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Encontro28.01.2018
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Simpósio Comemorativo dos 50 anos da SPPA

Das vulnerabilidades não sabidas

Coordenadoras: Alice B. Lewkowicz*

Mery P. Wolff**
Componentes: Alida Fuhrmeister***

Carlos Augusto Ferrari Filho**

Carmem Keidann*

Denise Lahude ***

Joyce Goldstein*

Maria de Fátimas Freitas*

Maristela P. Wenzel *

Marlene Silveira Araújo**

Regina Sordi***

Rosângela Costa***

Consultor: Jairo Mello Araujo****

A parceria SMED/SPPA teve início em 2007 e desde então já trabalhamos com 87 Escolas de Educação Infantil conveniadas pela SMED e localizadas em zonas de alta vulnerabilidade social da periferia da cidade de Porto Alegre. O trabalho, como já foi descrito em outras oportunidades, se desenvolve na SPPA, nas quartas–feiras, das 19h:30min às 21h:30min, durante os meses de maio e junho e outubro e novembro quando são realizados grupos de reflexão sobre assuntos propostos pelos educadores. São seis grupos coordenados por dois psicanalistas e dos quais participam, alem dos educadores, assessoras da SMED.

Nossa proposta hoje é apresentar algumas considerações sobre o impacto emocional deste tipo de atividade no grupo de psicanalistas que estão envolvidos nesta parceria.

Em 2009, depois de dois anos do início da parceria e apesar da avaliação positiva do grupo de educadores surgiram inquietações no grupo de psicanalistas quanto a qualidade do trabalho que vinha sendo prestado.

O que parecia evocar desconforto era o confronto com situações de violência relatadas constantemente nos grupos que caracterizavam abuso sexual e maus tratos infligidos às crianças pelas suas famílias e histórias do mesmo tipo de violência vividas pelas educadoras.

Em função desta angustia específica decidimos repensar nossos objetivos e o verdadeiro alcance do que poderíamos oferecer com nosso “conhecimento psicanalítico sobre desenvolvimento emocional na infância”. Foi ficando evidente que apenas os conceitos e prática clínica psicanalíticos não bastavam para a tarefa que havíamos nos proposto.

Com a participação de um consultor da área do Serviço Social passamos a nos reunir semanalmente para estudar alternativas que ampliassem nossa compreensão e abrissem novas possibilidades.

Assim, dos 35 colaboradores iniciais, formamos um grupo de 12 que tem se mantido constante, mas não totalmente o mesmo.

Enfrentar a violência racionalmente “conhecida e esperada” quando nos dispusemos a trabalhar tão intensamente com educadores em áreas urbanas de alta vulnerabilidade socioeconômica nos surpreendeu e imobilizou.

Como absorver o impacto desta realidade se somos provenientes de um meio sócio econômico onde a apresentação da violência tem outros matizes? Fazemos parte de um meio que se sente com o direito de ser protegido e de se rebelar quando é atingido por situações que consideramos “alheias” ao nosso mundo sociocultural.

No contato com esses educadores percebemos que a violência não é sentida como “estranha”, “nem provocada pelo descontentamento de um outro segmento da sociedade”: é uma violência reconhecida como “familiar”, inerente ao ambiente.

Em meio a essas impressões fomos dando continuidade ao trabalho possibilitado pela interlocução entre as reflexões provenientes dos grupos com os educadores e aquelas advindas das reuniões com o consultor.

A partir deste esforço emocional conjunto ampliaram-se os espaços de pensabilidade fazendo emergir uma percepção mais realista dos recursos disponíveis e da potencialidade criativa da parceria em construção.

Com menos teoria sobre o que seria o adequado para o desenvolvimento emocional daquelas crianças e mais escuta analítica, ampliaram-se as possibilidades de encaminhamentos para situações até então consideradas insuperáveis.

Enfim, tínhamos ido ancorados em teorias que seriam suficientes para dar conta dos problemas de uma realidade que não conhecíamos tanto quanto imaginávamos e tivemos que, aos poucos, ir nos liberando desta ancora e navegar em águas revoltas e desconhecidas.

Cada vez mais temos nos deparado com as vicissitudes das vulnerabilidades não apenas no trabalho com os educadores, mas também no nosso próprio grupo para dar conta da complexidade que a tarefa vem nos exigindo.

Entre os psicanalistas do grupo concebemos tanto a psicanálise como a nossa inserção social de formas muito diferentes. Compartilhar essas diferenças tem sido um caminho interessante, mas cheio de “altos e baixos”. Dito de outra forma, intercalamos períodos onde prevalecem as tentativas de transposição do modelo da clínica para dar “conta do recado” com outros em que nos deixamos contaminar por aportes menos conhecidos propostos pelos educadores na dinâmica criada nos grupos que tem se mostrado mais promissores.

Com a intenção de ampliar a compreensão de nossos impasses trazemos as ideias de dois autores não psicanalistas cujas conferencias foram publicadas na RBP.

Começando com O Anti-Narciso: lugar e função da Antropologia no mundo contemporâneo, de Eduardo Viveiros de Castro (2010), antropólogo brasileiro, que discorrendo sobre a antropologia na atualidade propõe o seguinte:

Se é para ir até o outro lado do mundo, é na expectativa de que haja respostas diferentes e - a expectativa ainda mais excitante-perguntas diferentes. E que, portanto, a questão não é de encontrar as respostas que os índios (ou seja lá quem for) dão às nossas perguntas - porque sempre entendemos que as nossas perguntas são as mesmas que todo ser humano faz - mas colocar sob suspeita este pressuposto e imaginar que talvez as perguntas, elas próprias, sejam outras [...]. A arte da antropologia-e eu ousaria dizer a arte das Ciências Humanas - é a arte de determinar os problemas postos por cada cultura, não a de achar soluções para os problemas postos pela nossa.

A essa posição antropológica, o autor contrapõe uma outra: “Temos uma imagem do conhecimento antropológico [...] como sendo o resultado da aplicação de conceitos que são extrínsecos ao que estamos estudando [...] Nós temos o conceito e queremos simplesmente ver como ele é preenchido”.

Consideramos que esses recortes das ideias do Viveiros de Castro (2010) coincidem com nossas tentativas de dar conta deste outro que tem desmascarado nossas vulnerabilidades .

A outra contribuição que propomos é a conferencia “Murar o Medo”, do escritor moçambicano Mia Couto. Citando o autor:

O medo foi um dos meus primeiros mestres. [...] Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando ensinavam a recear os estranhos. [...] Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. [...] O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. [...] No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. [...] Nesta altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

Após relevantes digressões sobre problemas econômicos, violência contra mulheres, a fome no mundo, o desamparo de crianças, o autor conclui dizendo:

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que tem medo dos que não tem medo.Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós,do sul ao norte,do ocidente e do oriente.

Nos grupos chocamos o desconhecido/depreciado com o desconhecido/idealizado: reconhecer o medo que esse enfrentamento nos produz talvez poderia ampliar nossas reflexões.

Não pretendemos reduzir a complexidade da tarefa.

Nossa intenção é pensar o quanto temos tido um certo temor de confrontar, não apenas no grupo com os educadores, mas também no próprio grupo dos psicanalistas as diferentes teorias implícitas que movem no dia-a-dia nosso pensar psicanalítico.

Temos feito um esforço contínuo discutindo tanto novas aberturas teóricas quanto relatos dos grupos e elaboração de trabalhos para divulgar a atividade e encontrar novos interlocutores.

Depois destes 6 anos estamos nos aventurando na formalização do processo de pesquisa-ação da parceria SMED-SPPA e para tal passamos a contar com outro colaborador, colega psicanalista,com experiência neste tipo de pesquisa.

Consideramos que a continuidade do trabalho tem sido possível pela receptividade criativa que tanto a equipe técnica da SMED quanto os educadores das Escolas de Educação Infantil tem demonstrado ao longo dos descaminhos que este tipo de parceria nos coloca. Também tem sido decisivo o comprometimento do grupo de colegas que apesar dos impasses e tensões tem se disposto a levar adiante a tarefa através da guarida da SPPA que tem endossado nossas iniciativas.

Para concluir propomos uma resposta dada por um dos grupos de educadores à pergunta:

A escola infantil é um porto seguro?”

Porto que não é tão seguro

Porto que te quero seguro

Porto seguro, me segura que eu não tô segura”.

Reconhecer a vulnerabilidade das nossas teorias talvez possa ajudar a ampliar esse tipo de escuta onde o clima de incertezas serve de matéria prima para alternativas genuínas para o delicado convívio do dia-a-dia entre crianças, educadores, assessores e psicanalistas.



Referências Bibliográficas

Viveiros de Castro, E. O Anti-Narciso: lugar e função da Antropologia no mundo contemporâneo. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 44, nº4, p 15-26, 2010.


Couto, Mia. “Murar o Medo”. Revista Brasileira de Psicanálise, v.47, nº1,

p. 29-31, 2013.



* Membro Associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre - SPPA

*** Membro Aspirante da SPPA

**** Assistente Social e Professor da PUCRS






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