Tendências hostis do mercado de capitais



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Tendências hostis do mercado de capitais
A recente inexorável tendência à consolidação no mercado financeiro mundial e brasileiro vem ocasionando ganhos de escala das instituições que lideram o processo.  Tais ganhos têm resultado em instituições mais fortes, mais seguras, capazes de melhor atender a uma ampla gama de clientes, ofertando um também amplo leque de produtos. A intensa competição existente entre as instituições financeiras tem permitido a queda dos preços dos produtos, proporcionando o acesso de cada vez mais segmentos de baixa renda ao sistema financeiro.
Estes ganhos de escala também têm obviamente permitido que as instituições financeiras, que são agentes da consolidação, aufiram lucros crescentes e expressivas taxas de retorno sobre seus patrimônios. Este é o lado positivo da consolidação.  Existe, por outro lado, uma faceta que é extremamente perversa tanto para as empresas como para os investidores.
Atualmente, dentre os menos de duzentos bancos brasileiros, existem apenas sete ou oito que são ativos e eficientes no mercado primário de capitais.  Somados a estes existem também uns oito ou nove global investment banks, que possuem veículos locais, autorizados a atuar no mercado doméstico.  Assim, hoje os players ativos não são mais do que quinze instituições. Isto significa que uma empresa que necessite captar via emissão de debêntures, commercial papers – CP – ou ações tem que procurar sensibilizar alguma dessas instituições.  As equipes desses intermediários não são grandes e, dado o gigantismo dessas instituições, optam por se dedicar a poucas grandes emissões, ao invés de um número extenso de emissões menores.
O sistema de distribuição de valores mobiliários, há vinte ou trinta anos atrás, continha talvez duas ou três centenas de intermediários – bancos de investimento, corretoras e distribuidoras – ativos na distribuição primária de títulos empresariais – ações e debêntures, uma vez que CP não existiam – ou bancários – CDB, letras de câmbio, etc. – e mesmo títulos públicos.  Esta extensa rede tinha capilaridade para atingir tanto pequenas e médias empresas emissoras, como também uma enorme gama de pessoas físicas dispersas pelo país.
Quanto aos investidores institucionais atualmente ativos na absorção de títulos emitidos pelas empresas, o processo de concentração também tem sido brutal. Hoje, não são mais do que vinte.  Dentre as quinze instituições ativas no mercado primário, umas dez possuem as maiores empresas de asset management. Desta forma, as poupanças disponíveis para investir em valores mobiliários empresariais estão também sendo geridas por poucas grandes administradoras.
Esta concentração é complementada pelo que ocorre na indústria de fundos de pensão fechados: dos R$ 140 bilhões de ativos consolidados do segmento, aproximadamente R$ 40 bilhões são administrados pelas asset managers e  os restantes R$ 100 bilhões, auto-geridos pelos próprios fundos, estão concentrados em cinco ou seis fundos – Previ, Petros, Sistel, Funcef, Centrus, etc – que detêm cerca de 70% do valor total.
A conseqüência é que não mais do que vinte desses investidores – asset managers e fundos de pensão – absorvem mais do que 90% das emissões de ações, debêntures e CP.
Vale ressaltar que, embora entre os bancos underwriters e asset managers a maioria seja do mesmo grupo – BB, Itaú, Bradesco, Unibanco, Citigroup, Santander, etc. –, não estamos dizendo que os Chinese Walls não funcionam.  Muito pelo contrário, os conflitos de interesse são muito bem administrados, e o nível de ética e a credibilidade do mercado nunca estiveram tão altos.
O problema é que, pelo lado dos investidores institucionais, também predomina o mesmo foco em poucas e grandes transações.  O reflexo desta priorização das mega-operações é que o mercado de capitais deixou de ser o canal provedor de recursos de empresas médias.

Como uma empresa média conseguiria recursos para crescer no quadro atual? Obviamente, o auto-financiamento com lucros retidos é uma resposta, embora com limitadores. O endividamento é fator complementar, mas também com limites. Mesmo assim, tal dívida teria de ser via empréstimos do BNDES ou externos, uma vez que o mercado de debêntures doméstico estaria fechado, pelo próprio porte da empresa emissora, por melhor que ela fosse, pela tendência apontada acima. Hoje, uma empresa média colocar ações, em uma emissão pública, nem pensar.


Existem os investidores financeiros temporários – fundos de private equity –, os quais, entretanto, sofrem atualmente uma forte retração, por não estarem conseguindo captar mais recursos para investir. É que os investidores estrangeiros, que são os supridores de capital  predominantes deste tipo de veículo, passam por uma fase de grande frustração, em virtude das recentes fortes perdas sofridas, em todo o mundo.
Restaria à empresa a busca de um sócio minoritário estratégico, pois os investidores financeiros, retraídos como estão, não seriam a resposta. Sabe-se, porém, que os investidores estratégicos, mormente os estrangeiros, estão muito mais propensos à compra do controle das empresas. Isto explica o forte movimento de venda de empresas médias brasileiras, ocorrido nos últimos anos.
Por que uma empresa média não pode nem pensar em colocar ações em uma emissão pública? Porque o gigantismo dos underwriters, ao qual nos referimos no início deste artigo, leva-os a buscar operações maiores, de empresas maiores. Outrora, entretanto, o sistema de distribuição era mais capilar, com centenas de corretoras e distribuidoras, que empregavam milhares de corretores/empregados, batendo de porta em porta em centenas de milhares – talvez milhões – de investidores pessoas físicas.
Estes brokers – alguns empregados e muitos agentes autônomos – não só vendiam ações, mas também didaticamente explicavam e aconselhavam os investidores individuais – o dentista de Ribeirão Preto,  o engenheiro de Blumenau, etc. Esta atuação capilar do sistema de distribuição gerava não só uma demanda pulverizada pelos lançamentos de novas ações de empresas médias, por parte dos milhares de pólos decisórios - os investidores individuais - mas também liquidez no mercado secundário.
Hoje, porém, quem deveria estar fazendo o papel desses vendedores de ações? Os gerentes dos poucos bancões múltiplos existentes, seria a resposta. Ora, os clientes, cada vez menos falam com tais gerentes, instados que são a utilizar-se do home bankinginternet –, ou dos ATM espalhados nos locais de grande trânsito de pessoas nas agências bancárias.
Nas ante-salas dessas agências bancárias, existe uma bateria de equipamentos de auto-atendimento para evitar que os clientes entrem na agência e tenham contato pessoal, humano, com os gerentes. E mesmo que um cliente consiga entrar na agência e ter um contato real, pessoal, com um gerente, este estará tão ocupado correndo de um lado para o outro, vendendo seguros, descontando duplicatas, resolvendo problemas dos milhares de correntistas de sua agência, que não poderá dedicar uma ou duas horas para didaticamente explicar ao cliente as vantagens e os riscos de investir em ações, debêntures ou CPs.
O mercado de capitais brasileiro não pode mais esperar pelas medidas que o colocarão na ponta do processo de retomada do desenvolvimento econômico sustentado do País.
É necessário que as entidades se unam para defender as soluções que contribuam para reverter, o quanto antes, esse quadro de adversidades que dificultam o crescimento do nosso mercado: reforma fiscal e redução do custo Brasil, principalmente no mercado de capitais. Adicionalmente, há que haver uma discussão séria e objetiva sobre as tendências do Sistema de Distribuição de Valores Mobiliários.
Só assim, serão criadas as condições para a ativação dos negócios cuja demanda por serviços permitirá a remontagem da estrutura de distribuição do mercado de valores mobiliários, com a necessária capilaridade
Fonte

PLÖGER, Alfried . Tendências hostis do mercado de capitais. Banco Hoje. [S.l.] maio 2005.








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