Universidade do estado do rio de janeiro


LETRAS E VOZES NA “OPERAÇÃO HISTÓRICA”  POLÍTICAS DE SUBJETIVAÇÃO EM ARQUIVISTAS, ATIVISTAS E ACADÊMICOS



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LETRAS E VOZES NA “OPERAÇÃO HISTÓRICA”
 POLÍTICAS DE SUBJETIVAÇÃO EM ARQUIVISTAS, ATIVISTAS E ACADÊMICOS

Heliana de Barros Conde Rodrigues

Daniel Maribondo Barbosa

Amanda dos Santos Gonçalves

Aline de Araújo Gonçalves da Cunha



Camilla Martins de Oliveira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
O chamado “movimento moderno” da história oral parece corresponder, em suas vicissitudes, à célebre frase do historiador Jean Chesneaux: “O passado é uma zona arduamente disputada”. Caso caracterizemos esse movimento segundo a tradicional partição em três “As”  Arquivistas, Ativistas e Acadêmicos , poderemos perceber que mais do que simplesmente veicular determinadas perspectivas historiográficas  história política (ou positivista), história vista de baixo (ou dos vencidos) e história da memória, respectivamente , cada um desses momentos-vertentes estabelece uma singular política de subjetivação, imanente à forma como ali se concebem o escrito e o oral e/ou ali se define a eventual relação entre letras e vozes. Neste sentido, o presente trabalho explora as principais notas distintivas desses três momentos-vertentes, no intuito de promover o estabelecimento de um diálogo entre os historiadores da psicologia que recorrem à história oral em suas investigações e os estudiosos que, na esteira do pensamento de Michel Foucault, Gilles Deleuze e Felix Guattari, entendem a subjetividade como inteiramente produzida/fabricada no registro do social (ou sócio-histórico). Partindo dos trabalhos de Allan Nevins na Universidade de Columbia nos anos imediatamente subseqüentes à Segunda Guerra Mundial, o texto passa pelas críticas militantes a ele dirigidas durante a década de 1960 e primeira metade dos anos 1970, até atingir o período de academicização da história oral, datado do final da década de 1970, quando, através de encontros internacionais, definem-se com maior clareza os “pontos polêmicos” que conferem singularidade ao uso de depoimentos orais em pesquisa histórica. A cada um desses momentos-vertentes, são explicitados os modos de subjetivação correspondentes, entendidos tanto no âmbito do engendramento de “posições” de sujeito e objeto do saber histórico, quanto, em termos mais generalizáveis, no âmbito do engendramento, mediante a “operação histórica” (conforme a entende Michel de Certeau) de tecnologias de produção de subjetividades. Uma abordagem particularizada dos percursos recentes da história oral no Brasil conclui o trabalho, priorizando, como elementos de análise, o controle dos discursos durante a Ditadura Militar, os “novos personagens que entraram em cena”, segundo a expressão de Eder Sader, no período de redemocratização, e as formas de ingresso da história oral na Universidade. Nesta apreciação do contexto brasileiro, são também abordadas as diferentes políticas de subjetivação, conforme anteriormente caracterizadas, acrescentando-se porém, como campo de análise, as relações atualmente vigentes entre psicólogos e historiadores no que tange à problemática da presença do “sujeito” na “história”. Neste último aspecto, por sinal, as políticas de subjetivação reaparecem, associadas a pétreos “campos disciplinares” que delimitam monopólios de legitimidade sobre os discursos e, conseqüentemente, em nada favorecem uma efetiva interferência entre diferentes saberes e práticas. (CNPq; UERJ).

