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ÉDIPO-REI: GENEALOGIA E ALTERIDADE



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ÉDIPO-REI: GENEALOGIA E ALTERIDADE
Daniele Amaral de Sá

Giselle da Rocha Reis

Júlia Florêncio Carvalho

Letícia Maria Renault de Barros

Luana Almeida de Moraes

Ludmila Teófilo



Universidade Federal Fluminense
A tragédia de Sófocles, “Édipo-Rei”, adquiriu incontestável importância e reconhecimento, em grande parte, através do desenvolvimento dos estudos de Freud acerca do inconsciente e do que ficou conhecido como “Complexo de Édipo”. A difusão da psicanálise (e da teoria psicanalítica) entre estudiosos e leigos engendrou um vínculo poderoso entre as noções freudianas e a tragédia grega. Sigmund Freud (1900) utiliza a tragédia de Sófocles, “Édipo Rei”, para fundamentar sua teoria sobre o desenvolvimento da sexualidade humana, o complexo de Édipo. Na versão da tragédia de Sófocles utilizada por Freud, o Rei Édipo cega a si próprio depois de saber que desposou sua mãe e matou seu pai. Segundo este autor, Édipo cega seus olhos como forma de punição para o ato criminoso que cometeu. O feito de Édipo, apesar de ter acontecido em tempos remotos, foi aos poucos se tornando conhecido por meio do surgimento de uma série de provas, até deixar em evidência o crime praticado. O processo investigativo que transcorre ao longo da tragédia reflete, segundo Freud (1916-17) um mecanismo de funcionamento semelhante ao que se dá num processo analítico. No entanto, é relevante e necessário distinguir a perspectiva psicanalítica de leitura de “Édipo-Rei” e as demais leituras existentes acerca da mesma obra. O fato de existirem perspectivas distintas de leitura é, inclusive, crucial para que seja possível realizar reconsiderações acerca da própria universalidade das estruturas psíquicas que são atribuídas ao personagem principal da peça. Empreender a leitura de uma obra a partir de categorias já definidas de antemão pode empobrecer as interpretações e restringir as possibilidades de compreensão. O que ocorre, assim, é a anulação das demais possibilidades de leitura através do estabelecimento de identidades transcendentes, numa via de mão dupla: ao mesmo tempo em que tal redução a uma só leitura é sustentada pela fixação de estruturas universais, é reprodutora desta lógica, que toma o outro como mera variação de um esquema previamente estabelecido. Esta restrição diz respeito a uma recusa da alteridade na própria compreensão da tragédia, que se manifesta tanto na impossibilidade de se estabelecer leituras distintas quanto numa certa concepção de história que se deixa entrever a partir deste posicionamento. As leituras realizadas por Foucault (1999), Vernant (1977) e Deleuze (1972) se mostram, então, como afirmações da possibilidade de criação, não só pelo fato de que cada um destes autores empreendeu uma leitura em particular, mas principalmente porque em todos eles é possível perceber a afirmação da heterogeneidade e de possibilidades distintas de análise, pois, para nenhum deles, há uma essência atemporal. Não se trata aqui de uma tentativa de decidir qual seria a interpretação definitiva para a tragédia. A compreensão de que este não é o exercício mais profícuo a ser feito se deve, em grande parte, ao fato de que, como efeito da existência de várias leituras, está a necessidade do constante e meticuloso exercício de pesquisa, que é sobretudo pesquisa histórica, porque pesquisa acerca da emergência de diferentes sentidos. Cada leitura realizada, cada proposta de significação ou análise, tem a sua história e os seus efeitos particulares. No entanto, é propriamente esta possibilidade que nos garante a legitimidade de se realizar tal empreendimento e de procurar o contato com a alteridade justamente ali, onde se poderia pensar existir apenas reafirmação e recorrência.

