Transdisciplinaridade e cogniçÃo humberto Maturana



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In: CETRANS (1ª. Edição da UNESCO) Educação e Transdisciplinaridade. São Paulo: TRIOM, 1999.
TRANSDISCIPLINARIDADE E COGNIÇÃO*

Humberto Maturana**

* 1º Encontro Catalisador do CETRANS - Escola do Futuro - USP, Itatiba, São Paulo - Brasil: abril de

1999. Transcrito, traduzido e editorado a partir da gravação feita na referida data.

** Biólogo chileno, professor titular da Faculdade de Ciências da Universidade do Chile, professor na

Universidade Metropolitana de Ciências da Educação e no Instituto de Terapia Familiar de Santiago.

Peço desculpas por falar em. Infelizmente não posso falar em

português, mas a vida é como é. Uma das boas coisas da

transdisciplinaridade é que não podemos ser acusados de pisar onde

não devemos pisar quando falamos de coisas que não pertencem à

nossa própria disciplina. Assim, estaremos cruzando fronteiras livremente,

sem sermos acusados de transgressão, apesar de podermos ser

acusados de estar enganados, o que é diferente.

Vou lhes fazer um convite para uma reflexão sobre as condições

da constituição dos seres humanos, de modo que talvez possamos

ter um olhar inspirador sobre o por quê de sermos como somos,

com as preocupações que trazem a este evento: preocupações com o

real, o virtual, o feminino, o masculino, o lunar, o solar, os direitos

humanos, os valores, a ética, a poiésis, a personalidade, a objetividade,

enfim, tudo que foi abordado ontem e será abordado hoje aqui.

Farei essa reflexão a partir do tema saber.

O que é saber? Há várias maneiras de nos aproximarmos desse

tema, mas como não terei muito tempo, escolhi fazê-lo por meio de

uma comparação entre um sistema vivo e um robô.

Vivemos em um mundo onde há muitos robôs. Eles estão em

toda parte. Os vemos nos cinemas, nos textos de ficção científica;

portanto, eles não nos são estranhos. Eles foram feitos, fabricados.

Por vezes, pensamos que essas entidades são, na verdade, parte de

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nossa vida cotidiana e o serão mais e mais. Talvez se assemelharão

cada vez mais conosco.

Estritamente falando, não existe nada que possamos pensar e

não possamos fazer, desde que respeitemos as coerências operacionais

do campo no qual as pensamos. Bem, isso é terrível e magnífico ao

mesmo tempo. Poderemos fazer robôs que falem como falamos? Teoricamente,

sim. Se compreendermos quais são as coerências da linguagem,

poderemos fazer robôs com linguagem.

Mas qual a diferença entre o robô e o sistema vivo? Para essa

comparação poderíamos usar qualquer robô, mas vamos tomar como

exemplo um robô bem simples, de uma fábrica de carros, que está

frente a uma máquina e a uma esteira rolante. Ele pega uma peça,

depois outra e as conecta ou parafusa, ou faz qualquer outra coisa,

depois deposita o produto na esteira, que fica ali até que a esteira

rolante traga mais duas peças para ele repetir a operação.

Se perguntarmos ao engenheiro como o robô faz isso, ele nos

dirá que o robô sabe como fazê-lo, que tem sensores, tem afectores.

Assim, ele vai usar um discurso sobre o saber do robô. O robô sabe.

Nós não ficaremos surpresos, porque sabemos que isso é uma metáfora.

Ela faz sentido, mas, na verdade, não é bem uma metáfora; é algo

que chamo de nisófora, é um caso. Mas, num sentido, o saber do robô

é um caso do saber dos sistemas vivos. Sabemos que o robô sabe

porque ele atua adequadamente nas circunstâncias em que ele está

operando.

Mas se tomarmos os sistemas vivos, qualquer que ele seja, por

exemplo, um peixe em um tanque: ele nada, respira, come. Ele sabe

como fazer isso. Como sabemos que o peixe sabe como fazer isso?

Porque ele o faz adequadamente. Se tirarmos o peixe fora do tanque e

o colocarmos sobre uma mesa, ele morre. Ele não sabe como fazer e

morre. Se tiramos o robô da relação com a esteira de transmissão e o

colocamos em outro lugar, ele não vai funcionar adequadamente, porque

ele não sabe como funcionar adequadamente.

Qual a diferença? A diferença é histórica. O robô chega sem

história. Isto significa que ele chega através de um pacote de informação

num tempo seqüencial. Mesmo que conheçamos o engenheiro, o

projetista, e saibamos que eles possam ter levado um mês, um ano ou

dois para desenhá-lo, o robô chega num tempo seqüencial, tal como

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está: quando está completo, lá está o robô.

Desenhamos o robô e as circunstâncias nas quais ele irá operar.

Assim é, num tempo seqüencial. Mas os sistemas vivos são sistemas

históricos. Eles surgem na história. O que isso significa? Qual a diferença

entre os sistemas vivos e o robô? Ambos são sistemas

moleculares: são feitos de moléculas. Assim, no robô, essas moléculas

se subdividem conjuntamente, conectam-se conjuntamente para

formar um pedaço particular, mas trata-se de um sistema molecular.

O sistema vivo também é um sistema molecular. Possui diferentes

tipos de moléculas, conectadas umas às outras de uma maneira diferente,

de forma diferenciada, mas é um sistema molecular. Assim,

ambos, o robô e os sistemas vivos existem para a satisfação das coerências

da operação das moléculas. E isso é assertivamente indicado

ao dizermos que eles existem em um estado físico.

Os sistemas vivos são sistemas moleculares. Mas mesmo que

eles sejam sistemas moleculares, têm uma peculiaridade, que não fundamentarei,

mas chamarei a atenção de vocês para ela. Eles são sistemas

determinados por estruturas. Um sistema determinado pela estrutura

é um sistema tal que, seja o que for que se impõe a ele, não

especifica o que acontecerá nele, mas desencadeia uma mudança

determinante no sistema e não no agente impingidor. Isto é o que

sabemos.


Se temos um gravador, pressionamos o botão que diz “gravar”.

Se ele não funcionar, não vamos ao médico e dizemos: “Doutor, por

favor, examine meu dedo porque meu gravador não funciona.” Não

fazemos isso. Levamos o gravador a alguém que entende as estruturas

de gravadores e dizemos: “ Por favor, o senhor poderia ver meu gravador

e modificar a estrutura de forma que na próxima vez que eu

pressionar esse botão ele funcione.” Assim, não temos dificuldade

em cuidar de um gravador, que é um sistema determinado pela estrutura.

