Tornando os vilões e mocinhos do trágico enredo educacional do Brasil



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Encontro12.11.2017
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Fônico X Construtivista: Alfabetização ou Palavrões?
Guiomar Namo de Mello*
O analfabetismo no Brasil é estrutural. Nossas dificuldades para ensinar a ler e escrever datam de quando Pombal expulsou os jesuítas. O método de alfabetização utilizado por mais de século tem sido o silábico. Mas não é correto afirmar que seja esse, ou qualquer outro, o responsável por nossa incapacidade histórica de trazer as crianças para a era de Gutemberg. Os que conseguiram permanecer na escola por dois anos ou mais aprenderam a desenhar as letras e associá-las aos sons. Depois, por falta de práticas de leitura e escrita, regrediram para o letramento tosco que chamamos de analfabetismo funcional. Fatos e datas memorizados são esquecidos porque não formam sentido. Fonemas e grafemas também, se não fizerem parte da vida cotidiana.
Investigações com imigrantes na Europa sugerem que o sucesso escolar em meios populares, mesmo com pais analfabetos, está associado a um universo familiar que valoriza a escrita e a leitura, impregnando-as de significado afetivo e cultural. Outras investigações mostram que o cérebro humano tem registro separado para o fonético e o semântico. A consciência fonológica sozinha não garante a compreensão e o sentido não é suficiente para passar do falado ao escrito. Fonemas/Grafemas, Signos/Significados têm que caminhar juntos.
Material específico e estruturado, não é exclusividade de um método em particular, é condição de melhoria da qualidade do ensino em todos os conteúdos e séries, não apenas na alfabetização. Todo método acompanhado de material orientando o professor sobre sua utilização funciona melhor. Com a devida diferenciação isso é necessário para todos, não apenas os que ensinam crianças pobres. Como regra, não são os alunos que têm dificuldade de aprender, são os professores que têm dificuldade de ensinar e que precisam de passo a passo, seqüências didáticas, planos de aula e projetos de ensino.
A resistência a materiais específicos entre os construtivistas favoreceu a acusação mal informada de que esse método elimina orientações estruturadas. Falta memória, porque nos anos 1960 Piaget não aportou sozinho no Brasil mas com Hans Aebli e sua didática, germânicamente estruturada com base na teoria piagetiana. A suposta resistência a materiais prontos talvez se explique, porque o construtivismo, desenvolvimento do piagetianismo, chegou ao Brasil, num momento de exacerbação da ânsia de adotar procedimentos “democráticos” e “libertários” em oposição aos “pacotes” “estruturados” e “tecnicistas”, da ditadura militar.
Lógica de ideologia fundida à de questões técnicas, dá o samba de crioulo doido, que faz enredo de militância pedagógica. Nos anos 1970 o Programa Alfa, desenvolvido por Ana Maria Popovic, tinha material específico para todas as disciplinas nas quatro séries iniciais do ensino fundamental, com orientações tão detalhadas que eram uma verdadeira capacitação em serviço do professor; foi criticado pela inteligentzia e a nomenklatura educacionais por ser um “pacote” produzido por tecnicistas imperialistas de São Paulo. Nos anos 1980, petistas gaúchos afirmaram que a proposta de alfabetização do partido era construtivista. Libertários de todo tipo, do PT e do PSDB, aderiram a esse “partido”. Mas Paulo Freire, gurú das pedagogias libertárias, criou um método de alfabetização de adultos ortodoxamente silábico e fônico e foi andar sobre as águas, as mesmas revolvidas pelos críticos do “vovô viu a uva”. Agora o MEC, não satisfeito com a refundação do PT, quer refundar o tal vovô. E como se não bastasse, nesse mesmo partido pontificam os economistas, cansados talvez de suas estrepolias fiscais e cambiais.
Alguns países desenvolvidos estão retornando para o método fônico. Não há nada de errado nem de redentor nisso. A educação é muito dada a modismos e como o construtivismo virou moda o revival também pode virar. Já imaginou um método de alfabetização vintage, como no mundo fashion? Iria causar frisson nas tops da pedagogia tupiniquim. Melhor ainda seria uma oscilação entre fônico e construtivista ao ritmo do que tem sido a dos alimentos que aumentam ou não o colesterol. Tudo legitimado por resultados de “estudos recentes”...
Independentemente dos métodos de alfabetização é cada vez maior a preocupação com a competência escritora e leitora e sua sustentabilidade ao longo da vida. Muitos paises têm programas de leitura e produção de textos em todas as séries, envolvendo todas as disciplinas. O Brasil tem algumas iniciativas desse tipo, embora pouco infiltradas nas várias “camadas de civilização” que se sedimentam na nossa prática escolar. É preciso fortalecê-las e ampliá-las, estendendo-as aos professores, que também não têm competências leitora e escritora bem desenvolvidas. E lembre-se: para desenvolvê-las é imprescindível que existam materiais de leitura disponíveis e baratos.
Mas a melhor notícia por aqui é a atenção que a educação está merecendo de cientistas políticos, economistas, formadores de opinião, empresários. Com a modéstia na medida certa, é preciso registrar que há vida inteligente no planeta educação. E educadores que há tempo vêm defendendo a participação dessas forças nas decisões educacionais, reconhecendo nelas capacidade e legitimidade para colocar a educação escolar na agenda estratégica do estado e da sociedade brasileira. Esses novos e importantes atores são a esperança de que a ela incorpore práticas que lhe fazem falta, entre as quais, e para mencionar apenas algumas: eficácia, eficiência e transparência na gestão, clareza e foco no prioritário, cobrança de resultado e incentivo por desempenho. Seria uma lástima se essa oportunidade se perdesse por estarem as forças novas mobilizadas com as velhas e infindáveis disputas e polaridades metodológicas, picuinhas que vicejam feito erva daninha nas mentes e corações de muitos pedagogos.


* Doutora em Educação pela PUC-SP, e pós doutora pela London University. Há 40 anos atuando na área, foi secretária de educação da Cidade de São Paulo, Deputada Estadual, Especialista em Educação do Banco Mundial e do BID e, nos últimos 09 anos, Diretora Executiva da Fundação Victor Civita. Atualmente trabalha com programas presenciais e à distância de formação de professores em nível superior.








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