FOUCAULT, GUIBERT, KAFKA, BROD: OS AMIGOS, O SOLITÁRIO, O INFIEL – TRAÇOS DE UM LEGADO AO LEITOR
Antônio Carlos Cerezzo

Programa de Pós-Graduação/IPUSP
Em 1990, Hervé Guibert lançou “Para um amigo que não me salvou a vida”, onde apresentou, como um diário sem rigor cronológico, seu primeiro contato com a aids. Destaque para dois personagens. Bill, a quem se deve o título do livro, que lhe prometera  e depois desistiria , incluí-lo em uma pesquisa de vacina; e Muzil, na verdade, Michel Foucault, cujo contato com Guibert, apresentado nesse livro, fornece um relato sem igual da relação daquele com a aids. De conclusivo, a certeza de que Guibert se sentia mais vivo quando escrevia. Quase setenta anos antes, Franz Kafka deixa ao amigo Max Brod a incumbência de destruir todos seus escritos que até então não haviam sido publicados, e impedir republicações. Distantes no tempo, e em situações tão diferentes, esses dois relatos têm em comum a relação de quem escreve com seus escritos. É disso que aqui se trata: o escrito é expressão direta e inequívoca de quem é o escritor?; cabe respeito à relação entre um escritor e seus escritos como na forma de uma posse?; e qual o lugar do leitor nessa relação?; caberia, enfim, a noção de herança em relação aos escritos? Segundo Guibert, para Muzil o problema era o nome: “Ele queria apagá-lo”. Instância da marca definitiva, aquela que sempre se irá carregar, e a qual tudo que nos pertence, ou que nos é delegado como posse, será então referido, o nome encerra aquele a quem se o atribui. Daí o testamento, aquilo que resta de uma vida para todas as outras que dela ainda poderão fazer uso, e as estratégias para driblar os efeitos do legado, conforme fez Muzil, que, como testamento, deixou seus manuscritos a seu cônjuge, evitando que seu trabalho ficasse sob controle da família, e a proibição de que aquele fizesse qualquer publicação póstuma. Ainda assim, Muzil chamou Guibert na véspera de uma viagem, mostrando duas pastas com papéis, e pediu-lhe que as destruísse caso algo lhe acontecesse. “Respondi que seria incapaz de fazer tal coisa e, portanto, declinava o seu pedido”, respondeu. Kafka teve a maioria de sua obra publicada após morte. Em vida, Brod foi o responsável, por insistência, pela publicação. Porém, algum efeito de satisfação se produzia em Kafka ao ver seus livros prontos. Como um leitor que se satisfaz ao ver um livro, ou encontra um de quem gosta, esse regozijo aponta para uma dimensão pouco explorada de Kafka, a do leitor de si mesmo  Kafka costumava ler seus escritos em voz alta. Parece que, desatrelado de quem o produziu, visto como algo diferente do “autor”, seu escrito retornava a ele um gosto, como se para Kafka o que escrevesse fosse primeiro em relação a ele próprio, o nome secundário à obra. Uma vez morto, contudo, seus escritos, sobrevividos à morte do escritor, estariam definitivamente vinculados a seu nome, e sem que ele próprio pudesse se satisfazer. Sua escrita, sua “luta pela autopreservação", funcionava em um misto de fuga e enfrentamento: impossibilitado de se colocar de modo para ele satisfatório frente ao que dele e nele demandava algo, é na escrita que expressa seu sentimento em relação a elas, sua dificuldade em lidar e sua única e possível forma de agir. Como Guibert, para quem a escrita tornou-se companhia, Kafka se prende à sua mesa de trabalho como salvaguada, pois “o escritor jamais deve afastar-se dela, deve agarrar-se a ela com todas as suas forças, se não quiser enlouquecer”. Enfim, talvez tenha sido sua história enquanto legado – portanto, passível de uso e manipulação – que Kafka tenha querido apagar quando pediu a Brod que queimasse seus escritos. Por outro lado, ter pedido exatamente a ele, alguém que já demonstrara sua adoração, guarda a exata medida do que Kafka queria: sabendo que Brod não destruiria, e das imprecisões que seus “rabiscos”, como ele mesmo chamava, continham, de modo que dificilmente poderiam ser publicados como estavam, seria necessária uma ajuda, uma organização por outro, tarefa da qual o próprio Max daria conta. Assim, ao pedir que ele queimasse tudo, tornava possível exatamente o que desejava: eximir-se do peso da obra, descolar-se como autor e saber seus escritos, de alguma forma, plenos do jeito que os pensara, sentira e executara, à mercê de todos aqueles que, doravante, se disporiam a enveredar por suas verdades, por seus labirintos, mesmo os mais sem passagens secretas e sem dificuldades de percurso conforme deixados por Brod, e tentar revelar o Kafka por trás do Kafka, a obra por trás do escrito, o autor por trás do escritor. Brod certamente não era um ser repugnante; Bill talvez o tenha sido em relação a Guibert. Porém, se ao segundo coube retirar Guibert do lugar ficcional da salvação que lhe prometera, fazendo-o retornar à vida tal qual agora se apresentava, ao primeiro restou o “ato de traição” ao pedido do amigo, e, com ele, a herança, para nós, da maior parte da obra desse escritor. Se, por seu ato, Bill restitui a Guibert uma companhia em vida pelo ato da escrita, Brod a Kafka concede o registro da obra após sua morte, e com ela, vida aos manuscritos que desejara fossem destruídos. Se a aids não conseguiu atingir propriamente o escritor Guibert, é a morte, em Kafka, que, ao atingí-lo, tornou possível sua obra como materialidade que se dá a público. E, por tabela, sua própria vida ganha vida, dado ser aquela, a obra, autobiográfica. Ao não lhe queimar o que restava, Brod restituiu vida a vida de Kafka e à obra, a grandeza que lhe foi reconhecida. Talvez por isso tenha Kafka legado ao amigo a tarefa de destruí-la: só assim lhe foi possível tirar o peso da própria vida, e sabê-la, doravante, existente por si. Reconciliação do autor com a obra, do escritor com a vida: “Tudo é pechincha na vida. A morte é reconciliação”. (CAPES)

