Steve Alten o domínio



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9 DE DEZEMBRO DE 2012

CHICHÉN ITZÁ, MÉXICO

13h40
O táxi aéreo salta duas vezes sobre o asfalto rachado, taxia brevemente, depois para pouco antes de a pista acabar num campo cheio de mato.

A onda de calor atinge em cheio o rosto de Dominique quando ela sai do Cessna, colando a camiseta já empapada de suor ao seu peito. Ela joga a mochila sobre um ombro e segue os outros sete passageiros através do pequeno terminal, depois até a estrada principal. Numa placa apontando para a esquerda se lê "Hotel Mayaland", e na outra, para a direita, "Chichén Itzá".

— Táxi, señorita?

O motorista, um homem magrinho de uns 50 anos, está apoiado num velho Fusca branco. Dominique pode ver os traços maias em seu rosto escuro.

— A que distância fica Chichén Itzá?

— Dez minutos. — O motorista abre a porta do passageiro.

Dominique entra, e a espuma exposta do velho banco de vinil cede sob o seu peso.

— Já esteve em Chichén Itzá, señorita?

— Só quando eu era criança.

— Não se preocupe. Pouca coisa mudou nos últimos mil anos.

Eles atravessam uma aldeia pobre, depois seguem por uma estrada pedagiada de duas pistas, recém-pavimentada. Minutos depois, o táxi para diante de uma moderna entrada pata visitantes, o estacionamento lotado de carros alugados e ônibus de turismo. Dominique paga a corrida, compra um ingresso e entra no parque.

Ela passa por várias lojas de lembranças, seguindo vários turistas por uma larga estrada de terra que corta a selva mexicana. Depois de cinco minutos de caminhada, a estrada se abre numa clareira incrivelmente ampla, plana e verde, rodeada por uma folhagem densa.

Dominique arregala os olhos e absorve a paisagem. Ela acaba de voltar no tempo.

Ruínas enormes, brancas e cinza, pontilham a paisagem. À sua esquerda fica o Grande Campo Maia do Jogo de Bola, o maior de toda a Mesoamérica. Com o formato de um "I" gigante, a quadra mede mais de 167 por 70 metros, é fechada por todos os lados e seus dois muros centrais têm a altura equivalente a três andares. Ao norte da estrutura fica o Tzompantli, uma enorme plataforma esculpida com fileiras de crânios enormes e coroada por corpos de serpentes. A distância, à sua direita, ela vê um enorme quadrilátero — o Complexo do Guerreiro —, os restos do que foi um palácio e uma praça de mercado, parcialmente delimitados por centenas de colunas isoladas.

Mas é a atração principal que apequena todas as ruínas e prende a atenção de Dominique — um zigurate incrivelmente preciso e imponente de calcário, localizado no meio da cidade antiga.

— Magnífica, não é, señorita?

Dominique se vira e vê um homenzinho usando o uniforme do parque, uma camiseta laranja manchada de suor e um boné de beisebol. Ela nota a testa alta e inclinada e os fortes traços maias do guia.

— A pirâmide de Kukulcán é a estrutura mais magnífica de toda a América Central. Que tal fazer um tour particular? Somente 35 pesos.

— Na verdade, procuro uma pessoa. É um americano alto, forte, de cabelo castanho e olhos bem escuros. O nome dele é Michael Gabriel.

O sorriso do guia desaparece.

— Você conhece o Mick?

— Lamento, não posso ajudá-la. Bom passeio. — O homenzinho gira sobre os calcanhares e se afasta.

— Espere... — Dominique o alcança. — Você sabe onde ele está, não sabe? Me leve até ele, você vai ser bem recompensado. — Ela lhe enfia um maço de notas na mão.

— Lamento, señorita, não conheço a pessoa que procura. — Ele empurra o dinheiro de volta.

Ela tira várias notas.

— Tome isto...

— Não, señorita...

— Por favor. Se você o encontrar, ou se conhece alguém que possa entrar em contato com ele, mande dizer que Dominique precisa vê-lo. Diga que é questão de vida ou morte.

O guia maia vê o desespero nos olhos dela.

— A pessoa que procura é seu namorado?

— É um grande amigo.

O guia olha para longe por alguns momentos, pensativo.

— Aproveite o dia em Chichén Itzá. Almoce, depois espere anoitecer. O parque fecha às dez. Se esconda na selva antes que a segurança faça a última ronda. Quando a última pessoa sair e os portões forem fechados, suba na pirâmide de Kukulcán e espere.

— O Mick estará lá?

— É possível.

Ele lhe devolve o dinheiro.

— Compre um poncho de lã nas lojas da entrada do parque, vai precisar dele hoje à noite.

— Quero que aceite o dinheiro.

— Não. Os Gabriel são amigos da minha família há muito tempo. — Ele sorri. — Quando o Mick te encontrar, avise que o Elias Forma mandou dizer que a señorita é bonita demais pra ficar sozinha na terra do relâmpago verde.
O zumbido incessante de mil mosquitos enche os ouvidos de Dominique. Ela puxa o capuz do poncho sobre a cabeça e se encolhe na escuridão, a selva acordando ao redor dela.

Que diabos estou fazendo aqui? Ela coça os insetos imaginários que lhe sobem pelos braços. Eu devia estar terminando a minha residência. Devia estar me formando.

A floresta murmura ao seu redor. Um bater de asas perturba a copa de folhas acima de sua cabeça. Em algum lugar a distância, um bugio guincha na escuridão. Ela olha o relógio — 22h23 —, depois puxa o poncho de lã sobre a cabeça novamente e muda de posição sobre a pedra.

Espere mais dez minutos.

