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walkiria L. c. schogor

Um olhar simbólico sobRE a casa LAR: veneno e remédio.

Trabalho apresentado ao curso de pós-graduação em psicologia analítica, pró-reitoria de pós-graduação, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, como requisito parcial à obtenção do título de especialista em psicologia analítica.

supervisora: Renata Wenth.

CURITIBA

2003

A criança é o que fui em mim e em meus filhos,

Enquanto eu e humanidade.

Ela, como princípio é a promessa de tudo.

É minha obra livre de mim.

Se não vejo na criança, uma criança, é porque alguém a violentou antes.

E o que vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado.

Mas essa que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama e comida,

Essa que vive a solidão das noites sem gente por perto,

é um grito de espanto.

Diante dela, o mundo deveria parar para começar um novo encontro,

porque a criança é o princípio sem fim

E o seu fim é o fim de todos nós.

Herbert de Souza (Betinho).




SUMÁRIO


APRESENTAÇÃO 04

1. O OLHAR SIMBÓLICO SOBRE A CASA LAR: A CRIANÇA,

A MÃE, O PAI, O IRMÃO E A FAMÍLIA 06

1.1 O CONCEITO DE ARQUÉTIPO 06

1.2 A CRIANÇA NA PSICOLOGIA ANALÍTICA 10

1.3 O ARQUÉTIPO DO ÓRFÃO E O ABANDONO 16

1.4 O ARQUÉTIPO DA MÃE 23

1.5 O ARQUÉTIPO DO PAI 30

1.6 IRMÃOS, AMIGOS 35

1.7 A FAMÍLIA 39

2. INSTITUCIONALIZAÇÃO E ABANDONO NO BRASIL 50

2.1 HISTÓRICO DO ABANDONO 50

2.2 ATENDIMENTO Á CRIANÇA BRASILEIRA 51

2.3 O REGIME CASA LAR 52

CONSIDERAÇÕES FINAIS 57

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 62

ANEXO 01 – CONTO JOÃO E MARIA 64

apresentação

Há cinco anos venho trabalhando, enquanto psicóloga, em uma organização não governamental (O.N.G.) que mantém casas lares. Iniciei o trabalho em 1998 e desde então venho acompanhando o desenvolvimento psicosocial das crianças atendidas pela entidade e de suas famílias.

A casa lar é uma modalidade de atendimento para a criança em situação de risco social (abandonada, negligenciada, órfão ou que teve algum dos seus direitos básicos desrespeitados). É uma unidade de abrigo de caráter provisório, onde a criança permanece por 24hs ou por prazo indeterminado até que se resolva a problemática que a levou ao abrigamento.

O trabalho desenvolvido dentro de uma casa lar objetiva oferecer às crianças que necessitam, um espaço seguro até que os problemas de suas famílias sejam resolvidos ou amenizados. Caso isso não aconteça a criança é encaminhada para programas de colocação em família substituta (adoção).

Cada casa lar é estruturada para acolher no máximo 10 crianças que são cuidadas por uma funcionária contratada para o cargo de mãe social, ou casal social. Geralmente as casas não exibem placas e a rotina pretende assemelhar-se a das famílias convencionais.

Não se trata de um sistema nos moldes dos conhecidos orfanatos e educandários, tampouco de um sistema familiar convencional, mas sim de uma heterogeneidade de normas e leis, onde se misturam aspectos típicos de uma família com aspectos também típicos de uma instituição para crianças carentes. A mãe social não é mãe, mas pode ser chamada de mãe. A mãe social substituta também é mãe social, mas não pode ser chamada de mãe, de tia pode. A casa é um lar, embora não se saiba até quando se viverá lá.

A criança tem sua cama, seus pertences e seus irmãos, mas, a qualquer momento, pode ser recolocada na sua família de origem ou em outra adotiva. Seus pertences são seus, enquanto permanece naquela casa. Seus irmãos não são irmãos, mas alguns são. Alguns vêm e vão, mas alguns nunca vão, embora também não se possa dizer que ficarão para sempre. O pai social não é pai, mas pode ser chamado de pai, age como pai embora possa ir embora a qualquer momento. As vezes o pai não está todo o tempo, mas em algumas situações aparece, para ditar regras e cobrar o cumprimento da lei.

Esse “clima ambíguo” gerado pela confusão instituição/casa parece colocar a família social no limiar entre um REMÉDIO para a criança que não teve a sorte de nascer em uma família capaz de acolhê-la ou um VENENO, que pode vir a comprometer seu desenvolvimento.

Não é cabível aqui interrogar a existência de abrigos para crianças. Há situações extremas que justificam plenamente o afastamento destas dos pais biológicos. O abandono é um fato da vida e o abrigo também.

Tendo em vista tal problemática o objetivo desse trabalho é lançar luz sobre a casa lar tendo como pressuposto o ponto de vista simbólico, não com a intenção de responder as questões levantadas, mas sim visando possibilitar que uma reflexão psicológica se estabeleça.

O primeiro capítulo observa os participantes da casa (a mãe, o pai, a criança, os irmãos, os amigos e a família) a partir do conceito de arquétipo. Optou-se por ilustrar o tema da família também com contribuições da antropologia e do direito, além da psicologia.

O segundo capítulo é dedicado a institucionalização e o abandono de crianças no Brasil. Neste capítulo está presente o histórico da situação das crianças abandonadas no país, bem como as modalidades de atendimento que foram sendo desenvolvidas para responder a esta demanda social. Percorre-se o caminho histórico até chegar ao formato de abrigo em regime de casa lar.

Seguem-se as considerações finais acerca do tema, onde, a partir de um paralelo entre a vida na casa lar e o conto João e Maria, são discutidas algumas questões, não com a intenção de respondê-las, mas sim com o propósito de possibilitar futuras reflexões e tentativas de respostas.

1 O olhar simbólico sobRE a casa lar: a criança, a mãe, o pai, os irmãos e A família.

1.1 o conceito de arquétipo.

Antes de debruçar o olhar sobre o tema da casa lar, é necessário discorrer sobre um conceito fundamental na obra de Jung, sob o qual se apóia qualquer ponto de vista simbólico: o conceito de arquétipo.

Jung discute este conceito no decorrer de sua obra afirmando que se trata de um termo emprestado da filosofia. "arquétipo nada mais é do que uma expressão já existente na antigüidade, sinônimo de idéia no sentido platônico."1

No texto “O Conceito de Arquétipo”, após refletir sobre o grau da interferência da personalidade do observador na percepção da realidade, Jung faz a pergunta:

“será possível que um homem só possa pensar, dizer e fazer o que ele mesmo é? "2

O conceito de arquétipo se funde a esse questionamento na medida que aponta para um fator inato anterior as características de personalidade individual.O próprio potencial para desenvolver tal personalidade é inato. É verificável que todo ser humano apresenta uma característica singular que o difere dos demais sujeitos da sua espécie. Segundo Jung "é impossível supor que todas essas particularidades sejam criadas só no momento em que aparecem."3

Portanto é impossível não partir do princípio que o ser humano possui um aparelho que lhe oferece potencialidade conforme sua espécie. Como todas as criaturas vivas, nascemos com a carga de comportamentos potenciais que o ser humano pode vir a desenvolver, inclusive a capacidade de se diferenciar e organizar uma personalidade pessoal própria. Foi a esse potencial exclusivamente humano que Jung chamou de arquétipo.

Aqui é importante lembrar que isso não significa que é o coletivo somente que determina a personalidade. Todo potencial só pode ser vivido a partir do individual. São as experiências de um ser humano, vivenciadas por um ponto de vista único, que tornam possível que as potencialidades se desenvolvam e que o coletivo se revele.

O homem só pode ver o mundo com os olhos do homem, com os sentimentos do homem, com os desejos do homem e com a singularidade de cada um. Todo tipo de atividade desenvolvida pelo homem durante sua existência individual tem um correspondente nuclear arquetípico,é essa relação entre individual e coletivo que torna o ser humano o que ele é.

À medida que cada ser humano vai experienciando a vida, os arquétipos vão sendo constelados. Em torno deles as vivências carregadas de afetos vão se organizando. A esse conjunto de afetos em torno de um arquétipo Jung chamou de complexos de tonalidades afetiva.

Os complexos foram conceituados por Jung a partir de suas experiências com o teste de associação de palavras. Neste eram lidas palavras e solicitado ao sujeito testado que respondesse com a primeira palavra que lhe ocorresse. Algumas palavras causavam no individuo outras reações que não a pedida no teste. Tosse, sorriso, silêncio, ou demora na resposta. Após analisar esses “erros” Jung concluiu que alguma coisa tomava conta do ego naquele momento, essa “alguma coisa” era um complexo. Jung define complexo como sendo

“[...]a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia,[...].”4

Também afirma Jung que os complexos são “aspectos parciais da psique dissociados”5, ou seja, partes de nós mesmos que habitam nossa alma e compartilham de nossa vida consciente. Essas “vozes”, que as vezes falam quando menos se deseja ouví-las, são parte vital da psique, é impossível subtraí-las ou ignorá-las.

“Na verdade, os complexos fazem parte da constituição psíquica que é o elemento absolutamente predeterminado de cada individuo.”6, eles vão se formando a partir das experiências externas e internas de cada um.

Como afirma Jung “a base essencial de nossa personalidade é a afetividade”7. Cada complexo pode ser considerado um aglutinamento de idéias e sentimentos, com tonalidade afetiva, originados a partir das experiências únicas vivenciadas e também da constelação arquetípica que se faz presente em cada indivíduo.

Para Jung os arquétipos cantem em si uma polaridade: “[...] o arquétipo é, sob certos aspectos, um fator espiritual e, sob outros aspectos, como um sentido oculto, imanente ao instinto,[...] è bipolar e paradoxal: uma grande ajuda, ao mesmo tempo um grande perigo.”8

Cada experiência pode ser percebida pela consciência como positiva ou negativa, de acordo com a sensibilidade do ser humano, ou seja, a maneira como cada um sente e percebe a experiência. Uma mesma vivência pode ser considerada positiva para um e negativa para outro. Às vezes o excesso de positividade pode transformar-se em algo nefasto para a psique, assim como experiências a princípio muito negativas podem transformar-se em força motriz para a busca de transformação.

Uma vez que os complexos se formam a partir da experiência organizadas em torno de um centro arquetípico, a polaridade inata do arquétipo se faz presente, possibilitando que um complexo também possa ser predominantemente positivo ou negativo. Os complexos originalmente positivos são aqueles que partem de experiências promotoras do desenvolvimento. Entretanto isso não exclui a possibilidade de tornarem-se inibidores.

Um exemplo disso é a superproteção. Durante um período da vida da criança, a proteção é importante e promove o desenvolvimento oferecendo uma base segura. Mas quando a criança vai crescendo essa proteção tem que ser reordenada, pois se ela se torna excessiva inibe o desenvolvimento. O mesmo pode ocorrer com o complexo originalmente negativo.Portanto em termos de dinâmica da psique, complexos positivos podem se tornar inibidores e complexos negativos poder ter função promotora de desenvolvimento.

Estabelecer o contato da consciência com os complexos e arquétipos é fundamental para que a alma possa se expressar em sua singular totalidade. Tendo em vista que a psique se manifesta por meio de imagens, um meio de estabelecer esse contato é através dos símbolos.

“[....] tudo o que dela (a alma) sabemos é ela própria, a alma é a experiência direta do nosso ser e existir. Ela é para si mesma a experiência única e direta e a “conditio sine qua non” da realidade subjetiva do mundo em geral. Ela cria símbolos cuja base é o arquétipo inconsciente e cuja imagem aparente provém das idéias que o inconsciente adquiriu. [...] Os símbolos funcionam como transformadores, conduzindo a libido de uma forma “inferior” para uma forma superior. Esta função é importante que a intuição lhe confere os valores mais altos. O símbolo age de modo sugestivo, convincente, e ao mesmo tempo exprime o conteúdo da convicção.”9

Para Hillman, os arquétipos são a estrutura da imaginação, portanto só esta pode acessá-los. Para ele imagem é todo o material que constrói a psique em si, a forma como ela se apresenta, a própria paisagem da alma e não criações da consciência. As imagens para Hilmann são autônomas, independentes, circulam nas esferas psíquicas por livre vontade e não se submetem aos desejos egóicos. Elas não se expressam só por sonhos, desenhos, fala, movimento, aroma ou som. A imagem não é algo que se apresenta aos sentidos ela é uma maneira de perceber o mundo. "[...] uma imagem não é aquilo que se vê, mas a maneira como se vê".10

È com esse olhar, buscando principalmente aquilo que os olhos da alma podem ver que lançaremos luz sob a casa lar e seus habitantes.


1.2 a criança na psicologia analítica.

Tendo em vista que o objetivo deste trabalho é lançar um olhar simbólico sobre os personagens da “família social”, cabe aqui uma breve consideração acerca do motivo da criança na psicologia analítica. Afinal a casa lar e a família social são experiências que buscam oferecer às crianças em situação de risco condições de desenvolvimento adequadas através da formação de um grupo familiar atípico.

O motivo da criança pode ser visto sob a perspectiva da infância literal, fase da vida humana e como um motivo arquetípico. A criança literal refere-se ao período da infância do bebê humano, seu desenvolvimento físico e emocional, o surgimento do ego e a relação deste com o meio externo e interno. A criança literal é essa que se observa nas escolas, nos parques, em casa ou na rua.

Já a criança simbólica refere-se aquela imagem interna que habita cada ser humano. É o arquétipo da criança que como todo arquétipo, é inato e continente para todas as experiências da humanidade relacionadas com o começar, com o nascer, com o ser inocente, autêntico, espontâneo e criativo.

“Uma infância potencial habita em nós. Quando vamos reencontrá-la em nossos devaneios, mas ainda que na nossa realidade, nós a revivemos em suas possibilidades. Sonhamos tudo o que ela poderia ter sido, sonhamos no limite da história e da lenda. Para atingir as lembranças de nossas solidões, idealizamos os mundos em que fomos criança solitária [...] Essa infância aliás, permanece como uma simpatia de abertura para a vida, permite-nos compreender e amar as crianças como se fossemos os seus iguais numa vida primeira”11

Quando um adulto olha para uma criança, seja ela filha, parente ou vizinha, é impossível não reagir de alguma maneira: ou a detesta ou a adora. A capacidade que as crianças têm de causar impacto no adulto está justamente no poder inato de fazerem-se espelhos para a infância deste, constelando o arquétipo da criança.

A criança vive naquele mundo que o adulto abandonou com pesar, ou que ainda insiste em manter - pagando o preço devido. Ela vive naquele emaranhado de dor e doçura, dúvida e esperança. Engloba todas as potencialidades do mundo, mas sabe, inconscientemente, que terá que crescer um dia e que disso depende sua própria vida. Sabe que a infância está predestinada ao sacrifício.

Ter uma criança por perto significa reviver as brincadeiras esquecidas, os cheiros e gostos da infância. Para alguns adultos significa, também, não ter tempo para se haver com suas próprias questões, esquecer das dúvidas inerentemente humanas em prol de outra vida. Por outro lado, deixá-las crescer é permitir-se envelhecer e deparar-se com a perspectiva da morte.

Do ponto de vista psicológico, é difícil conceber a criança literal e a criança simbólica em separado, uma vez que a primeira geralmente constela a segunda em quem a observa. Por outro lado é difícil pensar no motivo arquetípico da criança sem ativar memórias de uma fase de vida anterior.
“Há seguramente em nós uma imagem, um centro de imagens que atraem as imagens felizes e repelem as experiências do infortúnio. No seu principio, todavia, essa imagem não é inteiramente nossa, tem raízes mais profundas que as nossas simples lembranças. Nossa infância, testemunha a infância do homem, do ser tocado pela glória de viver”12

Esse entrelaçamento entre o que é literal e o que é simbólico deixa espaço para considerações acerca da imagem arquetípica da criança e do desenvolvimento infantil.

Vale aqui reproduzir a explicação oferecida oportunamente por JUNG quando este se propõe a falar do motivo da criança na mitologia. Afirma ele:

"Talvez não seja supérfluo mencionar um preceito de caráter leigo, que sempre tende a confundir o motivo da criança com a experiência concreta da “criança”, como se a criança real fosse o pressuposto causal da existência do motivo da criança. Na realidade psicológica, porém, a representação empírica da criança é apenas um meio de expressão (e nem mesmo o único!) para falar de um fato anímico impossível de apreender de outra forma. Por esse motivo a representação mitológica da criança não é de forma alguma uma copia da "criança" empírica, mas um símbolo fácil de ser reconhecido como tal: trata-se de uma criança divina, prodigiosa, não precisamente humana..." 13


Jung aqui se refere ao motivo da criança enquanto infância da humanidade e inicio do despertar da consciência de uma espécie inteira. Ele prossegue afirmando que muitos mitos relacionados ao motivo da criança divina estão a serviço de manter a conexão entre a consciência e esse estágio anterior, arcaico.

Entretanto alerta Jung que “o motivo da criança não representa apenas algo que existiu no passado longínquo, mas também algo presente; não é somente um vestígio. Mas um sistema que funciona ainda, destinado a compensar ou corrigir as unilateralidades ou extravagâncias inevitáveis da consciência14.

O motivo da criança é visto ainda como símbolo do futuro, de um desenvolvimento psíquico, considerado indicador de síntese entre elementos inconscientes e conscientes e também símbolo da totalidade.

A imagem de criança interna ou criança interior está presente em todos os seres humanos. A conexão com essa imagem, entretanto, nem sempre é mantida.

ABRAMS afirma que “a criança interior é a portadora das nossas histórias pessoais, o veículo das nossas recordações da criança do passado, tanto a de verdade com a idealizada. È a única qualidade verdadeiramente viva do ser que existe em nós”.15

A imagem da criança interna está relacionada intimamente com a vivência de episódios infantis. Mas especificamente, com a maneira como cada um vivenciou tais episódios. Essa vivência é relacionada também com o lugar cultural dado as crianças durante um determinado período histórico.

É possível encontrar pessoas que tiveram uma infância adequada, em uma família aparentemente acolhedora e provedora de condições de desenvolvimento adequadas, mas que se sentem, quando adultas, desconfortáveis com relação a sua própria infância. Para tal criança o ambiente era percebido como opressor, ela não se sentia amada nem tampouco protegida, ou se sentia protegida demais e isso também apavora. A criança interna, nesse caso é um ser traumatizado e ferido, que precisa ser acolhido e curado.

Por outro lado é possível conceber que uma criança literalmente abandonada, que viveu a experiência da negligência encontre alento em uma figura substituta, sentindo-se amada e especial por ter sobrevivido. Nesse caso a criança interna pode ter a marca de uma infância feliz.

Em 1931, Jung escreveu a introdução para o livro de Julius Verlag "Analyse der Kinderseele"16. Neste texto, ele percorre o caminho do desenvolvimento, comentando sobre a constituição da individualidade, partindo do princípio que nas crianças a consciência está sendo estruturada, emergindo do inconsciente.

Segundo ele, a consciência se desenvolve a partir do inconsciente. Nos primeiros anos de vida quase não se verifica continuidade da consciência, o que não significa ausência de fenômenos psíquicos. Esses fenômenos ainda não são relacionados a nenhum eu, carecendo de continuidade.

Durante esse período a criança vive em "participação mística" com os pais, mais precisamente com o inconsciente deste. Segundo Jung

"Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram [...] Essa afirmação poderia parecer algo de sumário e artificial sem esta restrição: essa parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido se não a tivessem ocultado mediante subterfúgios mais ou menos gastos, trata-se pois de uma parte da vida que - numa expressão inequívoca - foi abafada talvez como uma mentira piedosa."17

Assim é fundamental conhecer o tipo de vida que os pais levam pois "o que atua sobre as crianças são os fatos e não as palavras"18.

Entretanto, Jung também alerta para o perigo de entender somente o problema dos pais como causa dos problemas dos filhos. Muitas vezes trata-se de uma compensação do destino, de uma culpa impessoal pela qual o filho também deve pagar de modo igualmente impessoal. "contra isso de nada adianta a educação nem a psicoterapia.".19

Vale lembrar que a individualidade infantil não provém só da influência dos pais. Os aspectos únicos de cada criança, a maneira única como sente o mundo, ou seja, sua sensibilidade também é fator determinante.

WHITMONT refere-se a possibilidade da existência de predisposições básicas que influenciam a percepção da realidade.

“(..) estamos presos ao fato que nos confunde de que podemos rastrear nosso complexo até uma padronização particular da infância, e mesmo que nosso primo ou até nosso irmão estivessem sujeitos a exatamente as mesmas influências, o efeito sobre eles não seria o mesmo.Portanto, apesar de ser verdadeiro o fato de que o condicionamento na infância teve efeito na criação de nossos complexos e na formação do seu modo de expressão, não se pode dizer que esse condicionamento explica tudo. Devem também existir na predisposição básica individual diferenças que determinam quais os tipos de complexos que se desenvolvem ou não em resposta a esse ambiente.”20

Para Jung "Tanto o corpo como a alma da criança provém da combinação de fatores coletivos de sua árvore genealógica. É essa combinação única que a torna indivíduo, diferente de seus pais."21

Seguindo esse raciocínio, ele fala que à medida que a linguagem se desenvolve, a consciência passa a exercer uma repressão interna por meio de seus conteúdos da atualidade. Quando a criança começa a utilizar a palavra "eu" começa a continuidade da consciência, embora ainda muitas vezes interrompida. Nesse momento pode-se dizer que há uma psique individual.

Percorrer esse caminho rumo a individualidade, não é tarefa fácil e nem tão pouco agradável. Implica em abrir mão de parte da inconsciência em prol do dolorido alargamento da consciência. É de se entender que uma criança sinta-se angustiada cada vez que precisa dar um passo a frente.

A questão que permanece é o quanto a vivência em um abrigo onde por vezes se verifica condição tão árida emocionalmente ou tão intensa se comparada a da família de origem, interfere no caminho rumo ao desenvolvimento da criança. Será mesmo possível para ela encontrar força e espaço para realizar essa caminhada sem sucumbir frente às perdas, ao desamor, ao abandono e ao devorador mundo do abrigo?

Será que mesmo crescendo em condições de adversidade, seja no abrigo ou em uma família convencional, é possível ter na alma o registro de uma infância interna saudável?

1.3 O arquétipo do órfão e o abandono.

É fato afirmar que a constituição da instituição "família social" implica em uma história de abandono anterior. Se não houvesse o abandono literal de crianças não haveriam orfanatos, educandários e casa lares, nem tão pouco "famílias sociais".

O tema do abandono é bastante discutido na psicologia analítica, justamente por ser também um tema arquetípico, tal qual o da criança. JUNG escreveu que "'Criança' significa algo que se desenvolve rumo a autonomia. Ela não pode tornar-se alguém sem desligar-se da origem: o abandono é pois uma condição necessária, não apenas um fenômeno secundário."22

Todo ser humano precisa vivenciar o abandono inicial quando tem que deixar o paraíso da primeira infância para caminhar rumo a autonomia. A medida que caminha vai deixando sua infância para trás até chegar em um ponto onde a criança precisa ser abandonada para dar lugar ao jovem. A cada nova etapa da vida humana, um personagem vive o abandono e outro vive o abandonar.

Como afirma ABRAMS

"a experiência do abandono - concreta, emocional, psicológica - é, portanto, uma iniciação na vida. É uma repetição da expulsão do Éden, uma perda da inocência, uma decepção, assim como uma traição. Contudo é um acontecimento positivo, porque nos põe em movimento na nossa jornada, nos faz seguir as voltas do nosso caminho em busca da experiência e da identidade." 23

Por outro lado, o abandono pode também deixar marcas profundas. Uma criança que cedo foi magoada pela solidão pode manter seus sentimentos disfarçados por uma camada de cinismo e ressentimento.

É fundamental que a orfandade, (simbólica ou literal) seja reconhecida. É somente encontrando um significado para a solidão que o ser humano pode reconhecer-se como único responsável por si mesmo e pelos seus atos.

ROTHENBERG descreve com grande habilidade sua própria experiência de orfandade e o quanto esse momento marcou sua vida e sua personalidade.Aos 4 anos ela teve um sonho “estou de pé no centro da casa onde morei na infância. Atrás de mim está uma árvore morta com galhos nus, sem folhas. Dos meus antebraços nascem cobras pretas” . Esse sonho a acompanhou por toda a vida como imagem de sua orfandade.

“A árvore morta de meu sonho parecia conter a alma de minha verdadeira mãe, e as serpentes que nascem dos meus braços representam a reação de minha psique á sua morte. Serpentes transmitem energias poderosas. Essas energias podem ser usadas como veneno ou panacéia[...].Dar serpentes à luz foi meu dilema de órfão. Eu poderia permanecer no inconsciente e sucumbir aos seus venenos ou usar os meus poderes de cura para participar da vida"24

Esse dilema reflete bem o drama vivenciado por aqueles que passam por situações de abandono. O limite entre veneno e remédio é por demais tênue, como em todos os momentos cruciais da vida.

Dentro da família social cada criança é uma alma lutando para se manter em equilíbrio. As perdas e rupturas afetivas são muitas e intensas. As novas possibilidades de afeto e acolhimento também.

As crianças da casa lar estão constantemente em contato com sua realidade de "abandonadas".Essa condição constela nos cuidadores, voluntários e funcionários, o mesmo abandono, seu oposto (o salvador) ou a madrasta megera. No primeiro caso a pessoa não se relaciona com o outro, mas sim com a sua própria criança abandonada. Projeções dos sentimentos de abandono levam a atitudes de acolhimento ou de esquiva. Muitos afirmam que não conseguem trabalhar com a criança porque são tomados pelo sentimento de pena, outros abandonam o trabalho porque sofrem demais, não suportam o convívio com uma criança com histórico de abandono.Que criança é essa que se tem pena ou de quem se precisa fugir para não sofrer?

Para a criança que existe por trás da projeção o que fica é mais um abandono e novamente a clareza de sua condição de “abandonada”.

Quando o arquétipo constelado é o do salvador, do herói, as pessoas trazem para a casa lar energia e disposição para oferecer a criança tudo que ela não teve. O lugar dado à criança nessas condições é o daquela que não tem, da cativa que precisa ser salva. Nesses casos sempre que a criança manifesta não ser vazia, ou seja, “ter alguma coisa”, como por exemplo, vontade, humor, planos que não se adaptam ao ideal do salvador está é vista como inadequada. Para o salvador a criança abandonada que foi salva precisa ser eternamente agradecida ao seu herói que a tirou do caminho errado.

Novamente a criança por trás da projeção precisa lidar com a demanda do outro ao mesmo tempo que tenta manter sua própria sanidade mental.

Uma saída possível é desfazer as projeções, rever a própria história e descobrir o que se busca no trabalho com crianças abandonadas. Reconhecer-se dentro da temática, dizer o não dito.

Se quem cuida da criança está consciente de suas próprias motivações internas torna-se possível que a relação com a criança que ali está seja mais consciente e menos permeada por projeções.

Os alquimistas utilizavam o termo órfão para determinar uma pedra singular, encontrada na coroa do imperador. Tal pedra representava o órfão sem lar que precisava ser abandonado e morto para que o processo alquímico pudesse ser iniciado. Dessa maneira se facilitava a transformação.

Da mesma forma a criança real abandonada é morta ao ser separada dos pais, e permanece morta até que possa compreender o significado desse evento para sua vida. Facilita-se, assim, o processo de transformação e adaptação a nova realidade.

A pedra órfão é também conhecida por sua ambigüidade de valores. Idolatrada por muitos e desprezada por outros. O próprio Jung reflete sobre a pedra angular de sua obra que, por ter dimensões erradas, foi desprezada pelo pedreiro. Jung sentir que aquela era a sua pedra e colocou-a de frente ao lago inscrevendo nela:
"Eis a pedra, de humilde aparência.

No que concerne ao valor, pouco vale -

Desprezam-na os tolos

E por isso mais a amam os que sabem."25


Essa ambigüidade também pode ser verificada nas crianças que vivenciaram experiências de abandono e nas pessoas que relacionam-se diariamente com elas.Com freqüência observa-se sentimentos ora de grande inferioridade ora de excessiva superioridade.

O arquétipo do órfão pode ser ricamente ilustrado por narrativas mitológicas. Nestas é comum a relação entre o órfão e o herói. Grande partes dos heróis nasceram em condições difíceis, sendo abandonados pelos pais ou ficando órfãos. Curiosamente é a experiência do abandono que possibilita a criação do herói.

Édipo, Dioniso, Esculápio, Rômulo, Moisés entre outros compartilham a experiência do abandono.

MacNeary, citada por ROTHENBERG26 escreveu que "a criança órfão alcança sua meta somente após terríveis dificuldades e a quase destruição, pois a luz que a criança carrega sempre corre o perigo de ser tragada pela escuridão."

Novamente depara-se com a tênue linha entre remédio e veneno, luz e escuridão.

ROTHENBERG27 estabelece um perfil psicológico do órfão. Esse perfil deriva da vivência do abandono, simbólico ou literal.

O primeiro aspecto desse perfil diz respeito a sensação de profunda falta de valor. Uma vez que foi deixada pela pessoa responsável por sua sobrevivência, a criança conjectura que talvez realmente não mereça sobreviver, que seu valor como indivíduo é inferior ao das outras pessoas que mereceram ter pais saudáveis e presentes.

O segundo aspecto é o sentimento de culpa, que acompanha o sentimento de falta de valor. "Se não mereço ter pais presentes provavelmente fiz algo horrível, mereço ser punido". Essa culpa é diferente daquela que sente o adolescente que se desliga dos pais (culpa por estar crescendo). A sensação de culpa do abandonado é profunda, é uma culpa por estar vivo.

Outro aspecto do perfil do órfão é o sentimento de pena de si mesmo. O indivíduo tomado pelo complexo do órfão sente pena de si mesmo e se coloca na posição de vítima e de dependente quando relaciona-se com o outro. Ele espera que todos também tenham pena dele e reconheçam sua dor. Procura sempre no outro algo que não percebe em si: segurança, nutrição e acolhimento.

Patologicamente, como afirma ROTHENBERG os relacionamentos podem colocar o órfão em situações perigosas. "Sua identidade de vitima-desamparada elicia o arquétipo correspondente da megera-tirano por parte da outra pessoa[...]" 28

Outro aspecto do perfil do órfão ou abandonado é a permanente atração pela morte. A imagem arquetípica do órfão é justamente a do sobrevivente, que indo contra a natureza, vence em situações tão adversas. A criança literalmente órfão pode ter no genitor falecido uma fonte de constante força motivadora da vida, que compete com o desejo de unir-se a ele. A sensação de que alguma coisa está faltando, é muito presente nas pessoas que viveram a experiência do abandono ou da orfandade, como se algo lhes tivesse sido roubado.

À semelhança dos mitos de heróis, o abandonado também pode sofrer uma inflação desmedida, por sentir que, se foi poupado da morte provavelmente deve ter uma grande missão na vida ou um protetor divino poderoso.

Para toda perda existe uma tentativa de preenchimento do vazio.As vezes a imagem da mãe biológica pode ser um fator de comparação com a substituta, que acaba sendo alvo de projeções da sombra do arquétipo materno ou o inverso.

A única saída para o dilema do orfão/abandonado é a retomada do contato com a mãe arquetípica. Quando o ego-criança abandonada consegue se reconectar com o inconsciente-mãe finalmente recebe o afeto, acolhimento e segurança que almejou a vida toda.

Mas para isso é necessário que tenha havido alguma relação.Precisa haver um outro para que a imagem da mãe seja constituída, pois é somente vivendo uma relação estável, que transmita amor e segurança, que a criança pode amadurecer e adquirir confiança em si mesma e no outro, inclusive para pedir e aceitar ajuda quando necessário.

PEARSON afirma que “o problema do órfão é o desespero; portanto, a chave para o movimento é a esperança.”29

É preciso que o órfão tenha a esperança de que alguém cuidará dele para então iniciar sua busca. Somente quando o órfão consegue aprender que a morte, a carência e o sofrimento são partes importantes e integrantes da vida é possível adotar uma nova postura diante dela.

De qualquer maneira “o mais importante é que as pessoas possam ver e ouvir sua própria verdade e, em conseqüência, agir no sentido de mudar suas vidas.”30

Inspirada no trabalho de Nise da Silveira31, desenvolvi dentro da casa lar oficinas de expressão com o objetivo de oferecer as crianças um espaço de escuta seguro. Em uma sala nos fundos da casa lar eu acompanhava as crianças em grupo de 3 a 4 durante uma hora. Havia materiais disponíveis (tintas, papéis, lápis coloridos, argila, cola, revistas, tesouras, brinquedos.) e dentro de uma proposta não diretiva cada criança contava sua história, esculpia suas sensações, desenhavam suas fantasias.Eu acolhia suas produções, seus sentimentos, suas individualidades, apenas isso.

Uma produção que chamou atenção foi a realizada por uma menina com argila, papel e tinta. Ela criava cenários que variavam conforme seu humor. No primeiro dia de oficina construiu um mar salgado “salgado demais, envenena quem tenta beber nele”. Não cabe aqui um estudo de caso, mas a referência ao mar e a sal, dois temas arquetípicos, inspiram muitos significados. Após alguns meses de trabalho, (onde ela contou sua história, revelou sua revolta por estar na casa lar e sua ambigüidade de sentimentos pela mãe social), outra construção apareceu, no mesmo formato do primeiro, mas agora o mar estava “bom” e crianças brincavam nele.

Quando se abre espaço para o simbólico muitas reflexões se estabelecem e possibilitam que novas formas de ver o mundo se constituam.

1.4 O arquétipo da mãe.

Vários autores descreveram exaustivamente o quanto é importante para o desenvolvimento da criança a relação que se estabelece com a mãe, ou uma figura que a substitua. Melanie Klein, Winnicott, Spitz, Anna Freud entre outros autores utilizaram-se de termos variados para abordar o tema. Klein afirma que a “ a sensação de ter um objeto bom dentro de si é a base da confiança em si próprio”32, esse objeto bom é introjetado a partir da relação com a mãe. Winnicott afirma que “o ambiente favorável torna possível o progresso continuado dos processos de maturação[...] inicialmente a mãe sozinha é o ambiente favorável”33, Spitz escreveu que “elas (as mães) criam o que denominamos, na relação mãe-filho, o clima emocional favorável, sob todos os aspectos, ao desenvolvimento da criança.”34

Jung produziu muito material relacionado ao tema da mãe35, entretanto o predomino da mãe pessoal nas teorias psicológicas o impressionava sobremaneira. Em seus textos Jung procura ir além desta visão personalista, pois como ele afirma:

“Para ir direto ao assunto, a minha concepção difere da teoria psicanalítica em princípio, pelo fato de que atribuo a mãe pessoal um significado mais limitado. Isso significa que não é apenas da mãe pessoal que provém todas as influências sobre a psique infantil descritas na literatura, mas é muito mais o arquétipo projetado na mãe que outorga á mesma um caráter mitológico e com isso lhe confere autoridade e até mesmo numinosidade.”36

Embora Jung deixe claro que a mãe pessoal também interfere no desenvolvimento, ele amplia essa visão incluindo a interferência do arquétipo materno.

A temática das duas mães desenvolve essa idéia demonstrando que as influências provêm de dois mundos “o tema das duas mães indica a idéia do duplo nascimento. Uma das mães é a verdadeira, humana; a outra porém é a mãe simbólica, caracterizada como divina, sobrenatural ou com qualquer outro atributo extraordinário.”37

O arquétipo materno, como todo arquétipo apresenta infinitos aspectos. JUNG38 cita alguns como a própria mãe, a madrasta, a sogra, a bruxa, a fada madrinha, a avó, a ama de leite, a deusa, a natureza, a lua, o mar, o subterrâneo, o útero, entre outros. Esses aspectos podem ser, do ponto de vista do desenvolvimento da psique, promotores ou inibidores. “Todos esses símbolos podem ter um sentido positivo, favorável, ou negativo e nefasto. [...] Símbolos nefastos são a bruxa, dragão [...] o túmulo, o sarcófago, a profundidade da água, a morte, o pesadelo e o pavor infantil.”39

De forma geral o arquétipo materno está relacionado a criatividade, ao acolher, fertilizar, sustentar, amar, e também ao secreto, obscuro, ao veneno e a morte. O arquétipo materno não está constelado somente quando uma mulher concebe ou adota um bebê. A influência dela se faz presente quando homens e mulheres vivenciam o fertilizar, nutrir, acolher, devorar ou aprisionar. Se gesta idéias, se adota valores de vida, nutre-se sentimentos e pensamentos e também devora-se projeto de vida, envenena-se relações.

Na casa lar, como em todos as relações, ambos os aspectos do arquétipo da mãe se fazem presente.

O lado acolhedor e afetivo fica evidente na figura da mãe social e no grupo de pessoas que acompanham o desenvolvimento da criança.

Parece que o fato de saber que aquela criança não dispõe de figura materna literal constela no adulto seu próprio complexo materno. Este adulto então, ou acolhe aquela criança "sem mãe" ou se afasta definitivamente da situação por não suportar a agonia que lhe causa encarar essa criança "abandonada".

Os adultos que optam por trabalham na casa lar como funcionários ou voluntários tendem a estabelecer um relacionamento mais afetivo com as crianças, como se tentassem suprir algo que a mãe deveria estar oferecendo, como segurança, limites e amor.

A constelação desse arquétipo nessas pessoas possibilita à criança contato com o lado bom da mãe, com o carinho autêntico, com a confiança, com o sentimento de ser aceito integralmente.

É comum que profissionais como professores, médicos, psicólogos ou mesmo os vizinhos da casa e os voluntários em geral vivenciem experiências de vinculação muito profunda com essas crianças.

São várias pessoas com os complexos mais antagônicos possíveis tentando ocupar o lugar teoricamente vazio da mãe na vida da criança. Embora ninguém assuma realmente esse lugar para si, e nem é esse o objetivo.

A questão aqui é discutir se essas relações saudáveis que a criança estabelece tanto com a mãe social quanto com os demais freqüentadores da casa podem auxiliá-la a construir uma imagem de mãe adequada.

O que se observa é que as crianças que tiveram uma relação com a mãe biológica ou com uma figura substituta por um tempo maior antes de serem abrigadas apresentam uma capacidade grande de adaptação a situação da casa lar. Estas se recusam a ver a mãe social como substituta da mãe, estão sempre afirmando que “ela não é a mãe”. A ausência da mãe é percebida, mas não se verifica a necessidade de substituí-la literalmente. É como se internamente a mãe estivesse presente. Não há necessidade de colocar alguém em seu lugar do lado de fora. Uma criança com esse perfil afirmou que quando se olha no espelho, às vezes vê sua mãe: “é como se metade do rosto fosse meu e a outra metade fosse ela”.Isso lhe causa uma sensação agradável.

Por outro lado crianças abrigadas recém nascidas que nunca conviveram com mães ou com figuras substitutas além de funcionários de abrigos também parecem conceber uma imagem de mãe. Facilmente desenvolvem laços afetivos com a mãe social e mesmo sabendo que “não é a mãe” insistem em chamá-la de mãe.Aqui existe ainda a necessidade de projetar a imagem em uma figura literal, que possibilite que a relação mãe-filho se estabeleça, como se a criança precisasse se reconhecer como filha, como um lado de uma relação.

Uma menina, que conviveu poucos anos com a família de origem diz que reza todas as noites para sua mãe protegê-la. Ela não lembra da mãe pessoal, sabe apenas seu nome, não tem foto, não lembra da cor dos cabelos da mãe, sua altura ou voz. Que mãe é essa que lhe protege? Provavelmente a mãe interna que foi sendo personificada a partir das relações que essa menina estabeleceu com figura maternais (homens, mulheres e as próprias instituições que lhe acolheram, protegeram e nutriram até então).

Jung fala sobre a capacidade da psique de compensar a separação da mãe.

“Se o inconsciente conseguir interpretar o arquétipo constelado de maneira apropriada, ocorre uma transformação compatível com a vida. Assim a forma de relacionamento mais importante da infância, isto é, a relação com a mãe, é compensada pelo arquétipo da mãe quando a separação da infância se impõe.”40

Como todo arquétipo apresenta aspectos diversificados, a mãe não é só bondade, ela também pode devorar e aprisionar.

Na casa lar, essa característica aparece principalmente, na forma de ataques a privacidade da criança. Várias pessoas, por estarem tomadas pelo complexo materno, se acham detentoras do poder da mãe e invadem a vida da criança. Sua casa, seu quarto e sua história são constantemente ameaçados por essa invasão. Costuma-se discutir o problema de cada criança com o grande grupo de pessoas, o que acaba tornando a casa lar uma grande tribo. Assim se alguém sofre de enurese, escabiose, rói unhas, se masturba, ou menstrua pela primeira vez, todos ficam sabendo: o motorista, a empregada, o pediatra, o psicólogo, a professora, a diretora e pelo menos mais 20 pessoas.

Pode-se pensar que é como se houvessem vinte mães, mas ao mesmo tempo nenhuma. Também o amor excessivo devora, por não deixar que as crianças cresçam e adquiriam o controle sob suas vidas.

A instituição enquanto “mãe” pode ser tornar uma devoradora quando não prepara para a vida, boicota tentativas de aproximação da família de origem, não cumpre sua função de promotora da reintegração familiar ou encaminhamento para colocação em família substituta, apodera-se da criança tomando posse de sua vidas e sentenciando-as ao lugar de eternas “crianças da casa lar”.Impede o desligamento por achar que ninguém pode oferecer o que o abrigo oferece. Ensinam assim que o mundo nunca será tão bom quando a casa lar, sufocando-as de “compreensão”.

“ O significado concreto primitivo de “comprendre”, “compreender” é cingir com as mãos ou os braços e segurar. É isso que a mãe faz com a criança que procura por auxílio ou proteção e o que prende a criança a mãe. Mas quanto mais ela cresce, tanto mais aumenta o perigo de que este tipo de “compreensão” leve a um impedimento do desenvolvimento natural. Ao invés de adaptar-se as novas condições do meio ambiente, a libido da criança regride para a proteção e as facilidades dos braços maternos e perde assim o contato com o tempo.”41

Aqui novamente o limiar entre veneno e remédio aparece. Até que ponto a casa lar devora ou nutre? Talvez as chances de que a mãe devoradora ou a bondosa prevaleça sejam as mesmas de qualquer grupo familiar. Entretanto na casa lar observa-se um diferencial que não se verifica nas famílias convencionais, que é justamente a presença de uma mãe “alugada”, remunerada para exercer a função: a mãe social.





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