Universidade do estado do rio de janeiro


POLÍTICAS E METODOLOGIAS DE ATENDIMENTO A CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RUA



Baixar 1.01 Mb.
Página12/23
Encontro11.06.2018
Tamanho1.01 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   23

POLÍTICAS E METODOLOGIAS DE ATENDIMENTO A CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RUA.
Camila de Carvalho Meirelles

Paula Assaad Salloum Moreira



Universidade Federal Fluminense.
A pesquisa aqui relatada tem como tema central a avaliação das políticas e metodologias de atendimento destinadas a crianças e adolescentes em situação de rua no município de Niterói. Tínhamos como principal proposta avaliar a situação atual de programas e serviços sociais voltados para essa população, buscando verificar e avaliar a política de garantia dos direitos da criança e do adolescente prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente. Em parceria com o I Conselho Tutelar de Niterói, visávamos fazer uma intervenção nas políticas de assistência e na Rede Municipal de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente do Município de Niterói. Para tanto, realizamos visitas aos programas que compõem a referida rede de atendimento a esta população no município. A relevância social deste projeto foi o levantamento de informações para subsidiar a formulação e implementação de políticas de atendimento à população infanto-juvenil, bem como a reformulação das políticas já existentes. Os dados e as análises realizadas serão levados ao conhecimento da Rede Municipal de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente de Niterói, visando à restituição da pesquisa e à discussão das informações levantadas, buscando ainda a criação de novas políticas e estratégias de abordagem com essa população. Os métodos utilizados pelas instituições que recebem adolescentes em situação de rua são, muitas vezes, repressivos e moralizantes. Os relatos das instituições eram, em sua maioria, de briga constante com o tráfico de drogas e com os aliciadores, e de evasão dos adolescentes, apontando como principal atrativo para estes as facilidades, os ganhos e a suposta proteção que estes aliciadores lhes oferecem como recompensa. Desta forma, os adolescentes acabam fugindo das Casas de Passagem, não aderindo a programas como o PETI, que oferece apenas 40 reais mensais como bolsa-auxílio, além de não permanecerem na escola, o que dificulta ainda mais o trabalho de abordagem, pois alguns programas exigem que as crianças estejam matriculadas na rede regular de ensino para recebê-las. Ao se depararem com a discrepância entre o que é oferecido pelos serviços do município, a vida nas ruas e as demandas do tráfico drogas, muitos destes adolescentes têm sido mais atraídos pela segunda opção. A discussão dessa questão engloba tanto políticas de educação, como as de segurança pública. Vale ressaltar que a inserção destas crianças nas ruas e no tráfico não ocorre de forma rápida, nem tampouco se trata de uma questão de preferências individuais, mas de um processo que ocorre de forma gradativa na vida destas crianças e, portanto, deve captar a atenção do poder público. Pudemos constatar que há necessidade de desconstruir muitas verdades cristalizadas sobre a condição de vida desses adolescentes, sendo necessário ouvi-los, para poder oferecer-lhes algo que realmente lhes seja atrativo e supra suas necessidades. A lógica de atendimento dos serviços destinados a eles ainda lhes imprime um alto grau de periculosidade, remetendo a uma criminalização à qual os adolescentes pobres foram historicamente vinculados. Prática esta que atende a ideais burgueses de modelos familiares, responde a heranças deixadas na contemporaneidade, pelo higienismo do séc. XX e pelo poder disciplinar exercido sobre as minorias, bem como ratifica o controle e a tutela dirigidos às classes pobres da sociedade brasileira pelos profissionais destinados a ocuparem-se destes jovens. O Capitalismo neoliberal foi um importante agente produtor de uma subjetividade normativa e da sociedade de controle, que reforça o lugar da desigualdade social como produtora da violência entre jovens pobres e vincula pobreza e exclusão social à criminalidade. Todo este discurso produzido de forma histórico-política deu lugar a uma psicologia que, atendendo a estes mesmos ideais de classes, reproduziu práticas de exclusão, afirmando “verdades psicológicas” sobre jovens pobres e contribuindo para a manutenção de normas e comportamentos sociais ditos saudáveis/corretos. A psicologia, desta forma, intervém nestas práticas inserindo-se nos processos políticos atuais e desconstruindo as verdades que contribuíram historicamente para a produção de subjetividades disciplinares e controladoras. Nossa conclusão principal foi, portanto, a da urgência na reformulação das políticas públicas municipais, dando lugar a uma que não priorize apenas a eficiência de sua rede, baseada numa articulação interna que conta com banco de dados, impressão digital, foto digitalizada, precisão da idade cronológica para definir procedimentos jurídicos, enfim, tudo para melhor identificar e esquadrinhar os adolescentes. Pensamos que o mais importante a ser identificado são suas necessidades de cidadãos, que não se restringem à saúde, educação, alimentação e moradia, mas também incluem atenção, diversão, respeito e escuta do que o adolescente tem a dizer. Algo que contraria a lógica do atendimento até então prestado, que tem reproduzido violações de direitos, instituído proibições e um sistema de repressão com lógica de inquérito policial. Por fim, a atuação da psicologia se fez fundamental neste trabalho de intervenção, provocando rupturas e desestabilizações numa lógica de atendimento há muito endurecida e cristalizada, pautada numa produção de exclusão e distinção entre classes sociais. De acordo com nossa proposta, o trabalho foi feito de forma a inserir a psicologia nos processos políticos, retirando o profissional do lugar historicamente construído de especialista acrítico, e possibilitando novas formas de atuação para este profissional.