E o que acontece conosco? Será que o mesmo se passa? Se

temos uma dor aqui no fígado, vamos ao médico e lhe dizemos: “Doutor,

por favor, o senhor poderia examinar minha estrutura, e se possível

modificá-la para que essa dor não esteja mais aí?” Contudo, de

algum modo, não nos sentimos muito felizes quando somos chamados

de sistemas determinados pela estrutura. Não nos sentimos muito

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Educação e Transdisciplinaridade



felizes, porque temos perguntas sobre mudança e sobre outras dimensões

que parecem ser de uma natureza fugidia.

Esse robô do meu exemplo tem um comportamento apropriado.

Mas o comportamento apropriado é uma relação, é algo abstrato,

não é molecular; porém, se realiza através das moléculas, é uma relação.

E quando temos um comportamento apropriado...: “Oh! Esta criança

é tão inteligente: ela tem um comportamento tão apropriado às

circunstâncias”, estamos afirmando algo que diz respeito ao campo

psíquico, mas que é relação: um comportamento que é apropriado às

circunstâncias.

Nesse caso, como um robô pode ter um comportamento adequado

ao resultado de um desenho? Foi o desenho que o fez fazer

aquilo, porque o robô e as circunstâncias nas quais ele deveria operar

foram projetadas. Já os sistemas vivos surgem na história.

Agora, qual a peculiaridade desse “surgir na história”? Vamos

supor que em um dado momento recebemos uma herança e nos sentimos

muito ricos. Queremos comprar um par de sapatos, vamos a uma

loja, os experimentamos, eles são muito confortáveis, e então dizemos:

“Oh! Meu Deus, agora tenho dinheiro, e como não tenho certeza

quando vou tê-lo novamente, vou aproveitar para comprar dois pares.”

E compramos dois pares que servem muitíssimo bem, pois fomos

à melhor loja. E, assim, voltamos para casa, colocamos um par

de sapatos no cofre, para ficarem bem protegidos e os usaremos quando

o momento chegar. Então, começamos a usar o outro par de sapatos.

Usamos e usamos esse par de sapatos e eles são sempre muitíssimos

confortáveis, e no fim de um ano dizemos: “Puxa vida, esses

sapatos estão ficando tão velhos que vou usar o par novo que guardei

no cofre.” Vamos até o cofre, os experimentamos e eles não servem!

Eles são desconfortáveis! Experimentamos de novo os sapatos velhos

e eles servem perfeitamente!

Qual a diferença? A história. A diferença é a história! Tanto o

par de sapatos que usamos dia após dia como os nossos pés mudaram

juntos, congruentemente. Porque os nossos pés estão diferentes, após

um ano de uso desses sapatos. Se tivéssemos tirado uma foto de nossos

pés e após um ano a tirássemos novamente, não poderíamos

superpor essas fotos, porque nossos pés teriam mudado e os sapatos

também teriam mudado, mas ambos mudariam congruentemente, e

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Educação e Transdisciplinaridade



este é o segredo do caráter histórico dos sistemas vivos.

A congruência estrutural, a congruência dinâmica entre a estrutura

dos sistemas vivos e suas circunstâncias é o resultado de uma

história de mudanças estruturais coerentes dos sistemas vivos e do

meio no qual eles existem. E esta é a razão do porque, se tomarmos

um sistema vivo, seja ele qual for, fora de seu campo de coerência

histórica, do campo em que ele se encaixa, ele não se encaixará. Se

venho aqui e não falo português nem outra língua, mas apenas espanhol,

e venho a essa parte do mundo onde só se fala português, eu não

me encaixo. Ah!, mas talvez consigamos viver juntos por um determinado

tempo; talvez consigamos começar a nos entender a ponto de

podermos nos permitir mudar congruentemente, numa interação recorrente.

Permitimos que a história aconteça na conservação das nossas

interações.

Assim, os sistemas vivos surgiram em dado momento da história

e se conservaram por três, oito, bilhões de anos. Conservaram-se

por reprodução, por um processo contínuo de transformação, de

vivência e coerência com o meio. Assim, há um sistema vivo e um

meio: o sistema vivo e o meio mudam juntos, coerentemente, sem

nenhum esforço. Vocês serão amanhã um pouco diferentes do que são

hoje, e terão mudado congruentemente uns com os outros, sem esforço,

e eu também! E se houver vários sistemas vivos interagindo uns

com os outros, a situação será a mesma. Eles mudam congruentemente,

sem nenhum esforço.

Mas poderíamos nos colocar certas questões. E aqui é quando

a confusão pode acontecer. Suponhamos que eu pergunte [Maturana

desenha e mostra um círculo]: “Como é que esse ser redondo em tempo

seqüencial aprendeu a viver confortavelmente em um meio plano,

quando ele, um ser redondo, estava vivendo confortavelmente num

meio côncavo anteriormente?” E esta é uma pergunta enganosa, porque

ela obscurece a história. Esse sistema vivo redondo não aprendeu

a viver no meio plano. O momento atual, essa congruência, é o resultado

da transformação congruente do sistema vivo e do vivente. Ele

não se tornou adaptado ao meio plano, o sistema vivo e o ambiente

mudaram juntamente. Quando uma criança ou um adulto vão à escola

ou à universidade, a criança, a escola, o adulto e a universidade mudam

juntamente, congruentemente. E sabemos disso, pois se estivés84

Educação e Transdisciplinaridade

semos na universidade, no quarto ano, estudando seja lá o que for, e

se um dos catedráticos ou dos professores começasse a falar conosco

de coisas que pertencessem ao primeiro ano, reclamaríamos: “O que

você está falando para nós? Já tivemos essa matéria; agora estamos

em outro ponto. Você é um professor, mas você está deslocado, você

não está no lugar certo.” .

Aprender não é a aquisição de algo que está lá, é uma transformação

em coexistência com o outro. Em se tratando de aprender, será

com relação a um professor, ou com as circunstâncias, em termos

gerais. Mas o interessante é que vamos fazer reflexões no campo do

conhecimento: “Oh!, esse cara agora sabe. Esse cara que num tempo

seqüencial não sabia como viver em um ambiente plano, agora sabe

como viver no ambiente plano.” Mas esse saber que é, na verdade,

comportamento adequado sob dadas circunstâncias, é o resultado da



história.

Mas o que é a história? A história é transformação ao redor de



algo que é conservado. Se nada é conservado, não há história. História

acontece na mudança ao redor de algo que é conservado. Isso porque,

quando alguém lhe diz: “Você precisa mudar.” Você não sabe o

que fazer, porque não sabe o que você precisa conservar. A coisa mais

importante na mudança é a conservação. O que conservamos abre

espaço para o que podemos mudar. Assim, história significa transformação

ao redor da conservação, neste caso, de vivência e de coerência

com o meio. E isso ocorre no intervalo de tempo em que os sistemas

vivos e o meio mudam de modo coerente, conjuntamente.

Isso acontece, certamente, com o robô. Sim, mas isso pode acontecer

depois que ele começou a existir. Eu completei o projeto do

robô, eu o coloco lá, e assim, é claro, a história dele começa. E isso é

uma história que podemos chamar de envelhecimento. Ou seja, chamaremos

o que aconteceu antes do que quer que queiramos chamar,

mas a história só começa aqui, agora. Os sistemas vivos estão sempre

na presença de uma história. Assim, saber, conhecer tem a ver com

agir adequadamente às circunstâncias, como resultado de uma história

em que o sistema vivo e o meio mudaram conjuntamente,

congruentemente. E esse meio poderia ser outros sistemas vivos.

Então, saber é uma atribuição, é um presente que damos a alguém.

Se vocês pensam que eu sei, eu digo, muito obrigado. Porque

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Educação e Transdisciplinaridade



vocês estão me dando meu saber. Porque vocês estão considerando

meu comportamento adequado ao que vocês pensam ser o comportamento

adequado. Isso não é interessante?

Se vocês forem professores, sabem que quando querem saber –

e não pensem que são meras palavras – se seus alunos sabem, vocês

fazem uma pergunta a eles. E se determinado aluno, como resposta,

se comporta adequadamente no campo que vocês especificaram com

sua pergunta, de acordo com o que vocês pensam ser o comportamento

adequado naquele campo, então vocês dizem: “Ah!, ele ou ela sabe.”

Assim o saber de nossos alunos é algo que damos a eles. E nosso

conhecimento é algo que nossos alunos nos dão.

E isso é interessante. É algo extremamente interessante, porque

os sistemas vivos existem no presente, nós existimos no presente.

Sabemos disso, é claro, desculpem-me; mas não vou dizer nada que

vocês já não saibam, estou apenas pondo em evidência alguns pontos.

Ontem não é agora. Amanhã não é agora. Existimos no presente, exatamente

como uma ondulação. Imagine um tanque com águas calmas.

Deixamos cair nele uma pedra, uma ondulação aparece e começa a se

expandir. Onde ocorre a ondulação? Na ondulação, no presente. A

ondulação é um presente em mudança contínua. Repito, a ondulação

é um presente em mudança contínua.

A biosfera é um presente de sistemas vivos interconectados em

mudança contínua. Se tomamos dois ou três pontos de dadas propriedades

– e isso é que os sismólogos fazem –, podemos computar a

origem da ondulação, a origem da onda. Assim, há coerências na ondulação,

nesses pontos separados, que permitem que computemos os

pontos de origem; mas a ondulação existe no presente. Dizer que ela

começou aqui, neste dado ponto, é uma maneira de explicar a coerência

da ondulação. A história é uma maneira de explicar o presente.

Como explicamos o presente historicamente? Bem, consultamos documentos.

Mas os documentos existem agora, os lemos agora, os tratamos

agora, como somos agora. Por isso a história é passível de ser

mudada. A história muda, pois é uma maneira de explicar o presente,

no campo de entidades de estruturas determinadas. Mas nós, seres

humanos, estamos concernidos com o espírito, concernidos com a

ética, por quê?

Onde está esse robô? Claro que na fábrica. Porém, há algo muito

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Educação e Transdisciplinaridade



interessante com o robô, e eu recorri ao robô porque temos mais liberdade

para olhar esse robô, pois, afinal de contas, ele não passa de um

robô. Ele só se parece um pouco conosco; porém, é apenas um robô.

Mas o que vemos? Vemos que isso é um robô de um tipo particular

que faz certo tipo de coisa. Dizer que ele é um robô de um tipo particular

é uma referência às circunstâncias na qual ele opera e de como

ele opera. Caso algo dê errado na sua operação, podemos desmontálo

e olhá-lo por dentro. Podemos modificar seu interior, e se modificamos

seu interior, a operação do robô pode ser totalmente modificada.

Disse que vocês sabiam o que eu ia dizer e que não estou dizendo

nada novo, mas estou chamando sua atenção ao fato de que o mesmo

acontece com os sistemas vivos. Os sistemas vivos existem em

três campos.

Suponhamos que o que desenho aqui seja um sistema vivo.

[Esquematiza uma pessoa] Suponhamos que isso represente um ser

humano. Sua dinâmica interna nos projeta a um tempo tão distante

quanto a própria dinâmica que a separa do meio. Mas não nos preocupemos

com isso. A dinâmica interna se refere a tudo que está envolvido

na constituição desse sistema vivo como uma entidade singular,

separada do meio, como uma totalidade. A essa dinâmica interna chamarei

aqui de fisiologia.

Mas o comportamento está em um outro lugar. Comportamento

está na relação. Mas, quem realiza o comportamento? Eu ando.

Quando eu estou andando, será que eu estou fazendo o andar? Movimentando

minhas pernas, de maneira cíclica, eu ando. Mas será que

eu ando? Suponhamos que vocês me pendurassem pelas axilas, e eu

continuasse a fazer esse movimento cíclico. Então eu andaria? Não.

Porque andar emerge da interação com o meio. Eu não ando, o comportamento

emerge da interação com o meio. É aqui que o humano

ocorre.


Mas o que é o humano? No momento, diria que reconhecemos

o humano através da fala. Quando ouvimos alguém falar, dizemos:

“Ah!, há um ser humano lá.” Claro que eu sei que tem havido uma

grande discussão sobre a seguinte possibilidade: se houvesse uma

grande caixa preta que falasse com você, como você saberia se ela é

um ser humano ou um robô? Não vou entrar nesses exemplos velhos;

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Educação e Transdisciplinaridade



vou propor outra coisa.

Suponhamos que temos um cachorro, um cachorro muito querido,

que nos acompanha. Quando estamos triste, ele está ali, senta

conosco, lambe nosso rosto, e nós o afagamos. Esse cachorro nos

convida para um passeio e saímos com ele, ou nós convidamos o cachorro,

e assim por diante. Então, um dia, dizemos a um amigo: “Oh!

esse cachorro é tão maravilhoso que só falta falar para ser uma pessoa.”

E um dia chegamos em casa e o cachorro diz: “Oh! Estava esperando

por você!” E naquele mesmo momento, o rabo do cachorro fica

em riste. O rabo do cachorro nos mostra que ele não é uma pessoa,

que é um cachorro falante!

Isso significa que o importante é o corpo, não o comportamento

humano. Mas seja lá a forma que digamos que ele tenha, o corpo,

esse famoso corpo, quando o comportamento tem uma relação com o

meio, corpo e comportamento têm uma relação juntos, na história.

Não temos qualquer corpo, qualquer corporalidade. Uma corporalidade

é a corporalidade que tem uma razão de ser na história da transformação

através de muitas gerações de linguagem. Assim temos uma linguagem

na corporalidade, vivemos a linguagem no meio que tem uma

relação conosco, no nosso viver a linguagem.

Mas nós somos determinados por nossa corporalidade? Somos

geneticamente determinados? Penso que essa é uma questão que merece

ser pelo menos considerada sucintamente, pois estamos em uma

circunstância histórica particular, que tem a ver com uma ênfase dada

a uma atitude patriarcal cultural de reducionismo.

Uma das marcas de nossa cultura é que pensamos em termos de

causalidade. Oh!, conhecemos todas essas discussões sobre causalidade

e seus contrários, e assim por diante. Não estou falando da história

das reflexões filosóficas sobre causalidade, estou falando de nossa

vida de todos os dias. Falamos em termos causais, perguntamos por

causas: “Qual é a causa disto?” Ou: “Porque você causou isso ou

aquilo?” E a noção de causalidade é uma noção que insinua que o

agente externo determina, de algum modo, o que acontece com o outro,

ou com a outra coisa.

Estamos continuamente procurando por causas externas. E essa

busca contínua por uma causa externa tem uma conseqüência particular

que é uma atitude reducionista. Temos um modo de pensar, e esse

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Educação e Transdisciplinaridade



modo, que está muito presente na biologia atual, é: “Os elementos

fundamentais determinam o que acontece com o sistema.” E também:

“Os genes determinam o comportamento.” Toda a história do genoma

humano, da pesquisa do genoma humano, está relacionada com isso.

Se conhecermos o gene, conheceremos o genoma e então conheceremos

tudo sobre os seres humanos... Todavia, sabemos que as coisas

não são bem assim. E por que não são bem assim? Como é que pode

não ser bem assim? Não pode ser assim pelo que mostramos aqui.

Existimos pelo menos em dois campos fenomenológicos, que

não se intersectam e que não podem ser reduzidos um ao outro. Explicações

não fazem reduções fenomenológicas, nem mesmo as explicações

científicas. O que as explicações fazem é propor um mecanismo

genérico, um mecanismo tal que, se deixado livre para funcionar, se

comportará conforme foi previsto pela explicação. E o resultado está

sempre em um campo diferente do mecanismo que dá origem a ele.

Então, o que acontece aqui é que esse comportamento é o resultado

da dinâmica estrutural do sistema vivo, no fluxo de interação com o

meio, nas circunstâncias de mudança conjunta e congruente do sistema

vivo e do meio.

Agora, para dar uma idéia do fluxo dinâmico em questão aqui,

gostaria de chamar a atenção para o que faz uma pessoa que está

surfando ou esquiando. Imagine que vamos a uma praia do Atlântico,

onde há pessoas que estão surfando ou tentando surfar. Observandoas

vemos que há conservação do equilíbrio: o corpo do surfista muda

continuamente de lugar na prancha e desliza no contato com a onda.

Ele desliza para o lugar em que o equilíbrio é conservado, em uma

interação dinâmica. Mas se por acaso a dinâmica do corpo perde essa

coerência, e se um outro elemento da onda surge daqui ou dali, de

modo que a coerência é perdida, ele cai.

Os sistemas vivos repousam no fluxo do viver e na transformação

histórica; na tangente do caminho, onde o fluxo do viver e as

adaptações são conservados através de uma mudança estrutural contínua

de ambos, dos sistemas vivos e do meio. E essa relação surge

continuamente da interação.

Quando um sistema vivo está se iniciando, o que acontece? A

história. Que tipo de história? Esse tipo de história é composto em

parte pela transformação, em parte pela conservação de certas rela89

Educação e Transdisciplinaridade

ções. E essa história é um fenômeno no qual qualquer processo de

mudança que esse sistema está atravessando emerge, a cada momento,

da dinâmica interna e da interação com o meio. Essa pessoa que

está surfando muda a postura do seu corpo mediante uma dinâmica

interna que é conforme com o que está acontecendo no seus sensores.

Tudo se passa interiormente, por assim dizer. Mas ao olharmos, vemos

que o que se passa nos seus sensores é o resultado do que está se

passando nas interações.

Na biologia, há um nome para esse processo que é “epigênese”.

A epigênese não é uma confrontação entre a genética e o meio. É algo

que vai surgindo na interação. Por isso, não pode existir determinação

genética. O sistema genético especifica as condições iniciais, especifica

um possível trajeto das mudanças estruturais, estabelece fronteiras

para as possíveis mudanças estruturais, mas em qual trajeto a

mudança estrutural ocorrerá vai depender da interação com o meio.

No nosso caso, humanos, será o útero, a mãe, pois o que acontece

com a mãe, tem conseqüências na vida intra-uterina, depois, após o

nascimento, nas interações com o bebê, com a criança, com o jovem,

com o adulto, com o velho. Assim, é todo um processo que perdura

continuamente até nossa morte. É uma história de mudanças estruturais

congruentes com o meio até o momento de nossa morte.

Agora, o fato de não sermos determinados geneticamente é algo

fundamental. Porque isso nos diz que nós ou que qualquer sistema

vivo se transformará de acordo com com o que é vivido. Não porque

o meio especifica o que acontecerá com ele, mas porque o sistema

vivo emergirá, de uma forma ou de outra, como resultado dessa história,

dentro de certas restrições, que são restrições estruturais, que têm

a ver com as mudanças estruturais que o sistema pode sofrer a partir

da estrutura inicial.

Nós sabemos, e digo nós porque isso faz parte do conhecimento

geral possível de nossos dias. Vocês devem ter conhecimento de

animais selvagens que, por uma razão ou outra, são salvos, se deitam

no carro que os leva para casa e são domesticados. Há um livro denominado

Born to be Free, cujo autor não me recordo, que foi um dos

primeiros a mostrar esse tipo de experiência real. O livro relata a história

de um casal que leva para casa um filhote de leões, uma leoazinha,

onde ela cresce até a idade adulta. Por temerem ter em casa uma “gran90

Educação e Transdisciplinaridade

de gata”, eles dizem: “Ah!, ela deve ter sua vida própria, uma vida de

leoa.” Então, a levam para a savana da África e a soltam. Porém,

sempre que é solta em lugar não muito distante, ela volta de novo para

casa, até que a levam para bem longe e a deixam lá. O casal volta para

casa e uma ou duas semanas mais tarde eles vão ver o que está acontecendo

e descobrem que a leoa estava morrendo de fome. Ela não

sabia como ser uma leoa.

Isso não é fantástico? Então continuamos convencidos de que

ser um leão é determinado pela genética? Podemos ter a genética de

um leão, mas não seremos um leão a não ser que vivamos com leões,

como leões. Um leão é um leão se vive como leão a vida de leões. O

mesmo se passa conosco. Somos seres humanos se vivermos como

seres humanos a vida de seres humanos. Isso não é trivial, mas tratamos

como se fosse.

Seres humanos têm uma fisiologia, que é a do Homo sapiens.

Essa fisiologia anatômica, que tem uma razão na história, vive uma

linguagem que é adequada para o momento, adequada à maneira humana

de viver. Mas onde está o Ser Humano? O Ser Humano provavelmente

está em um lugar onde não somos nossa corporalidade. Contudo,

sem nossa corporalidade não somos. Não somos nosso comportamento;

contudo, sem nosso comportamento, não somos. Somos este

entrelaçar dinâmico de comportamento e corporalidade. Mas aqui, no

campo das relações e do que acontece conosco como seres de linguagem,

elas existem como conseqüência de sermos seres que vivem da

maneira como vivemos e no tipo de corpo que temos. E é aí que se

aplicam essas questões sobre realidade, feminino, masculino, lunar,

solar e outras noções que emergiram nas palestras anteriores.

Notem que o comportamento é abstrato, é uma relação, mas

tem conseqüências na concretude do corpo, na corporalidade do sistema

vivo e nas características do meio. (Maturana sobe em uma cadeira

e de lá continua sua exposição). Ficar de pé na cadeira, no topo

do pódio, é uma relação, mas é uma relação que tem lugar no encontro

de duas entidades de estruturas determinadas, assim o pódio desencadeia

em mim certas mudanças estruturais que deixam sensações

ou algo parecido, e meu corpo desencadeia no pódio algumas mudanças

estruturais que alguém diante de nós chamará de formações. O

tapete, sobre o qual estou agora, está pressionado, deformado. Afor91

Educação e Transdisciplinaridade

tunadamente, ele é elástico e você não verá marcas depois que eu

mudar de lugar, porque ele vai recuperar a sua forma anterior.

Assim, o viver humano acontece na relação, mas o que acontece

na relação tem conseqüências na corporalidade e o que acontece

na corporalidade tem conseqüências na relação. Suponhamos que tivéssemos

uma dessas possibilidades de ficção científica como tirar

uma foto de uma pessoa e ter acesso ao seu perfil bioquímico. Tomamos

café da manhã antes de virmos para esta palestra. Vamos supor

que ao entrarmos neste salão tivéssemos passado por essa máquina

que tirasse foto de nosso perfil bioquímico, e, quando saíssemos, depois

de duas ou três horas, repetíssemos a foto do nosso perfil

bioquímico. Ele seria diferente. O que apareceria mostraria que estaríamos

diferentes de quando entramos.

Então, mudamos como resultado do quê? Do que aconteceu

aqui. Se o que aconteceu aqui fosse em outro lugar, o perfil bioquímico

teria mudado de outro modo, dentro de certas fronteiras, é claro. Assim,

isso é uma história de transformação. O que fazemos tem conseqüências

no que nos tornamos, porque tem conseqüências na nossa

corporalidade, e o que acontece na nossa corporalidade tem conseqüências

no que fazemos.

Nesse sentido estrito, nada do que fazemos jamais é trivial,

porque somos um tempo presente em mudança. Estamos contribuindo

continuamente na localidade dessa ondulação, nas mudanças da

ondulação ou na geração de novas ondulações. Cada ponto da ondulação

tem dois tipos de coerência, algumas que são históricas e têm a

ver com ser parte da ondulação, e outras que são locais e têm a ver

com o que estamos fazendo que gera outras ondulações.

Nessas circunstâncias, o que é a linguagem? Poderíamos fazer

uma pergunta nesses termos: “O que é linguagem? Porém, vamos mudar

para: “Quando diríamos que há linguagem?” Ou: “O que precisaria

acontecer para que pudéssemos dizer que há linguagem?” Há outra

palavra que comumente usamos: “comunicação”, e, às vezes, dizemos

que a linguagem é um sistema simbólico de comunicação.

Comunicamo-nos através da linguagem. Ah!, então, a comunicação é

uma coisa primária. Mas o que é comunicação?

Suponhamos que eu pegue o telefone. [Encena a situação].”

Tá, tá, tá .... Alô?, alô? Sim, Alô, sim é ....Alô, no Brasil, sim, alô, ah!,

92

Educação e Transdisciplinaridade



alô, ah!, Alô.., plac. (desliga)” E daí alguém me pergunta: “Ah!, você

não conseguiu se comunicar?” Eu digo: “Não consegui me comunicar.”

Depois, a ligação ocorre perfeitamente e eu digo: “Ah, sim, essa

gente é maravilhosa, eles me tratam tão bem. Sim, sim, nada aconteceu

com minha mãe, excelente, beijos, tchau.” Então vocês dirão:

“Ah! eles se comunicaram.” Por que vocês dirão: “Eles se comunicaram”?

Por que vocês dirão que em um caso não nos comunicamos e

em outro nós nos comunicamos?

No primeiro caso, dizemos que não houve comunicação porque

sabemos que o resultado daquela interação não levou à coordenação

de comportamentos. Vocês poderiam me perguntar: “O que fazer

agora?” E eu não saberia dizer. Só sei que não consegui me comunicar.

No segundo caso, o que vocês ouviram ou viram na minha interação

permitiu-lhes supor que houve alguma coordenação de comportamento

estabelecida ou gerada com minha mulher. Assim, comunicação é uma

palavra que usamos para conotar uma interação na qual vemos que o

resultado é coordenação de comportamento.

Em segundo lugar, precisamos da linguagem para estabelecermos

a comunicação; não para tê-la, mas para reivindicar que ela existe.

Se não vemos coordenação de comportamento e interação, diremos

que não houve comunicação. Assim, linguagem não pode ser um

sistema de comunicação pelo menos, não primariamente. Ela não pode

ter uma razão em termos de comunicação, pois essa vem depois, quando

começamos a refletir no que estamos fazendo com a linguagem.

Mas se olhamos para nossa vida de todo dia vemos que na maior

parte do tempo vivemos imersos na linguagem. E por vivermos

imersos na linguagem e gostarmos da linguagem aqui estamos nós,

uma hora, duas horas “linguajando”... Como vivemos imersos na linguagem,

muitas vezes não vemos o que fazemos, porque o fazer obscurece

o fazendo. Pois para observar o fazendo temos que nos distanciar

do mesmo, e isso é difícil de ser feito. Vou apresentar a vocês,

talvez, um ou dois casos simples da vida cotidiana em que o comentário

sobre a linguagem aparece nos termos que acabei de falar.

Suponhamos que você queira tomar um táxi. Então você vai à

rua. Uso esse exemplo por ser ele muito comum na nossa vida diária.

Você quer tomar um táxi que venha pelo lado da rua em que você está.

E os táxis que vêm nesta direção estão sempre ocupados. Mas como

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Educação e Transdisciplinaridade



essa é uma rua de mão dupla, alguns táxis que vêm na outra mão estão

livres. Você poderia atravessar a rua. Mas suponhamos que você veja

um táxi livre se aproximar. Usualmente o que a gente faz? Um gesto

para que o motorista faça um retorno. Então o seu olhar e o do motorista

do táxi se cruzam e você faz um outro gesto com polegar para

cima, e o motorista de táxi, provavelmente, volta para lhe pegar. Se,

por acaso, um táxi livre chega e para na sua frente e você o toma, o

motorista que estava dando a volta para lhe pegar reclama e diz: “Por

que você está fazendo isso quando você já havia me pedido para te

levar?”! Assim essa pessoa faz uma reflexão, uma operação complexa

de linguagem: houve uma petição, uma promessa, um comprometimento,

ou algo semelhante.

Mas o que aconteceu? Aconteceu algo muito simples e muito

fundamental. Você fez esse gesto quando o olhar do motorista de táxi

e o seu se encontraram. Por um momento, o motorista de táxi e você

não são mais independentes: há uma coordenação de comportamento.

E o segundo gesto coordena a coordenação de comportamento.

Por isso, o primeiro motorista de táxi reclama quando você toma o

outro táxi: “Por que ele fez isso quando ele já havia coordenado comigo?

Ele já me pediu, já havia coordenado comigo!”

Assim, o que há aqui é uma coordenação de coordenação de

comportamentos, e isso é a operação mínima em linguagem. Isso é o

que constitui o linguajar: coordenações de coordenações de comportamento.

Agora estamos inclinados a atribuir a linguagem a qualquer

coisa que acreditamos compreender. [Apontando para um vaso de flor]:

“Oh!.. o que esta flor está me dizendo é que a primavera está chegando.”

A flor está me dizendo que a primavera está chegando. Eu estou

lendo a primavera na flor. [Apontando para o relógio]: “Aquele relógio

está me dizendo que já estourei o meu tempo em mais de uma

hora.” Mas o relógio não está dizendo nada. Eu é que estou lendo o

tempo no relógio, eu é que estou lendo as estações na flor.

A linguagem é uma maneira de vivermos juntos no fluxo das

coordenações das coordenações de comportamento e quando o observador

vê as coordenações das coordenações das coordenações de

comportamento, ele diz: Linguagem. E o que fazemos com a linguagem,

claro que é uma maneira de fluir nas interações que têm conseqüências

na nossa corporalidade. Assim, mudamos conforme o que

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Educação e Transdisciplinaridade



fazemos com a linguagem. E o significado da palavra não está na

palavra, mas no fluxo de coordenação de comportamentos no qual ele

participa, como um tempo presente que continuamente muda. Assim,

o que acontece – e isso é uma situação interessante para entender

integralmente – é que somos uma presença em contínua mudança,

uma presença que está continuamente criando um mundo através da

mudança de nossas estruturas do presente de acordo com a maneira

que estamos vivendo no presente.

Vou terminar em dez minutos. Estou tomando muito tempo, me

perdoem, mas me dêem um pouco mais de tempo.

A linguagem jamais é trivial. Na verdade, seja lá o que façamos

na vida nada é trivial, pois através do que fazemos estamos contribuindo

para transformar o presente. Não estou falando aqui do efeito

borboleta, em termos da teoria do caos; estou falando em termos da

contínua congruência das transformações coerentes dos sistemas, determinadas

pelas estruturas que estão interagindo umas com as outras

recorrentemente e, então, recursivamente.

Quero dizer algumas palavras sobre as emoções, de modo que

possa dizer umas poucas palavras sobre ética e depois sobre educação.

Afinal de contas, estamos preocupados com a educação do futuro.

Isso está no presente.

Agora, o que é que fazemos quando distinguimos uma emoção?

Sempre que falamos: “Alguém está bravo.” O que estamos falando?

Suponha que ao chegar ao escritório você decida pedir aumento

de salário. Então você vai até a secretária do seu chefe e diz: “Vou

pedir aumento.” No entanto, a secretária que é sua amiga diz: “Agora

não, agora não, ele está furioso!” O que essa pessoa está lhe dizendo?

Aumento de salário não pertence ao campo de comportamento de uma

pessoa que está brava.

Então o que fazemos quando dizemos, ou quando vivemos uma

emoção? Vivemos um campo de comportamento relacional no qual o

animal é. “Oh!... este cachorro está muito triste, olhe! Ele não vai até

seu prato para comer o seu jantar...” Aqui entramos no campo relacional

em que esse animal está se relacionando ou em que uma pessoa está

se relacionando. Assim, como destinguimos emoções diferentes, distinguimos

diferentes campos de comportamentos relacionais. E é por

isso que ninguém, nenhum de nós pode fazer qualquer coisa quando

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Educação e Transdisciplinaridade



há determinada emoção. Há certas coisas que não podemos fazer.

Você chega em casa, cansado, exausto e a sua mulher lhe diz:

“Você nem sequer me deu um beijo.” E você diz: “ Oh! Desculpe-me,

não posso.” Você não pode beijar a sua mulher se está exausto ou

bravo. Meu padrasto costumava chegar ao meio-dia em casa faminto.

Para ele tudo estava mal, as coisas não estavam limpas, a comida não

era boa, tudo estava ruim. Então minha mãe pensou: “O que eu devo

fazer?” Minha mãe é um gênio. Na entrada da casa havia um corredor

e ela punha uma série de mesas com pequenos pedaços de comida, e

assim ele ia entrando e pegando e comendo; e quando ele chegava no

fim do corredor ele estava encantador! Quando você muda o estômago,

você muda o coração. Quando ele estava faminto, cansado, aborrecido

por causa de algo, nada lhe parecia bom. Quando era confortado

pelo comer, quando sua fome estava saciada até certo ponto, quando

ele já se sentia bem na relação, aceito na relação, ele passava a ser

uma pessoa completamente diferente! Quando você muda emoção,

você muda o cérebro. É verdade. Não temos tempo, senão eu os mostraria

como é que o cérebro muda.

Mas isso nos permite caraterizar as emoções nos termos do campo

do comportamento relacional que definimos quando os

destinguimos. Tratarei aqui de duas emoções, as mais fáceis: o amor

e a agressão. Note que não usei letras maiúsculas quando escrevi aqui

“amor”. Não estou falando de nada em especial. Estou falando de

emoções fundamentais. Na verdade, estou falando das emoções que

constituem o campo social.

Sei o que está acontecendo na Iugoslávia, pois assisti TV. Contudo,

vou falar de amor. O amor pertence ao campo de comportamento

relacional. Todos os comportamentos são relacionais, já falei isso,

mas enfatizar o relacional e a dinâmica do relacional é essencial não

só nesse caso particular, mas em todos os casos em que falamos de

emoções. Porque o que as emoções fazem é especificar como você

está no campo relacional, como você está na sua corporalidade, como

você está na sua atitude e como você está na sua impaciência, no

campo do comportamento relacional, através do qual o outro ou você

mesmo surge como um legítimo outro em coexistência com você. Com

isso, significamos que o fazer do comportamento constitui a condição



através da qual o outro surge como um legítimo outro. O que eu

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Educação e Transdisciplinaridade



faço é que faz com que o outro seja, que ele surja como um legítimo

outro.

Suponhamos que você está caminhando na rua, na calçada. O

lado por onde você vem é o começo da rua e há um buraco na calçada,

estão fazendo algum conserto lá. Há uma passagem estreita, não é

fácil passar por ali. Você está indo e na outra direção vem vindo uma

pessoa idosa (para enfatizar e deixar mais claro o exemplo), é óbvio,

o que quero dizer. Ao chegar perto do buraco, você reduz seus passos

e talvez até mesmo pare para deixá-la passar, e depois você passa.

O que é que essa pessoa diz quando ela passa por você: “Obrigada!”

E o que ela diz à filha ou ao filho quando chegar em casa?

“Um senhor gentil, muito amável, permitiu-me passar numa calçada

difícil de passar. Um senhor gentil, muito amável.” E o que esse fulano

fez? Ele viu o outro e se comportou de um jeito que o outro surgiu

como um legítimo outro no uso da calçada. Ele viu o outro como uma

pessoa que tem uma restrição de mobilidade e teve um comportamento

coerente com o que viu ao olhar o outro.



Legitimar o outro não implica em ter de dizer: “Oh! Desculpeme,

por favor, deixe-me passar primeiro porque sou velha, tenho dificuldade

para andar.” Esta pessoa não teve que se desculpar por ser

velha, porque a pessoa que se comportou com amor viu.

O que é agressão? É o campo do comportamento relacional

através do qual o outro é negado, ou você é negado como o outro

legítimo em coexistência com você. O que você diz a alguém quando

você fala: “Não se agrida.” Às vezes, a gente diz ao outro: “Não se

agrida, você é uma pessoa boa. Não se destrua, não se comporte de

maneira tal que você se aniquile, pois isso não é justo com você.”

Emoções especificam onde estamos em nossas relações. Não

fazemos e não podemos fazer as mesmas coisas quando estamos sob

emoções diferentes. Emoções especificam onde estamos a cada instante.

Emoções especificam o campo relacional no qual agimos. Todos

os argumentos racionais são fundados em premissas aceitas a

priori, isto significa, a partir de emoções, a partir de preferências. É

por isso que as emoções são tão fundamentais. É por isso que hoje em

dia todo mundo está descobrindo as emoções.

Mas as emoções fazem coisas diferentes em nossas vidas em

relação à inteligência. Eu não concordo com essa idéia de diferentes

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Educação e Transdisciplinaridade



tipos de inteligência. Inteligência é a capacidade fundamental de

plasticidade, de tal modo que podemos participar em diferentes campos

de consensualidade e nos mover livremente de um campo



consensual ao outro com expansão do campo consensual. O que as

emoções fazem é mudar quem somos, realçar o que podemos fazer,

restringir ou expandir nossa visão, realçar, restringir ou expandir nosso

comportamento inteligente. Ela não modifica nossa inteligência,

mas restringe sua visão, especifica a posição em que estamos e o que

podemos fazer.

Todos sabemos que nos comportamos diferentemente quando

estamos num estado de medo ou num estado de serenidade. Se um

professor quer que seu aluno seja reprovado, basta que crie medo. É

evidente, todos nós sabemos disso! E sabemos também que se queremos

que nossos alunos não repitam, criamos o quê? Amor.

Vocês conhecem a história daquele personagem da TV, o

Macgiver? O Macgiver é uma pessoa muito interessante. Ele conhece

física, química, antropologia. Ou seja: damos a ele o conhecimento

da física, da química, da antropologia, porque vemos seu comportamento

como adequado ao que pensamos da física, da antropologia,

etc. Ele também sabe disso. Freqüentemente, Macgiver se encontra

fechado em uma caverna ou em um celeiro, junto com alguém que

também sabe física, que também sabe química, que também sabe antropologia.

Mas qual é a diferença entre os dois? A emoção. O amigo

de Macgiver diz: “Oh! Meu Deus! Oh! Estamos presos, oh! - puf, puf,

puh, puh, puh.” Isso é emoção! E o que o Macgiver faz? Ele diz:

“Ah!, estamos aqui.” Macgiver ama suas circunstâncias, ele olha em

volta, acha um pequeno fio aqui, acha algo mais acolá, os une, provoca

uma explosão e eles saem!

A diferença não está no conhecimento possível. A diferença

esta no conhecimento disponível. E a disponibilidade do conhecimento

é determinada pela emoção. O amor expande a nossa visão. Desculpem-

me, não sou um padre, sou apenas um amante latino, na maior

parte do tempo. O amor expande nossa visão, então vemos mais, ouvimos

mais. Se temos em casa uma galinha com pintinhos, podemos

notar que ela vê mais do que uma galinha sem pintinhos. Se houver

um tanque e esses pequenos bichinhos estiverem se aproximando dele

essa galinha dispara: “Có, có, có, có, có....”; mas as outras galinhas

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Educação e Transdisciplinaridade



não dão a mínima pelo que está acontecendo, elas não vêem os pintinhos

que estão quase caindo no tanque e se afogando. A única emoção

que expande a visão é a do amor.

Não é interessante? A ambição restringe a visão. A competição

restringe a visão. O medo restringe a visão. Mas o amor expande. Se

amamos nosso inimigo sabemos como derrotá-lo ou derrotá-la. Não

gosto de falar de guerra e guerreiros, não gosto desse caminho, mas

posso dizer que se amo meu inimigo, posso vê-lo de perto e possivelmente

derrotá-lo. Wellington amava e admirava Napoleão, e foi por

isso que ele pôde derrotar Napoleão. Ele estudou as campanhas de

Napoleão e chegou à conclusão de que se deixasse Napoleão escolher

o campo de batalha ele seria destruído por Napoleão. Então, deu um

jeito de escolher o campo de batalha. O ódio restringe a visão, reduz

a inteligência, e assim por diante.

Agora, deixem-me dizer algumas palavras sobre ética. Penso

que não há diferentes tipos de Ética. Há diferentes tipos de moralidades.

Esta é a minha opinião. Ouvi ontem uma linda palestra na qual se

dizia que existem diferentes tipos de ética, mas não acho que é bem

assim. E vou lhes dizer porque acho que não é bem assim.

Penso que, de uma certa maneira, a Ética, a implicação ética

aparece quando vemos o outro e também vemos as possíveis conseqüências

do outro no nosso próprio comportamento; quando agimos

dentro dessa compreensão de que o outro é um ser humano, que é um

outro legítimo, e nos comportamos de acordo. A emoção que constitui

uma possibilidade para a implicação ética é o amor. Há muitos

campos de implicação possíveis, sim, mas não vendo o outro na sua

legitimidade não podemos estar concernidos com o que acontece com

ele.


Lembro-me que em 1963 eu estava em Nápoles, a guerra do

Vietnã estava começando e no jornal chamado The European Times

apareceu uma manchete dizendo: “50 americanos mortos, 200 comunistas

exterminados.” Esta é uma manchete muito reveladora! Os americanos

morreram, foram mortos, mas os comunistas foram exterminados!

Os comunistas não eram humanos, ele eram comunistas. Havia

implicação ética pelos americanos, mas não pelos comunistas.

Em 1955, na Inglaterra, quando eu estudava lá como outros

chilenos, visitei uma exibição de um artista japonês que pintava o que

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Educação e Transdisciplinaridade



havia acontecido em Hiroshima após a bomba atômica. Quando estávamos

saindo da exposição, um dos meus amigos disse: “Não me

importo se cem mil japoneses morreram em Hiroshima, pois eu não

me encontrei com nenhum deles.” Mas meus cabelos se arrepiaram e

eu o agradeci, pois o que ele estava dizendo era precisamente isto:

“Se não vemos o outro como um outro legítimo, não nos importamos.”

Esse é o nosso problema.

O problema com a ética é que não vemos e porque não vemos

não expandimos nossa visão e porque não expandimos nossa visão

agimos exatamente ao contrário do que diz a transdisciplinaridade,

ou seja, colocamos fronteiras: isso é bom, isso é mal, isso é apropriado,

isso não é apropriado. Classificamos, desvalorizamos, rejeitamos.

Não digo que o que estou falando seja novidade; e se estamos falando

de educação volto a dizer que não estou dizendo algo que vocês já

não saibam.

Mas eu penso que o ponto fundamental em educação não é

ensinar habilidades, mas é a criação de um espaço onde o jovem possa

crescer como um ser que se respeita, de modo que ele possa respeitar

os outros. Pois nos respeitamos se ao vivermos somos respeitados.

E ser respeitado significa emergir como o outro legítimo. Uma pessoa

que cresce tendo auto-respeito e autoconfiança, cresce respeitando e

confiando nos outros e pode aprender qualquer habilidade que os seres

humanos podem desenvolver.

Perdoem-me, mas vou afirmar que somos todos igualmente inteligentes.

A plasticidade consensual pedindo para que vivamos a linguagem

é tão gigante que somos todos igualmente inteligentes. Se

qualquer um de nós pensa que eu sou mais inteligente que qualquer

outro, engana-se. Se pensa que eu sou menos inteligente que qualquer

outro, também se engana. Ao mesmo tempo, vivemos vidas diferentes,

temos diferentes emoções, e assim nossas habilidades, nossas visões,

são expandidas ou restringidas e nossa possibilidade de comportamento

inteligente varia de acordo com o que somos, com os medos

que temos, com nossas paixões, com nossas ambições. As ambições

não são paixões. As paixões têm a ver com intensidade; a ambição

tem a ver com restrição do alvo a uma determinada meta.

Assim, penso que o aprendizado de habilidades terá o seu lugar

na educação. Sim; porém, a coisa central não são as habilidades, mas

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Educação e Transdisciplinaridade

a criação de um espaço no qual a criança cresça como um ser humano



auto-respeitado. Se houver auto-respeito, não haverá dificuldade em

sermos transdisciplinares, porque não nos sentiremos ameaçados por

olharmos do outro lado ou, até mesmo, por pisarmos além da fronteira.

Pisar além da fronteira não significa negar a anterior, abandonar

eventualmente ou completamente um campo ou mesmo modificá-lo.

Pisar além da fronteira é um ato que pede por liberdade e isso é liberdade.

Com medo e com agressão não temos liberdade, estamos restritos.

Para transpor fronteiras, precisamos de liberdade. Isso significa

que temos de nos comportar de maneira que possamos emergir,

sem que tenhamos medo de desaparecer no que fazemos. Assim podemos

voltar ou ficar lá; ou podemos ir além e juntar coisas que de

outra maneira não seriam juntadas porque campos diferentes não se

relacionam, mas somos nós, seres humanos, que os relacionamos.

Assim, termino com essa reflexão sobre a educação. A tarefa

da educação, que não é nova, é a de criar um espaço (que começa no

útero: conforme a mãe queira ou não a criança), um espaço onde esse

ser vai emergir como um outro legítimo, vai crescer com auto-respeito

e respeito pelos outros, e então, com liberdade, vai aprender todas

as habilidades que são próprias para a cultura ou para as circunstâncias

de suas escolhas de vida nesta cultura, no presente.





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