Um magnata no texas



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Capítulo 11
Christina ficou pálida.

Derek já esperava aquela reação. Por isso a convidara a ir até sua casa, assim não teria que obrigá-la a manter uma postura profissional no trabalho com um assunto tão delicado.

Na semana anterior havia contatado alguns conhecidos, juntando alguns detalhes que não constavam no currículo de Christina. Finalmente descobriu por que ela havia escondido alguns pontos de sua carreira e porque tinha dito que a noite que passaram juntos havia sido um erro.

Ele se sentiu um idiota pela forma como a tinha tratado. Pela forma como tentou fazer com que ela admitisse que aquela noite não havia sido um erro, que tudo tinha sido mais do que certo.

Depois de deixar o copo na mesa, Derek apoiou os braços nas coxas.

- Pode me contar sua versão da história, Christina? Já ouvi várias pessoas, mas quero escutar o que você tem a dizer.

Ela não conseguia olhar para ele.

- Você deve ter ouvido o essencial. Eu aleguei que tinha sido assédio sexual, ele negou e eu acabei indo embora para Los Angeles arrasada e desmoralizada. Quero que saiba que não tenho o hábito de processar meus chefes. É disso que você tem medo?

- Boa pergunta.

Ela o olhou com perplexidade. Aquilo a ofendeu profundamente.

- É, não posso culpá-lo por isso.

- Espere. Quero dizer que é algo que um chefe pode considerar, mas não acredito nem um pouco que você possa ter planejado algo tão maquiavélico.

- Acredita na minha versão da história então? - Ela parecia tão doce, tão sincera.

Derek teve vontade de tocá-la, abraçá-la. Mas não se atreveu a pôr em prática seus pensamentos.

- Acredito em você, Christina. Desde que você se demitiu da Macrizon, William Dugan foi acusado por mais duas colegas de trabalho por assédio.

Christina fez que sim.

- Mantenho contato com algumas pessoas da empresa. Soube que o processo ainda está em andamento. Agora é torcer para ele pagar pelo que fez. Quando eu fui dar queixa dele, ninguém fez caso. Ele era muito rico, influente e as queixas foram retiradas por falta de provas. Mas não me arrependo. Se não tivesse feito isso, não conseguiria viver em paz.

- Por que você não me contou isso antes?

- Por várias razões. Não é exatamente algo que se conta para o novo chefe. "Ah, por falar nisso, dei queixa do meu antigo chefe, porque ele vivia me mandando gracinha, mãos bobas e ameaças de que perderia o emprego se não desse para ele. Mas não se preocupe não, pode confiar em mim, mesmo assim".

- Eu entendo - Derek tentava não demonstrar sua decepção. - Mas achei que a gente tivesse uma relação que ia além da estritamente profissional.

- Derek - ela respirou fundo. - Você sabe que foi melhor a gente ter parado antes que as coisas ficassem feias para o nosso lado. Desculpe-me por ter posto a gente nesta situação. Mas eu realmente perdi o controle, como nunca tinha acontecido antes...

- Que bom que você perdeu o controle.

- Eu também - ela disse, completamente sem graça. - Mesmo sabendo que não vai acontecer novamente.

Suas fantasias desabaram com as palavras de Christina. Mas como poderia culpá-la? Ela já tinha tido o suficiente por ter lhe presenteado uma noite de amor.

Mesmo assim, escutava sua consciência pedindo que perguntasse "e se a gente continuasse com nossas atividades extracurriculares? Você toparia?".

Aquele era o velho Rockwell pensando. Que fazia tudo para conseguir o que queria. Um homem que confiava no "magnetismo animal" para atrair suas presas numa relação sem vínculo afetivo.

Ele não iria pedir a ela um namoro duradouro ou nada parecido. Até porque quando a Fortune-Rockwell voltasse a ser lucrativa, Derek não sabia quanto tempo mais ficaria em San Antonio.

Nunca ficar muito tempo em um só lugar era seu lema. Nem com uma só mulher. Cair fora enquanto tudo estava bem, isso sim.

- Para ser sincera - ela disse - estou muito tentada, mas continuar saindo com o chefe, com você, é como pôr a mão no fogo para ver quanto agüento o calor da chama.

- Não acho que doa tanto assim. - Ele sorriu para ser mais convincente.

- Pára, Derek. - Ela riu suavemente, já familiarizada com as técnicas de sedução dele. - Você não vai conseguir desta vez. Os rumores da semana passada já foram um aviso e só se for estúpida para não aprender a lição. Esse tipo de boato é uma arma poderosíssima numa empresa.

- Também soube que você foi bastante prejudicada principalmente por causa de uma colega de trabalho, durante o processo.

- Rebecca Waters. Não tenho como provar, mas sei que foi ela quem espalhou as mentiras de que fui eu que dei em cima do Dugan.

- Por que ela faria isso?

- É uma longa história. Digamos que Rebecca tinha um sentimento psicótico de vingança e não sossegou enquanto não me ferrou. Eu e Glória éramos amigas da Rebecca. Fazíamos quase tudo juntas. Mas a Rebecca usava drogas, bebia muito e começou a levar minha irmã para esse caminho. Quando tentei acordar a Glória para a besteira que ela estava fazendo, a Rebecca ficou ofendida.

"Mulheres: como um ser tão frágil podia ser tão cruel", perguntava-se Derek.

- Semana passada - Christina continuou -, quando a Twyla espalhou aquela história, o passado voltou a me perseguir. Foi como se nunca tivesse saído da Macrizon.

- Que droga. Como gostaria de ser eu o chefe da Rebecca. Ela iria me pagar caro. - Derek falou sem pensar e se arrependeu em seguida. Não porque os olhos de Christina se arregalaram de admiração. Ele até gostou da reação. Mas porque não gostava de expressar sentimentos que preferia esconder.

Ele tentou se mostrar menos emocional. Christina sabia se defender sozinha. Não precisava dele de guarda-costas tomando suas dores.

Ela deve ter sentido aquele recuo, porque continuou falando como se ele não tivesse feito nenhum comentário.

- O pior de toda essa história foi a Glória não ter acreditado em mim. Foi aí que pedi demissão e deixei minha família. Estava revoltada com a injustiça que ela me fez. Ao mesmo tempo, não conseguia encarar meus pais e meus irmãos. Eu me sentia uma perdedora.

Derek não agüentou de pena, e pousou uma das mãos no joelho de Christina. Ela não reagiu, gostou da atitude e pôs os dedos sobre a mão de Derek.

- Você nunca foi nem será uma perdedora - ele disse. - Você é brilhante, Christina Mendoza. Além disso, só uma mulher de muita coragem para enfrentar um homem poderoso e ir à polícia se expor e tocar num tema tão delicado. - Ele virou a palma da mão para que encontrasse a de Christina. - Sua coragem me impressiona.

Por alguns segundos ela não disse nada, apenas o observou, com um brilho nos olhos.

- Vindo de você, significa muito para mim.

Foi a vez dele corar. Não, pensou, deve ter sido o sol que pegou de manhã. Deve ter queimado seus miolos também. Porque, primeiro, saiu falando de sua família e sentimentos. Depois aquela história de salvador, agora isso. Derek ficou assustado com tantas revelações de um lado seu que não conhecia.

Houve uma pausa e os dois tomaram um pouco de água e ficaram olhando o rio. O sol já estava fraco e fazia uma sombra suave nos barcos e canoas sobre a água.

- Continua remando com freqüência? - Ela perguntou.

Derek ficou aliviado por ela ter mudado de assunto.

- Remo todos os dias, de manhã. Tenho só dois meses para praticar até o campeonato.

- Nunca remei, nem em caiaque.

- Então tenho que levar você um dia para remar comigo.

Não! Mais uma vez havia falado sem pensar. No entanto, de alguma forma, compartilhar sua paixão pelo esporte com Christina não soava nada do outro mundo.

- Adoraria - ela respondeu, com um sorriso.

Encantado, ele baixou o tom de voz.

- Que tal hoje à noite, Christina? Bem mais tarde. Depois que o Richie for para casa? Um remo à meia-noite?

O corpo de Derek esquentou subitamente só de pensar na lua, na água, na noite, tudo criando um clima de absoluta sedução.

Mas não tinha que estar pensando nisso, que idiota.

Ela demorou tanto para responder que parecia que ele não havia perguntado nada.

- Se a gente for, vai ter que ser apenas como amigos. Nada além.

Apesar do instinto de querer que ela fosse de qualquer jeito, Derek voltou atrás. Sabia que ela estava certa e a entendia.

Uma batida na porta de vidro chamou sua atenção. Era Richie.

Derek se levantou de imediato. Olhou o ruivinho de óculos fundo de garrafa e sentiu pena. Se algum dia tivesse um filho, por mais improvável que fosse, nunca o deixaria abandonado à espera de uma brecha na agenda, vendo-o uma vez por mês apenas. Entendia bem como era ser rejeitado pelo pai e ignorado pela mãe.

- Estou com fome - disse o menino.

Derek olhou o relógio de pulso. Já era hora do jantar. Sandra, a mãe, tinha dito que voltaria tarde da noite. Derek pensou em pedir uma pizza. Porém, deduziu que o menino devia estar acostumado a só comer porcaria, que, como Richie havia dito, a mãe não cozinhava.

- Quer dar um pulo na La Villita e lá buscamos um lugar para comer?

Sorrindo, Christina cruzou as pernas, enquanto se divertia ao ver Derek lidando com a miniatura de gente.

Derek estava tão atento aos movimentos de Christina que quase não entendeu a resposta de Richie.

- La Villita - Richie pareceu interessado. - Estudei na escola que foi o primeiro bairro de San Antonio.

- Você me contou - Derek voltou-se para Richie. - Lembro que recebeu nota A pelo trabalho. A gente pode comer carne, frutos do mar, o que você quiser...

- Gosto de hambúrguer.

- Está bem, então. Pegue sua jaqueta que na cadeira, do lado da porta.

Depois que o menino saiu, Derek olhou para Christina e viu que ela sorria divertida, com as sobrancelhas levantadas.

- O quê?

- Um ponto para você. Sabe lidar com ele.

Richie voltou em seguida, abrindo a porta e colocando a cabeça para fora.

- Você está com fome também? - Ele perguntou a Christina

- Não...

Que mulher osso duro de roer. Derek não queria que ela fosse embora.

- É - ele a interrompeu. - Por que não vem com a gente?

- Não sei... será que é uma boa idéia?

- Não vai doer nada.

Christina fez uma cara de dúvida, mas Derek leu nos olhos dela que a resposta era sim.

Tudo bem que apenas como amigos, pelo menos, naquela noite.

La Villita era um bairro na beira do rio San Antonio, cheio de casas tombadas, ateliês de arte, lojas de artesanato e muitos restaurantes charmosos. Soldados espanhóis haviam habitado aquela região séculos antes, até que uma enxurrada varreu tudo, destruindo a cidade. Mais tarde, imigrantes alemães e franceses voltaram a ocupar a zona. A vila era muito pobre, mas a população unida conseguiu melhorar e preservar o que hoje era San Antonio. Christina havia aprendido mais sobre a história da cidade conversando com Richie do que na aula de história de sua infância.

Haviam escolhido o restaurante de carne Guadalajara Grill, o lugar favorito de Derek. Richie comia seu hambúrguer e contava o que havia aprendido em sala de aula. Conversaram sobre videogames, sobre a escola de Richie e riram bastante.

Depois foram caminhar pelas ruas do bairro e apreciar o comércio e a literatura. Em cinco minutos, tinham combinado de se encontrar com a mãe que iria apresentar o novo ficante ao filho.

Muito animado para ver a mãe, Richie foi andando mais rápido, na frente.

- Não sabia que você gostava tanto de videogame. - Derek comentou, com um sorriso provocador.

- Ah, acho divertido e estimulante. - Ela não mencionou que atrás dos DVDs de yoga, escondia alguns desses joguinhos relaxantes.

Andavam lado a lado e os pêlos do braço de Derek roçavam a pele de Christina a cada segundo. Ela poderia ter se afastado, mas não o fez.

Sentia-se mais próxima dele depois da conversa sobre William Dugan. Também sentia como se tivesse liberado um peso das costas, algo de que há anos tentava se livrar através da corrida e dos exercícios físicos.

Porém, Derek tornou tudo muito mais fácil para ela e agora podia respirar melhor.

Quando estavam chegando no centro comercial, ele a guiou pondo a mão nas suas costas. O contato foi inocente, gostoso. Combinava com aquela caminhada à moda antiga.

Então porque o toque causou um arrepio na espinha de Christina? Richie não olhava para eles. Prestava atenção numa vitrine.

- Será que ele é legal? - O menino perguntou.

Estava falando do namorado da mãe. Christina sentia pena do garoto. Durante o jantar ele falava da mãe como se ela fosse o máximo, mas pelo que Derek havia contado antes, a mulher era uma mãe ausente.

- Se ele não for - respondeu Derek, apoiando a mãe no ombro pequenino do menino -você me diz.

Derek mostrava novamente seu lado protetor, causando admiração em Christina.

- É mesmo? Você bate nele por mim?

- Bater, não...

Richie havia se virado e olhava Derek com tanta adoração que Christina chegou a pôr as mãos no peito de emoção.

Derek deu de ombros.

- Mas vou fazer de tudo para ajudar, Richie. Sem violência.

Um largo sorriso apareceu no rosto do garoto e Derek apoiou as mãos na cintura com um sorriso disfarçado no canto da boca de satisfação.

Christina assistiu à cena com ternura. As batidas do coração dela diziam apenas uma coisa: paixão.

Do final da rua, perto da praça, ouviu-se uma voz feminina chamando pelo nome de Derek. Todos se viraram para ver que era a mãe de Richie quem gritava, ao lado de um homem. Estava com os braços abertos para o filho.

Pulando de alegria, Richie saltou nos braços de Derek.

- Obrigado pelo jantar. Foi muito divertido.

- Também me diverti muito - Derek deu um tapinha singelo nas costas de Richie.

- Vê se não desaparece, está bem?

- Pode deixar. - Richie se desprendeu de Derek e imediatamente abraçou Christina. Ela se curvou para retribuir o afeto.

- Você vai voltar à casa do Derek para a gente jogar videogame?

- Posso fazer uma visitinha um dia desses - ela sorriu. - A gente se vê.

Richie respondeu um "legal" e foi correndo ao encontro da mãe, que o pegou nos braços e o girou. O cara, que parecia muito simpático, ficou esperando um pouco hesitante.

- Ele tem uma aparência legal, o ficante - disse Christina.

- Aposto que é outro vagabundo. Se for, vou ter uma conversa com a Sandra. Já é difícil para mim ficar de boca calada para não falar mal do ex-marido, mas se ela pedir minha opinião...

- Como você pode ter alguma opinião? - Christina puxou gentilmente a camisa dele. - Você nem o conhece.

Quando os olhares dos dois se cruzaram os dele escureceram.

- Ainda não.

Que mania que tinha aquele homem de querer proteger as pessoas de quem gostava. Mas, no caso dela, quanto tempo duraria tal afeto? Será que o que ele oferecia ao menino não era capaz de oferecer a uma mulher?

Curiosa, tocou o cotovelo de Derek. Ele reagiu com um sorriso radiante e a pegou pelo braço, levando-a até a vitrine iluminada de uma loja de antiguidades.

Ela repousou os dedos sobre o bíceps forte de Derek. Não, não havia qualquer tipo de expectativa ou segundas intenções ali. Havia? Não ia acontecer nenhuma surpresa ou recaída naquela noite, apenas uma caminhada inocente pela La Villita, certo?

Mesmo que a lua despontasse no céu e o banhasse com seus raios prateados, tornando a noite, e também ele mais misteriosos, nada mudaria.

Quando entraram na loja, ela relaxou. A vendedora os viu e voltou a ler a revista de fofocas que tinha nas mãos.

O cheiro de madeira velha e de flores secas invadia o ambiente. Os dois foram até o fundo da loja olhando os objetos expostos: abajures enferrujados, vidros de janela maculados, roupas antigas e pictogramas.

Um item chamou a atenção de Christina: um xale vermelho, com um trabalho bastante complexo de crochê, em forma de flores.

Fascinada, tocou o tecido, que parecia seda, de tão macio que era. Não costumava usar nada com cores berrantes, mas o xale era realmente muito bonito.

Quem sabe, por dentro, não era uma mulher que se sentiria bem usando algo assim? Uma senhorita hispânica, flertando com os caballeros? Como uma dama, em sua sacada, com uma rosa na orelha, contrastando com seus cabelos escuros, enquanto os homens a espiavam das sombras.

Sentindo-se romântica, pensou em como Derek reagiria se ela usasse algo tão belo e extravagante.

Ela o sentiu acercar-se por trás.

- Você gostou do xale - ele disse. - Deu para perceber do outro lado da loja.

Ele estava tão perto que ela podia sentir a vibração da voz dele em sua nuca. Estremeceu, desejando que ele continuasse a falar.

Em vez disso, ele ajeitou o xale sobre os ombros de Christina e em seguida, ajeitou o cabelo que havia ficado preso por debaixo.

Parecia que ela havia submergido numa piscina de pétalas, se banhado de uma seda luxuosa e suave.

Quando ele pôs as mãos sobre os ombros dela, os joelhos de Christina ficaram bambos.

- Deixe eu dar ele de presente para você - ele suspirou.

Se eles fossem duas pessoas que não precisassem se preocupar com o mundo exterior, iria para casa com ele, despiria sua roupa sem graça e vestiria apenas o xale para ele. O corpo nu ficaria semicoberto, atiçando-o enquanto ele a olhava da cama, desejando-a ardentemente.

Fazendo-a se sentir viva como havia feito dias atrás.

Mas não eram esse tipo de gente. Tinham suas carreiras e nenhum deles seria capaz de abandonar seu trabalho por muito tempo sem perder sua identidade.

Com relutância, ela retirou o xale e voltou a guardá-lo no cabide. Mesmo sem olhar para Derek, sabia que ele estava desapontado.

Mas ela também estava.

- Não uso esse tom de vermelho - ela sorriu para tentar quebrar o clima tenso que havia se criado no ambiente.

O olhar penetrante de Derek revelava a ânsia que sentia por ela, relembrando-a da noite na danceteria de salsa à beira do rio. Estava pronto para comê-la viva, completamente faminto.

Ia ser sempre assim? Não haviam conseguido diminuir o desejo que sentiam um pelo outro nem um pouco. Ao contrário, o tesão havia apenas se exacerbado ainda mais, tornado-se ainda mais perigoso.

Christina se afastou de Derek para tentar recobrar a razão. Encontrou umas balas à venda e decidiu se satisfazer com elas para não acabar atacando o chefe.

Ele a deixou sozinha. Melhor assim, pensou ela. Precisava de um tempinho a sós para se recuperar até encará-lo novamente.

Minutos depois estava recobrada, com a mão cheia de dropes de limão. Pagou as balas e foi para fora da loja, onde Derek a esperava.

Sorrindo, Derek olhou para as balas.

- Não conseguiu resistir, né?

Ela ofereceu uma a ele e Derek aceitou.

- Às vezes, não consigo me controlar - ela disse enquanto iam rumo ao estacionamento. Ficou a impressão de que ambos estavam cientes de que se separar era o melhor a fazer.

- Mais algum segredo que devo saber de você? Além do impulso por comida que engorda e da mania por videogame infantil?

- Não, hoje você ficou sabendo os últimos segredos da minha vida.



Mas e você? Queria perguntar. Diga-me o que tanto esconde. Porque posso ver nos seus olhos. A mágoa. A solidão.

Perguntar isso seria como se abrisse a caixa de Pandora e Christina não era boba de cutucar onça com vara curta. Era melhor deixar as coisas como estavam. Não estava preparada para mais emoções.

Cada um havia usado seu carro para chegar até La Villita. Logo, quando se despediram no estacionamento público, havia uma noite de sábado fervilhando ao redor deles. As várias pessoas passando e atravessando ajudaram a quebrar a magia de estar sozinha com ele. Quando se separaram, ela não pode evitar olhar para trás. Uma última olhadela.

Ele a olhava também, as mãos dentro dos bolsos do jeans.

A troca de olhares a sacudiu, fez com que ela sentisse vontade de correr de volta para ele e cobri-lo de beijos.

No entanto, enquanto a cerração do rio filtrava as luzes dos postes até chegar nele, Derek ergueu a mão.

Tchau.

Ela fez o mesmo, sentindo como se estivesse usando a palma da mão para afastá-lo.



Naquela noite, não conseguiu dormir com tranqüilidade, carregada com sonhos impossíveis. Todos com ele. Sonhos adornados com suspiros, sensualidade, paixão.

Quando acordou, na manhã seguinte, encontrou um pacote à sua porta. Um embrulho marrom com um laçarote.

Era o xale vermelho.

Parada na soleira da porta em seu roupão, segurando o presente colado ao rosto, para sentir o perfume de rosas e de velhas lembranças, Christina sentiu o coração trepidar.

Era o prelúdio de uma paixão avassaladora.


Capítulo 12
Domingo de manhã, Derek perdeu a ligação de Christina porque estava no rio, remando.

Mas o som da voz dela na secretária eletrônica o estremeceu da mesma forma, como se estivesse falando com ela pessoalmente.

- Recebi seu presente - dizia ela na mensagem. - Obrigada, Derek. Parece que sabe bem como me fazer feliz.

Claro que ele ficou exultante pelo resto do dia, sorrindo sozinho a todo momento, enquanto trabalhava em casa.

Como ela conseguia exercer tanto poder sobre ele? Ou não podia ou não queria compreender a razão.

Tudo o que Derek sabia era que ao vê-la naquele xale ele não apenas ficou excitado fisicamente quanto emocionalmente.

Quando foi a última vez que havia impulsivamente envolvido uma mulher nos braços daquele jeito? "Nunca" era a resposta. Nunca antes havia sentido vontade de abraçar alguém com tanta força, com a intenção de aquecer e proteger.

Mesmo quando ela recusou o xale, ele sabia que Christina havia adorado a peça. Então, enquanto ela comprava as balas, ele comprou o presente e voltou para pegá-lo depois que ela foi embora de carro.

Foi pessoalmente deixar o embrulho na porta dela, de manhã bem cedo.

Teve que se segurar para não bater na porta e implorar para entrar. Mas sabia que Christina Mendoza merecia um tratamento especial.

Quando a segunda-feira chegou, Derek continuava embebido de sensações e emoções suscitadas por Christina. Porém, logo essa paixão passageira se esvairia.

Será?


Como sempre, ele chegou mais cedo que a maioria dos funcionários. Quase sempre chegava mais cedo que Christina, mas não naquela segunda.

Ela estava sentada na cadeira ao lado da mesa dele, quando Derek entrou na sala. Surpreendentemente, ela tinha os cabelos soltos, com cachos castanhos escuros que caíam sobre os ombros de Christina, para trás da orelha. Vestia calça bege e uma estonteante blusa vermelha que realçava a cor bronzeada de sua pele e o brilho dos olhos.

A equipe havia sido liberada para vir com roupas informais, já que exercícios físicos seriam feitos mais tarde, na sala de conferência. Mesmo Derek planejava vestir um jeans.

Depois que seu coração parou de pular de um lado para o outro ao deparar-se com ela, Derek se deu conta de que não seria nada mau se Christina fosse a primeira pessoa que ele visse todas as manhãs.

Era melhor pensar em outra coisa.

Mas, nossa, como ela estava linda.

Enquanto deixava a maleta sobre a mesa, ela sorria para ele.

- Oi. Estava esperando mesmo que você fosse o primeiro a chegar.

Derek não conseguia olhar para ela sem sentir uma corrente elétrica passar por suas veias. Porém, conseguiu disfarçar seu estado de excitação, mantendo sua mesa como um obstáculo de segurança entre os dois.

- Sou todo seu - ele jogou com as palavras, mas a verdade era que o sentido era literal.

Ela se levantou e deixou os papéis na mesa.

- Só um telefonema não seria suficiente para agradecer o presente que você me deu.

- O xale? - Ele deu de ombros, tratando de se convencer de que estava dando a ela nada mais que um presente. De que o xale não era uma espécie de mensagem.

Mas que diabos estava tentando dizer?

- Eu... - ela se aproximou. - Quero que saiba que nunca tinha ganhado algo tão maravilhoso antes...

Quando ele a olhou nos olhos esperava encontrar a Christina tímida e distante que ele conhecia no ambiente de trabalho. Mas não foi o que viu.

Ela o encarava atenta e atrevidamente. Pura emoção emanava dos olhos de Christina, convidando-o a entrar naquele universo e fazer parte dele.

A expressão de Christina deixou Derek sem ar, fazendo o tempo parar. Imagens de tempos passados perpassaram a mente dele.

"Senhor" dizendo ao pequeno Derek que ele precisava de disciplina e determinação para ser um vencedor na vida, e depois forçando o filho a manter as mãos trêmulas durante duas horas na mesma posição para provar sua teoria.

"Senhor" ordenando que o filho ficasse de guarda sobre o túmulo aberto da mãe, sem deixar que ele saísse sequer um minuto do posto, mesmo depois que Derek já não suportava mais ver o corpo imóvel da mãe.

A cena seguinte já o mostrava na marinha, recusando as cartas e telefonemas de "Senhor". Depois, viu como um filme, o funeral de "Senhor", ao qual só compareceram cinco pessoas.

Aturdido com o flashback de tragédias em sua vida, Derek olhou para o nada, querendo espantar suas lembranças ruins. Christina estava em silêncio, à espera de uma resposta à altura de sua declaração, mas Derek sentia que não podia naquele momento.

- Você ficou muito bonita com o xale - forçando um sorriso - então eu comprei.

Ela continuou ali parada olhando para ele, contornando a quina da mesa de Derek com os dedos.

- Ah, entendi.

Será que ela havia interpretado que o xale significava mais que isso?

Bem, claro que significava. Porém admitir exigiria de Derek tomar um rumo que não estava disposto a explorar.

A verdade é que havia deixado sua libido subir-lhe à cabeça no fim de semana. Tratar o presente como se fosse um grande gesto seria um erro.

- Pronta para a reunião? - ele perguntou, tentando se concentrar no trabalho, seu salvador.

- Claro. - Ela recuou, recolheu seus papéis e se virou para a saída. - A gente se vê na sala de conferência, em uma hora, então?

- Daqui a uma hora, com certeza. - Derek fingiu estar ocupado ligando o computador.

Ao vê-la se retirar da sala, a culpa foi cegando Derek e logo ele já não via nada ao seu redor.

Por que tinha sido tão babaca com ela? Por que a afugentou quando ela estava se abrindo para ele?

Virando-se para a grande janela de vidro, com a vista do rio San Antonio, Derek se repreendeu severamente por ter espantado Christina.

Foi algo tão cruel quanto as atitudes de "Senhor" para com o filho e a esposa.
Christina organizou os folhetos informativos na mesa da sala de conferência, em frente de cada mesa. Seth havia tido a brilhante idéia de fazer uma apresentação diferente e mostrar que a Fortune-Rockwell estava começando uma nova fase, mudando sua filosofia.

Iriam entrevistar um especialista em encorajar funcionários a pensar mais positivamente, a confiar nos colegas de trabalho através de exercícios. Uma espécie de terapia.

Christina precisava urgentemente de uma, pensou.

O que lhe deu para ter se insinuado daquele jeito com Derek? Como havia passado dos limites!

Chegara a pensar que poderia expressar abertamente seus sentimentos por ele, que só faziam crescer. Que poderia dizer para ele que estava disposta a avançar a relação para uma nova fase, fosse lá o que aquilo significasse. Nunca tinha passado da primeira fase num relacionamento. Logo, tudo era novidade para ela. Estimulante.

Christina havia tentado mostrar a ele o quanto o xale tinha significado para ela. O presente tinha mostrado que ele havia entendido como ela era por dentro e notado a necessidade ardente que ela tinha de ser amada e desejada. Nenhum homem havia prestado tanta atenção nela, enxergando-a muito mais além de seu temperamento frio e suas roupas antiquadas.

Derek era um homem diferente, especial, pensou. Compreendia-a por dentro e por fora.

Depois das desventuras amorosas, Christina havia se entregue ao trabalho para esquecer a dor e era o que faria agora, pensou. Um dia iria se recuperar.

Sim, estava perdidamente apaixonada. O fogo de palha que surgiu entre os dois foi se transformando num incêndio perigoso. E sublime.

Alguns minutos depois, a equipe chegou, todos vestidos informalmente. Seth, Adam e Ben entraram na sala de conferência e Christina os esperava com um sorriso formal. A velha e responsável Christina, dedicada e disciplinada.

Logo o especialista chegou, seguido de Jack e Derek, que se sentou ao lado dela, de jeans e botas. Parecido ao jeito como estava vestido no fim de semana, quando ela foi à casa dele.

Quando todos se sentaram à grande mesa oval, Christina, acidentalmente, olhou para Derek e descobriu que ele já olhava para ela, com um pedido de desculpas nos olhos.

O sangue fervilhou em suas veias, não sabia como responder ao olhar. Será que algo havia mudado desde de manhã?

Quando as mãos dele tocaram a coxa de Christina por debaixo da mesa, ela obteve a resposta para sua pergunta.

A reunião começou e ela agarrou a mão dele e prendeu a respiração, aguardando a reação de Derek.

Ele acariciou os dedos dela com o polegar e Christina sentiu alívio e contentamento. Estava se derretendo toda, agora. Não era um bom sinal. Uma mulher de negócios não podia ficar com a cara toda vermelha no meio de uma reunião importante.

Conseguiram disfarçar o contato físico por algum tempo, mantendo uma postura séria e compenetrada por cima da mesa, enquanto por debaixo a história era outra.

Foi então que o especialista pediu a todos que ficassem de pé para que ele fizesse uma demonstração de um dos "exercícios para ganhar confiança".

Era um em que um dos participantes subia em cima da mesa e se deixava cair de costas, sem olhar para trás, para que os outros apanhassem a "vítima".

- Detesto esse tipo de exercício - sussurrou Derek no ouvido de Christina. O perfume do cabelo dela o estonteou.

- Concentre-se no trabalho - ela sussurrou de volta.

Ele não podia esperar para que houvesse um intervalo e assim pudesse dizer a ela... o quê? Que queria dormir com ela outra vez, era isso. Devia ser isso.

Jonathan, o menorzinho do grupo, se ofereceu para a ser a primeira vítima e subiu na mesa, dizendo aos participantes que para o bem deles não deveriam deixá-lo cair.

Derek aproveitou e deu um largo sorriso para Christina, nada parecido aos sedutores que costumava dar, esse era descontraído, divertido, algo que ele não imaginava que possuía.

Jack viu acena e franziu o cenho, surpreso e curioso.

Na verdade, depois que todos já tinham subido na mesa e se deixado cair, todos morrendo de medo, fizeram uma pausa e Jack não perdeu a oportunidade de falar com Derek.

O sócio tomou Derek pelo braço, o levou a sala ao lado e fechou a porta.

- O que foi aquilo?

- É, eu sei - Derek se fez de bobo. - Um exercício meio assustador, mesmo.

- Não é disso que estou falando. - Os olhos azuis de Jack estavam cheios de surpresa, mas não eram de reprovação. - Vi os olhares apaixonados que você lançou para Christina.

- Por favor, Jack, só porque você vai se casar, não significa que o resto do planeta Terra tem que estar enamorado como você.

- Você não me engana, Derek. - Jack disse, apontando o dedo para o irmão de consideração. - Já tinha percebido uma metamorfose em você há dias. Lá em Nova York, conhecia um homem que era agressivo e um guerreiro impassível. Mas alguma coisa aconteceu. Desde que a Christina Mendoza entrou na sua sala...

Derek sentiu um prelúdio de algo mais parecido com pânico.

- De jeito nenhum, continuo sólido como uma rocha.

- Talvez para os negócios. Mas você não tem mais sido visto com uma bando de mulheres pela cidade, como antes. O que aconteceu?

- Logo entro no círculo social de San Antonio. Só preciso de mais tempo. Não se preocupe.

- E esse cabelo?

Derek levou as mãos à cabeça.

- O quê?

- Está mais longo. Aliás, foi minha mãe que reparou. As mulheres não deixam escapar nenhum detalhe.

- Ah. - Derek não tinha ido ao cabeleireiro naquela semana. E daí? Derek havia ficado incomodado com o comentário que Christina tinha feito sobre o visual militar do corte de cabelo dele. E a verdade era que se sentia bem melhor com o novo estilo.

- Estou preocupado com você. - Jack se sentou no sofá. - Muitas mudanças estranhas.

Seria verdade? Jack, preocupado com ele?

Um sorriso surgiu na face de Derek. Finalmente havia conseguido chamar a atenção do irmão mais velho.

Jack continuou com suas observações, balançando a cabeça.

- Achei que você seria o último dos solteiros, impenetrável para o amor.

Amor? AMOR? Quem falou em...?

Será que era isso que sentia por Christina?

E será que estava tão óbvio assim?

Em estado de choque, Derek começou a caminhar pela sala, tentando encontrar algum buraco no chão, onde pudesse se enfiar.

- A Christina merece um cara que esteja disposto a ter uma relação séria.

- Concordo plenamente.

- E esse cara não sou eu.

Jack não respondeu, para dar tempo a Derek de perceber a besteira que havia dito.

- Por que não?

É, por que não?

Porque, mesmo agora, quando havia quase assumido seus verdadeiros sentimentos por ela, lhe faltava ar, seus pulmões estavam cheios de medo.

No entanto, mesmo sem precisar ouvir os sermões de Jack sobre as maravilhas de se estar apaixonado, Derek sabia que não conseguiria sossegar a ponto de fazer Christina feliz.

Mulherengo como era, sabia de seus limites.

E tinha acabado de ultrapassá-los.


Quando Derek saiu da sala com Jack, Christina, obviamente, ficou curiosa para saber que diabos estava acontecendo.

Afinal, ele e ela não tinham tanto para falar um para o outro?

Claro, estavam no ambiente de trabalho, o que tornava o assunto que tinham para tratar algo bastante inapropriado. Quem sabe, no final do expediente eles poderiam resolver suas questões?

No caminho para sua sala, onde queria checar seus e-mails, encontrou Twyla, que perguntou se poderiam conversar.

Já na sala de Christina, as duas se sentaram em lados opostos, Christina estava cara a cara com a loura mignon que havia tentado derrubá-la.

- O que posso fazer por você? - Christina não foi ríspida como gostaria, mas também não foi simpática.

- Trouxe o relatório das aulas de desenvolvimento pessoal para os funcionários da Fortune-Rockwell. - Ela entregou um calhamaço de folhas a Christina. - Aí estão algumas idéias e a pesquisa que fiz.

Twyla sabia fazer um bom trabalho e Christina não pôde deixar de notar, ao folhear rapidamente o informe, com alguma admiração.

- Está excelente - disse. - Obrigada, Twyla.

- De nada. Ela não fez qualquer movimento indicando que ia se retirar.

- Alguma coisa mais?

- Tem sim. - Ela respirou fundo e continuou. - Queria saber se posso voltar para a equipe.

Caso Twyla não tivesse tocado no assunto, ela teria. Havia pensado em dar uma segunda chance à menina. No entanto, desde que havia voltado a Red Rock, Christina tinha ganhado mais confiança em seus sentidos. Além disso, havia aprendido também que dar outra oportunidade para que lhe atacassem pelas costas pela segunda vez seria como pedir um atestado de burrice e correr o risco de prejudicar a equipe.

Sem querer soar arrogante e superior, Christina procurou pelas palavras certas na hora de responder a Twyla.

- O que você fez foi grave demais para que possa voltar para o grupo, Twyla. Você me desrespeitou e isso não é algo que se possa relevar. Não dá para esquecer.

Imagens de Rebecca Waters em sua mente a deixaram mais firme e decidida.

- Tenho certeza que entende minhas razões para não querer continuar trabalhando com você. Mas você vai ter a chance de recomeçar em outro departamento.

- Mas o time do Derek é o que tem mais prestígio.

Então essa era a estratégia da garota, pensou Christina. Subir na carreira por meio da sedução, tentando os homens com sorrisos e insinuações, se atirando em cima de Derek e acabando com a concorrência através de fofocas.

Christina se levantou da cadeira, deixando claro que queria que Twyla se retirasse.

- Você fará um belo trabalho em qualquer outro lugar na empresa, não tenho dúvidas. Boa sorte, Twyla.

A loura ficou pálida de raiva e não se moveu da cadeira. Nem olhava para Christina.

- Você se acha o máximo só porque está de caso com o chefe. Mas saiba que qualquer uma faz isso.

Mesmo sabendo que Derek não saía com ninguém do trabalho e que ela havia sido uma exceção, Christina ficou cismada com a indireta. Ou será que estava equivocada? Será que Derek era tão discreto e sorrateiro com suas relações que ela apenas não sabia das "outras"?

- Twyla - Christina abriu a porta para que a funcionária saísse. - É melhor parar por aqui antes que você prejudique ainda mais sua carreira.

- Tenho Jack Fortune aqui, na palma da minha mão - respondeu Twyla muito à vontade, acomodando-se na cadeira e cruzando os braços. - O Derek também vai se assegurar de que vou continuar aqui.

Incapaz de se mover ou reagir, Christina ficou ali parada com a mão na maçaneta.

- Já que você é orgulhosa demais para perguntar, vou dizer com todas as letras - disse Twyla.

- Não quero ouvir suas menti...

- Vou te dizer como é o Derek - Twyla finalmente se levantou, interrompendo Christina. - Todo mundo aqui sabe que ele adora mulheres para comer no café da manhã. Pense nisso, Christina. Por que não tirar vantagem dessa fraqueza dele?

Christina não queria ouvir mais nada, mas ao mesmo tempo não conseguia parar de ouvir. Estava prestes a explodir de tanta raiva.

- O ambiente de trabalho não é um campo de batalha, Twyla. - Tudo bem, mas durante anos ela mesma não havia rejeitado essa teoria?

A funcionária continuou a encará-la, sentindo-se forte e poderosa com a hesitação de Christina.

No entanto, Christina não queria admitir que Derek era um deles. Um inimigo como William Dugan.

- Eu não transei com o Derek - Twyla disse. - Pelo menos, ainda não. Mas é só uma questão de tempo. Mulherengos são todos iguais.

Pronto. Já tinha ouvido o bastante.

- Saia! - Christina mostrou a saída para a garota, sem perder a compostura.

No entanto, pelo sorriso maldoso no rosto de Twyla, ela tinha conseguido o que queria.

- Vou voltar para a equipe - disse ao passar por Christina. - Com ou sem sua ajuda vou conseguir o que quero.

Christina teve vontade de dizer à ordinária que mulheres como ela eram quem sujava a imagem das executivas que tentavam ganhar respeito e consideração na carreira.

Ao mesmo tempo, pensou em Derek na mesma hora. Só porque havia dado a mão a ela hoje de manhã não significava que não a dispensaria como um papel higiênico usado no final da semana.

Tinha cometido o mesmo erro, não tinha? Deixado cair suas defesas e tornado o ambiente de trabalho algo insuportável novamente.

Quando é que iria aprender?

Christina fechou a porta e se apoiou nela, sentindo-se repentinamente exausta. Alguns minutos depois ela se recompôs. Havia aprendido a lição.

Gradualmente, se deu conta de que a mágoa que tinha de Dugan não a deixava seguir adiante. Precisava se livrar dela se quisesse viver em paz. E era isso que ia fazer.

Será que deveria ir para um lugar onde ninguém a conhecesse antes que a situação ficasse insustentável? Sair da Fortune-Rockwell?

Mas, droga, já havia fugido uma vez e aquela decisão só a ajudou a voltar para a estaca zero.

Não precisava mais ser assim, bastava que ela realmente se convencesse de que o passado estava para trás e de que não seria repetido nunca mais.

Resoluta, Christina retornou à sala de conferência, onde o convidado já havia começado outro exercício, uma pirâmide simples.

Tomou cuidado para ficar longe de Derek. Porém, podia sentir o calor do olhar dele sobre ela, pedindo que fosse retribuído.

Para se conectar com ele, como haviam feito no fim de semana passado.

Mas ela não faria isso. Tinha que se conter e garantir sua segurança.

- Assim como nos negócios - disse o especialista - todos precisamos de uma boa base para nos mantermos de pé. Quem cada um de vocês escolheria para ser a fundação de suas estruturas?

- Vou ficar fora dessa, se não se incomodarem - disse Jack, indo lentamente até a cadeira mais próxima, e sorrindo com cara de quem iria ver um show cômico.

Os rapazes escolheram Derek, Seth e Ben para serem os pilares. Jack piscou para Christina.

Dios, por que aquela piscadela?

O grupo se misturou para começar o jogo, mas Derek fez uma volta, passando rente a Christina.

- Podemos conversar? - Ele perguntou.

- Sobre o quê?

- Christina, olhe para mim, caramba.

Não conseguia. Ela perderia o bom senso, sua determinação se... ela o olhou.

Ele a encarava com tamanha ternura que Christina quase se aconchegou nos braços dele.

Lutando contra a tentação, finalmente conseguiu se controlar, sabendo que não poderia continuar naquela história que não daria em lugar nenhum. Além disso, não importava se Derek Rockwell não podia amá-la de volta. Havia passado a vida toda resignada de que o amor era um luxo, algo que uma simples mortal como ela não teria nunca. Tudo o que existia era atração física e nada mais.

- Senhor Rockwell? - Chamou o especialista.

Com um sorriso gentil, ele perguntou a Christina:

- Mais tarde?

Ela não respondeu, tentando se concentrar em Jonathan e Adam que seriam as estruturas do segundo nível. Ela seria o pináculo.

Os rapazes tomaram seus lugares, subindo em cima de Derek. Mas ele parecia estar se divertindo. Christina ficou contente ao vê-lo feliz, mas ao mesmo tempo se perguntava se não estaria fingindo que estava tudo bem quando na verdade não estava.

Fingir que eram apenas chefe e funcionária e que não existia nada entre os dois estava acabando com Christina.

- Christina - chamou o orientador, convidando-a a se juntar aos demais.

Fervilhando por dentro, ela se esforçou para chegar ao topo, buscando equilibrar-se para não cair.

Apesar de já ter caído. De amores por Derek.

Estava cansada de se controlar, de esconder seus sentimentos, de se esconder atrás de um livro sempre que a barra ficava mais pesada.

Calar-se apenas fortalecia os oponentes, pensou. Não podia mais fazer isso.

As palavras de Twyla não iam deixar Christina em ruínas. Muito menos fofocas de escritório.

Sem mais mágoas nem amarguras.

- Derek? - perguntou ela.

- Sim. - Ele era tão forte que sua voz não se alterou apesar de todo o peso que tinha nas costas.

- Preciso conversar com você.

- Agora?

- Agora.

- Vejam - disse o orientador. - Tentem ver quanto tempo conseguem se manter nessa posição.

- Estou cansada desses joguinhos - ela disse.

O especialista ficou perplexo com o comentário.

- Não, não estou falando dos seus exercícios - disse Christina, tentando se concentrar no que estava fazendo para não perder a coragem. - Estou falando desse joguinho de esconde-esconde no trabalho. Sem poder ser verdadeiro e autêntico, por medo de dizer a coisa errada e ser repreendido por isso. Intimidada com pessoas que são mais influentes.

- Christina?

- Damos o poder para as pessoas nos debilitar, nos minar - era tarde demais para parar, agora. Falar tudo estava fazendo maravilhas a ela. - E estou tomando esse poder de volta.

Jonathan tentou olhar para ela e se desequilibrou fazendo a pirâmide inclinar para um lado.

- Derek - ela continuou -, estou completamente apaixonada por você.

Alguém soltou um palavrão (teria sido o chefe dela?) e a estrutura oscilou. Em seguida, ouviram-se gritos e grunhidos, antes que a pirâmide humana desabasse por completo.

Por alguns segundos, todos ficaram apenas sentados no carpete, tentando recuperar o fôlego.

Derek parecia que havia sido nocauteado pelo campeão dos pesos-pesados. Ele não precisou dizer nada para que Christina se desse conta de que havia passado dos limites.

- Desculpe - ela disse, já se levantando e indo na direção da saída. - Mas saiu. Eu me sinto tão bem agora. Como não me sentia há anos.

- Christina - a voz de Derek saiu abafada.

Ela passou por Jack apressadamente, querendo sumir dali.

- Mando meu pedido de demissão por fax, no final do dia - ela disse, antes de fechar a porta da sala de conferência, sabendo por experiência que o fato de desabafar e dizer tudo o que se pensa não significava que as conseqüências sempre eram positivas.

Mas neste caso, ao contrário do de William Dugan, ela sabia que seriam.






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