UMA ANÁLISE DO PROCESSO HISTÓRICO DE CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO
Marília Antunes Dantas

Aluna de Doutorado do PPGPS

Professora Assistente da Universidade Católica de Petrópolis – UCP e da Universidade

Estácio de Sá – UNESA
Tendo como referência teórica a análise proposta por Luís Cláudio Figueiredo em seu livro “Revisitando as Psicologias: Da Epistemologia à Ética das Práticas e Discursos Psicológicos” (1996) e, tomando como perspectiva o projeto epistemológico moderno, obsevamos que, a partir da segunda metade do século XIX, as teorias psicológicas começam a se estruturar na forma de “lugares” face a seus pressupostos epistemológicos e ontológicos, delimitando o território próprio no qual emerge uma investigação acerca do sujeito e do sofrimento, bem como a diversidade dos modelos de atuação pois, a cada doutrina – teoria e sistema psicológico – corresponde um éthos, no sentido de morada e de destino para o homem. Neste contexto, o sujeito epistêmico – um dos pilares do projeto moderno de civilização - é tomado como intrinsecamente refratário ao olhar psicológico que, no entanto, vai balizar a constituição do próprio espaço psicológico justamente para desvendar o avesso desse sujeito supostamente pleno em relação a tudo que fora expurgado e excluído pelo método cartesiano, isto é, o retorno dos afetos na forma de sintomas e de mal-estar, material que será “precisamente o território de eleição de todas as psicologias”. Assim, os lugares a partir dos quais emergem os processos modernos de subjetivação podem ser analisados, sob o ponto de vista da consideração sobre os afetos, como soluções de compromisso entre três pólos: os valores liberais, românticos e disciplinares em torno dos quais gravita a questão ética das diferentes teorias e sistemas psicológicos, a partir das diversas alianças e exclusões que operam em sua tarefa, em função de pesos relativos que consagram aos fenômenos psicológicos e sua relação com o campo da experiência. Na gestação do espaço psicológico, como bem nos assinala Figueiredo (1996), encontramos a presença conjunta de três pólos axiológicos que balizaram o terreno ‘psi’, e que modelaram as representações das subjetividades: há o eixo representado pelo pensamento liberal, em que se sublinham os valores e exigências de uma identidade nitidamente estabelecida, com suas características autônoma, autocontida e autotransparente, cujas origens remontam ao projeto moderno de civilização; há o eixo representado pelo pensamento romântico, em que prevalecem os valores e exigências de uma espontaneidade impulsiva, do vitalismo, autenticidade e singularidade do sujeito e, ainda, há o eixo disciplinar, oriundo do surgimento de novas técnicas de poder, sejam elas racionalizantes, administrativas ou carismáticas. Neste contexto, cada teoria psicológica empreende uma articulação específica entre esses três pólos axiológicos, a partir do peso relativo que confere a cada um deles no sentido de buscar compreender o trânsito entre o campo das representações e das experiências do sujeito. Desta forma, a consideração das dimensões excluídas ou expurgadas da subjetividade como objeto digno de estudo necessariamente veio a abalar consideravelmente a crença numa subjetividade única, imutável, infinita e desencarnada, cuja figura emblemática é a do sujeito da modernidade com suas pretensões de autonomia, reflexividade e autocentramento. Neste âmbito, o lugar da psicanálise parece ser paradigmático, uma vez que nenhuma outra teoria ou sistema “psi” expressou melhor sua suspeita quanto à crença no sujeito epistêmico pleno e suas pretensões de autocentramento e autonomia, contrapondo-se às visões idealizadas de uma subjetividade una que impregnam as diferentes ontologias e epistemologias modernas a partir das quais é engendrada grande parte das teorias e sistemas psicológicos vigentes. Cabe ressaltar que em 1920, no texto “Além do Princípio do Prazer”, Freud afirma a experiência do trauma como a base para o processo de constituição do psiquismo. Ora, como bem sabemos, o traumático é tudo aquilo que escapa, subverte e contraria os poderes da ordem e, nessa medida, o pático e o afetivo constituem e definem particularmente o traumático, isto é, a figura emblemática das paixões, lugar onde, por excelência, os papéis de sujeito e de objeto se invertem, na medida em que o sujeito é abruptamente capturado pelo impacto de um acontecimento, cuja potência excede demasiadamente a sua capacidade de enfrentamento e de trabalho psíquico, ou seja, de fazer face no sentido prático ou simbólico. Assim, a constituição do espaço psicológico se caracterizou por duas tradições epistemológicas e ontológicas diferentes: por um lado, a tradição naturalista de investigação do psiquismo, cujas referências paradigmáticas na contemporaneidade são as chamadas neurociências e, por outro, a tradição romântica, cuja referência é a psicanálise e sua consideração e escuta do excluído, ou seja, dos afetos. Contudo, para além das divergências epistemológicas e ontológicas, o que define a especificidade das práticas “psi” é a ética e até que ponto esta se compromete com o reconhecimento e a escuta do excluído, do interditado, bem como a especificidade da morada que oferece àqueles que lhes endereçam uma demanda. Evidentemente, esta problemática incidirá, como decorrência, na questão da identidade do profissional “psi”.

ASCENSÃO E QUEDA DO IMPÉRIO DOS SENTIDOS
Arthur Arruda Leal Ferreira

André Luis Pereira



Universidade Federal do Rio de Janeiro
Este trabalho tem um objetivo: analisar as transições conceituais no projeto de psicologia enquanto ciência da experiência humana (ou física do sentido externo para Georges Cangulhem) surgida no final do século XIX e sistematizada com Wilhelm Wundt. Isto será feito conforme a perspectiva paradigmatista do Historiador das Ciências Thomas Kuhn, centrada na transição no interior das ciências entre períodos normais (organizados em torno de um paradigma, ou conjunto de regras mais ou menos explícitas) e revolucionários (em que certos paradigmas são problematizados até que um novo venha a se estabelecer). As transições conceituais analisadas neste projeto ou paradigma psicológico dizem respeito ao progressivo abandono do conceito de sensação, inicialmente considerado crucial, ou chave para o estabelecimento de uma psicologia científica, na medida em que superava as críticas ou vetos de filósofos como Imannuel Kant e Augusto Comte. Importado da fisiologia, o conceito de sensação se colocava como uma espécie de unidade básica da experiência, capaz de dar conta de variações discretas de energia no interior dos nervos, passível de estudos objetivos por meio de introspecção experimental (treinada) e de formulação matemática nos meandros da comparação psicofísica com as gradações dos estímulos físicos. Em outras palavras, seria um conceito que relacionaria o físico (os estímulos), o fisiológico (as energias nervosas) e o psicológico (a experiência), servindo como sua unidade elementar e objetiva. Desde a proposta de Franz Brentano de uma Psicologia Empírica centrada nos atos intencionais (e não nos conteúdos sensoriais) até a polêmica de Wundt com a Escola de Wurzburgo (Oswald Külpe, Augusto Messer e outros) sobre a possibilidade de um pensamento sem imagens (base sensorial), houve alguns pequenos abalos no paradigma sensorial. Contudo, este, ainda que pudesse ser problematizado quanto à sua onipresença em todos os fenômenos psicológicos (estas escolas supunham processos ou atos psicológicos, como o pensamento, independentes de conteúdo sensorial) não tinha a sua existência problematizada. Ou seja, todas as escolas admitiam o que Aron Gurwitsch chamava de “Hipótese da Constância”, qual seja a relação inequívoca entre Estímulo físico (E) e Sensação (S). A grande perturbação neste paradigma sensorial proveio do que Christian Von Eherenfels chamou de Qualidades da Forma, qual seja um conjunto de experiências, como a de uma melodia que não se resumia à soma de seus tons auditivos e permanecia inalterada, mesmo com a modificação em escala desses tons. Ainda que a suposição destas “Qualidades da Forma” não excluísse para Von Ehrenfels a existência das sensações, configurava-se agora um novo tipo de conteúdo experiencial (e não mais atos ou processos). Esta perturbação no paradigma foi diferentemente acolhida pelas três escolas gestaltistas. A Escola de Graz (Alexius Von Meinong e Victor Benussi) interpretou estas “Qualidades da Forma” de forma conservadora, enquadrando-as dentro do paradigma sensorial ao entendê-las como produtos ideais do intelecto (Superiora), a partir do material real das sensações (Inferiora). A Escola de Leipzig (Felix Kruger e Volkelt), por sua vez, lançou um desafio ao paradigma sensorial, ao questionar a existência das sensações e ancorar as “Qualidades da Forma” nos sentimentos. Tentativa de revolução que, por sua vez, não obteve o consenso necessário à formulação de um novo paradigma normalizante, talvez por propor uma alternativa que solapava a base científica da psicologia de então (sensação), substituindo-a por uma base vaga (os sentimentos). Contudo, foi a Escola de Berlim (Max Wertheimer, Kurt Koffka e Wolfgang Köhler) que conseguiu produzir uma revolução bem sucedida ao afirmar a autonomia das “Formas” como base em conceitos físicos com Campo e Equilíbrio. Se a Escola de Berlim não conseguiu um consenso absoluto (na Psicologia alemã das décadas de 1910-30), ela produziu um esgotamento do modelo sensorial neste período (transformando a psicologia anterior em clássica), além do alinhamento em torno de um grupo significativo de pesquisa que pode fazer frente à psicologia norte-americana. À guisa de conclusão, deve-se dizer que esta transformação empreendida pela Escola de Berlim não trouxe apenas uma revolução conceitual, mas de problemas, métodos, linguagem e modelos. Que encontraram seu limite não em uma revolução, mas na ascensão do nazismo nos anos 1930, e a conseqüente emigração destes gestaltistas para os Estados Unidos, na época dominados por um paradigma comportamental.

4 - Saúde mental I


Precisamos de uma história que nos eduque para a descontinuidade (...), pois a descontinuidade, a ruptura e o caos são o nosso destino” (Hayden Whyte).




A CLÍNICA E A POLÍTICA NO MOVIMENTO DA REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA
Luciana Bettini Pitombo

Mestre em Psicologia – UFF

Professora das Faculdades Maria Thereza
A indissociabilidade entre a dimensão da clínica e a dimensão da política no Movimento da Reforma Psiquiátrica torna-se uma questão exemplar quando nos propomos a debruçar sobre seus desdobramentos na história. A complexidade e a riqueza dos fatos raros que compõem a história nos obrigaria a um enorme trabalho, caso tivéssemos a intenção de construir uma genealogia do campo da saúde mental. Não teremos esta pretensão. Vários são os autores que se preocuparam com a historiografia da psiquiatria, perspectivando-a por diversos ângulos. Iremos construir uma história interessada, buscando ressaltar as contingências de um problema que se coloca na atualidade das discussões teórico/clínicas da Reforma Psiquiátrica. Nossa intenção é evidenciar o quanto uma prática clínica implica uma política, e de que forma, ao longo da história, acompanhamos a constituição de um entendimento que toma a prática clínica como aquela que se preocupa com questões individuais, e a política como a prática que implica um coletivo. Nosso entendimento do que vem a ser a dimensão da clínica e da política segue por um outro caminho, pois, para nós, essas dimensões se distinguem, embora não se separem. Nossa aposta será outra ao afirmarmos que esta separação obscurece o sentido da dinâmica do Movimento da Reforma Psiquiátrica, dinâmica esta que vem ressignificando o campo do cuidado na saúde mental. A história da psiquiatria foi marcada por diversas reformas desde a de Pinel, não sendo esta a única que constitui o objeto do presente estudo, mas talvez a mais radical. Até então, o reformismo era marcado por uma crença no progresso da disciplina e da instituição, a reforma sendo entendida como uma construção sistemática, cujo triunfo é a consolidação da instituição psiquiátrica. Nos anos 60, com o início do movimento anti-institucionalista na Europa, reformar passa a ter um outro sentido, ligado diretamente à crítica ao estabelecimento asilar e à instituição psiquiátrica. Esta é a reforma que nos interessa, no contexto da realidade brasileira. No Brasil, seu início coincide com o momento da reestruturação democrática do país, trazendo consigo, a partir da década de 80, a peculiaridade de se reconhecer como um Movimento. O método histórico torna-se fundamental para nós pois, ao lançarmos luz sobre os desdobramentos dos fatos ao longo do tempo, podemos adquirir um olhar crítico do presente de nossas práticas. Crítico no sentido de produzir uma densidade na análise, de forma a levar à desnaturalização e à complexificação de fatos muitas vezes entendidos através de fórmulas redutoras e universalizantes. Com a crise produzida pelo olhar histórico, uma desestabilização do presente se opera, permitindo o surgimento de novos sentidos para a realidade e criando desvios antes impensados. No caso da recente história das políticas de saúde do Brasil, é interessante a constatação da juventude de uma linha de preocupação mais social em seus encaminhamentos. Não é a intenção deste estudo dar conta desta complexidade, mas sim ressaltá-la, apontando na constituição do campo da saúde mental no Brasil uma relação indissociável entre o que se entende por "ação clínica" e, conseqüentemente, as práticas de cuidado daí derivadas, bem como os desdobramentos político/institucionais por que passa o Brasil. Gostaríamos de demonstrar que o problema da dicotomia entre a dimensão clínica/individual e a dimensão política/coletividade na contemporaneidade torna-se um falso problema, e que os encaminhamentos da reforma psiquiátrica formam um campo fecundo na demonstração desta idéia. Se são problemas individuais os responsáveis pelas questões coletivas, ou se é o coletivo que determina o individual, trata-se de falsas questões. A possibilidade de pensar para além desta dicotomia abre um campo de reflexão mais libertário e de maior contato com a própria produção de realidade. Ao nos preocuparmos em assumir uma das duas dimensões discriminadas acima como sendo aquela que dá conta do trabalho em saúde mental, o que produzimos é um afastamento de um fazer que é cotidiano e territorial.

INVENÇÃO E CLAUSURA NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO
Tânia Mara Galli Fonseca

(orientadora)Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional Regina Longaray Jaeger

Mestranda em Psicologia Social e Institucional da UFRGS/Email:

Giselle Silva Sanches



Coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Psiquiátrico São Pedro/
Em meio às atas e documentos do início das atividades da psicologia nos arquivos do Hospital São Pedro de Porto Alegre, encontramos os rascunhos de uma entrevista com a primeira psicóloga que começou a trabalhar no hospital, em 1949. No predomínio do modelo de psiquiatria clássica adotado no hospital, montou e manteve um consultório voltado à perícia dos motoristas de trânsito infratores. O modo inusitado e informal de ingresso desta psicóloga leva-nos a indagar a respeito do caráter inventivo e afirmativo da Psicologia em esgueirar-se por espaços hegemônicos de modo a reverberar novos movimentos que culminaram na criação de setor de psicologia alguns anos depois. Trata-se, aqui, de pensar a história do presente da ciência Psi num momento atual, em que ainda se torna necessário perguntar como apreender e transformar os modos da psicologia diante das formas enclausuradas e enclausurantes que constituíram seu corpo de saber, sobretudo no que diz respeito ao contexto manicomial. A que direções escorrem as novas invenções da psicologia? Como construir uma história em que o passado não nos converta em eternos disciplinadores do presente e sim que do presente possam vir forças emancipadoras deste presente? Sabemos que a psicologia constituiu-se na condição histórica de um saber estratégico de controle subjetivo , e que tal condição pode continuar a ser prolongada se ficarmos acomodados nas capturas das forças enclausurantes, desestimulantes do contexto manicomial. Aparentemente pouco pode-se fazer num manicômio quando as luzes estão quase todas apagadas, quando o hospital foi perdendo seu status político, referência de hospital-escola, o esvaziamento em decorrência da Reforma psiquiátrica, permanecendo apenas as “sobras” humanas. Neste sentido, podemos apreender , no jogo das forças presentes das práticas mínimas, as pequenas variações, tal como nos mostra a entrada desta psicóloga. Seria o caso de indagar-nos se estamos conseguindo atentar para as forças que estão em vias de se atualizar. Em “Considerações Intempestivas”, o extemporâneo em Nietzsche nos aponta para um tempo de esquecimento da pesada carga da história. Esquecimento como uma faculdade de sentir a vida fora da escala representacional das origens. Nele, a vida faz a história e não a história que a constitui. Reconhecemos nossos limites se impondo e restringindo os pequenos acontecimentos que atualizam a vida, sendo, ainda, os grandes acontecimentos formais que , em geral, modelizam nossos modos de pensar e agir. Nossa reflexão nos leva a pensar que os pequenos e inventivos instrumentos do fazer da psicologia no cotidiano de um hospital podem se tornar imperceptíveis, ou, ao contrário, potencializarem-se, vindo a ocupar cada vez mais os lugares vazios que se abrem. De certa maneira, o fragmento histórico acima referido, nos faz pensar a problemática da invenção da psicologia no campo dos grandes hospitais manicomiais, e da diferença de que é portador, ao se valer de uma certa estratégia clandestina para fazer valer a presença da Psicologia naquele contexto. Se não rompe com a sua própria história, privilegia uma certa descontinuidade, uma entrada pelas brechas. Prática que se refere a uma descontinuidade e não a uma ruptura, pois continua a tratar e a disciplinar os loucos, mas faz pequeno acontecimento, uma diferença no mundo. Talvez mais do que transgredir com as forças da lógica racionalizante da medicina com as quais compõem o seu saber subjetivante, seja importante discernir as forças que operam e se expandem livres destas. Isto é, captar as brechas de diferença, intensificar nosso olhar sobre estas práticas novas que se fazem e se desfazem no jogo das relações de domínios do saber. Cada vez mais, a psicologia pode se constituir, no campo da loucura e mesmo no da internação psiquiátrica, como um dispositivo capaz de dar passagem as forças imanentes, não se atrelando as formas apertadas da história disciplinar, se fazendo passagem para novos mundos. A configuração atual do hospital na atualidade e a existência de internos resultantes do período da clausura é o modo mais contundente e desafiador para o psicólogo, não mais se afirmar como um disciplinador, mas precisar mais do que nunca, compor-se com as forças de fora, materializadas nas pesquisas como linhas de fuga e resistência. Se a psicologia não precisa mais provar a sua existência, se está se desvencilhando das amarras do acontecido, das práticas divisórias que a compõem, indo além do normal e anormal, vemos um movimento novo, potencializando-se com o que vem de fora, abrindo-se a pesquisa, não do que ficou para atrás, mas para o que ainda resta, do que não foi capturado e para o que pode vir a ser.Se a invenção da psicologia foi abrir brechas em meio as forças enclausurantes por meio de formas disciplinares, seria agora incluir nas suas análises como devolver à existência humana o fluxo da vida ao pensamento.

HISTÓRIA DO PROCESSO DE DESINSTITUCIONALIZAÇÃO DA LOUCURA EM SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL NO ESTADO DE SERGIPE: UM PROBLEMA CLÍNICO-POLÍTICO.
Joana Angélica Macedo Oliveira

Mestranda do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense.

Eduardo Passos



Doutor em Psicologia, área de pesquisa Estudos da Subjetividade, Professor ajunto do departamento de Psicologia da UFF.
Foucault, em suas densas pesquisas em História da Loucura (1999), nos ensinou que o exercício de saber/poder que se constituiu em torno da loucura é um modo de produção extremamente complexo e secular. Trata-se do saber/poder disciplinar que, por um lado, atuará sobre o corpo “doente mental” exercendo a tutela através das instituições manicomiais. Por outro, incidirá sobre a população, produzindo não só a normatização da loucura, retirando do convívio social aqueles que forem considerados uma ameaça ao equilíbrio da sociedade, mas também regulamentando e totalizando os corpos que serão modulados e distribuídos em algum lugar nas instituições. Esse processo de produção construirá a série doença mental–tutela–manicômio. As experiências de Reforma Psiquiátrica Italiana denunciavam os horrores dessa série que, de um lado, envolvia o espaço concreto de internação do doente mental e, do outro, a função de um saber abstrato que, embora construído com base no modelo de teorias médicas, desde suas origens estava aliado e comprometido com problemas de ordem pública e do controle do desvio. No Brasil, as experiências de luta a favor do processo desinstitucionalização da loucura ganharam expressão na segunda metade do século XX. O desafio foi lançado: é preciso continuar o movimento de resistência às antigas e novas instâncias de tutela que estão a todo o momento emergindo. A política de saúde mental brasileira, pela extinção progressiva dos manicômios, construiu serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico, criando novos modelos de atenção como os CAPS. Nesses novos dispositivos de atenção em saúde mental há riscos de produção de existências capturadas “a céu aberto” que precisarão da infinita tutela dos profissionais do controle. Em Sergipe, vale dizer, a história da reforma psiquiátrica remonta aos anos 80, sendo que até esses anos a única rede existente no Estado era a das instituições asilares. Em 1985, quando o Adauto Botelho, hospital psiquiátrico público que acolhia toda a demanda do Estado, foi fechado por falta de condições mínimas de atendimento, seus pacientes foram transferidos para o hospital Garcia Moreno, localizado na periferia de Aracaju. Após o fechamento do Adauto Botelho, grande parte do contingente de internação do estado de Sergipe passou a ser dirigido para duas clínicas particulares existentes em Aracaju, fazendo-as crescer vertiginosamente. Neste contexto manicomial hegienista, sabia-se que os destinos das pessoas que se encontravam numa relação de sofrimento com o corpo social estavam novamente selados, seus desatinos tinham agora novo endereço fixo. A inexistência de uma rede heterogênea de atenção à Saúde Mental gerou uma decisão política da Coordenação de Saúde Mental do Estado de Sergipe de implantar, no menor tempo possível, a rede alternativa de saúde mental. Mas essa rede fora implantada à revelia de qualquer participação e discussão com os atores implicados no processo de desinstitucionalização da loucura. Nesse processo forçado pela urgência política, correu-se o perigo de realização de uma implantação burocrática, constituindo serviços sem as condições mínimas determinadas pela portaria MS 336/2002, para seu funcionamento. As discussões de autores como Foucault, Deleuze, Guattari, Hardt, Negri, Agamben, entre outros, ressaltam modulações contemporâneas de um poder que se capilarizou através do alisamento do socius, controlando os fluxos de produção da sociedade e colocando-os a favor da lógica de mercado. Como efeito desta axiomática mercadológica do Capitalismo Mundial Integrado, identificam-se transformações político-sociais nas quais o poder se exerce como biopoder, pretendendo capturar a vida. Nesse exercício realizado pelo poder no contemporâneo, indicamos o perigo de uma modulação da relação de tutela operada pelo antigo manicômio para o controle de subjetividades cronificadas dos serviços ditos “abertos”. Queremos discutir a modulação da série doença mental – tutela – manicômio para essa outra: doença mental – controle – serviços abertos. A complexidade do funcionamento do campo da saúde mental no contemporâneo exige, portanto, que se problematize os efeitos produzidos no processo de desinstitucionalização da loucura. Tal problematização nos conduz à análise da instituição da loucura e da “instituição manicomial” constituídas tanto em formas duras como os hospícios quanto em formas fluídas e diluídas por toda a rede social até mesmo nos novos serviços de saúde mental substitutivos ao manicômio. Tomar as práticas instituídas no campo da Reforma Psiquiátrica é interrogar os modos de subjetivação que estão sendo constituídos nas organizações através das quais essas práticas se instrumentam. O desafio de problematizar as práticas de atenção nos serviços substitutivos ao manicômio nos obrigou a construir operadores analíticos que cartografassem a produção de subjetividades assujeitadas no contemporâneo. Nesse sentido as questões que nos propomos discutir estão alicerçadas em experiências que ocorreram em dois serviços de saúde mental, no estado de Sergipe entre os anos de 1999 e 2003. Tais experiências fazem parte de um período em que um dos autores ocupou o cargo de supervisor institucional no Caps Luz do Sol e no Caps Artur Bispo do Rosário. Durante o processo de supervisão algumas práticas foram colocadas em questão pela equipe: a) a cronificação dos usuários, b) o funcionamento das oficinas, ditas, “terapêuticas” e c) a produção de demanda em psiquiatria. A discussão em torno desses três analisadores institucionais nos permitiu pensar a inseparabilidade entre a clínica e a política no campo da Reforma Psiquiátrica, obrigando-nos a tomar como distintos, mas indissociáveis, as práticas de gestão e atenção nos serviços de saúde mental, as políticas de saúde e a organização dos serviços de assistência em saúde mental, às formas instituídas e vetores instituintes no campo da Reforma, a macropolítica da máquina do Estado e a micropolítica que força o movimento de desinstitucionalização da loucura. A perspectiva desse trabalho não é, de modo algum, traçar um modelo de intervenção em serviços substitutivos de saúde mental. Ao contrário desejamos olhar criticamente para essa experiência, buscando analisar não só seus pontos frágeis, mas principalmente tentando criar operadores analíticos que construam linhas de fuga para continuar o movimento de desinstitucionalização da loucura. Essa é a nossa aposta e o nosso desafio clínico-político.



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