A HISTÓRIA DA PSICOLOGIA E A

PSICOLOGIA NA HISTORIA
Thiago Sousa Felix

UNIFOR Daniel Maribondo Barboza

UERJ
A interdisciplinaridade se configura como um dos grandes desafios para os profissionais e cientistas de vários centros e campos do conhecimento humano. É sabido que os saberes foram, muitas vezes, sistematicamente divididos e especificados a fim de ser oferecido um serviço mais qualificado ou mesmo para efeito didático nas escolas e academias. A Psicologia, como saber e como ciência, vem buscando o diálogo com profissões da saúde e a parceria com pensadores das ditas Ciências Humanas, por exemplo. No campo da História isso não é diferente. Não obstante essa ciência lance mão da análise psicológica de personalidades e de populações submetidas a realidades políticas, psico-sociais e contextuais específicas, a Psicologia utiliza métodos e teorias historiográficas para dar conta da história de sua própria ciência. Assim, a Psicologia se configura como importante instrumento para o historiador e, no caminho inverso, a História contribui para o auto-conhecimento da Psicologia como ciência e saber historicamente construído, permitindo-lhe, também, a autocrítica e a conseqüente e necessária mudança contínua. Dentre os legados que a História proporcionou para análise histórica da Psicologia figura a História Oral. Ela possibilita um tratamento especializado com o material coletado e observado na fala de alguns dos sujeitos envolvidos no processo de formação e criação dos espaços de desenvolvimento e de prática da psicologia. Quanto aos espaços que se configuram como sendo objeto de estudo desse método, destacam-se as instituições de ensino superior, as associações profissionais e teóricas, os sindicatos, as agremiações estudantis, dentre outros. Revelam-se aí momentos históricos, atores sociais, fatos marcantes que definiram irreversivelmente os rumos da ciência tanto como agente investigador da realidade como agente transformador do mesmo. Acerca da metodologia que possibilitou esse estudo, pode-se observar o uso da teórico-conceitual que contou com a pesquisa bibliográfica de autores da área de História da Psicologia. A literatura nessa área, hoje farta em língua portuguesa, é profícua e surge, no caso do Brasil, em maior quantidade na região sudeste. Considera-se que a História das ciências ganha importância no momento em que permite ao teórico um olhar crítico sobre a visão e as construções de conhecimentos acumulados ao longo do tempo por um saber acadêmico, sistematizado e pretensamente científico. Esses saberes, inclusive, são arquivados e reconsiderados continuamente quando objetos da análise histórica e, se isso não tem aplicabilidade no contexto atual, se configura como referencial histórico de uma teoria ou abordagem que, de alguma forma, contribuiu para a conjuntura atual. A História das ciências é um meio viável de se ingressar na realidade originária e propulsora de cada ciência. Torna-se, assim um instrumento indispensável para que cada uma não estacione em questões dogmáticas, não deixando de lado, contudo, o rigor metodológico do qual a ciência não pode abrir mão. A Psicologia, que se configura como de recente história, não deve perder de vista o registro e a discussão contínua dos fatos que marcaram seu passado, e também não pode descartar todo o saber acumulado e constituído em espaços diversos e momentos remotos, que hoje concorrem como influências cada vez mais aceitas e necessárias para sua aplicação e construção.

A INVENÇÃO DO SOCIAL E A PSICOLOGIA
Irene Bulcão

Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro
Acreditando que é em um determinado arranjo social que se produzem as condições de possibilidade para a emergência de determinados campos de saberes e práticas, podemos dizer que o social não é simplesmente um campo de aplicação da psicologia, mas sim, aquilo que torna possível a própria constituição deste campo de conhecimentos. Mas que social é esse que possibilitou a emergência da psicologia? Ou ainda, a partir de que momento o social passa a ser formulado como um problema que requer um tipo de intervenção específica? As análises de R. Castel em “Metamorfoses da Questão Social” nos ajudam a construir esta resposta, ao afirmar que “o ‘social’ consiste em um sistema de regulações não mercantis” e defini-lo como “uma configuração específica de práticas que não se encontram em todas as coletividades humanas”. Castel inicia seu percurso descrevendo o que chamou de “Sociedade Sem Social”, que seria inteiramente regida pelas regulações de sociabilidade primária, isto é, por sistemas de regras que ligam os membros do grupo sem a intermediação de instituições específicas, tendendo a funcionar mobilizando seus próprios recursos. Neste modelo de sociedade, que pode ser chamada também de sociedade “assegurada”, “provida” ou de permanência”, funciona um sistema das solidariedades e das coerções da linhagem e da vizinhança. Da “desconversão” desse modelo de sociedade sem social é que emerge a problematização moderna do social, pois a auto-regulação não é mais capaz de resolver os desfuncionamentos da comunidade. Neste processo, o “social-assistencial” constitui-se como o objetivo se suprir de forma organizada, especializada, as carências da sociabilidade primária, visando assim afastar os riscos da desfiliação. Surgem intervenções especiais, nas quais o atendimento aos carentes torna-se objeto de práticas especializadas, e formam-se as primeiras instituições “sociais”, e, por conseguinte, um corpo profissional especializado que passará a se ocupar de tais desfuncionamentos. Temos, assim, a invenção do social enquanto um espaço problemático que implica um modo de intervenção que se distingue das relações informais entre os membros da sociedade. Esta primeira configuração do social se constitui tendo como pano de fundo a problemática formulada em torno do campo assistencial. Esboçava-se o projeto de uma “gestão racional da indigência” com a implementação de uma espécie de “serviço social local”, para o qual colaboram todas as instâncias que dividem a responsabilidade pelo “bom governo” das cidades. A assistência desenvolve-se e vê-se uma sofisticação progressiva dos recursos postos à disposição de seu projeto, isto é, uma especialização, uma institucionalização, uma tecnicização, uma profissionalização cada vez mais avançada a que se associam meios financeiros cada vez mais abundantes. Veremos se esboçar uma segunda configuração do social no momento em que surge um novo personagem neste cenário – o proletário – que coloca o problema de um novo tipo de relação entre a questão do trabalho e da pobreza. É a ausência de um mercado de trabalho que absorva a mão-de-obra dos que só dispõem da força de seus braços para sobreviver que suscita uma reformulação da “questão social” que ultrapassa o campo do “social-assistencial”, inscrevendo-se no centro do processo de produção de riquezas das sociedades capitalistas. Foi sob a forma do pauperismo que a “questão social” apareceu explicitamente. Num contexto onde a miséria e o pauperismo eram considerados anomalias do proletariado urbano e fruto de sua má formação moral, a intervenção social deveria então ser canalizada para a produção de efeitos amenizadores dos conflitos sociais, mantendo o status quo, a paz e a coesão social. Assim a “questão social”, em sua versão do século XIX, refere-se à “questão da reabilitação das classes trabalhadoras ‘gangrenadas’pela chaga do pauperismo”. É nesta segunda configuração que o social se torna, além de tudo, um objeto de conhecimento. Aí reside a principal diferença com relação à primeira configuração: a objetivação do social enquanto um novo domínio de saber. Foi neste contexto de transformações que se instauraram diferentes procedimentos de conservação e formação da população, e neste processo emergem os chamados “trabalhadores sociais”, que paulatinamente assumem a missão de “civilizar” o corpo social. Entre estes trabalhadores sociais o psicólogo, que pelo viés do fenômeno das multidões efetuou uma de suas primeiras aproximações na direção do social, paulatinamente começou a ocupar espaço nos aparelhos judiciário, assistencial, educativo, entre outros.

8 - Temas Historiográficos III


A historiografia (quer dizer, história e escrita) traz inscrita no próprio nome o paradoxo (...) do relacionamento de dois termos antagônicos: o real e o discurso” (Michel de Certeau).



QUANDO O ISLAM ESTUDA FREUD
Alexandre de Carvalho Castro

Karima Hussein


Uma pesquisa acadêmica no campo da Psicologia tem limites e limiares claramente definidos por uma prática já institucionalizada há anos. Dessa forma, até mesmo a típica chamada para apresentação de trabalhos em congressos deixa claro que os nomes dos autores precisam estar vinculados às devidas instituições e agências de fomento. De igual modo, os sujeitos da pesquisa e os métodos também precisam ser delineados com clareza. No entanto, quando o objeto de estudo circula por translúcidos lugares de alteridade nem sempre é possível fixar nitidamente um olhar nos “outros” da psicologia. Afinal de contas, o que dizer da situação de uma pesquisadora estrangeira que, ao apresentar um estudo em co-autoria no Brasil, precisa necessariamente usar de um pseudônimo para não sofrer qualquer sanção decorrente de uma emissão de fatwa por um cádi ao regressar ao seu país de origem? De fato, diante de alguns “outros”, não é possível a uma mulher sequer usar da palavra, quanto mais pesquisar. Situação que fica pior ainda quando se trata desse ambivalente objeto do saber: a Psicologia. O censo do IBGE, em 2000, registrou 27 mil muçulmanos no país, mas a Assembléia Mundial da Juventude Islâmica no Brasil (WAMY) diz que eles são cerca de 1,5 milhão. Controvérsias à parte, desde a década de 90, um fator se torna cada vez mais evidente: a crescente presença de estudantes islâmicos no ambiente acadêmico das ciências humanas e sociais no Brasil. E isso sem contar a criação da primeira Universidade Islâmica brasileira, fundada em 2004, em São Paulo. Esse horizonte, então, é que configura a relevância deste estudo, cujo propósito foi investigar as apropriações que o universitário de fé islâmica desenvolve, no Brasil, quando se depara com o estudo do pensamento freudiano. De acordo com os depoimentos colhidos, em uma metodologia de pesquisa preocupada acima de tudo em preservar a identidade dos entrevistados, verificou-se que quando, em sua trajetória acadêmica, um muçulmano estuda a psicanálise, ele se depara com um sistema de pensamento que à primeira vista se configura intransponível. A psicanálise, especificamente, e a psicologia de um modo mais geral, portanto, se configuram como questionamentos revolucionários que modificam por completo convicções antes tão bem fundamentadas. Diante desse contexto, o que a pesquisa verificou foi que a teoria freudiana, por um receio incomensurável de infringir preceitos religiosos, não é estudada em si mesma, mas através de mediações endógenas do próprio Islamismo. Mediações nas quais emerge mais precisamente o pensamento de um Imam (importante líder religioso). Isso porque, frente a Freud, um dos autores islâmicos mais célebres foi o Imam Ruhullah Musawi al Jomeini, que com seu livro “O combate supremo: A luta contra o Ego”, divulgou aspectos do pensamento psicanalítico no Oriente Médio. A obra é basicamente uma transcrição de discursos feitos em Naÿaf, entre 1964 e 1978, na escola teológica shiiat Ali (dos seguidores de Ali, ou seja, “xiita”, conforme termo mais difundido no ocidente). Originalmente escrita em “farsi” (dialeto persa), foi traduzida logo depois para o árabe, idioma de maior difusão, pois os ensinos eram voltados principalmente para os muçulmanos que residiam fora dos países islâmicos e que, presumivelmente, seriam mais vulneráveis às seduções do mundo ocidental. Nesse sentido, al-Jomeini se apropriou de Freud para travar uma luta contra as tentações do Ego e alertar os jovens muçulmanos de que os prazeres mundanos não trazem o benefício eterno e a recompensa de Allah (STW). Com base em Freud, al-Jomeini defendeu também que as energias sexuais (especialmente a dos jovens) precisavam ser liberadas através dos instintos, conquanto enfatizasse que na ausência de uma legitimidade religiosa, o jovem muçulmano devia investir essa energia pulsional em alguma idéia ou projeto louvável. Em suma, prescrevia a sublimação dos instintos. Para tal, o Imam recomendava e admoestava a paciência, uma das virtudes mais enfatizadas na fé islâmica, chegando o Quran a citá-la mais de cem vezes. Muito embora aos olhos das sociedades psicanalíticas ocidentais a obra do Imam Ruhullah Musawi al Jomeini possa ser considerada como eminentemente religiosa e, para uma vertente dentro do Islam, pareça um ponto de apoio aos muçulmanos ao redor do mundo, alguns outros olhares foram mais rígidos. No limiar da Revolução Cultural Islâmica, o Ministério dos Bens Religiosos censurou centenas de livros islâmicos que defendiam um conhecimento que não fosse baseado na Revelação, pois todas as questões referentes à origem e à essência humana deveriam retirar suas respostas do Quram. Dessa forma, “O combate supremo: A luta contra o Ego”, por tratar de assuntos relativos aos desejos humanos e à satisfação dos instintos, caiu no crivo da censura e o Imam al–Jomeini foi executado na guilhotina da repressão iraniana de 1979. Sua obra, contudo, apesar de proibida, pode ser obtida por estudantes islâmicos em países onde a censura não tem tanta força. Esta pesquisa constatou que, no Brasil, alguns conseguem cópias xérox do texto em árabe e as repassam, uns para os outros, de maneira sigilosa e criativa. Principalmente porque o material disponibilizado em inglês, na Internet, contém muitos cortes que excluem Freud totalmente. O fragmento em espanhol, particularmente, é tão alterado que chega a confundir, na apresentação do tradutor, o Iman al-Jomeini com o seu homônimo, o Aiatollah al-Jomeini (Khomeini, conforme uso mais freqüente no Brasil). A pesquisa sobre os diferentes tipos de “outros” com que a psicologia se depara em sua trajetória em terras brasileiras permite, portanto, identificar um “Freud al-jomeiniano”, invisível para os olhares hegemônicos, mas muito claro para estudantes islâmicos que buscam nele uma mediação para transpor limiares e interditos, num mundo onde estudar psicologia pode ser perigoso e o pensamento Freudiano é concebido dentre os mais terríveis desastres com que a humanidade já se deparou.

 
ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO COMO PRÁTICA DE FRONTEIRA


Maria Luisa Sandoval Schmidt

Instituto de Psicologia – USP
A comunicação oferece um recorte interpretativo da história do Serviço de Aconselhamento Psicológico (SAP) do Instituto de Psicologia da USP, fundado em 1969. O contexto mais amplo deste recorte é um modo de ler e definir a prática de aconselhamento psicológico que foi se configurando, na interlocução continuada da equipe do serviço, com a sustenção da filosofia e da antropologia. Ou, dito de outra maneira, aquele de um longo processo de apropriação e atribuição de significado às idéias germinais de Carl R. Rogers e aos modos de fazer e pensar oriundos da Abordagem Centrada no Cliente, recriados na esfera de uma equipe e de um serviço de extensão pertencentes a uma universidade pública brasileira, processo esse que pode ser visto como um exemplo da dinâmica, simultaneamente ou paradoxalmente, construtiva e destrutiva do contato com a teoria consagrada e com a chamadas “influências” estrangeiras. A noção de fronteira mostrou-se fecunda em diferentes planos interligados: a) identificação do caráter problemático e problematizador do aconselhamento psicológico em relação à ordem disciplinar das áreas da psicologia, especialmente a partir da divulgação das idéias germinais de Carl Rogers; b) crítica da hegemonia do conhecimento científico por oposição aos saberes populares e ao senso comum; c) análise da dinâmica identitária e das representações sociais que se constituem na esfera institucional da profissão de psicólogo num território ocupado por muitas e diferentes teorias e abordagens, bem como naquela das relações entre profissionais, estudantes em formação e clientela de um serviço universitário; d) elaboração e legitimação de uma concepção de aconselhamento psicológico forjada nas continuidades e rupturas com as idéias de Rogers e com a Abordagem Centrada na Pessoa, num processo de apropriação, assimilação, ressemantização e invenção de elementos e temas da tradição da área. Neste processo destacam-se duas qualidades “fronteiriças” do aconselhamento psicológico praticado pelo SAP: o apelo ao estudo interdisciplinar, facilitando a crítica de discursos e práticas psicológicos pela presença de olhares “de fora” e visando a interpretação dos fenômenos sócio-culturais que se constelam nas demandas por ajuda psicológica; a interlocução com os saberes próprios da clientela. A metáfora do aconselhamento psicológico como região de fronteira enseja a visão de práticas de formação e de atendimento como tempos e espaços de trânsito e de mediação de identidades/alteridades, de inclusão e exclusão, do interior e do exterior, do passado e do presente, onde e quando algo pode aparecer, delinear-se, insinuar-se a uma certa distância das leituras classificatórias ou “classificantes”. A apropriação do conceito de fronteira para definir o aconselhamento faz surgir, também, seu caráter de abertura para a singularidade, diversidade e pluralidade das demandas da clientela, abertura à qual corresponde o esforço de responder às demandas considerando, por um lado, as dimensões psico-socioculturais das mesmas e, por outro, valendo-se dos recursos subjetivos, sociais e culturais da clientela. A ênfase, neste caso, recai no conceito antropológico de fronteira e sua fecundidade na análise da formação identitária, das representações e do caráter híbrido das práticas de aconselhamento psicológico em relação à lógica classificatória disciplinar das áreas de psicologia.




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