Steve Alten o domínio



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27 DE NOVEMBRO DE 2012

ILHA DE SANIBEL, FLÓRIDA
O grasnar agudo de uma gaivota faz Mick abrir os olhos.

Ele está deitado numa cama de casal, com os dois pulsos atados às laterais do estrado. Seu antebraço esquerdo está enfaixado. Um tubo de soro está espetado no direito.

Ele está num quarto residencial. Faixas de sol dourado refletem-se na parede oposta, entrando pelas venezianas que se agitam sobre sua cabeça. Ele sente o cheiro de sal no ar. Consegue ouvir o som da arrebentação do oceano entrando pela janela aberta.

Uma mulher grisalha, de uns 70 anos, entra no quarto.

— Então você acordou. — Ela abre o velcro de seu pulso direito e verifica o frasco de soro.

— A senhora é a Edie?

— Não, sou Sue, esposa do Carl.

— Quem é Carl? O que estou fazendo aqui?

— Achamos perigoso levar você pra casa da Edie. A Dominique está lá, e...

— Dominique? — Mick se esforça para erguer o corpo, mas a tontura o empurra para baixo de novo como uma mão pesada e invisível.

— Calma aí, amigo. Você logo, logo, vai ver a Dominique. No momento, a polícia está de olho nela, esperando que você apareça. — Ela retira o tubo de soro e aplica um Band-Aid no seu braço.

— A senhora é médica?

— Fui assistente no consultório odontológico do meu marido por 38 anos. — Metodicamente, ela enrola o tubo no frasco de soro.

Mick nota seus olhos vermelhos.

— O que tinha no soro?

— Sobretudo vitaminas. Você estava mal quando chegou, dois dias atrás. Nada mais do que desnutrição, embora o seu braço esquerdo estivesse num estado deplorável. Você dormiu por quase 48 horas. Na noite passada, teve um pesadelo feio, gritava no sono. Tive que prender seus braços para que não arrancasse o soro.

— Obrigado. E obrigado por me tirar daquele hospital.

— Agradeça à Dominique. — Sue enfia a mão no bolso do casaco.

Mick fica surpreso ao vê-la puxar um revólver Magnum .44. Ela aponta a arma para a sua virilha.

— Ei, espere aí...

— Meu marido se afogou há alguns dias, a bordo do barco do Isadore. Três homens morreram enquanto investigavam o lugar do Golfo que você falou à Dominique. O que tem lá embaixo?

— Não sei. — Ele olha para a arma, que treme nas mãos da idosa. — A senhora poderia mirar num órgão menos vital?

— A Dominique contou tudo a seu respeito; por que você estava preso, sobre o biruta do seu pai e suas histórias do fim do mundo. Pessoalmente, estou me lixando se você acredita nessas maluquices apocalípticas, a única coisa que me importa é descobrir o que aconteceu com meu Carl. Pra mim, você é um fugitivo perigoso. Basta que me olhe torto e vou meter bala em você.

— Entendi.

— Não entendeu não. A Dominique se arriscou muito pra te libertar. Até agora, tudo na sua fuga aponta pra uma falha do enfermeiro, e não pra ela, mas a polícia ainda está desconfiada. Estão vigiando a Dominique de perto, o que significa que estamos todos em risco. Esta noite vamos te levar pro barco do Rex. Tem um minissubmarino a bordo...

— Um minissubmarino?

— Isso mesmo. O Rex o usava pra procurar navios naufragados. Você vai usá-lo pra descobrir o que está enterrado no leito do oceano. Até lá, vai ficar neste quarto e descansar. Se tentar fugir, te mato e entrego seu corpo à polícia pra pegar o dinheiro da recompensa.

Ela levanta o lençol. O tornozelo esquerdo de Mick está algemado ao estrado.

— Agora você entendeu.
NASA: Centro de Vôo Espacial Goddard

Greenbelt, Maryland
Ennis Chaney, contrariado, segue o técnico da NASA pelo corredor antisséptico de azulejos brancos.

O vice-presidente não está de bom humor. Os Estados Unidos estão à beira da guerra, e seu lugar é com o presidente e o Estado-Maior, não à disposição do diretor da NASA. Maldito caolho, com certeza me botou em mais uma de suas canoas furadas...

Ele fica surpreso ao ver um vigia parado à porta da sala de reuniões.

Ao ver Chaney, o vigia digita uma senha e abre a porta.

— Pode entrar, senhor, estão à sua espera.

O diretor da NASA, Brian Dodds, está sentado à cabeceira da mesa de reuniões. Ao seu lado estão Marvin Teperman e uma mulher de 30 e tantos anos, de jaleco branco.

Chaney nota as olheiras escuras de Dodds.

— Vice-presidente, entre. Obrigado por ter vindo tão prontamente. Esta é a dra. Debra Aldrich, uma das principais geofísicas da NASA, e acho que já conhece o dr. Teperman.

— Olá, Marvin. Dodds, é bom que isso seja importante...

— É. Sente-se, senhor. Por favor.

Dodds toca num botão do teclado à sua frente. As luzes da sala enfraquecem e uma imagem holográfica do Golfo do México aparece sobre a mesa.

— Esta imagem vem do satélite de observação oceanográfica SEASAT, da NASA. Como o senhor pediu, começamos a rastrear o Golfo para tentar isolar as origens da maré negra.

Chaney observa a imagem mudar, passando para um trecho de mar rodeado pela sobreposição de um círculo pontilhado branco.

— Usando o Radar de Abertura Sintética da Faixa X, conseguimos rastrear a maré negra até estas coordenadas, uma área localizada a uns 56 quilômetros a noroeste da península de Yucatán. Agora observe.

Dodds aperta outro botão. O mar holográfico se dissolve em manchas brilhantes verdes e azuis, no centro das quais está um círculo branco brilhante, sua borda se esfumando em tons mais frios de amarelo, depois vermelho.

— Estamos vendo uma imagem térmica da área em questão. Como pode ver, algo muito grande está lá embaixo, irradiando um calor tremendo.

— De início, pensamos ter encontrado um vulcão submarino — acrescenta a dra. Aldrich —, mas o levantamento geológico realizado pela Companhia Petrolífera Nacional do México confirma que não há vulcões na região. Fizemos mais alguns testes e descobrimos que o local libera muita energia eletromagnética. Isso não é tão surpreendente. Ele fica quase no centro da cratera de impacto de Chicxulub, uma área com fortes campos magnéticos e gravitacionais...

Chaney levanta a mão.

— Desculpe interromper, doutora. Sei que certamente esse assunto é fascinante para vocês, mas...

Marvin segura o pulso do vice-presidente.

— Eles estão tentando dizer que há algo lá embaixo, Ennis. Algo mais importante do que a sua guerra. Brian, o vice-presidente é um homem ocupado. Por que não pula as leituras de gradientes gravitacionais e vai direto para as imagens de tomografia acústica?

Dodds muda o holograma. As manchas coloridas se transformam numa imagem em preto e branco do leito do oceano. Uma abertura profunda e bem definida, como um túnel, aparece em preto no cinza cheio de rachaduras do leito.

— Senhor, a tomografia acústica é uma técnica sensorial remota que lança pro leito do oceano feixes de radiação acústica, neste caso, pulsos de ecos ultrassônicos, permitindo que vejamos objetos enterrados.

Chaney observa, intrigado, um enorme objeto ovóide tridimensional começando a se definir sob o buraco maior. Dodds manipula a imagem, tirando o objeto do leito do oceano e fazendo-o flutuar sobre suas cabeças.

— Que diabos é isso? — diz Chaney, com voz rouca. Marvin sorri.

— Simplesmente a descoberta mais magnífica da história da humanidade. O sólido ovóide flutua acima da cabeça de Chaney.

— Que papo-furado é esse, Marvin? O que é essa porcaria?

— Ennis, há 65 milhões de anos, um objeto de uns 11 ou 12 quilômetros de diâmetro, pesando cerca de um trilhão de toneladas e voando a 56 quilômetros por segundo, caiu num raso mar tropical que hoje é o Golfo do México. O que estamos vendo são os restos do próprio objeto que atingiu nosso planeta e matou os dinossauros.

— Ora, Marvin, essa coisa é imensa. Como algo tão grande pode sobreviver a um impacto assim?

— A maior parte não sobreviveu. O objeto que vemos só tem aproximadamente um quilômetro e meio de diâmetro, mais ou menos um oitavo do tamanho original. Cientistas debatem há anos se o objeto que atingiu a Terra era um cometa ou um asteróide. Mas e se não fosse nenhum dos dois?

— Pare de fazer charadas.

Marvin olha para a imagem holográfica em rotação como se estivesse hipnotizado.

— O que estamos vendo é uma estrutura uniforme, feita de irídio e só Deus sabe que outros materiais compostos, enterrada um quilômetro e meio abaixo do fundo do mar. O casco é grosso demais para ser penetrado pelos sensores do satélite...

— O casco? — Os olhos de guaxinim estão esbugalhados. — Está me dizendo que esse objeto enterrado é uma espaçonave?

— Os restos de uma nave, talvez até um casulo interno separado, posicionado dentro da nave como o núcleo de uma bola de golfe. O que quer que seja, ou fosse, conseguiu sobreviver enquanto o resto do aparelho se desintegrou com o impacto.

Dodds levanta a mão.

— Um momento, dr. Teperman. Vice-presidente, essas são todas suposições.

Chaney olha para Dodds.

— Sim ou não, diretor. Essa coisa é uma espaçonave?

Dodds enxuga o suor da testa.

— No momento, não sabemos...

— Esse buraco no fundo do oceano... ele leva até a nave?

— Não sabemos.

— Por Deus, Dodds, o que é que vocês sabem, afinal?

Dodds respira fundo.

— Pra começar, sabemos que é imperativo mandar nossos navios pra área antes que outro país encontre o objeto enterrado.

— Você está se esquivando pra todo lado feito um político, diretor, e sabe que isso me irrita. Tem alguma coisa que não está me contando. O que é?

— Sinto muito, tem razão. Tem mais, muito mais. Acho que eu mesmo ainda estou meio atordoado. Alguns de nós, inclusive eu, acreditamos agora que o sinal de rádio que recebemos do espaço não era pra nós. Pode... pode ter sido transmitido pra ativar algo dentro dessa estrutura alienígena.

Chaney olha para Dodds, incrédulo.

— Com "ativar", você quer dizer despertar?

— Não, senhor. Ativar mesmo.

— Explique.

Debra Aldrich tira um relatório de seis páginas de sua pasta.

— Senhor, isto é uma cópia de um relatório do SOSUS enviado mês passado para a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional por um biólogo da Flórida. Ele dá detalhes de sons não identificados vindos do subsolo oceânico dentro da cratera de impacto de Chicxulub. Infelizmente, o diretor da Administração em exercício foi um pouco lento em verificar as informações, mas agora confirmamos que os sons agudos estão se originando dentro dessa estrutura ovóide enterrada. Muita atividade complexa parece estar acontecendo dentro do objeto, sobretudo de natureza mecânica.

O diretor da NASA balança a cabeça.

— Em seguida, pedimos que a estação receptora central da Marinha em Dam Neck fizesse uma análise completa de todos os picos acústicos registrados na área do Golfo nos últimos seis meses. Embora os sons pareçam ser só estática, os dados confirmam que os ruídos subterrâneos começaram em 23 de setembro, exatamente no mesmo momento em que o sinal de rádio chegou à Terra.

Chaney fecha os olhos e massageia as têmporas, sentindo-se sobrecarregado.

— Tem mais uma coisa, Ennis.

— Meu Deus do céu, Marvin. Não posso ter nem um minuto pra engolir isso antes de... deixa pra lá, pode falar.

— Desculpe, eu sei que tudo isso é demais pra cabeça.

— Continue...

— Completamos a análise da maré negra. Quando a toxina entra em contato com tecidos orgânicos, ela não decompõe simplesmente as paredes da célula, mas altera sua composição química básica no nível molecular, levando a uma perda total da integridade das paredes. A substância age como ácido, e o resultado, como vimos, é uma hemorragia total. Mas o interessante é isto: a substância não é um vírus, nem mesmo um organismo vivo, porém contém grandes quantidades de silício e um DNA bizarro.

— DNA? Meu Deus, Marvin, o que está dizendo?

— É só uma teoria...

— Chega de joguinhos. O que é?

— Resíduos animais. Fezes.

— Fezes? Está dizendo que é merda?

— Ha, sim, mas merda alienígena, mais precisamente. Merda alienígena muito velha. A gosma contém traços de elementos que acreditamos terem origem num organismo vivo, um ser baseado em silício.

Chaney desmorona na cadeira, mentalmente esgotado.

— Dodds, por favor, desligue essa bosta de holograma, está me dando dor de cabeça. Marvin, você está dizendo que algo pode ainda estar vivo lá embaixo?

— Não, de maneira alguma, senhor — interrompe Dodds.

— Perguntei ao dr. Teperman. Marvin sorri.

— Não, vice-presidente, não estou insinuando nada disso. Como falei, as fezes, se são mesmo fezes, são muito velhas. Ainda que uma forma de vida alienígena tivesse conseguido sobreviver ao impacto, com certeza está morta há mais tempo do que nossa própria espécie habita o planeta. E uma espécie baseada em silício como essa provavelmente nem poderia existir num ambiente com oxigênio.

— Então me explique que diabos está acontecendo.

— Certo. Por mais incrível que pareça, uma nave alienígena, obviamente anos-luz à frente da nossa tecnologia, caiu na Terra há 65 milhões de anos. Esse impacto foi um acontecimento tremendo na história humana, pois o cataclisma, dizimando os dinossauros, levou à eventual evolução da nossa espécie. Fosse qual fosse a forma de vida dentro dessa nave, ela provavelmente mandou um SOS para o seu planeta natal, que acreditamos estar localizado em algum lugar dentro da constelação de Órion. Isso seria um procedimento padrão. Nossos astronautas fariam a mesma coisa se se vissem isolados em Alfa Centauri ou algum outro mundo a anos-luz daqui. Naturalmente, as distâncias envolvidas deixavam uma missão de resgate fora de questão. Quando nossos equivalentes do Controle da NASA alienígena receberam o SOS, sua única atitude podia ser tentar reativar os computadores alienígenas a bordo da espaçonave e coletar os dados que pudessem.

A dra. Aldrich balança a cabeça, concordando.

— A gosma preta provavelmente foi liberada automaticamente quando o sinal reativou algum tipo de sistema vital alienígena.

O diretor da NASA mal consegue conter o entusiasmo.

— Esqueça o transmissor na Lua. Se o Marvin estiver certo, podemos acessar a nave e talvez até nos comunicarmos diretamente com a inteligência alienígena usando o próprio equipamento deles.

— Você está presumindo que o planeta alienígena ainda existe — diz Marvin. — O sinal do espaço teria sido transmitido há milhões de anos. Até onde sabemos, o sol do planeta pode ter se tornado uma supernova...

— Sim, sim, claro que você tem razão quanto a isso. A questão é que temos uma oportunidade incrível de acesso a tecnologias avançadas que podem ter sobrevivido dentro da nave. A potencial riqueza de conhecimentos lá embaixo pode acelerar nossa civilização um milênio ou mais.

O vice-presidente sente suas mãos tremendo.

— Quem mais sabe disso?

— Só as pessoas nesta sala e um punhado de diretores da NASA.

— E o tal biólogo do SOSUS, aquele da Flórida?

— O biólogo está morto — Aldrich declara. — A Guarda Costeira Me¬xicana tirou seu corpo do Golfo no começo desta semana, recoberto da gosma.

Chaney xinga baixinho.

— Muito bem. Obviamente, preciso pôr o presidente a par disso o quanto antes. Enquanto isso, quero todo acesso público ao SOSUS vedado imediatamente. Informações só devem ser passadas a quem precisa saber. De agora em diante, esta operação é secreta, entenderam?

— E as fotos de satélite? — pergunta Aldrich. — O objeto pode representar apenas um pontinho no Golfo, mas é um pontinho bem brilhante. Um satélite GOES ou SPOT vai acabar por encontrá-lo. Assim que mandarmos um navio da Marinha ou mesmo uma embarcação científica para a área, vamos revelar nosso segredo para o resto do mundo.

O diretor da NASA balança a cabeça concordando.

— Senhor, a Debra tem razão. No entanto, acho que sei um jeito de manter a operação em segredo, mesmo permitindo que nossos cientistas tenham acesso ilimitado ao que está lá embaixo.
Washington, DC/Miami, Flórida
Anthony Foletta tranca a porta da sua sala antes de se sentar para atender a comunicação de longa distância.

A imagem de Pierre Borgia aparece no telemonitor.

— Alguma novidade, diretor?

Foletta fala baixinho.

— Não, senhor, mas a polícia está vigiando a garota de perto. Tenho certeza de que ele vai procurá-la a qualquer momento...

— A qualquer momento? Escute, Foletta, deixe bem claro que o Gabriel é perigoso, entendeu? Instrua a polícia a atirar pra matar. Eu o quero morto, ou pode dizer adeus ao cargo de diretor em Tampa.

— O Gabriel não matou ninguém. Nós dois sabemos que a polícia não vai matá-lo...

— Então contrate alguém que esteja disposto a fazê-lo.

Foletta olha para baixo, como se estivesse absorvendo as palavras do secretário de Estado. Na verdade, ele já previa essa diretriz desde que seu interno fugiu.

— Acho que sei de alguém que poderia fazer isso, um serviço benfeito vai custar caro.

— Quanto?

— Trinta. Mais despesas.

Borgia ri.

— Você é um péssimo jogador de pôquer, Foletta. Vou mandar vinte, nem um centavo a mais. Vai receber o dinheiro dentro de uma hora.

O sinal de linha aparece no telemonitor.

Foletta desliga o sistema, depois se certifica de que a conversa foi gravada. Por um longo momento, pensa em sua próxima ação. Então tira o celular da gaveta da escrivaninha e liga para o pager de Raymond.


Ilha de Sanibel, Flórida
O Lincoln branco para sobre o cascalho. Karen Simpson, de 31 anos, uma loura oxigenada e bronzeada usando vestido azul-claro, sai do carro e anda cerimoniosamente até a porta do passageiro para ajudar sua mãe, Dory, a descer.

À meio quarteirão dali, um policial à paisana vê, do furgão de campana, as duas mulheres enlutadas, de braço dado, caminharem lentamente para os fundos do lar dos Axler, onde a shivah, a reunião do luto judaico, está acontecendo.

Mesas com comida foram montadas para os familiares e amigos dos falecidos. Três dúzias de convidados circulam, conversando, comendo, contando histórias — fazendo o que podem para consolar uns aos outros.

Dominique e Edie estão sentadas a sós num banco estofado de frente para o Golfo, olhando o sol que começa a se pôr no horizonte.

A uns 800 metros da costa, um pescador a bordo do pesqueiro Hatteras, de 52 pés, luta para puxar sua linha.

Edie aponta.

— Parece que finalmente pegaram alguma coisa.

— E só o que vão pegar.

— Querida, prometa que vai tomar cuidado.

— Prometo.

— E você tem certeza de que sabe como operar o minissubmarino?

— Sim, o Iz me mostrou... — Seus olhos se enchem de lágrimas com a lembrança. — Tenho certeza.

— A Sue acha que você devia levar a arma dela.

— Não tive tanto trabalho pra libertar o Mick só pra atirar nele.

— Ela acha que você não deve confiar tanto.

— A Sue sempre foi paranóica.

— E se ela estiver certa? E se o Mick for realmente um psicótico? Ele pode ficar violento e te estuprar. Afinal, está preso há 11 anos e...

— Ele não vai fazer isso.

— Leve ao menos o meu Taser. É pequeno, parece um isqueiro. Cabe na palma da mão.

— Tudo bem. Vou levar, mas não vou precisar dele.

Edie se vira e vê Dory Simpson se aproximando e sua filha, Karen, entrando na casa.

Dominique se levanta e abraça a senhora.

— Quer tomar alguma coisa?

Dory se senta perto de Edie.

— Sim, aceito uma soda diet. Infelizmente, não podemos ficar por muito tempo.
A bordo do Hatteras, o detetive Sheldon Saints vê Dominique rumar para a casa através de um potente binóculo montado num tripé dentro da cabine do barco.

Outro detetive, usando bermuda jeans, camiseta do Tampa Bay Buccaneers e um boné de beisebol, entra na cabine.

— Ei, Ted, acabei de pegar um peixe.

— Já era tempo. Estamos aqui há oito horas, cacete. Me passa o binóculo noturno, está ficando escuro demais.

Saints encaixa o binóculo ITT Night Mariner-260 no tripé e olha, ajustando o controle que transforma a luz fraca em tons de verde, permitindo que ele enxergue. Cinco minutos depois, ele observa a bela suspeita, com seu comprido cabelo preto, sair da casa, levando uma lata de soda em cada mão. Ela se aproxima do banco, oferece uma lata para cada mulher e se senta entre as duas.

Mais vinte minutos se passam. Agora o detetive vê a loura bronzeada de vestido azul sair da casa e se juntar às três mulheres. Ela abraça a sra. Axler, depois ajuda a mãe a se levantar do banco e acompanha até a entrada.

Saints olha por um momento, depois volta a apontar o binóculo para o banco, onde a mulher mais velha e a bela morena estão sentadas, de mãos dadas.
Dory Simpson se senta no banco da frente do Lincoln enquanto a jovem dá a partida. A loura dá ré sobre o cascalho e ruma para sudoeste, para a estrada principal da ilha.

Dominique enfia a mão por baixo da peruca para coçar a cabeça.

— Eu sempre quis ser loura.

— Não tire até sairmos do cais. — Dory lhe entrega o pequeno Taser, do tamanho de um isqueiro a gás. — A Edie pediu que você sempre carregasse isso com você. Prometi que te faria obedecer. Tem certeza de que vai conseguir operar o minissubmarino?

— Vou, sim.

— Eu posso ir com vocês.

— Não, fico mais tranqüila sabendo que você e a Karen estão aqui, cuidando da Edie pra mim.
É tarde quando elas chegam ao cais particular em Captiva. Dominique se despede da idosa com um abraço, depois anda pelo molhe de madeira até o barco a motor Grady-White de 24 pés.

Sue Reuben pede que ela desamarre a corda da popa. Segundos depois, eles estão cruzando o Golfo.

Dominique tira a peruca antes que o vento a arranque, depois puxa a lona cinza.

Mick está deitado de costas, seu pulso direito algemado ao pé do banco do passageiro. Ele sorri para ela, depois faz uma careta quando a proa salta sobre as ondas de meio a um metro, fazendo-o bater a cabeça dolorosamente no convés de fibra de vidro.

— Sue, onde está a chave?

— Acho que você devia deixá-lo aí mesmo até chegarmos ao barco. Não faz sentido se arriscar...

— Desse jeito ele vai enjoar antes de chegarmos lá. Me dê a chave. — Dominique abre a algema e o ajuda a se sentar. — Como você está?

— Melhor. A enfermeira Ratched aí fez um bom trabalho.

Eles chegam à traineira de 48 pés. Sue desliga o motor, deixando que o impulso termine de aproximar o barco. Mick sobe a bordo. Sue abraça Dominique.

— Tome cuidado. — Ela enfia o revólver na mão da garota.

— Sue...

— Quieta. Não faça estardalhaço. Estoure os miolos dele se tentar alguma coisa.

Dominique enfia a arma no bolso da jaqueta, depois sobe a bordo, acenando enquanto o barco a motor se afasta velozmente.

Agora tudo está tranqüilo, a traineira balançando num mar negro sob um céu estrelado.

Dominique olha para Mick, sem conseguir ver seus olhos no escuro.

—Acho melhor a gente ir, não é? — Relaxe, você parece uma pilha de nervos.

— Dom, antes preciso dizer uma coisa.

— Esqueça. Pode me agradecer me ajudando a descobrir o que aconteceu com o Iz.

— Farei isso, mas não era o que eu ia dizer. Sei que você ainda tem dúvidas a meu respeito. Precisa saber que pode confiar em mim. Sei que já te pedi muita coisa, mas juro pela alma da minha mãe que prefiro me machucar a deixar que qualquer coisa aconteça com você.

— Eu acredito.

— E eu não sou louco. Sei que às vezes pareço, mas não sou. Dominique desvia o olhar.

— Eu sei. Mick, realmente precisamos ir, a polícia vigiou a casa o dia todo. As chaves devem estar na cabine, debaixo da almofada do passageiro. Você pega?

Mick vai para a cabine. Ela espera até ele desaparecer antes de tirar a arma do bolso da jaqueta. Ela olha para o revólver, lembrando o alerta de Foletta. Tenho certeza de que Mick vai usar todo o seu charme para te impressionar.

O motor parte.

Ela olha para a arma, hesita, depois a joga no mar.

Meu Deus, me ajude...


16
29 DE NOVEMBRO DE 2012

GOLFO DO MÉXICO

5h14
A traineira Jolly Roger, de 48 pés, continua sua viagem para o oeste sob o céu estrelado da madrugada. Dominique está no banco do piloto, lutando para se manter acordada, suas pálpebras ficando pesadas. Exausta, ela encosta a cabeça no banco de vinil e volta a forçar a atenção para o livro que está lendo. Depois de reler a mesma frase pela quarta vez, decide dar um momento de descanso a seus olhos vermelhos.

Só alguns segundos. Não durma...

O livro cai de sua mão e o barulho a acorda. Ela inspira o ar fresco e olha para a entrada escura que leva à cabine sob o convés. Mick está lá dentro, dormindo nas sombras. A idéia a reconforta e ao mesmo tempo a apavora. Apesar de o barco estar no piloto automático, ela se recusou a dormir. Sozinha na cabine do piloto, sua imaginação deixou que seus medos mais secretos tomassem conta dela.



Isso é ridículo. Ele não é o Ted Bundy. Jamais te machucaria...

Ela nota que o horizonte está ficando cinza atrás dela. O medo a convenceu de que dormir durante o dia é a melhor opção. Ela decide acordar Mick ao amanhecer.

— Jolly Roger, responda. Alfa-Zulu-três-nove-seis chamando Jolly Roger, responda por favor...

Dominique pega o microfone.

— Jolly Roger, prossiga, Alfa-Zulu.

— Como você está aí, querida?

— Agüentando. O que aconteceu? Você parece nervosa.

— Os federais fecharam o SOSUS. Dizem que é só um problema técnico, mas eu não acredito.

— Droga. Por que você acha...

— Ahhhhh... Ahhhhhh... — O grito de Mick faz o coração de Dominique pular no peito. — Meu Deus, Edie, eu falo com você depois...

— Isso é alguém gritando?

— Está tudo bem. Já falo com você.

Ela desliga o rádio e desce correndo a curta escada, ligando as luzes.

Mick está sentado no beliche do canto, como um animal assustado e confuso. Seus olhos negros estão arregalados, brilhando com a lâmpada nua perto da sua cabeça.

— Mãe? — A voz é rouca. Apavorada.

— Mick, está tudo bem...

— Mãe? Quem está aí? Não consigo te ver.

— Mick, sou eu, Dominique. — Ela liga mais duas lâmpadas, depois se senta na beira da cama. Mick está de peito nu, seus músculos rijos encharcados de suor frio. Ela vê que as mãos dele tremem.

Ele a olha nos olhos, ainda confuso.

— Dominique?

— Sim. Você está bem?

Ele olha para o seu rosto, depois para a cabine ao seu redor.

— Preciso sair daqui... — Ele a empurra e sobe a escada de madeira, trôpego, saindo no convés.

Dominique o segue rapidamente, temendo que ele pule.

Ela o encontra de pé na proa, o vento frio soprando em seu rosto. Dominique pega um cobertor de lã e o joga sobre seus ombros nus. Ela vê lágrimas em seus olhos.

— Você está bem?

Por um longo momento, ele apenas olha para o horizonte escuro.

— Não. Não, acho que não. Eu achava que estava, mas agora acho que estou todo ferrado.

— Pode me contar o seu sonho?

— Não. Agora não. — Ele olha para ela. — Aposto que você levou o maior susto.

— Tudo bem.

— A pior coisa da solitária... o que me dava mais medo... era acordar gritando e ver que eu estava sozinho. Você nem imagina o vazio.

Ela o leva de volta para o convés. Ele se encosta no pára-brisa da cabine do piloto e abre o lado esquerdo do cobertor, chamando-a para junto de si.

Dominique se encosta ao lado dele, deitando a cabeça em seu peito frio. Mick puxa o cobertor ao redor dos ombros dela.

Dali a minutos, os dois estão dormindo profundamente.
16h50
Dominique tira duas latas de chá gelado de pêssego do refrigerador, verifica a posição do barco no GPS e volta para a proa. O sol do fim de tarde ainda é intenso, e seu reflexo no convés branco a faz cerrar os olhos. Ela põe os óculos de sol e se senta perto de Mick.

— Está vendo alguma coisa? Mick baixa o binóculo.

— Nada ainda. A que distância estamos?

— Uns 8 quilômetros. — Ela lhe entrega uma lata. — Mick, eu queria te perguntar uma coisa. Lembra no hospital, quando você me perguntou se eu acreditava no mal? O que você quis dizer com isso?

— Também perguntei se você acreditava em Deus.

— Está me perguntando do ponto de vista religioso? Mick sorri.

— Por que os psiquiatras nunca conseguem responder a uma pergunta sem fazer outra?

— Acho que gostamos de deixar as coisas claras.

— Eu só queria saber se você acredita num poder superior.

— Acredito que alguém olha por nós, toca nossas almas num plano mais alto da existência. Sei que uma parte de mim acredita nisso porque preciso acreditar, porque isso me reconforta. E você, o que acha?

Mick se vira, olhando o horizonte.

— Acredito que a gente possui uma energia espiritual que existe numa dimensão diferente. Acredito que um poder superior existe nesse outro nível, e só temos acesso a ele quando morremos.

— Acho que nunca ouvi uma descrição assim do paraíso. E quanto ao mal?

— Todo Yin tem seu Yang.

— Está dizendo que acredita no demônio?

— No demônio, Satanás, Belzebu, Lúcifer, que diferença faz o nome? Você disse que acredita em Deus. Você diria que a presença de Deus na sua vida te influencia a ser uma pessoa boa?

— Se sou uma pessoa boa, é porque escolhi ser. Acredito que os seres humanos receberam liberdade de escolha.

— E o que influencia essas escolhas?

— As coisas de sempre... a família, a pressão dos colegas, o ambiente, as experiências de vida. Todos temos certas predisposições, mas no final é nossa capacidade de entender o que está acontecendo conosco que permite que nosso id tome decisões diariamente. Se você quer dividir essas decisões em bem e mal, tudo bem. Mas é livre escolha mesmo assim.

— Você falou como uma verdadeira psiquiatra. Mas me deixe perguntar uma coisa, srta. Freud. E se essa liberdade de escolha não for tão livre quanto pensamos? E se o mundo ao nosso redor estiver exercendo uma influência sobre o nosso comportamento como espécie que não podemos ver nem entender?

— O que quer dizer?

— A Lua, por exemplo. Como psiquiatra, você com certeza está familiarizada com o efeito da Lua sobre a psicose.

— Os efeitos da Lua são polêmicos. Podemos ver a Lua. Portanto, seu efeito sobre a psique pode ser auto-induzido.

— Você pode sentir a Terra se movendo?

— O quê?

— A Terra. Neste exato momento, ela não está apenas girando, está voando pelo espaço a 77 quilômetros por segundo. Pode sentir isso?

— O que quer dizer?

— Coisas estão acontecendo ao nosso redor, coisas que nossos sentidos não percebem, mas que existem mesmo assim. E se essas coisas estiverem exercendo uma influência sobre a nossa capacidade de raciocínio, nossa capacidade de escolher entre o certo e o errado? Você acha que tem vontade própria, mas o que faz você realmente decidir algo? Quando perguntei se você acreditava no mal, estava me referindo ao mal como uma entidade invisível, cuja presença pode cegar nosso juízo.

— Não sei se entendo o que você está falando.

— O que influencia um adolescente a metralhar um playground lotado com uma Uzi? Por que uma mãe desesperada tranca suas crianças num carro e o empurra pra dentro de um lago? O que faz um homem estuprar sua enteada ou... ou sufocar sua amada?

Ela vê uma lágrima se formando no olho dele.

— Você acha que existe uma força maligna que influencia nosso comportamento? Mick?

— Às vezes... às vezes acho que posso sentir alguma coisa.

— O que você sente?

— Uma presença. Às vezes sinto os dedos gelados dela me alcançando de uma dimensão superior. Sempre que sinto essas coisas, parece que coisas terríveis acontecem.

— Mick, você ficou preso na solitária por 11 anos. Seria estranho se você não ouvisse vozes...

— Não são vozes, é mais como um sexto sentido — diz ele, massageando os olhos.

Esta viagem pode ter sido um grande erro. Ele precisa de ajuda. Pode estar à beira de um colapso nervoso. De repente, Dominique se sente muito sozinha.

— Você acha que eu sou um psicótico...

— Eu não disse isso.

— Não, mas está pensando. — Ele se vira e olha para ela. — Os maias antigos acreditavam no bem e no mal como presenças físicas. Acreditavam que o grande mestre Kukulcán foi banido por uma força maligna, um deus do mal que os astecas chamavam de Tezcatilpoca, o espelho enfumaçado. Diziam que Tezcatilpoca podia penetrar na alma do homem, enganando-o, fazendo-o cometer grandes atrocidades.

— Mick, tudo isso é folclore maia. Minha avó costumava me contar as mesmas histórias.

— Não são só histórias. Quando Kukulcán morreu, os maias começaram a chacinar dezenas de milhares de pessoas do seu próprio povo. Homens, mulheres e crianças foram sacrificados em rituais sangrentos. Muitos foram levados pro templo no alto da pirâmide de Kukulcán, onde o coração foi arrancado dos seus peitos. Virgens eram conduzidas pela antiga estrada elevada até o cenote sagrado, onde suas gargantas eram cortadas e elas eram atiradas no poço. Os templos de Chichén Itzá são decorados com os crânios dos mortos.

Os maias viveram em paz por mil anos. Algo deve tê-los influenciado pra que de repente começassem a se matar dessa forma.

— De acordo com o diário do seu pai, os maias eram supersticiosos e acreditavam que os sacrifícios impediriam o fim do mundo.

— Sim, mas havia outra influência, o culto de Tezcatilpoca, que dizem também ter influenciado as atrocidades.

— Nada do que você me contou até agora prova a existência do mal. O homem massacra sua própria espécie desde que nossos ancestrais desceram das árvores. A Inquisição espanhola assassinou milhares, Hitler e os nazistas mataram 6 milhões de judeus nos fornos e em câmaras de gás. A violência irrompe a toda hora na África. Os sérvios chacinaram milhares em Kosovo...

— É exatamente isso que eu estou dizendo. O homem é fraco, permite que sua vontade seja corrompida por influências exteriores. As provas estão em toda parte.

— Que provas?

— A corrupção está se espalhando nos membros mais inocentes da sociedade. Crianças estão usando sua liberdade de escolha pra cometer atrocidades, sua consciência incapaz de entender a diferença entre o certo e o errado, a fantasia e a realidade. Vi na CNN, alguns dias atrás, uma notícia sobre um menino de 10 anos que levou a pistola automática do pai pra aula e matou dois garotos que caçoavam dele. — Mick fita o mar com os olhos novamente rasos d'água. — Um menino de 10 anos, Dominique.

— É um mundo doente...

— Exatamente. Nosso mundo está doente. A trama da sociedade está infestada por uma influência maligna, uma espécie de câncer, e nós a procuramos só nos lugares errados. Charles Baudelaire disse uma vez que o maior truque do demônio é nos persuadir de que ele não existe. Dominique, posso sentir a influência ganhando força. Sinto que ela se aproxima à medida que o portal galáctico se abre e nos aproximamos do solstício de inverno.

— E se essa sua presença maligna não aparecer daqui a três semanas? O que você vai fazer?

Mick parece intrigado.

— Como assim?

— O quê? Você nunca considerou a possibilidade de talvez estar enganado? Mick, toda a sua vida foi devotada a resolver a profecia maia e salvar a humanidade. Sua consciência, sua própria identidade, foi influenciada pelas crenças infundidas em você pelos seus pais. Fortalecidas, desconfio, por esse trauma que você sofreu, que continua assombrando seus sonhos. Não é preciso ser um Sigmund Freud para ver que essa presença que você sente está dentro de você.

Os olhos de Mick se arregalam enquanto ele absorve suas palavras.

— O que vai acontecer quando o solstício de inverno chegar, passar e todos nós continuarmos aqui? O que você vai fazer da sua vida, então?

— Eu... eu não sei. Pensei nisso, mas nunca me permiti pensar muito. Temia que se eu pensasse em levar uma vida normal, acabaria perdendo de vista o que realmente importa.

— O que realmente importa é que você viva a sua vida plenamente. — Ela segura a mão dele. — Mick, use essa sua mente brilhante pra olhar pra dentro de si mesmo. Você sofreu lavagem cerebral desde que nasceu. Seus pais te condenaram a salvar o mundo, mas a pessoa que precisa realmente ser salva é o Michael Gabriel. Você passou toda a sua vida seguindo coelhos brancos, Alice. Agora precisamos te convencer de que o País das Maravilhas não existe.

Mick se deita, olhando para o sol do fim de tarde, as palavras de Dominique ecoando em seus ouvidos.

— Mick, me fala da sua mãe.

Ele engole em seco, limpando a garganta.

— Ela era minha melhor amiga. Foi minha professora e constante companhia por toda a minha infância. Enquanto o Julius passava semanas a fio analisando o deserto de Nazca, mamãe me dava sua ternura e seu amor. Quando ela morreu...

— Como ela morreu?

— De câncer no pâncreas. Foi diagnosticado quando eu tinha 11 anos. No fim, virei o enfermeiro dela. Ela ficou tão fraca... O câncer a devorava viva. Eu lia pra ela pra fazê-la esquecer a dor.

— Shakespeare?

— Sim. — Ele se senta. — A peça favorita dela era Romeu e Julieta. "A morte, que sugou todo o mel de teu doce hálito, não teve poder nenhum sobre tua beleza."

Onde estava o seu pai, enquanto isso?

— Onde mais? No deserto de Nazca.

— Seus pais se amavam?

— Muito. Sempre diziam que eram almas gêmeas. Quando ela morreu, levou o coração dele pro túmulo. Levou um pedaço do meu também.

— Se ele a amava tanto, como pôde deixá-la à beira da morte?

— Minha mãe e o Julius me disseram que a busca era mais importante, mais nobre do que ficar esperando, vendo a morte invadir seu corpo. Aprendi desde cedo sobre o destino.

— Como?

— Minha mãe acreditava que certas pessoas foram abençoadas com dons especiais que determinam seus caminhos na vida. Esses dons vêm acompanhados de grandes responsabilidades, e manter-se no caminho exige grandes sacrifícios.



— E ela acreditava que você tinha sido abençoado?

— Sim. Dizia que eu herdei uma visão e uma inteligência únicas dos ancestrais maternos dela. Me explicou que quem não tivesse esse dom jamais iria entender.

Meu Deus, os pais do Mick ferraram com a cabeça dele. Serão necessárias décadas de terapia pra colocá-lo nos eixos. Dominique balança tristemente a cabeça.

— O que foi?

— Nada. Só estava pensando em Julius, deixando seu filho de 11 anos com o fardo de tomar conta da mãe doente.

— Não era um fardo, era o meu modo de agradecer por tudo o que ela tinha me dado. Analisando agora, não sei se eu ia querer fazer alguma coisa diferente.

— Ele estava presente quando ela morreu?

Mick franze o cenho ao ouvir as palavras.

— Sim, e como estava.

Ele olha para o horizonte e seus olhos endurecem com a lembrança. Depois, de repente, se aguçam como os de uma águia. Ele pega o binóculo. Um objeto se tornou visível, crescendo a oeste no horizonte. Mick aponta.

— Tem uma plataforma petrolífera ali, das grandes. Você não disse que o Iz não viu nada nas imediações?

— Não viu mesmo.

Mick ajusta o foco.

— Não é da PEMEX, tem a bandeira americana. Algo está errado.

— Mick... — Dominique aponta.

Ele vê o barco se aproximando e focaliza o binóculo.

— Droga, é a Guarda Costeira. Desligue o motor. Quanto tempo leva pra pôr aquele submarino na água?

Dominique corre para a cabine.

— Cinco minutos. Você quer ir pro fundo agora?

— É agora ou nunca. — Mick corre para a popa, puxando a lona cinza de cima do submarino em formato de cápsula. Ele liga o guindaste. — A Guarda Costeira vai nos identificar. Vamos ser presos na hora. Ah, e pegue suprimentos.

Dominique joga latas de comida e galões de água numa mochila, depois entra no submarino enquanto...

... a lancha está a 100 metros, o comandante gritando um aviso sobre a água.

— Mick, vamos!

— Ligue o motor, eu já vou! — Mick entra na cabine e procura o diário do pai.

— AQUI É A GUARDA COSTEIRA DOS ESTADOS UNIDOS. VOCÊS ENTRARAM NUMA ÁREA RESTRITA. PAREM TODAS AS ATIVIDADES E SE PREPAREM PARA SEREM ABORDADOS.

Mick pega o diário quando a lancha da Guarda Costeira alcança a proa da Jolly Roger. Ele volta para a popa, soltando o cabo do guindaste...

— Parado!

Ignorando a ordem, ele salta para dentro da esfera protetora interna do minissubmarino de 5 metros e meio de comprimento, equilibrando-se precariamente na escada de ferro para puxar e fechar a escotilha.

— Pro fundo, rápido!

Dominique está no assento do piloto, tentando lembrar tudo o que Iz lhe mostrou. Ela empurra o timão para baixo para submergir — enquanto a quilha da lancha da Guarda Costeira colide com a parte de cima do submarino.

— Se segura...

O submarino desce vertiginosamente num ângulo de 45 graus, as placas de liga de titânio rangendo nos ouvidos de Mick. Ele se abaixa e segura um tanque de mergulho que está rolando para a proa.

— Ei, capitã, sabe mesmo o que está fazendo?

— Não banque o co-piloto. — Ela diminui o ângulo de descida. — Certo, e agora, o que devemos fazer?

Mick se aperta ao passar pela escada e vai para perto de Dominique.

— Descobrir o que está acontecendo aqui embaixo, depois ir pra costa de Yucatán. — Mick se abaixa para olhar por uma das janelinhas de 20 centímetros de diâmetro e 10 de espessura.

Na água azul-escura, uma miríade de bolhas minúsculas envolve o casco.

— Não consigo ver nada. Espero que esta banheira tenha um sonar.

— Bem na minha frente.

Mick olha por cima do ombro dela para a tela laranja brilhante. Ele nota o sensor de profundidade: 105 metros.

— Que profundidade esta coisa alcança?

— Esta coisa se chama Barnacle. Pelo que sei, é um submarino francês muito caro, uma versão menor do Nautile. A capacidade nominal dele é de 3.300 metros.

— Tem certeza de que sabe pilotá-lo?

— O Iz e o proprietário me levaram num fim de semana e me deram um curso de imersão total.

— Imersão total, era isso que eu temia — diz Mick, olhando ao seu redor.

O interior do Barnacle é uma esfera reforçada de 3 metros de diâmetro situada dentro do casco retangular da embarcação. Equipamentos para processamento de dados forram o apertado compartimento, como um papel de parede tridimensional. A estação de controle do braço mecânico e da cesta isotérmica retrátil de amostras ocupa uma parede, e monitores submarinos high-tech e transponders acústicos ocupam a outra.

— Mick, faça algo de útil e ative a câmera térmica. É esse monitor em cima da sua cabeça.

Ele liga o dispositivo. O monitor é ativado e revela uma tapeçaria de tons verdes e azuis. Mick puxa um joystick curto, apontando o sensor externo para o leito do oceano.

— Ei, o que temos aqui? — O monitor revela uma luz branca brilhante no alto da tela.

— O que é?

— Não sei. A que profundidade estamos?

— A 330 metros. O que devo fazer?

— Continue indo pra oeste. Tem alguma coisa enorme ali na frente.
Golfo do México

1,8 quilômetro a oeste do Barnacle
A plataforma da Exxon, Scylla, é uma unidade de perfuração flutuante Bingo série 8000, semissubmersa, de quinta geração. Diferente das antigas plataformas, a superestrutura flutua quatro andares acima da superfície (e três andares abaixo) sobre colunas verticais de 25 metros de altura encaixadas em dois enormes pontões de 120 metros de comprimento. Doze cabos prendem a estrutura ao leito do oceano.

Três deques contínuos se apóiam sobre a base da Scylla. O deque superior, aberto, das dimensões de um campo de futebol, sustenta o guindaste de 22 metros de altura que opera a broca, feita de tubos de aço de 10 metros de comprimento. Duas gruas imensas estão posicionadas nos lados norte e sul, com um heliponto octogonal elevado cobrindo o deque oeste. As salas de controle e engenharia, bem como a cozinha e as cabines para duas pessoas, ficam no deque do meio ou principal. O deque inferior ou das máquinas abriga os três motores de 3.080 hp da plataforma, além do equipamento necessário para extrair 100 mil barris de óleo cru por dia.

Embora a superestrutura esteja com a lotação máxima de 110 pessoas, nem uma gota de petróleo está saindo de sua broca. O deque inferior da Scylla foi desocupado às pressas para acomodar miríades de sensores multiespectrais high-tech, computadores e sistemas de mapeamento da NASA. Equipamentos de apoio, cabos submarinos e as mesas de controle de três VORs (Veículos de Operação Remota) estão ao lado de feixes de tubos de aço empilhados na lateral do semi-aberto deque inferior.

Posicionado no centro exato da plataforma de concreto e aço, um buraco circular de 3 metros e meio de diâmetro deveria servir para a passagem da broca. Um brilho esmeralda suave sobe do mar, passando pela abertura e inundando o teto e a área de trabalho ao redor com uma irreal luz verde. Técnicos, vencidos pela curiosidade, param de vez em quando para dar uma olhadinha no fundo do mar artificialmente iluminado, localizado 656 metros abaixo da superestrutura flutuante. A Scylla está posicionada diretamente acima de uma enorme abertura, um túnel no leito do oceano. Em algum lugar daquele misterioso poço de 1.500 metros está a fonte da incandescente luz verde.

O comandante naval Chuck McKana e o diretor da NASA Brian Dodds estão encurvados sobre os dois técnicos que operam o Sea Owl, um VOR de 2 metros, ligado ao guindaste da Scylla por um cordão umbilical de 2 mil metros. Eles olham para o monitor do VOR enquanto o pequeno submarino chega ao leito rachado do oceano e começa a sua descida no vórtice brilhante.

— A energia eletromagnética está aumentando — diz o piloto virtual do VOR. — Estou perdendo dirigibilidade...

— Sensores falhando...

Dodds fecha os olhos para o brilho ofuscante do monitor da mini-câmera do submarino.

— A que profundidade está o VOR?

— A menos de 30 metros da boca do poço. Cacete, lá se vai o sistema elétrico do Sea Owl.

O monitor se apaga.

O comandante McKana passa os dedos curtos pelo cabelo escovinha grisalho.

— Esse é o terceiro VOR que perdemos nas últimas 24 horas, diretor.

— Eu sei contar, comandante...

— Vocês deviam se concentrar em encontrar uma maneira alternativa de entrar.

— Já estamos trabalhando nisso. — Dodds aponta para onde uma dúzia de trabalhadores estão ocupados, conectando tubos de aço no guindaste do alto. — Vamos baixar a broca dentro do buraco. Os sensores vão descer presos à primeira seção.

O capitão da plataforma, Andy Furman, se aproxima.

— Temos um problema, cavalheiros. A Guarda Costeira avisou que duas pessoas a bordo de uma traineira acabam de lançar um minissubmarino 3 quilômetros a leste da Scylla. O sonar mostra que estão rumando para o objeto.

Dodds parece alarmado.

— Espiões?

— Parecem civis. A traineira está registrada em nome de uma empresa de busca submarina americana, licenciada na ilha de Sanibel.

McKana não parece preocupado.

— Deixe que olhem. Quando voltarem à tona, mande a Guarda Costeira prendê-los.

A bordo do Barnacle
Mick e Dominique apertam os rostos contra o vidro LEXAN reforçado das janelinhas, enquanto o minissubmarino se aproxima do irreal feixe de luz, o clarão que sobe do fundo do oceano como um holofote de 51 metros de largura.

— Que diabos pode haver lá embaixo? — Dominique pergunta. — Mick, você está bem?

Os olhos de Mick estão fechados, sua respiração irregular.

— Mick?


— Estou sentindo a presença. Dom, a gente não devia estar aqui.

— Não cheguei até aqui pra dar meia-volta. — Uma luz vermelha pisca acima de sua cabeça. — Os sensores do submarino estão malucos. Uma fortíssima energia eletromagnética está saindo do buraco. Será que não é isso que você está sentindo?

— Não passe pelo feixe de luz, senão vai pôr em curto todos os sistemas de bordo.

— Certo, talvez tenha outra entrada. Vou contornar a área enquanto você rastreia com os sensores.

Mick abre os olhos, fitando as fileiras de consoles de computador que forram a cabine.

— O que quer que eu faça? Ela aponta.

— Ative o gradiômetro, é um sensor eletromecânico de gravidade acoplado à parte de baixo do Barnacle. O Rex o usava pra detectar gradientes de gravidade sob o fundo do mar.

Mick liga o monitor do sistema, que revela uma tapeçaria de laranja e vermelhos, as cores mais brilhantes indicando altos níveis de energia eletromagnética. O buraco emite um brilho branco quase cegante. Mick puxa o joystick do gradiômetro ampliando o campo para examinar o resto da topografia do leito do oceano.

O brilho intenso se reduz a um ponto branco. Tons de verde e azul criam uma borda circular ao redor dos vermelhos e laranja.

— Peraí. Acho que encontrei alguma coisa.

Ao redor da área da cratera há uma série de pontos escuros dispostos perimetralmente num padrão preciso, eqüidistante e circular.

Mick conta os buracos. Ele sente seu estômago se contraindo e um suor frio brotando de seu corpo. Folheia as páginas amareladas do diário do pai até encontrar a anotação de 14 de junho de 1997.

Ele olha para a fotografia do ícone circular de 3 metros, localizado no ponto central do platô de Nazca. Dentro de sua borda, Mick encontrou o mapa original de Piri Reis, selado num recipiente de irídio. Ele conta 23 linhas estendendo-se da figura como os raios de um sol, a última delas aparentemente infinita.

Vinte e três pontos escuros rodeiam o buraco monstruoso no leito do oceano.

— Mick, o que foi? Você está bem? — Dominique ativa o piloto automático para olhar o monitor. — O que é isso?

— Não sei, mas um padrão idêntico foi desenhado no platô de Nazca há milhares de anos.

Dominique olha para o diário.

— Não é exatamente idêntico. Você está comparando linhas escavadas no deserto com um monte de buracos escuros no fundo do mar...

— Vinte e três buracos. Vinte e três linhas. Você acha que é só uma coincidência?

Ela lhe dá um tapinha na bochecha.

— Calma, iluminado. Vou me aproximar do buraco mais próximo, vamos olhar mais de perto.

O Barnacle diminui a velocidade e flutua acima de um túnel escuro de 6 metros de diâmetro que cospe bolhas em profusão. Dominique aponta uma das luzes externas do submarino para a garganta íngreme. O feixe de luz revela um túnel extenso, penetrando no fundo do mar num ângulo de 45 graus.

— O que você acha?

Mick olha para o túnel, a familiar sensação de pavor crescendo em suas entranhas.

— Não sei.

— Sugiro que a gente investigue.

— Você quer entrar nesse buraco infernal?

— É pra isso que estamos aqui, não é?

Pensei que você quisesse entender a profecia maia.

— Não assim. É mais importante irmos pra Chichén Itzá.

— Por quê? — Ele está com medo.

— A salvação está na pirâmide de Kukulcán. A única coisa que nos espera nesse buraco é a morte.

— Bem, eu não joguei sete anos de faculdade na privada nem me arrisquei a ir pra cadeia pra você ir atrás de uma profecia maia idiota. Estamos aqui porque minha família e eu precisamos encerrar o caso, saber o que realmente aconteceu com o Iz e os amigos dele. Não te culpo pela morte do meu pai, mas já que foi você que nos pôs nesta aventura vai seguir nela até o final.

Dominique empurra o timão, mergulhando o minissubmarino bem no meio do túnel.

Mick se segura numa barra da escada enquanto o Barnacle acelera no poço escuro.

Um som líquido ecoa dentro do submarino. Dominique olha pela janelinha.

— O som está vindo das paredes desta passagem. O revestimento interior parece funcionar como uma espécie de esponja gigante. Mick, à sua esquerda tem um sensor, o espectro fotômetro...

— Estou vendo. — Ele ativa o sistema. — Se estou fazendo a leitura direito, o gás que sai deste buraco é oxigênio puro.

Uma nota de barítono reverbera pela cabine, aumentando à medida que eles descem. Mick está para dizer algo quando o Barnacle dá um tranco para a frente, acelerando túnel adentro.

— Ei, vá mais devagar...

— Não fui eu. Fomos pegos por uma espécie de correnteza. — Ele ouve o pânico na voz dela. — A temperatura exterior está aumentando. Mick, acho que estamos sendo sugados num tubo de lava!

Ele se segura mais forte na escada. As graves pulsações fazem os vidros dos instrumentos diante dele vibrarem.

O minissubmarino mergulha, girando cegamente pelo túnel como um besouro numa galeria pluvial.

— Mick! — Dominique grita ao perder o controle do Barnacle. Ela fecha os olhos com força e se segura no assento, quando a energia é interrompida e a escuridão os envolve.

Ela sente que está hiper ventilando, esperando o tranco que fará o submarino se desintegrar e ser invadido pelo mar. Meu Deus, eu vou morrer, me ajude, por favor...

Mick cruzou os braços e as pernas ao redor da escada, suas mãos segurando as barras de aço como morsas. Não reaja, deixe acontecer. Deixe que a loucura termine...

Vertigem intensa. O minissubmarino rodopia sem parar, como se estivesse numa máquina de lavar gigante.

Um estrondo — um solavanco de partir os ossos: Mick sai voando cega¬mente pela escuridão, e o Barnacle é empurrado de cabeça contra uma força invencível e invisível. O ar explode de seus pulmões quando seu rosto e seu peito colidem contra uma fileira de consoles de computador.



17
GOLFO DO MÉXICO

2.185 METROS ABAIXO DA SUPERFÍCIE
O latejar incessante de sua cabeça força Mick a abrir os olhos.

Silêncio.

Ele está deitado de costas, com as pernas para o ar, seu tronco preso num emaranhado fumegante de equipamentos quebrados. A cabine está úmida e escura como breu, à exceção do esmaecido brilho de um console laranja bruxuleando em algum lugar. Tudo está de cabeça para baixo, e um líquido quente escorre em sua garganta, sufocando-o.

Ele se vira dolorosamente, cuspindo uma golfada de sangue, sua cabeça ainda rodando. Verificando que o sangue vem de suas narinas, ele as aperta para estancar a hemorragia.

Por um longo momento ele fica sentado ali, apoiando-se precariamente em fragmentos pontiagudos de monitores de computador e equipamentos de navegação estilhaçados, enquanto tenta lembrar seu nome e onde está.

O minissubmarino. O túnel... Dominique!

— Dom? — Ele cospe mais sangue e escala uma pilha de equipamentos que bloqueia o caminho até o assento do piloto. — Dom, está me ouvindo?

Ele a encontra inconsciente, ainda presa pelo cinto de segurança, o queixo apoiado no peito. Seu coração dispara de medo enquanto ele reclina cuidadosamente o assento ao máximo, segurando-lhe a cabeça ensangüentada antes de apoiá-la no encosto. Verifica sua respiração, e vê como está fraca. Depois de soltar o cinto, cuida do profundo corte na testa de Dominique.

Mick tira a camiseta, rasgando o tecido empapado de suor em longas tiras. Improvisa uma bandagem sobre o ferimento, depois vasculha a cabine destroçada em busca da caixa de primeiros socorros.

Dominique geme. Ela ergue o corpo dolorosamente, vira a cabeça e tosse.

Mick localiza a caixa e uma garrafa de água. Voltando para perto dela, lava o ferimento e tira uma bolsa de gelo da caixa.

— Mick?

— Aqui. — Ele aperta a bolsa de gelo, furando o conteúdo, e a comprime contra a cabeça dela, amarrando-a com o resto da camiseta. — Você está com um ferimento feio na cabeça. A hemorragia diminuiu, mas você deve ter sofrido uma concussão.



— Acho que quebrei uma costela, está difícil de respirar. — Ela abre os olhos e olha para Mick, a dor em seu rosto. — Você está sangrando.

— Quebrei o nariz. — Ele lhe passa a garrafa d'água. Ela fecha os olhos e toma um gole.

— Onde estamos? O que aconteceu?

— Descemos pelo túnel e batemos em alguma coisa. O minissubmarino está inoperante. O sistema de subsistência mal funciona.

— Ainda estamos no buraco?

— Não sei — diz Mick, indo para a janela dianteira e olhando para fora. A luz de emergência do exterior do Barnacle revela uma câmara escura

e pequena, sem água do mar. A popa do submarino parece alojada entre duas barreiras escuras e verticais. O espaço entre as duas paredes se estreita abruptamente antes de terminar numa fenda curva e metálica.

— Meu Deus, onde viemos parar?

— O que é isso?

— Não sei. Uma espécie de câmara subterrânea. O submarino está enfiado entre duas paredes, mas não tem água lá fora.

— Será que a gente pode sair daqui?

— Não sei. Nem sei ao certo onde é aqui. Já notou que aquelas vibrações graves pararam?

— Tem razão. — Ela o ouve vasculhar os destroços. — O que você está fazendo?

— Procurando o equipamento de mergulho. — Ele localiza o traje de neoprene, a máscara e os tanques de ar.

Dominique geme ao erguer o corpo, depois recosta a cabeça novamente, vencida pela dor e pela vertigem.

— O que vai fazer?

— Onde quer que a gente esteja, estamos presos. Vou ver se encontro uma maneira de nos tirar daqui.

— Mick, espere. Devemos estar a uns 1.500 metros de profundidade. A pressão vai nos esmagar assim que você abrir a escotilha.

— Não tem água na câmara, o que significa que ela deve ser despressurizada. Acho que precisamos arriscar. Se ficarmos aqui, vamos morrer do mesmo jeito. — Ele tira os tênis e veste o apertado traje de neoprene.

— Você tinha razão. A gente não devia ter entrado no túnel. Foi idiotice. Eu devia ter te ouvido.

Ele para de se vestir para se curvar sobre ela.

— Se não fosse por você, eu ainda seria um vegetal nas mãos do Foletta. Fique aí e tente não se mexer enquanto eu tiro a gente daqui.

Ela luta contra o choro.

— Mick, não me deixe aqui. Por favor, não quero morrer sozinha...

— Você não vai morrer...

— O ar, quanto ar ainda temos?

Ele procura o painel de controle e verifica o manômetro.

— Quase três horas. Tente ficar calma...

— Espere, não vá ainda. — Ela segura a mão dele. — Só me abrace um pouco. Por favor.

Ele se ajoelha, apoiando a face direita suavemente contra a dela, sentindo os músculos da moça tremendo ao abraçá-la e inalar seu perfume.

— Vou tirar a gente daqui, prometo — ele sussurra. Ela o abraça com força.

— Se você não conseguir, se não houver saída... Me prometa que vai voltar.

Ele engole o nó na garganta.

— Prometo.

Eles ficam abraçados por mais alguns minutos, até que o aperto do traje de neoprene no corpo de Mick fica insuportável.

— Mick, espere. Olhe debaixo do meu assento. Deve ter um kit de suprimentos de emergência.

Ele puxa a maleta de metal e a abre, retirando dela um canivete, um punhado de sinalizadores e um isqueiro a gás.

— Tem um pequeno tanque de ar aí também. Oxigênio puro. Leve com você.

Ele retira o tanque, ligado a uma máscara de plástico.

— É muita coisa pra carregar. É melhor eu deixar isso com você.

— Não, leva. Se você ficar sem ar, nós dois vamos morrer.

Ele volta a calçar os tênis, prende o canivete ao tornozelo com fita adesiva, depois abre a válvula do tanque maior de ar para verificar se o regulador está funcionando. Põe o compensador de flutuação e o tanque nas costas e prende o tanque menor de oxigênio na cintura com a tira de velcro. Enfia os sinalizadores e o isqueiro no colete, e então, sentindo-se um burro de carga, sobe a escada do minissubmarino, que agora está num ângulo de 30 graus.

Mick destrava a escotilha, respira fundo e tenta abri-la.

Nada.


Se eu estiver errado sobre a pressão, vamos os dois morrer aqui. Ele para, ponderando suas alternativas, e tenta de novo, desta vez empurrando a tampa de titânio com o ombro. Com um chiado, a escotilha se desprende da guarnição de borracha e se abre.

Mick força a passagem para fora do submarino, subindo sobre o casco, deixando que a escotilha se feche ao ficar de pé...



Bam! Ele morde o regulador ao bater dolorosamente a cabeça numa superfície dura como pedra.

Agachado, equilibrando-se sobre o submarino, ele esfrega o galo na cabeça e olha ao redor. Do alto do Barnacle, percebe que está num toro gigante, uma câmara em formato de rosca, iluminada pelas luzes de emergência do submarino, a proa da nave bem presa entre duas lâminas curvas de 2 metros de altura. O feixe de luz de sua lanterna revela a parte de cima de pelo menos 12 dessas divisórias, todas se originando de um centro curvo, como as várias pás de uma hélice horizontal.

Mick olha para a estrutura, analisando os arredores, o regulador chiando em seus ouvidos com sua respiração. Eu sei o que é isto. E uma turbina, uma turbina gigante. A gente deve ter sido sugado para um duto de entrada. A pulsação grave parou. O minissubmarino está bloqueando a rotação das pás, paralisando a turbina e entupindo o duto.

Mick desce do Barnacle e pisa numa superfície metálica lisa e envelhecida. O que aconteceu com a água do mar?

De repente, ele cai para trás. Seus pés escorregam e ele perde o equilíbrio, seu cotovelo e flanco direitos batem na superfície dura e limosa com um barulho oco. Mick geme de dor, depois olha para cima.

A lanterna revela uma substância porosa, preta e esponjosa recobrindo toda a parte central do teto. Pingos de água do mar caem sobre sua cabeça.

Mick fica de pé e estica o braço, surpreso ao constatar que o material poroso é extremamente quebradiço, como isopor, só que mais duro. Ele pega o canivete e golpeia a substância, desprendendo vários fragmentos de rocha friável, parecendo gesso embebido em água marinha.

Mick para. O som de ar soprando por um duto ecoa em algum lugar à sua direita. Ele estica o braço, se segura no alto da divisória metálica à sua direita, apontando o feixe de luz da lanterna para o teto metálico.

O som vem de um duto oco de um metro de largura, situado no teto, sobre a lâmina imediatamente ao lado. Subindo num ângulo quase vertical, a passagem escura parece atravessar o teto como uma bizarra calha de lavanderia.

Mick sobe na parede de aço e fica sob a abertura, sentindo o ar quente soprando em seu rosto.

Um duto de saída?

Passando à lâmina seguinte, ele sobe na barreira e monta sobre a parede de 5 centímetros de espessura. Começa a apalpar a boca do duto, suas mãos sondando a inclinação, íngreme, mas escalável.

Cuidadosamente, Mick se apóia no teto e fica de pé, equilibrando-se precariamente sobre o alto da lâmina e se movendo para cima, para a cavidade escura, arrastando-se de barriga para dentro do duto. Virando de lado, ele estende as pernas até o outro lado do cilindro de um metro de diâmetro, com o tanque de ar e os cotovelos apoiados na parede às suas costas. Olhando para cima, o vento quente em seu rosto, sua luz lhe revela um enorme tubo, perdendo-se na escuridão num ângulo vertiginoso de 70 graus.

Isto vai ser difícil...

Mantendo as costas e os pés pressionados firmemente contra as paredes interiores, ele escala duto acima, centímetro por centímetro, dolorosamente, como um alpinista subindo por uma fenda vertical. Para cada metro e meio que consegue subir, ele desliza uns 30 centímetros para baixo, descendo e gemendo até conseguir limpar o suor das mãos e firmar sua pele escoriada na escorregadia superfície metálica.

Ele leva vinte minutos para subir os 26 metros até o topo. A sua espera no ápice trevoso está um beco sem saída.

Mick bate a cabeça na parede e geme no regulador, desesperado. Os músculos das pernas, exaustos com a escalada, começam a tremer, ameaçando despencá-lo lá de cima. Sentindo-se escorregar, ele se segura com as duas mãos, derrubando a lanterna.

Merda...


Rodeado pela escuridão, ele a ouve caindo pelo duto, destroçando-se ao atingir a superfície abaixo.

Se não tomar cuidado você é o próximo.

Com movimentos desesperadoramente lentos, ele retira o isqueiro e um dos sinalizadores que enfiou no traje. Pingando de suor, gasta os cinco minutos seguintes tentando futilmente acender o sinalizador.

Mick olha para o isqueiro, que está cheio, mas se recusa a acender. Não dá pra fazer fogo sem oxigênio, seu burro.

Respirando fundo, ele tira o regulador da boca e aperta o botão de limpeza, soltando um jato de ar na direção do isqueiro. Uma chama amarela surge, permitindo que ele acenda o sinalizador.

A faiscante luz cor-de-rosa revela o que parecem ser duas pequenas mangueiras ligadas a uma junta hidráulica. Usando o canivete, ele corta as duas mangueiras, que deixam pingar um fluido quente e azul-escuro sobre seu traje. Ele põe o regulador na boca, depois força a tampa com a cabeça.

A escotilha se move um centímetro.

Trabalhando tão perto da tampa quanto pode, Mick empurra a escotilha até abrir uma fenda e enfia a mão no buraco. Num só movimento ele rola, ficando pendurado na escuridão antes de conseguir se puxar para fora do duto, sobre o que parece ser uma grade metálica. Ele cai de quatro, seu corpo tremendo de exaustão, enquanto o calor intenso de seu novo ambiente faz sua máscara se embaçar e o cega.

Mick tira a máscara, mas sua boca está seca demais para cuspir. Ele enxuga as lágrimas do rosto afogueado e olha para cima.

Meu Deus...

Ele se senta, aturdido, seus membros tremendo fora de seu controle. Arregala os olhos, sua mente rodando tão rápido que ele não consegue produzir um só pensamento coerente. O suor lhe escorre do rosto e do corpo no calor de fornalha, formando poças em seu traje. Seu coração bate tão forte que parece oprimi-lo, pressionando-o contra o metal em brasa que raspa no seu corpo.

Estou no inferno...

Ele está numa câmara descomunal, escura, ovóide, do tamanho de um estádio como o New Orleans Superdome, esvaziado de todo o seu conteúdo.

Uma camada de chamas rubras e incandescentes lambe a superfície das paredes, subindo pela câmara em ondas como uma cachoeira invertida e desaparecendo na escuridão do alto.

Mas não é escuridão! Girando centenas de metros acima de sua cabeça, iluminando o centro do imponente abismo, está um vórtice brilhante e esmeralda de energia rodopiante — uma galáxia espiralada em miniatura, rodando num majestoso, lento, onipotente movimento anti-horário, como um ventilador de teto cósmico, pulsando energia.

Mick olha para o brilho irreal da galáxia, hipnotizado por sua beleza, esmagado por sua magnitude e totalmente aterrorizado por suas implicações. Ele se força a fechar as pálpebras sobre as pupilas doloridas, tentando desesperadamente desanuviar a cabeça.

Dominique...

Lutando para ficar de pé, ele volta a abrir os olhos e absorve o resto da paisagem etérea.

Ele está de pé numa plataforma, uma grade metálica presa à escotilha que tampava o duto cilíndrico. Um metro abaixo, preenchendo toda a câmara, como um lago numa cratera de montanha, há um líquido semelhante ao mercúrio, ondulante e prateado. Sua superfície, brilhante e espelhada, reflete as chamas rubras e dançantes. Filetes de fumaça negra flutuam acima do agitado mar de metal derretido, como vapor saindo de um caldeirão fervilhante.

Mick se vira para a parede em brasa. Logo abaixo das chamas há uma grelha que percorre todo o interior da câmara. A distorção da luz revela gases invisíveis saindo das frestas minúsculas da grelha, como o calor que irradia do asfalto de uma estrada deserta.

O túnel de entrada... um duto de ventilação?

Mick olha para a surreal parede de fogo, que não queima nem consome, mas flui para cima pelo espaço vertical como um rio caudaloso de sangue. Pensamentos febris giram em sua mente. Estou morto? Será que morri no submarino? Será que estou no inferno?

Ele cai na beirada da plataforma, meio sentado, meio deitado, fraco e zonzo demais para se mover. Consegue cuspir na máscara e recolocá-la, e então se lembra do tanque menor. Soltando-o, ele suga vários haustos de oxigênio puro, conseguindo clarear a mente.

É então que ele nota o rasgo no traje. A pele de seu joelho direito está exposta, o ferimento sangrando profusamente. Intrigado, ele toca o sangue quente, examinando-o como se fosse algum tipo de caldo alienígena.

O sangue está azul.

Onde eu estou? O que está acontecendo comigo?

Como que em resposta, um clarão de energia violeta irrompe de algum lugar do outro lado do lago. Ele se curva para a frente, esforçando-se para enxergar através da máscara, que embaçou de novo apesar da camada de saliva.

E então acontece outra coisa bizarra. Quando ele tira a máscara, uma poderosa onda de energia invisível se eleva como uma lufada de ar da superfície do lago e atinge o seu braço. A máscara levita e fica pairando no ar, um metro acima de sua cabeça.

Mick fica de pé. Ao erguer o braço para pegá-la, ele sente um campo intenso de energia eletromagnética, que ressoa em seu cérebro como um diapasão reverberando.

Desorientado, ele tateia cegamente à procura do tanque de oxigênio, enquanto as chamas altas dançam em sua visão desfocada. Desistindo, ele cai novamente sobre o metal e suga mais oxigênio, fechando os olhos para a vertigem.

Michael...

Mick abre os olhos, prendendo a respiração. Michael...

Ele olha para o lago. Será que estou delirando? Chegue perto de mim, meu filho. O bocal do oxigênio cai de sua boca.

— Quem está aí? Senti sua falta.

— Quem é você? Onde estou? Que lugar é este?

Agente chamava Nazca do nosso purgatório particular, lembra, Michael? Ou será que essa sua mente brilhante finalmente desmoronou, depois de tantos anos solitários no hospício?

Mick sente o coração falhar. Lágrimas ardentes escorrem por suas faces avermelhadas.

— Papai? Pai, é você mesmo? Estou morto? Pai, onde você está? Não consigo te ver. Como você pode estar aqui? Onde é aqui?

Chegue perto de mim, Michael, e eu vou te mostrar.

Num estado hipnótico, ele pisa para fora da grade e cai no lago.

— Merda... meu Deus!

Mick olha para baixo, sua mente vencida pelo que os sentidos estão relatando. Ele está sem peso, desafiando a gravidade, flutuando sobre a superfície prateada num colchão verde-esmeralda de energia que atravessa cada fibra do seu ser, inebriando-o. Sensações eufóricas lhe sobem pelos ossos e saem pelo couro cabeludo, fazendo cada fio de cabelo ficar de pé. A adrenalina e o medo lutam pelo controle de sua bexiga. Sentindo o tanque de ar flutuando para longe de suas costas, ele apressadamente aperta o fecho de velcro ao redor da cintura e põe o regulador na boca. Chegue perto de mim, Michael.

Um único passo o impele sobre o campo de energia como um imponderável Baryshnikov. Tomando coragem, ele dá mais alguns passos, e se vê ganhando altura sobre a superfície espelhada do lago, um anjo sem asas guiado por uma força invisível.

— Papai?


Um pouco mais...

— Papai, onde você está?

Ao se aproximar do outro lado da câmara, ele vê uma plataforma imensa e enegrecida, pairando uns 10 metros acima da superfície brilhante como uma balsa infernal. Uma onda de terror percorre sua alma quando ele se dá conta de que não pode parar, de que o impulso através desse mundo imponderável o guia na direção do objeto, contra a sua vontade.

Estou aqui.

Em pânico, Mick se vira para fugir, mas descobre que suas pernas se movem em vão enquanto ele é puxado para cima, para longe da superfície do lago. Ele mergulha de barriga no ar, aferrando-se inutilmente ao campo de energia, mas seu corpo é jogado para trás sobre a plataforma por uma presença invencível, gélida e malevolente.

Mick é jogado de joelhos, caindo para a frente, como que obrigado a se prostrar diante de um soberano. Com o cérebro hiper ventilado e tomado pelo medo, ele ergue o olhar para ver o seu captor.

É um casulo, tão alto e largo quanto uma locomotiva, tão longo quanto um campo de futebol. Uma miríade de dutos chamuscados, semelhantes a tentáculos, saem da parte de baixo da plataforma e vão até o objeto vítreo e escuro, como milhares de tubos intravenosos.

Por que tem medo de mim, Michael?

Um clarão de energia violeta irrompe dentro do cilindro, revelando por um momento a presença sombria de um ser imenso.

Mick fica paralisado, seu rosto é uma máscara congelada de terror e os membros são incapazes de sustentar seu peso.

Olhe para mim, Michael. Olhe para o rosto que é sangue do seu sangue!

Os pensamentos de Michael se despedaçam quando ele é empurrado por uma força invisível e vai de cabeça contra a superfície vítrea. Ele consegue sentir a presença dentro da câmara enfumaçada — uma presença de puro mal que faz uma bílis sulfúrica subir por sua garganta e sufocá-lo. Fecha os olhos com força, sua mente incapaz de entender o terror que o aguarda.

Uma onda de energia abre-lhe as pálpebras à força.

Ele vê um rosto surgindo no casulo através de uma névoa amarelada. O coração de Mick salta em seu peito.

Não...

É Julius, o cabelo branco de seu pai revolto como o de Einstein, o rosto bronzeado e enrugado parecendo couro velho. Os ternos e familiares olhos castanhos estão pregados nele.



Michael, como pode temer seu próprio pai?

Você não é meu pai...

Claro que sou. Lembre-se, Michael. Não lembra como sua mãe morreu? Você sentiu tanta raiva de mim. Me odiou pelo que eu fiz. Você me olhou nos olhos, como está olhando agora — E ME CONDENOU AO INFERNO!

A voz monstruosa fica mais grave ao ecoar em seus ouvidos. Mick grita no regulador, sentindo sua mente ceder, e o rosto de Julius se dissolve num par de olhos injetados, demoníacos, reptilianos, do tamanho de faróis — as pupilas, duas fendas douradas e diabólicas que queimam sua alma e incineram a sua sanidade.

Mick solta um grito de gelar o sangue, sentindo sua mente atormentada sendo acariciada pelos dedos gélidos da morte. Num só movimento, impelido pela adrenalina, ele salta da plataforma, mas é agarrado no ar e suspenso.

Você é minha carne, é meu sangue. Eu estava te observando, esperando este dia chegar. Sei que sentiu a minha presença. Logo estaremos juntos. Unidos... Pai e filho.

Em meio ao delírio, Mick olha para cima e vê a galáxia acima de sua cabeça girando mais rápido. À medida que sua velocidade aumenta, um cilindro imenso e oco de energia esmeralda se forma no centro do lago derretido, subindo até a abóbada como um tornado verde e luminoso. O funil de energia se mistura ao vórtice, os dois rodopiando em sincronia, cada vez mais rápido.

A mente de Mick está gritando, seus olhos saltando das órbitas. Em meio à loucura, ele vê um círculo solitário se formando no centro do lago, uma onda criada por algo que assoma à superfície derretida.

E agora ele pode vê-lo — subindo pelo funil de energia esmeralda —, um ser negro como a noite, uma criatura predadora, reptiliana, com 9 metros de envergadura das asas. Duas garras, cada uma com três pontas, pendem de seu tronco. Um crânio sem rosto, em formato de bigorna, termina numa saliência curva, como um chifre, sua cauda cônica com a metade do tamanho das asas.

Um globo incandescente, cor de âmbar, brilha de seu pescoço, como um olho sem pupila.

Mick vê, hipnotizado, a abóbada acima da galáxia de energia aparente¬mente se desfazendo, revelando um túnel vertical aberto através da rocha até o leito do oceano. A água dentro do túnel também está girando, formando a base de um monstruoso redemoinho.

Mick segura o pequeno tanque de oxigênio com força contra o peito. Ele arranca a máscara, apontando a válvula selada para longe de seu corpo.

Com um chiado penetrante, o centro da abóbada se retrai e um rugido retumbante preenche a câmara. Mick sente seus ouvidos estalando quando o mar invade o espaço, a torrente de água escorrendo pelos lados do campo de força vertical como as cataratas do Niágara.

Desesperado, Mick percorre o perímetro da câmara com o olhar, seus olhos se concentrando nos 23 dutos idênticos, todos, menos um, aspirando a maré crescente.

Ouve-se um som de trovão quando as turbinas gigantes da nave alienígena começam a reverter a rotação para expelir a água do mar.

Mick segura o isqueiro a gás, depois abre a válvula do pequeno tanque, encostando a chama num fluxo invisível e inflamável de oxigênio puro. O gás pressurizado se inflama como um foguete, empurrando a base do tanque contra o seu estômago e impelindo-o para trás no ar, longe do casulo.

Mick voa por cima do lago de metal derretido, depois mergulha no caudaloso rio de água marinha que escorre sobre a superfície metálica.

Mick solta o tanque vazio ao ser tragado pela correnteza, o medo e a adrenalina movimentando seus braços e suas pernas, dirigindo-o para o duto inoperante de onde ele saiu. Ele se segura na grade e puxa o corpo para cima, enquanto a maré crescente vem em seu encalço.

Mick abre a escotilha e olha para o duto escuro. Não pare, não pense, pule de uma vez!

Ele pula, precipitando-se de pé pelo duto íngreme e totalmente às escuras. O tanque de ar range às suas costas, e o rugido acima de sua cabeça diminui por um momento. Pressionando os antebraços contra a lisa superfície metálica, ele tenta desesperadamente brecar sua queda, usando o traje de neoprene como freio.

Mick é atirado pela boca do duto, caindo de cabeça sobre uma das lâminas do rotor. Atordoado, ele fica de pé, trôpego, sentindo as potentes vibrações da turbina ganhando vida sob seus pés.

- Suba — volte pro submarino!

Mick sobe e passa por cima da lâmina de 2 metros no momento em que um rio de água marinha explode do alto. Ele cai de pé, em pânico ao ver as lâminas começarem a rodar e mudando de direção, lutando para desalojar o Barnacle.

Não deixe o submarino ir embora sem você!

Mick cambaleia através da água, que está na altura de seu joelho. Enche os pulmões de ar e solta o volumoso tanque de suas costas. Livre do peso, salta sobre o casco de titânio ao mesmo tempo em que uma parede de água o atinge em cheio nas costas, quase derrubando-o do casco.

A câmara toroidal se enche rapidamente de água, a pressão aumentando, ameaçando desalojar o submarino a qualquer momento. Mick sobe até o alto do Barnacle, sentindo a pressão aumentar na sua cabeça enquanto abre a escotilha e se joga pela abertura, fechando a comporta atrás de si e girando a trava.

Uma explosão de água joga o minissubmarino de lado.

Mick cai escada abaixo, aterrissando dolorosamente sobre cacos de equipamentos enquanto o Barnacle é libertado.

Ouve-se um gemido agudo e ensurdecedor quando a turbina gigante acelera para cem rotações por segundo, empurrando o minissubmarino de volta duto acima, rápido como um projétil.
A bordo da Scylla
20h40
— É um redemoinho! — O capitão Furman é arremessado sobre um painel de controle, o chão fugindo-lhe dos pés enquanto 12 toneladas de canos de perfuração se espalham pelo deque inferior.

Sons de metal rangendo rasgam o ar. Com um gemido agonizante, o deque superior da plataforma de sete andares balança sobre a monstruosa correnteza, e a Scylla se inclina 60 graus quando meia dúzia de cabos submersos, presos a um dos pontões, se recusam a ceder para o vórtice crescente.

Técnicos e equipamentos deslizam pelo deque aberto, precipitando-se no agitado mar esmeralda.

O resto dos cabos se rompe, soltando a plataforma do leito do oceano. A superestrutura flutuante endireita — depois gira, balançando e saltando dentro da boca rodopiante do redemoinho luminescente.

Os alarmes cortam a noite. Tripulantes atordoados cambaleiam de suas cabines e são atingidos por destroços voadores. Enquanto o mundo roda em revoluções vertiginosas, eles se precipitam por escadas de alumínio, indo para o deque inferior, onde uma dúzia de botes salva-vidas pende dos guinchos.

Brian Dodds segura as cordas de um bote, seus ouvidos ressoando o rugido ululante do redemoinho. A embarcação está suspensa 2 metros abaixo, mas a Scylla se agita tão violentamente que descer até o bote é impossível.

A plataforma petrolífera vira para o lado, à mercê da força centrífuga do redemoinho, que prende a Scylla contra a parede do funil. O diretor da NASA abre os olhos, obrigando-se a olhar para a fonte cegante da energia que irradia do centro do mar turbulento. Dodds se segura, puxando ar desesperadamente antes que um vagalhão de 12 metros passe por cima dele, destruindo o deque inferior e arrancando o último dos botes em sua fúria.

O estômago de Dodds se contrai, e seus olhos arregalam-se de choque quando o centro do vórtice subitamente desce até o leito do oceano, a plataforma girando precariamente sobre o precipício líquido de 600 metros. Dentro daquele cegante delírio esmeralda, ele vê algo — uma criatura negra, alada, levitando redemoinho acima como um demônio saindo do inferno.

A besta alada passa por ele, desaparecendo no céu noturno — enquanto a Scylla cai para o lado, despencando rumo à sua aniquilação.
O ser sem vida voa sobre a superfície do Golfo em velocidade supersônica, planando sem esforço sobre um denso colchão de gravidade negativa. Indo para o sudoeste, ele ascende para uma altitude maior, seu rastro de energia per¬turbando os picos montanhosos do México em sua viagem rumo ao Pacífico.

Ao chegar ao oceano, seus sensores pré-programados alteram o curso para uma rota ocidental mais precisa. O ser diminui a velocidade, ajustando-a para permanecer no lado escuro do planeta por toda a duração de sua fatídica jornada.



Diário de Julius Gabriel
Nossa lua de mel no Cairo foi maravilhosa.

Maria era tudo para mim — minha alma gêmea, meu amor, minha companheira, minha melhor amiga. Dizer que a presença dela me consumia não é exagero. Sua beleza, seu perfume, sua sexualidade — tudo nela era tão inebriante que muitas vezes eu me sentia bêbado de amor. Me sentia pronto, às vezes até ansioso, para abdicar do meu juramento de desvendar o enigma do calendário maia, só para voltar aos Estados Unidos com minha jovem consorte.

Formar uma família. Viver uma vida normal.

Maria tinha outros planos. Depois de uma semana de lua de mel, ela insistiu que continuássemos nossa jornada ao passado do homem, procurando na Grande Pirâmide pistas que ligassem essa magnífica estrutura egípcia ao ícone desenhado no platô de Nazca.

Como discutir com um anjo?
Quando se trata de Gizé, a questão de quem construiu as pirâmides é tão importante quanto quando, como e por quê.

E que as estruturas de Gizé são elas próprias um paradoxo, erguidas com incompreensível precisão e um propósito que continua sendo um mistério milhares de anos depois de sua conclusão. Diferentes dos outros monumentos antigos do Egito, as pirâmides de Gizé não foram construídas como túmulos; aliás, não trazem nenhum hieróglifo, inscrição interna ou sarcófago que as identifique, nem quaisquer tesouros importantes.

Como já mencionei antes, a erosão na base da Esfinge provaria mais tarde que as estruturas de Gizé foram erguidas em 10.450 a.C., distinguindo-se como as mais antigas em todo o Egito.

Vocês devem ter notado que não me refiro a essas maravilhas como as pirâmides de Khufu, Khafre e Menkaure, seus nomes de origem. Os egiptólogos querem que acreditemos que esses três faraós mandaram construir os monumentos. Que grande bobagem! Khufu teve tanto a ver com o projeto e a construção da Grande Pirâmide quanto Artur, um rei cristão, poderia ter mandado construir Stonehenge, que foi abandonado 1.500 anos antes de Cristo.

A falácia remonta a 1837, quando o coronel Howard Vyse foi destacado para escavar em Gizé. O arqueólogo, não tendo feito nenhuma descoberta significativa (e bastante desesperado por financiamento), convenientemente descobriu marcas com o nome de Khufu num túnel um tanto obscuro que ele próprio escavara dentro da pirâmide. Por algum motivo, ninguém questionou o fato de as marcas terem sido pintadas de cabeça para baixo (algumas até com erros de grafia), e nenhuma outra inscrição ter sido encontrada em nenhum outro lugar da Grande Pirâmide.

Os egiptólogos, naturalmente, consideram a descoberta de Vyse uma verdade incontestável.

Muitos anos depois, uma estela de inventário seria descoberta pelo arqueólogo francês Auguste Mariette. O texto que aparece nessa pedra, o equivalente antigo de uma placa histórica para turistas, claramente indica que as pirâmides foram construídas bem antes do reinado de Khufu, referindo-se às estruturas de Gizé como a Casa de Osíris, Senhor de Rostau.

Osíris — talvez a figura mais reverenciada de toda a história egípcia — foi um grande professor e sábio que aboliu o canibalismo e deixou um legado duradouro para o seu povo.

Osíris... o deus-rei barbado.

Maria e eu passamos a maior parte do tempo examinando a Grande Pirâmide, embora todo o sítio arqueológico de Gizé tenha um propósito misterioso bastante distinto.



O exterior da Grande Pirâmide é tão assombroso quanto o seu interior. Tendo já discutido as medidas do templo em relação ao valor de pi, à precessão e às dimensões da Terra, falarei agora dos quatro lados da estrutura, feitos de blocos de calcário. Por incrível que pareça, cada lado tem 230 metros, e à pirâmide faltam meros 20 centímetros para ser um quadrado perfeito. Cada lado é também alinhado aos verdadeiros pontos cardeais, norte, sul, leste e oeste, um fato que causa ainda mais impacto quando nos damos conta de que a Grande Pirâmide é formada por 2.300.000 blocos de pedra, cada um pesando entre 2,5 e 15 toneladas. (Na menor das três pirâmides de Gizé há uma única pedra que pesa 320 toneladas. No momento em que registro estas palavras, no ano 2.000, só existem três guindastes em todo o mundo que poderiam erguer esse peso monumental do chão.) No entanto, como no caso de Tiahuanaco e Stonehenge, nenhuma máquina foi usada para mover esses pesos incríveis, que tiveram de ser transportados de uma pedreira distante, e posicionados muitas vezes a dezenas de metros do chão.

A maioria das pessoas que vêem a Grande Pirâmide não se dá conta de que as paredes da estrutura tinham, originalmente, um revestimento de pedras altamente polidas, cada um dos 144 mil blocos pesando 9 toneladas. Hoje só restam resíduos dessas pedras de revestimento, a maioria tendo sido destruída num forte terremoto em 1.301 d.C. Porém, sabemos que os blocos de calcário haviam sido cortados com tal precisão e habilidade que a lâmina de um canivete não entrava nas fendas entre eles. Agora só podemos imaginar como a Grande Pirâmide era há milhares de anos — uma estrutura de 6 milhões de toneladas, cobrindo 5 hectares —, brilhando como vidro sob o sol do Egito.

Embora o exterior da pirâmide seja uma visão maravilhosa, é o interior dessa misteriosa estrutura que talvez esconda sua verdadeira finalidade.

A Grande Pirâmide contém várias passagens que levam a duas salas vazias, inocentemente batizadas de Câmara do Rei e Câmara da Rainha. A verdadeira finalidade dessas salas ainda é desconhecida. Uma entrada escondida na face norte leva a uma estreita passagem de ligação até um corredor que sobe diretamente para o coração da pirâmide. Depois de uma breve subida, pode-se entrar num claustrofóbico túnel horizontal de 40 metros que leva à Câmara da Rainha, ou então continuar subindo ainda mais pela Galeria Central, um impressionante corredor que leva à Câmara do Rei.

A Câmara da Rainha é uma sala de 5,2 por 5,5 metros, com 6 metros de pé-direito e forro no formato de um teto com duas águas. Sua única característica notável é um estreito duto de ventilação com uma abertura retangular de apenas 20 por 23 centímetros. Esse duto, bem como os dois encontrados na Câmara do Rei, ficaram fechados até 1993, quando os egípcios, procurando melhorar a ventilação da pirâmide, contrataram o engenheiro alemão Rudolf Gantenbrink para usar seu robô em miniatura e escavar os dutos entupidos. Imagens feitas com a câmera em miniatura do robô revelaram que os dutos não estavam entupidos, mas fechados por dentro com um mecanismo deslizante, uma pequena porta presa com pinos de metal. Quando está solto, o duto se abre diretamente para o céu.

Usando um sofisticado inclinômetro, Gantenbrink foi capaz de calcular os ângulos exatos de projeção no céu noturno. Com 39 graus e 30 minutos, o duto sul da Rainha aponta diretamente para a estrela Sirius. O duto do Rei, com 45 graus, aponta para Al Nitak, a mais baixa das três estrelas do Cinturão de Órion.

Astrônomos descobriram logo depois que as três pirâmides de Gizé foram cuidadosamente alinhadas para espelhar as três estrelas do Cinturão como elas apareciam em 10.450 a.C. (A lenda de Osíris também está ligada a Órion; sua esposa, Ísis, à estrela Sirius.)

Será que o alinhamento cósmico era a verdadeira finalidade por trás da escavação dos dutos, ou eles teriam sido projetados para desempenhar outra junção?

A própria Galeria Central é uma incrível façanha de Engenharia. Com menos de 2 metros de largura ao nível do chão, as paredes desse túnel se estreitam gradualmente de ambos os lados para se unirem ao teto, a 8 metros e meio do piso. Com uma inclinação de 26 graus, a estreita passagem sobe mais de 45 metros, uma assombrosa realização arquitetônica, considerando que a abóbada da galeria sustenta todo o peso dos três quartos superiores da pirâmide.

No ápice da Galeria Central fica uma misteriosa antecâmara cujas paredes são feitas de granito vermelho. Estranhos pares de sulcos paralelos, parecendo trilhos para um antigo conjunto de divisórias, foram escavados nas paredes. Dali, um pequeno túnel leva à Câmara do Rei, a sala mais impressionante da pirâmide. A câmara é um retângulo perfeito, com 5,23 metros de largura, 10,46 metros de comprimento e pé-direito de 5,81 metros. Toda a câmara formada por cem blocos de granito vermelho, cada um pesando mais de 70 toneladas!

Como os construtores da antiguidade conseguiram levantar esses blocos de granito até seus lugares, especialmente num espaço tão apertado?

Somente um objeto ocupa a Câmara do Rei: um bloco solitário de granito cor de barro, seu interior escavado como uma banheira gigante. Situada na parede ocidental, a peça tem 2,28 metros de comprimento por um metro de largura e um de altura. O bloco maciço de granito foi cortado com inexplicável precisão mecânica. A tecnologia usada para cortar esse objeto era superior a qualquer ferramenta à disposição do homem moderno.

Embora nenhuma múmia tenha sido encontrada nele, os egiptólogos continuam a identificar esse objeto oco como um sarcófago sem tampa.

Eu tenho outra teoria.

A Câmara do Rei parece funcionar como um instrumento acústico, coletando e amplificando sons. Em várias ocasiões, me vi sozinho na sala e aproveitei a oportunidade para entrar no bloco em forma de banheira. Ao me deitar nele, fui tomado pelo que pareciam profundas reverberações, como se eu tivesse entrado no canal auditivo de um gigante. Não exagero quando digo que meus ossos chocalhavam com as esmagadoras vibrações de som e energia. Discussões posteriores com enge¬nheiros eletrônicos revelaram que a geometria do ápice da Grande Pirâmide (% 377 ohms) faz dela um reverberador perfeito, igualando-se à impedância do espaço.

Por mais bizarra que pareça, minha teoria é que a Grande Pirâmide foi projetada para funcionar como um incrível, imenso diapasão canalizador de energia, capaz de reverberar correntes como as ondas de rádio, ou talvez alguns outros campos de energia ainda desconhecidos.


Mais fatos esclarecedores: além de investigarmos a Grande Pirâmide, Maria e eu passamos incontáveis horas entrevistando alguns dos principais arquitetos e enge¬nheiros do mundo. Depois de calcular o peso e os requerimentos de mão de obra e de espaço para a construção da estrutura, cada um desses profissionais chegou à mesma e estarrecedora conclusão: a Grande Pirâmide não poderia ser duplicada — nem mesmo nos dias de hoje.

Me deixem reiterar a informação: mesmo usando nossos guindastes mais sofisticados, os seres humanos da nossa época jamais poderiam erguer a Grande Pirâmide.

No entanto, a Grande Pirâmide foi construída há cerca de 13 mil anos! Então, quem construiu a Grande Pirâmide?

Como procurar respostas para o impossível? O que é o impossível? Maria o descrevia como "uma conclusão equivocada tirada por um observador desinformado, a cuja experiência limitada falta a base de informações para adequadamente compreender algo que simplesmente não está dentro de seus parâmetros aceitáveis de realidade".

O que minha amada estava tentando expressar é isto: mistérios permanecem mistérios até que o observador abra sua mente para novas possibilidades. Ou, mais sucintamente: para encontrar uma solução para o que é percebido como impossível, busque soluções impossíveis.

Foi o que nós fizemos.

A lógica dita que, se os seres humanos não poderiam ter construído as pirâmides de Gizé sozinhos, alguém os assistiu, neste caso outra espécie obviamente de inteligência superior.

Essa conclusão simples, porém perturbadora, não surgiu do nada, mas derivou de evidências palpáveis e empíricas.

Os crânios alongados encontrados nas Américas Central e do Sul nos revelam que os membros dessa espécie misteriosa tinham aparência humanóide. Várias lendas os descrevem como caucasianos altos, com olhos azuis da cor do mar, barbas longas e cabeleiras brancas. Várias das culturas antigas mais bem-sucedidas da História, incluindo os egípcios, os incas, os maias e os astecas, reverenciaram esses seres como homens de grande sabedoria e paz que chegaram para estabelecer a ordem no caos. Todos eram grandes mestres, possuindo um conhecimento avançado de Astronomia, Matemática, Agricultura, Medicina e Arquitetura que fez nossa raça selvagem evoluir para nações com sociedades organizadas.

As evidências físicas que restaram para confirmar sua existência são incontestáveis.

Essa espécie humanóide também tinha um plano claro: preservar o futuro da humanidade, seus filhos adotivos.

Com que conclusão bizarra e assustadora Maria e eu nos deparamos. Ali estávamos, dois pensadores modernos, doutorandos de Cambridge, apresentando um ao outro teorias que deixariam Erich von Däniken orgulhoso. Mas não estávamos orgulhosos. Aliás, nossa reação inicial foi de vergonha. Não éramos como ele, hoteleiros suíços transformados em escritores. Éramos cientistas, arqueólogos renomados. Como poderíamos apresentar aos nossos colegas tais idéias absurdas de intervenção alienígena? No entanto, pela primeira vez, minha jovem esposa e eu sentíamos que nossos olhos finalmente, verdadeiramente, se abriam. Podíamos sentir um grande plano em ação, mas ainda nos frustrava não poder decifrar seu significado oculto. Nossos anciãos humanóides nos deixaram instruções nos códices maias, duplicando com exatidão a mensagem do platô de Nazca, mas os códices haviam sido queimados pelos padres espanhóis, e o significado da mensagem de Nazca ainda nos escapava.

Maria e eu nos sentíamos apavorados e sozinhos, com a terrível profecia do calendário maia pendendo como a espada de Dâmocles sobre nossas cabeças.

Lembro que eu abraçava minha esposa, me sentindo como uma criança perdida que, depois de tomar conhecimento da morte, se esforça para compreender o conceito de seus pais de paraíso. A idéia me fez perceber que, apesar de todas as suas façanhas e realizações, nossa espécie, do ponto de vista evolucionário, realmente ainda está na infância. Talvez por isso sejamos tão propensos à violência, ou continuemos sendo criaturas tão carentes e emocionais, sempre buscando o amor, sempre nos sentindo sozinhos. Como bebês de 30 mil anos, simplesmente não sabemos fazer outra coisa. Somos um planeta de crianças, e a Terra — um imenso orfanato, sem mentes adultas para nos guiar nos caminhos do universo. Fomos obrigados a aprender sozinhos, do jeito mais difícil, à medida que caminhamos, vivendo e morrendo como glóbulos vermelhos, circulando com abandono imprudente pelo corpo da humanidade — tão jovem, tão inexperiente e tão ingênua. Os dinossauros dominaram a Terra por 200 milhões de anos, mas nossos primeiros ancestrais caíram das árvores há menos de 2 milhões de anos. Em nossa incrível ignorância, nos imaginamos superiores.

A verdade é que não passamos de uma espécie de crianças — crianças curiosas e ignorantes.

Os Nefilins, os "caídos", eram nossos tutores. Estiveram aqui há muito tempo, tomaram fêmeas de Homo sapiens como esposas, fornecendo seu DNA à nossa espécie. Eles nos ensinaram o que acharam que compreenderíamos, e nos deixaram marcos claros de sua presença. Também tentaram nos avisar de uma calamidade futura, mas, como a maioria dos filhos, não lhes demos ouvidos, recusando-nos a acatar o alerta de nossos pais.

"Ainda somos crianças", lembro de ter dito a Maria. "Somos crianças frágeis e ingênuas, achando que sabemos tudo, balançando despreocupadamente em nosso berço enquanto a serpente entra pela janela aberta da creche para nos aniquilar."

Maria concordava. "E você sabe que a comunidade científica vai nos desprezar."

"Então não devemos contar a eles, pelo menos não por enquanto", eu disse. "A profecia da humanidade pode estar gravada em pedra, mas ainda podemos determinar o futuro. Os Nefilins não teriam se dado a todo esse trabalho para nos avisar sobre 4 Ahau, 3 Kankin sem também nos deixar alguma arma, algum meio de nos salvarmos da aniquilação. Precisamos encontrar o meio de nos salvar — então, e somente então, o resto do mundo ouvirá com mente aberta."

Maria me abraçou, concordando com minha lógica. "Não encontraremos as respostas aqui, Julius. Você tinha razão desde o início. Embora a Grande Pirâmide faça parte do quebra-cabeça da profecia, o templo que aparece no platô de Nazca fica na Mesoamérica."

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,
Ref. Catálogo 1975-77 páginas 12-72

Diário Fotográfico, Disquete 4: Nome do arquivo: GIZÉ, Diagrama 17



18
1º DE DEZEMBRO DE 2012

PLANÍCIE DE NULLARBOR, AUSTRÁLIA

5h08

A planície de Nullarbor, a maior área plana do planeta, é uma erma região de calcário que se estende por 245 mil quilômetros quadrados, beirando a nua costa sul do Pacífico na Austrália. É uma região inabitável, sem fauna ou vegetação.

Mas para o naturalista amador Saxon Lennon e sua namorada, Reneè, a planície de Nullarbor sempre representou a fuga perfeita. Nada de pessoas, de barulho, de gerentes de projeto gritando — somente os sons relaxantes das ondas, que arrebentavam nos penhascos verticais de calcário 30 metros abaixo do acampamento do casal.

A reverberação sônica faz Saxon se espreguiçar em seu saco de dormir. Ele abre os olhos, afastando as abas da barraca para olhar a abóbada estrelada.

Reneè passa o braço pela cintura dele e brinca com sua genitália.

— Já acordou, amor?

— Espera um pouco... você ouviu alguma coisa passando aqui?

— Tipo o quê?

— Não sei...

O enorme estrondo faz o solo sob a barraca tremer, e Saxon se desvencilhar do abraço da namorada.

— Vamos!

O jovem casal sai correndo da barraca, seminu, calçando as botas de caminhada sem se dar ao trabalho de amarrar os cadarços. Eles pulam no jipe e rumam para o leste, Saxon tomando cuidado para manter o veículo a uma distância segura da beira dos penhascos da costa, alinhados à sua direita.

O horizonte escuro já está cinza quando eles chegam.

— Caramba, Sax, o que é aquilo?

— Eu... eu não sei.

O objeto é enorme, da altura de um sobrado, com asas reptilianas que se expandem uns 18 metros de ponta a ponta. A criatura é negra como a noite e está encarapitada sobre um par de garras com três pontas que parecem aferrar a superfície nua de calcário. Uma cauda enorme, espelhada e em forma de leque, está imóvel, metros acima do chão, enquanto uma série de tentáculos sai do abdômen. A cabeça sem rosto, em forma de chifre, parece apontada para o céu. O ser parece sem vida como uma estátua, exceto pelo brilho âmbar-dourado de um órgão em forma de disco num dos lados de seu tronco.

— Será que é um daqueles aviões de controle remoto que a Força Aérea está sempre usando por aqui?

— Será que a gente precisa ligar pra alguém?

— Liga você. Eu vou tirar umas fotos. — Saxon aponta sua câmera, batendo várias fotos enquanto a namorada tenta ligar do carro.

— O telefone está mudo, só ouço estática. Tem certeza de que pagou a conta?

— Absoluta. Tome, tire uma foto de mim perto dessa coisa pra mostrar o tamanho dela.

— Não chega muito perto, amor.

Saxon entrega a câmera a Reneè, depois fica a 4 metros e meio do ser.

— Acho que essa coisa nem está viva. Só está empoleirada aqui, como um condor carbonizado.

Um brilho dourado aparece no horizonte.

— A hora é perfeita. Espere o sol nascer, a foto vai ficar melhor.

Os primeiros raios da aurora surgem sobre o Pacífico, a luz solar beijando a superfície da cauda espelhada da criatura.

Saxon dá um salto quando a cauda se ergue com um chiado hidráulico.

— Puta merda, acho que ela está se ativando.

— Sax, olha, o olho dela está começando a piscar.

Saxon olha para o disco âmbar, que está piscando cada vez mais rápido, sua cor escurecendo para um tom escarlate.

— Vem... — Ele pega Reneè pelo pulso e corre de volta para o jipe. Pondo em marcha o veículo, acelera para o norte através da imensa expansão plana.

O disco fica mais vermelho, cor de sangue, depois para de piscar. Uma centelha surge na borda das asas abertas, explodindo numa chama brilhante, incandescente e prateada.

Com um clarão cegante, a criatura é detonada, liberando uma quantidade indescritível de energia combustível que se expande por todo o platô de Nullarbor na velocidade do som. Ondas de choque da explosão nuclear penetram na rocha calcária porosa.

Vaporizando tudo em seu caminho.

Saxon sente a tórrida explosão de 9 mil graus um nanossegundo antes que seu corpo, sua namorada, o jipe e o solo se evaporem num gás tóxico e escaldante que sobe pela atmosfera, num vácuo infernal de chamas e poeira cósmica.


Golfo do México
A fragata USS Boone (FFG-28), com mísseis teleguiados classe Oliver Hazard Perry, flutua silenciosamente num tenebroso mar cinza-chumbo, sob o ameaçador céu da tarde. Ao redor do vaso de guerra, espalhado pela superfície num raio de 3 quilômetros, está tudo o que resta da plataforma petrolífera semissubmersa Scylla. Uma dúzia de botes infláveis motorizados navegam cuidadosamente em meio aos destroços, e marinheiros emocionalmente esgotados puxam cadáveres inchados a bordo.

O guarda-marinha Zak Wishnov fecha mais um cadáver num saco, enquanto o subtenente Bill Blackmon manobra o bote lentamente através dos fragmentos flutuantes.

— Zak, tem outro ali, a estibordo da proa.

— Meu Deus, odeio isso. — Wishnov se debruça sobre a proa e fisga o cadáver com um croque. — Caramba, este aqui está sem um braço.

— Tubarão?

— Não, o corte é perfeito demais. Mas agora que você falou, não vi um só tubarão desde que chegamos aqui.

— Nem eu.

— Não faz sentido. Tem sangue pra todo lado, e estas águas são infestadas de tubarões. — Zak rola o corpo mutilado para dentro do bote, enfiando-o rapidamente num saco. — É aquela coisa lá embaixo, não é, tenente? A fonte daquele brilho verde. Por isso os tubarões não chegam perto.

O tenente concorda.

— Os tubarões sabem de algo que não sabemos. Quanto antes o capitão nos tirar daqui, melhor.


O capitão Edmund O. Loos III está imóvel sobre a ponte, seus olhos castanhos fitando o tenebroso horizonte, seu maxilar contraído pela raiva. O 13º oficial a comandar a Boone e sua tripulação de 42 oficiais e 550 marinheiros está espumando por dentro. Isso porque seu oficial em comando ordenou que ele se apresentasse no Golfo do México e, conseqüentemente, afastasse seu navio de guerra do grupo de batalha que seguia ao Golfo Pérsico.

Fazer a porra de uma operação de resgate no meio do que pode ser o maior conflito dos últimos vinte anos. Vamos ser motivo de piada pra toda a Marinha.

O comandante Curtis Broad, oficial executivo da embarcação e segundo em comando, se aproxima.

— Com licença, capitão. Um dos LAMPS localizou um submarino flutuando 1,7 quilômetro a oeste. Dois sobreviventes a bordo. Um deles diz que sabe o que destruiu a Scylla.

— Traga-o para a sala de reuniões. Quando o vice-presidente vai chegar?

— Daqui a 35 minutos.

Um raio explode silenciosamente a distância, seguido, pouco depois, pelo rugido do trovão.

— Recolha todos os botes, comandante. Estarei na sala de reuniões. Me avise quando o vice-presidente chegar.

— Sim, senhor.
O helicóptero antissubmarino Kaman SH-2G Seasprite, também conhecido como LAMPS, balança duas vezes antes de pousar no heliporto do cruzador.

Mick Gabriel segura uma das pontas da maca de Dominique e um tripulante levanta a outra. Quando as portas deslizantes do helicóptero se abrem, o médico do navio e sua equipe se juntam a eles.

O oficial médico se curva sobre a beldade hispânica inconsciente. Ele verifica que ela está respirando, toma seu pulso, depois aponta uma lanterna para os olhos dela.

— Esta moça sofreu uma concussão grave e pode ter ferimentos internos. Precisamos levá-la para a enfermaria.

Um tripulante empurra Mick, tomando a maca de suas mãos. Ele está fraco demais para protestar. O médico olha para ele.

— Você também parece ter passado maus bocados, meu filho. Algum ferimento além dos cortes e hematomas?

— Acho que não.

— Há quanto tempo não dorme?

— Não sei. Talvez dois dias. Minha amiga vai ficar bem?

— Acho que sim. Qual o seu nome?

— Mick.
— Venha comigo, Mick. Nós vamos cuidar desses machucados e você vai comer e se limpar um pouco. Precisa descansar...

— Negativo — o tenente interrompe. — O capitão quer vê-lo na sala de reuniões em 15 minutos.


Está chovendo quando o helicóptero de Ennis Chaney pousa no deque traseiro da Boone. O vice-presidente se curva e cutuca o homem adormecido à sua direita.

— Acorde, Marvin, nós chegamos. Não entendo como você consegue dormir com essa barulheira toda.

Marvin Teperman dá um sorrisinho e esfrega os olhos.

— Viajar me cansa.

Um guarda-marinha abre a porta deslizante, presta continência e leva os dois homens para a superestrutura.

— Senhor, o capitão Loos está à sua espera na sala de reuniões...

— Ainda não. Primeiro quero ver os corpos.

— Agora, senhor?

— Agora.

O guarda-marinha o leva para dentro de um grande hangar. Os sacos de cadáveres estão alinhados em fileiras no chão de concreto.

Chaney anda lentamente de um saco a outro, parando para ler a etiqueta de identificação de cada um.

— Meu Deus... — O vice-presidente se ajoelha ao lado de um saco e abre o zíper, suas mãos tremendo.

Ele olha para o rosto pálido e sem vida de Brian Dodds. Com um toque paternal, afasta o cabelo castanho da testa do morto, a emoção marejando seus olhos.

— Como isto aconteceu? — A voz de Chaney é tênue e rouca.

— Não temos certeza, senhor. O sujeito que talvez saiba está na sala de reuniões do capitão, esperando para falar com o senhor.

Chaney fecha o saco e se levanta com dificuldade.

— Me leve até ele.
Mick enfia o último pedaço de sanduíche de peru e queijo na boca e toma mais um gole de ginger ale.

— Está se sentindo melhor?

Ele faz que sim para o capitão. Embora esteja exausto, a comida, o banho quente e as roupas limpas melhoraram o seu estado de espírito.

— Bom, o senhor disse que se chama Michael Rosen e é um biólogo marinho que trabalha num laboratório em Tampa, correto?

— Sim, senhor. Pode me chamar de Mick.

— E o senhor descobriu o objeto abaixo de nós. Como?

— Usando o SOSUS. É um sistema de observação sonora...

— Sei o que é o SOSUS, obrigado. Agora, a sua colega...

Batidas na porta interrompem a pergunta. Mick ergue o olhar e vê o vice-presidente Ennis Chaney entrando, seguido por um cavalheiro mais baixo e mais velho, com bigode fino e um sorriso amigável.

— Bem-vindo a bordo, senhor. Lamento que sua visita aconteça em circunstâncias tão desfavoráveis.

— Capitão, este é o dr. Marvin Teperman, um exobiólogo que veio do Canadá em uma transferência temporária. E quem é esse cavalheiro?

Mick estende a mão.

— Dr. Michael Rosen.

— O dr. Rosen diz que entrou no objeto abaixo de nós com seu minissubmarino.

Chaney se senta à mesa de conferências.

— O que ele viu?

O capitão Loos consulta suas anotações.

— O dr. Rosen descreveu um cenário que parece digno do Inferno de Dante. Ele diz que o brilho esmeralda está sendo emitido por um poderoso campo de energia originado dentro dessa câmara subterrânea.

Chaney encara Mick com seus olhos intensos de guaxinim.

— O que aconteceu com a Scylla?

— A plataforma petrolífera era um posto de observação sensorial posicionado sobre o buraco — esclarece Loos.

— O campo de energia criou um vórtice poderoso. O redemoinho deve ter destruído a plataforma.

Loos arregala os olhos. Ele pressiona um botão do intercomunicador.

— Ponte.


— Sim, senhor, comandante Richards falando.

— Baixe bóias sensoras, comandante, depois mude nossa posição para um quilômetro a leste.

— Um quilômetro a leste, sim, senhor.

— Cumpra a ordem imediatamente, comandante.

— Entendido, senhor.

Mick corre os olhos do capitão Loos para o vice-presidente.

— Mudar seu navio de lugar não basta, capitão. Corremos um grande perigo. Há uma forma de vida lá embaixo...

— Uma forma de vida! — Marvin praticamente pula sobre a mesa. — Algo ainda está vivo lá embaixo? Como é possível? Como ela é?

— Não sei.

— O senhor não viu?

— Ela estava escondida dentro de um enorme casulo.

— Então como sabe que estava viva? Ela se mexeu?

— Ela se comunicou comigo... telepaticamente. Tem a capacidade de acessar nossos pensamentos, até nossa memória subconsciente.

Teperman continua de pé, incapaz de conter sua empolgação.

— Isso é incrível. Que pensamentos ela comunicou?

Mick hesita.

— Ela acessou uma lembrança do meu falecido pai. Não era... não era uma lembrança muito feliz.

Chaney se inclina para a frente.

— O senhor disse que corremos um perigo terrível. Por quê? Essa forma de vida é uma ameaça para nós?

— É mais do que uma ameaça. A menos que a gente destrua esse ser e a nave dele, todos os homens, todas as mulheres e crianças deste planeta vão morrer em 4 Ahau... quer dizer, no dia 21 de dezembro.

Marvin para de sorrir. Chaney e o capitão se entreolham. Então olham para Mick, que sente a tensão por trás dos olhos do vice-presidente pregados nele.

— Como sabe? O ser comunicou essa ameaça pra você?

— Você viu algum tipo de arma? — pergunta o capitão.

— Não tenho certeza. Alguma coisa foi liberada. Não sei o quê. Parecia um morcego enorme e deformado, só que não batia as asas, apenas saiu flutuando de um lago de energia líquida e prateada...

— Era um ser vivo? — Marvin pergunta.

— Não sei. Parecia mais mecânico do que orgânico. Como uma sonda. O campo de energia se agitou, um redemoinho se formou, e então o teto da câmara se abriu parcialmente pro mar. Aí a coisa subiu reto e saiu do funil.

— Reto, pra fora do funil? — Chaney balança a cabeça, descrente. — É uma história bem louca, dr. Rosen.

— Sei disso, mas garanto que é tudo verdade.

— Capitão, o senhor examinou o submarino deste homem?

— Sim, senhor. Os dispositivos eletrônicos estão destruídos, e o casco está bastante avariado.

— Como você teve acesso à nave alienígena? — Marvin pergunta. Mick olha para o exobiólogo.

— E a primeira vez que você se refere a ela como uma nave alienígena. São os restos do objeto que atingiu a Terra há 65 milhões de anos, não são, doutor?

Marvin ergue as sobrancelhas, surpreso.

— E o sinal de rádio vindo do espaço profundo deve ter ativado o sistema vital da nave — continua Mick.

Teperman parece impressionado.

— Como você sabe de tudo isso?

— Isso é verdade? — pergunta o capitão Loos, incrédulo.

— É bastante possível, capitão, embora, pelo que o dr. Rosen acabou de contar, pareça mais provável que o sistema vital alienígena nunca tenha sido completamente desativado. Esse casulo que o dr. Rosen mencionou deve ter continuado a funcionar, mantendo o ser vivo em algum tipo de animação suspensa protetora.

— Até que o sinal vindo do espaço o ativou — completa Mick.

Chaney olha para ele com desconfiança.

— Como você sabe tanto sobre esse ser alienígena? Após fortes batidas na porta, o comandante Broad entra.

— Lamento interromper, capitão, mas preciso falar com o senhor em particular.

O capitão Loos sai com ele.

— Dr. Rosen, o senhor diz que esse ser vai destruir a humanidade em 21 de dezembro. Como sabe disso?

— Como eu disse, dr. Teperman, ele se comunicou comigo. As intenções dele podem não ter sido verbalizadas, mas eram bastante claras.

— Ele mencionou o dia 21 para o senhor?

— Não. — Mick pega as anotações do capitão. Ele corre os olhos sobre elas, tirando distraidamente o clipe do maço de folhas. — Passei a vida toda estudando as profecias maias, além de vários sítios arqueológicos ao redor do mundo que associam essa presença maligna ao fim do mundo. O dia 21 é a data mencionada no calendário maia, a data em que a humanidade será varrida da face da Terra. Antes que riam de mim, precisam saber que o calendário é um instrumento astronômico preciso...

Chaney esfrega os olhos, perdendo a paciência.

— Eu acho que o senhor não fala como um biólogo, doutor, e não vejo graça nenhuma nessa sua profecia maia. Um monte de gente morreu a bordo daquela plataforma, e eu quero saber a causa da morte.

— Eu já falei. — Mick enfia o clipe na cintura da calça.

— E como conseguiu acesso à nave alienígena?

— Existem 23 túneis situados num círculo perfeito no leito do oceano, a cerca de 1.500 metros do buraco central. Minha colega e eu entramos com nosso minissubmarino num desses túneis. Ficamos presos numa enorme turbina, que sugou nosso submarino para...

— Uma turbina! — Teperman ergue as sobrancelhas novamente. — Incrível. Qual a função da turbina?

— Desconfio que seja pra ventilação. O minissubmarino emperrou as lâminas durante a aspiração. Quando os rotores reverteram pra drenar a câmara, fomos lançados de volta ao mar.

O capitão Loos volta para a sala de reuniões com uma expressão irônica.

— Fiquei a par de uma situação, vice-presidente, que pode explicar muita coisa. Parece que o dr. Rosen não é quem diz ser. O verdadeiro nome dele é Michael Gabriel, e ele escapou semana passada de um hospital psiquiátrico em Miami.

Chaney e Marvin olham para Mick com ar descrente.

Mick olha nos olhos do vice-presidente.

— Não sou doente mental. Menti sobre minha identidade porque a polícia está atrás de mim, mas não sou louco.

O capitão Loos lê um fax.

— Aqui diz que você esteve preso pelos últimos 11 anos, depois de um incidente envolvendo Pierre Borgia.

Chaney arregala os olhos.

— Borgia, o secretário de Estado?

— O Borgia atacou verbalmente meu pai, ele foi humilhado diante de uma assembléia lotada de colegas de trabalho. Perdi o controle. O Borgia manipulou o sistema judiciário. Em vez de ser preso por simples agressão, ele fez com que eu fosse internado numa instituição.

O capitão Loos entrega o fax a Chaney.

— O pai de Mick era o Julius Gabriel.

Marvin parece surpreso.

— Julius Gabriel, o arqueólogo?

O capitão sorri com desdém.

— O charlatão que tentou convencer a comunidade científica de que a humanidade estava à beira da destruição. Lembro que li a respeito. A morte dele saiu na capa da Time.

Chaney ergue os olhos do fax.

— Tal pai, tal filho.

— Talvez ele tivesse razão — murmura Marvin.

O rosto do capitão fica rubro.

— O Julius Gabriel era um lunático, dr. Teperman. Na minha opinião, pelo fruto se conhece a árvore. Este homem já tomou muito o nosso tempo.

Mick se levanta, exaltado.

— Tudo o que acabei de contar é verdade...

— Por que não para com essa farsa, Gabriel? Encontramos o diário do seu pai no minissubmarino. A única finalidade da sua história é convencer a gente e o resto do mundo de que as teorias ridículas do seu pai eram verdadeiras.

O capitão abre a porta.

Dois seguranças armados entram.

— Vice-presidente, a menos que o senhor ainda precise deste homem, recebi instruções para prendê-lo.

— Instruções de quem?

— Do secretário Borgia, senhor. Ele está a caminho.
Sydney, Austrália
O jato supersônico Dassault voa sobre o Pacífico Sul a 1.900 quilômetros por hora, seu design alongado mal registrando qualquer turbulência. Embora haja oito assentos no avião de três turbinas, 31 metros de comprimento e asas triangulares, somente três estão ocupados.

A embaixatriz americana na Austrália, Barbara Becker, se espreguiça ao acordar. Ela olha para o relógio quando o jato começa a descer sobre a Austrália. De Los Angeles a Sydney em menos de sete horas e meia. Nada mal. Ela se levanta e atravessa o corredor à direita para se juntar aos dois cientistas do Instituto de Pesquisas de Energia e Meio Ambiente.

Steven Taber, um homenzarrão que faz Barbara se lembrar do senador Jessé Ventura, está apoiado na janelinha, roncando, enquanto seu colega, o dr. Marty Martinez, digita furiosamente num laptop.

— Com licença, doutor, mas logo vamos pousar, e eu queria fazer mais algumas perguntas pra você.

— Só um momento, por favor. — Martinez continua digitando.

Becker se senta ao lado dele.

— Talvez a gente devesse acordar o seu amigo...

— Estou acordado. — Taber dá um bocejo de urso.

Martinez desliga o computador.

— Pode perguntar, embaixatriz.

— Como o senhor sabe, o governo australiano está em polvorosa. Eles dizem que mais de 173 mil quilômetros quadrados de território foram vaporizados na explosão. É uma área absurdamente grande para simplesmente desaparecer. Baseado na sua análise preliminar das fotos de satélite, o senhor diria que esse acidente foi causado por um fenômeno natural, como o monte Santa Helena, ou será que houve causas humanas?

Martinez dá de ombros.

— Prefiro não responder, pelo menos até completarmos nossos testes.

— Entendo. Mas...

— Embaixatriz, o sr. Taber e eu estamos aqui representando o Conselho de Segurança das Nações Unidas, não os Estados Unidos. Sei que a senhora está no meio de um turbilhão político, mas prefiro não especular...

— Calma, Marty. — Taber se inclina para a frente. — Vou responder à sua pergunta, embaixatriz. Primeiro, pode esquecer qualquer coisa semelhante a uma catástrofe natural. Aquilo não foi nenhum terremoto ou vulcão. Na minha opinião, estamos lidando com o teste de um novo tipo de dispositivo termonuclear. Com o perdão da expressão, eu fico me cagando de medo só de pensar na possibilidade.

Martinez balança a cabeça negativamente.

— Steven, você não pode afirmar com certeza...

— Vamos, Marty, chega de bobagem. Você e eu temos a mesma suspeita. Vai todo mundo ficar sabendo mesmo.

— Ficar sabendo o quê? Falem comigo. Do que vocês suspeitam?

Martinez fecha o seu laptop com violência.

— Nada que não seja motivo de protesto para os cientistas do Instituto há mais de uma década. Armas de fusão, fusão pura.

— Me desculpe, não sou cientista. O que você quer dizer com fusão pura?

— Não me surpreende que não tenha ouvido falar — Taber diz. — Por alguma razão, esse assunto nunca foi levado a público. Existem três tipos de armas nucleares: a bomba atômica, a bomba de hidrogênio ou bomba H e a bomba de fusão pura. A bomba atômica usa fissão, que é o processo de dividir um núcleo atômico pesado em dois ou mais fragmentos. Essencialmente, a bomba A é uma esfera cheia de explosivos detonados eletronicamente. Dentro da esfera há uma bola de plutônio do tamanho de um melão, e no centro dela tem um dispositivo que libera uma chuva de nêutrons. Quando os explosivos são detonados, o plutônio é esmagado e vira uma massa derretida. Os átomos são divididos em fragmentos, criando uma reação em cadeia que, por sua vez, libera quantidades imensas de energia. Se eu estiver indo rápido demais, é só dizer.

— Continue.

— Numa bomba de hidrogênio, o urânio-235 absorve um nêutron. A fissão acontece quando o nêutron se parte, produzindo dois núcleos menores, vários nêutrons e muita energia. Isso produz a temperatura e a densidade necessárias para a fusão do deutério e do trítio, que são dois isótopos de hidrogênio...

— Peraí, calma, já me perdi. Martinez se vira para a embaixatriz.

— Os detalhes não são importantes. O que a senhora precisa saber é que a fusão é diferente da fissão. A fusão é a reação que acontece quando dois átomos de hidrogênio se juntam, ou se fundem, pra formar um átomo de hélio. Esse processo, o mesmo que acontece no Sol, libera quantidades de energia muito maiores do que a fissão, causando uma explosão ainda mais forte.

Taber faz que sim.

— O fator crucial, que no fim das contas determina a potência de uma arma termonuclear, é o que origina a explosão. Uma bomba de fusão pura é muito diferente de uma atômica ou de hidrogênio, pois não requer um gatilho de fissão pra causar a fusão. Isso significa que o plutônio ou o urânio enriquecido não são necessários pro projeto. A boa notícia é que a ausência de plutônio significa pouca ou nenhuma radioatividade residual. A má notícia é que um dispositivo de fusão pura relativamente pequeno teria um poder explosivo muito maior até do que a nossa mais moderna bomba de hidrogênio.

— Maior quanto?

— Vou dar um exemplo — diz Martinez. — A bomba atômica que jogamos em Hiroshima gerou uma quantidade de energia equivalente a 15 quilotons, ou 15 mil toneladas de TNT. Temperaturas no centro da explosão chegaram a 3.800 graus, com um vento de velocidade estimada em 1.580 quilômetros por hora. A maioria das pessoas num raio de 800 metros morreu. Isso numa explosão de 15 quilotons. Nossa versão moderna da bomba H tem o poder de 20 a 50 megatons, ou 50 milhões de toneladas de TNT, o equivalente a 2 ou 3 mil bombas como a de Hiroshima. Uma bomba de fusão pura tem um potencial destrutivo ainda maior. Bastaria uma pequena bomba de fusão pura de 2 quilotons para causar o mesmo impacto criado por uma bomba H de 30 megatons. E uma tonelada de TNT de fusão pura para cada 15 milhões de toneladas de TNT geradas por uma bomba de hidrogênio. Se quiséssemos dizimar uma área de 173 mil quilômetros quadrados, a fusão pura seria o melhor caminho.

Meu Deus... Apesar do forte ar-condicionado, Barbara sente o suor acumulado.

— E vocês acham possível que uma potência estrangeira tenha desenvolvido esse dispositivo?

Martinez e Taber se entreolham.

— O que foi? Falem!

Taber passa a mão na testa.

— A viabilidade de se desenvolver um dispositivo de fusão pura não foi provada oficialmente, embaixatriz, mas os Estados Unidos e a França já vêm fazendo experiências há mais de uma década.

O dr. Martinez olha nos olhos dela.

— Como já falei, nada disso deveria ser tão chocante. Os cientistas do Instituto estão questionando a moralidade e a legalidade desse trabalho há anos. Tudo isso viola diretamente o Tratado Abrangente Contra Testes.

— Um momento, Marty— diz Taber. — Nós dois sabemos que o TACT não menciona a fusão pura.

— Por que não, caramba? — pergunta a embaixatriz.

— É uma chicana judicial que não foi corrigida, sobretudo porque nenhuma nação jamais anunciou formalmente a intenção de construir uma arma de fusão pura.

— Vocês acham que os franceses teriam vendido a tecnologia para os australianos?

— Não somos políticos, embaixatriz Becker — declara Taber. — De qualquer forma, quem pode dizer que foram os franceses? Podem ter sido os russos ou até os bons e velhos Estados Unidos, pelo que sabemos.

Martinez concorda com um movimento da cabeça.

— Os Estados Unidos já estavam na frente. Testar essa arma na Austrália colocaria pontos de interrogação na cabeça de todo mundo.

Barbara balança a cabeça.

— Meu Deus, estou entrando num vespeiro. Todos os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança vão enviar representantes. Todos vão ficar trocando acusações.

Martinez encosta a cabeça no assento e fecha os olhos.

— A senhora ainda não entendeu o significado de tudo isso, não é, embaixatriz? A fusão pura é a bomba do fim do mundo. Nenhum país, nem os Estados Unidos, deveria ter sido autorizado a realizar qualquer tipo de experiência com fusão pura. Não importa qual país a desenvolva primeiro. A arma pode destruir todos nós.

Barbara sente seu estômago afundar quando o Dassault pousa. O jato taxia pela pista até um Seahawk Sikorsky S-70B-2 que está à espera.

Um cavalheiro alto, usando macacão preto de neoprene, os cumprimenta na pista de pouso. Ele se aproxima de Barbara e estende a mão.

— Embaixatriz, sou Karl Brandt, da Organização Australiana de Pesquisa Geológica, como vai? Me desculpe pelos trajes, mas os macacões de chumbo que vamos usar são bastante desconfortáveis. Imagino que vocês sejam do Instituto de Pesquisas de Energia e Meio Ambiente?

Taber e Martinez se apresentam.

— Muito bem. Olha, não quero apressar vocês, mas Nullarbor, ou o que restou dela, fica a duas horas daqui, e não quero perder a luz do dia.

— E os outros membros da delegação do Conselho de Segurança?

— Já estão esperando no helicóptero.


Golfo do México
Mick se ajoelha ao lado da porta de aço da cela de 2 metros e meio por 3, lutando para se manter acordado enquanto sonda o buraco da fechadura com o pedaço de arame.

— Droga! — Ele se deixa cair contra a parede, olhando para a ponta do clipe quebrado, agora emperrada na fechadura.

Não adianta... não consigo me concentrar. Preciso dormir, preciso descansar um pouco. Ele fecha os olhos e abre em seguida.

— Não! Fique acordado, mexa na fechadura. O Borgia logo vai estar aqui e...

— Mick?

A voz o assusta.



— Mick Gabriel, está aí dentro?

— Teperman?

Uma chave gira na fechadura e a porta é aberta. Marvin entra, deixando a porta escancarada.

— Aí está você. Deu trabalho encontrá-lo, este barco é grande. — Ele entrega a Mick o diário encapado em couro. — Leitura interessante. Mas também seu pai sempre teve bastante imaginação.

Mick olha para a porta.

— Conheci seu pai, sabia? Foi em Cambridge, no final dos anos 1960. Eu estava no terceiro ano da faculdade. O Julius foi o orador convidado num ciclo de palestras intitulado "Mistérios da Humanidade Antiga". Eu o achei brilhante. Aliás, foi o discurso dele que me motivou a seguir carreira na exobiologia.

Marvin nota que Mick está olhando a porta. Ele se vira e vê o clipe espetado na fechadura.

— Assim você não vai muito longe.

— Dr. Teperman, preciso sair daqui.

— Eu sei. Tome isto. — Marvin enfia a mão no bolso do paletó, puxando um maço de notas. — Tem pouco mais de seiscentos dólares aí, alguns canadenses. Não é muito, mas deve bastar para você chegar aonde precisa.

— Você está me libertando?

— Eu não. Sou só o mensageiro. Seu pai foi uma grande influência, mas eu não gostava tanto assim dele.

— Não entendi.

— Sua fuga foi planejada por alguém que despreza o secretário Borgia tanto quanto você.



Chaney?

— Então você não está me soltando porque acredita na minha história?

Marvin sorri, dando-lhe um tapinha afetuoso na face.

— Você é um bom menino, Mick, mas, como o seu pai, é um pouco biruta. Agora ouça com atenção. Vire à esquerda e siga este corredor de acesso até o fim. Vai chegar a uma escada de três lances que leva até o deque principal. Tem um hangar na popa. Dentro dele, no chão, estão os cadáveres das vítimas da plataforma petrolífera. Pegue um saco vazio, entre dentro dele e espere. Daqui a trinta minutos, um helicóptero da EVAC vai chegar pra transportar os mortos pro aeroporto de Mérida. Depois disso, você está por sua conta.

— Obrigado... espere, e a Dominique?

— Sua namorada está melhor, mas não está em condições de viajar. Quer mandar um recado pra ela?

— Por favor. Diga que não vou desistir até fechar esse quebra-cabeça.

— Aonde vai?

— Quer mesmo saber?

— Melhor não. Agora saia daqui antes que nos prendam.



Sul da Austrália
A embaixatriz Becker olha pela janela, ouvindo com atenção a conversa que acontece no fundo do helicóptero entre os delegados da Federação Russa, da China e da França. Spencer Botchin, o representante do Reino Unido, curva-se para sussurrar no ouvido dela.

— Só podem ter sido os franceses. Espero que não tenham sido estúpidos a ponto de vender esse negócio para os iranianos.

Ela balança a cabeça, concordando.

— Eles não teriam testado a arma sem o apoio da Rússia e dos chineses — murmura ela.

É fim de tarde quando o helicóptero chega ao sul da Austrália. Barbara Becker olha pela janela, e a visão a deixa literalmente arrepiada.

A paisagem é uma enorme cratera carbonizada, uma depressão fumegante que se estende até onde a vista alcança, em todas as direções.

Karl Brandt se senta perto dela.

— Há três dias, essa área ficava 40 metros acima do nível do mar. Agora, na maioria dos lugares, mal atinge um metro e meio.

— Como é que alguma coisa consegue vaporizar tanta rocha?

Steve Taber para de ajudar o dr. Martinez a vestir o macacão de chumbo.

— A julgar pela cratera que estamos vendo, eu diria que houve uma explosão subterrânea de incrível magnitude.

Brandt veste seu traje à prova de radiação e fecha o zíper.

— Os tanques destes trajes nos fornecem ar por trinta minutos.

O dr. Martinez se esforça para fazer um sinal de positivo com as pesadas luvas. Taber entrega o contador Geiger ao colega.

— Marty, tem certeza de que não quer que eu desça com você?

— Eu dou conta.

O co-piloto se aproxima, ajudando Brandt e Martinez a vestirem os arreios ligados por cabos a dois guinchos hidráulicos.

— Cavalheiros, há um intercomunicador nos seus capacetes. Vocês poderão se comunicar conosco e um com o outro. Vamos ter que soltar vocês quando tocarem no chão. — Ele abre a porta do compartimento de carga, gritando por cima do barulho ensurdecedor das hélices: — Certo, rapazes, pra fora.

Os cinco embaixadores se aproximam para olhar. Martinez sente o coração pular na garganta quando atravessa a porta e fica pendurado a 47 metros do chão. Ele fecha os olhos, sentindo-se girar enquanto desce.

— Tudo bem aí, doutor?

— Sim, sr. Brandt. — Ele abre os olhos e verifica o contador Geiger. — Nenhuma radiação até agora. Muito calor.

— Não se preocupe, os trajes devem nos proteger.

— Devem? — Martinez olha para baixo. Baforadas de fumaça branca sobem até ele, embaçando sua viseira. Mais 3 metros...

— Esperem! Parem! Parem! — Martinez ergue os joelhos até o peito, lutando para se afastar da superfície derretida abaixo dele. — Levantem a gente! Mais alto! Mais alto!

Os dois homens param de descer e ficam pendurados a centímetros do solo branco, leitoso, fervilhando a 340 graus.

— Nos levantem 6 metros — grita Brandt. O guincho os levanta.

— Qual é o problema? — A voz de Barbara penetra em seus tímpanos.

— A superfície está fervendo, é um caldeirão de rocha derretida e água do mar — diz Martinez, com voz aguda e nervosa. — Faremos nossos testes daqui. Só vai levar um minuto.

A voz grave de Taber o sobressalta.

— Alguma radiação?

Martinez verifica os sensores.

— Não. Peraí, estou detectando argônio-4l.

Brandt olha.

— Não é um subproduto do plutônio?

— Não, é um produto de vida curta da ativação da fusão pura. O que vaporizou esta paisagem devia ser alguma espécie de arma híbrida de fusão pura. — Martinez prende o contador Geiger no cinto, depois analisa os gases que sobem do solo. — Uau. O nível de dióxido de carbono está fora da escala.

— É compreensível — diz Brandt. — Toda esta planície era feita de calcário, que é um depósito natural de dióxido de carbono. Quando o solo foi vaporizado, liberou uma nuvem tóxica de CO2. Na verdade, tivemos sorte, os ventos do sul a sopraram pro mar, pra longe das nossas cidades.

— Também estou detectando altos níveis de ácido clorídrico.

— É mesmo? Isso é esquisito.

— Sim, sr. Brandt, tudo isso é esquisito e bastante assustador. Puxem a gente pra cima, já vi tudo o que eu precisava ver.
Aeroporto de Mérida

México
O helicóptero pousa com um tranco assustador.

Mick abre os olhos, respirando profundamente para espantar o sono de seu corpo. Ele levanta a cabeça para fora do saco aberto e olha ao redor.

Sessenta e quatro sacos verde-oliva de cadáveres, contendo os restos da tripulação da Scylla, ocupam o interior. Mick ouve o barulho das portas deslizantes. Ele se deita e fecha o zíper do saco.

As portas se abrem. Mick reconhece a voz do piloto.

— Vou estar no hangar. Peça aos seus homens que tomem bastante cuidado, compreende, amigo?

O homem responde num espanhol rápido. Homens começam a transportar os sacos. Mick fica totalmente imóvel.

Vários minutos se passam. Ele ouve o motor de um caminhão partir e sumir a distância.

Ele abre o zíper do saco e olha pelo vão da porta, avistando o veículo indo para um hangar aberto.

Mick sai do saco, salta do helicóptero e corre até o terminal principal.

Diário de Julius Gabriel
Foi no outono de 1977 que Maria e eu voltamos para a J. Mesoamérica, minha esposa agora grávida de seis meses. Precisando desesperadamente de financiamento, decidimos submeter nosso trabalho a Cambridge e Harvard, tomando o cuidado de omitir quaisquer informações relativas à presença de uma raça de humanóides alienígenas. Impressionados com nossa pesquisa, os poderes acadêmicos nos recompensaram com bolsas de pesquisa para que continuássemos nosso trabalho.

Depois de comprar um trailer usado, saímos para explorar as ruínas maias, esperando identificar a pirâmide mesoamericana que o artista de Nazca desenhara no deserto do pampa, bem como uma maneira de salvar a humanidade da destruição profetizada.

Apesar da morbidez da nossa missão, os anos que passamos no México foram felizes. Nosso momento favorito foi o nascimento do nosso filho, Michael, no alvorecer da manhã de Natal, na sala de espera de uma pequena clínica médica em Mérida.

Devo admitir que me preocupava bastante criar um filho em condições tão duras, por temer que o isolamento de Michael das outras crianças da sua idade pudesse impedir o desenvolvimento social do menino. À certo ponto, até sugeri a minha esposa que o enviássemos a um internato particular quando ele completasse 5 anos. Maria não quis nem saber. No final, capitulei aos seus desejos, percebendo que ela precisava da companhia do menino tanto quanto ele precisava da dela.

Maria era mais do que a mãe de Michael, era sua mentora, guia e melhor amiga — e ele, seu aluno prodígio. Até na mais tenra idade, era fácil perceber que o menino possuía a mente perspicaz da mãe, como acompanhamento daqueles olhos negros de ébano e seu olhar desarmante.

Durante sete anos, nossa família vasculhou as densas selvas hoje existentes no México, Belize, Guatemala, Honduras e El Salvador. Enquanto outros pais ensinavam os filhos a jogar beisebol, eu ensinava meu filho a escavar artefatos. Enquanto outros alunos aprendiam um idioma estrangeiro, Michael aprendia a traduzir hieróglifos maias. Juntos, nós três escalamos os templos de Uxmal, Palenque e Tikal, exploramos as fortificações de Labna, Churihuhu e Kewik, e nos maravilhamos com o castelo de Tulum. Investigamos a capital zapoteca de Monte Alban e os centros religiosos em Kaminaljuyu e Copán. Rastejamos através de tumbas e mergulhamos em cavernas subterrâneas. Descobrimos plataformas antigas e entrevistamos anciãos maias. E no final, reduzimos a identidade da pirâmide do desenho de Nazca a um entre dois sítios antigos, ambos, nós acreditávamos, peças do quebra-cabeça da profecia do calendário maia.

O primeiro sítio era Teotihuacán, uma magnífica cidade tolteca situada sobre um platô a 2 mil metros de altura nas montanhas mexicanas, uns 48 quilômetros a nordeste da atual Cidade do México. Supostamente fundada na época de Cristo, Teotihuacán foi a primeira grande metrópole do hemisfério ocidental, e acredita-se que tenha sido uma das maiores.

Como as estruturas de Gizé, as origens de Teotihuacán continuam sendo um mistério. Não fazemos idéia de qual cultura projetou a cidade, como a façanha foi realizada, ou mesmo que língua era falada por seus habitantes originais. Como no caso da Esfinge e das pirâmides de Gizé, a data da construção de Teotihuacán ainda é muito debatida. Até o nome do complexo e de suas pirâmides nos chegaram da civilização tolteca, que se mudou para lá séculos depois que a cidade foi abandonada.

Estima-se que o trabalho de construir as estruturas de Teotihuacán tenha ocupado um exército de 20 mil homens durante mais de quarenta anos. No entanto, não foi o mistério de como a cidade foi construída que de cara nos chamou a atenção, mas seu projeto e as óbvias semelhanças com a planta de Gizé.

Conforme já falei, há três pirâmides principais em Gizé, dispostas em referência às estrelas do Cinturão de Órion, com o Nilo representando uma reflexão da fenda escura da Via Láctea. Teotihuacán também tem três pirâmides, dispostas numa formação alternada surpreendentemente semelhante, embora a orientação difira em quase 180 graus. Ligando uma ponta da cidade à outra está a avenida dos Mortos, a principal rota de acesso através do complexo. A avenida, como o rio Nilo em Gizé, fora projetada para representar a fenda escura da Via Láctea.

Para os indígenas mesoamericanos da antiguidade, a fenda escura era conhecida como Xibalba Be, a Estrada Negra que leva até Xibalba, o Mundo Inferior. Novas escavações em Teotihuacán descobriram largos canais sob essa estrada, que, agora sabemos, foram projetados para coletar água da chuva. Isso indicaria que a avenida dos Mortos talvez nunca tenha sido uma estrada, e sim um magnífico espelho d'água cósmico.

As similaridades entre Gizé e Teotihuacán não param aí. O maior dos três templos da cidade mesoamericana é chamado de Pirâmide do Sol, uma estrutura precisa de quatro lados cuja base, com 226,3 metros, é apenas 3,8 metros mais curta que sua equivalente egípcia, a Grande Pirâmide de Gizé. Isso faz da Pirâmide do Sol a maior estrutura construída pelo homem do hemisfério ocidental, sendo a Grande Pirâmide a maior do Oriente. O interessante é que a Pirâmide do Sol aponta para o oeste, e a Grande Pirâmide, para o leste, um fato que fazia Maria pensar nessas duas imensas estruturas como gigantescos terminais planetários.

Medições precisas da Grande Pirâmide e da Pirâmide do Sol indicam claramente que os antigos arquitetos das duas estruturas possuíam amplo conhecimento de Matemática avançada, Geometria e do valor de pi. O perímetro da Pirâmide do Sol é igual à sua altura multiplicada por 2 pi e a Grande Pirâmide tem o dobro de sua altura, 4 pi.

Uma pista sobre quem projetou Teotihuacán pode ser encontrada na menor das três estruturas, a Pirâmide de Quetzalcoatl. O templo está localizado num enorme quadrilátero murado, chamado de Ciudadela (Cidadela), uma praça grande o suficiente para acomodar 100 mil pessoas. A estrutura mais elaboradamente adereçada de toda Teotihuacán, a Pirâmide de Quetzalcoatl contém uma miríade de esculturas e fachadas tridimensionais que representam uma personagem em particular — uma ameaçadora serpente emplumada.

Para os toltecas e astecas, a serpente emplumada simbolizava o grande sábio caucasiano, Quetzalcoatl.

Mais uma vez, a presença de um misterioso mestre barbado parecia dirigir nossa jornada ao passado.

Depois de abandonar Teotihuacán, os toltecas e seu líder migraram para o leste, assentando-se na cidade maia de Chichén Itzá. Foi ali que as duas culturas se fundiram novamente numa só, criando a estrutura mais magnífica e intrigante de todo o mundo antigo — a pirâmide de Kukulcán.

Eu não sabia disso na época, mas seria em Chichén Itzá que ficaríamos cara a cara com uma descoberta que não mudaria apenas o destino da minha família, mas nos condenaria a permanecer em nossa jornada para sempre.

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,
Ref. Catálogo 1977-81 páginas 12-349

Diário Fotográfico, Disquete 5: Nome do arquivo: MESO, Foto de Balão 176



19
4 DE DEZEMBRO DE 2012

A BORDO DA USS BOONE

GOLFO DO MÉXICO
O secretário de Estado Pierre Borgia desce do helicóptero e é recebido pelo capitão Edmund Loos.

— Bom dia, secretário. Como foi o vôo?

— Uma droga. O diretor psiquiátrico de Miami já chegou?

— Há uns vinte minutos. Está à sua espera na minha sala de reuniões.

— Quais as últimas notícias sobre o Gabriel?

— Ainda não sabemos ao certo como ele conseguiu fugir da cela. A fechadura mostra sinais de manipulação, mas nada significativo. Nossa melhor hipótese é que alguém o tenha libertado.

— Foi a garota?

— Não, senhor. Ela sofreu uma concussão e estava na enfermaria, inconsciente. Ainda estamos investigando.

— E como ele conseguiu sair do navio?

— Provavelmente pegou carona num helicóptero da EVAC. Eles transportaram corpos o dia todo.

Borgia olha com frieza para o capitão.

— Espero que não comande seu navio como vigia seus prisioneiros, capitão.

Loos devolve o olhar.

— Isto não é um serviço de babás, secretário. Duvido que um de meus homens se arriscasse a apodrecer na cadeia pra libertar o seu biruta.

— Quem mais poderia tê-lo libertado?

— Não sei. Temos equipes de cientistas a bordo, e mais chegando todo dia. Poderia ter sido um deles, ou até alguém da equipe do vice-presidente.

Borgia ergue as sobrancelhas.

— Como falei, ainda estamos investigando. Também alertamos a polícia mexicana sobre a fuga.

— Nunca vão encontrá-lo. O Gabriel tem amigos demais em Yucatán. E a garota? O que ela sabe sobre o objeto alienígena?

— Ela diz que só se lembra do minissubmarino sendo sugado por um túnel. Um dos nossos geólogos a convenceu de que a embarcação foi apanhada pela corrente de um canal de lava, criado por um vulcão subterrâneo dormente que está voltando à atividade. — Loos sorri. — Ele explicou que o brilho é causado por um rio de lava subterrâneo que pode ser visto fluindo pelo abismo no fundo do mar. Até mostrou a ela algumas fotos infravermelhas de satélite do redemoinho, todas falsas, dizendo que o vórtice foi causado pelo desabamento de bolsões subterrâneos sob o leito do oceano. Ela acredita que foi isso que afundou o barco do pai, matando ele e os dois amigos.

— Onde ela está agora?

— Na enfermaria.

— Me dê alguns minutos pra falar com o diretor psiquiátrico a sós, depois traga a garota. Enquanto falamos com ela, mande costurar isto na roupa dela. — Ele entrega a Loos um pequeno aparelho do tamanho de uma bateria de relógio.

— Um rastreador?

— Um presentinho da Agência de Segurança Nacional. Ah, capitão, quando trouxer a garota pra falar comigo, coloque algemas.
Dois marinheiros armados conduzem uma Dominique Vazquez algemada e nervosa por vários corredores estreitos, depois sobem três lances de escada até uma cabine com o escrito SALA DE REUNIÕES DO CAPITÃO. Um dos guardas bate na porta, depois abre e a leva para dentro.

Dominique entra na pequena sala de conferências.

— Meu Deus...

Anthony Foletta ergue os olhos da mesa e sorri.

— Residente Vazquez, entre. — A voz rouca tem um tom paternal. — Secretário, as algemas são mesmo necessárias?

O caolho fecha a porta atrás dela, depois toma o seu lugar à mesa, diante de Foletta.

— Temo que sim, dr. Foletta. A srta. Vazquez ajudou um condenado perigoso.

Ele olha para Dominique e pede que ela se sente.

— Sabe quem eu sou?

— Pierre Borgia. Eu... achei que o senhor vinha para cá três dias atrás.

— Bem, tivemos um probleminha na Austrália que exigiu nossa atenção.

— Está aqui pra me prender?

— Isso depende totalmente da senhorita.

— Não é você que queremos, Dominique — diz Foletta. — É o Mick. Você sabe onde ele está, não sabe?

— Como eu iria saber? Ele fugiu enquanto eu estava inconsciente.

— Ela é bonita, não acha, doutor? — O olhar de Borgia faz suor brotar do lábio superior de Dominique. — Não admira que o Mick tenha se encantado. Me diga, srta. Vazquez, o que a motivou a ajudá-lo a fugir do hospital?

Foletta interrompe antes que ela possa responder.

— Ela estava confusa, secretário. O senhor sabe o quanto o Gabriel é esperto. Ele usou o trauma de infância da Dominique para coagi-la a ajudá-lo.

— Isso não é totalmente verdade — diz ela, achando difícil não fitar o tapa-olho permanente de Borgia. — O Mick sabia que havia algo no Golfo. E sabia sobre a transmissão vinda do espaço...

Foletta põe a mão suada no antebraço dela.

— Residente, você precisa encarar a realidade. O Mick Gabriel te usou. Estava planejando fugir desde o momento em que te conheceu.

— Não, não acredito nisso...

— Talvez apenas não queira acreditar — diz Borgia. — A verdade é que o seu pai ainda estaria vivo se o Mick não tivesse te coagido a ajudá-lo.

Os olhos de Dominique se enchem de lágrimas.

Borgia retira uma ficha de sua pasta e a examina por um momento.

— Isadore Axler, biólogo, residente na ilha de Sanibel. Tem uma lista de credenciais bem extensa. Não era seu pai biológico, certo?

— Era o único pai que conheci na vida.

Borgia continua examinando a ficha.

— Ah, aqui está. Edith Axler. Sabia que eu a conheci? Uma boa mulher.

Dominique sente calafrios sob o agasalho da Marinha.

— O senhor falou com a Edie?

— Só o suficiente para dar a ela voz de prisão.

As palavras a fazem pular de pé.

— Edie não tomou parte na fuga do Mick! Fui só eu. Eu planejei tudo...

— Não estou interessado numa confissão, srta. Vazquez. O que eu quero é o Michael Gabriel. Se eu não puder pegá-lo, vou simplesmente trancafiar vocês duas por muito tempo. Naturalmente, no caso da Edith, não vai ser tanto tempo assim. Ela já está em idade avançada, e a morte do marido, obviamente, teve um impacto.

O coração de Dominique dispara.

— Já falei, não sei onde ele está.

— Se a senhorita diz. — Borgia se levanta e vai até a porta.


— Espere, me deixe falar com ela — diz Foletta. — Me dê cinco minutos.

Borgia olha para o relógio.

— Cinco minutos. — Ele sai da cabine.

Dominique apóia a cabeça na mesa, suas entranhas tremendo, suas lágrimas formando uma poça sobre o tampo de aço.

— Por que tudo isso está acontecendo?

— Shh. — Foletta afaga-lhe o cabelo, sua voz um sussurro calmante. — Dominique, o Borgia não quer prender você e a sua mãe. Ele só está com medo.

Ela levanta a cabeça.

— Medo de quê?

— Do Mick. Ele sabe que o Mick quer se vingar, que nada o impedirá de matá-lo.

— O Mick não faria isso...

— Você está enganada. O Borgia o conhece melhor do que você ou eu. A história deles é bem antiga. Sabia que o Borgia foi noivo da mãe do Mick? O Julius Gabriel roubou a noiva dele na véspera do casamento. Existe muito ressentimento entre as famílias.

— O Mick não se importa com vingança. Está mais preocupado com essa profecia maia.

— O Mick é esperto. Não vai contar a você nem a ninguém seu verdadeiro motivo. Eu acho que ele está escondido em Yucatán. Sua família tinha muitos amigos lá que podem ajudá-lo. Vai ficar na moita por uns tempos e depois vai pegar o Borgia, provavelmente em alguma aparição pública. Pense nisso, Dominique, você acha mesmo que o secretário de Estado dos Estados Unidos viria até aqui te ver se não estivesse apavorado? Daqui a alguns anos, ele vai concorrer à presidência. A última coisa com que vai querer se preocupar é um paranóico-esquizofrênico com QI 160 planejando o seu assassinato.

Dominique enxuga os olhos. Será que é verdade? Será que o Mick realmente usou a pesquisa da família pra me enganar?

— Suponhamos que eu acredite no senhor. O que acha que devo fazer?

Os olhos de Foletta piscam para ela.

— Me deixe te ajudar a entrar num acordo com o Borgia. Imunidade total pra você e sua mãe se você levar as autoridades até o Mick.

— A última vez que fizemos um acordo, o senhor mentiu. Nunca teve nenhuma intenção de reavaliar o Mick ou dar a ele o tratamento necessário. Por que eu deveria acreditar agora?

— Eu não menti! — Ele fica de pé, gritando as palavras. — Eu ainda não tinha sido oficialmente nomeado pro emprego em Tampa, e quem diz o contrário é um mentiroso descarado! — Ele enxuga o suor da testa, depois alisa o cabelo grisalho, seu rosto rechonchudo e rubro. — Dominique, estou aqui pra te ajudar. Se não quiser minha ajuda, sugiro que arranje um bom advogado.

— Eu quero sua ajuda, doutor, só não sei se posso confiar no senhor.

— A imunidade será providenciada pelo Borgia, não por mim. O que estou oferecendo é sua vida como ela era.

— O que está dizendo?

— Já falei com sua orientadora na universidade. Estou te oferecendo um cargo de residente no novo hospital em Tampa, perto da casa da sua mãe. Seu trabalho será chefiar a equipe de terapia do Mick, com um cargo permanente e benefícios integrais depois que você se formar.

A oferta traz lágrimas de alívio.

— Por que está fazendo isso?

— Porque me sinto culpado. Eu jamais devia ter indicado o Mick como seu paciente. Você vai ser uma excelente psiquiatra um dia, mas não estava preparada pra lidar com um paciente tão manipulador como o Michael Gabriel. A morte do seu pai, as atribulações que sua família está passando. Tudo isso é culpa minha. Eu sabia do perigo, mas resolvi arriscar. Vi em você uma mulher forte que seria perfeita pra minha equipe, mas precipitei o seu desenvolvimento. Me desculpe, Dominique. Me dê a chance de compensar você.

Ele estende a mão roliça.

Dominique olha para ela por um longo momento, depois a aperta.


6 DE DEZEMBRO DE 2012

WASHINGTON, DC
O vice-presidente Ennis Chaney ergue os olhos do relatório, acompanhando a entrada dos membros do gabinete de Segurança Nacional do presidente na sala de guerra da Casa Branca. Eles se sentam ao redor da mesa oval de conferências. Meia dúzia de assessores militares e científicos entram em seguida, ocupando as cadeiras dobráveis extras dispostas ao redor da sala.

Ennis fecha o documento quando o presidente entra, com o secretário de Estado atrás dele. Borgia passa por seu lugar à mesa e se dirige a Chaney.

— Você e eu precisamos conversar.

— Secretário, podemos começar?

— Sim, presidente. — Borgia acha o seu lugar, lançando um olhar perturbado para Chaney.

O presidente Maller esfrega os olhos injetados, depois lê um fax.

— Hoje à tarde, o Conselho de Segurança das Nações Unidas vai emitir um comunicado condenando o teste de armas de fusão pura como contrário à moratória de fato nos testes de armas nucleares e aos esforços globais de não proliferação e desarmamento nuclear. Além disso, o Conselho vai procurar a ratificação imediata de uma nova resolução para invalidar a chicana da tecnologia de fusão pura.

Maller mostra um relatório com o carimbo UMBRA, um código usado para classificar arquivos acima de TOP SECRET.

— Presumo que todos tenham examinado este documento. Pedi que seu autor, o dr. Brae Roodhof, diretor do Laboratório Nacional de Ignição em Livermore, Califórnia, estivesse conosco nesta manhã, pois tenho certeza de que todos nós queremos respostas às nossas perguntas. Doutor?

O dr. Roodhof tem 50 e poucos anos, é alto, grisalho e tem um rosto bronzeado, enrugado e apaziguador.

— Presidente, senhoras e senhores, quero começar declarando enfaticamente que não foram os Estados Unidos que detonaram essa arma de fusão pura.

As entranhas de Ennis Chaney estão reviradas desde que ele terminou de ler o arquivo UMBRA. Seus olhos lançam chispas quando ele fita o físico nuclear.

— Doutor, vou lhe fazer uma pergunta, mas quero que saiba que ela é dirigida a todas as pessoas nesta sala. — O tom do vice-presidente silencia todos os movimentos ao redor. — O que eu quero saber é por que, doutor. Por que os Estados Unidos da América estão conduzindo essa porcaria de pesquisa suicida?

Os olhos do dr. Roodhof correm pela mesa.

— Senhor, eu... sou só o diretor do projeto. Não é minha função determinar a política do país. Foi o governo federal que patrocinou a pesquisa de fusão pura nos laboratórios de armas nucleares na década de 1990, e foram os militares que pressionaram para que as bombas fossem projetadas e construídas...

— Não reduzamos essa questão a uma mera imputação de culpa, vice-presidente — interrompe o general Fecondo. — A realidade da situação é que outras potências estavam pesquisando a tecnologia, e isso nos obrigou a fazer o mesmo. O LMJ, o complexo Laser Megajoule em Bordeaux, na França, faz experimentos com fusão pura desde o início de 1998. Os britânicos e os japoneses têm trabalhado com fusão magnética não explosiva há anos. Qualquer um desses países poderia fechar as lacunas de viabilidade para criar dispositivos termonucleares de não fissão.

Chaney se vira para encarar o general.

— Então por que o resto do mundo, incluindo cientistas do nosso país, parece pensar que somos os responsáveis pela detonação na Austrália?

— Porque todos na comunidade científica acreditavam que nossa pesquisa era a mais avançada — responde o dr. Roodhof. — O Instituto de Pesquisas de Energia e Meio Ambiente publicou recentemente um relatório declarando que os Estados Unidos estavam a dois anos de testar um dispositivo de fusão pura.

— E estavam certos?

— Ennis...

— Não, me desculpe, presidente, mas eu quero saber.

— Vice-presidente, agora não é hora...

Chaney ignora Maller, seus olhos penetram nos de Roodhof.

— Quão perto estamos, doutor? Roodhof desvia o olhar.

— Catorze meses.

A sala irrompe numa dúzia de conversas paralelas. Borgia sorri ao ver a expressão do presidente se transformar em raiva. Isso mesmo, Chaney, continue jogando merda no ventilador.

Ennis Chaney cai sobre a cadeira, exausto. Ele não está mais combatendo moinhos de vento, está enfrentando a loucura globalizada.

O presidente Maller bate com a palma da mão na mesa, restabelecendo a ordem.

— Já chega! Sr. Chaney, agora não é a hora nem o lugar para entrarmos num debate aberto sobre as políticas deste governo ou dos anteriores. A realidade da situação é que outro governo detonou uma dessas armas. Quero saber quem foi e se a escolha da data teve algo a ver com a escalada militar iraniana no estreito de Hormuz.

O diretor da CIA, Patrick Hurley, é o primeiro a responder.

— Senhor, podem ter sido os russos. Os estudos de fusão magnetizada conduzidos em Los Alamos foram realizados em cooperação com a Rússia.

O dr. Roodhof balança a cabeça.

— Eu discordo. Os russos abandonaram os estudos quando a economia deles entrou em colapso. Só podem ter sido os franceses.

O general Mike Costolo, comandante dos Fuzileiros Navais, ergue uma mão roliça.

— Dr. Roodhof, pelo que li, essas armas de fusão pura liberam muito pouca radiação, correto?

— Sim, senhor.

— O que quer dizer, general? — pergunta Dick Przystas. Costolo se vira para o secretário de Defesa.

— Um dos motivos de o Departamento de Defesa ter pressionado para que essas armas fossem desenvolvidas, no início, foi termos descoberto que a Rússia e a China estavam fornecendo armas nucleares ao Irã. Se uma guerra nuclear eclodisse no Golfo Pérsico, a fusão pura não só daria ao seu possuidor uma vantagem tática, mas a falta de radiação permitiria que a produção de petróleo continuasse. Na minha opinião, não importa se os franceses ou os russos atingiram a tecnologia primeiro. A única coisa que importa é saber se os iranianos possuem a arma. Nesse caso, só a ameaça já mudaria o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Se o Irã detonasse uma dessas armas no Golfo Pérsico, a Arábia Saudita, o Kuwait, o Bahrein, o Egito e outros regimes árabes moderados se veriam obrigados a recusar o apoio do Ocidente.

Borgia balança a cabeça, concordando.

— Os sauditas ainda hesitam em permitir nosso acesso aos suprimentos que preparamos. Eles perderam a confiança na nossa capacidade de manter o estreito de Hormuz aberto.

— Onde estão os porta-aviões? — O presidente pergunta a Jeffrey Gordon.

— Em preparação para os iminentes exercícios nucleares na Ásia, mandamos o Harry S. Truman e sua frota para o Mar Vermelho. O grupo de batalha do Ronald Reagan deve chegar ao Golfo de Omã daqui a três dias. O William J. Clinton vai permanecer em patrulha no oceano Indico. Estamos mandando uma mensagem para o Irã, clara e simples, de que não temos intenção de permitir que o estreito de Hormuz seja fechado.

— Só para constar, presidente — declara Chaney —, o embaixador francês nega veementemente qualquer responsabilidade nessa explosão.

— O que você esperava? — Borgia reage. — Não enxergue só as negativas. O Irã ainda deve bilhões de dólares à França, mas os franceses continuam apoiando os iranianos, como fazem a Rússia e a China. Também quero salientar que a Austrália é um dos países que continuou a dar ao Irã taxas de juros subsidiadas, que eles usaram para aumentar seu arsenal nuclear, químico e biológico. Você acha mesmo que é só uma coincidência a arma ter sido testada na região de Nullarbor?

— Não se precipite culpando os australianos — Sam Blumner intervém.

— Lembre-se de que foram os créditos maciços dos Estados Unidos ao Iraque no final dos anos 1980 que levaram Saddam Hussein a invadir o Kuwait.

— Concordo com o Sam — diz o presidente. — Conversei bastante com o premier da Austrália. Os partidos Liberal e Trabalhista se uniram para declarar que o incidente foi um ato de guerra. Duvido que eles teriam permitido esse teste.

O general Fecondo esfrega as palmas das mãos na careca bronzeada.

— Presidente, o fato de essas armas de fusão pura existirem não muda nada. Testar uma arma e usá-la em combate são duas coisas distintas. Nenhuma nação vai desafiar os Estados Unidos para um confronto nuclear.

Costolo olha para o chefe do Estado-Maior.

— Me diga, general, se tivéssemos um míssil de cruzeiro capaz de dizimar todas as plataformas de mísseis terra-ar da costa iraniana, o senhor o usaria?

Dick Przystas ergue as sobrancelhas.

— Uma idéia tentadora, não é? Eu me pergunto se os iranianos ficarão menos tentados a desintegrar o Ronald Reagan e sua frota.

— Vou dizer o que eu penso — diz o ossudo chefe de Operações Navais.

— Interpreto essa ação como uma salva de alerta. Os russos estão nos infor¬mando que possuem armas de fusão pura, esperando que sua demonstraçãozinha nos convença a cancelar o Escudo Antimíssil.

— Que é algo que não podemos fazer — declara Przystas. — O número de nações renegadas com acesso a armas nucleares e biológicas dobrou nos últimos cinco anos...

— Enquanto nós continuamos gastando mais e mais dinheiro na tecnologia de armas nucleares — interrompe Chaney —, mandando uma mensagem inequívoca ao resto do mundo de que os Estados Unidos estão mais interessados em manter a postura do ataque nuclear preventivo do que em continuar a redução das armas, o mundo segue avançando pelo caminho do confronto nuclear. Eles sabem, nós sabemos, mas estamos todos ocupados demais culpando uns aos outros para mudarmos nosso rumo. Estamos todos agindo como se tivéssemos bosta na cabeça, e antes de nos darmos conta do que aconteceu, vamos todos meter os pés na merda.

Borgia está à espera de Ennis Chaney no corredor quando a reunião é encerrada.

— Preciso de um minuto.

— Diga.

— Falei com o capitão da Boone.



— E então?

— Me diga, Chaney, por que o vice-presidente dos Estado Unidos ajudaria um criminoso fugitivo?

— Não sei do que você está falando...

— É o tipo de coisa que pode arruinar uma carreira política. Os olhos de guaxinim penetram em Borgia.

— Quer me acusar de alguma coisa? Vá em frente. Aliás, por que nós dois não lavamos toda a nossa roupa suja pra ver qual sai mais limpa?

Borgia abre um sorrisinho nervoso.

— Calma, Ennis. Ninguém está pedindo um processo judicial. Eu só quero o Gabriel de volta ao lugar dele, sob os cuidados de um hospital psiquiátrico.

Chaney passa pelo secretário de Estado, sufocando uma risada.

— Tudo bem, Pierre, vou ficar de olho pra ver se o encontro.
7 DE DEZEMBRO DE 2012

GOLFO DO MÉXICO
4h27
O toque incessante interrompe o sono de Edmund Loos. Ele procura o telefone e limpa a garganta.

— Capitão falando. Prossiga.

— Lamento acordá-lo, senhor. Detectamos atividade no leito do oceano.

— Estou a caminho.


O mar começou a se agitar quando o capitão entra no Centro de Informação de Combate.

— Relatório, comandante.

O oficial executivo aponta para uma mesa de luz, onde uma holografia cúbica tridimensional do mar e do fundo do mar em tempo real está sendo projetada no ar. Posicionado na parte de baixo da imagem fantasmagórica, enterrado dentro da topografia calcária estriada está o objeto alienígena ovóide, marcado com uma cor laranja brilhante. Um círculo de energia verde-esme¬ralda brilha acima da superfície dorsal do ovóide, fazendo uma coluna de luz subir através de um túnel vertical que leva até o fundo do mar. A imagem da Boone pode ser vista flutuando na superfície.

Enquanto o capitão e seu oficial executivo observam, intrigados, o raio verde parece se alargar à medida que um turbilhão se forma. Em segundos, o fluxo rodopiante de água se estreita num poderoso funil submarino, subindo do buraco no leito até a superfície da água.

— Meu Deus, é como ver um tornado se formando — murmura Loos. -— É exatamente como o Gabriel falou.

— Perdão, senhor?

— Nada. Comandante, nos mantenha longe do redemoinho. Peça comunicação com o NORAD e mande os LAMPS decolarem. Se alguma coisa sair desse redemoinho, quero ficar sabendo.

— Sim, senhor.


O primeiro-tenente Johnathan Evans corre pelo deque traseiro, de capacete na mão, seu co-piloto e tripulação já a bordo do helicóptero antissubmarino LAMPS. Bufando, ele sobe até o cockpit do Seasprite e afivela os cintos de segurança.

Evans olha para o co-piloto enquanto luta para recuperar o fôlego.

— O maldito cigarro ainda vai me matar.

— Quer café?

— Deus te abençoe, meu filho. — Evans pega o copinho de isopor. — Há três minutos eu estava deitado no meu beliche, sonhando com a Michelle, e quando dou por mim, o segundo em comando está gritando comigo, perguntando por que ainda não estou no ar.

— Bem-vindo à aventura da Marinha.

Evans puxa o manche. O helicóptero se ergue do heliporto, virando para o sul enquanto sobe para 90 metros. O piloto posiciona o LAMPS diretamente sobre o mar esmeralda e rodopiante.

— Puta merda... — Evans e sua tripulação olham para o redemoinho em expansão, hipnotizados por sua beleza, apavorados com sua intensidade. O vórtice é um monstro, um funil espiralado digno da Odisséia de Homero, suas paredes ondulando com a força das cataratas do Niágara. Olhando para baixo, com as águas escuras ao seu redor, o olho esmeralda e brilhante do redemoinho parece uma galáxia verde luminescente; seu aglomerado de estrelas fica mais brilhante à medida que a boca do funil se escancara.

— Meu Deus. Eu queria ter minha câmera.

— Não se preocupe, tenente, estamos tirando uma porção de fotos aqui.

— E eu lá quero saber de infravermelho? Quero uma foto de verdade, algo que eu possa mandar por e-mail pra casa.

Enquanto Evans olha, o centro do redemoinho se abre de repente, expondo uma esfera de luz cegante que dispara para cima como um sol esmeralda, saindo do leito rachado.

— Protejam os olhos...

— Tenente, dois objetos estão saindo do funil!

— Quê? — Evans vira para o operador de radar. — Que tamanho?

— Grandes. Duas vezes o tamanho do LAMPS.

O piloto puxa o manche quando dois objetos escuros e alados flutuam para fora do funil. Os mecanismos sem rosto passam dos dois lados do Seasprite. O tenente vislumbra rapidamente um disco âmbar brilhante, e o manche fica mole em sua mão.

— Merda, perdemos velocidade...

— Motores inoperantes, tenente. Tudo parado!

Evans tem uma sensação nauseante quando a aeronave despenca do céu. O helicóptero bate na parede do redemoinho com um tranco violento. As hélices se despedaçam, o pára-brisa do cockpit se parte e o helicóptero é jogado na coluna vertical de água como se estivesse num liquidificador. A força centrífuga prega Evans de lado contra o assento, seus gritos são abafados pelo rugido ensurdecedor que enche seus ouvidos.

O mundo gira fora de controle quando o funil engole o LAMPS.

A última coisa que o tenente Johnathan Evans sente é a estranha sensação de suas vértebras se partindo no abraço sufocante, como se seu corpo estivesse sendo esmagado num compactador de lixo gigante.


8 DE DEZEMBRO DE 2012

PARQUE NACIONAL DE CUNUNG MULU

SARAWAK, FEDERAÇÃO DA MALÁSIA
5h32, HORA DA MALÁSIA (13 HORAS DEPOIS)

Sarawak, situado na costa noroeste de Bornéu, é o maior estado da Federação da Malásia. Gunung Mulu, o maior parque nacional do Estado, tem 880 quilômetros quadrados de área e sua paisagem é dominada por três montanhas: Gunung Mulu, Gunung Benarat e Gunung Api.

Gunung Api é uma montanha formada por calcário, um mineral que não só domina todo o estado de Sarawak, mas também a ilha vizinha de Irian Jaya/ Papua-Nova Guiné, e quase todo o sul da Malásia. O desgaste dessa paisagem calcária pela chuva levemente ácida formou notáveis esculturas na superfície e formações subterrâneas.

À meio caminho na encosta do monte Api, apontando para o céu como um campo de estalagmites fragmentadas, está uma floresta petrificada de afiadas agulhas de calcário cinza-prateado, algumas das quais se erguem mais de 45 metros acima da floresta tropical. Sob o solo, cavado na rocha calcária por rios subterrâneos, fica um labirinto contendo mais de 640 quilômetros de cavernas, representando o maior sistema de cavernas calcárias do mundo.


O estudante Wade Tokumine, de Honolulu, está estudando as cavernas de Sarawak há três meses, coletando dados relativos à estabilidade dos blocos subterrâneos de carste do mundo para a sua tese de mestrado. O carste é um relevo criado pelo desgaste químico de rocha calcária contendo no mínimo 80% de carbonato de cálcio. A rede de passagens subterrâneas de Sarawak é formada inteiramente por carste.

A viagem de hoje marca a nona visita de Wade à caverna da Água Clara, a mais longa passagem subterrânea de todo o sudeste da Ásia e uma das quatro cavernas Mula abertas ao público. O geólogo se inclina para trás na canoa, apontando a lanterna química para o teto de alabastro da caverna. O facho de luz corta a escuridão, revelando uma miríade de estalactites pingando umidade. Wade admira as formações antigas da rocha, maravilhando-se com os desígnios da natureza.


Há 4 bilhões de anos, a Terra era um mundo muito jovem, hostil e sem vida. A medida que o planeta esfriava, vapor d'água e outros gases eram lançados para o céu em violentas erupções vulcânicas, criando uma atmosfera rica em dióxido de carbono, nitrogênio e compostos de hidrogênio, condições similares àquelas encontradas em Vênus.

A vida no nosso planeta começou na sopa química do mar, organizando-se em estruturas complexas — quatro moléculas de aminoácidos básicos em cadeia — animadas por um catalisador externo, talvez um relâmpago. As duplas hélices animadas de aminoácidos começaram a se reproduzir, levando à vida monocelular. Esses organismos rapidamente aumentaram em abundância e começaram a esgotar os compostos de carbono do oceano, facilmente utilizáveis como alimento. Então, uma família peculiar de bactérias evoluiu para produzir uma nova molécula orgânica chamada clorofila. Essa substância de cor verde era capaz de armazenar a energia da luz do sol, permitindo que os organismos monocelulares criassem carboidratos de alta qualidade a partir do dióxido de carbono e hidrogênio, liberando oxigênio como subproduto. Nascia a fotossíntese.

À medida que os níveis planetários de oxigênio aumentavam, o carbonato de cálcio era retirado do mar e preso a formações rochosas por organismos marinhos, reduzindo drasticamente o nível atmosférico planetário de dióxido de carbono. Essa rocha — o calcário — se tornou o depósito de dióxido de carbono da Terra. Em decorrência disso, o nível de dióxido de carbono armazenado na rocha sedimentar é hoje mais de seiscentas vezes o conteúdo total de carbono do ar, água e todas as células vivas do planeta somadas.
Wade Tokumine aponta o facho de luz para a superfície da água escura da caverna. O rio subterrâneo está carregado com uma concentração de dióxido de carbono dez vezes acima do normal. Essa parte do ciclo de carbono ocorre quando o CO2 dissolvido atinge o ponto de saturação no calcário. Quando isso acontece, o dióxido de carbono se precipita como carbonato de cálcio puro, criando as estalactites e estalagmites que se espalham pelas cavernas de Sarawak.

Wade se vira na canoa para falar com seu guia, Andrew Chan. O nativo da Malásia e explorador profissional de cavernas guia excursões pelas cavernas de Sarawak há 17 anos.

— Andrew, quanto falta para essa sua passagem virgem?

A luz da lanterna mostra o sorriso de Andrew, ao qual faltam dois dentes da frente.

— Não muito. Esta parte da caverna fica ruim logo à frente, e aí nós continuamos a pé.

Wade balança a cabeça, depois cospe para eliminar o fedor da fumaça da lanterna. Somente 30% das cavernas de Sarawak foram exploradas, e a maioria delas só é acessível a alguns dos guias mais experientes. Quando o assunto é mapear passagens inexploradas, Wade sabe que Andrew não perde para ninguém. O guia transpira a "síndrome da descoberta", uma condição psicológica incurável comum entre os fanáticos por cavernas.

Andrew leva a canoa até uma plataforma, segurando-a para que Wade possa desembarcar.

— É melhor pôr o capacete, tem muitas pedras soltas ali.

Wade prende o capacete na cabeça enquanto Andrew amarra uma ponta de um longo rolo de corda no barco, jogando o resto sobre o ombro.

— Fique perto. A passagem vai estreitando. Tem muitas pontas afiadas nas paredes, cuidado com a roupa.

Andrew vai na dianteira, guiando-os através de uma catacumba escuta como breu. Ele escolhe uma passagem apertada e inclinada e entra nela, desenrolando a corda para marcar o itinerário. Depois de vários minutos de subida constante, a passagem se estreita até ficar claustrofóbica, forçando-os a avançar de quatro.

Wade escorrega no calcário úmido, cortando a pele dos nós dos dedos.

— Quanto falta?

— Por quê? Está com a febre das cavernas?

— Um pouco.

— É porque você é um explorador de teclado.

— O que é isso?

— Um explorador de teclado é alguém que passa mais tempo lendo o fórum dos exploradores de cavernas do que realmente indo... Espere aí. O que é isso?

Wade avança rastejando, apertando-se ao lado de Andrew para olhar.

O túnel se abriu num enorme poço. Olhando para cima, eles vêem as estrelas ainda brilhando no céu da madrugada, a superfície uns bons 23 metros acima de suas cabeças. Andrew aponta o facho para baixo, revelando o fundo de um enorme buraco, outros 9 metros abaixo.

Um luminoso brilho âmbar lança sombras bizarras de dentro do poço.

— Está vendo aquilo?

Wade se curva para a frente para ver melhor.

— Parece que tem alguma coisa brilhando lá embaixo.

— Esta dolina não existia há algumas horas. O teto da caverna deve ter acabado de desabar. O que está lá embaixo deve ter caído de lá de cima no poço.

— Será que é um carro? Alguém pode estar preso.

Wade vê seu guia malásio tirar da mochila um Knobbly Dog, uma escada de mão feita de um só cabo com os degraus trançados no meio.

— O que você vai fazer?

— Fique aí, vou descer e dar uma olhada. — Andrew prende uma ponta da escada na plataforma, depois desenrola o Knobbly Dog na escuridão abaixo.

O céu acima deles está cinza quando o explorador pisa no fundo do poço. A luz da madrugada mal penetra na escuridão e nos filetes de poeira calcária.

Andrew olha para a criatura imóvel que se agiganta ao seu lado no poço subterrâneo.

— Ei, Wade, não sei o que é isto, mas não é um carro.

— O que parece?

— Não se parece com nada que eu já tenha visto. E enorme, parece uma barata gigante, só que tem grandes asas e uma cauda, com um monte de tentáculos esquisitos saindo da barriga. Está de pé em cima de um par de garras. Devem estar bem quentes, porque o calcário está fumegando em volta delas.

— É melhor você sair daí. Vamos chamar os guardas do parque...

— Calma, esta coisa não está viva. — Andrew estica a mão e toca um dos tentáculos.

Uma onda eletromagnética azul neón o joga contra a parede oposta.

— Andrew, você está bem? Andrew?

— Estou, cara, mas esse filho da puta me deu o maior choque. Cacete... — Andrew pula para trás quando a cauda mecânica da criatura se ergue, apontando para o céu.

— Andrew?

— Estou saindo, não precisa me dizer de novo. — O guia começa a subir pela escada.

O disco âmbar no corpo do ser começa a piscar, ficando avermelhado e mais escuro.

— Vai, cara, sobe mais rápido!

Fumaça branca sai debaixo das garras da criatura, preenchendo o poço. Wade começa a ficar zonzo. Ele se vira e desliza de cabeça pelo túnel escorregadio, enquanto Andrew sobe na plataforma.

— Andrew? Andrew, você está aí atrás? — Wade freia sua descida e aponta o facho para o alto do túnel. Ele consegue ver o guia deitado de bruços na passagem estreita.

Dióxido de carbono!

Wade estica o braço e segura o pulso de Andrew. Ele o puxa para baixo enquanto a rocha ao seu redor fica mais quente, queimando sua pele.

Que diabos está acontecendo?

Wade fica de pé, trôpego, quando a passagem se alarga. Ele joga o guia inconsciente sobre o ombro e cambaleia até a canoa. Tudo parece estar girando, ficando mais quente. Ele fecha os olhos, usando os cotovelos para tatear as paredes escaldantes de calcário.

Wade ouve um bizarro som borbulhante ao chegar ao rio subterrâneo. Dobrando um joelho, joga o corpo de Andrew na canoa, depois entra nela desajeitadamente, quase virando-a. As paredes da caverna estão fumegando, e o calor intenso está fazendo o rio ferver.

Os olhos de Wade estão ardendo, suas narinas são incapazes de inalar a tórrida atmosfera. Ele dá um grito sufocado, agitando-se ferozmente enquanto sua carne queima e se destaca dos ossos, e seus globos oculares pegam fogo.

Diário de Julius Gabriel
Chichén Itzá — a cidade maia mais magnífica de toda a Mesoamérica. A tradução do nome é: à beira do poço onde moram os Sábios da Água.

Os Sábios da Água.

A própria cidade é dividida em duas partes, a velha e a nova. Os maias se estabeleceram primeiro na Velha Chichén em 435 d.C., e mais tarde a tribo Itzá se juntou à sua civilização, por volta de 900 d.C. Pouco se sabe sobre os rituais diários, e o estilo de vida desses povos, embora saibamos que eles eram governados por seu deus-rei, Kukulcán, cujo legado como grande mestre maia domina a antiga cidade.

Maria, Michael e eu passaríamos muitos anos explorando as ruínas antigas e as selvas das cercanias de Chichén Itzá. No final, ficamos convencidos da importância esmagadora de três estruturas em especial: o cenote sagrado, o Grande Campo Maia do Jogo de Bola e a pirâmide de Kukulcán.

Em poucas palavras, não existe nenhuma outra estrutura no mundo como a pirâmide de Kukulcán. Erguendo-se majestosamente sobre a Grande Esplanada de Chichén Itzá, a precisão e a localização astronômica dessa estrutura de mil anos ainda assombram arquitetos e engenheiros do mundo inteiro.

Maria e eu acabamos concordando que era a pirâmide de Kukulcán que o desenho de Nazca representava. O jaguar invertido dentro do ícone, as colunas da serpente na entrada para o corredor norte do templo, os desenhos do macaco e das baleias — tudo parecia se encaixar. Em algum lugar, dentro da cidade, deveria haver uma passagem secreta para a estrutura interna da pirâmide. A pergunta era: onde?



A primeira e mais óbvia solução que nos ocorreu foi que a entrada estaria escondida dentro do cenote sagrado, um poço natural localizado ao norte da pirâmide. O cenote era mais um símbolo do portal para o Mundo Inferior maia, e nenhum cenote em todo o Yucatán era mais importante do que o poço sagrado em Chichén Itzá, pois fora ali que tantas virgens haviam sido sacrificadas depois da partida abrupta de Kukulcán.