Textos Amostrados – Folha de São Paulo (1994)



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O aforismo chinês de crise é oportunidade. Parece que a sociedade do Rio e espero de todo o país começa a despertar para a necessidade imperiosa de combater o crime de forma global e não apenas pela repressão policial ou militar.

O Rio dispõe das condições para atrair turistas, investidores e empresários, afugentados hoje pela escalada da violência. O novo Brasil que está surgindo das urnas, aberto, democrático, participativo e questionador, abre perspectivas fascinantes. A nossa esperança, como cariocas e fluminenses, é que o retrato desse novo Brasil seja o retrato do Rio.

- 19 de janeiro:


O Jardim Secreto tem decepcionado bastante a crítica, e com razão. O Jardim Secreto, que está em cartaz em São Paulo, não agrada tanto, exatamente por querer agradar demais. Tudo é excessivamente lindo, a fotografia em primeiro lugar. Os cenários são esplêndidos, as roupas luxuosas, a música açucaradíssima.

Mas, aqui, as próprias qualidades irritam. Soam falsas.

É que, nas obras de Visconti, por exemplo, esse esteticismo todo, esse requinte, faziam contraponto com o tema da decadência, da morte, da corrupção.

Em O Jardim Secreto não há contraponto. A beleza visual está a serviço do espírito edificante e feliz da história toda. O filme floresce de boas intenções.

Trata-se, por certo, de um filme feito para crianças. E o espectador fica pensando: Quem sabe, se eu fosse criança, adorasse essa meleira. Mas logo nos corrigiríamos. Não, se eu tivesse oito anos, diria que é um filme para criancinhas de cinco ou seis.

No fundo, é um filme para crianças do século passado.

O Jardim Secreto se presta, então, a um comentário mais político e sociológico do que puramente cinematográfico.

Mas foi dirigido por uma polonesa. A consequência, especulo, é a seguinte. Ao mesmo tempo, voltou-se para um público que não é o da criança ocidental, mais sarcástica, e sim o da criança do antigo bloco socialista, objeto de experimentos pedagógicos bonitinhos e pacíficos.

Basta de críticas a esse filme. Há também elogios a fazer, embora exijam alguns retorcimentos dialéticos.

Seus pais morrem num terremoto, e ela é transferida para o castelo de seu tio na Inglaterra.



Mary está acostumada à subserviência de suas amas coloniais. Não sabe nem se vestir sozinha. É antipática, autoritária, maltrata muito a rosada e campestre empregadinha que é colocada à sua disposição.

Esse estuporzinho infantil trava conhecimento com Colin.



Colin é uma figurinha mais repugnante ainda. Trata-se de seu primo, ou seja, do filho do dono do castelo. Colin é tido por doente, vive chorando, encerrado dentro do quarto por uma rigorosa governanta.

Colin é frágil fisicamente e mandãozinho por hereditariedade. Mary é enjoada e prepotente, dada sua experiência na Índia.

O tema todo já é fraco, pois o espectador não tem nenhuma simpatia por aristocratazinhos tão implicantes quanto Colin e Mary.

É claro que tudo chega a um final feliz. Feliz para Colin e Mary. Tudo bem, embora os espectadores mais revolucionários, mais de esquerda do filme preferissem ver Colin e Mary pendurados numa forca, para alegria de seus serviçais.

Obviamente as simpatias do espectador se voltam para a dupla de proletários, a empregadinha e seu irmão. Enquanto isso, a história de O Jardim Secreto se dedica a assegurar a felicidade e a humanização amorosa dos pequenos aristocratas.



Colin só consegue livrar-se do regime insano de reclusão, a que estava submetido pela governanta, usando de sua autoridade como senhorzinho do castelo. Mary só se rebela contra a ordem estabelecida valendo-se de seu aprendizado colonial de opressão e arrogância.

No final do filme, a sorte do jardineirinho Dickon, da simpática empregadinha e da obediente, antipática, mas submissa governanta é deixada no vazio.

A felicidade e a vida voltam à mansão, mas só voltam para os que são seus proprietários. Tio, sobrinho e prima dançam de roda. Os serviçais choram de alegria, e em seguida irão tratar dos porcos, bezerros e galinhas.

Tudo poderia ser uma história de extrema direita, mas não.

Assim, queira ela ou não, as simpatias do espectador se afastam dos dois lordezinhos. Todo o açúcar do filme se amarga um pouco com isso; O Jardim Secreto torna-se ao mesmo tempo mais inconvincente e mais real.

Em Filhos da Guerra, tratava da história de um menino judeu que, para sobreviver, fingia-se de ariano num colégio nazista. Era, digamos assim, uma integração forçada a um mundo bárbaro e hostil, por razões de sobrevivência.

Em Olivier, Olivier, a diretora conta o desaparecimento de uma criança, numa família burguesa de província, e o surgimento de um rapaz que se integra, por interesse próprio e indolência, numa domesticidade confortável.

O Jardim Secreto fala da reintegração ao mundo, às felicidades da vida, depois de um período sombrio de luto, de morte e de doença.

Nos três filmes está em jogo o tema da adesão, do disfarce assumido como melhor estratégia para a autoconservação individual. Só que, nos dois primeiros, isso era tratado, de forma interessante, como pura ficção. O disfarce funciona mal, e o resultado é pouco convincente.

- 9 de outubro:


Foi este o termo usado pelo ministro da Fazenda, Ciro Gomes, para se referir aos bancos estaduais e seu lugar nas finanças brasileiras. A expressão é dura, mas merecida uma ave rara na retórica do subterfúgio e do acochambramento que costuma dominar o tema. Logo se vê que o exgovernador do Ceará não era candidato a cargos eletivos.

São três, segundo o Aurélio, os sentidos de excrescência: saliência; excesso, superfluidade; e tumor sobre a superfície de qualquer órgão. A raiz vem do latim excretio, ação de expelir, a mesma que gerou excreta matéria fecal que o organismo evacua. Não será surpresa, portanto, se no próximo rompante o ministro partir para a escatologia.

O sistema financeiro estatal é uma categoria que inclui mais de trinta organizações. Além dos vinte e quatro bancos estaduais, existem as caixas econômicas e os bancos federais e regionais. Banco do Brasil e Banespa são os dois maiores bancos do país.

Só o bebê, para se ter uma idéia, tem cerca de cento e vinte mil funcionários. Sua despesa com pessoal equivale a um e meio por cento do Pib brasileiro o triplo do consumido pelas cinqüenta três instituições universitárias federais existentes no país.

Essa hipertrofia do sistema financeiro estatal foi, em larga medida, um subproduto da inflação alta e crônica. É difícil imaginar que ela tivesse acontecido, pelo menos nessa proporção, num ambiente estável. O tumor floresceu na estufa inflacionária, adaptou-se maravilhosamente a ela e sempre se nutriu das distorções e possibilidades de ganho que a inflação produz.

Por mais ineficientes que fossem, os bancos estatais podiam contar uma vantagem adicional em relação aos privados. Acostumaram-se de tal forma à mamata que passaram a imaginar que seus lucros eram reais e faziam parte da ordem natural das coisas.

Quanto terá ganho o bebê, para ficarmos num único exemplo, pela ingrata tarefa de recolher e administrar as verbas do salário educação, antes de repassá-las patrioticamente ao Tesouro? Detalhe: a lei do salário educação não prevê a correção monetária dos valores arrecadados. O mais incrível de tudo é que, durante todos esses anos, o bebê ainda recebia como, aliás, continua recebendo zero virgula oito por cento do total do salário educação, a título de despesas bancárias.

Mas, com a redução da inflação, de julho para cá, a situação começou a mudar. O tumor oculto dos bancos estatais vai aos poucos aflorando e, ao mesmo tempo, as agruras da vida fora da estufa já se fazem sentir. Sem o ganho inflacionário, os bancos estatais não têm mais como financiar seus gastos correntes e compromissos financeiros.

Alguns números, baseados em estudos feitos por consultores especializados, ajudam a visualizar o problema. Os seis maiores bancos privados brasileiros têm um custo de quinze mil e trezentos por funcionário. Nos seis maiores bancos estatais, empregando centenas de milhares de pessoas que não têm nada a ver com o peixe, o gasto é de vinte e oito mil e quatrocentos dólares por funcionário.

O Banespa gasta, em média, o triplo do Bradesco com cada funcionário. No Banco do Nordeste o custo por empregado chega a cinqüenta e um mil e seiscentos dólares. Quem pagava a conta? Um estudo do Ministério da Fazenda, citado pela Gazeta Mercantil, estima que um terço da despesa dos bancos estatais era financiado pelo ganho inflacionário. E agora, quem paga?

O outro lado dessa mesma moeda podre é a questão da má qualidade dos empréstimos feitos. No final de noventa e três, os bancos privados tinham créditos em atraso ou de recebimento duvidoso da ordem de três virgula três por cento do seu patrimônio líquido. Para os bancos estatais, que se tornaram fonte de dinheiro fácil para o resto do setor público, essa proporção atinge trinta e sete virgula seis por cento do patrimônio. Só o Banespa, por exemplo, tinha oitenta e quatro por cento dos seus empréstimos oito bilhões de dólares nas mãos do governo estadual, estatais e prefeituras.

Tudo isso é sabido. O que ainda não está claro, contudo, é como pretende agir o governo para impedir que o tumor dos bancos estatais se espalhe pelo resto do organismo e termine comprometendo a gestão monetária do real. Os indícios, pelo menos até o momento, são de que vai prevalecendo sutilmente a velha máxima do homem cordial aqui, tudo se afrouxa e humaniza.

No final de setembro, o becê forneceu um virgula sessenta e cinco bilhão de ajuda de curto prazo a três bancos estaduais, permutando títulos do governo federal por papéis da dívida estadual. Poucos dias antes, o Conselho Monetário Nacional afrouxou as regras contábeis sobre créditos duvidosos para que a Caixa Econômica Federal e o Banco do Nordeste pudessem regularizar seus balanços. Fala-se agora em elevar para quatorze bilhões, já no final de outubro, a meta de expansão da base monetária.

Nada disso é fatal para o plano, mas há limites. Uma idéia que está ganhando força em círculos tucanos é a de acelerar a privatização, ao nível estadual, para gerar recursos que permitam a capitalização dos bancos estatais. Em vez da costumeira injeção na veia aplicada pelo becê, o que arruinaria o real, a saída seria a venda de ativos públicos para dar sangue novo e limpar o passivo gangrenado das instituições oficiais de crédito.

Quanto à primeira parte da proposta, acelerar a privatização, só se pode aplaudir e torcer para que não fique em palavras. A dúvida é quanto ao uso das receitas geradas e o destino dos bancos estatais. Capitalizá-los com a venda de ativos não resolve o problema, apenas empurra-o para frente. No fundo, o que se estaria fazendo é dar vida nova aos bancos estatais para que os governantes possam voltar a usar e abusar deles no futuro.

A diferença básica entre um banco estatal e um privado é que o primeiro recebe ordens de políticos e o segundo obedece à disciplina imposta pelo mercado. Imaginar que uma simples lei vai isolar os bancos estatais da interferência política é uma crença ingênua. Se leis desse tipo funcionassem no Brasil, a inflação nunca teria existido.

Bancos estatais são excrescências precapitalistas. Será um grave erro revitalizá-los e mantê-los sob a tutela de políticos que, como a experiência mostra, podem se revelar menos honestos e capazes do que desejaríamos que fossem. A genuína solução e que não depende de reforma constitucional é só uma: privatizar o que for possível e liquidar o que não for.
- 18 de novembro:

Em primeiro lugar, quero externar a minha alegria pela realização das eleições na forma tão democrática, tão positiva e pelos resultados. É inegável que o povo brasileiro, através de seu eleitorado, mais uma vez reafirmou sua vontade de prosseguir no caminho de mudanças, prosseguir no caminho de transformações que se façam dentro da lei e dentro do que o país deseja.

Eu não posso também deixar de registrar a minha satisfação pelo fato de que o peessedebê teve vitórias importantes no Brasil. E de que os demais partidos também, muitos deles, obtiveram votações expressivas e elegeram governadores.

Nós temos um quadro de governadores que é um quadro que parece muito positivo. O resultado das urnas, como em qualquer democracia, será respeitado, não só em termos das sucessões legais, mas em termos políticos.

Eu tenho certeza de que o presidente Itamar Franco, com quem conversei ontem, tem a mesma sensação de satisfação com o resultado das eleições e aí acrescento eu, que foram presididas de uma maneira absolutamente isenta pelo presidente da República.

Como futuro presidente, eu também quero deixar bem claro ao país, reafirmar a minha disposição de trabalhar com todos os governadores, sejam do meu partido, sejam de partidos que me apoiaram, sejam de partidos que não apoiaram, que trabalharam pensando sempre naquilo que é importante para as transformações que o país deseja.

Estarei sempre disposto a discutir os problemas nacionais e, dentro das possibilidades, encaminhar em conjunto com os governadores as soluções para os problemas dos Estados.

O fato de nós termos tido uma eleição na qual os partidos que me apoiaram e uma boa parte dos governadores que eu manifestei também, dentro dos limites, o meu apoio, ter sido eleita, aumenta a minha responsabilidade.

Eu vou me empenhar na realização dessas reformas. Reforma não se faz com um ato de império. Reforma não é o resultado de um decreto. Reforma não é o resultado da aprovação pelo Congresso de uma lei, nem mesmo de uma transformação na Constituição. Reforma é um processo.

É uma coisa que permanentemente deve estar no espírito de todos nós, que assumimos responsabilidades perante o país. Vai ser no dia a dia, na gestão, na discussão de cada problema, temos que ter em vista um objetivo de mais longo prazo.

Eu farei, como já declarei e como reafirmo aqui, um discurso de despedida no Senado, onde direi de forma mais concreta quais são as linhas das transformações que parecem necessárias.

Eu quero também deixar claro, nesse momento em que o Brasil reafirma a sua vocação para a democracia e para mudanças a favor de uma economia mais moderna, mais aberta e de uma população mais atendida pelos poderes públicos e com fontes de renda mais compatíveis com a dignidade de uma vida decente, que os objetivos de transformação serão permanentes. A concepção dessa transformação não será feita de afogadilho.

E assim, enquanto ministro da Fazenda, com todo o apoio do presidente Itamar Franco, eu disse sempre ao país o que iria fazer, eu sempre pedi o apoio e nunca aceitei uma atitude tecnocrática, uma atitude que fosse de soberba, que fosse de imposição. Como presidente da República, eu não vejo razão para mudar o meu modo de ser.

O país não precisa ficar na expectativa de surpresas, porque as surpresas não resolvem nada. Ou nós, no dia a dia, construímos as transformações, convencemos da necessidade delas a população e também somos convencidos quando for o caso da necessidade de mudar de rumo, ou nós não construiremos realmente uma transformação democrática e duradoura.

Não vai ser meu estilo de governo, como não foi o do presidente Itamar Franco, o de surpreender o país com medidas que ninguém espera ou que muitas vezes especulações aqui e ali antecipam, sem nenhuma base.

No momento adequado, eu direi. Já peço desde já a compreensão dos novos governadores para as medidas que nós vamos ter que tomar. Nós vamos continuar atentos ao processo de combate à inflação.

Eu acho que o resultado das eleições manifestou de uma maneira muita clara que o país deseja a estabilidade econômico financeira, quer ter uma moeda sólida, uma moeda que signifique para o trabalhador uma garantia de que seu esforço de trabalho não será corroído pela inflação.

Esta decisão já não é mais de um governo, é de um povo que aprovou esta conduta. Nós vamos continuar nesta direção. E os governadores que estão eleitos sabem que também o foram na mesma medida em que inspiraram ao povo a confiança de que seriam fiéis seguidores desta vontade popular.

Isso vai implicar um conjunto de medidas que serão tomadas sempre em diálogo, mas serão tomadas. No sentido de que o saneamento das finanças públicas prossiga. Serão tomadas por ser imperioso tomá-las.

Não se trata hoje de uma decisão da União, mas de uma decisão conjunta do povo brasileiro, que exige que, governadores e presidente da República, nos debrucemos todos para resolver aquilo que foi sendo postergado.

Eu tenho a convicção de que esse sentimento de austeridade não é só do governo federal, será compartilhado pelos Estados. Eu quero dizer também que, no momento adequado, comporemos um governo que será a expressão dessa vontade de transformação.

Será um governo unido por um programa e, ao mesmo tempo que estará atento à necessidade da estabilização, não vai se esquecer de que um país como o Brasil precisa de produção.

Precisa aumentar a sua produção, precisa dar condições para que os setores industriais e agrícolas possam realmente investir com tranquilidade e que tenham a certeza de que a competição, que é saudável, vai ser uma competição feita também a partir do desenvolvimento tecnológico, que permita enfrentar as dificuldades que qualquer competição impõe hoje a nível internacional.

Nós queremos as medidas adequadas para defender os nossos produtores do que se chama competição desleal. O esforço será grande. A continuidade do processo de saneamento das finanças, de manutenção do valor do real em termos compatíveis com a dignidade de um país que sabe que a inflação é um mal que não pode ser feito.

Esse esforço virá com a preocupação de que a produção nacional continue crescendo e que nós teremos efetivamente, no decorrer dos anos de governo que nos esperam, a condição para que nós possamos retomar o desenvolvimento sustentado.

Ninguém mais, hoje em dia, aceita as formas selvagens de desenvolvimento econômico. Desenvolvimento sustentado significa um desenvolvimento voltado para acabar com os bolsões de miséria e pobreza e significa também respeito às condições ambientais.

Eu peço, neste momento de alegria para tantos governadores e para os que foram eleitos no primeiro turno, que nos unamos nesta direção. Estou certo de que o governo será um governo comprometido com esses objetivos, que são objetivos aprovados pelo povo.

Será um governo sensível às realidades políticas, será um governo que estará permanentemente dialogando com as forças do Congresso Nacional, do qual eu sou membro, no qual aprendi, e muito, sobre a vida pública brasileira.

Mas o Congresso que hoje, depois de experiências traumáticas pelas quais passou, sabe também que a opinião pública tem um balizamento muito claro, que a opinião pública não aceita mais procedimentos notívagos. Não serão mais mantidos. O diálogo será muito franco e aqueles que se dispuserem a apoiar o governo participarão do governo para apoiar um programa.

O país não aceita mais esse procedimento. Os partidos também não o aceitam. Eu devo dizer, com muita alegria para mim, que depois de eleito conversei com vários líderes partidários; os líderes dos partidos que me apóiam estão conversando com outros líderes partidários, e todo o nosso desenrolar de negociações tem sido feito em termos de consciência das necessidades do país.

Não houve e não haverá qualquer outro tipo de negociação. Negociação hoje é às claras. Temos um objetivo, temos um programa, o povo quer esse programa e nós precisamos constituir um governo capaz de levar adiante essas transformações.

A competência tem que ser um critério fundamental, aliado ao critério de comprometimento político com os objetivos decididos na campanha eleitoral e aprovados hoje pela opinião pública, em sintonia plena com a população brasileira.

Quero dizer também que é com esse espírito que parto, daqui por diante, a ter conversas mais persistentes com as lideranças políticas e com os partidos no Congresso. Vamos iniciar a discussão das reformas que serão necessárias, temos grupos de trabalho discutindo algumas destas propostas e as reformas serão feitas com o espírito que eu disse aqui.

Teremos quatro anos de governo. Não vamos governar em cem dias. Muito mais do que cem dias. Nos cem dias de que todo mundo fala você pode dar sinais. Mas os sinais espetaculares só servem para desiludir em seguida a população, quando eles não são seguidos de uma atitude permanente de transformação e de reforma.

É com esse espírito que nós vamos pedir que o Congresso apóie algumas modificações, algumas na Constituição, algumas na legislação, mas, sobretudo, na experiência que hoje tenho de parlamentar, com o sentimento de que a lei não basta.

Que é preciso fazer cumprir e que a gestão, às vezes, é suficiente para suprir lacunas legais ou para contornar dificuldades que muitas vezes parecem insuperáveis e que isso mais vale na batalha do dia a dia, na gestão, do que pura e simplesmente anunciar grandes transformações que depois não têm condições de ocorrer.

Elas vão ocorrer. Elas já estão ocorrendo. E elas vão ocorrer porque o povo hoje é um povo maduro, um povo que sabe perfeitamente acompanhar os acontecimentos e porque os dirigentes políticos brasileiros já estão afinados com esse novo espírito. E os que não estiverem, terão perdido o bonde da história.

Quero também dizer que, no regime democrático, a oposição é necessária. E que o governo, sob a minha condução, não estará disposto à cooptação. Estará sempre disposto a discutir os problemas nacionais com quem esteja na oposição.

Isso vale para os governadores eleitos que não são da coligação que me apóia, com os quais manterei, como sempre mantive no decorrer de toda a minha vida pública, um diálogo respeitoso, pensando sempre que, quando o povo elege, quem decidiu foi o povo e o povo não pode ser penalizado se, eventualmente, o eleito não for até mesmo do agrado, o que não é o caso, do presidente da República.

As noções presidenciais não são compatíveis com ressentimentos. Não são compatíveis com mesquinharia. Nós estivemos alinhados, como estamos, pensando grande, pensando no país que tem vitalidade, que hoje tem todas as condições de dar um grande salto.

Tenho absoluta tranquilidade de que governo e oposição, juntos, faremos tudo aquilo que for necessário para o Brasil se reafirmar como um país que efetivamente não só é democrático, como é próspero e capaz de multiplicar a sua riqueza.

Quero finalmente dizer que, por volta de final de dezembro, anunciarei o ministério; anunciarei sem precipitações. Não tem nenhum fundamento a tese de que eu vou primeiro nomear tal e qual ministro, que eu esteja negociando isto ou aquilo.

Eu sou uma pessoa de dizer com muita franqueza o que penso e eu disse desde o início como faria, estou fazendo como disse que faria.

Estou pensando primeiro quais são os projetos necessários para o formato necessário para melhor atender as aspirações do país e, em seguida, vamos ver quais são as pessoas capazes de encarnar isso, tentando sempre prestar atenção à competência técnica e à posição política.

O país não se transforma só pela vontade imperial ou tecnocrática. Só se transforma com o apoio e esse apoio deriva da convicção e da sintonia das forças políticas e da vontade da sociedade.

Conversarei daqui até o governo com muita gente e podem fotografar à vontade, mas não deduzam que uma conversa com o presidente eleito significa qualquer preenchimento de cargo. Ou melhor, deduzam, se quiserem, mas podem ter certeza de que não têm o meu aval e nem ninguém fala por mim.

Eu disse isso desde sempre: ninguém fala por mim. A menos que eu tenha dito expressamente que vai falar.




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