Um magnata no texas



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Capítulo 9
Quando o sol nasceu, Derek saiu silenciosamente da casa de Christina e foi para seu apartamento. Lá, pegou seus equipamentos de remo e foi aliviar suas frustração na água turva do rio, cortando-a a cada remada.

No entanto, não conseguia exorcizar seus demônios. Na verdade, havia ficado ainda mais irritado consigo mesmo depois de tomar banho e chegar no trabalho antes da maioria dos funcionários.

Ao entrar em sua sala, tentando ler o jornal, dúvidas ocupavam a cabeça de Derek.

Por que não ficou com Christina até que ela acordasse? Ou por que não deixou ao menos um bilhete?

Talvez tivesse sido por causa da luz da aurora que banhava o corpo de Christina quando ele acordou. Ou mesmo, por causa do rosto apaixonante e lindo que ela tinha, tranqüilo e feliz.

Quando pôs os olhos nela, na primeira hora da manhã, experimentou sensações novas que não conseguia identificar, que o atacaram, como um raio partindo uma árvore ao meio.

Derek entrou em pânico, lembrando da aposta sobre a qual Christina havia comentado.

Quando ela deixou claro que ele era apenas um passatempo.

Confuso, aturdido, Derek a deixou para descansar e ficar longe da tentação.

Precisava de um tempo para pôr as idéias no lugar.

Estava tentando fazer exatamente isso, quando Christina apareceu no escritório. Uma hora e meia atrasada.

Sem saber bem como interagir com ela, Derek largou o formulário que tinha nas mãos sobre a mesa. Sentia-se muito estranho com aquela situação.

- Eu sei - ela disse. - Estou atrasada. Não vai acontecer de novo.

Depois de sentar numa cadeira, tranqüilamente, ela cruzou as pernas. O vestido marrom cobria quase tudo que Derek havia desfrutado na noite passada. Se aquele não era um sinal evidente de que as coisas haviam voltado as vias estritamente profissionais, o cabelo preso para trás praticamente falava que sim.

Bem como o comportamento indiferente de Christina.

Uma coisa de cada vez. Primeiro tinha que se desculpar por ter saído da casa dela sem se despedir, mesmo que sua consciência dissesse que havia sido a melhor forma de lidar com a situação.

- Christina, antes que o resto da equipe chegue, quero...

Ela levantou uma das mãos, silenciando-o, e dando um sorriso imparcial.

- Não é necessário. O que aconteceu ontem à noite terminou ontem à noite. Está bem?

Um tapa na cara teria sido mais reconfortante. Pelo menos assim ele saberia que ela se importava.

- Vou ter muita dificuldade de esquecer o que aconteceu com a gente ontem à noite - ele disse.

Droga, aquelas não foram as palavras mais adequadas.

- Você... como? - Ela perguntou. - Achei que...

Ela se levantou da cadeira e foi andando na direção da sala anexa.

Quando ela viu que ele não a seguia, fez um movimento sutil com a mão.

Venha aqui.

Era melhor resolver isso de uma vez.

Ela o levou para o closet, então esperou de pé, em frente ao cabide com os braços cruzados.

Assim que Derek entrou, Christina explicou suas regras. As palavras saíram com um forte sotaque hispânico.

- Para ser bem clara, a noite passada pode ser classificada como desapaixonada. Foi um erro. Uma perda momentânea da razão.

Como ela podia ser tão fria depois de tudo que viveram juntos?

Ou será que toda a emoção e sentimento só haviam sido experimentados por ele?

Não, não podia ser. Ela retribuíra cada beijo com tanta ou mais intensidade que ele. Derek não havia fantasiado nada daquilo.

- Um erro? Christina, invente uma desculpa melhor.

Ela fechou os punhos, mas continuou controlada.

- Não estava pensando com clareza, e você... Você também não se mete com mulheres do trabalho.

- É verdade, mas mesmo assim isso torna o trabalho mais desafiador, provocante. A gente não cometeu um erro.

Depois que disse isso, Derek percebeu que estava falando a mais pura verdade. Ele teria repetido cada minuto da noite de amor dos dois. Não havia se arrependido de nada. Como é que ela não sentia o mesmo?

- Você quer fingir que nada aconteceu? - Ele agora estava bravo.

Ele achou ter visto uma pontada de dor nos olhos dela.

- Seria uma boa idéia.

Sem pensar, ele foi até ela. Ela reagiu, dando um passo atrás, agarrando-se nas roupas penduradas nos cabides.

- Christina?

O que estava acontecendo? Por um lado, ela continuava olhando para ele com o mesmo ardor da noite passada: olhos desejosos, brandos, lábios separados.

Ao mesmo tempo, tinha uma das mãos em frente ao peito como um muro dividindo os dois.

- Esta não é uma boa idéia - ela sussurrou.

Pelo menos ela não tinha mandado ele se danar. Não tinha dito que ele estava passando dos limites.

Ela tinha dito aquilo para ele ou para tentar convencer a si mesma?

Lentamente, ele tomou as mãos de Christina e massageou-as com os polegares, domando-a.

- Diga-me que você ainda me quer - ele disse.

- Não.


A respiração de Christina começou a falhar, enquanto ela olhava fixamente para o chão. Mas não disse para ele parar de tocá-la. Se ela pedisse, ele desistiria de vez e se afastaria dela. Admitiria, enfim, que a noite de ontem havia sido um erro.

Encorajado, ele esquentou o clima, usando a outra mão para acariciar o queixo de Christina.

Ela fechou os olhos de repente e suas mãos começaram a tremer.

- Diga-me que a noite de ontem não foi um erro, Christina.

- Não.

E ela falava com certeza, pensou. Aquelas horas juntos havia mudado tudo, a dinâmica do escritório, a forma como via a vida.



Não tinha sido uma experiência negativa. Dios, não. Ela queria muito, muito mais. Seu corpo o desejava como se Derek fosse uma droga proibida. Uma droga que fazia Christina se sentir sexy, contente, plena de sonhos.

Mesmo agora, com os dedos dele dançando sobre a garganta dela, esquentando-a por dentro, Christina já pensava em pôr de lado as dúvidas e promessas da manhã. Queria arrancar as roupas dos dois para poderem se fundir um no outro novamente.

- Derek... - ela disse, tentando resistir, mas sabendo que ia contra seu coração.

Ele deve ter entendido aquele sussurro como um convite, porque em seguida beijou-a na testa. Foi uma marca úmida, quente, possessiva, queimando a pele de Christina.

- Diga, Christina. - Ele falou bem rente a ela, assim como na noite passada, entre as pernas dela, as coxas.

A lembrança dos dois se amando foi devastadora. Ele a tinha nas mãos. Possuía seu corpo, sua alma. Porém, no momento, suas duas metades guerreavam pelo domínio da situação. O seu corpo dizia: Derek quer Christina e Christina quer Derek. Por que lutar contra isso?



Mas isso não tem nada a ver com um sentimento de verdade, dizia sua alma. Nunca será amor.

Aí o cérebro entrou em ação lembrando-a do que Edith lhe havia dito naquela manhã: ele é um mulherengo.

E ela havia sido apenas mais uma quando o convidou para sua casa. Para sua cama.

Por que todos esses pensamentos confusos a faziam se lembrar de William Dugan e dos problemas que ele lhe causara?

Derek envolveu o rosto dela com ambas as mãos e o acariciou. Christina reuniu todas suas forças.

- Foi um erro - ela repetiu, retirando as mãos dele de seu rosto.

Claramente frustrado, ele enrijeceu o maxilar.

O ar frio ocupou a parte do rosto de Christina onde antes estavam as mãos de Derek. Porém ela se convenceu de que não estava ligando. Estava fazendo o que era certo. Protegendo-se de várias formas, que ele nunca entenderia.

Ele recuou, abrindo caminho para que ela pudesse sair dali.

- Nunca mais vou tocar nesse assunto - ele respondeu secamente.

A cada passo que dava para longe de Derek, um pedaço do coração de Christina se partia. Como se o gelo tomasse o que antes era puro fluido e calor.

E quando ela voltou ao escritório e tomou uma cadeira para esperar pelo resto da equipe, não podia deixar de sentir que estava sentada num trono. De uma rainha de gelo.


Na hora do almoço, Twyla estava chorando.

Droga, Derek não havia tido a intenção de fazer com que ela se debulhasse em lágrimas. Mas ela estava tão ocupada se mostrando para os novos integrantes da equipe, Adam e Ben, que não estava conseguindo se concentrar. Não estava conseguindo entrar no clima para bolar idéias para a "sala de criação" onde os funcionários iriam relaxar e recompor as energias.

- Twyla - ele disse à loura, depois da terceira vez que ela fez um comentário irrelevante enquanto flertava com o grupo masculino da equipe. - Pare de brincadeira e faça valer o salário que ganha.

De cara, ele percebeu que ela havia ficado mais constrangida do que o normal. Alguns segundos depois, as lágrimas saltavam dos olhos de Twyla, o rosto para baixo, fixo no bloco de papel.

- Ai, meu deus - ele disse, irritado consigo mesmo.

Talvez aquilo ainda fosse efeito colateral por causa da rejeição de Christina, mais cedo. E a raiva de Christina havia se refletido no grau de exigência com a equipe. Porém, algo que sabia com certeza era que o grupo iria fazer outra apresentação fabulosa nem que chovesse canivete ou que Twyla chorasse até desidratar.

Aquele joguinho de sedução só atrapalhava a concentração dos homens na sala.

Com um olhar reprovador, que ele merecia por ter sido tão grosso, Christina levou a chorosa Twyla para a sala anexa.

Quanto aos homens, Jonathan, Seth e mais os dois novos integrantes, continuaram sentados, constrangidos. Derek estava grato que ele e Christina ainda conseguissem trabalhar bem juntos.

Sim, eram civilizados e produtivos. No entanto, cada palavra, cada olhar, indicava subliminarmente que Derek havia estado dentro de Christina. Que ele havia explorado cada centímetro do corpo dela.

Que droga, ele não conseguia pensar em outra coisa.

Alguns minutos depois, as duas voltaram para a sala onde estavam os rapazes. Twyla estava quieta e embaraçada.

Será que Christina concordava com Derek que não se devia ficar paquerando no trabalho?

Ele estava se sentindo um hipócrita. E para piorar tudo, sua atitude com Twyla trouxe a Derek recordações amargas do pai e de como ele gostava de agredir com palavras tanto a mãe quanto Derek.

Bem, o estilo de vida rígido de "Senhor" deixava qualquer rotina no quartel no sapato, pensou Derek.

- Acho que é uma boa hora para a gente fazer uma pausa para o almoço.

- Vou à cafeteria - Twyla disse rapidamente.

Sem perder um segundo ela saiu apressadamente da sala, seguida do resto dos rapazes.

Como Christina continuou lá, juntando umas folhas, Derek presumiu que ela havia se demorado por algum motivo específico.

- Pode começar, Christina - ele disse. - Pode me criticar.

Ela não disse nada. Apenas ficou olhando para ele. Ali estava a mulher que ele havia amado havia algumas horas.

- Twyla ainda é inexperiente e meio infantil, mas é uma excelente funcionária. Não foi intenção dela prejudicar sua reunião produtiva e eficiente.

Apesar do que ela falava a única coisa que ele conseguia ouvir era: foi um erro, foi um erro, foi um erro...

- Preciso de todo mundo envolvido nisso - ele respondeu, ignorando o comentário.

Ela guardou os papéis na bolsa.

- Por que você precisa provar alguma coisa para alguém?

- Para quem?

Ele foi para frente da mesa. Seu corpo vibrava na presença dela.

Ela pôs as mãos na cintura.

- Jack. Isso porque os dois ficam disputando o lugar de filho preferido do Patrick. E não é justo envolver o resto nessa competição infantil.

- Quanta besteira - ele disse, sabendo que ela estava mais do que certa.

- Será?


Ele não precisava de um sermão, principalmente vindo de uma mulher que já estava fundindo sua cabeça terrivelmente.

- Bem, vou comer alguma coisa.

Ele já estava fora da sala antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa.

Havia conseguido escapar do enigma frustrante que era Christina. Agora aproveitaria para pedir desculpas a Twyla e aliviar o peso da consciência.

Foi rumo à cafeteria com a impressão que sua cabeça iria explodir.

Jack, a apresentação, a mulher que o estava enlouquecendo e virando sua vida do lado do avesso num tempo recorde de alguns poucos dias.

O que havia acontecido com o estilo de vida despreocupado que ele havia planejado ter?

Não lembrava direito onde ficava a cafeteria, pois só havia estado lá duas vezes depois que Patrick fez um tour com ele pela empresa. Derek perguntou a uma das corretoras da empresa como chegar no local e ela pareceu surpresa por ele ter dirigido a palavra a ela.

Que ótimo, nada como ser o chefe que todos temem e bajulam. Em Nova York havia tentado de tudo para evitar esse tipo de reputação. Acabou conseguindo, mas lhe custou muito.

Quando chegou ao lugar lotado de funcionários, ele foi se adaptando ao ambiente, lembrando das máquinas que vendiam chocolates, biscoitos e refrigerantes , no fundo da sala, com mesas e cadeiras espalhadas.

Ao entrar numa sala com cheiro de gordura, onde faziam hambúrgueres e outras frituras, passou por várias conversas nas mesas próximas e uma discussão na esquina. Parecia a voz de Twyla. E ela estava do outro lado da parede e, por isso, Derek não tinha certeza.

- Então ela me disse que essa história de paquerar no escritório só iria me trazer problemas - ela disse.

Definitivamente era a voz de Twyla.

Uma voz masculina. Adam? Falou:

- Se você me perguntar, eu vou dizer a mesma coisa. Nesses dias de hoje, agente nunca sabe. Morro de medo de fazer alguma piada ou falar uma gracinha para uma mulher e ela acabar me processando ou coisa parecida. Hoje em dia, qualquer coisa pode ser assédio sexual.

Derek ficou prestando atenção com interesse.

- Ah, não exagere - Twyla respondeu. - Quando sorri para você hoje na reunião, por acaso se sentiu ameaçado? Foi tudo o que fiz.

Derek ouviu risos masculinos. Sabia que não devia ficar escutando a conversa, mas ainda não tinha decidido o que iria beber. Água ou Gatorade? Que escolha difícil.

Além disso, estavam falando de Christina. Como conseguiria não se interessar pelo assunto?

- De qualquer forma - Twyla continuou - ela é a última pessoa que pode dar esse tipo de conselho. Ouvi dizer que estava com o Derek ontem à noite. Fora do trabalho, se vocês entendem o que quero dizer.

O quê? Como descobriram?

- Tem certeza? - A voz parecia ser a de Seth. - Christina parece ser bem séria. Uma verdadeira profissional.

- Sei - Twyla deu uma gargalhada. - Edith Lavery esteve no apartamento da verdadeira profissional hoje de manhã e achou que está rolando alguma coisa entre o chefe e a Christina. Algo mais que apenas paquera. Então, como ela se atreve a me dar sermão, quando ela mesma faz por onde para subir na carreira?

Já havia ouvido o bastante.

Enquanto os rapazes faziam perguntas ou protestavam, Derek deu alguns passos até onde eles estavam e viu Twyla encostada numa parede ao lado de uma pia e uma geladeira. Seth e Jonathan já tinham se levantado de suas cadeiras.

Todos ficaram pálidos ao se darem conta de que Derek estava presente.

- Só para você ficar sabendo - Derek disse, controlando-se para não aumentar o tom de voz. - Christina Mendoza é mais do que competente e qualificada. E ficar fofocando pelas costas do chefe é definitivamente algo pouco inteligente para quem quer subir na carreira.

- Eu...é... - Twyla gaguejou.

- Quero falar com você a sós, senhorita Daraway. O resto, por favor, pode comer em outro lugar. Eu sugiro que todos estejam na minha sala em quarenta e cinco minutos com as mentes limpas de fofocas maldosas.

- Sim, senhor Rockwell - disseram os rapazes, antes de passarem rapidamente por ele com suas bandejas.

Derek fez um aceno de aprovação para Seth e Jonathan, sabendo que eles não haviam entrado no jogo de Twyla.

Os dois ficaram sozinhos na pequena copa.

- Posso saber por que estava atacando Christina pelas costas, mesmo sabendo que ela foi a única que lhe deu apoio desde o primeiro dia que você começou a trabalhar com a gente? - Ele perguntou.

- Não foi minha intenção. - O rosto de Twyla estava vermelho como pimentão e ela olhava fixamente para a mesa. - É o que eu escutei...

- Você tem idéia do que um mexerico desses pode fazer com a carreira de uma pessoa?

Especialmente esse tipo de fofoca sobre uma mulher, ele pensou, arrependido de ter causado esse tipo de situação ao ter saído com Christina.

Ele conhecia razoavelmente bem a lógica feminina. Sabia que uma mulher era capaz de ser bastante cruel com outra quando existia competição e inveja na história. Uma parte de Derek cogitou se Twyla não estaria com ciúme sobre o rumor de que ele e Christina estariam saindo, já que Twyla havia se engraçado para cima de Derek mais de uma vez.

- Não foi por mal...

- O que vou fazer é levar esse assunto para o Recursos Humanos e eles vão decidir o que fazer sobre essa sua atitude de espalhar fofocas maliciosas sobre colegas da empresa.

- Mas...

- Escute bem, Twyla. Christina está do seu lado. Tanto eu quanto ela concordamos que você é uma boa empregada, mas aqui na Fortune-Rockwell não toleramos esse tipo de comportamento. É melhor você mudar sua atitude se quiser continuar nesta empresa.

Twyla levantou o rosto.

- Eu prometo, senhor Rockwell.

Deveria acreditar nela? Christina estava certa quando observou que Twyla era jovem e faria ainda muita burrada ao longo da carreira. Ele mesmo já havia feito muita besteira, apesar dos cuidados e conselhos de Patrick.

A verdade era que Twyla tinha um potencial incrível e talvez suas qualidades profissionais superassem os erros de conduta.

No entanto, o que ela havia dito sobre Christina o deixou muito irritado. Mas sua revolta foi puramente por razões profissionais, disse a si mesmo.

- Outra coisa - ele disse, a raiva tomando-o novamente. - Respeito Christina Mendoza mais do que você imagina. É uma profissional incrível e não merece sua mesquinhez.

- Sinto muito. De verdade - Twyla disse, se segurando para não voltar a chorar. - Vou me desculpar com a Christina e dizer para todo mundo que os rumores são mentirosos.

- Esse é um bom começo.

Enquanto esperava que a funcionária se retirasse da sala, finalmente se decidiu pela água. Precisava apagar o incêndio que o queimava por causa de Christina.


- O que foi que ela disse? - Christina perguntou, sentindo o sangue ferver em suas veias.

Derek havia dispensado o resto da equipe para fazerem trabalhos individuais durante a tarde e pedira que Christina ficasse. Ela nunca teria imaginado que a razão era contar sobre o incidente com Twyla.

Deixando-se cair no sofá de couro. Derek relatou a história:

- Twyla estava contando para os rapazes sobre um rumor de que eu e você estamos tendo um caso. Uma amiga da sua mãe, Edith, foi quem espalhou a fofoca.

Aquilo não podia estar acontecendo. Outra vez, não. Anos atrás, Rebecca Water havia feito a mesma coisa com Christina. Havia contado para toda a empresa que a acusação por assédio sexual que Christina havia feito contra William Dugan era uma falácia. Que Christina tinha tentado seduzir Dugan e depois ficado com raiva, porque o homem era casado e não quis nada com ela.

Derek olhou de relance para sua secretária, que estava plantada na porta de entrada do escritório. Fez questão que Dora estivesse presente durante toda a conversa, só para que eles não ficassem mais sozinhos, causando mais motivos para fofoca.

- Twyla não vai mais fazer isso - ele disse - agora que ela se deu conta de que o que fez é muito sério. O setor de Recursos Humanos está cuidando do assunto.

- Quando tinha vinte e quatro anos - Christina disse - nunca sonharia em falar esse tipo de coisa do meu chefe. Acha mesmo que foi um erro inocente? Ou ela tem algo planejado para me prejudicar?

Derek não respondeu de imediato e Christina ficou apreensiva.

- Ela vai continuar na nossa equipe?

- Você decide

Depois de tudo que havia rolado entre os dois, Christina ficou feliz e aliviada por ele ainda confiar nela e nos seus julgamentos.

- Ela está fazendo um bom trabalho e a saída dela pode atrapalhar o bom resultado da apresentação.

- A gente pode ficar com ela até terminar essa etapa das aulas internas e ficar com os rapazes para a próxima fase. Também pode ser uma boa oportunidade para ela provar que se regenerou.

- Pode ser uma boa idéia.

Mas o que fazer com Edith? A velha não conseguia se controlar quando o assunto era a vida alheia. Sempre batia com a língua nos dentes. Talvez devesse convidar ela e a mãe para um café da manhã e explicar às duas como aquele mexerico havia prejudicado pessoas.

Derek a observava e havia preocupação nos olhos dele. Será que estava zangado porque seus funcionários haviam se comportado mal?

Ou... Christina achou melhor nem pensar na segunda opção.

Mas pensou. Ele estava encolerizado por se preocupar com ela? Pelo bem dela?

Algo lhe dizia que aquilo era mais por motivos pessoais do que profissionais. Que ele estava ofendido por ela. Havia tomado suas dores. Aquela suposição aqueceu seu coração gelado, a fez se sentir protegida, mesmo devendo se proteger mais dele do que qualquer outro.

- Christina - Derek perguntou com delicadeza. - Você está bem?

- Estou bem. - Não podia deixar transparecer como a atitude de Twyla havia mexido com ela e despertado seus temores mais horripilantes.

- Muito bem, então. - Ele continuou onde estava e ergueu um braço como se quisesse tocá-la.

Ferida pelos eventos do dia, ela recuou com os olhos arregalados. Os dois ficaram se olhando, consternados.

- Vou para minha sala - ela disse antes de pegar seus papéis e sair.

Não olhou para trás. Apenas conseguia enxergar seu passado. E todos os erros e atropelos que já havia cometido.


Capítulo 10
Christina conseguiu passar o resto da semana sem que mais desastres profissionais acontecessem.

Apesar da fofoca não ter ido adiante para prejudicar sua carreira, foi suficientemente desastrosa para fazer com que ela ficasse conhecida na empresa e que dúvidas fossem levantadas. Aonde quer que fosse, olhares a seguiam e ela sabia que provavelmente estavam pensando que ela estava dormindo com o chefe para chegar ao topo.

Claro, ninguém nunca chegou a ir até ele e dizer isso com todas as letras. Derek havia cuidado bem da situação e feito a queixa tanto de Twyla quanto de Edith para o pessoal dos Recursos Humanos.

Na verdade, muitos empregados fingiam que nunca tinham ouvido falar de tal fofoca. Muitos haviam ido até Christina para agradecer pelas sugestões para melhorar a empresa. Agradecer por ela estar se preocupando e se empenhando pela melhoria dos funcionários.

Até Twyla havia se emendado moralmente e trazido flores para ela, se desculpando copiosamente pelo que havia feito.

Quanto ao chefe? Bem, ele nunca mais havia estado sozinho com ela em nenhuma circunstância. Sempre arranjava alguém para fazer companhia aos dois. Também nunca mais a havia convidado para um café na esquina, almoço ou jantar.

Era evidente a distância que os separava agora. A relação era restrita a assuntos de trabalho. Christina foi a primeira a encorajar essa situação. No entanto, havia momentos em que percebia que, apesar da distância, sentia-se muito perto de Derek.

Durante cada reunião, quando não podia evitar espiar o chefe e sua sensualidade aflorada, captava um olhar voraz e passional como resposta.

Porém, não era mais que pura atração física e luxúria, dizia a si mesma quando os olhares dos dois se cruzavam. Como ele mesmo havia admitido, Derek não era capaz de sentir nada além disso.

Quando o fim de semana finalmente chegou, Christina fez um esforço atroz para não pensar em trabalho. Haviam avançado muito na criação de idéias para as salas de recreação e, inacreditavelmente, estavam adiantados com o prazo.

Isso significava que não tinha nenhuma desculpa para não relaxar e curtir o fim de semana. Restava apenas que se lembrasse como fazê-lo.

Estava tentando fazer exatamente isso, sentada em uma das cadeiras do restaurante do pai, o Red.

"Relaxa", pensou, torcendo um guardanapo. Mais parecia a heroína de uma novela melodramática, vendo o vilão roubar a escritura de sua amada propriedade.

Continuou esperando pela chegada de Glória e Sierra para almoçar, enquanto pensava no fracasso que era tentando não se estressar.

Papa já havia ido até a mesa servir um longo copo de mate gelado, com uma rodela de limão. Estava sozinha ouvindo o som das pessoas nas outras mesas.

Não ia ficar pensando na Fortune-Rockwell, droga.

Em vez disso, se concentrou em como tinha tido sorte de ter voltado para Red Rock, e mesmo ao Red.

O primeiro andar era decorado num estilo que mais lembrava uma casa tipicamente mexicana, com móveis maciços de madeira escura, pouca iluminação, plantas, ventiladores de teto e telhas de terracota. O segundo andar servia para guardar os mantimentos e entulhos.

Apesar de o interior ser mais aconchegante, Christina preferia o jardim, com os guarda-sóis amarelos cobrindo as mesas de pinho e lanternas de papel com cores alegres. Sentia-se muito à vontade ali.

Quando Christina finalmente conseguiu fechar os olhos e se permitir não fazer nada naquela tarde, Glória chegou, tapando a boca da irmã com a mão.

- Shhhhh - ela disse. - Alguma coisa está acontecendo aqui.

Christina abriu os olhos e Glória retirou a mão, apontando para o portão de ferro coberto de trepadeiras que cercava o restaurante.

Ela mal podia ver duas pessoas do lado de fora se olhando-. Os dois murmuravam e não dava para entender nada do que conversavam.

- É a Sierra - cochichou Glória. - Ela está com um amigo, Alex Calloway.

- Já ouvi esse nome antes. É um amigo da faculdade, não é? E ela acha que ele está interessado nela?

- Sí, Christina. Estou tão desconfiada quanto você. Você acha que ele é um bom motivo para ela quebrar a promessa?

A promessa.

Christina engoliu em seco. Não ia dizer uma palavra que a fizesse perder. Além disso, não estava envolvida com Derek. Nunca havia estado.

Isso queria dizer que ela ainda estava no páreo. Não?

Glória se sentou e Christina reparou que ela usava um par de brincos estonteantes. Ficou emocionada. Tinha uma razão para isso. Glória havia conseguido parar de beber e se reabilitado, com ajuda profissional e manufaturando brincos. A arte a tinha ajudado a superar o vício.

Christina tinha muito orgulho da irmã por essa vitória. Glória estava tentando ouvir a conversa de Sierra e Alex. Porém, Os dois logo se separaram e cada um foi para um lado. A caçula não tardou em se juntar às duas irmãs. Estava tão bonita, com um aspecto tão inocente e doce, que Christina teve um sentimento maternal de retirar aquele vinco que marcava a testa de Sierra.

Enquanto se abraçavam e se beijavam, Christina tentava ignorar como estava destoando das duas, com uma roupa fora de moda e recatada demais, ao contrário das elegantes irmãs.

Será que não era hora de mudar, perguntou-se.

- Sierra, o que foi que aconteceu? - Glória perguntou assim que as três se sentaram.

- Ah, esse Alex. Do jeito que me trata até parece que invadi a casa dele ou fiz algo horrível para ele.

Christina e Glória entreolharam-se. Conheciam a mais nova bem demais para caírem naquela história da carochinha.

- Por acaso está a fim do cara? - Glória foi logo perguntando.

- Claro que não! - Sierra franziu as sobrancelhas, mas reconsiderou, logo em seguida. - Talvez até estivesse. Mas a única coisa que eu fiz foi perguntar se ele já tinha comprado um presente para a mãe adotiva dele.

Christina e Glória já conheciam as histórias de quase todos os colegas de faculdade de Sierra e sabiam que Alex não aceitava muito bem o fato de que havia sido adotado. Sierra devia ter irritado o rapaz, com sua mania de se meter nos assuntos alheios, mesmo que fosse com a melhor das intenções.

Christina queria confortar sua irmã caçula, especialmente para retribuir todo o apoio que Sierra havia lhe dado no passado. Havia sido uma das poucas luzes no fim do túnel quando precisou.

Ao mesmo aquele, esse jeito de Sierra de querer ajudar todo mundo não a estava levando a lugar nenhum. Christina odiava ver a irmã tão tensa e desgastada por causa dos outros.

- Sierra - ela disse, pegando na mão da irmã. - Sei que você é boa demais e que se sente bem em ajudar os outros, mas não precisa querer resolver os problemas do mundo.

Sierra fez uma pausa e apertou a mão de Christina.

- Talvez você tenha razão. Não vou mais ficar me preocupando com o Alex. Ele não valoriza meus esforços mesmo.

- Sierra, acho que você devia sim se preocupar - disse Glória, se recostando na cadeira. - Estou cheia de idéias para a prenda que você vai ter que pagar e não vejo a hora de botar elas em prática.

Ai, Dios, se elas descobrissem sobre Derek, Christina estaria em sérios apuros.

- De jeito nenhum - Sierra também se inclinou para trás, apoiando os braços no descanso da cadeira. - Você não vai ter o gostinho de me ver perder essa aposta, Glória. Principalmente se estiver pensando que vai ser com o grosso e ingrato do Alex.

- Pelo visto, sobra minha irmã mais velha para ferrar tudo com o senhor Rockwell.

Uma combinação de vergonha e pânico fez com que Christina ficasse completamente vermelha no rosto. Pânico porque não queria que elas descobrissem que ela já havia perdido a aposta. Vergonha por estar escondendo isso das irmãs.

- Já contei para vocês da fofoca lá no trabalho. Isso não é brincadeira que se faça.

- Ninguém está brincando aqui. - Glória sorriu maliciosamente. - Os rumores, por piores que sejam, mostram que todo mundo reparou o clima que rola entre vocês dois, incluindo nossa família.

- Glória - Sierra disse -, você está sendo tão cruel quanto as fofocas que inventaram. Mama está possessa com a Edith por causa da mentira que ela espalhou. Não vai ficar do lado dela, vai?

- Claro que não - respondeu Glória constrangida, tanto quanto ficou Christina ao ouvir a palavra mentira.

Apesar de que Edith havia sim espalhado os rumores, Christina não podia dizer que a velha tivesse mentido. Por isso mesmo, quando tomou café com ela e a mãe tratou de não pegar pesado com Edith. Apenas comentou que os comentários tinham prejudicado outras pessoas.



Mama, no entanto, não tinha sido tão clemente. Não queria mais atender aos telefonemas de Edith, mesmo com Christina tentando convencê-la a esquecer do assunto e perdoar a amiga.

O pai foi até a mesa, vestido com uma camisa de botões e uma calça muito alinhada. - As minhas meninas já escolheram o que vão comer?

- Você já vai começar a cozinhar para o almoço? - Sierra perguntou. - A gente pode esperar o restaurante abrir.

- Para vocês, o restaurante está sempre aberto - o pai se inclinou e apertou a bochecha da filha mais nova.

- Ai, papa - as três reagiram com afeição. As três olharam o menu, que conheciam quase de cor, rapidamente e fizeram seus pedidos: galinha "tostada" com molho de abacate para Christina, bife "fajitas" para Sierra e "tacos" de camarão para Glória.

Antes de se retirar, o pai pegou na mão de Glória e disse:

- Você não está escondendo algo das suas irmãs?

Glória deu uma risadinha.

- Estou fazendo hora para revelar a surpresa.

- O quê? - Sierra perguntou, curiosíssima. - O que está escondendo da gente?

- Conte! - Christina suspeitou que fosse algo bem importante.

Com um sorriso de ponta a ponta, Glória abriu a bolsa e tirou um lindo anel de brilhantes de dentro, colocando-o no dedo da mão direita.

Christina e Sierra ficaram sem palavras e em seguida deram um berro, abraçando a irmã ao mesmo tempo. O pai também abraçou as três, mas quando Christina viu que uma lágrima saía dos olhos do patriarca, ele recuou e foi rumo à cozinha, murmurando algo sobre tortillas.

- Jack esteve lá em casa ontem à noite - contou Glória. - E pediu minha mão a papai e mamãe. Dá para acreditar? Jack, o durão, teimoso e machão?

- Quando vai ser o casamento? - perguntou Christina.

- Estamos planejando algo bem simples para junho.

- Uau! - Os lábios de Sierra tremiam, apesar dela estar sorrindo. - Estou... tão feliz por você, mana. - Ela saiu da cadeira e foi abraçar a irmã novamente. Então saiu correndo para dentro do restaurante.

- É por causa do Chad - Christina adivinhou. - Ela ainda não conseguiu esquecer aquele safado, mas ela está realmente feliz por você.

- Eu sei. - Glória parecia preocupada. - Você acha que a gente deveria ir atrás dela?

- Daqui a pouco. Vamos dar um tempinho para ela se recuperar. Ela deve estar chateada por ter caído no choro dessa forma. - Christina tocou no anel da irmã. - Jack é um cara de sorte.

- Obrigada, eu só queria que...

- Que eu e a Sierra também encontrássemos alguém para amar? Não precisa se preocupar. Há outras formas de se encontrar a felicidade. Homem não é a solução para tudo.

Glória se inclinou e pegou no rosto da irmã, olhando fundo nos olhos.

- Está acontecendo alguma coisa com você, não está? É por causa da fofoca da Edith? Ou é outra coisa?

- Não é nada não.

A irmã balançou a cabeça.

- Não minta para mim. Ai... O que quer que seja, promete que vai seguir seu coração? Eu teria poupado tempo e dor de cabeça com o Jack se tivesse me permitido acreditar e amar mais.

Christina queria perguntar a Glória como ela podia ter tanta certeza de que o problema tinha a ver com amor, mas tinha receio. Provavelmente, seus sentimentos reprimidos estavam exalando de seus poros sem que percebesse.

Houve uma pausa, que teve o peso de explicações não dadas e pensamentos não revelados. Mas foi interrompida pelo celular de Christina, que tocou abruptamente.

Glória se levantou e fez um movimento na direção do restaurante.

- Vou ver como a Sierra está.

- Já vou para lá.

Olhou para a tela do celular para ver quem estava ligando. Derek. O homem que estava lhe tirando o sono estava na linha.

Siga seu coração, disse Glória.

Apesar de ser algo muito difícil de fazer, Christina decidiu tentar.

Atendeu a ligação.


Depois do almoço, Christina foi para casa para trocar de roupa e vestir algo mais alegre. Fez um rabo de cavalo, em vez do coque de bibliotecária que tinha. Bem, antes dele ligar ela já tinha decidido que iria mudar o visual.

Enquanto dirigia até o apartamento de Derek, Christina se perguntava se ao ouvir seu coração não estaria ignorando seu bom-senso.



Posso conversar com você? Ele disse ao telefone. Queria esclarecer umas coisas. Se você não se incomodar, queria pedir para você passar lá em casa e eu prometo que vou me comportar e que ninguém nunca vai saber que esteve aqui.

Ela concordou. Estava precisando mesmo de qualquer desculpa para ficar perto dele.

A casa dele ficava num belo e sofisticado condomínio, arborizado e bem vigiado. Ela estacionou em frente e foi até a porta.

- Alguém em casa?

- Pode entrar, é só empurrar a porta - A voz de Derek soou pelo interfone.

Ela entrou e logo sentiu um perfume de essência de limão. Os móveis eram escuros e brilhavam, como se acabassem de ter sido encerados. Os cômodos revelavam pouca mobília e alguns equipamentos de ginástica.

Interessante, como Derek não ostentava sua riqueza. Poderia ter limusines, morar numa mansão, mas preferia a simplicidade.

Havia uma variedade de instrumentos musicais primitivos e exóticos, similares aos que ele tinha na sala do escritório. A maioria estava espalhada de qualquer jeito pela sala. Nas paredes brancas quase não havia quadros.

Uma grande televisão estava ligada e em frente a ela duas pessoas quase hipnotizadas jogavam videogame. Derek e um menino de boné e óculos, que parecia ter menos de oito anos.

- Que bom que você veio - falou Derek desviando o olhar da tela por alguns segundos na direção de Christina.

Ele vestia uma camisa lisa branca, um jeans e botas. Até o cabelo parecia mais longo, mais desarrumado.

O sorriso envolvente dele a fez sorrir também. Christina não conseguia desacelerar seu coração.

Ele tinha uma expressão no rosto que geralmente os homens tinham quando queriam dizer que uma mulher estava bonita. Derek pareceu ter esquecido do jogo e acabou perdendo.

O menino riu, feliz pela vitória. Depois, olhou para Christina e perguntou:

- Ela veio jogar também?

Derek deixou o controle no chão:

- Não, ela não quer perder para você. Richie, essa minha amiga, Christina Mendoza.

O menino ficou sério, se levantou e foi até ela cumprimentá-la.

- Eu e Christina vamos ter que discutir uns assuntos chatos de gente grande, Richie - Derek avisou. - Por que você não joga sozinho um pouco enquanto a gente conversa um pouco lá no jardim?

O menino fez que sim com a cabeça.

Christina até gostaria de jogar com ele, mas não era o momento mais adequado.

- Muito prazer Richie. - ela disse, enquanto o menino voltava para frente da televisão.

- Prazer também.

Derek guiou Christina até a varanda. Havia uma pequena geladeira perto da porta e ele pegou uma garrafa de água e encheu dois copos. Ele não perdeu o menino de vista, podia vê-lo pela porta de vidro.

- Desculpe, só tenho água para oferecer. Estou precisando dar uma passada no supermercado.

- Água está mais que bom - ela respondeu. - E quem é o Richie?

- Filho da vizinha. Ele fica muito sozinho, porque a mãe vive fora de casa. Sou uma espécie de babá, nas horas vagas.

- Você?


- Não precisa fazer essa cara. Preciso de uma desculpa para jogar videogame e o Richie é a desculpa perfeita.

Tocada pela mentira descabida dele, Christina sabia era melhor disfarçar a emoção. Então desviou o olhar para o final da propriedade por onde corria o rio.

- Este lugar é muito bonito. A mãe dele deve ter que trabalhar feito uma condenada para manter uma casa aqui neste condomínio, não?

- O ex-marido é endinheirado e paga tudo. Pelo menos por enquanto. Ela namora muito, isso sim. Deve estar procurando pelo segundo príncipe encantado da vida.

Será que a mãe de Richie já tinha arrastado a asa para Derek? Algo dizia a Christina que provavelmente Derek havia até cogitado a hipótese, mas voltara atrás por causa do menino. Só porque gostava de ser babá de vez em quando não significava que o mulherengo do Derek estava em busca de uma família já pronta.

- Agora mesmo ela está saindo com um cara pela primeira vez. Quem sabe? Talvez seja o dia de sorte dela?

Depois de tomar um gole da água, ele semicerrou os olhos.

- Está zangado com alguma coisa? - Christina perguntou.

- Não, é que... - Ele se calou e forçou o maxilar.

- O quê?

- Acho que... é porque me dá pena do Richie. Não moro aqui há muito tempo, mas poucas vezes vi o pai passando para visitar. Duas vezes em dois meses. Deu para ouvir daqui o reencontro "amistoso" do pai e da mãe. Estavam aos gritos. O menino não precisava passar por isso.

Derek passava o dedo pela beirada do copo, evitando o olhar de Christina. Algo misterioso estava rolando e Christina estava curiosa para descobrir. Uma tristeza, uma mágoa velada.

De repente ele a encarou. Ela estremeceu e fixou o olhar num instrumento musical que estava ao lado de Richie.

Ele seguiu o olhar dela

- Ah, é o novo brinquedo de Richie. Minha mãe fazia meu pai comprar esses instrumentos para mim. Tinha a esperança que assim o talento musical da parte da família dela pudesse despertar em mim. Tirei tudo do depósito porque Richie pediu.

- São bem exóticos, né?

- Meu pai era militar, vivia viajando.

- Você vê sempre eles?

Derek se remexeu na cadeira.

- Os dois morreram há muitos anos. Minha mãe de hepatite e meu pai do coração.

Antes que ela pudesse se desculpar, ele mudou completamente. O chefe havia tomado o corpo dele.

- Na verdade, não liguei para você para jogar conversa fora.

- Claro, trabalho - era melhor assim, pensou Christina.

Mesmo assim ficou ressentida.

As sobrancelhas arqueadas de Derek diziam que ele sentia o mesmo.

- Fiquei preocupado com você, por causa do que aconteceu na semana passada.

- Estou bem, já disse.

- Não, quis dizer... - ele estava procurando as palavras certas. - A forma como você reagiu quando falei do comentário da Twyla me preocupou. Então andei investigando, Christina.

- Como assim? - Christina ficou nervosa.

- As acusações.

Ele falou com candura, como se não quisesse de jeito nenhum magoá-la com aquele tema.

- William Dugan.

Ela colocou o copo sobre a mesa antes que suas mãos começassem a tremer.

Não demorou muito para que toda ela tremesse.






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