Ela fecha os olhos, deixando que a selva a abrace, como fazia quando era criança. O cheiro pesado do musgo, o som de folhas de palmeira dançando na brisa — e ela está de volta à Guatemala, com apenas 4 anos, parada ao lado da parede de taipa, sob a janela do quarto da mãe, ouvindo sua avó chorando lá dentro. Ela espera sua tia sair acompanhando a velha senhora antes de entrar pela janela.

Dominique olha para o corpo sem vida esticado na cama. Dedos que alisaram seu longo cabelo apenas horas antes estão com as pontas azuladas. A boca está aberta, os olhos castanhos semicerrados, voltados para o forro. Ela toca as maçãs do rosto altas, sentindo a pele fria e úmida.

Esta não é a sua madre. É outra coisa, uma figura de carne sem vida que sua mãe usou enquanto fez parte do seu mundo.

Sua avó entra. Ela está com os anjos agora, Dominique...

O céu noturno explode acima de sua cabeça com os sons caóticos de mil morcegos-vampiros batendo as asas. Dominique salta de pé, seu coração batendo forte, tentando afastar os mosquitos e as lembranças.

— Não! Aqui não é a minha casa. Esta não é minha vida!

Ela empurra sua infância de volta para o sótão e tranca a porta, depois desce da pedra e abre caminho no mato até sair na boca do cenote sagrado.

Dominique olha para as paredes verticais do poço, que descem diretamente até a superfície de suas águas escuras, infestadas de algas. A luz da Lua minguante revela camadas de sulcos geológicos esculpidos no interior do túnel de calcário, branco feito giz. Ela olha para cima, concentrando-se numa estrutura fechada de pedra suspensa sobre o lado sul do cenote. Mil anos atrás, os maias, desesperados com a partida repentina de seu deus-rei, Kukulcán, recorreram a sacrifícios humanos num esforço para adiar o fim da humanidade. Virgens foram trancadas nesse banho de vapor primordial para serem purificadas, depois levadas para a plataforma sobre o teto pelos sacerdotes cerimoniais. Despindo as jovens, eles as deitavam sobre a estrutura de pedra e usavam seus punhais de obsidiana para extirpar-lhes o coração ou cortar-lhes a garganta. Os corpos das virgens, carregados de jóias, eram então lançados cerimoniosamente dentro do poço sagrado.

O pensamento faz Dominique estremecer. Ela dá a volta no poço e desce pelo Sache, um caminho largo e elevado de terra e pedra que corta a densa selva até chegar à fronteira setentrional da antiga cidade.

Quinze minutos e meia dúzia de tropeções depois, Dominique emerge do caminho. Diante dela está a face norte da pirâmide de Kukulcán, sua silhueta escura e angulosa elevando-se nove andares sob o céu estrelado. Ela se aproxima da base, que é guardada de ambos os lados pelas cabeças esculpidas de duas enormes serpentes.

Dominique olha ao seu redor. A cidade antiga está escura e deserta. Um calafrio corre-lhe pela espinha. Ela começa a subir.

Na metade da subida, ela está ofegante. Os degraus da pirâmide são bem estreitos, a subida é íngreme, e não há nada para se segurar. Ela se vira e olha para baixo. Uma queda dessa altura seria o fim.

— Mick? — Sua voz parece ecoar pelo vale. Ela espera uma resposta, e então, sem ouvir nada, continua a subir.

Ela leva mais cinco minutos para chegar ao topo, uma plataforma plana sustentando um templo de pedra quadrado de dois andares. Sentindo-se zonza, ela se apóia na parede norte da estrutura para retomar o fôlego, seus quadríceps ainda queimando com o esforço da subida.

O panorama é espetacular, sem nenhum corrimão de segurança. O luar revela detalhes sombreados de cada estrutura na parte norte da cidade. Nos seus confins, a cobertura vegetal da selva se espalha pelo horizonte como a margem escura de uma pintura.

A calçada ao redor da estrutura tem só um metro e meio de largura. Ficando longe da borda precária, ela enxuga o suor do rosto e para diante da larga entrada do corredor norte do templo. Um imenso portal, formado por um lintel ladeado por duas colunas em forma de serpente, se agiganta acima de sua cabeça.

Ela dá um passo para dentro do breu interior.

— Mick, você está aí dentro?

Sua voz parece abafada. Ela pega da mochila a lanterna que comprou mais cedo e entra na câmara úmida de calcário.

O corredor norte é uma câmara dupla, fechada, um santuário central precedido por um vestíbulo. O interior acaba abruptamente numa imensa parede central. O facho de sua lanterna revela um teto abobadado e um chão de pedra, sua superfície enegrecida pelas fogueiras cerimoniais. Saindo da câmara vazia, ela contorna a plataforma à esquerda e entra no corredor oeste, uma passagem nua que ziguezagueia para se ligar aos corredores sul e leste.

O templo está deserto.

Dominique olha a hora: 23h20. Será que ele não vem?

O ar frio da noite a faz tremer. Procurando se aquecer, ela volta a se refugiar na câmara norte e se apóia na parede central, a pedra maciça ao seu redor bloqueando o vento e amortecendo todos os ruídos.

A atmosfera lá dentro parece pesada, como se tivesse alguém no escuro, esperando para atacá-la. Ela usa o facho da lanterna para percorrer o interior, acalmando sua mente.

A exaustão ganha terreno. Ela se deita no chão de pedra e se encolhe, fechando os olhos, seus pensamentos atormentando-lhe o sono com imagens de sangue e morte.
A extensão ao redor da pirâmide é um mar de corpos pardos e ondulantes e rostos pintados, iluminados pelo brilho laranja de 10 mil tochas. De sua posição dentro do corredor norte, ela consegue ver o sangue escorrendo escada abaixo como uma cascata escarlate, empoçando ao redor de um monte de carne mutilada entre as duas cabeças de serpente ao pé da pirâmide.

Mais uma dúzia de mulheres estão no templo com ela, todas vestidas de branco. Elas se apertam como ovelhas assustadas, fitando-a com olhos vazios.

Dois sacerdotes entram. Cada um usa um cocar cerimonial de penas verdes e uma tanga recortada do couro de um jaguar. Os sacerdotes se aproximam, seus olhos escuros grudados em Dominique. Ela recua, seu coração batendo forte, quando eles a seguram pelo punho, arrastando-a à força para a plataforma do templo.

O ar noturno está carregado do fedor do sangue, suor e fumaça.

De frente para a multidão inebriada há um imenso Chac Mool, a estátua de pedra de um semideus maia inclinado. No colo do Chac Mool há uma bandeja cerimonial transbordando com os restos mutilados de uma dúzia de corações humanos.

Dominique grita. Ela tenta fugir, mas dois outros sacerdotes avançam e a agarram pelos tornozelos, levantando-a alto do chão. A multidão geme quando aparece o sacerdote-mor, um ruivo musculoso cujo rosto está escondido pela máscara de uma cabeça de serpente emplumada. Um sorriso amarelo e demoníaco aparece dentro da boca aberta e dentuça da máscara.

— Olá, gatinha.

Dominique grita quando Raymond arranca o pano branco de seu corpo, desnudando-a, depois levanta o punhal negro de obsidiana para a multidão. A turba sedenta de sangue entoa um canto lúbrico.

— Kukulcán! Kukulcán!

A um gesto de Raymond, os quatro sacerdotes a deitam no chão, prendendo-a à plataforma de pedra.

— Kukulcán! Kukulcánl

Dominique grita novamente quando Raymond brande o punhal de obsidiana. Ela arfa, incrédula, ao vê-lo erguer a lâmina acima da cabeça, depois mergulhá-la com força em seu seio esquerdo.

— Kukulcán! Kukulcán!

Ela uiva, agonizante, retorcendo seu corpo estendido...

— Dom, acorde...

... enquanto Raymond enfia a mão na ferida e arranca seu coração, ainda batendo, erguendo-o para o céu para que todos o vejam.

— Dominique!

Dominique dá um grito apavorante e desfere socos e pontapés na terrível escuridão, atingindo a sombra em cheio no rosto. Desorientada, ainda nas garras do pesadelo, ela rola para o lado e salta em pé, correndo cegamente para fora da câmara, rumo à queda de 27 metros.

Uma mão a alcança e puxa seu tornozelo. Ela bate com o peito na plataforma e a dor a acorda.

— Meu Deus, Dominique, o maluco aqui sou eu.

— Mick? — Ela se senta, esfregando as costelas machucadas e recuperando o fôlego.

Mick se aproxima dela.

— Você está bem?

— Você quase me matou de susto.

— Somos dois. Deve ter sido um pesadelo e tanto. Você quase pulou do alto da pirâmide.

Ela olha para o precipício, depois se vira e o abraça, ainda tremendo.

— Meu Deus, eu odeio este lugar. Estas paredes cheiram a fantasmas maias. — Ela se afasta e olha para o rosto dele. — Seu nariz está sangrando. Fui eu que fiz isso?

— Me acertou com um cruzado de direita. — Ele tira uma bandana do bolso de trás e estanca a hemorragia. — Meu nariz nunca vai sarar.

— Bem feito. Por que precisamos nos encontrar logo aqui, e no meio da noite, porra?

— Sou um fugitivo, lembra? Por falar nisso, como conseguiu escapar da Marinha?

Ela desvia o olhar.

— Você é o fugitivo, não eu. Contei ao capitão que te ajudei porque estava confusa com a morte do Iz. Acho que ele sentiu pena de mim, porque me liberou. Vamos, podemos falar sobre isso depois. Agora só quero descer desta pirâmide.

— Ainda não posso ir embora. Tenho trabalho a fazer.

— Trabalho? Que trabalho? No meio da noite...

— Estou procurando uma passagem pro interior da pirâmide. É vital que a gente encontre...

— Mick...

— Meu pai tinha razão sobre a pirâmide de Kukulcán. Descobri uma coisa, algo realmente incrível. Vou te mostrar. — Mick tira da bolsa um pequeno aparelho eletrônico.

— Isto é um espectrômetro ultrassônico. Ele emite ondas sonoras de baixa amplitude pra descobrir imperfeições em sólidos.

Mick liga a lanterna, puxa-a pelo braço e a leva de volta para dentro do templo até a parede central. Ele ativa o espectrômetro, dirigindo as ondas sonoras para o meio da pedra.

— Olhe só. Está vendo estes comprimentos de onda? São um sinal claro de que tem outra estrutura escondida atrás desta parede. Seja o que for, é metálica e atravessa toda a pirâmide, indo até o teto do templo.

— Certo, acredito em você. Agora podemos ir embora?

Mick olha para ela, incrédulo.

— Ir embora? Você não entende? Está aqui, dentro destas paredes. Só precisamos descobrir uma via de acesso.

— O que tem aí dentro? Um pedaço de metal?

— Um pedaço de metal que pode ser o instrumento que vai salvar a humanidade. Aquele que Kukulcán nos deixou. Precisamos... ei, espere, aonde está indo?

Ela continua indo para a plataforma.

— Você ainda não acredita em mim, não é?

— Acreditar no quê? Que todo homem, toda mulher e criança do planeta vai morrer nas próximas duas semanas? Não, sinto muito, Mick, ainda tenho algumas dificuldades em lidar com isso.

Mick a segura pelo braço.

— Como ainda pode duvidar de mim? Você viu o que está enterrado no Golfo. Nós dois estivemos lá juntos. Você mesma viu.

— Vi o quê? O interior de um canal de lava?

— Canal de lava?

— Isso mesmo. Os geólogos a bordo da Boone me explicaram tudo. Até me mostraram fotos infravermelhas de satélite de toda a cratera de Chicxulub. O que parece um brilho verde é só um rio subterrâneo de lava passando por baixo daquele buraco no leito do oceano. O buraco se abriu quando um vulcão subterrâneo ficou ativo em setembro passado.

— Vulcão? Dominique, que história é essa?

— Mick, o nosso minissubmarino foi sugado por um dos canais de lava quando uma parte do subsolo desabou. A gente deve ter flutuado pra superfície quando a pressão diminuiu. — Ela balança a cabeça. — Você me enganou direitinho, não foi? Provavelmente ouviu falar do vulcão na CNN ou em algum outro lugar. Foi o barulho dele que o Iz ouviu com o SOSUS.

Ela soca o peito dele.

— Meu pai morreu explorando uma droga de vulcão subterrâneo...

— Não!


— Você me enganou, não foi? Só queria fugir!

— Dominique, escute...

— Não! Meu pai morreu porque te escutei. Agora me escuta. Te ajudei porque sabia que você estava sendo maltratado e porque eu precisava da sua ajuda pra descobrir o que aconteceu com o Iz. Agora sei a verdade. Você me enganou!

— Besteira! Tudo o que a Marinha te contou é mentira. Aquele túnel não era nenhum canal de lava, era um duto de entrada artificial. O que o seu pai ouviu foram os sons de um conjunto de turbinas gigantes. Nosso minissubmarino foi sugado por um duro de entrada. O submarino emperrou as lâminas da turbina. Você não se lembra de nada disso? Eu sei que estava ferida, mas você ainda estava consciente quando eu saí do submarino.

— O que você disse? — Ela olha para ele, confusa de repente, incomodada por uma lembrança distante. — Espera... eu te dei um tanque de oxigênio?

— Sim! Ele salvou minha vida.

— Você saiu mesmo do submarino? — Ela se senta na beira da plataforma. Será que a Marinha mentiu? — Mick, você não pode ter saído do submarino. A gente estava debaixo d'água...

— A câmara estava pressurizada. O minissubmarino bloqueou a entrada.

Ela sacode a cabeça. Pare com isso. Ele está mentindo! Isso é loucura!

— Eu enfaixei a sua cabeça. Você estava com medo. Me pediu um abraço antes que eu saísse do submarino. Me fez prometer que eu voltaria.

Uma vaga lembrança gira em sua mente.

Mick se senta na plataforma.

— Ainda não acredita numa palavra do que estou dizendo, não é?

— Estou tentando lembrar. — Ela se senta ao lado dele. — Mick... me desculpe por ter batido em você.

— Eu avisei pra não deixar que o Iz fosse investigar no Golfo.

— Eu sei.

— Eu nunca trairia você. Nunca.

— Mick, digamos que eu acredite em você. O que você viu quando saiu do submarino? Aonde ia dar essa sua turbina?

— Localizei uma espécie de tubo de drenagem e consegui subir por ele. A passagem levava até uma câmara enorme. A atmosfera lá dentro era escaldante. Chamas vermelhas subiam pelas paredes.

Mick olha para as estrelas.

— Lá no alto, em cima da minha cabeça, girava um... um vórtice de energia esmeralda magnífico. Ele se movia como uma galáxia em miniatura. Era tão bonito.

— Mick...

— Espere, tem mais. Na minha frente tinha um lago de energia líquida, ondulante, como um mar de mercúrio, só que a superfície parecia um espelho. E então ouvi a voz do meu pai falando comigo de longe.

— Seu pai?

— É, só que não era o meu pai, era alguma forma de vida alienígena. Eu não conseguia vê-la, estava dentro de uma câmara complexa, flutuando sobre o lago derretido numa enorme cápsula. Ela me olhou com uns olhos vermelhos brilhantes, demoníacos. Morri de medo...

Dominique expira. Aí está. Demência clássica. Meu Deus, o Foletta tinha razão. Era evidente o tempo todo e eu me recusei a enxergar. Ela o vê com o olhar perdido ao longe.

— Mick, vamos falar sobre isso. Essas imagens que você viu são muito simbólicas, sabe? Vamos começar com a voz do seu pai...

— Espere! — Ele a olha de frente, seus olhos arregalados, como duas poças negras. — Acabei de perceber uma coisa. Eu sei quem era a forma de vida.

— Continua. — Ela percebe o cansaço em sua própria voz. — Quem você acha que viu?

— Era Tezcatilpoca.

— Quem?

— Tezcatilpoca. A divindade maligna que te falei no barco. É um nome asteca que significa "Espelho Enfumaçado", uma descrição da arma da divindade. De acordo com a lenda, o Espelho Enfumaçado dava a Tezcatilpoca a capacidade de enxergar dentro da alma dos homens.



— É, eu me lembro.

— O ser olhou dentro da minha alma. Falou comigo como meu pai, como se me conhecesse. Estava tentando me enganar.

Ela põe a mão em seu ombro, enrolando os cachos escuros de cabelo que lhe cobrem o pescoço.

— Mick, sabe o que eu acho? Que a colisão do submarino deixou nós dois atordoados, e...

Ele afasta a mão dela.

— Não faça isso! Não me tf ate como seu paciente. Eu não estava sonhando, e não estou tendo ilusões esquizofrênicas. Toda lenda possui sua realidade. Você não sabe nada sobre as lendas dos seus ancestrais?

— Não são meus ancestrais.

— Bobagem. — Mick a segura pelo pulso. — Goste você ou não, tem sangue maia quiche correndo nessas veias.

Ela liberta o seu braço.

— Fui criada nos Estados Unidos. Não acredito nessas idiotices do Popol Vuh.

— Apenas me ouça...

— Não! — Ela o segura pelos ombros. — Mick, pare um momento e me escute. Por favor. Eu gosto de você. Sabe disso, não sabe? Acho você uma pessoa inteligente, sensível e extremamente talentosa. Se me permitir, se confiar em mim, posso te ajudar.

Seu rosto se acende.

— Mesmo? Que bom, porque realmente preciso de ajuda. Só temos 11 dias até...

— Não, você não entendeu. — Seja maternal. — Mick, vai ser muito difícil ouvir isto, mas preciso dizer. Você está exibindo todos os sintomas de um caso grave de esquizofrenia paranóica. Está tão confuso que só vê as árvores, mas não a floresta. Isso pode ser congênito, ou simplesmente o efeito de 11 anos na solitária. Seja como for, você precisa de ajuda.

— Dom, o que eu vi não era alucinação. O que vi foi o interior de uma espaçonave muito complexa e muito alienígena.

— Uma espaçonave? — Meu Deus, esse caso é areia demais pro meu caminhão.

— Acorde, Dominique. O governo também sabe que aquilo está lá...



Ilusões paranóicas típicas...

— Aquelas bobagens que te contaram a bordo da Boone eram histórias falsas pra te despistar.

Lágrimas quentes de frustração lhe escorrem pela face ao perceber os erros devastadores que cometeu. A dra. Owen tinha razão desde o princípio. Ao abrir o coração para o seu paciente, ela destruiu sua própria objetividade. Tudo o que aconteceu foi culpa dela. Iz estava morto, Edie presa, e o homem que ela tentou salvar, o homem por quem ela sacrificou tudo, não passava de um paranóico-esquizofrênico cuja mente acabava de entrar em colapso.

Um pensamento passa por sua mente de repente. Quanto mais nos aproximarmos do solstício de inverno, mais perigoso ele vai ficar.

— Mick, você precisa de ajuda. Perdeu o contato com a realidade. Mick olha para o bloco de calcário perfeitamente cortado sob seus pés.

— Por que você está aqui, Dominique?

Ela segura a mão dele.

— Estou aqui porque me importo. Estou aqui porque posso te ajudar.

— Mais uma mentira. — Ele a olha, seus olhos negros brilhando ao luar. — O Borgia falou com você, não é? Ele tem um ódio mortal pela minha família. É capaz de dizer ou fazer qualquer coisa pra se vingar de mim. Como ele te ameaçou?

Ela desvia o olhar.

— O que ele prometeu? Me conte o que ele disse.

— Quer saber o que ele disse? — Ela o olha intensamente, a raiva aumentando em sua voz. — Ele prendeu a Edie. Disse que nós duas vamos passar muito tempo na cadeia por termos ajudado a te libertar.

— Merda. Eu sinto muito...

— O Borgia prometeu que retiraria as acusações contra nós duas se eu te encontrasse. Ele me deu uma semana. Se eu não conseguisse, a Edie e eu iríamos pra prisão.

— Desgraçado.

— Mick, nem tudo está perdido. O dr. Foletta concordou em me nomear pra cuidar de você.

— O Foletta também? Meu Deus do céu...

— Você vai ser levado pro novo hospital em Tampa. Chega de isolamento. De agora em diante, uma equipe de psiquiatras e clínicos indicada pelo Conselho vai trabalhar com você. Eles vão te dar todo o tratamento necessário. Antes do que imagina, vamos começar a terapia com medicamentos, e você vai retomar o controle dos seus pensamentos. Nada de hospícios, nem de viver na selva mexicana como fugitivo. No fim, você vai conseguir levar uma vida normal e produtiva.

— Nossa, você faz tudo parecer tão maravilhoso — diz ele, sarcasticamente. — E Tampa é tão pertinho da ilha de Sanibel. O Foletta te ofereceu plano de saúde com cobertura total também? E que tal uma vaga privativa no estacionamento?

— Não estou fazendo isso por mim, Mick, mas por você. Pode ser a melhor coisa pra gente.

Ele balança a cabeça tristemente.

— Dom, é você que não consegue enxergar a floresta. — Ele a puxa de pé, apontando para o céu. — Está vendo aquela linha escura, paralela ao Grande Campo? É a fenda escura da Via Láctea, o equivalente galáctico do nosso equador. A cada 25.800 anos, o Sol fica alinhado com o ponto central dela. A data exata desse alinhamento é daqui ali dias. Onze dias, Dominique. Nesse dia, o dia do solstício de inverno, um portal cósmico vai se abrir, dando a uma força maligna acesso ao nosso mundo. No fim desse dia, você, eu, a Edie, o Borgia, e todos os seres vivos deste planeta vão morrer. A menos que a gente encontre a entrada secreta desta pirâmide.

Mick a olha nos olhos, com o coração apertado.

— Eu... eu te amo, Dominique. Te amo desde o dia em que a gente se conheceu, desde o dia em que você me fez uma simples gentileza. Também estou em dívida com você e com a Edie. Mas agora preciso levar essa coisa até o fim, mesmo que isso signifique te perder. Talvez você tenha razão. Talvez tudo isso seja uma grande ilusão esquizofrênica que meus pais psicóticos me passaram. Talvez eu esteja tão fora da realidade que nem consiga mais ver o que está na minha frente. Mas você não entende? Quer isso seja real, quer seja produto da minha imaginação, não posso parar agora, preciso ir até o fim.

Ele pega o espectrômetro, com os olhos cheios de lágrimas.

— Juro pela alma da minha mãe que se eu estiver errado, vou voltar pra Miami no dia 22 de dezembro e vou me entregar às autoridades. Até lá, se você realmente quer me ajudar, e se realmente se importa, pare de ser minha psiquiatra. Seja minha amiga.



27
10 DE DEZEMBRO DE 2012

EDIFÍCIO DAS NAÇÕES UNIDAS

NOVA YORK
O auditório lotado se cala, as câmeras de TV gravan¬do, quando Viktor Ilyich Grozny se dirige à tribuna para falar com os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas e o resto do mundo.

— Senhora presidente, senhor secretário-geral, membros do Conselho de Segurança, convidados de honra. Hoje é um dia triste. Apesar dos mandados e avisos da Assembléia Geral e do Conselho de Segurança, apesar dos esforços exaustivos da diplomacia preventiva e do trabalho de pacificação do secretário-geral e de seus enviados especiais, uma nação renegada, mas muito poderosa, continua a ameaçar o resto do mundo com a arma mais perigosa da história da humanidade.

"A guerra fria acabou, ao menos é o que nos dizem, e as virtudes do capitalismo triunfaram sobre os males do comunismo. Enquanto as economias do Ocidente continuam a crescer, a Federação Russa luta para se reconstruir. Nosso povo está destituído e milhares passam fome. Culpamos o Ocidente por isso? Não. Os problemas da Rússia foram criados pelos russos, e é nossa responsabilidade nos salvarmos."

Os olhos azuis angelicais projetam uma inocência infantil para a câmera.

— Sou um homem de paz. Com a diplomacia das palavras, convenci nossos irmãos árabes, sérvios e coreanos a depor armas contra seus inimigos vitalícios, porque sei e acredito de coração que a violência não resolve nada e que os erros do passado não podem ser desfeitos. A moralidade é uma escolha pessoal. Cada um de nós será julgado pelo Criador quando chegar a hora, mas nenhum homem tem o direito divino de infligir dor e sofrimento a outro ser humano em nome da moralidade.

Os olhos de Grozny se tornam duros.

— Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra. A guerra fria está morta, mas os Estados Unidos, em virtude de sua economia forte e de seu poderio bélico, continuam a policiar o mundo, decidindo se as políticas dos outros países são moralmente íntegras. Como o valentão da escola, a América cerra os punhos, ameaçando violência, tudo em nome da paz. Como os hipócritas mais poderosos do mundo, os Estados Unidos armam os oprimidos até que eles se tornem opressores. Israel, Coréia do Sul, Vietnã, Iraque, Bósnia, Kosovo, Taiwan, quantos mais precisam morrer antes que os Estados Unidos percebam que a ameaça de violência gera apenas mais violência, que a tirania, disfarçada pelas melhores intenções, continua sendo tirania?

Os olhos se abrandam.

— E agora, o mundo testemunha um novo tipo de ameaça. Possuir a força bélica mais sofisticada da História não é o bastante. A dominação do espaço não é o bastante. A implementação do Escudo Antimíssil não é o bastante. Agora, os capitalistas têm uma nova arma que muda as regras do impasse nuclear. Por que os Estados Unidos continuam a testar essas armas e negar sua responsabilidade? Será que o presidente americano acha que somos todos estúpidos? Suas desculpas acalmam os nervos frágeis dos povos australiano e malásio? Onde acontecerá a próxima detonação? Na China? Na Federação Russa? Ou talvez no Oriente Médio, onde três porta-aviões americanos e suas frotas estão prontos para atacar, tudo em nome da justiça?

Grozny faz uma pausa.

— A Federação Russa se junta à China e ao resto do mundo na condenação a essas novas ameaças de violência — diz ele. — Hoje damos este aviso, e quero ser perfeitamente claro, para evitar que nossa moralidade seja julgada. Não viveremos com medo. Não cederemos mais às táticas intimidatórias do Ocidente. A próxima detonação de fusão pura será a última, pois vamos interpretá-la como uma declaração de guerra nuclear!

A assembléia irrompe num pandemônio, e os protestos dos representantes dos Estados Unidos não são ouvidos, enquanto os seguranças de Viktot Grozny o escoltam para fora do edifício.



Cidade de Pisté

(2 quilômetros a Oeste de Chichén Itzá)

Península de Yucatán
Dominique Vazquez abre os olhos ao ouvir o som de galinhas cacarejando. A luz da manhã penetra pelas tábuas apodrecidas acima de sua cabeça, revelando um balé de partículas flutuantes dançando no ar. Ela se espreguiça no saco de dormir, depois rola para o lado.

Mick já está acordado, encostado num monte de feno, estudando o diário do pai. Os raios solares iluminam os traços angulosos de seu rosto. Ele ergue os olhos negros, que brilham para ela.

— Bom dia.

Ela sai do saco de dormir.

— Que horas são?

— Umas 11. Está com fome? Os Forma deixaram café da manhã pra você na cozinha — Ele aponta para a porta aberta do celeiro, de onde se vê a casa de taipa rosada. — Pode ir lá e se servir. Eu já tomei café.

Descalça, ela anda pelo chão sujo de palha e esterco e se senta ao lado dele. — O que você está estudando aí?

Ele aponta para o desenho da pirâmide de Nazca.

— Este símbolo é a chave pia encontrar a entrada secreta da pirâmide de Kukulcán. O animal é um jaguar, e o símbolo está invertido pra indicar descida. Os maias antigos consideravam a boca aberta do jaguar ligada tanto às cavernas terrestres quanto ao Mundo Inferior. As cavernas mais próximas daqui estão em Balancanché. Meus pais e eu passamos anos vasculhando, mas não encontramos nada.

— E esse padrão de círculos concêntricos?

— Essa é a parte da equação que ainda me intriga. Primeiro, pensei que o padrão pudesse simbolizar uma caverna subterrânea. Círculos idênticos estão entalhados em todos os sítios antigos que os meus pais exploraram. Até voltei às cavernas de Balancanché quando cheguei aqui, mas não encontrei nada.

Dominique tira o mapa de Chichén Itzá do seu bolso de trás. Ela olha para a planta das ruínas, as fotografias tiradas à grande altura sobre a cidade antiga.

— Fale mais desse Mundo Inferior maia. Como você o chamou?

— Xibalba. De acordo com o mito maia da criação, a fenda escura da Via Láctea é Xibalba Be, a Estrada Negra pro Mundo Inferior. Está escrito no Popol Vuh que Xibalba é onde o nascimento, a morte e a ressurreição acontecem. Infelizmente, as palavras do Popol Vuh requerem um pouco de interpretação. Tenho certeza de que a maior parte do significado original se perdeu pelos séculos.

— Por que você diz isso?

— O Popol Vuh foi escrito por volta do século XVI, muito depois da ascensão e queda da civilização maia e do desaparecimento de Kukulcán. Por causa disso, as histórias tendem a pender mais para a mitologia do que para os fatos. Por outro lado, depois do que vi no Golfo, não tenho mais certeza. — Ele olha para ela, sem saber se deve continuar.

— Continue, estou ouvindo.

— Com mente aberta ou isso só faz parte da minha terapia?

— Você disse que precisava de uma amiga. Bem, aqui estou. — Ela lhe aperta a mão. — Mick, esse alienígena que você diz que se comunicou com você. Você disse que ele falou com a voz do seu pai?

— É. Ele me enganou, me atraiu mais pra perto.

— Bem, não se irrite, mas na história da criação do Popol Vuh, você não me contou que a mesma coisa aconteceu com, hã, qual o nome dele?

— Um Hunahpu. — Seus olhos se arregalam.



Excelente, ele está reconhecendo as origens da sua demência.

— Você continua achando que eu imaginei tudo isso, não é?

— Eu não disse isso, mas você precisa admitir que é um paralelo bem estranho. O que aconteceu com Um Hunahpu depois que os deuses do Mundo Inferior o enganaram?

— Ele e o irmão foram torturados e mortos. Mas a derrota dele fazia parte de um plano maior. Depois que os Senhores do Mundo Inferior o de¬capitaram, eles deixaram sua cabeça no ramo de um cabaceiro pra manter os invasores longe de Xibalba. Mas um dia uma linda mulher, Lua de Sangue, decidiu desafiar os deuses e visitar a árvore da morte. Ela esticou a mão pra tocar o crânio do Um Hunahpu, que cuspiu magicamente em sua mão, deixando-a grávida. Lua de Sangue fugiu, voltando para o Mundo Médio, que é a Terra, pra dar à luz os Gêmeos Heróis Hunahpu e Xbalanque.

— Hunahpu e Xbalanque?

— Filhos gêmeos. Os Gêmeos Heróis. Os rapazes cresceriam e se tornariam grandes guerreiros. Ao chegar à idade adulta, voltaram pra Xibalba pra desafiar os Senhores do Mundo Inferior. Mais uma vez, os deuses malignos tentaram vencer usando a ilusão, mas dessa vez os Gêmeos Heróis prevaleceram, derrotando seus inimigos, vencendo o mal e ressuscitando seu pai. A ressurreição de Um Hunahpu leva à concepção e ao renascimento celestial da nação maia.

— Conte mais sobre essa Estrada Negra falando com Um Hunahpu. Como uma estrada pode falar?

— Não sei. De acordo com o Popol Vuh, a entrada da Estrada Negra era simbolizada pela boca de uma grande serpente. A fenda escura também era considerada uma serpente celestial.

Vá em frente. Pressione-o.

— Mick, me escute apenas um segundo. Você passou a vida toda perseguindo fantasmas maias, absorto nas lendas do Popol Vuh. Não seria remotamente possível que...?

— O quê? Que eu tenha imaginado a voz do meu pai?

— Não fique nervoso. Só estou perguntando porque a história da jornada de Um Hunahpu parece um paralelo de tudo o que você me contou sobre essa câmara subterrânea. Além disso, acho que você tem umas questões mal resolvidas com o seu pai.

— Pode ser, mas não imaginei aquele ser alienígena. Não imaginei a voz do meu pai. Foi real.

— Ou talvez só tenha parecido real.

— Está bancando a psiquiatra de novo.

— Só estou tentando ser sua amiga. Ilusões paranóicas são muito poderosas. O primeiro passo pra se ajudar é aceitar o fato de que você precisa de ajuda.

— Dominique, pare...

— Se você deixar, posso te ajudar...

— Não! — Mick a empurra e sai do celeiro. Ele fecha os olhos, respirando fundo, aquecendo seu rosto no sol do meio-dia e tentando recuperar o controle.

Já é o suficiente. Plantei a semente, agora preciso reconquistar a confiança dele. Ela dirige novamente a atenção para o mapa de Chichén Itzá. Por algum motivo, a imagem aérea do cenote lhe chama a atenção. Ela pensa na noite passada, na sua caminhada através da selva.

As paredes do cenote... brilhando ao luar. Os sulcos no calcário...

— O que foi?

Assustada, ela olha para cima, surpresa ao vê-lo ao seu lado.

— Ha, nada, acho que não é nada.

— Diga. — Os olhos de ébano são intensos demais para serem enganados.

— Veja este mapa. A imagem aérea do cenote lembra o padrão de círcu¬los concêntricos encontrado dentro do desenho da pirâmide de Nazca.

— Meus pais chegaram à mesma conclusão. Passaram meses mergulhando em cada cenote, explorando cada poço e caverna subterrânea da região. As únicas coisas que encontraram foram alguns esqueletos, restos mortais dos sacrifícios, mas nada que se parecesse com uma passagem.

— Já verificou o cenote depois do terremoto? — Ela se retorce toda quando as palavras escapam de sua boca.

— O terremoto? — O rosto de Mick se ilumina. — O terremoto no equinócio de outono atingiu Chichén Itzá? Meu Deus, Dominique, por que você não me contou isso antes?

— Não sei. Acho que não percebi que era tão importante. Quando descobri, o Foletta já tinha te transformado num vegetal.

— Me fale do terremoto. Como ele afetou o cenote?

— Foi só um pequeno item no noticiário. Um grupo de turistas disse ter visto as águas do poço se agitando durante o abalo sísmico.

Mick sai correndo.

— Espere, aonde você vai?

— Vamos precisar de um carro. Talvez a gente precise passar um ou dois dias em Mérida comprando suprimentos. Coma alguma coisa. Encontro você aqui em uma hora.

— Mick, espere. Que suprimentos? Que história é essa?

— Equipamento de mergulho. Precisamos verificar o cenote. Ela o vê correndo pela rua, indo para a cidade.

Muito bem, Sigmund. A idéia não era encorajá-lo.

Aborrecida consigo mesma, ela sai do celeiro e entra na casa dos Forma, uma construção de taipa com cinco cômodos, decorada com motivos mexicanos de cores vivas. Ela encontra um prato de banana frita e pão de milho sobre a mesa da cozinha e se senta para comer.

Então nota o telefone.




Diário de Julius Gabriel
Era o verão de 1985, e estávamos de volta a Nazca.

Pelos primeiros seis meses, nós três viajávamos diariamente de um pequeno apartamento em Ica, uma cidadezinha movimentada 144 quilômetros ao norte de Nazca. Mas nosso minguado orçamento logo nos obrigou a uma mudança, e eu instalei minha família numa casa de dois cômodos na aldeia rural de Ingenio.

Vendendo nosso trailer, consegui comprar um pequeno balão aerostático. Toda segunda-feira de manhã, ao nascer do Sol, Maria, Michael e eu voávamos a 300 metros de altitude sobre o deserto do pampa, fotografando as miríades de linhas e os magníficos animais entalhados no platô. O resto da semana era dedicado a uma análise meticulosa das fotos, que esperávamos nos revelassem a mensagem que poderia guiar nossa entrada na pirâmide de Kukulcán.

O que é torturante no desafio de interpretar os desenhos de Nazca é que há muito mais pistas falsas do que reais. Centenas de desenhos de animais e milhares de formas se espalham pela tela do deserto como pichações pré-históricas, a maioria das quais não foi criada pelo artista original de Nazca. Retângulos, triângulos, trapézios, aglomerados e linhas impossivelmente retas, algumas com mais de 40 quilômetros de comprimento, esparramam-se por 500 quilômetros quadrados de planície ocre. Somem-se a isso as figuras humanóides escavadas nas encostas circunstantes e será possível perceber quão desanimadora era a nossa tarefa. Apesar disso, nossos esforços acabaram nos ajudando a separar o que considerávamos as figuras mais cruciais do resto das epígrafes peruanas.

São os desenhos mais antigos e complexos que contêm a verdadeira mensagem de Nazca. Só podemos especular sobre a data de sua origem, mas sabemos que têm no mínimo 1.500 anos.

Os hieróglifos de Nazca têm duas funções distintas. ícones que denominamos "primários" são usados para descrever a história por trás da profecia do Juízo Final, enquanto as figuras "secundárias", próximas àqueles ícones, nos dão pistas importantes que ajudam a decifrar o significado deles.

O relato do artista começa no centro da tela do deserto, com uma figura que Maria apelidou de sol de Nazca, um círculo perfeito com 23 linhas estendendo-se de seu perímetro. Uma dessas linhas é mais longa que o resto, alongando-se por uns 32 quilômetros através do deserto. Doze anos depois, eu iria descobrir que essa linha interminável estava precisamente alinhada com o Cinturão de Órion. Logo depois, Michael descobriria um recipiente de irídio enterrado no meio desse miste¬rioso ponto de partida, contendo um antigo mapa do mundo (ver a anotação do dia 14 de junho de 1990). Esse pergaminho parecia identificar a península de Yucatán e o Golfo do México como o campo de batalha final do futuro Armagedom.

Bem perto do Sol está a aranha de Nazca. O seu gênero específico — Ricinuki — é um dos mais raros do mundo, e só é encontrado em algumas das áreas mais inacessíveis da floresta amazônica. Como as baleias e o macaco, a aranha de Nazca é mais uma espécie não originária do deserto peruano. Por esse motivo, nós a consideramos um ícone direcional, neste caso, celestial por natureza. Resulta que a aranha é um marco terrestre incrivelmente preciso, projetado para direcionar o observador (mais uma vez) para a constelação de Órion. As linhas retas do aracnídeo foram orientadas de forma a traçar as declinações mutáveis das três estrelas do Cinturão de Órion, as mesmas que os egípcios usaram para alinhar as pirâmides de Gizé.



Ao redor do Sol, espalhados pelo platô, há mais de uma dúzia de desenhos bizarros de predadores alados. Notem que não me refiro aos desenhos mais recentes do beija-flor ou do pelicano, duas espécies originárias da região, e sim a uma série de seres de aspecto infernal que ainda não consegui identificar. Essas criaturas misteriosas, com garras, se multiplicam pelo platô de Nazca, e ainda não tenho nenhuma idéia de sua função.