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Grupo de Estudos Nietzsche

Apresentação do Livro III de A Gaia Ciência de Nietzsche

Seleção de parágrafos: 108-117; 120-149.
Anderson Manuel de Araújo
O livro III de A Gaia Ciência, apresenta aforismos ou, se quisermos, parágrafos que fazem referências a alguns temas relevantes em Nietzsche; tais como o ceticismo, o instinto de rebanho, a luta de impulsos humanos, a morte de Deus e o que poderíamos chamar de uma teoria do erro ou, estatuto do erro. A crítica nietzscheana às religiões também se faz presente no livro terceiro da obra. Sobretudo, posicionamentos de Nietzsche em relação ao cristianismo e ao judaísmo.

Nietzsche inicia o livro III, no aforismo 108 com a afirmação de que Deus está morto e que a sua sombra será mostrada durante séculos nas cavernas. No aforismo seguinte, intitulado “Guardemo-nos!”, apresenta algumas proposições como sendo sombras de Deus que nos obscurecem a vista; a saber, que o mundo é um ser vivo; que o universo é uma máquina; atribuir insensibilidade e falta de razão ou o oposto disso ao universo; que o universo tem impulso de autoconservação; afirmar que a morte se opõe à vida; que o mundo cria eternamente o novo, dentre outras. Diante dessas “sombras de Deus”, Nietzsche afirma que a ordem astral na qual vivemos é uma exceção que possibilitou a formação do elemento orgânico e que o universo não é nem nobre, nem belo e não procura imitar o homem, aliás, afirma o filósofo “Ele não é absolutamente tocado por nenhum de nossos juízos morais e estéticos”. Dessa maneira, pergunta Nietzsche, quando teremos desdivinizado a natureza, e naturalizado os seres humanos com uma pura natureza? E ainda, “quando é que todas essas sombras de Deus não nos obscurecerão mais a vista?”.

Nietzsche prossegue no aforismo 110, intitulado “Origem do conhecimento”. Durante muitos intervalos de tempo o intelecto produziu apenas erros, e alguns deles foram úteis na conservação da espécie. Nietzsche sublinha que muitos erros foram, inclusive, recebidos como herança. Aqueles que os adquiriram foram mais felizes na luta por si e pela sua prole. Tais erros, Nietzsche os denomina “equivocados artigos de fé” (§110), que foram herdados “até se tornarem patrimônio fundamental da espécie humana” (§110). Dentre eles, podemos citar: “que nosso querer é livre” e “que o que é bom para mim também é bom em si”. A verdade apareceu somente depois “como a mais fraca forma de conhecimento”. Nietzsche levanta a conjectura de que o nosso organismo não estava ajustado para a verdade e que todas as suas funções trabalhavam com os erros fundamentais que foram incorporados há muito tempo. Pois, “a força do conhecimento não está no seu grau de verdade, mas na sua antiguidade, no seu grau de incorporação, em seu caráter de condição para a vida”.

Diante de uma possível contradição entre vida e conhecimento, viver sempre foi mais importante, por isso nunca houve embates sérios entre viver e conhecer, logo, negação e dúvida eram consideradas loucura porque dizem respeito ao conhecimento. “Os artigos de fé” citados por Nietzsche tornaram-se critério para distinguir o verdadeiro do falso no conhecimento.

Ainda no aforismo 110, Nietzsche faz referência aos eleatas como pensadores de exceção que acreditavam ser possível viver também o que era oposto aos erros naturais. Eles acreditavam que o seu conhecimento era princípio de vida, mas para isso “tiveram de se enganar” a respeito da sua própria condição. Eles compreenderam mal a natureza do homem do conhecimento, negaram a força dos impulsos no conhecimento e apreenderam a razão como atividade inteiramente livre. Eles esqueceram-se de que “eles haviam chegado a suas proposições contradizendo o que era tido por válido, ou ansiando por tranqüilidade, posse exclusiva ou dominação”. O desenvolvimento sutil da retidão do ceticismo impossibilitou esses homens, suas vidas e seus juízos revelaram-se dependentes dos antigos erros e impulsos fundamentais de toda existência. Neste caso, o ceticismo impossibilitou a vida desses homens. Nietzsche afirma que “esta sutil retidão e atitude cética surgiu sempre que duas proposições opostas pareceram aplicáveis à vida, por serem ambas compatíveis com os erros fundamentais” (...).

Todo gênero de impulsos, não somente prazer e utilidade tomou partido na luta pelas “verdades” – luta intelectual tornou-se ocupação, atrativo, dever, profissão. Conhecimento e a busca do verdadeiro incluíram-se como necessidade entre as necessidades. Nessa perspectiva, define-se o pensador como aquele no qual o impulso para a verdade e os erros conservadores da vida travam sua primeira luta, depois que o impulso à verdade provou ser também um poder conservador da vida. Nietzsche termina o parágrafo com a seguinte questão: “Até que ponto a verdade suporta ser incorporada?”.

Ao tratar da “Origem do lógico” no aforismo 111, Nietzsche enfatiza que a lógica na mente humana surgiu do ilógico. Muitos seres que inferiam de modo diverso do que agora inferimos, desapareceram, o que nos leva a pensar que esta maneira de inferir fosse mais verdadeira. A tendência de tratar o que é semelhante como igual criou todo fundamento para a lógica, mas é uma tendência ilógica. Exemplificando, aquele que descobrisse igualdade no que era semelhante tinha mais probabilidade de sobrevivência do que aquele que não soubesse distinguir o igual. Também nesse sentido utilizou-se o conceito de substância, que é indispensável para a lógica. Foi necessário que não fosse visto o que há de mutável nas coisas. E os seres que não viam, tiveram mais vantagem sobre outros.

Tendo em vista o ceticismo, Nietzsche afirma que “todo elevado grau de cautela ao inferir, toda propensão cética, já constitui em si um grande perigo para a vida.” Nessa perspectiva, pode-se também dizer que todo ser vivo só se conservou porque algumas tendências foram cultivadas com extraordinária força: afirmar, ao invés de adiar o julgamento; errar e inventar ao invés de aguardar, assentir ao invés de negar e, julgar ao invés de ser justo. De modo que “nossos pensamentos e inferências lógicas correspondem a um processo e uma luta entre impulsos que, tomados separadamente são todos muito ilógicos e injustos”. Experimentamos somente o resultado da luta entre impulsos devido à rapidez e ao modo oculto com o qual opera em nós esse antigo mecanismo.

Em outros lugares, como no aforismo 113, Nietzsche parece referir-se também ao ceticismo ao apresentar “a teoria dos venenos”. Neste caso, ele explica como se produz um pensamento científico. É preciso reunir várias forças para produzi-lo. Forças que, tomadas isoladamente, atuam como venenos; “o impulso do duvidar”; “o impulso de negar”; “o de aguardar”, “o de juntar” e o “de dissolver”. Tais forças só não atuam como venenos porque se restringem e disciplinam mutuamente no interior do pensamento científico. Entretanto, ocorreram muitas hecatombes humanas até que esses impulsos chegassem a coexistir e a sentir que eram todos funções de uma força organizadora dentro de um ser humano.

No aforismo 115 deparamo-nos com os quatro erros por meio dos quais os homens foram educados. Nietzsche aponta os quatro erros, a saber, que o homem: “sempre se viu de modo incompleto”; “atribuiu-se características inventadas”; “colocou-se numa falsa hierarquia, em relação aos animais e à natureza” e “inventou sempre novas tábuas de bens, vendo-as como eternas e absolutas por um certo tempo”. Tais erros são tão necessários que se excluíssemos o efeito deles não teríamos o que denominamos de “humanidade”, “humanismo” e “dignidade humana”.

O aforismo 120 também serve como exemplo do que poderíamos chamar em Nietzsche de um “estatuto do erro”. Ao abordar “a saúde da alma”, ele explica que há inúmeras saúdes do corpo e que determinar o que seja saúde do corpo depende, dentre outras coisas, dos nossos erros e, sobretudo, dos ideais e fantasias da alma. Ao mesmo tempo, questiona-se também se a nossa sede de conhecimento e o desenvolvimento da virtude não dependem da doença.

O aforismo seguinte (121) corrobora a importância, pelo menos neste momento, de uma teoria do erro. Sob o título “A vida não é argumento”, este parágrafo afirma que entre as condições para a vida poderia estar o erro. E mais uma vez, Nietzsche cita “os artigos de fé”, sem os quais “ninguém suportaria viver”, como as idéias de causa e efeito, forma e conteúdo.

Como os impulsos humanos estão em constante luta nos indivíduos, as maneiras de hierarquizações e avaliações dos atos e impulsos humanos que vão determinar as necessidades de uma comunidade e de um rebanho. Através da moral, cada indivíduo adquire função de rebanho e se valoriza apenas como função. Assim, diferentes maneiras de preservação das comunidades produzem diferentes morais. E, “profetizando” (§116), Nietzsche afirma que ainda aparecerão morais muito divergentes.

No aforismo 122, inicia-se uma série de referências e críticas ao cristianismo, diretamente ou indiretamente, como ao tratar do judaísmo e da morte de Deus, até o aforismo 140. Neste percurso quase ininterrupto de referências de Nietzsche ao cristianismo, temos o aforismo 125, intitulado “O homem louco”. É dia, mas um homem louco acende uma lanterna e corre ao mercado procurando por Deus. Muitos que estavam ali não acreditavam em Deus, por isso ele dá uma gargalhada. As pessoas ali fazem questionamentos. O homem louco diz então que “nós matamos Deus” e que “nós somos seus assassinos”. E metaforicamente indaga: “Como conseguimos beber inteiramente o mar?” - “Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte?” Os coveiros já enterraram Deus. Os deuses apodrecem. “Deus está morto”. Assim, as Igrejas nada mais são do que túmulos e mausoléus de Deus. Por isso anoitece eternamente e torna-se necessário acender lanternas de manhã.

Do aforismo 135 ao 140, Nietzsche aborda o judaísmo. Afirma que o pecado é um sentimento judaico e uma invenção judaica. Com este pano de fundo o cristianismo pretendeu “judaizar” o mundo inteiro. Neste caso, contrapondo judeus e cristãos com os gregos, ele afirma que esta idéia de arrependimento soaria como escravidão aos ouvidos dos gregos. Pois, os gregos estavam perto da noção de que o delito pode ser digno. Como exemplo disso, eles inventaram a tragédia, devido à necessidade de atribuir e incorporar dignidade ao delito.

Além disso, os judeus se sentiam o povo eleito entre os povos por julgarem-se o gênio moral entre os povos. “Um Jesus Cristo”, explica Nietzsche: “era possível somente numa paisagem judia – quero dizer, numa em que pairasse continuamente a sombria e sublime nuvem da ira de Jeová” (§ 137). O erro de Cristo foi acreditar que nada fazia os homens sofrerem mais do que seus pecados. Ele cometeu este erro porque se considerava isento do pecado. Mesmo os judeus, o povo inventor do pecado, raramente considerava o pecado como uma grande miséria.

O aforismo 139 compara o tratamento que Paulo e os gregos deram às paixões. O primeiro viu as paixões como algo sujo e deformador, algo que deveria ser purificado no que é divino. Os gregos, por sua vez, de modo diferente de Paulo e dos judeus, amaram, elevaram e divinizaram as paixões. Para Nietzsche, o fundador do cristianismo foi demasiado judeu (§140). Pois não teve sensibilidade refinada para perceber que se quisesse tornar-se objeto de amor, teria que deixar de julgar e fazer justiça, ou seja, não deveria ser juiz. O amor de Deus é um amor com cláusulas (§141).

Após esta sequência de aforismos sobre o cristianismo, Nietzsche apresenta no aforismo 143, a grande vantagem do politeísmo. Através da arte de criar deuses podia-se dizer “Não fui eu! Eu não! Foi um deus através de mim”. Além disso, a liberdade que se dava aos deuses, concedia-se também aos homens. Admitiu-se “o luxo de haver indivíduos e se honrou pela primeira vez, o direito dos indivíduos”.

Tratando ainda de religião, o aforismo seguinte (§144) afirma que a guerra de religião é o maior progresso das massas porque mostra que a massa começou a tratar os conceitos com reverência. A plebe já começa a pensar que a salvação da alma depende de mínimas diferenças nos conceitos.

Citando mais uma vez o cristianismo, Nietzsche afirma que aguardente e cristianismo são os narcóticos europeus que os povos selvagens tomam primeiro dos europeus. E são estes narcóticos que levam estes povos mais rapidamente à ruína.

Em relação às reformas, pode-se dizer que surgiram na Alemanha porque a Igreja era a menos corrompida. E sobre o fracasso delas é sinal de que o povo já é bastante diverso em si e começou a desprender-se dos instintos de rebanho e da moralidade dos costumes.

Cabe ainda, nesta apresentação, uma abordagem de dois aforismos que fazem referência à dieta. O aforismo 134 que traz o título “Os pessimistas como vítimas”, onde Nietzsche afirma que o desgosto de existir deve-se a um grande erro de dieta, nesse sentido, “o desgosto alemão com a vida é essencialmente uma doença de inverno”. Já o aforismo 145 trata do “Perigo dos vegetarianos”. Algumas dietas levam ao uso de ópio, narcóticos e aguardente. Por isso, os hindus incentivam as pessoas ao regime vegetariano, “para pensar e sentir de maneira narcótica”.










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