The return of the black cat: the travel narrative as literary journalism in the work of Dr. Erico Verissimo



Baixar 107.58 Kb.
Página3/4
Encontro07.10.2019
Tamanho107.58 Kb.
1   2   3   4

4. O On the road de Erico Verissimo


“Chegamos a Nova Orleans às nove horas duma clara manhã, saltamos para a plataforma da estação, respiramos com gosto este ar dourado e fresco, metemos nossas malas e nossos corpos num táxi amarelo e pedimos ao condutor que nos leve ao Hotel Palm” (VERISSIMO, 1996a, p.67). Essa frase, escrita por Verissimo enquanto cruza os Estados Unidos da costa leste a oeste de trem poderia ser um trecho da já referida obra de Kerouac. Na verdade, Verissimo é mais um viajante, dentre tantos outros, que coloca as suas experiências em narrativas. Porém, é possível considerar a obra de Erico Verissimo como uma narrativa jornalística de viagem? Para responder a essa indagação, começa-se recorrendo às reflexões de Martinez sobre a relação entre narrativa de viagem e jornalismo literário:
A partir desse ponto, a nascente literatura de viagem estaria marcada pela visão de um autor que empreende uma longa jornada com um único ou vários destinos sequenciais. Esse estilo autoral, aliás, é considerado elemento-chave no estudo do Jornalismo Literário, vertente jornalística que se dedica ao estudo das narrativas de viagem [...] (MARTINEZ, 2016, p.72-73)
Para tanto, a narrativa pode ser publicada nas mais diversas plataformas midiáticas, dentre as quais, o livro-reportagem. Para Martinez (2016), há dois elementos fundamentais para uma narrativa ser considerada de viagem: 1) essas narrativas primam pela observação, permitindo diversos níveis de aproximação, sendo o mais profundo a observação participante e; 2) a interpretação do material coletado. Isto posto, considerando-se que Verissimo, além de escritor, também foi jornalista, e que e o texto de A volta do gato preto pode ser considerado um livro-reportagem, é possível pensar na narrativa do autor sob a perspectiva do jornalismo. Esse é o primeiro passo para se obter a resposta à pergunta apresentada. Para aprofundar essas reflexões é imprescindível que se contextualize a obra de Verissimo.

Conforme mencionado no início do artigo, A volta do gato preto é um livro sobre a segunda passagem de Verissimo pelos Estados Unidos. Na primeira, Gato preto em campo de neve, ele justifica a escolha do título, se valendo de ficção: o escritor conta que o título foi sugerido por um gato negro que estava em meio à neve no Colorado enquanto o trem cruzava pelas montanhas. Enquanto que no primeiro livro a experiência do autor em solo norte-americano é de três meses, no segundo é de dois anos.

A viagem resulta de uma estadia do escritor em Berkeley, nos Estados Unidos, entre 1943 e 1945, a convite da universidade local, onde ele ministra aulas sobre literatura brasileira. Durante esse período, o autor vivencia a Segunda Guerra Mundial estando em um país que era protagonista no conflito, vive experiências pessoais e familiares com a esposa e dois filhos que chegam ao país sem falar inglês, acompanha as eleições presidenciais, testemunha a morte de Roosevelt, cruza o país de trem, trabalha como tradutor para o músico Villa Lobos, consegue um emprego para um ascensorista de hotel em Hollywood, vive o Halloween, a universidade, enfim, leva uma vida de imersão na cultura americana.

Para analisar mais a fundo o relato de Verissimo, opta-se pela classificação dos elementos de uma a narrativa que são, conforme Gancho (2006): enredo, personagens, tempo, espaço e narrador. Por ser uma categoria mais ampla, nesse artigo será observado o enredo, ou seja, “o conjunto dos fatos de uma história” (GANCHO, 2006, p.12).

Inicialmente deve-se salientar que o livro de Verissimo é dividido em quatro partes. Na primeira, que leva o título de Os argonautas, o autor narra desde a aterrisagem aos Estados Unidos, em Miami, até a chegada em Los Angeles, na Califórnia, e compreende ao período de 7 de setembro de 1943 até 23 de outubro do mesmo ano. A segunda parte, intitulada Diário de San Francisco, conta muito da rotina do escritor e da família na cidade onde fica o campus da Universidade da Califórnia, e abrange o período de 24 de outubro de 1943 até 28 de junho de 1944. A terceira parte, Interlúdio, trata do curso de férias que Verissimo ministra no Mills College entre 30 de junho a 6 de agosto de 1944. Por fim é abordada a mudança do escritor para Los Angeles nascendo o capítulo: Diário de Hollywood, período que vai 10 de agosto de 1944 e 28 de junho de 1945. Feita essa breve descrição, optou-se por dividir o enredo em cinco temáticas, a saber: 1) viagens, 2) família, 3) universidade, 4) cultura e 5) guerra.

A primeira temática identificada é viagens. Em determinado trecho da obra, quando Verissimo já está no meio acadêmico, um professor da Universidade da Califórnia afirma para o escritor que ensinar é a verdadeira vocação de Verissimo, ao que ele responde: “Quer saber duma coisa? O que sou mesmo é um viajante nato. Levei quase quarenta anos para descobrir isso” (VERISSIMO, 1996a, p.373). Não é a toa que o escritor brasileiro deu tal resposta, pois até chegar lá, Verissimo já tinha passado por diversos destinos do Brasil (ele cita Natal, Fortaleza, Maceió e Belém) e dos Estados Unidos.

Ainda no avião, Verissimo reflete sobre os possíveis receios que a esposa, Mafalda, estaria sentido: “Chegaremos vivos e inteiros? Que será de nós nessa terra estranha onde não existem criadas? Onde iremos morar? Quem serão nossos amigos? Como irei me arranjar nos mercados e nas lojas se de inglês não sei mais que duas palavras – yes e no?” (VERISSIMO 1996a, p.14). Além disso, ele narra a chegada ao aeroporto, passando pelo setor de imigração, onde tem que comprovar que está chegando ao país através de um convite para lecionar literatura brasileira na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Conquanto, o verdadeiro on the road de Verissimo começa em Miami. De lá até o outro lado do país, ele narra experiências vividas com a família, a falta de dinheiro e, caracterizando a obra como livro-reportagem, inclui diversas contextualizações históricas, descrições e interpretações. O escritor descreve Miami, por exemplo, como “parque de diversão de milionários” (VERISSIMO 1996a, p.27) e comenta sobre o boom imobiliário do período, com os moradores da Flórida se recuperando da crise de 1929. Já sobre a passagem por Nova Orleans, Verissimo descreve a culinária local: “Entre os quitutes famosos da terra encontra-se o bombo aux herbes que no francês dos pretos se transformou em gombô zhèbes” (VERISSIMO, 1996a, p.85). Já durante a passagem por El Passo, na fronteira com o México, o escritor reflete: “Texas é um verdadeiro império” (VERISSIMO 1996a, p.88) e cita o bairrismo dos texanos ao ouvir de uma garçonete a seguinte pergunta: “Vieram de tão longe... para morar na Califórnia?” (VERISSIMO 1996a, p.90). Além disso, o escritor descreve e também conta um pouco da história do Novo México e Arizona, principalmente das cidades de Tucson e Phoenix, tudo isso, em um tempo em que não havia nem internet, tampouco Google. Durante toda a narrativa sobre essa viagem ele já reflete sobre as diferenças culturais entre Brasil e Estados Unidos, além de revelar que os seus dois filhos e a esposa estavam ainda coma cabeça no país sul-americano: “As crianças não se querem afastar de mim, nem um minuto, no imenso horror de que alguém lhes dirija a palavra nessa língua barbaramente complicada” (VERISSIMO 1996a, p.58)

Ao chegar à plataforma em Berkeley, após um mês de viagem, um senhor questiona se ele é o doutor e o professor brasileiro que estão esperando, ao que ele reflete: “Está claro que não sou doutor nem professor, mas o nome que ele acaba de pronunciar é sem a menor dúvida o meu” (VERISSIMO 1996ª, p.107). Em síntese, sobre a temática viagem, o próprio escritor salienta que: “E assim nesse ritmo visitei mais de vinte cidades, percorri mais de cinco mil quilômetros como um caixeiro-viajante que procurasse impingir às gentes de todos esses lugares a ideia de que o Brasil é um grande país e os brasileiros um povo admirável” (VERISSIMO 1996a, p.410).

Outra temática que ganha destaque no enredo de Verissimo são as experiências vivenciadas pelo escritor com a família em solo estrangeiro. Enquanto na temática anterior são evidenciadas principalmente a descrição e a interpretação, que caracterizam o texto como livro-reportagem, nessa segunda aparece elementos presentes nas narrativas de viagem de memória, como reflexões em primeira pessoa, lembranças e diálogos, característica desse tipo de texto apresentada por Martinez (2016). Para tanto, vale ressaltar que nessa obra, Verissimo altera o nome de sua esposa, Mafalda, para Mariana. Já Luis Fernando (que chega ao país com sete anos) é tratado apenas por Luís (com acento), e Clarissa (nove anos na época) se torna Clara.

O tema família permeia toda a obra, desde a viagem do Brasil para os Estados Unidos, quando Verissimo imagina o que o filho, Luis Fernando, estaria pensando ao olhar pela janela do avião: “Olho furtivamente para Luís, que aperta o nariz contra o vidro da janela. Decerto imagina que vai bombardear Tóquio no seu Liberatdor” (VERISSIMO 1996a, p.13). Ainda sobre o filho mais novo, que se tornaria um dos mais famosos escritores brasileiros dos séculos XX e XXI, Erico Verissimo apresenta a seguinte descrição:
Luís tem sete anos e grandes olhos castanhos tocados às vezes de muita ternura humana, e quase sempre dum vago ar de ausência. Sei que neste momento ele não está em Miami, Flórida, mas em algum outro lugar remoto, impossível e provavelmente inexistente [...]. Lobo solitário, Luís gosta de brincar sozinho, e de vez em quando afunda em prolongados silêncios, e anda perdido não sei por que misteriosos mundos de faz de conta (VERISSIMO 1996a, p.17)
Já a filha mais velha, Clarissa, quando cresceu casou-se com um norte americano e mora até hoje em Washington (RITTER, 2016). Sobre ela, Verissimo escreveu: “Se Luís é um peixe solitário de águas fundas, Clara é um pássaro inconsequente de asas inquietas. Onde quer que esteja está sempre psicologicamente num palco. Para ela tudo é teatro” (VERISSIMO 1996a, p.18).

Outra característica presente no texto de Erico Verissimo é o constante uso do humor. Ele comenta, por exemplo, uma situação em que ele e Luis Fernando estavam vendo um filme em um cinema, e uma senhora perguntou ao garoto se ele estava gostando do que estava assistindo. “Sem dizer palavra, o menino fica a olhar para a desconhecida com um ar de tamanha abstração que ela decerto imagina que está tratando com um imbecíl” (VERISSIMO 1996a, p.45). Em outro momento, Verissimo relata a preocupação dele e da esposa quanto à saúde dos filhos, que não estavam se adaptando à culinária local: “As crianças emagrecem. Estão pálidas, e sua magreza faz que seus olhos escuros ainda pareçam maiores. Não gostam das comidas dos restaurantes e acham que podem viver de sorvetes e milk-shakes” (VERISSIMO 1996a, p.114). Aliás, ele mescla preocupação e humor ao narrar a expectativa em torno do primeiro dia de aula dos dois filhos, pois Clarissa tinha tido apenas aulas particulares no Brasil, enquanto Luis ainda não havia iniciado os estudos. “Quanto a Luís, ele realiza agora o prodígio de ser analfabeto em duas línguas: inglês e português” (VERISSIMO 1996a, p.140).

Outro problema enfrentado pela família em um país estrangeiro foi a locação de uma casa. Após muita procura, prometendo ao agente imobiliário de que “meus filhos são verdadeiros anjos, e que saberão respeitar as poltronas de veludo, os espelhos, os tapetes e os moveis da casa” (VERISSIMO, 1996a, p.125), Verissimo finalmente encontra uma em que a dona do imóvel, chamada de Ms. Burke, mora numa espécie de sótão, enquanto a família fica hospedada na parte superior da casa. A residência, descrita por Verissimo como enorme, conta com quinze peças, além do subsolo, onde reside a Ms. Burke. Logo na chegada, as crianças conhecem os vizinhos, no entanto, encontram a língua como barreira. “Pai! Pai! Eles não falam brasileiro! Nós não falamos inglês! Como vai ser?” (VERISSIMO 1996a, p.135). No entanto, eles passam a brincar basicamente utilizando mímica e, assim que as aulas começam, as duas crianças rapidamente estão falando inglês melhor que o próprio Verissimo.

O segundo lar de Verissimo nesse período é a Universidade da Califórnia. Chega-se, portanto, a terceira temática principal identificada da obra. Ministrando aulas de literatura brasileira durante dois anos, o escritor pôde vivenciar as mais variadas situações. No capítulo intitulado Espetáculo, ele descreve o Commencement Day, que é a formatura em que ocorre a entrega dos diplomas. “Estudantes em uniforme da marinha entram por um lado do teatro, ao mesmo tempo que outros colegas metidos no fardamento do exército entram pelo lado oposto” (VERISSIMO 1996a, p.120). A descrição, aliás, que é uma das características do JL apontadas por Martinez (2016). Já ao relatar o seu primeiro dia de aula, Verissimo se vale da intertextualidade, técnica também usada pelo autor na ficção. A propósito, esse é um dos artifícios mais comuns em romances. Conforme Lodge: “Há muitas formas de um texto se referir a outro: paródia, pastiche, eco, alusão, citação direta e paralelismo estrutural” (LODGE, 2011, p.106). Curiosamente, Verissimo faz a referência baseada na lembrança de um dos principais autores de narrativas de viagem da literatura ocidental:


Confesso que estou comovido, pois me ocorre que por aqui deve ter passado há muitos anos um estudante rebelde, de suéter azul de embarcadiço, cabeleira bronzeada e revolta e ar meio adoidado. Chamava-se Jack London e sonhava com viagens e aventuras (VERISSIMO 1996a, p.137).
Ao longo da narrativa, são diversas as lembranças, reflexões e descrições feitas por Verissimo, que caracterizam a obra como JL, mais especificamente como narrativa jornalística de viagem. Em outro trecho, o autor comenta uma parte do que consistia o trabalho dele em terra norte-americana: “Lá fora, a chuva. Aqui dentro da sala 306, vinte cinco estudantes e eu. O assunto do dia, Machado de Assis” (VERISSIMO 1996ª, p.160).

Ademais, Verissimo foi convidado para ministrar palestras aos mais diversos públicos. Isso fica claro no seguinte trecho: “Minha magra contribuição para o esforço de guerra consiste em fazer palestras pelo rádio, nos programas transmitidos para a Europa sob o patrocínio de Office of War Information, e ocasionalmente falar em hospitais de marinheiros e soldados convalescentes” (VERISSIMO 1996a, p.232). Além disso, o escritor participou de programas de mesa redonda e palestrou em diversas instituições. Outro desafio enfrentado pelo literato foi servir de consultor a todos os alunos da universidade que estudavam cultura ou língua latina. Em determinado momento ele foi procurado por um aluno que estava com dificuldade para compreender a gramática da língua espanhola.


O rapaz deve ser um astro do futebol. Deve ser popular com as meninas e possuir uma saúde de touro, mas não sabe o que é advérbio... Perco-me em divagações, então meu jovem interlocutor resmunga desculpas. Acabo concluindo que não há nenhum mal em que esse esplêndido espécime humano não conheça gramática (VERISSIMO 1996a, p.212).
Alguns alunos, aliás, procuram-no frequentemente. Segundo Verissimo, há uma aluna que aparece seguidamente para discutir Freud em sua sala. Sobre os estudantes, ele comenta: “Pedem opiniões, indagam, sugerem, tomam notas e depois se vão” (VERISSIMO 1996a, p.213). Em outro momento, ele conta o que um grupo de estudantes está indo fazer depois de concluir o seu curso: “Patsy vai para Nova York tentar uma carreira no rádio. Helen quer visitar o Brasil. Marion Rita vai para o México, Monguió foi chamado para o exército. Maryfrances vai casar. Maria Antonieta destina-se a uma universidade em Minnesota” (VERISSIMO, 1996a, ´p.254).

Devido aos serviços prestados na universidade, Verissimo recebe o título de doutor durante cerimônia realizada no dia 4 de junho de 1944. O título foi concedido pelo professor White Smith, presidente do Mills College, valendo-se de um direito que é concedido ao presidente pela junta administrativa. Pela relevância social dos romances escritos e dos trabalhos como professor e conferencista, Verissimo passa, então, a ser Dr. Erico Verissimo. “O Presidente White me aperta a mão e me entrega um pergaminho, enquanto um fotógrafo bate uma chapa. O ato está consumado. Boa-tarde, doutor!” (VERISSIMO, 1996a, p.228).



