Universidade do estado do rio de janeiro


MOVIMENTO NACIONAL DE LUTA ANTIMANICOMIAL  PARTICIPAÇÃO DOS ATORES SOCIAIS



Baixar 1.01 Mb.
Página11/23
Encontro11.06.2018
Tamanho1.01 Mb.
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   23

MOVIMENTO NACIONAL DE LUTA ANTIMANICOMIAL  PARTICIPAÇÃO DOS ATORES SOCIAIS

NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Ana Carla Silva

Mestre em Psicologia Clínica, PUC-Rio.

Edvaldo Nabuco



Mestrando em Memória Sócial, UNIRIO.

Márcia Andrade



Mestre em Saúde Coletiva, IMS-UERJ.
O Movimento Nacional de Luta Antimanicomial surge no Brasil em fins da década de 1980, no contexto dos assim chamados novos movimentos sociais. Foi criado em 1987, emergindo de mobilizações sociais anteriores na área de saúde mental, particularmente do Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental/MTSM, datado de 1978. O MTSM foi constituído a partir de denúncias sobre péssimas condições de assistência aos pacientes e precárias condições de trabalho dos profissionais em instituições asilares existentes no país (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul). Na 8ª. Conferência Nacional de Saúde, em 1986, quando é discutido o projeto de Sistema Único de Saúde no Brasil, efetivamente implantado no país através da Constituição de 1988, usuários de serviços de saúde em geral passam a fazer parte das discussões sobre políticas públicas de saúde. Na saúde mental, esta participação também se torna efetiva. O Movimento de Luta Antimanicomial, criado em 1987, neste contexto de participação, distingue-se do MTSM na medida em que introduz dois novos atores sociais: os usuários de serviços de saúde mental e seus familiares, que se juntam aos já mobilizados trabalhadores. Também se diferencia quando cria um lema específico que sintetiza sua luta: “Por uma Sociedade Sem Manicômios”, significando o repúdio a qualquer forma de exclusão social e de violência, particularmente aquelas cometidas em relação aos portadores de sofrimento psíquico. A partir de então, usuários e familiares no campo da saúde mental se organizam em associações e, como os trabalhadores, passam também a denunciar a violência em instituições psiquiátricas, públicas e privadas, e a lutar por tratamentos substitutivos à prática de isolamento e exclusão através da internação psiquiátrica. No Rio de Janeiro, usuários e familiares vêm se organizando em associações, que se articulam e se mobilizam através do Núcleo Estadual de Luta Antimanicomial / RJ. O Núcleo Estadual do Movimento da Luta Antimanicomial consolidou-se no ano de 1997, tendo como objetivo central ser um espaço permanente de encontro e discussão entre as diversas associações, entidades, serviços e instituições de ensino comprometidas com o processo de Reforma Psiquiátrica no estado do Rio de Janeiro. É desta forma que o Núcleo luta pelo fim das instituições manicomiais, o que representa não apenas uma mudança no modelo assistencial psiquiátrico, mas uma mudança na forma como a sociedade lida com os portadores de sofrimento mental das mais diversas formas. A transformação que se deseja é mais ampla, pois ocorre no âmbito da cidadania, da relação entre as pessoas e as instituições sociais. Este estudo busca identificar qual o modelo hegemônico de organização dos usuários dos serviços de saúde mental e seus familiares na luta pela construção de uma “sociedade sem manicômios” no Estado do Rio de Janeiro. Dois modelos teóricos orientarão a análise: 1 – organização buscando quatro eixos de transformação social: sócio-cultural, jurídico-político, técnico-assistencial e teórico-conceitual; 2- organização através de diferentes estratégias de empoderamento / empowerment (recuperação, narrativas, cuidado de si, ajuda mútua, defesa de direitos, transformação do estigma e dependência, participação no sistema de saúde e saúde mental / militância social mais ampla). Pretende-se analisar se os usuários e seus familiares estão encaminhando suas lutas predominantemente no âmbito da saúde mental, ou se vêm participando de lutas mais gerais na sociedade brasileira. Os autores entendem que as lutas nos âmbitos micro e macro almejam de igual forma a desmistificação da loucura e a inserção do usuário em uma vida ativa na sociedade. Analisando-se também leis e portarias que vêm sendo elaboradas no campo da saúde mental, buscar-se-á refletir como a Luta Antimanicomial vem gerando mudança no olhar da sociedade sobre a loucura.

FOUCAULT E BASAGLIA: UM ESTRANHO ENCONTRO NO MANICÔMIO
Paulo Amarante

Doutor em saúde pública, pesquisador professor titular do laboratório de estudos e pesquisa em saúde mental (laps) da Fundação Oswaldo Cruz/Fiocruz
Certamente muitos foram os autores que produziram obras fundamentais que contribuíram para a crítica ao saber e às práticas psiquiátricas e para a construção de novos cenários na relação entre a loucura e a sociedade. Mas, dentre tantos autores, dois deles merecem um destaque especial: se trata de Michel Foucault e Franco Basaglia. A démarche arqueogenealógica de Michel Foucault contribuiu para a ressignificação das origens de muitos saberes das chamadas ciências humanas e sociais, dentre elas, da medicina, da psiquiatria e da psicologia, assim como das práticas sociais e institucionais daí advindas. Franco Basaglia, com seu movimento prático e teórico de negação e desconstrução das estruturas manicomiais, abriu perspectivas para a real superação do paradigma psiquiátrico e para a invenção de novas instituições e cenários que ainda hoje se fazem sentir em todo o mundo e, muito particularmente, no Brasil contemporâneo. Curiosamente, estes dois autores, que certamente se conheciam e se liam, mas também se encontravam, estabeleceram muitos poucos diálogos e debates. A primeira referência de Franco Basaglia a Michel Foucault foi no texto “A destruição do hospital psiquiátrico como espaço de mortificação”, publicado em 1964, e que é considerado o primeiro trabalho do autor no qual é mencionada a questão da superação do paradigma psiquiátrico e no qual, pela primeira vez na história levanta-se a hipótese da impossibilidade da reforma do modelo asilar. A influência do recém-lançado livro de Michel Foucault “A História da Loucura na Idade Clássica” é bastante visível neste trabalho, dando a impressão de que é suspeito por uma alta dose de responsabilidade sobre a reviravolta na trajetória do trabalho reformista que até então Franco Basaglia vinha conduzindo em Gorizia, onde guiava-se pelos modelos da comunidade terapêutica inglesa e pela psicoterapia de setor francesa. Ao longo de toda a obra de Franco Basaglia, reunida em seus Scritti, pouquíssimas referências serão feitas a Michel Foucault em que pese o forte impacto que eles produziram em Franco Basaglia no primeiro momento de seu contato. Por outro lado, Michel Foucault, que conheceu bem de perto as iniciativas de transformação institucional e a obra teórica de Franco Basaglia, também fará poucas menções ao trabalho que ele próprio denominará de a mais revolucionária das experiências de antipsiquiatria. Em “A Casa dos Loucos”, escrito originalmente para a coletânea “Os Crimes da Paz”, organizada por Franco Basaglia, Michel Foucault considera que a experiência basagliana consegue questionar e intervir nas relações de poder que instituem e atualizam as demandas sociais e políticas pelas práticas manicomiais. Mas, em uma entrevista concedida a um jornal da Tunísia, Michel Foucault exprime um estranho ressentimento quanto os movimentos sociais de transformação no campo psiquiátrico, fazendo referência a alguns líderes destes movimentos, dentre eles a Franco Basaglia. Enfim, através de uma pesquisa sobre as obras destes dois autores e sobre as suas relações e importâncias nas práticas sociais e políticas, ainda hoje presentes, no campo das instituições psiquiátricas e dos movimentos de reforma psiquiátrica e luta antimanicomial, o escopo do presente trabalho é o de refletir e analisar esta escassa e estranha relação, suas origens e conseqüências, propondo uma possibilidade de entendimento que seja importante para as lutas e utopias das quais ambos participaram.

5 - Psicologia Jurídica I


Nenhuma época se viu, como a nossa, viver seu presente como já possuído de um sentido histórico” (Pierre Nora).



CONSTRUÇÕES EM TORNO DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA POBRES: PENSANDO O TRABALHO EM ABRIGOS
Isabel Costa Lima

Universidade do Estado do Rio de Janeiro
O presente trabalho visa problematizar algumas construções em torno da infância e adolescência pobres, tendo como eixo norteador o trabalho desenvolvido em um abrigo destinado a crianças e adolescentes do município do Rio de Janeiro. Abordarei algumas práticas e discursos envolvidos na produção dos saberes sobre as crianças e adolescentes institucionalizadas, assim como os efeitos nos modos de subjetivação e na construção de determinadas realidades e possibilidades para os mesmos. Para tanto cabe realizar uma análise histórica das verdades e saberes construídos acerca da infância, a adolescência e a família pobres a partir, principalmente, das políticas construídas ao longo do tempo voltadas para esta população, e das práticas dos “especialistas” que lidam diretamente com essa população. As indagações em questão, desnaturalizadoras de uma certa forma de entender e produzir a realidade, são fundamentais para problematizar e instrumentalizar a prática de todos nós, psicólogos ou não, implicados com a assistência à infância e adolescência, assim como todos envolvidos na transformação da realidade social. Hoje, milhares de crianças e adolescentes vivem institucionalizados nos abrigos em todo o Brasil. A partir do “Levantamento Nacional dos Abrigos para Crianças e Adolescentes” produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, podemos constatar que tal medida – a internação em abrigos –, apesar de ser descrita no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como de caráter provisório e excepcional, vem sendo amplamente estabelecida para a população pobre. Segundo dados deste relatório, 86,7% das crianças e adolescentes abrigados possuem família. Dessa forma, nos deparamos com a realidade de que milhares de jovens vivem hoje longe de um convívio familiar e comunitário, prioridade descrita no ECA. O modo como a sociedade brasileira vem tratando dessas crianças e adolescentes vem sendo montado ao longo da história. No Brasil Império não havia discriminação entre crianças, adolescentes e adultos com relação à aplicação de penas. Com o Código Criminal de 1830, passa a haver a diferenciação das penas em função da faixa etária. Surgem aí os primeiros usos do termo “menor”, quando configuravam os critérios para a responsabilização penal. Na época da proclamação da República, o Brasil se encontra em meio a inúmeras transformações econômicas, políticas e científicas, vivendo um processo de industrialização e urbanização, tendo a segregação espacial da pobreza como uma das marcas desse momento. Tais mudanças configuravam novas formas de organização e controle da sociedade, com o surgimento de questões como a preocupação com os “perigosos”, idéia fundada naquele momento. Desde o século XIX, uma série de teorias sustentam “cientificamente” a noção de periculosidade associada aos pobres. Essa idéia tem como efeito a organização de instituições responsáveis pela normatização e enquadramento dos indivíduos. Um dos pontos de sustentação desse controle social é a vigilância, e como se trata de vigilância do que pode vir a ser perigoso, outra idéia ganha espaço: a prevenção. Desde esse momento até hoje, parece que o foco da discussão se alterna entre defesa da criança (esta então deve ser protegida) e defesa da sociedade (a criança deve ser vigiada). Em 1927 é elaborado o Código de Menores, legislação específica para a infância. Percebe-se claramente nesta legislação a quem ela é dirigida, reforçando a produção de duas infâncias, uma associada à idéia de menor – que se refere às crianças pobres, abandonadas, foco desta legislação – e outra que seriam as crianças de famílias mais favorecidas. Em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente tenta romper com a diferença entre criança e menor, marcando a substituição de uma doutrina da situação irregular (Código de Menores) pela doutrina da proteção integral, já definida na Constituição Federal de 1988. O ECA aponta, no capítulo sobre o direito à convivência familiar e comunitária, que “A falta ou a carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou a suspensão do pátrio poder”. Segue dizendo “Não existindo outro motivo, que por si só autorize a decretação da medida, a criança ou o adolescente será mantido em sua família de origem, a qual deverá obrigatoriamente ser incluída em programas oficiais de auxílio”. Está claro que não se pode retirar uma criança da família por falta de recursos materiais. No entanto, a maioria maciça de crianças e adolescentes nos abrigos é pobre. Na verdade, há milhares de caminhos que configuram essa realidade, pois os motivos que têm levado ao abrigamento estão, muitas vezes, relacionados aos efeitos da precariedade e miséria em que vive grande parte da população. É comum vermos pais que vêem no abrigo uma alternativa para a pobreza, como opção de acesso aos direitos básicos para seus filhos. Constitui-se, assim, um quadro de institucionalização da pobreza. Imbricada nesta questão, encontramos a culpabilização individual da família que tem seus filhos nos abrigos, tida como “negligente”. As práticas que não dão visibilidade a essa complexa rede reforçam a idéia de que tais famílias são incompetentes e o espaço institucional, onde se situam os “especialistas”, fica reificado como o lugar da competência. Ao participar do trabalho no abrigo, pude perceber que a equipe técnica acaba por tornar-se refém da necessidade de se fazer um registro rigoroso e sistemático da população usuária da rede de abrigamento, o que consome muito tempo e energia. Contudo, sem desconsiderar a importância de tal registro para as políticas de assistência, este conhecimento acaba se configurando como um conhecimento frio e burocrático, não implicando um trabalho que permita que se conheça a criança e o adolescente na singularidade de sua condição, de sua história e de suas possibilidades. A partir dessa constatação, comecei a pensar na produção de uma invisibilidade da criança e do adolescente reais, a qual convive com o paradoxo de um acúmulo de informações. Muitos dados formais e poucos dados concretos sobre suas histórias, sendo que, no entanto, tais dados são para serem usados na formulação de políticas públicas mais eficientes. Ao pensarmos nos efeitos da invisibilidade em questão, podemos apontar a contribuição para a construção/perpetuação de um olhar massificador/homogenizador sobre a criança, vista como fruto do fracasso familiar e pertencente às “classes perigosas”, o que acaba por marcar as ações de assistência e proteção.


OUTROS AGENCIAMENTOS: A PSICOLOGIA E O CONSELHO TUTELAR
Fabiana Lopes da Cunha

Psicóloga, Mestranda em Psicologia (UFF)
O texto visa problematizar a intervenção da Psicologia no espaço de um Conselho Tutelar (CT) do município do Rio de Janeiro. As análises referem-se a uma pesquisa-intervenção, onde são discutidos os casos de destituição do poder familiar (DPF) em situações de negligência, maus-tratos e abandono existentes nos anos de 1996, 1999 e 2002. O estudo assume os princípios da Socioanálise e os estudos de Michel Foucault. O CT foi fruto de agenciamentos da sociedade civil e de movimentos sociais, ao questionar, no período de redemocratização brasileiro, a assistência destinada à infância e à juventude. Para compreendermos melhor estas lutas sociais, recorreremos à história das políticas públicas de assistência para crianças e adolescentes desenvolvidas nos últimos séculos, onde a família torna-se um campo fértil para as políticas estatais, que passam a gerir a população com o discurso do bem-estar e da proteção das crianças. O período republicano foi essencial para a consolidação das práticas estatais modernas relativas à infância, considerando que no Brasil a perambulação de crianças pobres gerava um sentimento de repulsa/medo que se aliava a um desejo de civilidade e progresso. Os higienistas foram fundamentais no controle dos “maus hábitos” dos pobres, criticados por viverem em habitações insalubres e terem vidas promiscuas/viciosas. Além de implementar a associação entre pobreza e violência/periculosidade tão importante para a criação/ratificação dos dispositivos de controle da população, a prática higienista visava homogeneizar a diferença e moralizar a pobreza dentro dos parâmetros burgueses. Estabelecia-se um saber/poder sobre o sujeito, que perpassaria todas as instituições sociais. A questão principal era conhecer/prever o comportamento do sujeito, analisar a virtualidade de seus atos. Assim, cabia ao Estado cuidar das crianças órfãs, delinqüentes ou abandonadas. Construiu-se uma legislação específica para estas exceções na crescente normalização/controle social. O termo menor começou a ser utilizado para designar crianças pobres, e não apenas os menores de idade. O primeiro Juizado de Menores é de 1923, instituindo um espaço para as decisões judiciais com a ajuda dos comissários de vigilância. Já o primeiro Código de Menores do Brasil surge em 1927, instituindo a Doutrina do Direito do Menor. Este código versava sobre os casos de crianças e adolescentes em situação familiar tida como anormal para os padrões sociais da época. Como a constituição familiar das classes desfavorecidas era diferente da família burguesa, os especialistas reprovavam a organização familiar popular, desqualificando-a para a criação de seus filhos. Com a crescente injustiça social, as questões relativas à pobreza exigiam a adequação do Estado a novos impasses trazidos pela população infanto-juvenil pobre. O Código de Menores foi reformulado em 1979, inaugurando a “Doutrina da Situação Irregular”, que se caracterizava pela diferenciação de tratamento entre o “menor abandonado ou órfão” e o “menor infrator”, e a extinção das categorizações das crianças do antigo código por uma única: “situação irregular”. Os dois Códigos de Menores abordavam a questão de crianças e adolescentes de forma estigmatizante, pois só legislavam “em favor” da classe pobre, privilegiando a punição e a tutela. Ocorria a penalização da pobreza por não se adequar aos padrões da família “estruturada” burguesa. O período de redemocratização possibilitou a crítica da assistência e do atendimento prestado a crianças e adolescentes, visto que a realidade no interior das instituições públicas era de violência e desrespeito às regulamentações existentes. O objetivo era abolir o vigente Código de Menores e implementar o paradigma da proteção integral, consagrando a população infanto-juvenil como sujeito de direitos, independente da classe social, raça ou gênero. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 e posterior aprovação do ECA, muda-se o parâmetro da situação irregular para o da proteção integral, diminuiu-se o poder do Juiz e instituiu-se o lugar da equipe técnica composta de assistente social e psicólogo. Entretanto, estes profissionais, em sua maioria, vêm agindo como o Comissário de Menores ao realizar estudos psicológicos e sociais sobre a vida das famílias, buscando uma verdade, culpabilizando a pobreza e criminalizando o abandono. A história mostrou que, com a criação do ECA e do CT, a intenção era possibilitar que a própria comunidade resguardasse os direitos de crianças e adolescentes. Entretanto, a troca de nomenclatura no ordenamento jurídico não garantiu transformações nas práticas estatais nem na dos especialistas. Permanecem os mesmos critérios de avaliação da questão familiar e da pobreza dos Códigos de Menores, sem contextualizar as privações de direitos como uma questão estrutural do capitalismo neoliberal. O CT transformou-se tanto num espaço de exercício de saber-poder da modernidade quanto um lugar de resistência contra as novas formas de tutela das famílias. Observamos que seu papel de proteção e garantia de direitos sofreu interferências, e que houve um deslocamento político de seus princípios. Oscila-se entre a submissão e a luta das famílias para garantirem o lugar da diferença em relação às normas impostas pela sociedade. Também no CT, a Psicologia tem trabalhado como um agente normatizador, a partir de um saber acerca do comportamento humano normal, onde o patológico precisa ser evitado antes mesmo de manifesto. Tal prática pôde ser observada a partir dos estudos de casos de DPF, onde o CT e a Psicologia operaram como subordinados dos operadores do Direito, no que se refere à criminalização da pobreza e suas estratégias de sobrevivência. Algumas famílias pobres ignoram as normatizações sociais, o que “justifica” uma decisão judicial irrevogável e com graves conseqüências, esquecendo que esses outros modos de existência decorrem dos processos de exclusão social agravados pelo capitalismo neoliberal. Assim o CT, apesar de ser um órgão não jurisdicional, transformou-se num tribunal de menor escala e, por vezes, o psicólogo examina e condena a vida alheia, a partir da ilusória neutralidade e de um saber especializado, esquecendo que as categorias de infância e família são produções sócio-históricas e, portanto, questionáveis enquanto naturais. Partindo destas reflexões, percebe-se o quanto a história tem a nos dizer a respeito das práticas e dos enunciados socialmente instituídos.

O outro do Conselho Tutelar
Anna Paula Uziel

Aline de Araujo Gonçalves da Cunha

Daniel Maribondo Barboza

Isabel Barbeito de Vasconcellos Lantimant Lacerda

Isabel Costa Lima

Lívia da Silva de Santana

Maíra Carvalho Caniello

Thais Vargas de Menezes



Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
A legislação brasileira sobre infância e juventude no Brasil foi formalizada em 1927 com a promulgação do Código de Menores, reformulado em 1979. Esta lei tinha, inicialmente, como público alvo, crianças e adolescentes que cometiam infrações passando, com a mudança, a incluir aquelas que se encontravam em “situação irregular”. O público desta lei não se alterou muito, apenas se incluiu outros aspectos da vida da infância pobre do país. Estavam nesta mesma rubrica crianças e adolescentes abandonados, vítimas de maus tratos e negligência, os que cometiam infrações e os que eram apenas provenientes de famílias pobres. Duas vertentes cobriam as ações destinadas a crianças e adolescentes: a formulação de políticas públicas e a ação do judiciário para resolução das situações irregulares. Em 1990, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), foi criada uma nova instituição: o Conselho Tutelar nasce com a proposta de ser um órgão “permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente” (art. 131). O CT tem como funções garantir o cumprimento das medidas protetivas, encaminhar casos para autoridade judiciária ou MP, conforme a necessidade, representar, em casos de violação de direitos e fazer encaminhamentos para garantir educação e saúde. No entanto, tem-se notado que o CT, em alguns casos, atua como um braço do Estado, fiscalizando as famílias pobres. A partir da prática de um estágio em um abrigo da prefeitura para crianças e adolescentes, no município do Rio de Janeiro, pudemos observar a dificuldade de andamento dos processos de muitos deles, com a presença conturbada ou a ausência do Conselho Tutelar. Além disso, é recorrente o discurso da equipe técnica, com relação à falta de suporte dado pelos Conselhos ao andamento do trabalho. Essas questões serviram para refletir sobre: qual o trabalho do Conselho Tutelar? Como vem sendo realizado? Quem são esses Conselheiros? Tem-se observado que o trabalho desenvolvido pelo CT tem sido quase exclusivamente prescritivo, atendendo sobretudo a demandas burocráticas, limitando-se, muitas vezes, a encaminhamentos, sem um acompanhamento que garanta o exercício mais pleno de direitos. A diretriz que forma o eixo de orientação do trabalho parece ser o de que essas famílias são deficientes, desviantes, pouco preparadas, até mesmo perigosas e danosas às suas crianças. Parece haver pouca empatia ou mesmo disponibilidade por parte dos conselheiros em compreender as questões que geram a situação de rua de crianças e adolescentes; determinados comportamentos ou dificuldades da família, considerados condenáveis, entre outros. As queixas que chegam no CT como demanda são compreendidas como causas e não efeitos de um sistema de exclusão e desigualdade social. As pessoas são vistas, assim, como fracassados. Uma das hipóteses para compreender este distanciamento é suspeitar de que os conselheiros vejam o público atendido pelo CT como um outro, um estranho, não se sentindo afetados por suas histórias, sofrimentos, desejos, contrariando, assim, o próprio propósito do CT em sua criação. A idéia de o CT ser formado por membros da comunidade tinha como intenção que as problemáticas levantadas pela população atendida tivessem maior permeabilidade. O CT é uma instituição recente, sua história formal e cronológica começa de direito com a promulgação do ECA. Órgão recente cuidando de uma população que nas últimas décadas ocupou o definido lugar das faltas, do que é menor, do que vale menos, do que se deve ocultar. Sua história de fato também começa com o ECA. Podemos fabricar outras versões dessa história a cada novo encontro. Uma outra compreensão de alteridade parece ser uma boa inspiração para promover sentidos mais criadores e fecundos na interação entre membros do conselho e pessoas que por lá passam; práticas que não sirvam apenas para encaixar ou modelar a população com os referenciais legais ou estabelecidos como de normalidade pelo status quo. Como diz Rolnik, ”o outro nos arranca permanentemente de nós mesmos”. É preciso extrapolar a identidade para permitir o outro-em-mim. Talvez seja esta a possibilidade de um contato que produza mudanças nas práticas dos conselheiros e efeitos mais transformadores na vida daqueles que continuam passando pelos órgãos de proteção.



1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   23


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal