Tremor de terra



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TREMOR DE TERRA

“..mas eu vou te dizer: gente é uma coisa muito triste. Muito triste”(“Chuva”)



I – O Autor e a Obra

  • Obra inaugural do autor(1967)

  • Mineiro nascido em Ituiutaba, Minas Gerais

  • As 20 narrativas que o compõem não apresentam tempo nem espaço definidos: não há datas tampouco nomes de lugares ou cidades em qualquer uma das histórias.

  • São essencialmente urbanas e contemporâneas à sua publicação.

  • Com pontos de vista ora em primeira pessoa, ora em terceira, os contos desse volume, de acordo com Fábio Lucas, “trazem profunda significação filosófica, apanham o homem mutilado pela sua incapacidade de comunicar-se. Os seres não transmitem a sua essência e sofrem, arruínam-se. A palavra torna-se um veículo imperfeito e enganador”

  • Revela, ao mesmo tempo, simplicidade e profundidade, linhas que marcam o estilo de seu autor.

  • As narrativas são estruturadas em torno de frases simples, com recorrentes recortes coloquiais, às vezes com inserções de termos chulos.

  • Em contos como “Velório”, a linguagem de baixo calão não apenas deixa de ser chocante como é indispensável.

  • Nesse conto, verifica-se a simplicidade de personagens, que, durante o velório na casa do morto, tomam pinga, cerveja e comem queijo sem qualquer cerimônia, enquanto jogam baralho para passar a noite à espera da manhã, quando o amigo falecido será enterrado. Bebem, jogam e se despencam aos poucos pelos cantos da cozinha e até no banheiro. Resultado: amanhece, o enterro sai, e eles não vêem nada:

“Sim senhor; a gente faz aquilo tudo, espera aquele tempo todo, e ainda fazem o enterro sem a gente; sim senhor. Fiquei puto.

— Foda-se.

— O quê?

Fui no banheiro mijar. Bastião estava lá deitado, encostado no vaso, dormindo de boca aberta Cara nojento. Tive vontade de dar uma mijada na cabeça dele pra acabar com suas caspas”.



  • As linguagens coloquial e chula, portanto, estão ligadas à simplicidade de seres que contrariam talvez a noção real de velório, de acordo com os costumes de uma sociedade dita civilizada, nesse conto de lances marcados por irreverência, humor e ironia.

  • Há de se salientar que o uso freqüente do diálogo é um componente primordial, que se torna particularmente notável justamente pela espontaneidade com que ele reproduz tons de conversações, projetando imagens humanas, sem recorrer a nenhum truque de composição, a nenhum tipo de artificialidade.

  • Uso do discurso indireto livre

  • A força expressiva dos contos vem de sua habilidade em lidar com esse gênero literário. O conto caracteriza-se pela brevidade narrativa, na qual “não se deve sobrar nada, assim como no romance (longo) não deve faltar nada”

  • No conto (como na fotografia) o que importa é a seleção do tema, explorando a sensibilidade e a inteligência do leitor

  • Dois homens” é “quase uma foto”, um instantâneo, um flash extraído do cotidiano, em que dois homens estão sentados à mesa de um bar; um mais velho, outro mais moço. Os dois apresentam traços fisionômicos comuns, devendo ser pai e filho. Ao acabarem de comer, palitam os dentes e caem no silêncio, olhando o vazio, o nada. Ficam ali assim (pensando?), envoltos no ambiente de barulho e conversas variadas do bar, mais parecendo

“dois objetos sem nenhuma relação entre si e com o mundo em redor, e que se acham ali por mero acaso, e que serão recolhidos com a garrafa, os copos e os pratinhos pelas mãos ágeis do garçom, que não vendo neles utilidade os lançará ao lixo”.

  • Tremor de terra é um flagrante da vida tomado pelo contista. Uma “fotografia em profundidade, que busca revelar/entender os desvãos da alma e do comportamento humano.

  • Evidenciando economia e apuro, as narrativas apresentam uma tendência predominante para as situações de exceção vividas pelas suas personagens.

  • Ser e aparência, entrevistos no cotidiano simples, rotineiro, constituem-lhes as tônicas, num binômio que mostra as surpresas da vida, os dramas encobertos pela exterioridade de sinais com diverso sentido, pela incomunicabilidade ou pelos descaminhos existenciais.

  • Segundo Massaud Moisés, Luiz Vilela pratica a arte da insinuação, do implícito, e não só em relação ao leitor, mais ainda: entre os seus protagonistas.

  • Respira-se em seus contos um ar depressivo, marcado pela introspecção e pelo abandono, em situações-limite, nas quais a fluência da linguagem faz ressaltar o hábil manejo do diálogo, acentuando uma atmosfera por vezes patética e mesmo trágica, como se pode constatar em “Vazio”

  • Nesse conto, a personagem Paulo chega em casa fora de sua hora habitual, para surpresa de sua mulher, que se inquieta, buscando uma explicação para a expressão de cansaço, esgotamento ou aborrecimento do marido.

  • Este não lhe dá qualquer resposta convincente, afirmando apenas, laconicamente, que não vai mais trabalhar.

“Esperou a resposta nos olhos dele, na boca talvez, talvez um sorriso, mas a boca não se mexeu, e os olhos parados nela, mas não para ela ou para alguma coisa nela, nem para algo invisível que estando nele, lembrança ou pensamento obsessivo, como que estivesse entre ele e ela, e nem também esse olhar para dentro, de quem medita, tão freqüente nele: (...)a boca muda, mas não a mudez de quem está abafando palavras ou silêncio: a mudez de quem tivesse desistido da palavra e do silêncio, pois aquela mudez era mudez de nada.”



  • Mas por quê, quer saber a mulher, que insiste, persiste e se exaspera na tentativa de um diálogo. Paulo estava no “vazio”, não era a conversa que iria resolver o problema.

  • A mulher desespera-se, querendo uma resposta objetiva, gritando-lhe: “FALE”, mas Paulo continuava imóvel, impassível.

  • A sua necessidade de se isolar e de não se comunicar naquele instante provoca, gratuitamente, uma tragédia: a mulher toma um jarro em suas mãos, atingindo o marido “de cheio no rosto; ele não chegou a erguer-se: teve um estremecimento e a cabeça tombou. A mulher viu o sangue na fronte e, antes de qualquer gesto, entendeu que o havia matado”.

  • Tremor de terra apresenta o ser humano em meio aos seus problemas, suas preocupações rotineiras, nas quais o distanciamento emotivo se sobrepõe ao sentimentalismo piegas.

  • O narrador quase sempre, limita-se a registrar os fatos de uma maneira objetiva, dinâmica e abrangente.

  • Entretanto, esse distanciamento propicia a nós, leitores, sentir mais de perto o drama das personagens, envolvidas em seus conflitos existenciais, pondo-nos atentos para o problema da falta de solidariedade numa sociedade desumanizada, característica que marca o clima de alguns contos como ‘Confissão’, ‘Por toda a vida’, Nosso dia’, ‘Solidão”.

  • Em “Confissão’, conto de abertura de Tremor de terra, não há, rigo- rosamente, a presença de um narrador.

  • Todo o texto é montado em forma de um diálogo entre um penitente e um confessor (padre) cujos nomes não são mencionados.

  • O diálogo entre ambos vai se tornando sugestivamente ambíguo à medida que o penitente vai relatando os fatos ocorridos entre ele e uma moça.

  • Exigindo detalhes acerca do acontecido, a voz inquisitiva do padre, ao buscar sondar o inconsciente do penitente na sua relação com o pecado, acaba, ironicamente, por desvelar os seus próprios desejos, ao mesmo tempo em que ele procura tirar proveito para si dessa confissão:

“— Já escutei mamãe dizendo que ela não procede bem.. Que ela não é mais moça...

— Entendo. Só sua mãe ou outras pessoas também dizem?

— Só escutei mamãe. Ela não gosta que eu vou lá...

— Sei... Faz muito bem, ela está zelando pela sua alma. Foi há muitos dias antes da segunda vez que aconteceu isso, ou foi perto, isso que você está me contando...

— Perto...

— Esses dias?

- E...

— Quer dizer que os pais dela ainda não voltaram?



- Não.

— Eles ficam muito tempo fora geralmente?”



  • As suspensões, os lapsos, a curiosidade do padre em relação à moça posicionam-no também como um homem comum, desejoso dos prazeres da carne.

  • Essa cumplicidade efetiva-se no desfecho do conto, na fala final do padre, uma vez que, em mais um “lapso”, ele, ao invés de aconselhar o penitente a pedir perdão, utiliza-se do plural, sentenciando:

“Pois vamos pedir perdão a Deus e a Virgem Santíssima pelos nossos pecados. . .“

  • Espécie de jogo de espelhos, a confissão de um reflete também a do outro.

  • Por toda a vida” retrata o encontro de João e Inês, que, na simplicidade e no sonho do início de uma nova vida, se casam sem terem uma boa condição financeira para isso, contrariando a mãe da noiva, que sentenciava:

“Sem dinheiro ninguém vale nada bole. E o dinheiro que manda”

  • Com o tempo, vêm os filhos, e a situação vai se tornando cada vez pior.

  • João passa a beber e a maldizer do patrão.

  • Entretanto, acontece uma reviravolta, pois ele recebe um aumento de salário e chega a se tornar gerente da firma para a qual trabalha.

  • Andando, agora, alinhado, chega sempre mais tarde em casa, por causa das reuniões no trabalho, o que faz acender uma chama de desconfiança em Inês.

  • Dando conta de si, ela percebe que o tempo passou.

  • Se antes o problema era a falta de dinheiro, agora era a falta de segurança.

“De manha sozinha no quarto, ela se comtempIou no espelho: magra.

— Magérrima — corrigiu-se.

Branca. Branquela. Anêmica. Eaqueles óculos — parecia uma velha. Como seria a outra? Cheia, macia, perfumada... Ele a abraçaria, lhe diria palavras de amor, lhe daria beijos na despedida...”


  • Essa perda da emoção com os anos de convivência é o motivo condutor de “Nosso dia”, que retrata o desgaste, o tédio e a falta de comunicação gerados pelos anos de relacionamento entre marido e mulher.

  • A narrativa desenvolve-se em torno de um casal há dez anos juntos.

  • Dia de aniversário de casamento, o que faz com que a mulher tente recordar e, quem sabe?, reviver, liricamente, os primeiros momentos da relação.

  • Entretanto, ocorre a quebra do encanto: enquanto a mulher se atira ao sonho, ao clima emotivo da ocasião, ele, em decorrência talvez da contami- nação da vida prática e da rotina, perdera toda a sensibilidade, isolando-se do mundo de sonhos em que a mulher ainda se situa.

  • Após a mulher salientar que o marido não tem sensibilidade, não sabe o que é ternura e o que é carinho, e de dizer que fez o que fez (comprou lírios para enfeitar a casa, pôs uma toalha nova na mesa), esperando pelo menos uma palavra sobre a data, ele pergunta: Que mais? Estou esperando”

  • Já que a mulher não tinha mais o que dizer, ele simplesmente pede que lhe deixe em paz, arrota e continua a comer.

  • De modo geral, as narrativas de Tremor de terra giram em torno do drama da solidão humana, em que se evidencia o relacionamento entre os homens, conduzido, quase sempre, pela impossibilidade de convivência e de comunicação.

  • Em “Solidão”, a personagem Rita, na sua necessidade de apoio, durante uma noite chuvosa, vai visitar um casal vizinho, Jorge e Odete.

  • A conversa, que se inicia em torno de amenidades, acaba por atingir o problema da solidão e suas conseqüências como a angústia e o suicídio.

  • Desviando-se do assunto, Rita começa a falar da coragem de seu irmão, chamado Roberto.

  • Contrapondo-se a isso, Odete acentua o medo do marido, o que torna a situação difícil, gerando um ato agressivo por parte de Jorge, que desfere um tapa na mulher.

  • Quando Rita se retira, percebe-se o cinismo de seu comportamento, pois não havia irmão algum, inventara toda a história apenas para se distrair.

  • Entretanto, sozinha, de volta ao seu quarto, não consegue dormir: à chuva lá fora se associa uma trovoada de termos em sua mente como solidão, angústia, medo, suicídio:

“(...)as estatísticas mostram, um psiquiatra americano, os consultórios de psiquiatria, amor, nosso próximo, Nenhum homem é uma ilha, o caso daquela moça, solidão, suicídio, solidão, suicídio, solidão suicídio solidão suicídio.

Sentada na cama, no escuro, cobrindo os ouvidos com as mãos, e repetia; meu Deus, fazei com que essa chuva pare, fazei com que essa chuva pare, fazei com que essa chuva pare”.



  • Um homem no seu quarto, tomando vinho e conversando com um cachorro numa noite chuvosa é o que se verifica em “Chuva”

  • O protagonista, diante do cão, questiona sobre a tristeza e a solidão humanas, afirmando que “gente é uma coisa muito triste”

  • Homem e cão encontram-se isolados pela chuva e pela solidão.

“Claro que eu gosto duma bebida, mas não é isso. É essa necessidade que a gente sente, essa coisa que leva a gente a beber. Na hora é bom. Por exemplo: eu estou achando bom estar aqui agora bebendo. Mas amanhã vou ficar triste. É isso. Não, não é bem isso. Não é exatamente isso. O que eu quero dizer é o fato de eu estar bebendo aqui agora, eu sozinho nesse quarto bebendo: isso não é alegre. Não é alegre. Há coisas alegres, mas isso não é.”

  • Assim, o vinho torna-se válvula de escape, forma de se evadir da tristeza e da solidão.

  • Já em “O violino”, a evasão da personagem Lázara é constatada em seus afazeres de costureira.

  • Entretanto, a presença de um violino encontrado no porão da casa pelo sobrinho traz-lhe a perspectiva de um retorno ao passado.

  • O instrumento representava a mocidade, a nostalgia de uma vida envolta de sonhos não realizados.

  • Vendo-se com possibilidades de, finalmente, se realizar como concertista, Lázara se lança, novamente, à aventura musical, apoiada pelo sobrinho, agora transformado em seu secretário.

  • Porém, vem a decepção, embora ainda se percebesse a habilidade da violinista, o sucesso não acontece.

  • Dominada pela frustração, Lázara busca novamente, na costura, um modo de se evadir.

“Então aquilo acabara mesmo, acabara de tal modo que não ficara nada, absolutamente nada? Acabara. Acabara tudo. A moça a deixara, a paixão a deixara, a felicidade a deixara, o sonho a deixara, ela estava morta de novo, minha tia estava morta.”

  • Em “Meu amigo”, o narrador, que vem de uma cidade interiorana para estudar na capital, não se adapta ao tédio da cidade grande, transformando a biblioteca pública em sua ilha.

  • A freqüência à biblioteca possibilita-lhe a afinidade com um dos bibliotecários.

  • Fernando conta-lhe que criava pombos brancos.

“ Brancos como a inocência”, ele disse. Eu levantava com o nascer do sol e is v~e-los. Eles voavam em bandos no céu, muito azul àquela hora. Eu então deitava na grama, ainda de orvalho, e ficando eles voarem.(...), eu tinha a impressão de que estava no melhor lugar do mundo, que ali era o Paraíso.”

  • Entretanto, no colégio, fazem-se insinuações sobre a homossexualidade desse bibliotecário, Fernando, chamado pejorativamente de “Nandinho” pelos colegas de escola do narrador.

  • O fato provoca a suspensão de uma pretensa amizade.

  • Nada fica comprovado acerca da homossexualidade de Fernando.

  • Dois anos mais tarde, o narrador o reenontra num bar, trocam algumas palavras e se despedem.

  • Mais uma vez, o que se percebe é a falha de comunicação e compreensão entre as pessoas.

  • Além disso, verifica-se o quanto a opinião alheia faz-se predominar sobre a do próprio individuo, inibindo-o do encontro com o outro.

  • Em “Ninguém” é retratado o impacto do homem frente à realidade de ser “ninguém”.

  • Sozinho, em casa, numa noite de sábado, tendo por companheiros “vinte cigarros”, o narrador não percebe ruídos, não há presença: as coisas, os insetos participam do seu silêncio.

  • O texto sugere ausência, distância, vazio, pequenez, fragilidade, loucura e até mesmo morte.

“Não havia ninguém para me ouvir. Eu podia rolar no chão, ficar nu, arrancar os cabelos, gemer, chorar, soluçar, perder a fala, não havia ninguém para me ver. Ninguém para me ouvir. Não havia ninguém. Eu podia até morrer.”

  • Após uma noite distante do mundo, no dia seguinte, ironicamente, vêm os cumprimentos das pessoas, que indagam: “Tudo bem?”, “Tudo azul?” e a formalidade da mesma resposta: sim, tudo azul.

  • A crítica às formalidades, aos convencionalismos também pode ser observada em “Enquanto dura a festa”.

  • A “festa’ aqui, ironicamente, é um velório.

  • O narrador, filho do morto, explora o ridículo de cumprimentos como o tradicional “Meus sentidos pêsames” aludindo ao fato de um sujeito encabulado que se distrai e diz “Meus parabéns”.

  • No fundo, o narrador percebe que o cenário do velório é marcado pela presença de pessoas que representam, que fingem diante do drama da morte, apenas cumprindo formalidades, para a manutenção de uma imagem social.

“Ser bom com os vivos dá muito trabalho; amanhã ele estará morto e iremos chorar sobre o seu cadáver-assim é mais fácil.”

  • Se no conto anterior as personagens intentam forjar uma imagem diante de uma realidade cotidiana, em “Imagem’ se observa a intensa vontade do narrador em saber qual é a sua verdadeira imagem, levando-o a uma busca de si mesmo, em meio às instabilidades, às constantes mudanças sofridas durante a sua vida.

  • Diante do espelho, do espelho de si mesmo, dos outros, da vida, enfim, ele anseia por uma explicação sobre o significado de seu próprio “eu”.

  • Escrito em forma de diário, “Um dia igual aos outros” expõe a angústia do narrador em perceber que o que escreve todos os dias é pura repetição.

  • Vendo-se envolvido com seus colegas de trabalho, acha-se, num primeiro momento, capaz de resolver os problemas de cada um deles, principalmente o de Canarinho, que constantemente chora no mictório com a porta aberta, fato que já havia se tornado folclore na seção.

  • O narrador quer também ajudar Romão, que tem mania de ser locomotiva; intriga-se com os peidos de Canguçu, e muito mais com o ar de superioridade de Haroldo, o maníaco da psicologia.

  • Todos ali não se entendem, não se encontram de fato.

  • O narrador se envolve com tudo isso e sofre, expondo, no seu diário, as mazelas do ser humano.

  • Diante da incapacidade e da impotência do ser, conclui que a única saída é deixar que as pessoas e os problemas continuem vivendo juntos: pois:

“Bolas, dane-se. Isso mesmo: dane-se. Que tenho eu afinal com a vida de Canarinho? Que tenho eu com a vida de todo mundo? Querem matar-se? Matem-se. (...) E o serviço continua, a seção continua, a vida continua E o folclore do mundo, como diria João. E dane-se, dane-se.”

  • O conto que dá título à coletânea , Tremor de terra, tem como tema a paixão violenta do narrador pela professora, casada com um cônsul, mãe, dona de casa e mais velha do que ele.

  • Essa paixão é ausente de desejo sexual: “A idéia de sexo com relação a ela só servia para atrapalhar, para estragar.”

  • Esse louco amor não correspondido não era bem do tipo platônico, era uma “coisa mais profunda, dolorosa, desesperada, violenta, única, irremediável absoluta (,..) Não era amor platônico.” (...) Seria algo para se viver um só momento, um momento em que estaria tudo o que ele pensara, sentira e sonhara: “um momento tão profundo, tão vasto, tão absoluto, que depois dele só poderia haver o suicídio ou a resignação total. Seria algo maravilhoso e terrível — como um tremor de terra”.

  • Reconhecendo a impossibilidade de estar com a professora, após segui-la pelas ruas num dia chuvoso, acaba se achando num meretrício com uma mulher beijando-o e chamando-o de “amorzinho”, ao que ele retruca: “quê que é amor? Essa esfregação, essa mexeção, essa afobação? (...) me diga, me diga quê que é amor?”

  • O que sente é como se estivesse morrendo, não aceita e sai correndo do quarto da prostituta.

  • Depois devagar debaixo de chuva pela rua deserta, conclui:

“vou para casa dormir (...) deitar, rezar uma ave-maria, e amanhã vou arranjar uma namorada. Sônia ou Lúcia ou Marta ou Beatriz ou Mansa, e vou chamar e/a de meu bem e vou dar presentes pra ela e ela vai dar presentes pra mim e vamos ao cinema e vamos beijar e vamos ficar noivos e casar e ter filhos e engordar e envelhecer e ter netos e morrer e ser enterrados na terra que nos sela leve”.

  • Vencido pela realidade dos fatos, o narrador sucumbe ao seu ideal, aos seus sonhos. O tremor acontece apenas no plano ideal e não em sua realidade objetiva. A frustração gerada pela sua não realização é compensada pela consciência do destino que é comum a (quase) todos.

  • Dois contos de Tremor de terra podem ser associados ao fantástico: “O buraco” e “O fantasma”.

  • Em “O buraco”, o narrador, desde os três anos de idade, ligou-se a um buraco no quintal de sua casa.

  • Junto com o protagonista, o buraco foi crescendo, tornando-se o seu refúgio, o seu amigo, o seu próprio eu: “De qualquer modo uma coisa era certa: aquele buraco existia e era meu, inseparavelmente meu, tão meu que era como se eu estivesse não ali fora mas dentro de mim.”

  • Aos poucos, o narrador vai se transformando em um tatu, chegando a caminhar de quatro, ter unhas enormes e o rosto (agora focinho) alongado.

  • Distanciando-se do mundo da superfície, perde a noiva, o contato com os amigos e desliga-se da mãe.

  • Embora sejam descritas as alterações físicas da personagem, nesse conto, de contornos fantásticos, o que mais importa é o acontecimento em si, Como avalia Aldemaro Taranto Goulart,

“a obra fantástica privilegia o acontecimento em si e não o comportamento das personagens. A narrativa fantástica trata do mesmo modo o natural e o sobrenatural, sem se preocupar com o exame das condições do sujeito que aparece nela. E esse tratamento que torna a narrativa de Kafka fantástica. ‘Em A metamorfose, a questão colocada não é ‘Em que me tornei?’, mas ‘Que me aconteceu?’.

  • E notável que a consciência de si do homem-inseto tenha permanecido intacta e que apenas lhe importe o enigma do acontecimento”

  • De maneira semelhante, observa-se que, em “O buraco”, logo no início, o narrador afirma não saber “como nem quando começou o buraco”

  • A lembrança mais antiga que ele tem de si coincide com a mais antiga que ele tem do buraco. A maneira do protagonista da obra de Kafka, o protagonista de Luiz Vilela também mantém a sua consciência intacta, pois sabe de sua condição, de sua mutação.

  • O buraco e as transformações da personagem, na verdade, servem como espécie de alegoria daqueles que não se adaptam à convivência humana, às formalidades sociais

  • Nessa perspectiva, a “irrealidade primeira” liga-se ao buraco e às sucessivas mutações da personagem; enquanto a solidão, o isolamento, a transformação e o encontro do ser consigo mesmo; o seu retorno ao que é primitivo e disforme, mas íntegro e isento das afetações sociais e humanas projeta-se como um “realismo segundo”.

  • De maneira análoga, pode-se analisar “O fantasma”, em que irrealidade e realidade se misturam na experiência ímpar do narrador; que, vencendo o medo, retorna à casa do tio, afastada da cidade, abandonada e assombrada por um homem que ali fora assassinado por causa de um diamante.

  • Deitado, após a cansativa viagem, o narrador escuta uma voz perguntando “Quede meu diamante... quede meu diamante”

  • Levanta-se e se encontra com um fantasma que se assusta com o fato de o narrador não ter se assustado com ele.

  • Os dois começam uma conversa.

  • O fantasma se surpreende com certas notícias do mundo, como a ida do homem à lua, as bombas e a guerra, passando a ter medo da realidade.

  • Fora da vida, o fantasmagórico observa que, ironicamente, o mundo se tornou pura monstruosidade.

  • Afinal, nesse mundo marcado pelo terror o que ele poderia aterrorizar? No desfecho, o fantasma ainda se vê esperançoso por existirem crianças, pois “Crianças têm medo de fantasmas, enquanto houver alguém que tenha medo de fantasmas ainda há esperança”

  • Mas ele quer saber se as crianças ainda têm medo de fantasma e, diante da hesitação do narrador, ele ceticamente afirma que “Num mundo como esse não será nada de estranhar que amanhã as crianças não sejam mais crianças” e indaga se ele não seria o últimos dos fantasmas, calando-se em seguida.

  • O narrador tem sono e se retira. O fantasma vai cada vez mais se tornando transparente até que desaparece por completo.

  • Nesse conto, que a irrealidade vai desaparecendo, cedendo lugar a uma realidade que, embora “natural’ deveria ser considerada sobrenatural: a iminência das ações bélicas, por exemplo, é um fantasma que estará eternamente atormentando a humanidade.

  • Fora do fantástico, mas numa ambientação de fanatismo, a narrativa de “Espetáculo de fé” aborda a visita apoteótica de N. S. Aparecida, a padroeira do Brasil, a uma cidade, destacando o espetacular “espírito de fé”, a presença dos religiosos, a força extraordinária do acontecimento: o desfile, as milhares de pessoas, os carros, a cobertura da mídia, os vivas e o entusiasmo da massa.

  • Em tudo o conto, num primeiro momento, parece apresentar um ar solene.

“(...)sentou-se na cama e mandou entrar: a empregada entrou, com a bandeja na mão, caminhou em direção à cama, e colocando-a sobre a mesinha perguntou sorrindo se lê estava melhor, ao que ele respondeu que sim- e então tornou-se repentinamente sério, vislumbrando a nudez da empregada no gesto de ele curvar-se sobre a mesinha, sério e nervoso, a empregada não percebendo nada(...)”

  • Entretanto, no final, o narrador anota que a passagem de N. S. Aparecida trouxe como saldo a morte do Padre Dimas, na hora da missa, o roubo de uma bolsa com cem mil cruzeiros, o desaparecimento de um menino e uma tentativa de estupro.

  • De certa forma, o clima de espetáculo também pode ser entrevisto em “Júri”, narrativa que apresenta um único período, o que nos leva a uma leitura ininterrupta, sugerindo, com isso, a sensação de simultaneísmo.

  • Nesse conto, é apresentado o julgamento de um homem que matou uma mulher com dez facadas e depois decepou-lhe a cabeça.

  • A forma como são caracterizados os comportamentos do juiz, do promotor, dos jurados e da assistência evidencia o clima de fragilidade, de incapacidade do ser humano frente à situação.

  • O calor e a sonolência intensificam a apatia dos presentes.

  • A tudo isso é lançado um olhar crítico, pessimista e cético de um dos jurados, que condena a justiça, a encenação do julgamento, externando seu nojo a tudo aquilo, questionando o mérito da justiça humana: “porque o homem mata e então outros homens se reúnem em salas para dar o espetáculo que outros homens vêm ver, e no fim o homem é condenado ou não, enquanto outros homens continuam matando outros homens,..”

  • Também estruturado em um único período, “Deus sabe o que faz” retrata o destino de três irmãos marcadas pelo infortúnio.

  • O mais velho se torna alcoólatra e criminoso, vindo a ser preso.

  • A menina cresce, casa-se, trai o marido e entra para o mundo da prostituição.

  • Mas Deus sabe o que faz, pois o mais novo, cego de nascença, torna-se um gênio do violão. Casa-se com uma linda moça. Vivem felizes.

  • Mas Deus sabe o que faz, pois, embora a irmã continue na prostituição, o mais velho sai da cadeia, ainda “perfeito e bonitão” e vem a conhecer a mulher do cego, por quem se apaixona.

  • O irmão traído passou a “tocar na maior altura para não ouvir os beijos dos dois na sala — até que as cordas se rebentaram, até que rebentou o ouvido com um tiro. “

  • Nesse conto, a ironia e a irreverência se tornam patentes no próprio refrão já anunciado pelo título, “Deus sabe o que faz”, uma vez que a narrativa, desvinculando-se de qualquer maniqueísmo, irá desmistificar a lei da compensação divina.

  • No desfecho, em que a deficiência de caráter acaba triunfando, há a quebra de um sentido moralista, obstruindo o que poderia dar ao texto .a configuração de uma parábola.

  • Mais do que isso, a narrativa mostra que, se existe a Providência, esta não se encontra sob o controle de mãos divinas, mas humanas.

  • Dessa forma, tanto o justo quanto a justiça, impotentes, se irmanam, concretamente, na mesma cegueira.


II – Comentários Finais

  • Cabe reiterar que, em Tremor de terra, predomina uma atmosfera dramática, marcada pelo conflito existencial, pelas falas suspensas, nas quais as palavras não conseguem traduzir o essencial para a manutenção da comunicabitidade entre as pessoas.

  • O desencontro, portanto, a frustração amorosa, o desencanto da vida, a angústia, o sentimento recalcado, a intolerância, os medos e os receios que habitam os momentos de indecisão e a decepção com a própria existência compõem, como quadro aterrador, as principais cenas dessa obra soturna sobre os constantes abalos e t(r)emores do ser humano, terráqueo preso a “um sistema feito para isolar [ ser isolado]! de tudo quanto for órbita de sonho! isolar tudo quanto for galáxia de esperança” Deus sabe o que faz!!





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