Diretamente relacionada com o tema universidade, a cultura é outro elemento importante da narrativa de Verissimo. Entende-se aqui por cultura a perspectiva aberta, adotada por Stuart Hall, que envolvem não apenas questões geográficas, mas também experiências pessoais, mudanças, instituições, costumes e outros elementos, afinal, “as culturas sempre se recusaram a ser perfeitamente encurraladas dentro das fronteiras nacionais. Elas transgredem os limites políticos” (HALL, 2009, p.35). Ou seja, não é possível fechar a cultura ou controlá-la. São diversas as reflexões que Verissimo faz relacionando o seu país de origem com a nação em que se encontra no momento em que escreve a narrativa. Ao ser censurado pela esposa no avião, na viagem de ida para os Estados Unidos, o autor responde: “Bem se vê que és brasileira. Vens dum país em que tudo é pretexto para meter um homem na cadeia. A terra do não pode. Tudo proibido. Dip, Deip, Dasp. Censura. Hora do Brasil. Polícia Especial” (VERISSIMO 1996a, p.41). Já em outro momento, ele reflete sobre a realidade norte-americana, comparando-a com a brasileira:
Olhando para estes latagões e para estas belas raparigas e crianças fico a pensar no que poderia de ser a nossa gente brasileira no dia em que passasse a comer direito, a ter assistência médica e mais escolas; no dia, enfim, em que a mortalidade infantil fosse reduzia ao mínimo possível, e em que houvesse melhor distribuição de oportunidades para todos (VERISSIMO 1996a, p.47).
Mas não são apenas de reflexões sobre as diferenças dos dois países que são sustentadas as ideias de Verissimo sobre política, cotidiano, instituições, enfim, sobre cultura. Ele também constata e descreve momentos históricos da cultura norte-americana, como o aparecimento e o crescimento do sucesso de Frank Sinatra, que começava a atrair a atenção de milhares de fãs pelo país.
A grande sensação em matéria vocal é Frank Sinatra, que se ergue há já alguns meses como rival de Bing Crosby. Sinatra é um jovem pálido, magro, de ar doentio, que segundo informa seu agente de publicidade gosta de spaghetti frio e de gravata borboleta. Retratos do novo ídolo aparecem por toda parte (VERISSIMO 1996a, p.45).
Ainda no campo da música, outro artista, porém, brasileiro, ganha destaque em determinado momento da narrativa. Verissimo é convidado a trabalhar como tradutor do músico Villa Lobos, quando este esteve nos Estados Unidos para um concerto na Califórnia. Verissimo destaca a grande cobertura e o enorme espaço dado pela imprensa local ao músico brasileiro. No entanto, o humor e a comicidade são centrais nessa parte do enredo, pois Villa Lobos não sabia quem era Erico Verissimo, chamando-lhe de Luís. “É inútil explicar que não me chamo Luís. De resto, que é que há num nome: - como dizia Shakespeare” (VERISSIMO, 1996, p.332). Nada obstante, para tentar melhorar a imagem do mau humor de Villa Lobos, Verissimo se vê em diversas situações em que é preciso mudar o que o músico diz para os americanos, como por exemplo, quando eles são convidados para um jantar e o brasileiro é requisitado a tocar:
- Faça o favor, meu amigo, diga ao maestro que este clube tem recebido em seus salões celebridades como Toscanini, Stravinsky, Stokowsky, Rachmaninoff e outros.

Faço a tradução para Villa-Lobos, que resmunga, azedo:

- Não interessa... não interessa...

- Que foi que ele disse? – indaga a loura.

- Ah!... ele disse: esplêndido... esplêndido.

A balzaquiana sorri e continua:

- Diga também ao Sr. Villa-Lobos que o fato de ele não falar inglês não tem a menor importância. Nós o admiramos tanto, que só de ficar aqui a olhar para ele sentimo-nos felizes...

Transmito estas palavras ao maestro, que exclama:

- Diga a ela que não sou papagaio nem palhaço de circo!

Volto-me para o auditório e traduzo:

- O maestro declara que se sente felicíssimo por estar aqui hoje...

Há um murmúrio de contentamento no salão (VERISSIMO 1996a, p.342).


Como é possível perceber, há um tom anedótico na narrativa, que para os conhecedores da biografia de Villa Lobos torna-se ainda mais saborosa. Essa capacidade de prender a atenção do leitor com diálogos e descrições reflete bem a interseção existente entre o Jornalismo e a Literatura no texto de Verissimo.

Outro ponto importante reflete a cultura tendencialmente racista que existia – e de certa forma ainda existe – no Brasil, especialmente em cidades do interior. Essa perspectiva transparece em uma frase que, mesmo parecendo ingênua, revela muito da cultura de regiões colonizadas majoritariamente por alemães e italianos – como é o caso do Rio Grande do Sul. Ao encontrarem os primeiros negros no país, ainda em Miami, os filhos pequenos perguntam para Verissimo: “Como é que os negros aqui falam inglês?” (VERISSIMO 1996a, p.55).



Há vários elementos sobre o cotidiano e a cultura americana que podem ser aprofundados em um estudo específico sobre a temática nesta obra de Erico Verissimo, como por exemplo, a experiência do escritor no halloween, as duas viradas de ano em que ele estava no país, nos encontros com atores no período em que ele e a família moraram em Hollywood ou até mesmo no terremoto vivenciado por eles, descrito longamente em determinado trecho da narrativa. Porém, como um bom viajante, uma das principais marcas de Verissimo foi tratar do cotidiano dos lugares por onde ele passou, como por exemplo, no seguinte trecho, em que comenta como ele se inseriu na cultura americana assim que chegou a San Francisco:
Sinto um certo prazer em tomar conhecimento duma série de aspectos da vida doméstica e burguesa e faço isso com um interesse que é em parte profissional e em parte humano. Dentro de pouco estou conversando com estas senhoras que vêm ao Market com cestos no braço. Ficam todas alvoroçadas (trópico... rumba... cinema... viagens) quando lhes digo que sou do Brasil. Discutimos a falta de criadas, o preço dos gêneros, e – ah! O grande, o supremo assunto destes dias! – o problema do caderno de racionamento (VERISSIMO 1996a, p.47).
Verissimo se refere ao racionamento que era imposto à sociedade americana devido a sua participação na Segunda Guerra Mundial. Chega-se, então, a última temática identificada na narrativa de viagem do autor: guerra. Logo na chegada ao país, Verissimo e a sua família percebem os efeitos que a guerra tinha no cotidiano e na vida dos americanos e estrangeiros que viviam nos Estados Unidos.
Aos poucos vamos percebendo os efeitos da guerra na vida americana. O serviço nos cafés, restaurantes e lojas é mais demorado e menos eficiente que nos tempos de paz. Há uma escassez de manteiga, presunto, queijo e carne. O racionamento é feito por meio dum sistema de pontos. Todos os membros de cada família, inclusive crianças – têm direito a um livrete que leva seu nome, e que convém uma grande quantidade de estampas. As vermelhas servem para comprar carne e derivados, queijo e manteiga [...]”(VERISSIMO 1996a, p.38).
O autor complementa abordando o aumento nos preços, principalmente de bebidas como uísque. “Com a guerra, velhos aposentados voltaram à atividade substituindo os homens e mulheres jovens que estão no exército, na marinha ou que mourejam nas fábricas de aviões e nos estaleiros. Eles trabalham em elevadores, escritórios, lojas, cafés, bancas de jornais, etc” (VERISSIMO 1996a, p.39). O transporte público também é afetado e apresenta um atendimento precário aos seus usuários, pois “as companhias ferroviárias declaram que, estando também mobilizadas para o esforço de guerra, o transporte de tropas, armas e munições vem em primeiro lugar” (VERISSIMO 1996ª, p.39). As empresas ainda suplicam para que os civis não viagem sem necessidade, espalhando cartazes em plataformas: “Is this trip necessary?” (VERISSIMO 1996a, p.40). Esse relato de experiência, vivenciada pelo autor direto de um dos lugares mais importantes no cenário da Segunda Guerra Mundial, atuando verdadeiramente como um correspondente que estava lá para relatar o cotidiano americano enquanto o país era protagonista do maior conflito armado da história, demonstra o contraponto diante das versões consagradas sobre o lado americano no conflito.

Verissimo torna vivo acontecimentos que, muitas vezes, são tratados apenas com números e estatísticas: “O país lutou nas duas frentes, da Europa e do Pacífico, perdendo 322 mil combatentes e recebendo 800 mil feridos. O apoio da população à guerra foi quase absoluto, inclusive do CPUSA (Partido Comunista), que trocou de lado quando Hitler invadiu a União Soviética” (KARNAL; PUDY; FERNANDES; MORAIS, 2011, p.217). O referido apoio, por sinal, é descrito vivamente pelo escritor: “Vemos pelas ruas uma quantidade enorme de soldados e marinheiros, e pelas paredes e muros, belos e sugestivos cartazes convidando o povo a comprar bônus de guerra” (VERISSIMO 1996a, p.38). A narrativa de Verissimo, conforme já ressaltado, não é meramente descritiva. Em um texto biográfico, ele aponta as suas impressões e sentimentos pessoais diante do que presencia: “Vejo um cartaz em que um soldado americano ferido estende a mão para o público e diz: Eu dei meu sangue pela liberdade. E tu, que deste?”. Sinto uma magra sensação de vergonha. Meus magros dólares não me permitem comprar bônus de guerra” (VERISSIMO 1996ª, p.41).

Esses relatos, além de darem um caráter jornalístico à narrativa de viagem de Verissimo, também tornam o texto um documento histórico, não só para brasileiros e americanos, mas para todos os pesquisadores sobre o conflito. No capítulo A bomba e o bom samaritano, Verissimo apresenta uma longa reflexão sobre a bomba atômica utilizada pelos americanos no final do conflito, porém, vale destacar aqui o caráter novidade que o tema teve no dia em que as bombas foram lançadas. É do dia 6 de agosto, data em que as bombas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki, que data o seguinte trecho do texto de Verissimo:
E foi nesta calma de paraíso que nos chegou hoje a notícia de que os americanos lançaram a primeira bomba atômica sobre Hiroshima. Toda a gente está excitada. Os jornais trazem cabeçalhos sensacionais. Conta-se como certo que o Japão se renderá incondicionalmente dentro de poucos dias. E as opiniões sobre essa medonha bomba são as mais variadas. Uns acham que é anticristão, monstruoso mesmo, usar armas dessa natureza contra populações civis. Outros alegam que o aniquilamento desses muitos milhares de japoneses em Hiroshima foi necessário para encurtar a guerra e, consequentemente, poupar a vida de milhares de soldados americanos (VERISSIMO, 1996a, p. 515).

O texto, por sinal, que poderia muito bem ter sido escrito para algum jornal ou revista brasileiro, aparece no livro como se fosse uma carta escrita para Fernanda, personagem do romance intitulado Saga, publicado pela primeira vez em 1940 (RITTER, 2016). Eis, por fim, outra característica da narrativa de Verissimo: a utilização de textos que são claramente ficcionais em meio aos relatos da viagem. Há ainda extensas cartas para outros personagens de romances do escritor, como as escritas para Vasco – casado com Fernanda em Saga – relatando longos diálogos com Tobias, outro personagem ficcional. Erico utiliza essas conversas imaginárias para colocar pontos e contrapontos, para debater ideias, para contar determinados acontecimentos e, principalmente, para refletir sobre a guerra, a cultura e as diferenças e semelhanças entre Brasil e Estados Unidos.



Em determinado trecho, Verissimo faz uma autocritica sobre as questões raciais e a visão do lugar de onde ele vem ao discutir com um personagem da literatura que ele chama de “nego do banjo”. No diálogo imaginário, o personagem faz diversas críticas à sociedade em que o escritor está se inserindo. “Vocês os brancos que se entendam. Nós estávamos quietos na África. Trouxeram-nos de lá para cá a força. Fizeram-nos trabalhar abaixo de chicotadas. E a todas essas continuavam a usar palavras grandes, como justiça, fraternidade, humanidade [...]” (VERISSIMO, 1996a, p.63). Ao que o escritor, em uma crise de consciência, se exalta e grita: “Cala a boca. Vai-te!”, obtendo como resposta: “Não calo. Não vou. Agora tens que ouvir. Milhares de pretos americanos estão neste momento lutando na Europa no exército de Uncle Sam” (VERISSIMO, 1996a, p.63). O personagem segue discursando, até que sons do mundo real quebram o devaneio do escritor. “O velho está falando sozinho” (VERISSIMO, 1996a, p.64) diz a filha Clarissa para a família, encerrando o assunto polêmico e sério com um ar de comicidade familiar.

: data -> arquivos 2017
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> O que é ser nerd? Um estudo de recepção sobre a série televisiva The Big Bang Theory1 what it is to be nerd? A reception study about the tv series The Big Bang Theory
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> News from a distant war: tv, witnessing and the regulation of affect
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver


1   2   3   4


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal