-se na pressuposição de um estado inicial de indiferenciação entre a criança e o ambiente. Em outros termos, o bebê nasceria num estado fusional com o outro e, consequentemente, ainda incapaz de perceber qualquer forma de alteridade. Tal capacidade seria tributária de eventos no desenvolvimento a partir dos quais a criança viria a “construir” esse reconhecimento. De outro lado, encontram-se autores cujo argumento contrasta com a hipótese acima enunciada e defendem que desde os primórdios de sua maturação a criança detém a capacidade de perceber a alteridade. Portadora de um equipamento inato através do qual teria acesso às suas próprias experiências corporais (propriocepção) conjuntamente com a percepção do meio (exteropercepção), a criança estaria habilitada para comportar-se diferencialmente com relação a pessoas e objetos do mundo. Se posicionadas historicamente, essas duas perspectivas do desenvolvimento infantil possuem hoje relevância consideravelmente distinta. Pesquisas empíricas realizadas com bebês no curso das duas últimas décadas, por psicólogos do desenvolvimento sustentam a visão de que o reconhecimento da alteridade decorre de capacidades cognitivas e de uma integração dos sistemas perceptivos que a criança apresenta desde o nascimento. Essa tornou-se a visão predominante na psicologia do desenvolvimento recente. Em oposição, encontram-se as escolas da psicologia de influência piagetiana que, a partir dos anos trinta, passaram a sustentar que a alteridade é progressivamente adquirida pelo bebê à medida que este se torna capaz de integrar diferentes modalidades perceptivas num sistema coordenado. Foi precisamente esse postulado básico de Piaget – segundo o qual o desenvolvimento infantil parte de modalidades perceptivas não coordenadas ou integradas – que levou diversos estudiosos a interpretar a interação inicial entre a criança e o ambiente como correspondendo a um estado de indiferenciação ou fusão. Já para a psicologia do desenvolvimento atual, o encontro com a alteridade e a “sociabilidade” da criança são conseqüências naturais de capacidades precoces que orientam a criança em direção ao outro. Dessa perspectiva o reconhecimento da alteridade não seria fruto de uma “construção” decorrente da coordenação dos sistemas sensório-motores da criança, mas de um sistema perceptivo integrado que permitiria à criança apresentar muito precocemente uma percepção unificada do mundo e responder de modo diferencial às intervenções do outro. Assim, se até o início dos anos oitenta predominava a visão de que bebês de até três meses eram seres eminentemente reativos às estimulações externas, essa imagem alterou-se radicalmente. A partir de estudos experimentais realizados desde então, passou-se a considerar que por volta dos dois meses os bebês já são capazes de um elaborado comportamento interativo, por meio do qual expressam ações intencionais e modos de regulação comportamentais que sinalizam a capacidade de perceber e reagir intencionalmente aos propósitos comunicativos do outro. Em suma, o recém nascido deixou de ser tomado como um ser amorfo e passivo às injunções do meio para ganhar um estatuto mais ativo e social. Curiosamente, a maioria dos defensores dessa hipótese encontra na psicanálise um opositor epistemológico fundamental para seus argumentos. Sugerindo que a psicanálise costuma afirmar a existência de um estado indiferenciado entre mãe e bebê no início do desenvolvimento infantil, diversos autores encontram na teoria psicanalítica um importante contraponto teórico para afirmar o reconhecimento inicial da alteridade por parte dos bebês. Conforme ventilado, defendem que as crianças são desde muito cedo no desenvolvimento capazes de discriminar informações perceptivas do ambiente e do seu próprio corpo em ação como uma entidade diferenciada do meio. É precisamente à experiência precoce de discriminação corporal, de reconhecimento dos objetos externos como entidades independentes do eu e da geração de padrões de comportamento diferentes quando interagindo com pessoas ou objetos que a psicologia do desenvolvimento faz referência ao criticar indiscriminadamente a psicanálise como defensora da existência de um estado monádico inicial entre o bebê e o ambiente. Ocorre, contudo, que tais considerações parecem constituir uma estratégia de argumentação nem sempre fiel aos cânones da precisão conceitual. Ainda que possamos encontrar em Freud comentários acerca de um “sentimento oceânico” ou que seu conceito de narcisismo primário possa ser interpretado como correspondendo a uma experiência precoce de fusão com o outro, a idéia de um estado indiferenciado não parece facilmente imputável à totalidade de suas considerações metapsicológicas. E ainda que autores como René Spitz ou Margaret Mahler tenham reconhecidamente defendido hipóteses que afirmam uma indiferenciação primitiva da criança com o meio, seus estudos contrastam com o de diversos outros autores para os quais, ainda que haja dependência entre o eu e o outro no início da vida, isso não implica defender que os bebês são incapazes de reconhecer formas de alteridade. Tal é o caso dos psicanalistas Michael Balint e Donald Winnicott. Se bem que sejam comumente tratados como autores que sustentam a hipótese de uma continuidade entre a criança e o outro no início da vida, constroem um quadro conceitual que permite sustentar a percepção precoce da alteridade. Partindo desse contexto, o presente trabalho possui então um duplo objetivo. Primeiramente, expor o debate em torno do reconhecimento da alteridade no desenvolvimento infantil situando historicamente duas principais correntes da psicologia do desenvolvimento. Em seguida, pretende-se examinar os argumentos psicanalíticos de Balint e Winnicott que se afinam à hipótese da percepção inicial da alteridade pela criança, permitindo assim relativizar a visão prevalente na psicologia do desenvolvimento atual segundo a qual a psicanálise faria parte das teorias que advogam um estado generalizado de indiferenciação entre o eu e o outro no início da vida do bebê.

JUNG, FREUD E O PROBLEMA DA AUTORIDADE NA PSICOTERAPIA
Henrique de Carvalho Pereira

Doutorando em Psicologia Social pela UERJ
A psicoterapia criada por Sigmund Freud e Carl Gustav Jung no início do século XX, na sua forma clássica, é o encontro entre duas pessoas — paciente e terapeuta — em um consultório. Ela visa identificar, por meio do exame de sintomas, sonhos, fantasias e atos falhos as forças psíquicas inconscientes que influenciam a atitude consciente do paciente. Para Jung, cabe ainda à psicoterapia facilitar o que denominou “processo de individuação”, ou seja, o desenvolvimento das peculiaridades individuais do paciente. Desde o começo da elaboração da psicologia profunda, ele e Freud perceberam que o tipo de relação que se estabelece entre paciente e analista é decisivo para o sucesso ou fracasso do tratamento. No processo psicoterapêutico, o paciente — em virtude da situação profissional objetiva ali estabelecida, por um lado, e da transferência (projeção inconsciente), por outro — tende a considerar o terapeuta como uma autoridade, isto é, uma fonte de influência, saber e poder. O terapeuta, por sua vez, usa a autoridade nele investida para o beneficio do próprio paciente. Entretanto, a prática clínica tem demonstrado que nem sempre é esta a sua conduta: o terapeuta abusa de seu poder, corrompe sua autoridade, perverte sua influência. Desse modo, em vez de a terapia fomentar a individualização, acaba produzindo no paciente exatamente o que quer evitar: dependência, repressão da individualidade, submissão. Dito isto, pode-se indagar: Sobre quais princípios deve o terapeuta sustentar sua autoridade? Quais os limites do exercício legítimo de sua influência? Estará ele preparado para colocar seu saber e poder em risco, quando necessário? A psicologia analítica de Jung oferecer-nos uma importante contribuição para o debate de tais questões. Dessa perspectiva, buscou-se então, em primeiro lugar, mostrar que as preocupações de Jung com o problema da autoridade do analista no processo terapêutico são reflexo de sua agitada experiência pessoal com Freud, por quem ele alega ter sido subestimado e incompreendido. Os dois desenvolveram — durante o tempo em que estiveram associados pela causa psicanalítica — uma relação complexa movida ao mesmo tempo por interesses pessoais e sentimentos intensos, como amor, ciúme, rancor e admiração. Freud, segundo Jung, teria colocado a autoridade pessoal acima da verdade e da discussão honesta de pontos de vista teóricos divergentes. Com efeito, a história da institucionalização da psicanálise é a história da recusa do confronto consciencioso de idéias e da verificação empírica de teorias divergentes por Freud — o criador da psicanálise — e seus fiéis seguidores. O comitê secreto, por exemplo, formado em 1912 por E. Jones, H. Sachs, S. Ferenczi, K. Abraham e O. Rank, em torno de Freud, tinha como propósito evitar “desvios” do ponto de vista freudiano, no interior do movimento psicanalítico. Freud formulou um conceito — a “resistência” — que torna a psicanálise invulnerável contra qualquer crítica. A resistência corresponderia a uma função defensiva do ego diante das representações desprazerosas do recalcado (inconsciente). Assim, se alguém discorda desta ou daquela idéia psicanalítica — por mais bem fundamentado que sejam seus argumentos — é porque provavelmente se trata de uma pessoa emocionalmente perturbada, alguém que sofre de “dificuldades afetivas”. E como os ataques à psicanálise não demonstram senão a existência de resistências, funcionam como prova da validade da teoria analítica ela própria. Nesse sentido, a teoria da libido proposta por Jung, já que distinta da versão oficial freudiana, não é sequer debatida, mas cinicamente descartada como um sintoma neurótico de seu autor. Em segundo lugar, procurou-se mostrar que Jung expressou suas preocupações com o autoritarismo na psicoterapia, teoricamente, por meio da reformulação do conceito psicanalítico de resistência e da elaboração do assim chamado método dialético. Para ele, as resistências do paciente nem sempre são injustificadas; antes, podem provar que “a terapia está baseada em pressupostos falsos”. O terapeuta deve, portanto, ser capaz de reconhecer suas falhas. É exatamente este autoconhecimento que vai sustentar sua autoridade diante do paciente. Na prática analítica junguiana, o paciente é elevado à categoria daquilo que o sociólogo francês Bruno Latour chamou de “ator”. Este se define como obstáculo, escândalo, como algo ou alguém que suspende a superioridade, que incomoda a dominação. Latour denomina “recalcitrância” esta capacidade de ação de um ator. Pode-se finalmente afirmar que a versão de resistência proposta por Jung abre a possibilidade para que este fenômeno seja entendido não apenas com uma dificuldade do paciente, tal como Freud o concebia, mas também como uma atitude legítima sua (recalcitrância) diante da postura equivocada e, em certos casos, autoritária do terapeuta.

9 - Saúde Mental II


O erudito que não tem o gosto de olhar ao seu redor (...) merecerá talvez a designação de antiquário e agirá sabiamente ao renunciar à designação de historiador” (Marc Bloch).



PÁTIO VAZIO E PORTÕES FECHADOS: O FUTURO DE UMA INTERVENÇÃO
Alessandra Carvalho

Psicóloga, especialista em Saúde Mental e Psiquiatria IPUB/UFRJ

Ana Paola Frare



Psicóloga, mestre em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ, conselheira suplente e integrante da Comissão de Orientação e Ética do CRP-05

Cátia Cristina Lima Pereira



Psicóloga, Pós-Graduada em Saúde Pública pela Universidade Estácio de Sá, e em Gestão de Saúde Mental pelo IPUB/UFRJ

Carla Silva Barbosa



Psicóloga, mestranda do Programa de Educação e Políticas Públicas UERJ, conselheira suplente e integrante da Comissão de Orientação e Ética do CRP-05

Fabiana Castelo Valadares



Psicóloga, mestranda do PPGPS/UERJ, conselheira efetiva e integrante da Comissão de Orientação e Ética do CRP-05

Franciele Almeida



Psicóloga, com especialização em Psicologia e Imaginário pela PUC/RJ

Nilton Moreira Cardoso



Psicólogo, com especialização em Dependência Química pela Universidade Cândido Mendes e especialista em Psicologia Jurídica CFP

Pedro Cattapan



Psicólogo, mestre em teoria psicanalítica IP/UFRJ e doutorando em Saúde Coletiva IMS/UERJ

Shirley Dilma da Silva



Psicóloga com especialização em Psicopedagogia e Saúde Mental pela UFRJ

Cynthia Campagnuci Ferreira



Psicóloga, com especialização em Psicologia do Trânsito e coordenadora das casas de passagem de Paracambi
Sediada em Paracambi, a Casa de Saúde Dr. Manoel Eiras (CSDE) foi fundada na década de 60. Atualmente sob processo de Intervenção, já foi considerado o maior hospital psiquiátrico privado da América Latina, chegando a hospedar mais de três mil internos. Sabemos que a data de sua fundação reflete as Políticas Nacionais de Atenção ao doente mental, onde dados oficiais apontam que o credenciamento de leitos em hospitais privados constituía a segunda maior fonte de despesas, em termos de saúde pública, no Brasil. Os primeiros questionamentos que possibilitaram a rediscussão do tratamento do louco na sociedade brasileira datam já da década de 1960. Tais questionamentos passaram a condenar o asilamento e a exclusão da loucura como formas de tratamento. Pode-se pensar a Intervenção, iniciada na CSDE em 2004, como um fruto deste contexto. Essa Intervenção é precedida de um processo que se iniciou em 1991 através de denúncias sobre a precariedade da assistência e desrespeito aos direitos humanos. Em 2000, o Poder Público descredencia o Dr. Eiras para novas internações e constitui uma Equipe de Apoio Técnico (com trabalhadores de saúde mental ligados à Assessoria de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro) visando à retirada dos pacientes lá internados. Ainda sob administração privada, essa ação se deu de forma bastante eficaz, apesar dos entraves ocasionados pela não-autonomia gerencial da instituição. Finalmente em 17 de junho de 2004 a Intervenção é estabelecida efetivamente através do decreto nº 1269 da Prefeitura Municipal de Paracambi em conjunto com a Assessoria Estadual de Saúde Mental e o Ministério da Saúde. Nesta época mais de 1100 internos oriundos de diferentes municípios do Rio de Janeiro e de outros Estados ocupavam leitos distribuídos em 16 pavilhões, que mais fazem lembrar estábulos por sua estrutura completamente desumanizada. A partir de então, a gerência administrativa, bem como a direção técnica, passam a ser de responsabilidade do Poder Público. Neste tempo, são acionados trabalhadores de Saúde Mental para a retirada responsável dos pacientes e para a melhoria da assistência, enquanto a saída destes não se efetiva, atuando junto aos mais de 500 funcionários que já faziam parte do quadro da Casa. Os desdobramentos da Intervenção, entretanto, não se resumem ao destino dos pacientes lá internados. É notório o impacto que a CSDE possui em Paracambi, não só por ser um dos maiores empregadores do município, mas também pelo efeito simbólico provocado no tecido social da região, já que em grande parte a cidade se organizou a partir dessa instituição. Se na data de sua fundação, a CSDE era considerada geograficamente “isolada”, hoje o entorno já é bastante habitado. Deste modo, fica contextualizado que a Intervenção na CSDE inscreve-se não só no cotidiano da cidade de Paracambi, como também na própria luta contra os manicômios, que tem como principal desdobramento a efetivação de novas Políticas Públicas de Saúde Mental, refletindo diretamente na condição dos pacientes que ainda se encontram internados. Como parte dessa ação, em agosto de 2005, uma equipe de psicólogos e enfermeiros foi convidada a trabalhar na coordenação dos pavilhões, visando a reinserção dos pacientes na sociedade, bem como a promoção da assistência adequada possível naquelas condições aos pacientes que ainda estão sendo trabalhados para alta. Atuando no âmbito intra e extra-hospitalar, a equipe busca o desmantelamento desse dispositivo através da construção e da efetivação de projetos terapêuticos individualizados, visando não somente a desospitalização, mas a reinserção social do paciente. O papel que cabe a esses psicólogos é o foco de nossas questões. Trabalhando sob a urgência de desconstruir mecanismos manicomiais, nos deparamos com uma instituição total, que funciona com todos os agouros do hospício, já enunciados pela própria existência do dispositivo. O que é intervir em um hospício? Como se atua em uma instituição que prescinde das subjetividades e promove a massificação dos sujeitos? Como fechar um dispositivo com a urgência devida sem incrementar outros do mesmo molde? Em uma instituição onde a prescrição impera, ditando normas de conduta, modos de existir e rotinas de trabalho que de um modo geral legitimam práticas de exclusão, buscamos a inscrição da diferença como contraponto na forma de atuar. Inscrição da diferença que se traduz na possibilidade dos funcionários operarem num registro de que cada interno das 11 unidades ainda restantes tem uma história, uma subjetividade. E ainda inscrever a possibilidade de retorno destes ao convívio familiar, e para as famílias a possibilidade de uma nova significação da doença mental. Para tanto, contamos com os novos dispositivos de saúde mental, apostando que essa atenção pode e deve se dar sem as mazelas do hospício. Desse modo, nosso olhar não se resume a um “especialismo”, mas aponta para uma especificidade que transcende a própria atuação, a certeza de que cada um é único, ímpar. Romper com a prescrição do que deve ser, para entrar no registro da aposta em cada sujeito. É a partir desse olhar que construímos cotidianamente nosso trabalho, e foi com esse olhar que possibilitamos, auxiliamos ou assistimos a construção de mais de 100 novas histórias a partir da saída desses sujeitos da CSDE. Por ser um trabalho que se reinventa a cada dia, impera a necessidade de constante reflexão das práticas e das políticas implicadas na ação desta Intervenção. E é com essa visão que apostamos na retirada, o mais breve possível, dos outros 623 pacientes que ainda se encontram na CSDE, com a convicção de que os que ainda estão lá possam inscrever-se como sujeitos, e que somente a desinstitucionalização permite a construção de novas possibilidades.
UMA REFLEXÃO ACERCA DOS SABERES PSI NA SAÚDE COLETIVA: DO INDIVÍDUO AO SOCIAL
Elisângela Aparecida Batista Sudré

Psicóloga, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora e especialista em Política Pesquisa em Saúde Coletiva.
No intuito de contribuir para uma discussão mais ampla em direção às mudanças na preparação dos futuros profissionais no campo da Saúde Coletiva, o presente trabalho  parte das reflexões do Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização Política e Pesquisa em Saúde Coletiva do Departamento de Ciências da Saúde/UFJF  pretende propor um recorte sobre como vem sendo discutida e analisada a Psicologia enquanto ciência e profissão no campo da saúde. Neste sentido, buscaremos respaldo no campo da Saúde Coletiva no qual encontraremos aportes em conceitos oriundos das Ciências Sociais e da Antropologia da Saúde. As rápidas modificações exercidas durante o século XX, impulsionada pelo o avanço das tecnologias e as rápidas transformações nas esferas da vida social e econômica, tiveram como conseqüência as desigualdades entre grupos sociais e sua fragilização. A partir de tais transformações, na passagem da década de 80 presenciou-se no campo da saúde a “crise da saúde pública” que esteve marcada pelas dificuldades de enfrentamento coletivo dos problemas da saúde em decorrência da crise econômica instalada neste período. Para a superação desta crise, era necessário um novo paradigma começando pela proposta da Nova Saúde Pública que idealizava saúde para todos, além da reavaliação das práticas tornando possível as discussões acerca das propostas de ação, coletivo e social. Tais discussões possibilitaram pontos de encontro entre a Saúde Coletiva e o movimento da Nova Saúde Pública tanto no campo científico como no âmbito das práticas, permitindo a superação desta crise e criando uma abertura para novas perspectivas paradigmáticas como a promoção da saúde. A Saúde Coletiva nasceu da crítica à saúde pública tradicional que mantinha semelhança com o modelo biomédico na década de 1970. Surgiu através de profissionais oriundos da saúde pública e da medicina preventiva, que procuraram fundar um campo científico com uma orientação que privilegiasse o social como categoria analítica. Movimento este, que vem contribuindo para a construção do Sistema Único de Saúde (SUS) e ao mesmo tempo enriquecendo a discussão em torno do processo saúde/doença. No campo psi, são relativamente recentes as discussões a respeito do papel da psicologia em relação aos diferentes níveis de atenção na saúde pública, sendo, as discussões, quase que exclusivamente pautadas nas ações de Saúde Mental. Com as modificações existentes no sistema de saúde, a psicologia bem como as demais profissões consideradas da área dita saúde, que praticamente eram absorvidas somente em instituições ambulatoriais e hospitalares, passaram a serem incorporadas na Saúde Coletiva.Tais modificações favoreceram outras profissões que, de certa forma, foram integradas a todo o sistema de saúde pública, em instituições nas quais não haviam tradição de trabalho em equipe. Tornando-se possível, principalmente por todo movimento que surgiu especialmente a partir da VIII Conferência Nacional de Saúde (1986) e toda a mobilização social realizada pelos segmentos progressistas da área, para que se chegasse a um Sistema Único de Saúde que pudesse vir a possibilitar uma atenção integral às ações de saúde. Mudanças recentes na forma de inserção dos psicólogos no campo da saúde e a abertura de novos campos de atuação introduzem transformações qualitativas nas práticas que requerem, por sua vez, novas perspectivas teóricas. Embora a psicologia esteja relacionada com o conceito de saúde definida pela OMS – Organização Mundial de Saúde, ela chega de forma “tímida” procurando ainda definir seu campo de atuação, sua contribuição teórica efetiva e as formas de incorporação do biológico e social ao fator psicológico, na tentativa de abandonar os enfoques centrados em um indivíduo abstrato e a-histórico tão freqüente na psicologia clínica tradicional. Mas, foi a partir da década de 1980 que a psicologia passou ocupar um lugar expressivo no setor saúde, principalmente na região sudeste, devido às várias mudanças no contexto político e social da época. Logo em 1986, ocorreu a VIII Conferência Nacional de Saúde onde se definiu a Reforma Sanitária Brasileira e em 1987, aconteceu a I Conferência Nacional de Saúde Mental – CNSM, trazendo em seu bojo a implantação das equipes multiprofissionais, na tentativa de reverter o modelo assistencial organicista e medicalizante, favorecendo uma visão integral do sujeito, permitindo assim, um lugar para a instucionalização da psicologia enquanto saber na área da saúde. Contudo, observa-se ainda algumas dificuldades na inserção destes profissionais, atuando objetivamente junto às necessidades detectadas nos serviços, principalmente nas Unidades Básicas de Saúde–UBS. Estas dificuldades estão relacionadas ao modelo hegemônico que a psicologia clínica vem ocupando desde a institucionalização da profissão, atuando dentro de um “espaço protegido” da clínica individual. Além da implantação das equipes multiprofissionais, outro fator que contribuiu para a entrada do psicólogo no campo da saúde foi a grave crise econômica e social ocorrida no Brasil na década de 80. O mercado de trabalho dos atendimentos psicológicos privados mostrava-se cada vez mais limitado e estava difícil absorver o número crescente de profissionais que saía das universidades. Por outro lado, a Psicologia vinha sendo alvo de inúmeras críticas por parte não só da categoria, sendo freqüentemente identificada como uma atividade de luxo, impregnada de um forte conteúdo ideológico individualista e despreocupada com os problemas sociais. O descompasso da categoria de psicólogos em relação à realidade social do país, impulsionou a realização de inúmeros trabalhos na década de 80, buscando uma avaliação da situação, das perspectivas profissionais e de alternativas de cunho social. Há efeitos subjacentes no que tange à categoria da cultura individualista, efeitos sobre as instituições sociais e culturais. Por exemplo, a crise ética do capitalismo que propicia a interiorização para o mundo das relações socioculturais, de valores originados na racionalidade do mercado, tais como: competição (lei da vida social) sucesso (vitória pessoal e exclusão do outro; individualismo (centro da vida social); lucro (vantagens sobre os outros); consumismo (ter como expressão máxima de ser). Assim, é importante observar que as dificuldades encontradas nos serviços públicos dizem respeito à diversidade cultural entre psicólogos e usuários. Diz respeito ao fato de os profissionais psi estarem norteados pela representação do sujeito psicológico, aquele constituído e marcado pelas concepções individualista e pela privatização dos sentimentos, enquanto que a população tem como base cultural uma visão de mundo holística, oposta ao modelo individualista. As reflexões que a sistematização de um trabalho cotidiano na instituição possibilita, indicam que devemos buscar mudanças urgentes no que se está oferecendo junto à formação profissional. É necessário que possibilite, ao graduando, a oportunidade de trabalhar de forma mais comprometida e pautada na realidade social. O estudante precisa ser sensibilizado para perceber a área da psicologia como prática socialmente articulada dentro das instituições. Para tanto, percebemos que isso envolve a integração das ciências humanas para a compreensão do homem na sociedade.


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