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Cooperação e Alianças: Perspectivas Teóricas e suas Articulações no Contexto do Pensamento Estratégico
Alliances and Cooperation: Theoretical Outlooks in the Realm of Strategic Thought

RESUMO
Prevalece, no campo de estudo das alianças e estratégias colaborativas, um desconhecimento sobre quais são as diferentes perspectivas teóricas aí presentes e como as mesmas podem se articular entre si, envolvendo questões fundamentais sobre o processo estratégico, a cooperação e o ambiente. O presente artigo, de cunho eminentemente teórico, propõe-se a preencher esta lacuna. Utiliza, como método básico de investigação, uma revisão e análise crítica da literatura sobre estratégia, enfocando obras contendo nos títulos, indexadores ou abstracts, os termos cooperação, parceria, aliança e rede. A partir daí foi possível identificar sete grandes classes ou perspectivas de abordagens: teorias militares; teoria dos jogos; teoria dos custos de transação; escola do posicionamento e poder de mercado; abordagem das redes sociais; teoria baseada em recursos; abordagem do aprendizado. Observa-se que cada uma delas é detentora de diferentes pressupostos e fundamentos, alguns compatíveis outros incompatíveis entre si. Os resultados, aqui apresentados, permitem, ao pesquisador, uma visão mais integrada e coerente do todo, das interações e convergências aí presentes e de suas possíveis repercussões em termos de pesquisas empíricas.


Palavras-chaves: estratégia; teoria; cooperação; alianças
ABSTRACT
As one surveys the field of cooperative strategies and alliances, some misconceptions are discernible about which are the main theoretical frameworks and how they can be articulated among themselves, as far as they focus upon issues such as the strategic process, the cooperation and the environment. This article offers a theoretical contribution to this subject. It uses, as a methodological approach, an extended research and review of the contextual literature. Seven main theoretical outlooks are advanced: military theories; game theory; transaction cost theory; positioning approach; social networks theory; resource-based theory; learning theories. Each one holds a particular set of premises and is derived from specific foundations. Some of them are compatible among themselves while others are not. The results allow, both, a more comprehensive view of the whole; an outlook of possibilities of articulations among those different perspectives and their repercussions on empirical research.
Key words: strategy; theory; cooperation; alliance

INTRODUÇÃO

A preocupação mais estruturada e sistemática com o tema das parcerias e alianças estratégicas é relativamente recente no domínio dos estudos organizacionais. E não poderia ser diferente. O próprio campo de conhecimentos sobre estratégica organizacional (onde se inclui tal tema) também é recente. Como salientado por Mellahi e Sminia (2009:2), a gestão estratégica “emergiu como um campo de pesquisa acadêmica na década de 1960”. Mas apenas nos últimos vinte anos que esta área de conhecimentos “institucionalizou-se em muitos centros acadêmicos de administração” (Mahoney & McGahan, 2007:93). No entanto, as origens das reflexões sobre cooperação, envolvendo duas ou mais empresas, não são novas. A teoria econômica, ao longo do século XX, voltou sua atenção para alguns mecanismos de cooperação empresarial, a exemplo das coalizões entre firmas, e os seus impactos no funcionamento do mercado (Cohen & Cybert, 1965). Em que pesem alguns trabalhos esporádicos na área (Pfeffer & Nowak, 1976), a incorporação da temática da cooperação no conjunto dos grandes temas de pesquisa dos estrategistas organizacionais sobreveio sobretudo nas últimas duas décadas, acompanhando grandes transformações no próprio ambiente de negócios. A globalização, o avanço da microeletrônica e das novas tecnologias de informação passaram a exigir das empresas novas posturas, diferentes formas de inserção no mercado e distintos mecanismos de interação e comunicação. Muitos autores vêm, ao longo do tempo, se referindo a esse fenômeno.



Para Lowendahl e Revang (1998), por exemplo, a grande disseminação de novos conhecimentos e tecnologias vem estimulando a formação de várias modalidades de alianças e parcerias empresariais. Para Lastres e Ferraz (1999) as estratégias colaborativas, desaguando em redes empresariais de todo tipo, representam a mais importante inovação organizacional associada à difusão de um novo paradigma técnico-econômico das tecnologias da informação e da economia da informação e do conhecimento. Para Malerba (2005) decisões estratégicas envolvendo parcerias são contingentes à estrutura industrial e à base de conhecimentos hoje disponíveis para as organizações. Destacam Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2000:188) que, com a rápida ascensão dos relacionamentos cooperativos, a formação de estratégias deixa os limites exclusivos da organização isolada e torna-se um processo conjunto, para ser desenvolvido com parceiros”. Nesse ambiente em que proliferam diferentes formas de cooperação e alianças empresarias, o acervo de estudos e pesquisas dedicados ao tema vem se ampliando consideravelmente, com contribuições provenientes de diferentes áreas de conhecimentos, incluindo, além da economia, sociologia, ciências políticas, teoria das organizações, gestão estratégica, marketing, etc.

Este campo de estudos compõe, hoje, um conjunto, ao mesmo tempo, rico e diversificado (Preece, 2006; Bleeke & Ernst, 2006; Child, Faulkner, & Tallman, 2005) e, também, disperso e desarticulado. O resultado, como seria de se esperar, é uma multiplicidade de diferentes concepções teóricas e distintas perspectivas de investigações empíricas. Tal fato vem vendo observado ao longo do tempo de diferentes maneiras. Contractor e Lorange (1988), um dos pioneiros nos estudos das estratégias colaborativas a nível internacional, salientam o caráter fragmentado da literatura sobre alianças estratégicas. Osborn e Hagedoorn (1997) observam aí a presença de certo caos, o que tornaria inclusive difícil a elaboração de uma teoria única. Costa (2005) considera a área uma verdadeira “colcha de retalhos”. De fato, prevalece, ainda hoje, no campo de estudos sobre alianças e estratégias colaborativas, um relativo desconhecimento sobre quais são as diferentes perspectivas teóricas e suas interconexões.

O presente artigo, de cunho eminentemente teórico, propõe-se a preencher esta lacuna, ao identificar as principais vertentes teóricas que abordam a temática da cooperação e parceria, avaliando como as mesmas podem se articular entre si, envolvendo questões fundamentais sobre o processo estratégico, a cooperação e o ambiente. Para viabilizar sua realização foi utilizado, como método básico de investigação, uma revisão e análise crítica da literatura sobre estratégia, incluindo obras contendo nos títulos, indexadores ou abstracts, os termos cooperação, parceria, aliança e rede. Foi avaliado um total de 182 obras, incluindo 12 livros, uma tese de doutorado, 11 publicações constantes em anais de eventos internacionais e 158 artigos. Estes, provenientes dos seguintes periódicos: Academy of Management Journal, Academy of Management Executive, Academy of Management Review, Administrative Science Quarterly, California Management review, Harvard Business Review, Journal of International Business Studies, Journal of Management, Journal of the Academy of Marketing Sciences, Planning Review, Organization Studies, Organization Science, Organizational Science, Neworks and Organizations, The American Economic Review, Strategic Management Journal, The Journal of Economic Perspectives, Strategic Organization, RAE, RAC, RAUSP) Salienta-se que 30% das obras revisadas foram selecionadas para serem incluídas no referencial bibliográfico.

Sete grandes perspectivas de abordagens foram identificadas: teorias militares; teoria dos jogos; teoria dos custos de transação; posicionamento e poder de mercado; abordagem das redes sociais; teoria baseada em recursos; abordagem do aprendizado. A primeira parte do artigo envolve uma reflexão de natureza mais geral, enfatizando contribuições de autores que buscaram elaborar e organizar alguns tipos ou categorias de análise no contexto da literatura sobre estratégia e cooperação. A segunda parte apresenta as sete categorias ou perspectivas de análises identificadas, permitindo chegar à elaboração de um quadro síntese, onde é possível visualizar as interconexões e interações existentes nesse conjunto. A conclusão retoma este quadro, realizando uma análise comparada das diferentes perspectivas teóricas e sinalizando suas possíveis conseqüências em termos de pesquisas empíricas. Os resultados finais permitem, ao pesquisador, obter uma visão mais abrangente, integrada e clara desse universo, além de lhe possibilitar identificar eventuais compatibilidades - ou incompatibilidades - ai presentes.
ALIANÇAS E ESTRATÉGIAS COLABORATIVAS: FRAGMENTAÇÃO, CLASSIFICAÇÕES E DESAFIOS
A teoria da estratégia pode ser considerada uma área acadêmica multidisciplinar e abrangente, composta por diferentes escolas de pensamento, que evoluíram ao longo do tempo. A grande variedade de possíveis abordagens teóricas, das mais diferentes procedências, presentes nesta literatura, vem engendrando diferentes tentativas de sistematização e organização (Hoskisson, Hitt, & Wan, 1999; Mintzberg et al., 2000; Elfring & Volberda, 2001; Volberda, 2004; Mahoney & Mcgahan, 2007). O estágio avançado de evolução e de organização do conhecimento na área geral de estratégia vem alimentando o sonho de criação de uma teoria capaz de integrar as demais. Para Mahoney e McGahan (2007:80), o desafio hoje seria gerar uma “nova teoria integrativa, baseada em resultados empíricos validados ao longo das últimas décadas”. No contexto da ampla e diversificada literatura sobre estratégia organizacional situa-se a literatura especifica sobre estratégias colaborativas. Neste caso, em particular, aliada à variedade da literatura geral sobre estratégia, soma-se, também, a complexidade e a diversidade da literatura dedicada especificamente às alianças, cooperações e parcerias. Autores que ofereceram contribuições para um melhor sistematização de concepções e proposições teóricas sobre estratégia organizacional apresentam diferentes níveis de contribuições para o tema particular das interações e cooperação entre empresas.

Mahoney e McGahan (2007), interessados em elaborar algumas bases para a criação de uma teoria integrada de organização estratégica, destacam, entre os temas prioritários de pesquisa, a preocupação com as inter-relações e interações entre empresas e outros tipos de instituições. Hoskisson et al., (1999), ao abordarem os ciclos recorrentes e sucessivos de evolução de correntes de pensamento na área, citam estudos voltados para as relações existentes nas fronteiras organizacionais (“boundary relationships”), onde se incluem as parcerias. Embora mencionando a temática das interações entre empresas, nenhum destes autores avança no tema particular das alianças estratégicas. Tal situação é um pouco diferente da observada em Mintzberg et al., (2000). Estes autores, ao classificarem e organizarem as contribuições existentes, em termos de grandes “escolas” de pensamentos, debruçam-se sobre o tema da cooperação entre empresas. Situam a vertente da “Formulação Cooperativa da Estratégia” (2000:172) - de onde derivam, segundo eles, as proposições sobre “redes”, “estratégias coletivas”, “empreendimentos conjuntos” e “alianças estratégicas” – no contexto da designada escola do poder. Esta escola visualiza a estratégia como um processo de negociação. Embora a proposição dos autores permita incorporar uma dimensão importante do fenômeno de interesse, ela não capta a totalidade das preocupações e enfoques, sejam de natureza descritiva ou prescritiva, existentes sobre alianças e estratégias colaborativas.

Os próprios autores reconhecem a sintonia existente entre algumas das concepções teóricas por eles inseridas no escopo da escola do poder (a exemplo da visão das teorias baseadas em recursos e das capacidades dinâmicas) com a escola do aprendizado. Esta, por sua vez, ao incluir a abordagem das capacidades dinâmicas, identifica-se, segundo os autores, com a escola empreendedora. Mas, finalmente, concluem que tal abordagem seria um “híbrido das escolas do design e do aprendizado” (2000:161). Pode-se observar, na taxonomia proposta, que a temática da cooperação perpassa por várias das escolas. Não se constitui, no entanto, em uma vertente independente ou, mesmo, no cerne de preocupações de nenhuma delas em particular. Embora permitindo uma visão ampla e coerente das escolas sobre estratégia em geral, as contribuições desses autores para a temática da cooperação são relativamente modestas. Destoando da natureza da abordagem de Mintzberg et al., (2000), situam-se Volberda (2004) e Elfring e Volberda (2001). Preocupados em distinguir as várias perspectivas teóricas existentes no domínio do pensamento estratégico e em consolidá-las em três grandes escolas, concluem por destacar, entre estas, a “escola do limite” (boundary school”). Esta escola propõe-se a descrever a estratégia como um processo de cooperação e interação envolvendo diferentes organizações. Incluem-se aí os estudos sobre os limites das fronteiras empresariais, as interfaces entre a empresa e o ambiente e as alianças entre distintas organizações. Embora os autores avancem nas reflexões sobre cooperação e estratégia, eles não se preocupam em identificar e analisar as várias perspectivas teóricas existentes sobre alianças e estratégias colaborativas.

Entre os autores que buscaram identificar diferenciações presentes no conjunto de proposições ou concepções envolvendo a temática das alianças e estratégias colaborativas, alguns investiram na elaboração de tipologias de análise (sobre tipologias em ciências sociais ver Bruyne, Herman, & Schoutheete, 1977) ou em taxonomias (sobre taxonomia em alianças estratégicas, ver Koza & Lewin, 1998). Ou seja, buscaram identificar, mapear ou classificar subconjuntos mais ou menos homogêneos e coerentes de pensamentos e proposições ou, mesmo concepções e conceitos aí presentes. É o caso, por exemplo, daqueles que buscaram organizar e esclarecer conceitos frequentemente utilizados em estudos sobre estratégias colaborativas, como Preece (2006), que apresenta as três possibilidades de definição de uma aliança estratégica; Eiriz (2001), que apresenta as várias formas possíveis que podem se revestir as alianças estratégias; Kanter (1990) e Child et al., (2005) que buscaram os fundamentos e tipos possíveis de alianças. Outros autores, embora mencionando diferentes bases teóricas utilizadas nos estudos sobre estratégias colaborativas, não se preocuparam em esgotar o assunto ou em realizar uma análise mais integrada e articulada de todo o conjunto, mostrando como cada parte se associa com as demais. É o caso, por exemplo, de Costa (2005), que identificou cinco áreas preferenciais de estudos; de Begni, Pedrozo e Estivalete (2008), que identificaram três áreas preferenciais de estudos; de Noël e Zhang (1993), que listaram seis possibilidades.

Apesar das contribuições geradas por essas diferentes tentativas de identificação ou elaboração de certas categorias de análise, o que se observa é que o campo carece, ainda hoje, de uma visão mais abrangente, capaz de resgatar, incorporar e integrar proposições hoje dispersas em várias áreas de conhecimentos. Iniciativas nesse campo poderiam ser vistas como passos iniciais em direção à elaboração de uma concepção teórica mais geral sobre estratégias colaborativas, como almejada por Osborn e Hagedoorn (1997). A tentativa de realização de um trabalho desse tipo apresenta alguns desafios. A preocupação que norteou a presente investigação foi a de identificar, analisar e classificar os principais blocos de concepções teóricas que embasam as investigações na área, distinguindo e comparando os fundamentos e pressupostos básicos aí presentes, no que diz respeito ao processo estratégico, a noção da cooperação e a visão do ambiente. Nesse contexto, alguns cuidados tiveram que ser tomados.

O primeiro deles adveio devido à natureza do posicionamento da temática da cooperação no interior de algumas escolas de estratégia, em geral. Tal tema, eventualmente, encontrava-se inserido de maneira mais ou menos difusa ou parcialmente “escondida” no interior de alguma “escola” de estratégia ou de um determinado campo de conhecimento. Houve, então, um esforço de maior explicitação. Foi o caso, por exemplo, da abordagem sobre poder de mercado, cujas bases teóricas encontram-se inseridas na “escola” que Mintzberg et al., (2000) designaram por Posicionamento. Foi o caso, também, da abordagem das redes sociais, extraída do amplo domínio da sociologia econômica e da teoria das redes sociais. Um segundo tipo de cuidado adveio pela necessidade de caracterizar, de maneira mais clara e inequívoca, as linhas divisórias existentes entre as várias perspectivas teóricas. Nota-se, em alguns momentos, que existem pequenas sobreposições. É o caso, por exemplo, da teoria baseada em recursos e das teorias de aprendizado. Um terceiro tipo de cuidado adveio pelo fato de que, na criação de quaisquer categorias de análises, existe sempre o risco de se valorizar certos atributos ou fundamentos de um determinado construto teórico-conceitual, em detrimento de outros, de maneira a permitir maior coerência analítica. Buscou-se evitar este tipo de problema, recorrendo-se sempre ao cerne de cada uma das proposições e concepções teóricas estudadas. Ou seja, buscou-se sempre o elemento comum mais básico que unia diferentes obras e autores pesquisados, que poderiam ser associados a cada uma das diferentes perspectivas teóricas analisadas.

Salienta-se que o presente trabalho não pretende esgotar o assunto. Busca sinalizar caminhos interessantes e atraentes de investigações sobre alianças e estratégias colaborativas e os eventuais encadeamentos das escolhas teóricas realizadas nesse vasto e fértil campo de conhecimentos, em plena construção.
PERSPECTIVAS TEÓRICAS: CONTEXTOS E FUNDAMENTOS

Analisando-se o amplo e diversificado conjunto de proposições, concepções, estudos e pesquisas existentes na área, é possível constatar que os mesmos podem ser consolidados em sete grandes conjuntos mais integrados ou coerentes de reflexões. São eles: i) teorias militares; ii) teoria dos jogos. iii) teoria dos custos de transação; iv) escola do posicionamento e poder de mercado; v) abordagem das redes sociais; vi) teoria baseada em recursos; vii) abordagem do aprendizado. Cada um deles será apresenta a seguir. Observa-se que houve aí uma preocupação em contextualizar cada um, de citar autores e obras que pudessem ser considerados representativos e de identificar as respectivas proposições e concepções básicas aí presentes. Tendo em vista o propósito do artigo optou-se, quando necessário, por valorizar mais uma referência clássica ou representativa da área, ao invés de uma simplesmente mais recente.



Teorias militares

A palavra “estratégica” origina-se do grego stratêgiká, que significa as táticas ou manobras de um general ou um tratado sobre as técnicas de guerra (Houaiss, 2001). A arte ou ciência da estratégia nasceu de observações, reflexões e proposições sobre os campos de batalha, as manobras militares, os confrontos políticos e as negociações diplomáticas. Quinn (2006) observa que grande parte do conhecimento atual sobre estratégia resultou de uma apropriação, adaptação e atualização de idéias, proposições e máximas já observadas por autores clássicos, a exemplo de Zun Tzu, Maquiavel, Von Clausewitz e Foch. Para Quinn, conceitos similares aos utilizados no passado por generais e diplomatas “permeiam as estratégias bem sucedidas - sejam elas estratégias governamentais, diplomáticas, militares ou empresarias” (2006:32). O domínio das estratégias militares e diplomáticas sempre foi permeado por intrigas, rivalidades latentes, disputas acirradas, guerras declaradas, negociações e acordos circunstanciais e provisórios.

Neste contexto destaca-se a temática das coalizões, que se constituem em alianças temporárias, realizadas por diferentes agentes (indivíduos, empresas, grupos, países, etc.) dotados de objetivos muito diferentes entre si. Gambson (1961), ao elaborar a sua teoria da formação de coalizão, menciona, como exemplo extremo de coalizão, o caso de Hitler e Stalin, dois adversários mortais que assinaram, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, um Pacto de não agressão (Pacto Ribbentrop-Molotov) pretendendo, cada um deles, ganhar tempo antes do inevitável confronto final. No contexto dos estudos organizacionais, Thompson (1967) é considerado um dos pioneiros a enfocar a formação de coalizões (Hoskisson et. al., 1999)

Na coalizão, os atores envolvidos são capazes de atingir objetivos mutuamente excludentes no futuro, através de alianças no presente, que garantem a cada um deles o atendimento a certos propósitos imediatos. Não raro, no mundo dos negócios, duas ou mais empresas são capazes de se associar, temporariamente, com o propósito, por exemplo, de superar um hiato competitivo circunstancial, obter ou preservar algum tipo de vantagem competitiva ou enfraquecer um concorrente. Preece (2006) recorre a conceito semelhante, quando se preocupa em descrever a estratégia empresarial movida por interesses que ele classifica como de gerar “restrições”. Neste caso “dois ou mais parceiros se reúnem para impedir a concorrência ou beneficiar-se do poder combinado de mercado” (2006:228)”.

Dentro desta perspectiva de análise, o ambiente é vislumbrado como um espaço povoado por ciladas e empecilhos a serem contornados ou superados, através de acordos e parcerias circunstanciais, inclusive com potenciais rivais. O estrategista é visto como um ser racional, capaz de identificar as ameaças do ambiente e as manobras de inimigos (rivais) e de forjar alianças e parcerias momentâneas, que poderão ser rompidas no momento oportuno.
Teoria dos Jogos

A teoria dos jogos, concebida inicialmente por John Von Neumann e Oskar Morgenstern, parte do principio que existem interdependências estratégicas coletivas resultantes de ações individuais. Ou seja, um determinado ator (indivíduo, empresa, comunidade, país, etc.) é dependente das ações e decisões de outros atores com os quais interage direta ou indiretamente. Tais interações podem ser modeladas em um jogo, onde cada ação ou iniciativa encontra-se condicionada à expectativa de reação que ela desencadeia. Pode-se dizer que as teorias dos jogos (estratégicos) buscam regras de otimização do comportamento social em situações onde os jogadores rivais (empresas) não dominam o conjunto de variáveis que condicionam o resultado final da decisão. Tal abordagem encontrou solo fértil no campo social e empresarial (Dixit & Nalebuff, 2008; Andrade & Dias, 1998). Alguns dos jogos dedicam-se à identificação e modelagem de situações onde as interdependências estratégicas são capazes de gerar uma dinâmica competição-colaboração.

Destaca-se aí o jogo Dilema dos Prisioneiros. Sobre as origens deste jogo, que remontam à década de 1950, ver Dixit e Nalebuff (2008) e Alxerod (1984). Graças, inclusive aos trabalhos de Alxelrod (1984, 2001), que o jogo se transformou em um dos pilares dos estudos sobre estratégias de cooperação. Axelrod explorou circunstâncias em que jogadores racionais e dotados de objetivos aparentemente contraditórios são capazes de aprender a colaborar entre si, visando otimizar benefícios mútuos. Para o autor (1984:2), o problema inicial básico “ocorre quando a busca do auto-interesse (individual) gera os piores resultados para todos os envolvidos”. Nestas circunstâncias, os atores envolvidos podem aprender que a colaboração mútua constitui-se o caminho mais racional e ser seguido, evitando a “tragédia dos comuns”. Tal proposição, em sua essência, contraria pressupostos de racionalidade presentes na economia clássica, segundo os quais a busca do auto-interesse individual otimiza ganhos coletivos. O dilema dos prisioneiros vem mostrar que, em muitos casos, a racionalidade individual (associada à busca do auto interesse) pode ser irracional tanto do ponto de vista coletivo quanto individual. Este tema vem sendo objeto de inúmeros estudos e pesquisas na literatura sobre estratégia empresarial (Orléan, 1994; Brandenburge & Nalebuff, 1997; Dixit & Nalebuff , 1993, 2008; Vale, Wilkinson, & Amâncio, 2006).

No contexto destes estudos, decisões sobre colaboração podem ser vislumbradas como dependentes de fatores associados à natureza do jogador e às circunstâncias do seu ambiente. Incluem-se aí o tipo de posicionamento competitivo perseguido pela empresas; o impacto das externalidades advindas das interações competitivas; as possíveis sinergias decorrentes de uma cooperação; a presença de interlocutores confiáveis capazes de iniciar um processo de diálogo e negociação entre as partes; o caráter repetitivo ou não das interfaces, transações e experimentos, etc.



Poder de mercado

A noção que as empresas buscam, através de alianças estratégicas, ampliar a competitividade, obtendo posições mais fortes no mercado, busca alguns de seus fundamentos na economia industrial. Nesse contexto situa-se Porter (1980, 1885, 1990, 2003), que utilizando elementos de análise estrutural, elaborou modelos para a análise da estrutura da indústria. Advém daí o modelo das cinco forças competitivas que modelam a estrutura do setor/ indústria, caracterizando as regras prevalentes de concorrência. O desempenho de uma empresa irá depender desta estrutura e, também, da posição relativa que a empresa ocupa no setor, que caracteriza a natureza de seu posicionamento e lhe garante o “poder de mercado”.

Entre os mecanismos que permitem à empresa uma vantagem competitiva diferenciada, situa-se a capacidade de estabelecer parcerias e desenvolver alianças. Estas articulações podem ocorrer no contexto de uma cadeia produtiva (constituindo uma relação empresa - fornecedor), no contexto de um grupo industrial (reunindo empresas associadas a um determinado grupo) ou nas aglomerações regionais de empresas (que constituem os clusters produtivos). Diferentes autores apresentam contribuições nessas áreas. Bowersox (1998), por exemplo, em um estudo sobre as vantagens da colaboração e parceria no contexto de uma cadeia de suprimentos, mostra como todos saem ganhando quando os varejistas, os fabricantes e as empresas de logística se unem. Newman (1978) e Mascarenhas (1989), entre outros, abordam, em seus estudos, o tema da afiliação de empresas a grupos estratégicos. A temática das aglomerações regionais de empresas, valorizada por Porter (2003) vem atraindo grande atenção dos estudiosos (Vale, 2007). Para Porter (1999:100), “as vantagens competitivas duradouras em uma economia globalizada dependem, cada vez mais, de fatores locais”. Aí se incluem o conhecimento, os relacionamentos, a motivação e outros, os quais os concorrentes localizados geograficamente mais distantes não teriam como usufruir.

No contexto destes estudos, a colaboração é vislumbrada, em geral, como parte de uma estratégia visando o melhor posicionamento de uma empresa ou de grupos de empresas no mercado, tendo em vista a estrutura do setor. O poder de mercado pode advir de decisões empresariais envolvendo, por exemplo, a busca de parcerias com empresas situadas em pontos estratégicos da cadeia produtiva, a afiliação a certos grupos empresariais ou a inserção em certas aglomerações produtivas regionais. Caberia ao estrategista estar atento ao ambiente de negócios, calibrar a capacidade de competição de sua empresa com as possibilidades de colaboração e interação com outras empresas, adotando estratégias que permitiriam diferenciar sua empresa das demais.


Teoria dos custos de transação

A teoria dos custos de transação (Willianson, 1975, 2005), inspirada em proposições de Coase (1937) e Simon (1965), dedica-se ao estudo do comportamento organizacional nas interfaces existentes entre a hierarquia e o mercado. Hierarquia e mercado representam casos polares de organização da atividade econômica. Entre eles situam-se as chamadas formas híbridas, onde se inserem as parcerias empresariais. Para Willianson (1975) sempre que ocorre uma transferência de um determinado bem através de uma interface tecnologicamente divisível existem custos de transação. Custos de transação seriam aqueles associados à gestão de sistemas produtivos. Tais custos, segundo o autor, seriam derivados de dois pressupostos básicos: a noção de racionalidade limitada do tomador de decisão (ou seja, a incapacidade humana de prever, no momento da negociação, tudo o que poderá ocorrer durante a vigência de um contrato) e a existência de comportamento interesseiro dos envolvidos na transação (possibilidade de uso de assimetrias de informações em benefício próprio). As empresas, pressionadas a tomar decisões entre produzir internamente um determinado produto (governança baseada em hierarquia) ou adquiri-lo no mercado (governança baseada no mercado) podem decidir investir em uma alternativa intermediária, desenvolvendo, por exemplo, parcerias com fornecedores (formas híbridas de governança).

A escolha da melhor alternativa a ser adotada pela empresa (se vai produzir, se vai comprar no mercado ou se vai desenvolver parceria com algum fornecedor) dependerá de um conjunto de fatores associados às características e condições da transação a ser efetuada, com impacto direto sobre os curtos. Incluem-se, entre estes fatores, a especificidade dos ativos envolvidos na transação, a freqüência das transações e os riscos - presentes ou futuros – provenientes das incertezas associadas à dinâmica ambiental. Se a especificidade dos ativos envolvidos for elevada, maiores os riscos e os custos de transação associados à uma decisão de se obter fora. Tal fato levaria a empresa a produzir o bem internamente. Em condições em que os custos de transação - no presente e no futuro – associados à realização de parcerias forem considerados baixos, a empresa poderá optar por uma associação com um ou mais fornecedores. Tais casos podem acorrer, por exemplo, quando a especificidade dos ativos for baixa ou as transações forem de natureza mais repetitiva. Esta teoria vem sendo muito utilizada na área de estratégia (King, 2007; Bradach & Eccles, 1989; Arbage & Balestrin 2007, Parkhe, 1993).

A abordagem, coerente com pressupostos econômicos neoclássicos, domina o campo dos estudos neo-institucionalistas. Nesse contexto, as empresas são vislumbradas como atores zelosos de seus auto-interesses mas dotados de racionalidade limitada, com dificuldades de processar todas as informações necessárias e de assumir sozinhos certos riscos associados a eventuais mudanças no ambiente. Em certos contextos são, então, obrigadas e buscar alianças e parcerias externas




Teoria das redes sociais

Na origem destas reflexões situa-se Granovetter (1973, 1985, 1991, 2005), em particular com suas proposições sobre embeddedness1 ou seja, a noção as “transações econômicas de todo tipo encontram-se repletas de conexões sociais” (1985:63). Nesse ambiente, o mercado anônimo do modelo neoclássico é, virtualmente, não inexistente na vida econômica. Como não é possível uma análise do fenômeno econômico, abstraindo-se de suas raízes sociais, é fundamental conhecer a lógica e a natureza das imersões dos atores (indivíduos ou empresas) nas redes de relacionamentos e nas estruturas sociais. Apenas assim seria possível uma compreensão plena da dinâmica das transações econômicas e mercantis. Granovetter e McGuirre (1998), em um estudo clássico sobre o nascimento da indústria de eletricidade dos Estados Unidos, mostram como as decisões estratégicas iniciais – incluindo a busca por aliados - que acabaram por forjar a estrutura do setor elétrico no país, foram condicionadas por circunstâncias sociais e relações pessoais. Observa-se, nesse contexto, que iniciativas empresariais são circunstanciais e dependentes das redes sociais onde as empresas e seus tomadores de decisão encontram-se imersos. Concepções aí geradas vêm exercendo grande impacto nos estudos sobre estratégia e competitividade empresarial (Burt, 1987,1992, Dosi & Malerba, 1996; Gulati, Nohria, & Zaheer , 2000; Vale, 2007)

Isso significa que para se analisar a lógica das estratégias e alianças empresariais existe necessidade de se conhecer, também, a natureza das relações sociais aí presentes, visto que a capacidade de forjar alianças e parcerias encontra-se condicionada a vinculações sociais dos atores envolvidos. Os estudos nessa área incorporam diferentes indagações. Visam analisar, por exemplo, como ocorrem as interconexões entre as relações sociais e as empresariais e em que medida uma condiciona ou incrementa a outra e a própria estratégia empresarial (Gulati et al., 2000, Cross, Borgatti, & Parker, 2002); se o posicionamento competitivo de um ator (a exemplo de uma empresa) no mercado pode ser condicionado ou explicado por sua posição no contexto de uma rede de relações sociais (Burt, 1992); como as alianças estratégicas encontram-se enraizadas no portfolio adaptativo da empresa e das práticas adaptativas da industria (Koza & Lewin, 1998); se as redes sociais presentes em uma organização, ao promoverem a colaboração e a integração entre seus membros, incrementariam decisões estratégicas (Cross et al., 2002).

Tal abordagem contraria pressupostos que empresas são atores movidos exclusivamente por racionalidade e, como tal, capazes de perseguir, a todo momento, uma melhor estratégia. Na verdade, a estratégia adotada é resultante da influência e dos condicionantes gerados pelas estruturas sociais. Prevalece a noção que o ambiente é composto por uma multiplicidade de rede, onde atuam e interagem atores (individuais e/ ou coletivos) que se encontram imersos em certas redes que, por sua vez, influenciam a natureza das estratégias que são capazes de implementar. Nesse contexto, as possibilidades estratégicas surgem como resultantes de uma interação dinâmica entre as redes sociais e os interesses empresariais.


Teoria baseada em recursos

Segundo Wernerfelt (1997), a teoria baseada em recursos representa um quebra cabeça em plena construção. Para Haugstad (1999) esta teoria reuniria vários tópicos associados mas distintos, incluindo: i.) visão baseada em recursos, onde destacam-se autores como Grant e Peteraf; ii) competências essenciais, com Prahalad e Hamel;. iii.) capacidades dinâmicas, com autores como Teece e Pisano. Inserem-se, neste conjunto, diferentes tipos de reflexões e proposições (Penrose, 1997; Peteraf, 1995; Wernerfelt, 1997; Teece, 1997; Prahlad & Hamel, 1997). Ao longo do desenvolvimento dessa abordagem ocorreu uma mudança e ampliação no conceito e na natureza dos recursos considerados estratégicos (Lockett, Thompson & Morgenstern, 2009). Tal fato levou, por um lado, de uma visão estática para uma visão mais dinâmica de recursos e, por outro, de uma ênfase em recursos materiais para uma enorme variedade de recursos de natureza intangível, valorizando-se as competências e capacidades dinâmicas.

Para Ambrosini e Bowman (2009) a perspectiva da capacidade dinâmica, que ampliou a visão baseada em recurso, vem, desde a década de 1990, avançando consideravelmente. Destacam estes autores que a literatura na área mostra como as alianças podem, de fato, ser vislumbradas como um tipo específico de capacidade dinâmica, à medida que possibilitam a renovação e a reconfiguração dos recursos empresariais. A temática da cooperação vem sendo abordada de diferentes maneiras por distintos autores. Combs e Ketchen Jr. (1999), por exemplo, buscaram associar a cooperação entre empresas com suas respectivas performances, utilizando noções presentes na visão baseada em recursos com conhecimentos derivados da economia industrial. Barney (2002), por seu lado, destaca a importância da combinação de recursos complementares provenientes de diferentes empresas engajadas em um processo de parceria. Hamel, Doz e Prahajlad (1989) destacam as vantagens da colaboração inclusive envolvendo potenciais concorrentes. Hamel (1991) destaca um tipo de competição baseada em competência citando casos de alianças estratégicas internacionais.

No cerne desses estudos existe o pressuposto que, apesar de todas as dificuldades de natureza prática, a cooperação envolvendo diferentes empresas – cada uma delas dotada de um conjunto específico de habilidades e recursos – é capaz de distingui-las no mercado. A parceria é aí vislumbrada como um recurso estratégico fundamental para a sobrevivência e o crescimento das empresas, pressionadas por um ambiente cada vez mais diferenciado e competitivo. Salienta-se que algumas concepções presentes nesta abordagem - em particular associadas às capacidades dinâmicas - apresentam grande convergência com proposições voltadas para o conhecimento e o aprendizado organizacional. Alguns autores, a exemplo de Hoskinson et al., (1999) chegam a inserir a “visão baseada em conhecimento” no contexto da “visão baseada em recursos”. Já, para Haugstad (1999), uma ponte entre a teoria baseada em recursos e as teorias do aprendizado é oferecida por alguns autores que analisam o valor estratégico do aprendizado organizacional. De qualquer forma, pode-se concluir que peculiaridades presentes neste último conjunto permitem vislumbrá-lo como um campo mais independente de reflexões e proposições.


Teorias voltadas para o aprendizado

Para muitos autores, a força indutora da competição empresarial sustentável repousa na capacidade de aprendizado, mudança e evolução da empresa. Buscam mostrar, então, como tal processo ocorre através de interações contínuas e dinâmicas entre diferentes agentes (pessoas/ empresas). Como já salientado por Polanyi (1958), a transmissão do conhecimento exige mais que simples palavras. Itami e Roehl (1987) enfatizam a crescente importância dos recursos intangíveis, baseados no conhecimento, no mundo dos negócios. Para Nonaka (1994) e Nonaka e Takeushi (1997) o conhecimento inclui uma importante dimensão tácita - formada por insigths, intuições e pressentimentos. Este tipo de conhecimento, fundamental no mundo de hoje, pode ser repassado e transmitido a terceiros exclusivamente através do contato pessoal e do compartilhamento possível apenas no dia a dia. Nesse contexto, as alianças e parcerias empresariais, ao promoverem o aprendizado organizacional interativo, adquirem um papel chave. Diferentes autores aí se situam.

Kogut e Zander (1992), por exemplo, enfatizam a importância da complementaridade de conhecimentos no processo de mudança tecnológica. Inkpen (2006), ao analisar como se dá a criação de conhecimentos em alianças estratégicas (envolvendo 40 joint-ventures formadas por empresas japonesas e americanas) salienta a natureza dinâmica do processo de aprendizado e a importância do conhecimento tácito, resultante de interações entre diferentes níveis organizacionais. Larsson, Bentssson, Henriksson e Sparks (1998) especificam os diferentes níveis de estratégias colaborativas, definidos a partir da capacidade de implementação de aprendizado coletivo. Hamel (1991) destaca a busca da competência organizacional por meio do aprendizado, ao estudar alianças internacionais. Lei e Slocum (1992) e Kale, Singh e Perlmutter (2000) enfatizam o interesse pela busca do conhecimento e de novas capacidades organizacionais em certas alianças estratégicas. Kogut (1988) destaca que a criação de joint ventures é vislumbrada, muitas vezes, como alternativa encontrada pelas empresas para facilitar o aprendizado organizacional. Hanvanich, Sivakumar e Hult (2006) identificam, em seus estudos, alta associação entre capacidade de aprendizado e performance organizacional.

A riqueza e a variedade de reflexões e proposições podem ser consideradas uma das caracteríticas desta vertente teórica que, em sua essência, destaca o papel das interações e parcerias entre diferentes atores/ empresas, como determinantes da competitividade. A cooperação permite deflagrar um processo de troca, adaptação e evolução das empresas em um mundo caracterizado por uma crescente complexidade e rápida mudança tecnológica.

À luz da literatura pesquisada e analisada, pode-se afirmar que cada uma dessas diferentes perspectivas teóricas é detentora de um conjunto específico de premissas e concepções sobre o processo estratégico, a cooperação e o ambiente (quadro 1). Tal tema, que resulta de uma contribuição original do presente trabalho, possui alta relevância para os estudiosos das estratégias colaborativas e será, então, destacado e comentado a seguir.
Quadro 1: Alianças e estratégias colaborativas: perspectivas teóricas e fundamentos sobre o processo estratégico, a cooperação e o ambiente



Base teórica



Processo estratégico


Cooperação e parceria


Visão do ambiente

1 Teorias Militares: heranças militares


Estratégia no contexto de necessidade de confrontos, coalizões para defesa de interesses individuais.


Busca de coalizão como forma de superação de limitações e garantia/ ampliação de recursos estratégicos

Ambiente hostil, composto por inimigos naturais e aliados circunstanciais

2. Teoria dos jogos: jogos

evolucionários

estratégicos


Interdependência nos comportamentos estratégicos de potenciais rivais

Parceria resultante de experimentação e aprendizado, evitando dilema dos prisioneiros e permitindo otimizar benefícios mútuos.


Ambiente competitivo onde atores racionais, capazes de aprender, buscam otimizar ganhos

3.Poder de mercado:

posicionamento no mercado



Estratégia visando melhor posicionamento de uma empresa e maior poder de mercado

Parcerias, no contexto de uma cadeia produtiva um grupo empresarial ou região, como forma de incrementar o poder de mercado de uma empresa

Ambiente competitivo onde empresa necessita posicionar-se de maneira diferenciada


4.Teoria dos custos de transação:

Formas de governança e custos de transação



Estratégia derivada da preocupação com custos de transação em contexto de racionalidade limitada e comportamento interesseiro.

O recurso às parcerias como estratégia de redução dos custos de transação

Ambiente instável e turbulento, onde empresas aliadas buscam reduzir riscos provenientes de incertezas e mudanças.


5. Teoria das redes sociais:

as dimensões sociais das iniciativas empresariais



Estratégia resultante de interações entre relações sociais e interesses empresariais

O lado invisível das alianças e estratégias empresariais, condicionadas e influenciadas pela lógica das redes sociais

Ambiente formado por proliferação de redes sociais e empresariais interconectadas, que condicionam oportunidades individuais e coletivas

6. Teoria baseada em recursos: especificidade dos recursos estratégicos

Estratégia enfocando utilização/ desenvolvimento de recursos, habilidades e capacidades internas

O papel das interações e a visão das alianças entre as capacidades dinâmicas, capazes de permitir a renovação de outros recursos empresariais

Ambiente com alto grau de diferenciação, vislumbrado como plataforma de oportunidades p/ criação e desenvolvimento de novos recursos e capacidades

7. Teorias do aprendizado: ênfase no aprendizado interativo

Associação entre estratégias, competências organizacionais e capacidade de aprendizado

A importância da interação e do compartilhamento de conhecimentos entre empresas na competitividade empresarial

Ambiente competitivo e dinâmico, exigindo compartilhamento de informações/ conhecimentos entre empresas


Fonte: elaboração própria
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se observar, pela análise do quadro anterior, que cada uma das diferentes perspectivas teóricas é detentora de um conjunto específico de premissas, concepções e proposições sobre o processo estratégico, a cooperação e o ambiente. No contexto das teorias militares o processo estratégico é vislumbrado como um espaço de conflitos, confrontos e negociações, onde são construídas alianças circunstancias e onde diferentes atores interagem com o propósito de defender ou consolidar posições ou conquistar novos recursos e espaços de mercado. No contexto da teoria dos jogos, a estratégia envolve um processo dinâmico de interação entre potenciais rivais, dotados de racionalidade e com capacidade de aprender a colaborar visando um ganho total maior. Os pressupostos de racionalidade limitada e de comportamento oportunístico fundamentam o processo no âmbito da teoria dos custos de transação, onde a cooperação é construída quando é considerada a estratégia de menor custo. No outro extremo – afastando-se de pressupostos de racionalidade e de oportunismo presentes na teoria dos custos de transação – situa-se a teoria das redes sociais, que considera que o processo estratégico pode ser condicionado e afetado pelas redes sociais dos atores envolvidos. Já no caso das teorias voltadas para o poder de mercado, a estratégia é considerada um processo de posicionamento da empresa no mercado, levando-se em consideração, em especial, a situação da empresa na estrutura industrial/ setorial. Neste caso, em particular, tal proposição destoa da visão da teoria baseada em recursos, que posiciona os recursos internos controlados pela empresa no centro do processo estratégico. Já as teorias do aprendizado distinguem, nos processos estratégicos, a dinâmica de aprendizado via interação e cooperação.

Existem diferenças acentuadas entre as distintas vertentes teóricas na forma de abordar a temática da cooperação, aliança e parceria. No caso das teorias militares, a noção de cooperação perpassa pela formação de alianças circunstanciais e provisórias, utilizadas como mecanismos de superação de deficiências ou de conquista de espaços estratégicos. No caso da teoria dos Jogos, em particular no dilema dos prisioneiros, a cooperação resulta da possibilidade de experimentação e da capacidade de aprendizado da empresa, que chega a compreender que é possível, em alguns casos, otimizar benefícios mútuos. Nas teorias sobre poder de mercado, destaca-se a importância das parcerias e articulações entre empresas, como forma de incrementar a vantagem competitiva, melhorar o posicionamento e ampliar o poder no mercado. Na teoria dos custos de transação, o recurso às parcerias apresenta-se como uma tentativa de redução dos custos. Já a teoria das redes sociais destaca o lado invisível das alianças e estratégias empresariais e o impacto das redes sociais nesse contexto. A teoria baseada em recurso enfatiza, entre os recursos estratégicos das empresas, a capacidade de cooperar com parceiros. Por sua vez, as teorias do aprendizado destacam a importância do compartilhamento de informações e conhecimentos entre os parceiros no processo de evolução empresarial.

É possível observar que se encontra presente, como elemento saliente em todas as abordagens, uma grande preocupação com a dimensão do ambiente. Esta, no entanto, manifesta-se de maneiras bastante distintas em cada uma delas. No caso das teorias militares prevalece o pressuposto de hostilidade ambiental e a noção de ambiente composto por inimigos naturais e aliados circunstanciais. Na teoria dos jogos destaca-se a presença de um ambiente competitivo, povoado por atores interconectados, com capacidade de aprender e interessados em otimizar seus ganhos. Nas teorias sobre poder de mercado prevalece a noção de um ambiente competitivo, onde a empresa necessita articular-se para melhor posicionar-se face à existência de forças competitivas. A teoria dos custos de transação, por sua vez, vislumbra a presença de ambiente instável e turbulento, onde empresas aliadas buscam reduzir custos e riscos provenientes de mudanças e incertezas. No contexto da teoria das redes sociais o ambiente é representado por uma proliferação e sobreposição de redes, que formam as estruturas sociais e condicionam as oportunidades individuais e coletivas. Na teoria baseada em recursos o ambiente é vislumbrado como uma plataforma de oportunidades para a criação e o desenvolvimento coletivo de novos recursos e capacidades. Finalmente, nas teorias do aprendizado, prevalece a noção de ambiente hipercompetitivo e dinâmico, exigindo grande capacidade de compartilhamento de informações e conhecimentos entre diferentes agentes/ empresas.

Comparando-se as sete vertentes de análise é possível identificar maiores ou menores sintonias entre elas. Algumas teorias são incompatíveis entre si e dificilmente poderiam ser conjugadas em investigações empíricas. É o caso, por exemplo, da teoria das redes sociais com a teoria dos custos de transação. Os pressupostos de racionalidade restrita, presentes nesta última, seriam, a primeira vista, incompatíveis com proposições presentes na primeira, que consideram que as estruturas sociais influenciam as decisões empresariais. A teoria das redes sociais também apresenta certas incompatibilidades com abordagens presentes na teoria dos jogos. No outro extremo, existem teorias que apresentam alta compatibilidade entre si. É caso, por exemplo, da teoria baseada em recursos e das teorias do aprendizado. Mas diferentes enfoques teóricos podem engendrar distintos tipos de abordagens empíricas.

No bojo das teorias militares podem se situar, de maneira conveniente, análises de estratégias empresariais agressivas baseadas em parcerias circunstanciais, implementadas por empresas líderes, na batalha pela conquista de maiores fatias de mercado. No contexto da teoria dos jogos - onde se situa o dilema dos prisioneiros - existem amplos espaços para a análise da evolução da cooperação envolvendo, por exemplo, empresas concorrentes, localizadas em uma mesma localidade ou região. Na teoria voltada para o poder de mercado seria possível analisar o impacto das relações diferenciadas de parceria entre uma empresa e seus fornecedores, no que diz respeito às condições competitivas e ao posicionamento da empresa no mercado. Da perspectiva da teoria dos custos de transação podem ser estudadas as parcerias no contexto de uma cadeia de suprimentos, onde empresas se mostram mais propensas à colaboração quando as transações forem de natureza mais repetitiva, os ativos envolvidos pouco específicos e o futuro parecer incerto. O recurso à teoria das redes sociais permitira estudar, por exemplo, os condicionantes sociais existentes nos processos de realização de parceria e alianças estratégicas envolvendo empresas ou grupos empresariais. A teoria baseada em recursos tornaria possível abordar as relações de parceria, envolvendo duas ou mais empresas, como um tipo particular de recurso estratégico, fundamental para o sucesso empresarial. No contexto das teorias do aprendizado, a análise poderia enfocar as conseqüências de certos tipos de parcerias – em particular as que pressupõem compartilhamento e transferência de conhecimentos – na competitividade empresarial.



Conclui-se, à luz das pesquisas e das reflexões, que dificilmente seria possível, neste estágio de evolução e produção de trabalhos sobre alianças estratégicas, a criação de uma teoria única, como sonhada por Osborn e Hagedoorn (1997). Mas muitos passos vêm sendo dados no sentido de uma melhor estruturação e organização desse vasto campo de conhecimentos. Uma contribuição importante do presente trabalho advém do fato de melhor explicitar e organizar as perspectivas teóricas e mostrar como as mesmas articulam-se entre si. Tal preocupação é particularmente importante no estágio de evolução das pesquisas na área. O que se observa, em muitos destes estudos, é uma tendência em direção à associação ou combinação de diferentes bases teóricas. Neste contexto, em particular, o tema das incompatibilidades – ou incompatibilidades – teóricas, com aqui abordado, ganha novo relevo. Salienta-se, finalmente, que se espera que este trabalho possa não apenas ajudar no melhor posicionamento das investigações empíricas na área como, também, dar origem a novas reflexões teóricas. Inclusive versando sobre cada uma das distintas perspectivas teóricas aqui apresentadas. Dentro de cada uma delas existe um grande campo de conhecimentos a ser explorado, o que justificaria um estudo específico para cada uma.
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