Steve Alten o domínio



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9 DE OUTUBRO DE 2012

WASHINGTON, DC
O presidente Mark Maller entra no Salão Oval, vindo de seu escritório particular, e assume seu lugar atrás da mesa. Sentados diante dele estão os membros de gabinete da Casa Branca.

— Bem, pessoal, vamos lá. Vamos começar falando sobre a indicação de um novo candidato à vice-presidência. Kathie?

A chefe de gabinete, Katherine Gleason, lê de seu laptop.

— Estes são os resultados de uma pesquisa de opinião pública realizada na última quinta. Quando perguntamos quem eles preferiam ver na chapa do partido, os eleitores registrados preferiram Ennis Chaney a Pierre Borgia por 53% contra 39%. O quesito confiança parece ser o principal fator de motivação. No entanto, quando pedimos que identificassem aquela que achavam a questão central para a eleição de novembro, 89% do público citou o acúmulo de armas estratégicas na Rússia e na China como sua preocupação principal, com apenas 34% dos eleitores registrados interessados na construção de um radiotelescópio na Lua. Numa tradução livre: Chaney vai para a chapa, nós concentramos nossa campanha na estabilização das relações com a Rússia e a China, e o senhor se mantém neutro sobre o radiotelescópio, pelo menos até ser reeleito.

— De acordo. Alguma novidade na NASA?

— Sim, senhor — diz Sam Blumner, o principal assessor econômico do presidente. — Analisei o orçamento preliminar da NASA para a construção dessa geringonça na Lua.

— Qual o tamanho do estrago?

— Deixe-me colocar a questão desta forma, presidente: o senhor tinha duas chances de ganhar aprovação do Congresso: pouca e nenhuma. E "pouca" foi embora junto com o ex-vice-presidente.

— Pensei que a NASA tivesse embutido o projeto na proposta da base lunar que já passou pela Comissão de Orçamento.

— Eles tentaram. Infelizmente, aquela base lunar foi projetada para ser construída do lado de cá da Lua, perto da região polar, onde a NASA localizou formações de gelo, e não do lado escuro. Desculpe o trocadilho, mas em termos orçamentários, a diferença é igual à do dia pra noite, pois os painéis solares não serão mais uma alternativa quando o Sol não estiver brilhando.

Kathie Gleason balança a cabeça em desaprovação.

— Sam, um dos motivos de o público americano ser tão contrário a essa empreitada é o fato de que a vêem como um projeto internacional. O sinal de rádio não foi transmitido só para os Estados Unidos. Foi recebido por todo o planeta.

— E no final, ainda serão os Estados Unidos que arcarão com a maior parte da conta.

Cal Calixte, secretário de Imprensa do presidente, levanta a mão.

— Presidente, na minha opinião, o radiotelescópio nos dá um meio de transferir fundos para a economia da Rússia, especialmente em vista dos cortes recentes do FMI. Talvez o senhor pudesse até ligá-lo ao novo tratado START-V.

— Disseram a mesma coisa da Estação Espacial Internacional — interrompe Blumner. — Aquele brinquedinho gigante custou 20 bilhões de dólares aos Estados Unidos, mais os bilhões que emprestamos aos russos para que eles pudessem participar. E no fim são os russos que ficam atrasando a conclusão do projeto.

— Sam, pare de ver tudo do ponto de vista financeiro — diz Kathie. — Essa é uma questão política, não é só um programa espacial. Proteger a democracia russa vale mais do que o próprio telescópio.

— Democracia? Que democracia? — Blumner afrouxa a gravata. — Uma rápida lição de direitos civis pra você, Kathie. O que nós criamos foi uma economia de extorsão, em que os russos ricos ficam mais ricos, os pobres morrem de fome, e todos parecem estar cagando, contanto que chamemos aquilo de democracia. Os Estados Unidos e o FMI deram bilhões de dólares aos russos. Pra onde foi todo o dinheiro? Do ponto de vista fiscal, minha filha de 3 anos é mais responsável do que o Yeltsin ou o Viktor Grozny jamais foram.

Blumner se vira para o presidente, seu rosto rechonchudo, em tom de vermelho.

— Antes de começar a distribuir bilhões, temos que ter em mente que esse sinal de rádio vindo do espaço pode muito bem não dar em nada. Pelo que entendi, a NASA ainda não encontrou um padrão subjacente que indique que a transmissão seja uma tentativa genuína de comunicação. E por que ainda não houve nem sinal de uma segunda transmissão?

Cal balança a cabeça.

— Você não está enxergando a importância disso. O povo de Grozny está com fome. Os tumultos populares estão atingindo proporções perigosas. Não podemos dar as costas pra uma nação desesperada que tem um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo uma dúzia de vezes.

— Pra mim, ainda é extorsão — diz Blumner. — Estamos criando um projeto de fachada como meio de pagar bilhões de dólares a uma superpotência capenga e aos seus líderes corruptos. E isso só pra que não nos desafiem pra uma guerra nuclear que eles jamais poderiam vencer.

O presidente levanta a mão para fazer um aparte.

— Mesmo assim, acho que o argumento de Cal tem mérito. O FMI já deixou claro que não dará mais um centavo à Rússia, a menos que o dinheiro seja investido em tecnologias que possam ajudar a impulsionar sua economia. Mesmo se esse sinal de rádio se mostrar inútil, o telescópio dará aos cientistas uma verdadeira oportunidade para explorar o espaço profundo.

— A gente ajudaria mais o povo russo se abrisse alguns milhares de McDonald's e deixasse todo mundo comer de graça.

Mailer ignora o comentário de Blumner.

— A reunião do G-9 é daqui a duas semanas. Quero que você e Joyce preparem uma proposta preliminar, usando o radiotelescópio como veículo para direcionar divisas para a Rússia. Na pior das hipóteses, talvez possamos aplacar um pouco a paranóia provocada pelos exercícios nucleares retaliatórios na Ásia.

O presidente se levanta.

— Cal, pra que hora está marcada a coletiva de hoje à noite?

— Nove horas.

— Ótimo. Vou me reunir com o novo vice-presidente daqui a uma hora, depois quero que você faça a ele um relatório sobre a reeleição. E diga pra ele fazer a mala. Quero que o Chaney comece a seguir o itinerário da campanha a partir de hoje à noite.


Universidade Estadual da Flórida
Dominique está sentada no corredor, na porta da sala de sua orientadora, remexendo-se desconfortavelmente sobre um banco de madeira sem estofamento. Ela pondera se deve arriscar mais uma ida ao banheiro, quando a porta da sala se abre.

A dra. Marjorie Owen, com o celular encostado a uma orelha, convida-a a entrar com um gesto apressado. Dominique entra no santuário do atulhado escritório da chefe do departamento e se senta, esperando que sua professora termine de falar ao telefone.

Marjorie Owen leciona psiquiatria clínica há 27 anos. E solteira e livre de compromissos, e seu físico magro e forte de 57 anos é conservado razoavelmente em forma pelo alpinismo. Mulher de poucas palavras, é respeitada e um tanto temida por seus funcionários não efetivados, e tem a reputação de ser rígida com seus alunos de graduação.

A última coisa que Dominique quer é entrar na lista negra dela.

A dra. Owen desliga o telefone, ajeitando seu curto cabelo grisalho atrás da orelha.

— Muito bem, mocinha, já ouvi sua fita e li seu relatório sobre Michael Gabriel.

— E?

— E o quê? Ele é exatamente o que o dr. Foletta diz, um paranóico-esquizofrênico com um QI incomumente alto. — Ela sorri. — Mas devo acrescentar que é alguém que produz algumas ilusões deliciosas.



— Mas isso justifica mantê-lo trancafiado? Ele está preso há 11 anos, e não vi nenhuma prova de comportamento criminoso.

— De acordo com o dossiê que você me mostrou, o dr. Foletta acaba de completar sua avaliação anual, uma avaliação que você assinou. Se tinha alguma objeção, deveria tê-la apresentado na ocasião.

— Só depois percebi isso. Tem alguma coisa que você possa me recomendar, algo que eu possa fazer para questionar as recomendações de Foletta?

— Quer questionar a avaliação do seu supervisor? Baseada em quê?



Lá vamos nós...

— Baseada na minha convicção pessoal de que... bem, de que as alegações do paciente merecem ser investigadas.

A dra. Owen encara Dominique com seu famigerado "olhar perplexo", um olhar que já destruiu as esperanças de formatura de muitos alunos.

— Mocinha, está me dizendo que o sr. Gabriel realmente te convenceu de que o mundo vai acabar?



Meu Deus, estou ferrada...

— Não, senhora, mas ele parecia saber sobre o sinal de rádio vindo do espaço e...

— Não, na verdade, de acordo com a fita, ele não fazia idéia do que ia acontecer, só de que algo ia acontecer no equinócio.

O olhar silencioso volta, fazendo gotas de suor aparecerem nas axilas de Dominique.

— Dra. Owen, minha única preocupação é garantir que meu paciente esteja recebendo os melhores cuidados possíveis. Ao mesmo tempo, também me preocupa que... bom, que ele talvez não tenha sido avaliado com justiça.

— Entendo. Então me deixe recapitular. Depois de trabalhar com seu primeiro paciente por quase um mês... — Owen verifica suas anotações. — Não, espere, engano meu, na verdade faz mais de um mês. Cinco semanas, pra ser exata. — A dra. Owen anda até a porta da sala e a fecha com autoridade. — Cinco semanas inteiras de trabalho, e você não só questiona os últimos 11 anos do tratamento do paciente, mas está disposta a desafiar o diretor do Centro, esperando devolver o sr. Gabriel à sociedade.

— Sei que sou só uma residente, mas, se vejo algo que não está certo, não tenho a obrigação moral e profissional de denunciar?

— Certo. Então, baseada em sua infinita experiência na área, você acha que o dr. Anthony Foletta, um psiquiatra clínico respeitado, é incapaz de avaliar adequadamente o seu paciente. É isso?



Não responda. Morda a língua.

— Não fique aí mordendo a língua. Responda.

— Sim, senhora.

Owen se senta na beirada de sua mesa, posicionando-se propositalmente acima de sua aluna.

— Me deixe dizer o que eu acho, mocinha. Eu acho que você perdeu a sua objetividade. Acho que cometeu o erro de se envolver emocionalmente com o paciente.

— Não, senhora, eu...

— Ele é esperto, não resta dúvida. Ao contar pra sua nova e jovem psiquiatra, uma mulher, que foi molestado sexualmente na prisão, ele esperava atingir um ponto fraco, e atingiu. Acorde, Dominique. Não percebe o que está acontecendo? Você está se identificando emocionalmente com o seu paciente por causa do seu próprio trauma de infância. Mas o sr. Gabriel não foi sodomizado por um primo durante três anos, foi? Ele não foi espancado quase até a morte...

Cala a boca, cala a porra da boca...

— Muitas mulheres que passaram por experiências como a sua costumam lidar com os sintomas pós-traumáticos aderindo a movimentos feministas ou aprendendo defesa pessoal, como você fez. Escolher a psiquiatria clínica como profissão foi um erro se você planeja usá-la como sua terapia alternativa. Como pode esperar ajudar seus pacientes se você se deixa envolver emocionalmente?

— Sei o que está dizendo, mas...

— Mas nada. — Owen balança a cabeça. — Na minha opinião, você já perdeu a objetividade. Pelo amor de Deus, Dominique, esse maluco te convenceu de que todas as pessoas do mundo vão morrer daqui a dez semanas.

Dominique enxuga as lágrimas dos olhos e sufoca uma risada. É verdade. Mick mexeu tanto com ela emocionalmente que ela não estava mais apenas ouvindo o que ele dizia como parte da terapia. Estava se deixando cooptar pelas ilusões apocalípticas do paciente.

— Estou me sentindo envergonhada.

— É pra ficar envergonhada mesmo. Ao sentir pena do sr. Gabriel, você estragou a dinâmica do relacionamento médico-paciente. Isso me obriga a falar com o dr. Foletta e intervir em nome do sr. Gabriel.

Cacete.

— O que a senhora vai fazer?

— Vou solicitar que o Foletta transfira você para outro interno. Imediatamente.
Miami, Flórida
Mick Gabriel está andando no jardim há seis horas.

Andando no piloto automático, ele desvia dos mentalmente incapazes e criminalmente loucos enquanto sua mente se concentra em reorganizar as peças do quebra-cabeça da profecia que flutuam em seu cérebro.



O sinal de rádio e a descida da serpente emplumada. A fenda escura e Xi-balba. Não cometa o erro de amontoar tudo junto. Separe causas e ações, morte e salvação, bem e mal. Duas facções estão agindo aqui, duas entidades diferentes envolvidas na profecia maia. O bem e o mal, o mal e o bem. O que é bom? Avisos são bons. O calendário maia é um aviso, como também são os desenhos de Nazca e a sombra equinocial da serpente na pirâmide de Kukulcán. Cada um desses avisos deixado por um sábio caucasiano barbado, e todos anunciando a chegada do mal. Mas o mal já está aqui, já estava aqui. Já o senti antes, mas nunca assim. Será que essa transmissão do espaço o ativou? Reforçou-o de alguma forma? Nesse caso, onde ele está?

Ele pára, deixando o sol do fim de tarde aquecer seu rosto.

Xibalba — o Mundo Inferior. Posso sentir a Estrada Negra que leva ao Mundo Inferior ficando mais forte. O Popol Vuh alega que os Senhores do Mundo Inferior influenciaram o mal na Terra. Como isso é possível... a menos que a presença malévola na Terra tenha estado sempre aqui?

Mick abre os olhos.

E se ela não esteve sempre aqui? E se chegou há muito tempo, antes da evolução do homem? E se estava dormente, esperando que essa transmissão a acordasse?

O alarme das cinco no alto-falante, anunciando o jantar, desperta uma lembrança distante. Mick se imagina de volta ao deserto de Nazca, vasculhando o platô com seu detector de metais. O alarme elétrico do detector o fez cavar na areia macia e amarela, com seu pai, adoentado, ao seu lado.

Em sua mente, ele desenterra o recipiente de irídio, retirando dele o antigo mapa. Concentrando-se no círculo vermelho... Demarcando o misterioso local no Golfo do México.

O Golfo do México... o recipiente — feito de irídio! Seus olhos se arregalam, incrédulos.

— Puta merda, Gabriel, como você pôde ser tão cego!

Mick sobe correndo os dois lances da escada de concreto até o mezanino e anexo de terapia do terceiro andar. Ele empurra vários internos e entra na sala de computadores.

Uma mulher de meia-idade o recebe.

— Olá. Meu nome é Dorothy, sou a...

— Preciso usar um dos computadores!

Ela vai até o seu laptop.

— Qual o seu nome?

— Gabriel. Michael Gabriel. Procure por Foletta.

Mick vê um terminal ligado. Sem esperar, se senta, e então nota que o sistema de comando de voz não está funcionando. Usando o mouse, ele ativa a conexão com a Internet.

— Um momento, sr. Gabriel. Temos regras aqui. Não pode simplesmente ir usando o computador. Precisa obter permissão do seu...


Acesso Negado. Por Favor. Digite a Senha.
— Preciso da senha, Dorothy. Só vai levar um minuto. Pode me dar sua senha, por favor?

— Não, sr. Gabriel, nada de senha. Há três internos na sua frente, e vou precisar falar com o seu terapeuta. Depois posso...

Mick olha para o crachá da mulher: DOROTHY HIGGINS, No G45927. Ele começa a digitar senhas.

—... marcar um horário pro senhor. Está me ouvindo, sr. Gabriel? O que está fazendo? Ei, pare com...

Uma dúzia de senhas não dão resultado. Ele olha novamente para o crachá.

— Dorothy. Que nome bonito. Seus pais gostam de O Mágico de Oz, Dorothy?

Sua expressão de assombro a denuncia. Mick digita OZG45927.
Senha Inválida.
— Pare com essa bobagem agora mesmo, sr. Gabriel, ou vou chamar a segurança.

— A Bruxa Má, o Homem de Lata, o Espantalho... Vamos perguntar ao Mágico. — Ele digita MAG45927.


Conectando à Internet...
— Já chega. Vou chamar a segurança!

Mick a ignora enquanto busca na Web, digitando CRATERA DE CHICXULUB enquanto se lembra das palavras que disse a Dominique. O maior evento da História vai acontecer em 21 de dezembro, quando a humanidade vai ao encontro da destruição. Não é exatamente verdade, ele percebe agora. O maior evento da História, pelo menos até agora, aconteceu há 65 milhões de anos, e o local foi o Golfo do México.

O primeiro arquivo aparece na tela. Sem se dar ao trabalho de ler, ele aperta IMPRIMIR TUDO.

Ele ouve a segurança se aproximando no corredor ao lado. Vamos, vamos...

Mick arranca as três páginas impressas e as enfia no bolso da calça enquanto vários vigias entram na sala de computadores.

— Pedi três vezes que ele se retirasse. Ele conseguiu até roubar minha senha.

— A gente cuida disso, madame. — O ruivo musculoso acena para seus dois homens, que agarram Mick pelos braços.

Mick não oferece resistência e o ruivo se adianta, seu rosto bem próximo ao dele.

— Interno, pediram que você saísse desta sala. Algum problema com isso?

Mick vê com o canto do olho o dr. Foletta entrar na sala. Ele olha para o crachá do vigia e abre um sorriso para o ruivo.

— Sabe, Raymond, não adianta ficar se matando na academia, você nunca vai pegar mulher com esse bafo de alho...

Foletta se aproxima.

— Raymond, não...

O soco atinge em cheio o plexo solar de Mick, expulsando o ar de seus pulmões. Ele cai para a frente, dobrado pela dor, seu corpo ainda sustentado pelos dois vigias.

— Caramba, Raymond, mandei esperar!

— Desculpe, achei que o senhor...

Mick recobra o equilíbrio e num só movimento curva as costas, levanta os joelhos até o peito antes de estender as pernas para a frente e enfia os calcanhares de seus tênis com toda a força no rosto do ruivo, esmaga o nariz e o lábio superior do homem, fazendo o sangue espirrar longe.

Raymond desaba no chão de uma vez.

Foletta se inclina sobre o vigia aturdido, olhando para o rosto dele.

— Isso foi desnecessário, Mick.

— Olho por olho, doutor.

Mais dois enfermeiros entram, empunhando Tasers. Foletta balança a cabeça.

— Acompanhem o sr. Gabriel para o seu quarto, depois mandem um médico cuidar deste idiota.
* * *
Já é tarde quando Dominique pára seu Pronto Spyder preto no estacionamento do Centro. Ela entra no saguão e passa o crachá magnético no primeiro bloqueio de segurança.

— Não vai funcionar, gatinha. A voz é fraca e um tanto abafada.

— Raymond, é você? — Dominique mal consegue ver o ruivo grandalhão pelo portão da segurança.

— Use a varredura facial.

Ela digita o código, pressiona o rosto contra a moldura de borracha e o raio infravermelho percorre seu rosto. O portão se abre.

Raymond está jogado em sua cadeira. Uma bandagem pesada envolve o seu rosto, cobrindo o nariz. Seus dois olhos estão pretos.

— Meu Deus, Ray, o que aconteceu com você?

— A porra do teu paciente surtou na sala de computadores e me deu um pontapé na cara. O filho da puta quebrou o meu nariz e amoleceu dois dentes.

— O Mick fez isso? Por quê?

— Como é que eu vou saber? O cara é um psicopata, cacete. Olha pra mim, Dominique. E agora, como vou competir no concurso de Mr. Flórida deste jeito? Juro por Deus que pego aquele filho da puta, nem que seja a última coisa que eu...

— Não, senhor. Não vai fazer nada com ele. E se algo acontecer, não vou pensar duas vezes antes de te entregar à polícia.

Raymond se inclina para a frente, ameaçador.

— É assim que vai ser entre a gente? Primeiro você me despreza, depois manda me prender?

— Ei, não desprezei você. Eu estava em reunião com o Foletta. Você é que foi transferido pro turno da noite. Quanto ao Michael Gabriel, ele é meu paciente, e não vou permitir...

— Não é mais. O Foletta recebeu um telefonema da tua orientadora hoje à tarde. Parece que o teu rol de pacientes aqui vai mudar.

Cacete, Owen, precisa ser sempre tão eficiente?

— O Foletta ainda está aqui?

— A esta hora? Você está brincando.

— Ray, escute, sei que você está bravo com o Mick, mas... quero fazer um acordo com você. Fique longe dele e... e eu te ajudo a se preparar pro concurso de fisiculturismo. Vou até aplicar maquiagem nesses seus olhos de guaxinim pra não assustar os juízes.

Raymond cruza os braços sobre o peito inchado.

— Não basta. Você ainda me deve um encontro. — Ele abre um sorriso mostrando os dentes amarelos. — E não vai ser só um jantarzinho italiano. Quero me divertir, sabe, dançar um pouco, namorar um pouco...

— Um encontro, só isso, e não quero saber de namorar.

— Me dá uma chance, gatinha. Eu acabo envolvendo as pessoas.



Como micose de pele.

— Um encontro, e você fica longe do Gabriel.

— Combinado.

Ela passa pelo bloqueio de segurança e entra no elevador.

Raymond a admira indo embora, seus olhos cheios de desejo focados no contorno dos glúteos dela.
Só um vigia está de serviço no sétimo andar, e sua atenção está concentrada no campeonato da Liga Nacional.

— Olá, Marvis. Quem está ganhando?

Marvis Jones desvia o olhar da TV.

— O Cubs está com dois de vantagem no final do oitavo inning. O que faz aqui tão tarde?

— Vim ver meu paciente.

Marvis parece preocupado.

— Não sei, Dom. É meio tarde... — O barulho da multidão o obriga a olhar para a tela. — Que bosta, o Phillies acaba de empatar.

— Vamos, Marvis.

Marvis olha para o relógio.

— Já sei. Vou fechar você na cela dele por 15 minutos, mas você sai quando a enfermeira entrar pra dar a medicação.

— Combinado.

O vigia a acompanha até o quarto 714 e lhe entrega a caneta transmissora que aciona o seu bipe.

— É melhor você levar. Ele estava violento hoje.

— Não, eu vou ficar bem.

— Leve a caneta, Dominique, senão não entra.

Ela sabe que não adianta discutir com Marvis, que é tão meticuloso quanto gentil, e enfia o dispositivo no bolso. Marvis ativa o interfone.

— Interno, você tem visita. Vou deixá-la entrar assim que vir você vestido e sentado na cama. — Marvis olha pela janelinha. — Ele está pronto. Pode entrar. — Marvis abre a porta e a tranca atrás de Dominique.

As luzes no quarto estão fracas. Ela vê uma silhueta escura sentada na cama.

— Mick, sou eu, Dom. Você está bem?

Mick está apoiado na parede. Dominique vê o rosto dele ao se aproximar, a face esquerda com um feio hematoma e o olho fechado de tão inchado. O coração dela dispara.

— Meu Deus, o que fizeram com você? — Ela pega uma toalha de rosto, molha na água fria e a aperta contra o rosto dele.

— Ai.


— Desculpe. Ponha isto no seu olho. O que aconteceu?

— De acordo com o relatório oficial, escorreguei no chuveiro. — Ele olha para ela, seu meio sorriso causando dor. — Senti sua falta. Como foram as coisas na universidade?

— Nada boas. Minha orientadora não acha que estou lidando com as minhas responsabilidades de maneira profissional.

— Ela acha que eu te perturbo emocionalmente. É isso?

— Sim. A partir de amanhã vou trabalhar com outro interno. Sinto muito, Mick.

Ele aperta a mão dela e a coloca sobre seu coração.

— Se faz alguma diferença — ele sussurra —, você foi a única pessoa que conseguiu mexer comigo.

Ela engole o nó na garganta. Não desmorone de novo,

— O que aconteceu hoje? Vi o que você fez com o Raymond.

— Ele atacou primeiro.

— Ouvi dizer que você não queria sair da sala de computadores.

— Eu precisava entrar na Internet. — Ele solta a mão dela e tira várias folhas impressas amassadas do bolso. — Hoje descobri uma peça importante do quebra-cabeça da profecia. É tão inacreditável que eu precisava verificar os fatos antes de aceitá-la.

Ela pega as páginas da mão dele e começa a ler.
A CRATERA DE CHICXULUB
Em 1980, o físico ganhador do Nobel Luis Alvarez propôs que um impacto extraterrestre acontecido 65 milhões de anos atrás foi a causa da extinção em massa que acabou por encerrar o reinado dos dinossauros, mudando para sempre o rumo evolucionário da vida na Terra. Essa ousada teoria resultava da descoberta de Alvarez de uma camada de argila sedimentar de um centímetro de espessura depositada sobre toda a superfície do planeta na época do impacto do asteróide, entre os períodos geológicos cretáceo (K) e terciário (T). Verificou-se que essa camada de argila K/T contém altas concentrações de irídio, um metal extremamente raro que, acredita-se, existe no centro da Terra. O irídio é o único metal capaz de sobreviver a temperaturas acima dos 2.200 graus centígrados, e é praticamente invulnerável à corrosão, mesmo aos ácidos mais fortes. O fato de altas concentrações de irídio terem sido encontradas em meteoritos levou Alvarez a propor sua teoria de que o sedimento K/T era formado pelos resíduos de uma nuvem de poeira criada pelo impacto de um grande asteróide (11 quilômetros de diâmetro) que atingiu a Terra 65 milhões de anos atrás. Tudo que Alvarez precisava para provar sua teoria era encontrar o local do impacto.

Em 1978, um piloto de helicóptero e geofísico chamado Glenn Pennfield estava sobrevoando o Golfo do México, fazendo um rastreamento aéreo para medir tênues variações no campo magnético terrestre que poderiam indicar a presença de petróleo. Ao sobrevoar uma área do mar a noroeste da península de Yucatán, Pennfield detectou um anel simétrico de material altamente magnético, com 160 quilômetros de diâmetro, um quilômetro e meio sob o leito do oceano. A análise desse imenso anel magnético veio a confirmar, mais tarde, que a área, cobrindo tanto mar quanto terra firme, era uma cratera — o local do impacto de um asteróide gigante.

Batizada com o nome da cidade do Yucatán, localizada entre Progreso e Mérida, a cratera de Chicxulub é a maior bacia de impacto que se formou no nosso planeta no último bilhão de anos. O centro aproximado da área fica debaixo d'água, a 21,4 graus de latitude norte por 89,6 graus de longitude oeste, enterrado sob 300 a 900 metros de calcário.

A cratera é imensa, com diâmetro entre 175 e 290 quilômetros, estendendo-se pela costa noroeste da península de Yucatán e o Golfo do México. Ao redor da porção terrestre da cratera, há um anel de poços naturais. Acredita-se que essas fontes de água doce, chamadas de cenotes pelos mexicanos, tenham se formado na geografia do Yucatán como resultado das enormes fraturas que a bacia de calcário sofreu durante o impacto do asteróide.



Há 65 milhões de anos, o território da América Central ainda estava debaixo d'água.

Dominique ergue os olhos, levemente irritada.

— Não entendo. Onde está a grande pista?

— No mapa de Piri Reis, aquele que achei no platô de Nazca. Eu o encontrei selado num recipiente de irídio. O mapa indicava o local da cratera de Chicxulub. Chichén Itzá fica bem no perímetro do círculo do impacto. Quando você traça uma linha da pirâmide de Kukulcán até o centro da cratera, o ângulo mede 23,5 graus, exatamente o ângulo do eixo de rotação da Terra, a inclinação que nos dá as estações do ano.

Pronto, lá vamos nós de novo.

— Tá, e o que isso tudo significa?

— O que isso significa? — Mick faz uma careta de dor ao se levantar. — Significa que a pirâmide de Kukulcán foi intencional e cuidadosamente posicionada na península de Yucatán, em relação com a cratera de Chicxulub. Não pode ser outra coisa, Dominique. Não existe nenhuma outra estrutura antiga perto do local do impacto, e o ângulo é exato demais pra ser acidental.

— Mas como os antigos maias saberiam do impacto de um asteróide há 65 milhões de anos? Olhe o tempo que o homem moderno levou pra descobri-lo.

— Não sei. Talvez tivessem a mesma tecnologia que o autor do mapa de Piri Reis usou pra desenhar a topografia da Antártida, mesmo ela estando toda encoberta por gelo.

— Então qual é a sua teoria: a humanidade vai ser destruída por um asteróide em 21 de dezembro?

Mick se ajoelha aos pés dela, com agonia em seu rosto inchado.

— A ameaça à humanidade não é um asteróide. A probabilidade de outro asteróide passar pelo mesmo local é astronômica demais pra ser levada em conta. Além disso, a profecia maia aponta pra fenda escura, não pra um projétil celeste.

Ele apóia a cabeça dolorida sobre o joelho dela. Dominique alisa sua longa cabeleira castanha, suja de suor e oleosa.

— Talvez seja melhor você descansar um pouco.

— Não consigo, minha mente não deixa. — Ele fica de pé, apertando a compressa sobre o olho inchado. — Algo sempre me incomodou na localização da pirâmide de Kukulcán. Diferente de suas similares no Egito, no Camboja e em Teotihuacán, a estrutura sempre pareceu fora de lugar. Como um belo polegar, geograficamente situado sem razão, enquanto os outros dedos ficam a intervalos regulares sobre a face da Terra. Agora acho que entendi.

— Entendeu o quê?

— O bem e o mal, Dominique, o bem e o mal. Em algum lugar dentro da pirâmide de Kukulcán está o bem, a chave pra nossa salvação. Em algum lugar da cratera de Chicxulub está uma força maligna que se torna cada vez mais forte com a aproximação do solstício.

— Como sabe...? Não, esqueci, desculpe. Você sente.

— Dom, preciso da sua ajuda. Você tem que me tirar daqui.

— Eu tentei...

— Esqueça das apelações, não há tempo. Preciso sair agora!

Ele está perdendo o controle.

Mick a segura pelo pulso.

— Me ajude a fugir. Preciso chegar a Chichén Itzá...

— Me solta! — Ela pega a caneta com a outra mão.

— Não... espere, não chame o vigia...

— Então se afaste, assim você me assusta.

— Desculpe. Desculpe. — Ele a solta. — Só me escuta, está bem? Não sei como a humanidade vai sucumbir, mas acho que sei qual a finalidade daquela transmissão do espaço.

— Continue.

— O sinal era um despertador, viajando pela Estrada Negra, um corredor celestial que está se alinhando com o que quer que esteja soterrado no Golfo.

Foletta tinha razão. As ilusões dele estão piorando.

— Mick, calma. Não tem nada ali...

— Você está errada! Eu consigo sentir, como consigo sentir a Estrada Negra pra Xibalba se abrindo. O caminho está ficando mais pronunciado...



Ele está delirando...

— Sinto que se espalha. Não sei como, mas consigo sentir, eu juro! E tem outra coisa...

Ela vê lágrimas de frustração brotando nos olhos dele, ou será realmente medo?

— Sinto uma presença na outra ponta da Estrada Negra. E ela consegue me sentir!

A enfermeira entra, seguida por três enfermeiros corpulentos.

— Boa noite, sr. Gabriel. É hora do seu remédio.

Mick vê a seringa.

-— Isso não é Zyprexa!

Dois enfermeiros agarram seus braços, e o terceiro lhe segura as pernas. Dominique assiste a tudo, impotente, enquanto ele luta.

— Enfermeira, o que está acontecendo?

— O sr. Gabriel deve receber três injeções de Thorazine por dia.

— Três?


— O Foletta quer me transformar num vegetal! Dom, não deixe... — Mick se agita com violência sobre a cama, os enfermeiros se esforçando para controlado. — Não deixe que façam isso. Dominique, por favor...

— Enfermeira, sou a psiquiatra do sr. Gabriel e...

— Não é mais. O dr. Foletta assumiu o seu lugar. Amanhã você pode conversar com ele sobre isso. — A enfermeira passa álcool no braço de Mick. — Imobilizem o paciente.

— Estamos tentando. Dê logo a injeção...

Mick levanta a cabeça, as veias saltando do seu pescoço.

— Dom, você precisa fazer alguma coisa! A cratera de Chicxulub... o relógio está andando... o relógio...

Dominique vê os olhos negros rodando nas órbitas, sua cabeça caindo sobre o travesseiro.

— Pronto, assim está melhor — diz a enfermeira suavemente, retirando a seringa. — Pode ir, residente Vazquez. O sr. Gabriel não precisa mais dos seus serviços.




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