6 - História da Psicologia III


A história é decididamente muito importante para ser relegada aos historiadores” (Jean Chesneaux).



OS TESTES PSICOLÓGICOS NO MARCO DO IDEÁRIO HIGIENISTA
Durval Wanderbroock Júnior

Mestrando em Educação pelo Depto. de Fundamentos da Educação da UEM

Maria Lúcia Boarini



Professora e Orientadora pelo Depto. de Fundamentos da Educação da UEM
O objetivo do presente estudo foi o de compreender o espaço que os testes psicológicos ocuparam no ideário higienista entre os anos de 1914 a 1945, no Brasil. Embora a origem do higienismo como prática humana nos remeta a tempos remotos na história humana, nosso interesse esteve voltado ao movimento higienista moderno, cuja principal organização se deu por intermédio da Liga Brasileira de Hygiene Mental. Essa associação, composta por uma maioria de médicos de reputação intelectual consagrada, tinha como uma de suas principais metas cuidar, construir e proteger a Nação brasileira, entendida a partir de uma concepção radicada no princípio da hereditariedade. O lapso de tempo entre os anos de 1914 a 1945 correspondeu ao período entre as duas guerras mundiais, revelando, por si só, o nível de desarmonia social que vivia o mundo nessa etapa que marca a fase imperialista do capitalismo. No Brasil, essa desarmonia social descansou sobre o incipiente desenvolvimento industrial, a evasão do campo, o processo desenfreado de imigração e as precárias condições de habitação e pobreza com as quais a população foi obrigada a conviver. As lutas sociais se acentuaram com a organização da classe trabalhadora, com as revoltas militares, as tentativas de golpes e as rebeliões populares que criaram um ambiente de profunda instabilidade social. A Nação, a burguesia e o Estado dependentes, incapazes de dar respostas a esses fenômenos, deram lugar a diversas iniciativas sociais, dentre as quais destacou-se a ação em prol da higiene mental, custodiada pela Liga Brasileira de Hygiene Mental. A questão colocada, portanto, consistiu em saber quais alternativas os higienistas propunham para resolver os dilemas da época, e como os testes ajudaram nesse sentido. Para refletir sobre esse fenômeno, partiu-se do método de análise histórica, procurando localizar nosso objeto de estudo nas tramas históricas das quais o higienismo foi parte integrante. Buscou-se entender esse movimento no marco das relações sociais, econômicas e institucionais que caracterizaram a época, sem que isso significasse reduzir o fenômeno aos aspectos que lhes foram exteriores. Nossa principal fonte primária foi o periódico intitulado Archivos Brasileiros de Hygiene Mental, órgão oficial da Liga Brasileira de Hygiene Mental. Um dos aspectos que nos chamou a atenção foi a aplicação dos testes psicológicos que os higienistas fizeram em quase todos os domínios da vida humana onde isso foi possível. Dentre os mais importantes, destacaram-se as fábricas, o exército e o processo de seleção de imigrantes. Ênfase especial foi dada à utilização dessa ferramenta no âmbito educacional, particularmente nas escolas. Os testes psicológicos, nesse sentido, foram usados como parte do processo de higienização social que buscou, por meio dessa ferramenta, encontrar uma “escola sob medida” que pudesse dar um marco de contenção ao processo de desarmonia social pela qual o país passou. Outra reflexão levantada foi a do processo de segregação social realizada por essa concepção, o qual dividia a sociedade entre os “aptos” e “inaptos”, estabelecendo um critério que, ao contrário de eliminar, aprofundou a instabilidade social na medida em que estimulou a luta e a concorrência entre um setor e outro da sociedade.

CULTURALISMO E EVOLUCIONISMO SIMBÓLICO EM MANOEL BOMFIM
Filipe Boechat

Estudante de Graduação do Instituto de Psicologia da UFRJ

Pesquisa coordenada pelo profº Francisco Portugal – Depto. de Psic. Social/IP/UFRJ
Manoel Bomfim (1868-1932), autor sergipano, cuja originalidade e o gênio, toda uma tradição historiográfica acabou por ofuscar, ainda que recolha o reconhecimento de suas contribuições no tocante às ciências sociais e históricas (LEITE, 1976: 250), permanece um completo desconhecido àqueles que se dão ao estudo da ciência psicológica. Autor de A América Latina (1905), Através do Brasil (1910) – co-escrito por Olavo Bilac (1864-1934) – etc., bem como da trilogia composta por O Brasil na América (1929), O Brasil na História (1930) e O Brasil Nação (1931), sua escrita apaixonada rendeu-lhe o estigma da não-cientificidade e o conseqüente ostracismo intelectual. Assim, nos livros em que trata de problemas concernentes à Psicologia apresenta-nos teses bastante curiosas, na medida em que se distanciam demasiado da posição hegemônica do início do século XX – principalmente quando contrastado com o restante da intelectualidade brasileira. Segundo Bomfim, na medida em que “o espírito é a consciência em função social, como refracção activa de tudo que concorre na tessitura da sociedade”, o método experimental mostrar-se-ia um caminho “limitado, inseguro, suspeito e falho”. Além dos inúmeros trechos onde explicitamente embarga e impõe limites ao estudo do psiquismo pela introspecção controlada da consciência individual, sua ênfase no estudo da linguagem o aproxima do culturalismo nascente do século XX, distanciando-o do evolucionismo sociológico em voga. Daí sua afirmação de que “[a] vida do espírito tem um aspecto sensível, immediatamente apreciavel. É a linguagem”, que “não significa uma existência própria, ou atividade independente, se não o simples aspecto sensível do pensamento”, requerendo, por isso mesmo, o apoio à Psicologia dos recursos da Lingüística, da Estilística, da Sociologia e da História. Entretanto, socialista em tempos fascistas, contrário ao experimentalismo em Psicologia e ao Evolucionismo racial, Manoel Bonfim teve suas contribuições desprezadas – desprezo ainda mais evidente se se considera o fato de que não foram jamais reeditadas. É por essa razão que, adotando como referência principal a obra propriamente psicológica de Manoel Bomfim, nossa pesquisa teve como meta enumerar e esclarecer as causas e/ou os princípios que o autor identifica como sendo determinante da modificação das “tradições” ao longo do tempo. E, uma vez que as entende como o sistema de significações para organização e orientação dos indivíduos, implica nossa pesquisa em dar a razão daquilo que se convencionou denominar por “fenômeno histórico”. Nosso objetivo, dessa forma, consistiu em identificar e elucidar o princípio a partir do qual o autor pretende conferir inteligibilidade e unidade à multiplicidade apenas em aparência heterogênea dos conjuntos de normas que regulam a conduta dos indivíduos no curso do tempo, aquilo mesmo que se considerou tomar como tarefa própria da História enquanto disciplina. O desenvolvimento da pesquisa permitiu-nos perceber, por fim, que o autor referido, não obstante sustentar a idéia de que alguns povos encontram-se em maior nível de desenvolvimento que outros – devido ao maior grau de abstração de seus símbolos –, ao lançar mão do conceito de tessitura simbólica para explicar a unidade e a organização de determinados indivíduos, encontra-se em melhor situação para explicar os fenômenos sociais que seus contemporâneos – contentes em reportar-se ao conceito de raça para justificar a diversidade das organizações sociais.


INVESTIGANDO A NOÇÃO DE “RECURSOS HUMANOS”: PSICOLOGIA, ADMINISTRAÇÃO E SOCIEDADE NOS EUA DO PÓS-GUERRA
Pedro Chiappini

Mestrando em Psicologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da UERJ (UERJ/CH/IP/PPGPS). Graduado em Administração com Habilitação em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro (ESPM/RJ))
A noção de recursos humanos é um dos fundamentos da administração contemporânea. É comum encontrarmos uma substituição do termo recursos por pessoas, talentos, colaboradores, mas o que opera nessas substituições é o mesmo: o sujeito é tomado sempre como uma matéria a ser modelada e utilizada pela empresa em função de seus objetivos; ele é um insumo, tal qual um produto. É dessa forma que, aludindo a uma Era do Conhecimento (ver por exemplo, Sociedade Pós-Industrial, de Peter Drucker,), o recurso humano é colocado em patamar de importância igual ou maior do que as tecnologias: já que são seus conhecimentos e seus esforços que, capitalizados pela gestão, podem se tornar diferenciais competitivos e, no final, valor agregado. Assistimos, então, a uma revalorização do ser humano após longas décadas de abuso e depreciação nos taylorismos e fordismos? Antes fosse. Na verdade, a valorização acontece exatamente como transformação de toda e qualquer capacidade humana em recurso empresarialmente valioso, no processo já citado acima. O efeito disso ainda é um aprisionamento, em sentido foucaultiano, através da disciplinarização dos e nos processos de trabalho. No entanto, Deleuze, em um Post-scriptum sobre as sociedades de controle (na obra Conversações), faz uma afirmação um pouco mais próxima do que parece já acontecer em algumas empresas contemporâneas: além da disciplina, os trabalhadores pedem para ser motivados, formados, desafiados; eles vivem pela empresa. Seria, nesse caso, a produção de subjetividade, nos conceitos desejo e subjetividade de Deleuze e Guattari, na direção de um sujeito empresarial? Um trabalho arqueológico, segundo o praticado por Michel Foucault (ver A arqueologia do saber e As palavras e as coisas entre outros), seria interessante para desnaturalizar essa noção de recursos humanos, na sua constituição histórica, tendo em vista realizar sua crítica. Seria também bastante próprio ressaltar a participação dos saberes psicológicos nessa constituição, assumindo que estes teriam como alvo, de maneira geral, os sujeitos, individualizados ou não, segundo a abordagem de Farr (As raízes da Psicologia Social moderna). Assim, podemos tentar uma aproximação investigativa, que se orienta retrospectivamente e na interseção entre administração e psicologia, remetendo ao período Pós-Segunda Guerra (1955-1965) nos Estados Unidos da América. Apareceu-nos este período através de pesquisas na própria literatura administrativa, como a gênese na noção tratada aqui devido a três questões principais que merecem ser debatidas em conjunto. (1) Segundo Meireles e Paixão (Teorias da Administração) e Gareth Morgan (Imagens da organização), nessa época haveria uma intensa atividade de psicólogos e psicólogos sociais no âmbito das empresas. As principais referências, longe de serem as únicas, são A Psicologia social das organizações, de Katz e Kahn, e as pesquisas de Fredrick Herzberg e de Abraham Maslow sobre a motivação humana (no caso do primeiro, diretamente orientado para as empresas, no segundo, apropriado por elas). Outros autores exemplares são Dill Scott (psicologia industrial, aumento da produtividade), Hug Munsterberg (capacidades individuais para as tarefas), Harrington Emerson (princípios da eficiência), Elton Mayo (Escola de Relações Humanas, com Mary Parker Follet e Douglas McGregor, incluindo noções estudadas por Kurt Lewin, Eric Berne entre outros), e um grupo de pesquisadores, mais fora do que dentro das indústrias, comumente utilizados pelos administradores como teorias – e instrumentos – do behavior (Herbert Simon, Rensis Likert, Watson, Parkinson). Seria a época na qual a noção de recursos humanos começa a ganhar contorno e força na administração. (2) Além disso, no período considerado nos EUA, na passagem já adiantada de um taylorismo para um fordismo industrial (busca de produtividade, ganhos de escala, acesso às massas) o modelo de linha de montagem e a automatização crescente das fábricas já requeriam um novo empregado. Em outras palavras, entre em cena o que Thomaz Wood Jr chama de toyotismo: um fordismo flexibilizado e humanizado pela influência do “milagre japonês”. Acrescente-se a isso, como conjuntura sócio-econômica, o seguinte: durante a Guerra, com a produção voltada para problemas militares, houve um acúmulo de poder de compra, nos EUA e na Europa principalmente, ocasionando um grande potencial de aumento do mercado consumidor. Bastavam os produtos certos, feitos da maneira certa, pelas pessoas certas... (3) Por fim, François Châtelet, ao fazer uma História das idéias políticas, ressalta a indissociabilidade entre ciência e Estado no contexto ao qual nos referimos: “A partir dos anos 20, o Estado se torna o organizador do par saber/poder. Ele distribui o dinheiro, define os segredos, cimenta as hierarquias. A ciência e a produção formam uma coisa só, pois é única a cadeia que parte dos laboratórios (...) e leva às fábricas (...)”. Em uma análise rápida de obras como A revolução gerencial de James Burnham, O novo Estado industrial de John Kenneth Galbraith e Uma era de descontinuidade de Peter Drucker, não é difícil visualizar o entrelaçamento entre os interesses privados – notadamente industriais – e a história política, econômica e social dos EUA. No primeiro capítulo de sua investigação sobre As raízes da Psicologia Social moderna, Robert M. Farr afirma assertivamente: a Segunda Guerra Mundial propiciou um impulso ao desenvolvimento da Psicologia Social ao requerer soldados preparados e um processo eficaz de sua preparação. Já após a Guerra, o governo de Washington teria outro problema central: agora, não mais a formação de combatentes, mas onde trabalhariam os combatentes que então retornavam ao seu país, como empregá-los, como formá-los para que compusessem uma força de trabalho economicamente viável e relevante? É possível apontar alguma relação estratégica entre as questões colocadas, amarrando-as em uma pergunta: teria a noção de recursos humanos sido gerada pela interseção entre administração e psicologia, via mudanças nos modelos industriais / empresariais, no contexto de uma sociedade e de uma política específicas dos EUA do pós-guerra (1955-1965, mais ou menos)? Seguindo as pistas acima, pressupomos que sim. Mas, ao nos situar na arqueologia dos saberes, o problema que se trata aqui, na verdade é como isso aconteceu, como se deu o artifício recursos humanos? Como poderia e pode ser diferente? Também já existem pistas suficientes para iniciar uma discussão nesse sentido.

O SEMEADOR DE NOGUEIRAS QUE PLANTA EUCALIPTOS:

UMA ANÁLISE CRÍTICA DA BREVE EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO LUGAR DO TRABALHADOR E DO PSICÓLOGO ERGONOMISTA
Evie de França Giannini

(Psicóloga pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro / Mestranda em Psicologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social – UERJ / Ergonomista pelo Curso de Especialização Superior em Ergonomia – COPPE/UFRJ

)
A primeira definição de Ergonomia data de 1857, na égide do movimento industrialista europeu. Esta definição foi feita pelo cientista polonês Wojciech Jarstembowsky, sob uma perspectiva que entendia a Ergonomia como uma ciência natural, em um artigo intitulado “Ensaios de Ergonomia, ou Ciência do Trabalho, baseada nas leis objetivas da Ciência sobre a natureza”. Esta definição estabelecia que “a Ergonomia, como uma ciência do trabalho, requer que entendamos a atividade humana em termos de esforço, pensamento, relacionamento e dedicação”. Tal conceito leva-nos a crer que o enfoque dos estudos na Ergonomia de então seria o trabalhador. Mas as práticas historicamente datadas com relação aos ensaios científicos no campo laboral do século XIX e das primeiras décadas do século XX, como o surgimento da Escola de Administração Científica, de Frederick Winslow Taylor (1856-1915), e mesmo o (mau)trato reservado aos trabalhadores, vezes visceralmente descrito pelos escritores naturalistas de mesma época, como Émile Zola (1840-1902), não parecem confirmar a conclusão de que o trabalhador estaria no centro das atenções dos estudos relacionados ao trabalho. O centro era a produtividade. O trabalhador, o rotor deste centro economicamente nevrálgico, era o complexo que precisava ser compreendido para ser transformado e adaptado ao trabalho. Deste modo, também a Ergonomia, serviu-se como instrumento “cientificado” para perceber o homem e intensificar nele, e ao máximo, sua capacidade de trabalho, logo, sua produtividade. Em 1915 foi formado na Inglaterra um comitê destinado a estudar a saúde dos trabalhadores empregados na indústria de guerra, o Health of Workers Committee. Tal comitê formado por médicos, fisiologistas e engenheiros, basicamente, trabalhava com uma variedade de questões de inadaptação entre trabalho e trabalhadores e o enfoque das atividades desse comitê também recaía sobre o aumento da produtividade humana. Na Segunda Guerra Mundial foram formados, na Inglaterra e nos EUA, novos grupos interdisciplinares, agora com a participação de psicólogos somados aos engenheiros e médicos, onde a preocupação com a produtividade humana foi mormente direcionada aos interesses belicosos em voga. Estes grupos profissionais primavam por “elevar a eficácia combativa, a segurança e o conforto dos combatentes”, e seus estudos e práticas visavam tanto a adaptação de veículos, aviões e demais equipamentos militares às características físicas e psicofisiológicas dos combatentes, como levar estes “trabalhadores da guerra” a se adaptarem a situações de emergência e de pânico. Portanto, neste período, a Ergonomia contribuiu e se alimentou profundamente de dados e estudos de manutenção pró-guerra. Imediatamente após a Segunda Grande Guerra, adveio a “Ergonomia Clássica”, uma disciplina estruturada a partir dos mesmos grupos interdisciplinares dos tempos de guerra, mas agora voltados para a reconstrução de indústrias. A definição de Ergonomia adotada por estas equipes foi que “a Ergonomia é o estudo do relacionamento entre o homem e seu trabalho, equipamento e ambiente, e particularmente a aplicação dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução de problemas surgidos desse relacionamento”. Neste contexto, a preocupação com a “resolução de problemas” na esfera laboral tendeu a colocar uma vez mais – portanto, a manter – o homem como o rotor do trabalho. Em 1949, com Suzanne Pacaud, surge a “Análise da Atividade em Situação Real”, resgatada em 1955 por Obrendame & Faverge como “Análise do Trabalho”. Estes autores preconizavam que o projeto de um posto de trabalho deveria ser precedido por um estudo etnográfico da atividade e, com isso, admitia-se a necessidade de olhar o trabalho sob um viés que levasse em consideração os vários aspectos culturais do grupo social correlato ao trabalhador e ao tipo de trabalho em estudo. Em decorrência deste viés, nos anos 60 e 70, tratados significativos em Ergonomia foram produzidos, como o de Etienne Grandjean (Suíça, 1974) e o de Alain Wisner (França, 1966, 1974, 1980), freqüentemente indicados ainda nos dias atuais. Na literatura desta época percebe-se que ao lado da “produtividade”, o elemento “bem-estar” surge e estabelece-se soberano desde então. Hoje, entre os ergonomistas das diversas orientações acadêmicas – ergonomistas médicos, ergonomistas engenheiros, ergonomistas psicólogos, ergonomistas designers, etc – é consenso admitir que a Ergonomia foca-se no trabalhador, porém é preciso sair desta consideração comum – e acrítica – para tecer alguns questionamentos relevantes. Para a ABERGO, Associação Brasileira de Ergonomia, o objetivo da Ergonomia seria “modificar os sistemas de trabalho para adequar a atividade nele existente às características, habilidades e limitações das pessoas com vistas ao seu desempenho eficiente, confortável e seguro” (definição: 2000). Ou seja, a Ergonomia Contemporânea possui como verdadeiro objeto a atividade de trabalho, e não o trabalhador. Portanto, a Ergonomia desde seu nascedouro não se compromete a problematizar o homem, o trabalho e as relações entre os homens e o trabalho. O resultado disso é que, ainda que atualmente se admita que a efetividade da Ergonomia consista em fazer resultar transformações positivas no ambiente de trabalho, o fato – insistente e incômodo – observado nas práticas em Ergonomia é que a consecução de tais resultados positivos ainda está muito aquém daqueles necessários para produzir transformações que consigam minorar significativamente o sofrimento psíquico dos trabalhadores em seu locus laboral. No entanto, justifica-se tal fenômeno afirmando-se que transformações organizacionais demandam muito tempo. Uma metáfora vezes usada como referência a essa lentidão compara o trabalho do ergonomista ao do semeador de nogueiras, pois levando a nogueira 90 anos para frutificar, conclui-se que o semeador dela não sorve suas nozes. Neste sentido, o ergonomista seria aquele que “deve aprender” a conviver com a incrível lentidão das transformações, sem que novamente seja ele levado a problematizar mais este efeito nas organizações. No entanto, com a premência das demandas em Ergonomia, sobretudo nas grandes empresas, quase sempre movidas pela adequação trabalhista ou pela obtenção de certificações, ao que parece, hoje e historicamente, o ergonomista tem mais se prestado a plantar eucaliptos, árvores que em apenas 5 anos estão prontas para serem extraídas e consumidas em fornalhas industriais. Assim sendo, além de historicizar o lugar do trabalhador, urge historicizar o próprio papel do ergonomista – inclusive o ergonomista psicólogo – também problematizando-o. Conforme adverte Foucault, na entrevista intitulada Politcs and Ethics, de 1983, “uma atitude indagadora, prudente, ‘experimental’, é necessária; a cada momento, a cada passo, devemos confrontar o que estamos pensando e dizendo com o que estamos fazendo, com o que estamos sendo.”

7- Temas Historiográficos II


Há um perigo real de que a história, freqüentemente uma musa muito tirânica, desenhe a circunferência das preocupações de forma demasiado estreita” (Johnson e Dawnson).





1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   23


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal