Steve Alten o domínio



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DIÁRIO DE JULIUS GABRIEL
E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da Terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram... Naqueles dias, os NEFILINS estavam na Terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os VALENTES que houve na ANTIGUIDADE, os HOMENS DE FAMA.

GÊNESIS, 6: 1 -2, 4


A Bíblia. O livro sagrado das religiões judaica e cristã. Para o arqueólogo em busca da verdade, esse documento da antiguidade pode oferecer pistas importantes para preencher as lacunas na história da evolução do homem.

O capítulo 6 do Gênesis talvez seja a passagem menos compreendida de toda a Bíblia, mas pode vir a ser a mais reveladora. Ela se passa pouco antes de Deus dar instruções a Noé e se refere aos filhos de Deus e aos Nefilins, um nome que se traduz literalmente como "os caídos" ou "aqueles que caíram do céu com o fogo".

Quem eram esses "caídos", esses "homens de fama"? Uma pista importante pode ser encontrada na Apócrifa do Gênesis, um dos textos antigos descobertos entre os Manuscritos do Mar Morto. Numa passagem importante, Lameque, pai de Noé, confronta sua esposa por achar que a concepção de seu filho tinha sido o resultado de uma copulação com um anjo ou com um de seus filhos, um Nefilim.

Será que corria sangue extraterrestre nas veias de Noé? O conceito de anjos "caídos" ou "homens de fama" miscigenando-se com mulheres humanas pode pa¬recer mirabolante, mas deve haver algum elemento de verdade nele, pois o relato, como a história de Noé e o Grande Dilúvio, se repete em diferentes culturas e religiões de todo o mundo.

Como já mencionei, passei a vida investigando maravilhas misteriosas, estruturas magníficas, deixadas na face deste planeta, que sobreviveram aos rigores do tempo. Acredito que essas estruturas foram criadas por esses "homens da antiguidade, homens de fama" com uma única finalidade: salvar a nossa espécie da aniquilação.

Talvez nunca venhamos à saber quem eram os Nefilins, mas provas geológicas nos permitem agora determinar o período em que eles apareceram pela primeira vez. O fato é: houve um grande dilúvio. A culpada foi a última era glacial da Terra, um acontecimento que remonta há cerca de 115 mil anos atrás. Na época, geleiras enormes cobriam a maior parte dos hemiférios norte e sul, avançando e recuando, finalmente atingindo o ápice há cerca de 17 mil anos. A maior parte da Europa foi soterrada sob uma camada de gelo de 3 quilômetros de espessura. As geleiras da América do Norte avançaram para o sul até o vale do Mississipi, atingindo o 37º paralelo.

Era a época do Homo sapiens neanderthalensis, o Homem de Neandertal. Foi também por volta desse momento na história dos nossos antepassados que os misteriosos "caídos" chegaram.

Talvez os clãs dos primeiros Homo sapiens não tivessem impressionado muito esses homens de fama. Talvez os Nefilins achassem melhor devolver o esboço do homem à prancheta evolutiva. Qualquer que tenha sido a reação deles, só sabemos que, milagrosa e repentinamente, o mundo começou a derreter.

Aconteceu rápido, em decorrência de algum desdobramento desconhecido e cataclísmico. Milhões de quilômetros cúbicos degelo que haviam levado mais de 40 mil anos para avançar de repente derreteram em menos de dois milênios. O mar subiu de 100 a 120 metros, inundando o solo. Partes da Terra, antes comprimidas por bilhões de toneladas de gelo, começaram a se elevar, causando terremotos terríveis. Vulcões entraram em erupção, expelindo enormes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera, aumentando o aquecimento global. Ondas gigantes varreram selvas, dizimando animais e devastando a Terra.

O planeta se tornou um lugar muito hostil.

Entre 13.000 a.C. e 11.000 a.C., a maior parte do gelo havia derretido, e o clima havia se estabilizado. E daquela gosma lamacenta emergia uma nova subespécie: Homo sapiens sapiens, o homem moderno.

Evolução ou criação bíblica — onde está a verdade sobre o surgimento do homem moderno? Como cientista, me sinto inclinado a acreditar no darwinismo, mas como arqueólogo, também reconheço que a verdade muitas vezes se esconde em mitos transmitidos ao longo de milênios. A profecia do calendário maia se enquadra na mesma categoria. Como já mencionei anteriormente, o calendário é um instrumento científico preciso que utiliza princípios avançados de Astronomia e Matemática para efetuar seus cálculos. Ao mesmo tempo, as origens do calendário se concentram na mais importante lenda da história maia — o Popol Vuh, o livro maia da criação.

O Popol Vuh é a Bíblia dos índios mesoamericanos. Segundo o Popol Vuh, escrito centenas de anos depois da morte de Kukulcán, o mundo foi dividido em um Mundo Superior (Paraíso), um Mundo Médio (Terra) e um Mundo Inferior, um antro do mal conhecido como Xibalba. Ao olharem para o céu noturno, os antigos maias viam a fenda escura da Via Láctea e a interpretavam como sendo uma serpente escura ou Estrada Negra (Xibalba Be), que levava ao Mundo Inferior. Bem perto da fenda ficam as três estrelas do cinturão de Orion. Para os maias, essas estrelas eram as três pedras da criação.

Como disse anteriormente, o calendário maia se divide em cinco Grandes Ciclos, o primeiro dos quais começou há cerca de 25-800 anos. Esse período de tempo não é arbitrário, mas o intervalo real, em anos, que a Terra leva para completar um ciclo de precessão, a lenta oscilação do nosso planeta sobre seu eixo. (Mais sobre isso depois.)

A história da criação contada no Popol Vuh começa há cerca de 25.800 anos, quando o gelo ainda cobria boa parte da Terra. O herói da história é um homem primitivo conhecido como Hun (Um) Hunahpu, mais tarde reverenciado pelos maias como "Primeiro Pai". A maior paixão da vida de Hun Hunahpu era jogar o antigo jogo de bola conhecido como Tlachtli. Um dia, os Senhores do Mundo Inferior, falando através de Xibalba Be (a Estrada Negra), desafiaram Hun Hunahpu e seu irmão para um jogo. Hun Hunahpu aceitou e entrou no portal para a Estrada Negra, que era representado nas lendas maias como a boca de uma grande serpente.

Mas os Senhores do Mundo Inferior não tinham nenhuma intenção de jogar. Usando truques e armadilhas, derrotaram os irmãos e os decapitaram, pendurando a cabeça de Hun Hunahpu no ramo de um cabaceiro. Os Senhores do Mal, então, isolaram a árvore, proibindo a todos de visitá-la.

Depois de muitos e muitos anos, uma jovem corajosa chamada Lua de Sangue se aventurou pela Estrada Negra para ver se a lenda era verdade. Aproximando-se da árvore para colher alguns frutos, ela se assustou ao encontrar a cabeça de Hun Hunahpu, que cuspiu na palma da mão dela, magicamente engravidando-a. A mulher fugiu, e os Senhores do Mundo Inferior não conseguiram destruí-la antes que escapasse.

Lua de Sangue (também conhecida como Primeira Mãe) deu à luz filhos gêmeos. Com o passar dos anos, os meninos cresceram, tornando-se guerreiros fortes e hábeis. Quando chegaram à idade adulta, sua vocação genética os impeliu a seguir pela Estrada Negra até Xibalba: desafiariam os Senhores do Mal e vingariam a morte de seu pai. Novamente, os Senhores do Mundo Inferior usaram trapaças, mas dessa vez os Gêmeos Heróis triunfaram, repelindo o mal e ressuscitando seu falecido pai.

O que podemos inferir do mito da criação? O nome, Hun ou Um Hunahpu, refere-se à data de Um Ahau no calendário, cujo nome significa primeiro sol. O primeiro sol do ano-novo é o do solstício de dezembro. A data profetizada do Juízo Final acontece no solstício de inverno do ano de 2.012, exatamente um ciclo precessional de 25-800 anos depois do primeiro dia do calendário maia!

Usando um programa de computador que permite prever o cosmos em qualquer momento da história, calculei como o céu noturno estará em 2012. Começando na época do equinócio outonal, um alinhamento astronômico extremamente raro entre os planos galáctico e solar vai acontecer. A fenda escura da Via Láctea parecerá estar na altura do horizonte terrestre, e o Sol começará a entrar em alinhamento com seu ponto central. Esse movimento estelar vai culminar no dia do solstício de inverno, um dia considerado pela maioria das culturas antigas como o Dia dos Mortos. Nessa data, pela primeira vez em 25- 800 anos, o Sol irá se mover em conjunto com o ponto de cruzamento da Via Láctea com a eclíptica de Sagitário, marcando o alinhamento do Equador Galáctico, o centro exato da galáxia.

De alguma forma, o calendário maia previu com exatidão esse evento celeste há mais de 3 mil anos. Interpretando o mito da criação, o alinhamento galáctico culminará com a abertura de um portal cósmico que cobre a distância entre o nosso planeta e o Mundo Inferior maia, Xibalba.

Chamem de ficção, chamem de fato, mas de alguma forma esse alinhamento intergaláctico resultará na morte de cada homem, mulher e criança na face do nosso planeta.

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,
Ref. Catálogo 1978-79 páginas 43-52

Catálogo 1998-99 páginas 11-75


4
11 DE SETEMBRO DE 2012

MIAMI, FLÓRIDA
- Acorde, residente Vazquez. Você está caindo na famosa teoria da conspiração do Gabriel.

— Eu discordo. — Dominique devolve o olhar frio que o dr. Foletta lhe direciona do outro lado da mesa. — Não há nenhum motivo para Mick Gabriel não receber uma equipe de apoio completa.

Foletta se recosta na cadeira giratória, ameaçando romper as molas com seu peso.

— Vamos nos acalmar um pouco. Olhe pra você. Falou com o interno duas vezes e já está fazendo diagnósticos. Na minha opinião, você está se envolvendo emocionalmente, e nós falamos sobre isso na sexta. É exatamente por isso que recomendei ao conselho não designar uma equipe neste momento.

— Senhor, eu garanto que não estou emocionalmente envolvida. Só me parece que as pessoas julgaram precipitadamente este caso. Sim, concordo que ele tem ilusões, mas elas poderiam facilmente ser atribuídas ao fato de ele ter passado os últimos 11 anos na solitária. E quanto à violência, não vi nada no arquivo que indicasse algo mais do que um caso isolado de agressão.

— E quanto ao ataque ao vigia?

— Mick me disse que o vigia tentou estuprá-lo.

Foletta belisca o alto do nariz com dois dedos grossos, sorrindo mansamente enquanto balança sua grande cabeça para a frente e para trás.

— Ele te enganou, residente Vazquez. Eu avisei que ele era esperto.

Dominique sente um tremor na boca do estômago.

— Está dizendo que é tudo mentira?

— Claro. Ele apostou no seu instinto materno e tirou a sorte grande.

Dominique olha para baixo, sem palavras. Mick mentiu? Será que ela foi realmente tão ingênua? Idiota! Você queria acreditar nele. Caiu na armadilha.

— Residente, você não vai muito longe com seus pacientes se acreditar em tudo que eles dizem. Só falta ele te convencer de que o mundo está pra acabar.

Dominique se encolhe na cadeira, sentindo-se tola.

Foletta vê a expressão no rosto dela e ri alto, suas bochechas rechonchudas corando e fazendo covinhas. Ele respira fundo, enxugando os olhos, e mexe numa caixa de papelão sob a mesa. Tira uma garrafa de uísque e duas canecas e serve duas doses.

Dominique enxuga a caneca, sentindo o líquido ardendo na mucosa de seu estômago.

— Está se sentindo melhor? — As palavras, murmuradas e roucas, são ditas de maneira paternal.

Ela faz que sim.

— Apesar do que ele diz, residente, eu gosto do Mick. Também odeio vê-lo na solitária.

O telefone toca. Foletta atende e olha para ela.

— É um dos vigias. Diz que está te esperando lá embaixo.



Merda.

— Pode dizer que estou numa reunião importante? Diga que hoje à noite não posso.

Foletta dá o recado e desliga.

— Doutor, e quanto à avaliação anual do Mick? Também é mentira?

— Não, é verdade. Aliás, está na minha lista de coisas a discutir com você. Sei que é um tanto incomum, mas vou precisar que você assine a avaliação pra mim.

— O que você recomenda?

— Depende de você. Se conseguir se manter objetiva, vou recomendar que continue como psiquiatra do Mick durante sua permanência aqui.

— O Mick está sofrendo de privação sensorial. Gostaria que tivesse aces¬so ao jardim e ao resto das instalações de reabilitação.

— Ele acabou de te atacar...

— Ele não me atacou. Só ficou um pouco agitado e eu me desesperei.

Foletta relaxa e olha para o forro, como se estivesse ponderando uma grande decisão.

— Bem, residente, façamos assim: assine a minha avaliação anual e eu devolverei a ele todos os privilégios. Se ele melhorar, designarei uma equipe completa de reabilitação em janeiro. Certo?

Dominique sorri.

— Certo.
22 DE SETEMBRO DE 2012



MIAMI, FLÓRIDA
O jardim do Centro de Avaliação e Tratamento do Sul da Flórida é um gramado retangular cercado pelos quatro lados. O formato em L do prédio principal fecha o perímetro a leste e ao sul, e os lados norte e oeste são murados por uma barreira de concreto branco de 6 metros de altura com arame farpado no alto.

Não há portas para o jardim. Para sair do átrio gramado, é preciso subir três lances de degraus de cimento que levam a uma passarela aberta que percorre o lado sul do prédio. Esse mezanino dá acesso ao ginásio do terceiro andar, às salas de terapia de grupo, a um centro de artesanato, à sala de informática e ao cinema.

Dominique se abriga sob o toldo de alumínio que se estende da passarela do terceiro andar quando vê as nuvens cinzentas chegando do leste. Duas dúzias de internos abandonam o jardim quando os primeiros pingos de chuva vespertina começam a martelar o toldo.

Uma figura solitária fica para trás.

Mick Gabriel continua percorrendo o perímetro do jardim, com as mãos enfiadas no fundo dos bolsos. Ele sente o ar úmido esfriando quando as nuvens se abrem no céu. Em segundos, está imerso no aguaceiro, seu uniforme branco encharcado, aderindo ao corpo magro e definido.

Ele continua andando, seu ensopado tênis de lona afundando na grama macia, suas meias molhadas fazendo barulho ao andar. A cada passo, recita o nome de um ano do calendário maia, um exercício mental que usa para manter sua mente afiada. Três Ix, quatro Cauac, cinco Kan, seis Muluc...

Os olhos escuros se concentram na parede de concreto, procurando por falhas, sua mente, em busca de opções.
Dominique o observa através de um véu de chuva, sentindo remorso. Você estragou tudo. Ele confiava em você. Agora acha que você o traiu.

Foletta se aproxima. Acena para vários internos curiosamente exultantes e vai falar com ela.

— Ele ainda se recusa a falar com você? Dominique balança a cabeça.

— Já faz quase duas semanas. Todo dia é a mesma coisa. Ele toma café, vai pra minha consulta e olha pro chão por uma hora. Quando chega ao jar¬dim, anda pra lá e pra cá até a hora do jantar. Nunca se mistura com os outros internos e nunca diz uma palavra. Só anda.

— Ele devia era ficar agradecido. Afinal, você é a responsável pela nova liberdade dele.

— Isso não é liberdade.

— Não, mas depois de 11 anos na solitária é um grande passo.

— Acho que ele realmente acreditava que eu podia tirá-lo daqui. A expressão de Foletta o denuncia.

— O que foi, doutor? Ele tinha razão? Eu poderia...

— Ei, calma aí, residente. O Mick Gabriel não vai a lugar nenhum, pelo menos não agora. Como você mesma viu, ele ainda é muito instável e representa uma ameaça tanto pra si próprio quanto para os outros. Continue trabalhando com ele, o encoraje a participar da terapia. Tudo pode acontecer.

— Você ainda está pensando em designar uma equipe de reabilitação, não está?

— Nosso acordo é pra janeiro, isso, se ele se comportar. Você devia falar com ele sobre isso.

— Eu tentei. — Ela olha Mick passando pelo lance de escadas diretamente abaixo deles. — Ele não confia mais em mim.

Foletta lhe dá uns tapinhas no ombro.

— Conforme-se.

— Eu não estou fazendo bem a ele. Talvez ele precise de alguém com mais experiência.

— Bobagem. Vou dizer aos enfermeiros para não deixá-lo sair do quarto a menos que ele participe ativamente das sessões de terapia.

— Forçá-lo a falar não vai ajudar em nada.

— Isso não é um clube de recreação, residente. Temos regras. Se um interno se recusa a cooperar, perde os privilégios. Já vi casos assim. Se você não agir agora, o Mick vai se encolher dentro da própria mente e você vai perdê-lo pra sempre.

Foletta chama um enfermeiro.

— Joseph, tire o sr. Gabriel da chuva. Não podemos deixar que nossos internos fiquem doentes.

— Não, espere, ele é meu paciente. Eu vou buscá-lo. — Dominique enrola o cabelo num coque, tira os sapatos e desce os dois lances de escada até o jardim. Ela já está encharcada ao alcançar Mick. — E aí, companheiro, posso te fazer companhia?

Ele a ignora.

Dominique aperta o passo, a chuva bombardeando o seu rosto.

— Vamos, Mick, fale comigo. Passei a semana inteira pedindo desculpas. O que queria que eu fizesse? Eu precisava assinar o relatório do Foletta.

Ela ganha um olhar duro.

A chuva aumenta, obrigando-a a gritar.

— Mick, espere.

Ele continua andando.

Ela corre, passando por ele, e fica em pose de luta, com os punhos erguidos, impedindo a passagem.

— Não me obrigue a te dar porrada.

Mick pára. Ele ergue os olhos, a chuva escorrendo por seu rosto anguloso.

— Você me decepcionou.

— Me desculpe — murmura ela, baixando os punhos. — Por que mentiu pra mim sobre o ataque do vigia?

Com uma expressão de dor, ele responde.

— Então você não julga mais o que é verdade com seu coração, mas com sua ambição. É isso? Pensei que fôssemos amigos.

Ela sente um nó crescendo em sua garganta.

— Eu quero ser sua amiga, mas também sou sua psiquiatra. Fiz o que pensei ser o melhor.

— Dominique, prometi que nunca mentiria pra você. — Ele levanta a cabeça, apontando para a cicatriz em seu maxilar. — Antes de tentar me estuprar, o Griggs ameaçou cortar minha garganta.

Foletta, seu desgraçado.

Meu Deus, Mick, me desculpe. Naquela consulta, quando você perdeu o controle...

— Foi culpa minha. Fiquei agitado. Estou trancado há tanto tempo... Às vezes... bom, às vezes é difícil me manter calmo. Não sou muito sociável, mas juro que jamais machucaria você.

Ela vê lágrimas nos olhos dele.

— Eu acredito em você.

— Sabe, poder sair um pouco me ajudou. Me fez pensar sobre muitas coisas... meio egocêntricamente, na verdade. Minha infância, o modo como fui criado... como vim parar aqui e se um dia vou sair. Tem tanta coisa que eu nunca fiz... tantas coisas que eu mudaria, se pudesse. Eu amava meus pais, mas pela primeira vez me dei conta de que realmente odeio o que eles fizeram. Odeio o fato de nunca terem me dado uma chance de escolher...

— Não escolhemos nossos pais, Mick. O importante é que você não se culpe. Nenhum de nós tem controle sobre o jogo ou as cartas que recebemos. O que temos é total responsabilidade sobre como jogamos com essas cartas. Acho que posso ajudar você a recuperar esse controle.

Ele se aproxima, a chuva escorrendo dos lados do seu rosto.

— Posso te fazer uma pergunta pessoal?

— Pode.

— Você acredita em destino?



— Destino?

— Você acha que nossa vida, nosso futuro foi... Não, deixa pra lá, esquece...

— Se eu acho que o que acontece com a gente está predestinado?

— É.


— Acho que temos escolhas. Acho que depende de nós escolhermos o destino certo.

— Você já se apaixonou por alguém?

Ela olha, involuntariamente, em seus olhos brilhantes e carentes.

— Já cheguei perto algumas vezes. Mas nunca parecia dar certo. — Ela sorri. — Acho que eles não faziam parte do meu destino.

— Se eu não estivesse... aprisionado. Se a gente tivesse se conhecido em circunstâncias diferentes. Você acha que poderia me amar?

Merda... Ela engole em seco, sua pulsação fazendo o fundo de sua garganta tremer.

— Mick, vamos sair da chuva. Venha...

— Tem alguma coisa especial em você. Não é só atração física, é como se eu já te conhecesse, ou tivesse te conhecido em outra vida.

— Mick...

— Às vezes eu tenho algumas premonições. Tive uma na primeira vez em que vi você.

— Você disse que era o perfume.

— Era algo mais. Não consigo explicar. Só sei que gosto de você, e os sentimentos são um pouco confusos.

— Mick, estou lisonjeada, de verdade, mas acho que você tem razão. Seus sentimentos estão confusos, e...

Ele sorri tristemente, ignorando as palavras dela.

— Você é tão linda. — Inclinando-se, ele toca sua face, depois estica o braço e solta os seus cabelos negros.

Ela fecha os olhos, sentindo o cabelo se desenrolar em suas costas e tornar-se pesado com a chuva. Pare com isso! Ele é seu paciente, um paciente psiquiátrico, meu Deus.

— Mick, por favor. O Foletta está olhando. Vamos entrar? A gente pode conversar lá dentro...

Ele a olha com seus olhos melancólicos, revelando uma alma torturada pela beleza proibida.

— "Ela é que ensina as tochas a brilhar. E no rosto da noite tem um ar de joia rara em rosto de carvão..."

— O que você disse? — Dominique sente as rápidas batidas de seu coração.

— Romeu e Julieta. Era o que eu lia pra minha mãe quando ela estava de cama. — Ele levanta a mão dela, aproximando-a dos seus lábios. — "Para com a mão dela, a minha abençoar. Já amei antes? Não, tenho certeza; pois nunca havia eu visto tal beleza."

A chuva para. Ela vê dois enfermeiros se aproximando.

— Mick, escute. Obriguei o Foletta a te designar uma equipe de reabilitação. Você tem a chance de sair daqui em seis meses.

Mick sacode a cabeça.

— A gente não vai ver esse dia, meu amor. Amanhã é o equinócio de outono... — Ele se vira e fica ansioso ao avistar os homens de branco. — Leia o diário do meu pai. O destino do mundo está prestes a cruzar outro limiar, empurrando a espécie humana pro alto da lista das espécies em extinção...

Os dois enfermeiros seguram seus braços.

— Ei, não o machuquem!

Mick se vira para olhá-la enquanto é arrastado, a umidade saindo de seu corpo como vapor.

— "A voz do amor na noite é som de prata, parece música a quem o escuta." Você está no meu coração, Dominique. O destino nos uniu. Posso sentir. Posso sentir...

Diário de Julius Gabriel
Antes de continuarmos nossa viagem pela história do homem, me permitam apresentar um termo desconhecido da maioria do público: arqueologia proibida. Parece que, quando o assunto é a origem e a antiguidade do homem, a comunidade científica nem sempre tem a mente aberta para provas que possam contradizer os modelos de evolução já estabelecidos. Em outras palavras, às vezes é mais fácil simplesmente refutar os fatos do que tentar pensar numa explicação plausível ao que não pode ser explicado.

Ainda bem que Colombo usou um mapa de Piri Reis em vez da versão aceita na Europa, senão ele teria navegado para fora da beira do mundo.

Quando o homem acha que sabe tudo, ele para de aprender. Essa infeliz realidade levou à supressão de muitas pesquisas importantes. Como ninguém consegue publicar nada sem a aprovação de uma grande universidade, torna-se quase impossível desafiar as visões dominantes de uma época. Vi colegas cultos tentarem fazê-lo e amargarem o ostracismo, suas reputações destruídas e suas carreiras arruinadas, embora as provas que corroboravam seus polêmicos pontos de vista parecessem irrefutáveis.

Os egiptólogos egípcios são os piores. Odeiam quando cientistas tentam desa¬fiar a história aceita de seus sítios arqueológicos, e se tornam especialmente perversos quando estrangeiros questionam a idade e a origem de suas estruturas monolíticas.

Isso nos traz para os métodos de datação, o aspecto mais polêmico da Arqueologia. O uso da datação por carbono-14 em ossos e resíduos de carvão é tão fácil quanto exato, mas a técnica não pode ser aplicada à pedra. Em decorrência disso, os arqueólogos muitas vezes datam um sítio de acordo com outros achados mais datáveis encontrados nos arredores da escavação ou, quando nenhum é encontrado, datam meramente por conjectura, levando a uma larga margem de erro humano.

Tendo afirmado isso, voltemos à nossa viagem através da História e do tempo.


Foi algum tempo depois do Grande Dilúvio que as primeiras civilizações começaram a aparecer por todo o mundo. O que aceitamos agora como verdade ê que a História escrita começou na Mesopotâmia, no vale dos rios Tigre e Eufrates, por volta de 4.000 a.C., com alguns dos mais antigos restos urbanos encontrados em Jericó remontando até 7.000 a.C. Mas novas evidências indicam agora que outra civilização, uma civilização superior, havia florescido ainda antes, às margens do rio Nilo. E foi essa cultura mais antiga e seu sábio líder que nos deixaram a primeira das misteriosas maravilhas que podem salvar nossa espécie da aniquilação.

Há muitos templos, pirâmides e monumentos espalhados pela paisagem egípcia, mas nenhum se compara às maravilhas magníficas construídas em Gizé. E aqui, na margem ocidental do Nilo, que um plano arquitetônico incrível foi traçado, consistindo na Esfinge, seus dois templos e as três grandes pirâmides do Egito.

For que estou falando das grandes pirâmides de Gizé? Como esses monumentos antigos podem estar relacionados com o calendário maia e a cultura mesoamericana, situada do outro lado do mundo?

Depois de três décadas de pesquisa, finalmente percebi que, para desvendar o profético enigma do Juízo Final, é preciso deixar de lado as idéias preconcebidas de tempo, distância, culturas e impressões superficiais, para assim analisar as pistas antigas que cercam o grande mistério da humanidade.

Permitam-me um momento para me aprofundar.

As maiores e mais inexplicáveis estruturas já erguidas pelo homem são as pirâmides de Gizé, os templos de Angkor, localizados nas selvas do Camboja, as pirâmides na antiga cidade mesoamericana de Teotihuacán (também conhecida como "lugar dos deuses"), Stonehenge, os desenhos de Nazca, as ruínas de Tiahuanaco e a pirâmide de Kukulcán em Chichén Itzá. Cada uma dessas maravilhas antigas, construídas por diferentes culturas, em diferentes partes do mundo, durante períodos muito diferentes da pré-história do homem, está, ainda assim, ligada ao fim da humanidade mencionado no calendário maia. Todos os arquitetos e engenheiros que construíram essas cidades possuíam um vasto conhecimento de Astronomia e Matemática, que facilmente excedia o cabedal existente em sua época. Além disso, a localização de cada uma das estruturas antigas foi cuidadosamente planejada de acordo com o equinócio e o solstício e, por incrível que pareça, com as outras estruturas, pois se alguém desejasse dividir a superfície do nosso planeta usando marcos distintos, essas estruturas facilmente cumpririam a tarefa.

Mas é aquilo que não podemos ver que eternamente liga essas estruturas maciças umas às outras, pois no âmago de seu projeto reside uma equação matemática comum que demonstra um conhecimento avançado — o conhecimento da precessão.

Mais uma vez, uma breve explicação:

À medida que flutua pelo espaço em sua jornada anual ao redor do Sol, nosso planeta gira sobre seu eixo uma vez a cada 24 horas. Quando a Terra gira, a atração gravitacional da Lua a faz inclinar-se aproximadamente 23,5 graus na vertical. Somando a atração gravitacional do Sol sobre a saliência equatorial do nosso planeta, temos uma oscilação do eixo da Terra, parecida com a de um pião girando. Essa oscilação é chamada de precessão. Uma vez a cada 25.800 anos, o movimento do eixo traça um círculo no céu, relocalizando a posição dos poios e equinócios celestiais. Esse desvio gradual para o oeste também faz com que os signos do zodíaco não correspondam mais às suas respectivas constelações.

O astrônomo e matemático grego Hiparco é considerado o descobridor da precessão em 127 a.C. Hoje sabemos que os egípcios, maias e hindus já entendiam a precessão centenas, se não milhares, de anos antes.

No início da década de 1990, a arqueoastrônoma Jane Sellers descobriu que o mito de Osíris do Egito antigo continha chaves numéricas que os egípcios usavam para calcular os vários graus de precessão da Terra. Dessas chaves, um conjunto de dígitos em particular se destacava: 4320.

Mais de mil anos antes do nascimento de Hiparco, os egípcios e maias, de alguma forma, haviam conseguido calcular o valor de pi, a razão do diâmetro de um círculo, uma esfera ou um hemisfério para a sua circunferência. Com 146,729 metros, a altura da Grande Pirâmide, multiplicada por 2pi, éprecisamente igual à sua base (921,46 metros). Por incrível que pareça, o perímetro da pirâmide equivale ao diâmetro da Terra com um erro de 6 metros, quando as dimensões do nosso planeta são reduzidas numa razão de 1:43.200, números que representam nosso código matemático de precessão. Usando a mesma razão, o raio polar da Terra equivale à altura da pirâmide.

Resulta que a Grande Pirâmide é um marcador geodésico localizado quase exatamente no 30º paralelo. Se suas medidas fossem projetadas numa superfície plana (com o ápice representando o Polo Norte e o perímetro, o equador) as dimensões do monumento equivaleriam ao Hemisfério Norte, reduzido para, mais uma vez, 1:43.200.

Sabemos que o Sol equinocial leva 4.320 anos para completar um movimento precessional de duas constelações zodiacais ou 60 graus. Esse número multiplicado por cem é igual 43.200, o número de dias que no Calendário Longo Maia equivale a 6 Katuns, um dos valores numéricos chave que os antigos maias usavam quando eles calculavam a precessão. Um ciclo completo de precessão leva 25.800 anos. Se somarmos todos os anos dos cinco ciclos do Popol Vuh, o período de tempo equivale exatamente a um ciclo precessional.


Escondidos dentro da densa selva de Kampuchea, no Camboja, estão os magníficos Templos Hindus de Angkor. Os baixos-relevos e estátuas que abundam no conjunto incluem símbolos precessionais, sendo os mais populares uma serpente gigante (Naga), com seu corpo enrolado em volta de uma montanha sagrada no oceano leitoso, ou Via Láctea. As duas extremidades da serpente estão sendo usadas como corda numa competição cósmica de cabo de guerra entre duas equipes: uma representando a luz e o bem, a outra, as trevas e o mal. Esse movimento, combinado com a rotação da Via Láctea, representa a interpretação hindu da precessão. As Puranas, escrituras sagradas dos hindus, referem-se às quatro idades da Terra como Yugas. Nossa Yuga atual, a Kali Yuga, tem uma duração de 432 mil anos mortais. No final dessa época, as escrituras dizem que a humanidade irá ao encontro da destruição.

Egípcios, maias e hindus antigos — três culturas distintas localizadas em partes distintas do mundo, cada uma existindo num período diferente do nosso passado. Três culturas que compartilhavam um conhecimento avançado da ciência, cosmologia e matemática, e usavam sua sabedoria para criar misteriosas maravilhas arquitetônicas, cada estrutura construída para um único propósito oculto.

As mais velhas entre essas estruturas são as grandes pirâmides de Gize e sua guardiã atemporal, a Esfinge. Localizada a noroeste do templo conhecido como Casa de Osíris, a magnífica figura de calcário do leão com cabeça de gente é a maior escultura do mundo, com a altura de um prédio de seis andares e 73 metros de comprimento. A própria criatura é um marco cósmico, com seu olhar orientado precisamente para o leste, como se esperando o Sol nascer.

Qual a idade do complexo de Gizé? Egiptólogos garantem a data de 2.475 a.C. (um período que, por acaso, se encaixa no folclore egípcio). Por muito tempo, foi difícil discutir isso, pois nem as Grandes Pirâmides nem a Esfinge deixaram nenhum marco determinante.

Era o que pensávamos.

Aparece o estudioso americano John Anthony West. West descobriu que a vala de 7 metros e meio de profundidade que rodeia a Esfinge exibe sinais inconfundíveis de erosão. Investigando mais, um grupo de geólogos determinou que os danos não haviam sido causados pelo vento ou pela areia, mas unicamente pela chuva.

A última vez que o vale do Nilo viu esse tipo de clima foi há uns 13 mil anos, resultado da Grande Inundação que aconteceu no final da última era glacial. No ano 10.450 a.C., Gizé não era apenas fértil e verde, mas seu céu oriental também ficava em frente à própria figura que a Esfinge retrata, a constelação de Leão.

Enquanto tudo isso acontecia, Robert Bauval, engenheiro civil belga, percebeu que as três pirâmides de Gizé (quando vistas do alto) estavam precisamente alinhadas com as três estrelas do cinturão de Órion.



Usando um sofisticado programa de computador projetado para calcular todos os movimentos precessionais de qualquer vista do céu noturno em qualquer localização geográfica, Bauval descobriu que, embora as pirâmides de Gizé e as estrelas do cinturão de Órion estivessem um tanto alinhadas em 2.475 a.C., um alinhamento infinitamente mais preciso havia acontecido em 10.450 a.C. Nessa época, a faixa escura da Via Láctea não só aparecia sobre Gizé, mas espelhava o curso meridional do rio Nilo.

Conforme já mencionei, os antigos maias consideravam a Via Láctea uma serpente cósmica, e chamavam sua faixa escura de Xibalba Be, a Estrada Negra para o Mundo Inferior. Tanto o calendário maia quanto o Popol Vuh se referem aos conceitos de criação e morte como originários desse canal cósmico de nascimento.

Por que as três pirâmides de Gizé estão alinhadas com o cinturão de Órion? Qual o significado do número precessional 4.320? Qual foi a verdadeira motivação que impeliu nossos ancestrais a construir os monumentos de Gizé, as pirâmides de Teotihuacán e os templos de Angkor?

Como esses três locais estão ligados à profecia maia do Juízo Final?

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,


Ref. Catálogo 1993-94 páginas 3-108

Disquete 4: Nome do arquivo: ORION-12


5

23 DE SETEMBRO DE 2012

MIAMI, FLÓRIDA

3h30
O sonho de Michael Gabriel se transforma em terror noturno. Pior do que qualquer pesadelo, é um sonho violento e recorrente que toma conta de seu subconsciente — um murmúrio em seu cérebro que o leva de volta a um momento crucial de seu passado.

Ele está de volta ao Peru, um menino de novo, com menos de 12 anos. Olhando pela janela de seu quarto para a sonolenta aldeia de Ingenio, ele escuta as vozes abafadas que vêm do quarto ao lado. Ouve seu pai falando com o médico em espanhol. Ouve seu pai soluçando. A porta se abre. — Michael, entre, por favor.

Mick sente o cheiro da doença. E um cheiro rançoso, um odor de lençóis suados e frascos de soro, de vômito, dor e angústia.

Sua mãe jaz na cama, seu rosto amarelado. Ela o olha com seus olhos melancólicos e aperta-lhe a mão fracamente.

— Michael, o médico vai te ensinar a administrar os remédios da sua mãe. É muito importante que você preste bastante atenção e faça tudo corretamente.

O médico de cabelos prateados olha para ele.

— Ele é um pouco jovem, Señor...

— Mostre a ele.

O médico puxa os lençóis, revelando um cateter venoso central saindo do ombro direito enfaixado de sua mãe. Mike vê o tubo e sente medo.

— Papai, por favor, a enfermeira não pode...?

— Não podemos mais pagar a enfermeira, e eu preciso completar o meu trabalho em Nazca, já conversamos sobre isso, filho. Você consegue. Eu vou estar em casa toda noite. Agora se concentre e preste atenção no que o médico vai mostrar.

Mick fica ao lado da cama, olhando de perto o médico enchendo a seringa com morfina. Ele memoriza a dose e sente seu estômago revirar quando a agulha é injetada no cateter, os olhos da mãe virando para cima...

— Não! Não! Não!

Os gritos de Michael Gabriel acordam todos os internos do núcleo.


Espaço Profundo
A sonda leve Expresso Plutão-Kuiper voa pelo espaço, há oito anos, dez meses e 13 dias de casa, a apenas 58 dias e 11 horas de seu destino: o planeta Plutão e sua lua, Caronte. Com a aparência de uma antena parabólica high-tech, o aparato científico continua a transmitir seu sinal não codificado para a Terra através de sua antena de alto ganho de um metro e meio.

Sem aviso, um imenso oceano de energia eletromagnética radiante corta o espaço na velocidade da luz, e a porção inferior de um pulso de hiperondas banha o satélite em sua transmissão de alta potência. Num nanossegundo, o subsistema de telecomunicações e os circuitos integrados monolíticos de micro-ondas (CIMMs) são completamente torrados.


NASA:

Laboratório de Rede do Espaço Profundo
14h06
Jonathan Lunine, chefe da equipe científica da Expresso Plutão, se apoia numa fileira de bancadas de controles da missão, ouvindo distraidamente oengenheiro, dr. Jeremy Armentrout, dirigindo-se aos novos membros da equipe de terra.

— ... a antena de alto ganho da EPK transmite continuamente um entre três tons possíveis. Eles se traduzem, essencialmente, como: está tudo bem, os dados estão prontos para a transmissão, ou há um problema sério que precisa de atenção imediata. Nos últimos oito anos, esses sinais foram monitorados por...

Lunine suprime um bocejo. Os três turnos consecutivos de 18 horas se fazem sentir, e ele está mais do que pronto para começar o fim de semana. Mais uma hora na sala de reuniões, depois casa e cochilo. O Redskins pega o Eagles amanhã, esse jogo vai ser bom...

— Jon, posso falar com você, por favor?

Um técnico está de pé ao lado de seu console, fazendo sinais urgentes. Lunine nota gotas de suor na testa do homem. Os operadores dos dois lados parecem trabalhar febrilmente.

— Qual a situação?

— Perdemos contato com a EPK.

— Vento solar?

— Desta vez não. Meu painel mostra uma sobrecarga maciça de energia que afeta todo o sistema de comunicações do SDST e dos dois computadores de voo. Sensores, dispositivos eletrônicos, corretores de atitude... tudo inoperante. Pedi uma análise completa de sistemas, mas só Deus sabe como isso está afetando a trajetória da EPK.

— E os sistemas de reserva?

— Todos inoperantes.

— Droga. — Armentrout esfrega a têmpora. — A prioridade, claro, é restabelecer contato. Também é fundamental relocalizar e continuar rastreando a sonda antes que passe muito tempo e a gente perca a EPK no espaço.

— Você tem alguma sugestão?

— Lembra quando perdemos contato por um mês com o SOHO no verão de 1998? Conseguimos localizá-lo antes de restabelecer contato. Transmitimos sinais de rádio para o satélite com a antena grande de Arecibo e captamos os ecos com a antena da NASA na Califórnia.

— Vou ligar para Arecibo.
Centro Nacional de Astronomia e Ionosfera

Arecibo, Porto Rico
— Entendido, Jon. — Robert Pasquale, diretor de operações de Arecibo, desliga o telefone, depois assoa o nariz pela enésima vez antes de interfonar para seu assistente. — Arthur, venha aqui, por favor.

O astrofísico Arthur Krawitz entra no escritório do diretor.

— Meu Deus, Bob, você está um trapo.

— É essa maldita sinusite. Primeiro dia do outono e a minha cabeça já está latejando. Aqueles astrônomos russos já terminaram com a antena grande?

— Há uns dez minutos. O que aconteceu?

— Acabei de receber um chamado de emergência da NASA. Parece que eles perderam contato com a Plutão-Kuiper e querem que a gente ajude a localizá-la. Estão mandando as últimas coordenadas válidas da sonda pro seu computador e pedem que a gente use a antena grande pra mandar um feixe de rádio pro espaço. Com sorte, a NASA vai conseguir detectar um eco usando a antena grande de Goldstone.

— Vou cuidar disso. Ah, e a SETI? Você sabe que o Kenny Wong vai querer ficar na escuta usando os receptores da SERENDIP. Não vai dar problema se...?

— Ah, Arthur, estou me lixando. Se o garoto quer passar o resto da vida esperando o ET ligar, não tenho nada a ver com isso. Se você precisar de mim, estarei no meu quarto enchendo a cara de remédio.


Quando a Escola de Engenharia da Universidade de Cornell teve a idéia de construir o radiotelescopio mais potente do mundo, procurou durante anos um local que oferecesse uma depressão geológica natural com as dimensões aproximadas de um gigante prato refletor. O local precisava estar sob a jurisdição dos Estados Unidos, e como o prato não se mexeria, sua localização também precisava estar o mais perto possível do equador, para que a Lua e os planetas aparecessem quase totalmente a pino. Essa busca levou ao desfiladeiro de montanhas calcárias de carste do norte de Porto Rico, uma área verdejante e isolada, com vales profundos rodeados por enormes colinas que protegeriam o telescópio de qualquer radiointerferência.

Completado em 1963, com reformas em 1974, 1997 e 2010, o telescópio de Arecibo parece, para quem o visita pela primeira vez, uma enorme estrutura alienígena de aço e concreto. O prato de 300 metros de diâmetro, formado por quase 40 mil painéis perfurados de alumínio, tem o lado côncavo para cima, preenchendo toda a bacia de carste como uma gigante saladeira de 51 metros de profundidade. Pendurados 130 metros acima do centro do prato estão o braço de azimute do radiotelescopio, o telescópio gregoriano e as antenas secundária e terciária. Essa teia de aço de 600 toneladas é mantida suspensa por 12 cabos presos a três imensos obeliscos de sustentação e numerosos blocos de ancoragem localizados no perímetro do vale.

Construído na encosta calcária montanhosa que tem vista para o telescópio, o laboratório de Arecibo é um prédio de concreto que abriga os computadores e equipamentos técnicos usados para controlar a instalação. Ao lado do laboratório ficam quatro andares de dormitórios com refeitório e biblioteca, bem como uma piscina aquecida e uma quadra de tênis.

O gigantesco telescópio de Arecibo foi projetado para ser usado por cientistas em quatro campos diferentes. Radioastrônomos usam a antena para analisar as radioemissões naturais de galáxias, pulsares e outros corpos celestes a até 10 milhões de anos-luz de distância. Astrônomos especializados em radar vêm a Arecibo para lançar poderosos feixes de rádio contra objetos dentro do nosso sistema solar e depois gravar e estudar os ecos. Cientistas atmosféricos e astrônomos usam o telescópio para estudar a ionosfera da Terra, analisando a atmosfera e sua relação dinâmica com o nosso planeta.

O último campo de estudo envolve o programa SETI, ou Busca de Inteligência Extraterrestre. O objetivo da SETI é localizar vida inteligente no cosmos usando a abordagem em duas frentes. A primeira é lançar transmissões de rádio para o espaço profundo na esperança de que um dia alguma espécie inteligente receba nossa mensagem de paz. A segunda usa o telescópio gregoriano e suas duas antenas menores para receber ondas de rádio vindas do espaço profundo, tentando distinguir nelas padrões inteligíveis para provar que não estamos sós no universo.

Os astrônomos se referem à tarefa de buscar sinais de rádio na imensidão do espaço como procurar uma agulha no palheiro cósmico. Para simplificar a busca, o prof. Frank Drake e seus colegas do Projeto Ozma, fundadores da SETI, concluíram que qualquer vida inteligente existente no cosmos teria (logicamente) que ser associada à água. Com tantas frequências de rádio à disposição, os astrônomos supuseram que uma inteligência extraterrestre emitiria seus sinais de rádio em 1,42 gigahertz, o ponto do espectro eletromagnético no qual a energia é liberada pelo hidrogênio. Drake batizou essa região de espectro de olho-d'água, e desde então ela tem sido o único alvo da caça por sinais de rádio interestelares.

Um projeto adjunto da SETI é a SERENDIP, ou Busca por Emissões de Rádio Extraterrestre de Populações Próximas Desenvolvidas e Inteligentes. Como o tempo de telescópio é caro e difícil de se obter, a SERENDIP simplesmente acopla seus receptores à antena maior durante todas as observações. A principal limitação desses cientistas da SETI é que eles não escolhem o que vão escutar. Seus alvos são escolhidos pelo anfitrião.
Kenny Wong está no terraço localizado à frente das grandes janelas panorâmicas do laboratório. Emburrado, o estudante de graduação de Princeton se apoia no balaústre e olha para o emaranhado de metal e cabos suspensos sobre o centro da grande antena.

Essa porra de NASA. Além de cortar o nosso orçamento, fica monopolizando o telescópiopra localizar aquela droga de sonda...

— Ei, Kenny...

Captar sinais é perda de tempo se não for no olho-d'água. Eu devia ir à praia, não adianta porra nenhuma ficar aqui...

— Kenny, vem pra cá, caramba. O seu equipamento está me dando dor de cabeça!

— Hã?

O estudante corre para dentro do laboratório, seu coração batendo forte quando ele ouve um som que jamais ouviu antes.



— Essa droga de computador está tocando esse bipe faz cinco minutos. — Arthur Krawitz tira os óculos bifocais e lhe lança um olhar furioso. — Dá pra desligar essa merda? Está me deixando louco.

Kenny o empurra e digita comandos freneticamente para ativar o programa de busca e identificação do computador. O programa SERENDIP-IV consegue examinar simultaneamente 168 milhões de frequências a cada 1,7 segundo.

Em segundos, uma resposta surge na tela, deixando-o sem fôlego.
Sinal Candidato: Detectado
— Meu Deus do céu...

Kenny corre para o analisador de espectro, com o coração latejando em seus ouvidos. Ele verifica que o sinal analógico está sendo gravado e formatado digitalmente.


Sinal Candidato: Não Aleatório
— Jesus Cristo... é um sinal de verdade! Puta que pariu, Arthur, preciso ligar pra alguém, preciso verificá-lo antes que a gente o perca!

Arthur cai na gargalhada.

— Kenny, é só a sonda Plutão. A NASA deve ter restabelecido a comunicação.

— O quê? Ah, merda. — Kenny desmorona numa cadeira, sem fôlego. — Meu Deus, por um momento achei...

— Por um momento, você pareceu o Curly, dos Três Patetas. Fique sentado aí e se acalme enquanto eu ligo pra NASA e verifico, certo?

— Certo.


O físico aperta uma tecla pré-programada em seu videocomunicador, que o coloca em ligação direta com a NASA. O rosto do dr. Armentrout aparece no monitor.

— Arthur, é bom ver você. Ei, obrigado por nos ajudar.

— Obrigado por quê? Vi que já restabeleceram contato com a EPK.

— Negativo, continua tudo morto aqui. O que te fez pensar isso?

Kenny pula da cadeira.

— NASA, aqui é Kenny Wong, da SETI. Estamos recebendo uma transmissão de rádio do espaço profundo. Achamos que fosse a EPK.

— O sinal não é nosso, mas não se esqueça que a sonda Plutão usa onda portadora não codificada. Tem muito engraçadinho por aí, SETI. Qual a frequência do sinal?

— Um momento. — Kenny volta para o seu computador e digita uma série de comandos. — Caramba, é em 4.320 MHz. Porra, Arthur, essa faixa de micro-ondas é alta demais pra ser de qualquer telecomunicação terrestre, ou mesmo de um satélite geossíncrono. Espere um pouco, vou pôr o sinal nos alto-falantes pra gente ouvir.

— Kenny, espere...

Um tom agudo perfurante sai dos alto-falantes, a explosão sonora pulveriza os óculos de Arthur e faz as vidraças trepidarem nos caixilhos.

Kenny puxa o cabo, esfregando os ouvidos.

Arthur olha para os cacos de vidro em suas mãos.

— Inacreditável. Qual a potência do sinal? De onde está vindo?

— Ainda estou calculando a origem, mas a potência está totalmente fora da minha escala. E um brilho de rádio cerca de mil vezes mais forte do que qualquer coisa que podemos transmitir de Arecibo. — Um arrepio percorre a espinha de Kenny. — Cacete, Arthur, é pra valer, é de verdade!

— Calma aí um minuto. Antes que a gente vire os Patetas do milênio, comece a verificar o sinal. Comece com o Very Large Array, no Novo México. Vou entrar em contato com a Universidade de Ohio...

— Arthur...

Krawitz se vira para o videocomunicador.

— Pode falar, Jeremy.

Meia dúzia de técnicos se aglomeram em volta de um pálido dr. Armentrout.

— Arthur, acabamos de confirmar o sinal.

— Vocês confirmaram... — Krawitz se sente meio zonzo, como se estivesse vivendo um sonho. — Já localizaram a origem?

— Ainda estamos tentando. Estamos recebendo muita interferência por causa da...

— Arthur, já tenho uma trajetória preliminar! — Kenny está de pé, empolgado. — O sinal está vindo da constelação de Órion, em algum lugar nas proximidades do cinturão.
Chichén Itzá

Península de Yucatán
16h00
A antiga cidade maia de Chichén Itzá, localizada nas terras baixas da península de Yucatán, é uma das grandes maravilhas arqueológicas do mundo. Várias centenas de construções ocupam esse sítio de 1.200 anos cercado pela selva, incluindo alguns templos e santuários com as esculturas mais intrincadas de toda a Mesoamérica.

As verdadeiras origens da cidade conhecida como Chichén remontam a 435 d.C. Depois de um período de abandono, a cidade foi redescoberta pelos itzás, uma tribo que falava o idioma maia e ocupou a região até o final do século VIII, quando os toltecas migraram para o leste de Teotihuacán. Sob a tutela e liderança do grande mestre, Kukulcán, as duas culturas se fundiram e a cidade floresceu, dominando a região como um centro religioso, cerimonial e cultural. A partida de Kukulcán no século XI levaria à decadência da cidade, seu povo perdido, levado por sua depravação a formas diabólicas de sacrifício humano. Por volta do século XVI, o pouco que restava da cultura havia caído rapidamente sob o domínio dos espanhóis.

Dominando Chichén Itzá está, possivelmente, a estrutura mais magnífica de toda a Mesoamérica: a pirâmide de Kukulcán. Apelidada de El Castillo pelos espanhóis, esse imponente zigurate de nove terraços se ergue quase 30 metros acima de um campo aberto de grama baixa.

Kukulcán é bem mais do que uma pirâmide — é um calendário de pedra. Cada um de seus quatro lados tem 91 degraus. Com a plataforma, o total perfaz 365, igual aos dias do ano.

Para arqueólogos e cientistas, a pirâmide de cor encarnada continua um enigma, pois seu projeto revela um conhecimento de Astronomia e Matemática que rivaliza com o do homem moderno. A estrutura foi geologicamente alinhada de tal maneira que duas vezes ao ano, nos equinócios da primavera e do outono, estranhas sombras começam a ondular ao longo da balaustrada norte. À medida que o sol do fim de tarde se põe, a enorme sombra de um corpo de serpente começa a deslizar pelos degraus até se encontrar com sua cabeça esculpida, que jaz na base da estrutura. (Na primavera, a serpente desce a balaustrada; no outono, a ilusão é invertida.)

No alto da pirâmide fica um templo de quatro lados, inicialmente usado para adoração, e somente mais tarde, depois da partida de Kukulcán, para sacrifícios humanos. Erguida, segundo se acredita, em 830 d.C., Kukulcán foi originalmente construída sobre uma estrutura muito mais antiga, cujas ruínas só podem ser acessadas por meio de um portão localizado na base norte. Uma passagem claustrofóbica leva a uma escada estreita, cujos degraus de calcário ficam lisos com a umidade. Subindo a escada, chega-se a duas pequenas câmaras interiores. A primeira contém a figura reclinada de um Chac Mool, uma estátua maia segurando uma bandeja cerimonial cuja função era conter os corações das vítimas dos sacrifícios. Atrás da cerca de segurança da segunda câmara fica o trono de um jaguar vermelho, com verdes olhos brilhantes de jade.


Brent Nakamura aperta a tecla que elimina imagens tremidas, e então, com sua câmera de vídeo Sony, faz uma panorâmica pelo mar de corpos suados. Meu Deus, deve ter umas 100 mil pessoas aqui. Vou ficar um tempão preso no trânsito.

O rapaz de San Francisco aponta a câmera para a balaustrada norte, fechando o zoom na sombra da cauda da serpente, que continua sua jornada de 202 minutos pela parede calcária da pirâmide de 1.200 anos.

O aroma acre de suor humano paira pesadamente na tarde úmida. Nakamura grava um casal canadense discutindo com dois funcionários do parque, depois desliga a câmera quando um turista alemão e sua família se apertam para passar por ele.

Olhando para o relógio, Nakamura decide que é melhor fazer algumas imagens do cenote sagrado antes que escureça. Depois de passar por cima de uma miríade de pessoas fazendo piquenique, ele ruma para o norte pelo antigo sacbe, um caminho elevado de terra bem perto da face norte de Kukulcán.

O sacbe é o único meio de correr pela densa selva para chegar ao segundo lugar mais sagrado de Chichén Itzá — um poço de água doce conhecido como cenote, ou poço maia de sacrifício.

Cinco minutos de caminhada o levam até a boca do abismo de 58 metros de largura, um lugar onde milhares de virgens morreram sacrificadas. Ele olha para baixo. Dezoito metros abaixo, as águas escuras e infestadas de algas fedem à estagnação.

O som de um trovão distante atrai sua atenção para o céu. Que estranho, não tem uma nuvem no céu. Será que foi um avião a jato? O som fica mais alto. Centenas de turistas se entreolham, inquietos. Uma mulher grita.

Nakamura sente seu corpo tremer. Ele olha para o poço. Círculos estão se formando na superfície antes tranquila. Puta que pariu, é um terremoto1.

Sorrindo entusiasmado, Nakamura aponta a câmera para a boca do cenote. Depois de sobreviver ao grande terremoto de 2005, a psique desse nativo de San Francisco precisa de muito mais do que alguns tremores para se abalar.

A multidão retrocede à medida que o tremor aumenta. Muitos correm pelo sacbe para a saída do parque. Outros gritam quando o chão sob seus pés pula como um trampolim.

Nakamura para de sorrir. Que porra...?

A água dentro do poço forma um redemoinho.

E então, tão abruptamente como começaram, os tremores cessam.
Hollywood Beach, Flórida
A sinagoga está lotada neste Yom Kippur, o dia mais sagrado do calendário judaico.

Dominique está sentada entre seus pais adotivos, Edie e Iz Axler. O rabino Steinberg está de pé no púlpito, ouvindo a voz angelical de sua chazan, que entoa uma pungente prece para a congregação.

Dominique está com fome, depois de jejuar quase 24 horas desde o início do Dia do Perdão. Ela também está no período pré-menstrual. Talvez por isso esteja tão emocionada, incapaz de se concentrar. Talvez por isso seus pensamentos fiquem voltando para Michael Gabriel.

O rabino começa a ler de novo:

— No Rosh Hashana, nós refletimos. No Yom Kippur, consideramos. Quem viverá pelo bem dos outros? Quem, morrendo, deixará uma herança de vida? Quem arderá no fogo da ganância? Quem se afogará nas águas do desespero? Quem passará fome para fazer o bem? Quem terá sede de justiça e retidão? Quem sofrerá com o medo do mundo? Quem sufocará por falta de amigos? Quem descansará no final do dia? Quem ficará insone num leito de dor?

Suas emoções se agitam ao imaginar Mick deitado em sua cela. Pare com isso...

— A língua de quem será uma espada em riste? As palavras de quem vão trazer a paz? Quem seguirá em busca da verdade? Quem ficará trancado na prisão do ego?

Em sua mente, ela vê Mick andando pelo jardim enquanto o sol do equinócio se põe atrás da muralha de concreto.

— ... os anjos, tomados pelo medo e por tremores, declaram, assombrados: Este é o Dia do Juízo! Pois até as hostes celestes serão julgadas, como todos que habitam a Terra agora estão diante de Vós.

A barragem emocional se abre, as lágrimas quentes mancham seu rosto com a maquiagem. Confusa, ela passa por Iz e corre pelo corredor para fora do templo.



6
25 DE SETEMBRO DE 2012

WASHINCTON, DC
Ennis Chaney está exausto. Já se passaram dois anos desde que o senador republicano da Pensilvânia enterrou a mãe, e ele ainda sente imensamente sua falta. Sente falta das visitas ao lar de idosos, onde sempre levava para a mãe seu leitão assado especial, e sente falta de seu sorriso. Também sente falta da irmã, que morreu 11 meses depois de sua mãe, e de seu irmão mais novo, que o câncer lhe roubou no mês passado.

Ele aperta as mãos com força, sua filha mais nova tenta confortá-lo com um carinho nas costas. Quatro longos dias se passaram desde que ele recebeu o telefonema no meio da noite. Quatro dias desde que seu melhor amigo, Jim, morreu de um ataque cardíaco fulminante.

Ele vê, através da janela do salão de jantar, a limusine e o carro dos seguranças parando na entrada. Solta um suspiro. Nenhum descanso para os exaustos, nenhum descanso para os enlutados. Ele puxa para si a esposa e as três filhas, abraça a viúva de Jim mais uma vez e sai da casa, acompanhado pelos dois guarda-costas. Enxuga uma lágrima de seus olhos fundos, o pigmento escuro ao redor das órbitas criando a sombra da máscara de um guaxinim. Os olhos de Chaney são o espelho de sua alma. Eles revelam sua paixão de homem, sua sabedoria de líder. Contrarie-o, e os olhos se tornam adagas fixas.

Ultimamente, os olhos de Chaney têm estado vermelhos de tanto chorar.

Com relutância, o senador se senta no banco de trás da limusine que o aguardava, enquanto os dois guarda-costas entram no outro carro.

Chaney odeia limusines. Aliás, odeia tudo que chama atenção para si ou cheira ao tipo de tratamento preferencial que se associa ao privilégio político. Ele olha pela janela e pensa na sua esposa, perguntando-se se está para cometer um grande erro.

Ennis Chaney nasceu há 67 anos no bairro negro mais pobre de Jacksonville, na Flórida. Foi criado pela mãe, que sustentava a família fazendo faxina nas casas dos brancos, e pela tia, que muitas vezes ele chama de mãe. Nunca conheceu seu verdadeiro pai, um homem que saiu de casa poucos meses depois que ele nasceu. Quando ele tinha 2 anos, sua mãe se casou de novo, e seu padrasto se mudou com a família para New Jersey. Foi ali que o jovem Ennis cresceu. Foi ali que desenvolveu suas habilidades de líder.

A quadra era o único lugar onde Chaney se sentia em casa, o único lugar onde a cor não importava. Embora fosse menor que seus colegas, não se deixava intimidar por ninguém. Depois das aulas, forçava-se a cumprir milhares de horas de treinos, canalizando sua agressão para o desenvolvimento de suas habilidades atléticas, aprendendo também disciplina e autocontrole. Nos últimos anos do colégio, fazia parte do segundo time municipal de futebol como zagueiro e da seleção estadual de basquete. Poucos defensores se atreviam a desafiar o pequeno e valente armador, que preferia lhes quebrar os tornozelos a deixar que roubassem a bola; mas, fora das quadras, não se podia encontrar um jovem mais gentil e afetuoso.

Sua carreira no basquete acabou quando ele lesionou o tendão patelar em seu primeiro ano na universidade. Embora estivesse mais interessado na carreira de treinador, permitiu que sua mãe, uma mulher que crescera na época da segregação, o convencesse a ingressar na arena política. Por também ter convivido o suficiente com o racismo, Ennis sabia que a política era o principal ambiente que precisava de mudanças.

Seu padrasto tinha contatos no Partido Republicano na Filadélfia. Apesar de democrata ferrenho, Chaney acreditava que poderia produzir mais mudanças como candidato republicano. Aplicando a mesma ética de trabalho, a paixão e a intensidade que lhe permitiram brilhar nas quadras esportivas, Ennis rapidamente galgou os degraus mais baixos da política municipal, nunca temendo expressar sua opinião, sempre disposto a se arriscar para ajudar os oprimidos.

Desprezando a preguiça e a falta de autocontrole dos seus pares, ele se tornou uma brisa de ar fresco e uma espécie de herói popular na Filadélfia. O vice-prefeito Chaney logo se tornou o prefeito Chaney. Anos depois, concorreu ao cargo de senador pela Pensilvânia e ganhou disparado.

E agora, a menos de dois meses da eleição de novembro de 2012, o presidente dos Estados Unidos liga para pedir que ele concorra em sua chapa. Ennis Chaney — o garoto miserável de Jacksonville, Flórida —, a um passo do cargo mais poderoso do mundo.


Ele olha pela janela enquanto a limusine vira para a Capital Beltway. A morte apavora Ennis Chaney. Não há como se esconder dela ou argumentar com ela. Ela não traz nenhuma resposta, apenas perguntas e confusão, lágrimas e tributos no enterro, tributos até demais. Como resumir a vida de um ente querido em vinte minutos? Como esperar que se traduza uma vida de afeto em meras palavras?

Vice-presidente. Chaney balança a cabeça, deixando sua mente às voltas com o seu futuro.

Não é o seu futuro que o preocupa, mas o fardo que a candidatura representaria para a sua esposa e a sua família. Ser eleito senador é uma coisa, aceitar a indicação republicana como o primeiro vice-presidente afro-americano é algo totalmente diferente. O último e único negro que teve uma chance legítima de ser eleito para a Casa Branca foi Colin Powell, e o general acabou desistindo, alegando preocupações familiares. Se Maller for reeleito, Chaney será o candidato favorito para 2016. Como Powell, ele sabe que sua popularidade cruza fronteiras políticas e raciais, mas há sempre uma pequena parte da população que, como a morte, não aceita argumentos.

E ele já fez sua família enfrentar tanta coisa.

Chaney também sabe que Pierre Borgia deseja entrar na chapa, e se pergunta até onde o secretário de Estado está disposto a ir para conseguir o que quer. Borgia é tudo o que Chaney não é: impulsivo, interesseiro, motivado politicamente, egoísta, solteiro, pró-guerra — e branco.

Os pensamentos de Chaney voltam para o seu melhor amigo e sua família. Ele chora abertamente, sem se importar nem um pouco com a presença do motorista.

Ennis Chaney demonstra suas emoções facilmente, algo que aprendeu há muito tempo com a mãe. A força interior e a tenacidade para comandar são inúteis se alguém não se permite ter sentimentos, e Chaney tudo sente. Pierre Borgia não sente nada. Criado entre os ricos, o secretário de Estado tem uma visão bitolada da vida, jamais parando para pensar no que o outro lado pode estar sentindo. Esse último fato tem um grande peso para o senador. O mundo se torna um lugar mais complicado e perigoso a cada dia. A paranóia nuclear na Ásia está aumentando. Borgia é a última pessoa que ele quer ver comandando o país numa situação de crise.

— O senhor está bem, senador?

— Claro que não. Que pergunta idiota é essa? — A voz de Chaney é áspera e grave, a menos que ele esteja gritando, algo que faz com freqüência.

— Desculpe, senhor.

— Cale a boca e dirija.

O motorista sorri. Dean Disangro trabalha para o senador Chaney há 16 anos e o ama como a um pai.

— Deano, que diabos pode ser tão importante pra NASA me querer no Goddard num domingo?

— Não faço idéia. O senhor é o senador, eu sou só um subalterno mal pago...

— Ah, fica quieto. Você é mais bem-informado que a maioria daqueles tontos no Congresso.

— O senhor é adido da NASA, senador. Se tiveram coragem de convocá-lo durante o fim de semana, é óbvio que algo importante aconteceu.

— Obrigado, Sherlock. Você tem um monitor de notícias aí?

O motorista lhe passa o aparelho do tamanho de uma prancheta, já ligado no Washington Post. Chaney corre os olhos pelas manchetes e vê os preparativos para os testes nucleares retaliatórios na Ásia. Grozny marcou os testes uma semana antes do Natal. Muito esperto. Sem dúvida queria estragar o espírito natalino.

Chaney joga o monitor para o lado.

— Como está sua esposa? Está pra dar à luz, não é?

— Daqui a duas semanas.

— Maravilha. — Chaney sorri, enxugando outra lágrima de seus olhos injetados.



NASA: Centro de Vôo Espacial Goddard

Greenbelt, Maryland
O senador Chaney sente sobre si os olhos ansiosos da NASA, da SETI, de Arecibo, e só Deus sabe de quem mais. Ele termina de folhear o relatório de vinte páginas e pigarreia, silenciando a sala de conferências.

— Vocês têm certeza absoluta de que o sinal de rádio veio do espaço?

— Sim, senador. — O tom de Brian Dodds, diretor executivo da NASA, é quase de desculpas.

— Mas não conseguiram determinar a origem exata do sinal?

— Não, senhor, ainda não. Temos quase certeza de que a fonte está localizada no braço de Órion, o nosso braço na espiral da galáxia. O sinal atravessou a Nebulosa de Órion, uma enorme fonte de interferência, o que torna difícil determinar exatamente quanto viajou. Presumindo que tenha vindo de um planeta dentro do cinturão de Órion, podemos considerar uma distância mínima entre 1.500 e 1.800 anos-luz da Terra.

— E esse sinal durou três horas?

— Três horas e 22 minutos, para ser exato, senador — Kenny Wong exclama, levantando-se.

Chaney, com um gesto, indica que ele se sente.

— E não houve outros sinais, sr. Dodds?

— Não, senhor, mas continuaremos monitorando a freqüência e a direção do sinal.

— Muito bem. Imaginando que o sinal seja real, quais são as implicações?

— Bem, senhor, a implicação mais óbvia e entusiasmante é que agora temos a prova de que não estamos sós, de que existe pelo menos mais uma forma de vida inteligente em algum lugar da nossa galáxia. Nosso próximo passo é determinar se padrões ou algoritmos específicos estão ocultos dentro do próprio sinal.

— Você acha que o sinal pode conter alguma espécie de comunicação?

— Achamos bastante possível. Senador, este não é um sinal aleatório viajando pela galáxia. O feixe foi propositalmente direcionado para o nosso sistema solar. Existe outra inteligência que sabe que estamos aqui. Dirigindo o sinal para a Terra, estão nos avisando que existem.

— Uma espécie de "Oi, como vai" entre vizinhos, é isso?

O diretor da NASA sorri.

— Sim, senhor.

— E quando o seu pessoal vai terminar a análise?

— Difícil dizer. Se um algoritmo alienígena existe, estou confiante que nos¬sos computadores e nossa equipe de matemáticos e criptógrafos vai encontrá-lo. Mesmo assim, pode levar meses, anos. Ou pode nunca acontecer. Como pensar como um extraterrestre? Tudo isso é entusiasmante, mas é muito novo para nós.

— Isso não é exatamente verdade, certo, sr. Dodds? — Os olhos de gua¬xinim fitam o diretor. — O senhor e eu sabemos que a SETI vem usando o grande radiotelescópio de Arecibo para transmitir mensagens para o espaço há algum tempo.

— E as redes de televisão têm lançado sinais de TV para o espaço na velocidade da luz desde a estréia do I Love Lucy.

— Não faça piadinhas, sr. Dodds. Não sou astrônomo, mas li o suficiente para saber que os sinais de TV são fracos demais para chegar a Orion. Quando essa descoberta for anunciada, muita gente vai ficar furiosa e com medo, e insistir que a SETI atraiu esse terror desconhecido.

Dodds silencia as objeções de seus assistentes.

— Tem razão, senador. As transmissões da SETI são mais potentes, mas os sinais de TV são infinitamente mais amplos, espalhando-se pelo espaço em todas as direções. Entre os dois, é muito mais provável que os sinais de TV alcancem aleatoriamente um receptor do que o feixe estreito de Arecibo. Não se esqueça que o sinal de rádio que detectamos foi produzido por um transmissor alienígena muito superior ao nosso. Precisamos presumir que a inteligência por trás do sinal também tenha receptores capazes de detectar nossos sinais mais fracos.

— Mesmo assim, sr. Dodds, a realidade da situação é que milhões de pessoas ignorantes vão acordar amanhã morrendo de medo, esperando que homenzinhos verdes invadam suas casas, estuprem suas esposas e raptem seus bebês. Essa situação precisa ser controlada com delicadeza ou vai explodir na nossa cara.

O diretor da NASA balança a cabeça.

— Por isso chamamos o senhor, senador.

Os olhos fundos perdem um pouco de sua dureza.

— Muito bem, vamos falar desse novo telescópio que vocês estão propondo. — Chaney folheia sua cópia do relatório. — Aqui diz que a antena teria 48 quilômetros de diâmetro e seria construída no lado escuro da Lua. Isso vai custar uns trocados. Por que diabos precisam construí-lo na Lua?

— Pelo mesmo motivo que lançamos o Telescópio Hubble. A Terra libera radiointerferência demais. O outro lado da Lua está sempre oposto à Terra, oferecendo uma zona naturalmente livre de sinais de rádio. A idéia é construir a concha no fundo de uma cratera imensa, como foi feito com a concha de Arecibo, só que milhares de vezes maior. Já escolhemos um local: a cratera Saha, que fica só três graus dentro do lado escuro da Lua, perto do equador lunar. Um telescópio lunar vai permitir que nos comuniquemos com a inteligência que fez contato conosco.

— E por que iríamos querer esse tipo de contato? — A voz de Chaney ecoa pela sala de conferências, perdendo a aspereza ao ficar mais alta. — Sr. Dodds, esse sinal de rádio pode ser a descoberta mais importante da história da humanidade, mas o que a NASA propõe vai assustar a população. E se o povo americano disser que não? E se ele disser que não quer gastar alguns bilhões de dólares pra falar com um ET? Vocês querem enfiar um comprimido bem grande na goela do Congresso.

Brian Dodds conhece Ennis Chaney, e sabe que o homem quer testar sua convicção.

— Senador, o senhor tem razão. Essa descoberta vai amedrontar muita gente. Mas me deixe dizer o que apavora muitos de nós mais ainda. Temos medo quando pegamos o monitor de notícias e lemos a respeito das armas nucleares do Irã. Temos medo quando lemos sobre a crescente carestia na Rússia ou sobre a acumulação de armas estratégicas na China, outro país capaz de destruir o mundo. Parece que toda nação que sofre de instabilidade política e econômica está armada até os dentes, senador Chaney, e essa realidade é muito mais apavorante do que qualquer sinal de rádio vindo de 1.800 anos-luz de distância.

Dodds fica de pé. Com pouco mais de 1,85 metro e pesando 100 quilos, parece mais um lutador do que um cientista.

— O que o público precisa entender é que estamos lidando com uma espécie inteligente, muito mais avançada que a nossa, e que conseguiu fazer o primeiro contato. Sejam o que forem, estejam onde estiverem, estão longe demais para nos fazer uma visita. Construindo esse radiotelescópio, poderemos nos comunicar com outra espécie. Com o tempo, poderemos aprender com eles, compartilhar nossas tecnologias e entender melhor o universo, talvez até nossa própria origem. Essa descoberta pode unir a humanidade. Esse projeto pode ser o catalisador que afastará a humanidade da aniquilação nuclear.

Dodds olha Chaney diretamente nos olhos.

— Senador, um ET ligou, e é de suma importância para o futuro da humanidade que retornemos a ligação.
7
26 DE SETEMBRO DE 2012

MIAMI, FLÓRIDA
Cinco internos estão reunidos no núcleo conhecido como 7-C. Dois estão sentados no chão, jogando o que pensam ser xadrez, e outro está dormindo no sofá. O quarto está perto da porta, esperando que um membro de sua equipe de reabilitação chegue para levá-lo até sua sessão matinal de terapia.

O último interno do 7-C está parado diante de um aparelho de TV suspenso acima de sua cabeça. Ele ouve o presidente Maller elogiar o tremendo trabalho dos homens e mulheres da NASA e da SETI. Ouve o presidente falando, empolgado, de paz mundial e cooperação, do programa espacial internacional e o seu impacto sobre o futuro da humanidade. A aurora de uma nova era está chegando, ele anuncia. Não estamos mais sós.

Diferente dos outros bilhões de espectadores que assistem à coletiva ao vivo em todo o mundo, Michael Gabriel não está surpreso com o que está ouvindo, só entristecido. Os olhos de ébano não piscam, o corpo, rígido, não se move. Sua expressão neutra não muda, nem mesmo quando o rosto de Pierre Borgia aparece na tela sobre o ombro esquerdo do presidente. E difícil até saber se Mick está respirando.

Dominique entra no núcleo. Ela para por um momento para observar seu paciente assistindo ao boletim extraordinário enquanto verifica se o gravador preso sob sua camiseta está escondido pelo jaleco branco.

Ela fica ao lado dele, os dois ombro a ombro, agora, diante da televisão, a mão direita dela perto da esquerda dele.

Seus dedos se entrelaçam.

— Mick, quer ver o resto da coletiva ou podemos conversar?

— No meu quarto.

Ele a leva pelo corredor e entra no quarto 714. Mick anda pela cela como um animal enjaulado, sua mente sobrecarregada tentando organizar mil detalhes de uma vez.

Dominique se senta na beira da cama, olhando para ele.

— Você sabia que isso ia acontecer, não sabia? Como? Como você sabia? Mick...

— Eu não sabia o que ia acontecer, só que algo ia acontecer.

— Mas você sabia que seria um evento celeste, alguma coisa a ver com o equinócio. Mick, pare de andar, é difícil conversar assim. Venha cá. Senta perto de mim.

Ele hesita, e então se senta ao lado dela. Ela pode ver suas mãos tremendo.

— Fale comigo.

— Eu posso sentir, Dom.

— O que você pode sentir?

— Não sei... não consigo descrever. Algo está vindo, uma presença. Ainda está distante, mas está se aproximando. Já senti isso antes, mas nunca assim.

Ela toca o cabelo que cobre o pescoço dele, enrolando um grosso cacho castanho em seu dedo.

— Tente relaxar. Vamos falar dessa transmissão de rádio do espaço. Quero que me conte como sabia que o maior evento na história da humanidade estava pra acontecer.

Ele olha para ela, medo em seus olhos.

— Isso não é nada. É só o começo do último ato. O maior evento vai acontecer no dia 21 de dezembro, quando bilhões de pessoas vão morrer.

— E como você sabe? Eu sei o que o calendário maia diz, mas você é inteligente demais pra simplesmente aceitar uma profecia de 3 mil anos sem provas científicas. Me explique os fatos, Mick. Nada de folclore maia, apenas as evidências que comprovam. Ele balança a cabeça.

— Por isso pedi que você lesse o diário do meu pai.

— Eu comecei a ler, mas prefiro que você mesmo me explique. Da última vez que conversamos, você me alertou sobre algum tipo de alinhamento galáctico raro em que a Terra ia entrar, começando no equinócio de outono. Me explica isso.

Mick fecha os olhos, respirando lentamente para obrigar seus músculos carregados de adrenalina a se acalmarem.

Dominique consegue ouvir o zumbido do gravador. Ela pigarreia, acobertando o ruído.

Ele reabre os olhos, seu olhar mais suave, agora.

— Você conhece o Popol Vuh?

— Eu sei que é o livro maia da criação, o equivalente à nossa Bíblia pra eles.

Ele concorda com a cabeça.

— Os maias acreditavam em cinco sóis ou cinco Grandes Ciclos da criação, sendo que o quinto e último deve terminar em 21 de dezembro, o dia do solstício de inverno deste ano. De acordo com o Popol Vuh, o universo foi dividido em um Mundo Superior, um Mundo Médio e um Mundo Inferior. O Mundo Superior representa o céu, o paraíso, e o Mundo Médio representa a Terra. Os maias se referiam ao Mundo Inferior como Xibalba, um lugar escuro e terrível que seria governado por Hurakan, o deus da morte. A lenda maia diz que o grande mestre, Kukulcán, estava empenhado numa longa batalha cósmica contra Hurakan, lançando as forças do bem e da luz contra as trevas e o mal. Está escrito que o quarto ciclo teve um fim abrupto quando Hurakan fez um grande dilúvio inundar o mundo. A palavra "furacão" vem do nome maia "Hurakan". Os maias acreditavam que essa entidade demoníaca existia dentro de um violento redemoinho. Os astecas acreditavam na mesma lenda, só que o nome deles para o grande mestre era Quetzalcoatl, e a divindade do mundo inferior era conhecida como Tezcatilpoca, um nome que se traduz como "espelho enfumaçado".

— Mick, espere. Pare um momento, está bem? Esqueça o mito maia. Preciso que você se concentre nos fatos referentes ao calendário e em como ele se relaciona com essa transmissão do espaço.

Os olhos negros chispam para ela como lasers de ônix, e o olhar faz Dominique se encolher.

— Não posso discutir os aspectos científicos que confirmam a profecia do Juízo Final sem explicar o mito da criação. Tudo está relacionado. Um paradoxo envolve os maias. A maioria das pessoas acha que os maias eram só um bando de selvagens que moravam na floresta e construíam umas pirâmides legaizinhas. A verdade é que os maias eram astrônomos e matemáticos incríveis, que tinham uma incomensurável compreensão da existência do nosso planeta dentro da galáxia. E foi esse conhecimento que permitiu que eles previssem o alinhamento celeste que levou ao sinal de ontem.

— Não entendo...

Mick se agita, depois começa a andar pelo quarto de novo.

— Temos provas que mostram que os maias e seus antepassados, os olmecas, usavam a Via Láctea como um marcador celestial pra calcular o calendário maia. A Via Láctea é uma galáxia espiral com cerca de 100 mil anos-luz de diâmetro, formada por aproximadamente 200 bilhões de estrelas. O nosso Sol está localizado num dos braços espirais, o braço de Orion, a cerca de 35 mil anos-luz do centro da galáxia, que os astrônomos agora acreditam ser um gigantesco buraco negro que atravessa a constelação de Sagitário. O centro da galáxia funciona como uma espécie de ímã celeste, movendo a Via Láctea num vórtice poderoso. Neste exato momento, nosso sistema solar está voando ao redor do ponto central da galáxia a uma velocidade de 217 quilômetros por segundo. Apesar dessa velocidade, a Terra leva 226 milhões de anos pra com¬pletar uma revolução ao redor da Via Láctea.



A fita está acabando.

— Mick, o sinal...

—Tenha paciência. Ao se mover pela galáxia, nosso sistema solar segue uma trajetória de 14 graus de largura chamada de eclíptica. A eclíptica cruza a Via Láctea de tal forma que periodicamente se alinha com a saliência central da galáxia. Quando olhavam pro céu noturno, os maias viam uma fenda escura, uma faixa escura alongada de densas nuvens interestelares que começava onde a eclíptica cruza a Via Láctea, na constelação de Sagitário. O mito da criação do Popol Vuh se refere a essa fenda escura como Estrada Negra, ou Xibalba Be, um nexo na forma de uma grande serpente que liga a vida e a morte, a Terra e o Mundo Inferior.

— Já falei, tudo isso é fascinante, mas que relação tem com o sinal de rádio vindo do espaço?

Mick para de andar.

— Dominique, esse sinal de rádio não foi só uma transmissão aleatória lançada através do universo. Foi propositalmente direcionado pro nosso sistema solar. Do ponto de vista tecnológico, você não pode simplesmente transmitir um feixe de rádio do outro lado da galáxia e torcer pra que ele alcance um determinado grão de poeira planetário como a Terra. Quanto mais o feixe viaja, mais o sinal se distorce e perde a força. A transmissão de rádio que a SETI detectou era um feixe muito poderoso, preciso e estreito. Pelo menos pra mim, isso indica que quem quer, ou o que quer que o tenha mandado precisou de um alinhamento galáctico particular, uma espécie de corredor celeste que dirigisse a transmissão de sua origem até a Terra. Essencialmente, o sinal viajou dentro de uma espécie de corredor cósmico. Não sei explicar por que nem como, mas senti quando o portal desse corredor começou a se abrir.


Dominique vê o medo nos olhos dele.

— Você sentiu que ele se abria? O que sentiu?

— Era uma sensação repugnante, como de dedos gelados se movendo dentro do meu intestino.

— E você acredita que esse corredor cósmico se abriu só o suficiente pra permitir a passagem do sinal?

— Sim, e o portal está se alargando um pouco mais a cada dia. No solstício de dezembro, vai se abrir completamente.

— O solstício de dezembro. O Dia do Juízo maia?

— Isso mesmo. Os astrônomos já sabem há anos que o nosso Sol vai se alinhar com o ponto exato do centro da galáxia em 21 de dezembro de 2012, o último dia do quinto ciclo do calendário. Ao mesmo tempo, a fenda escura da Via Láctea vai entrar em alinhamento com o nosso horizonte oriental, aparecendo diretamente sobre a cidade maia de Chichén Itzá à meia-noite do solstício. Essa combinação de eventos galácticos acontece somente uma vez a cada 25.800 anos, e mesmo assim, de alguma forma, os maias foram capazes de prever o alinhamento.

— E a transmissão vinda do espaço, qual a finalidade dela?

— Não sei, mas é um presságio de morte. Justifique a esquizofrenia dele. Culpe os pais.

— Mick, eu acho que, à parte um episódio isolado de violência, seu aprisionamento constante tem mais a ver com sua crença fanática no apocalipse, que é uma crença compartilhada por dezenas de milhões de pessoas. Quando você diz que a humanidade está perto do fim, o que eu ouço é um credo que provavelmente foi martelado em você desde que nasceu. Não seria possível que seus pais...

— Meus pais não eram fanáticos religiosos nem arautos do milênio. Não passavam o tempo construindo abrigos subterrâneos. Não amontoavam armamentos pesados e comida se preparando pro Dia do Juízo. Aliás, eles não acreditavam no Segundo Advento de Cristo, nem do Messias, e não acusavam qualquer líder mundial autocrático de bigodinho de ser o Anticristo. Eles eram arqueólogos, Dominique. Cientistas inteligentes o bastante pra não ignorar os marcos que apontam pra um desastre que aniquilará toda a nossa espécie. Chame de Armagedom, chame de Apocalipse, de profecia maia, do que você preferir, mas me tire daqui pra que eu possa fazer alguma coisa pra impedi-lo!

— Mick, fique calmo. Sei que você está frustrado, mas estou tentando te ajudar, mais do que imagina. Só que pra conseguir sua alta, preciso pedir outra avaliação psiquiátrica.

— Quanto tempo isso vai levar?

— Não sei.

— Meu Deus... — Ele anda mais rápido.

— Digamos que você fosse solto amanhã. O que faria? Pra onde iria?

— Pra Chichén Itzá. A única chance que temos de nos salvar é conseguir entrar na pirâmide de Kukulcán.

— O que há dentro da pirâmide?

— Não sei. Ninguém sabe. Nunca ninguém encontrou a entrada.

— Então como...

— Porque sinto que há algo lá dentro. Não me pergunte como, eu sinto e pronto. É como quando você está andando na rua e consegue sentir que alguém está te seguindo.

— Os membros da junta vão querer algo mais palpável do que uma sensação.

Mick pára de andar e lhe lança um olhar exasperado.

— Por isso pedi que você lesse o diário do meu pai. Duas estruturas em Chichén Itzá estão ligadas à nossa salvação. A primeira é o Grande Campo, que foi alinhado precisamente pra espelhar Xibalba Be, a fenda escura da Via Láctea, do jeito como ela vai aparecer em 4 Ahau, 3 Kankin. A segunda é a pirâmide de Kukulcán, a estrutura mais importante de toda a profecia do fim do mundo. A cada equinócio, a sombra de uma serpente aparece na balaustrada norte da pirâmide. Meu pai acreditava que esse efeito era um aviso que Kukulcán nos deixou, representando a ascensão do mal sobre a humanidade. A sombra dura exatamente três horas e 22 minutos. O mesmo intervalo de tempo da transmissão vinda do espaço.

— Tem certeza disso? — Lembre-se de verificar esses fatos no seu relatório.

— A mesma certeza de que estou aqui, na sua frente, apodrecendo nesta cela. — Ele começa a andar de novo.

Ela ouve o clique do gravador se desligando quando a fita chega ao fim.

— Dom, a CNN deu outra notícia, só peguei o final dela. Algo sobre um terremoto na bacia de Yucatán. Preciso descobrir o que aconteceu. Preciso saber se o terremoto se originou em Chichén Itzá ou no Golfo do México.

— Por que o Golfo?

— Você não leu nem a parte do diário que fala dos mapas de Piri Reis?

— Desculpe. Estou muito sem tempo.

— Meu Deus, Dom, se você fosse minha residente, já tinha te mandado embora. Piri Reis era um famoso almirante turco que, no final do século XIV, de alguma forma teve acesso a uma série de misteriosos mapas do mundo. Usando-os como referência, o almirante criou um conjunto de mapas que os historiadores agora acreditam que foram usados por Cristóvão Colombo pra navegar pelo Atlântico.

— Espere, esses mapas existiram mesmo?

— Claro que existiram. E revelam detalhes topográficos que só poderiam ter sido detectados usando sondas sísmicas sofisticadas. Por exemplo, a costa da Antártida aparece como se não existisse nenhuma calota polar.

— O que tem de tão significativo nisso?

— Dom, o mapa tem mais de quinhentos anos. A Antártida só foi descoberta em 1818.

Ela olha para ele, sem saber em que acreditar.

— Se duvida de mim, fale com a Marinha dos Estados Unidos. Foi a análise deles que confirmou a precisão da cartografia.

— E o que esse mapa tem a ver com o Golfo ou com a profecia do fim do mundo?

— Há 15 anos, meu pai e eu localizamos um mapa parecido, só que esse era um original de milhares de anos atrás, como aquele que Piri Reis encontrou. Ele estava selado num recipiente de irídio, enterrado num local preciso do platô de Nazca. Consegui tirar uma Polaroid antes que o pergaminho se desfizesse. Você pode ver a foto no final do diário do meu pai. Quando a vir, você vai notar uma área com um círculo vermelho, no Golfo do México, um pouco ao norte da península de Yucatán.

— O que o círculo representa?

— Não sei. Encerre a conversa.

— Mick, não duvido de nada que você me contou, mas e se... bom, e se essa transmissão não tiver nada a ver com a profecia maia? A NASA diz que o sinal se originou em algum ponto distante, a mais de 1.800 anos-luz daqui.

Isso deve te tranqüilizar, certo? Afinal, convenhamos — ela sorri —, é meio improvável que algum extraterrestre chegue do cinturão de Órion nos próximos sessenta dias.

Os olhos de Mick ficam esbugalhados, enormes. Ele recua, apertando as têmporas com as duas mãos.

Merda, ele surtou. Você o pressionou demais.

— Mick, o que foi? Você está bem?

Ele ergue um dedo, pedindo que ela se afaste, que fique em silêncio.

Dominique o vê ajoelhando-se no chão, seus olhos — janelas escuras para uma mente que rodopia a mil quilômetros por hora. Talvez você esteja enganada sobre ele. Talvez ele seja mesmo doido.

O longo momento passa. Mick ergue a cabeça, e a intensidade de seu olhar é positivamente assustadora.

— Tem razão, Dominique. Você tem toda a razão — murmura ele. — Seja o que for, aquilo que está predestinado a erradicar a humanidade não vai chegar do espaço. Está no Golfo. Já está aqui.

Diário de Julius Gabriel
Para melhor entender e finalmente desvendar os mistérios que cercam o calendário maia e sua profecia do fim do mundo, é preciso explorar as origens das primeiras culturas que ganharam destaque no Yucatán.

Os primeiros mesoamericanos eram seminômades e apareceram na América Central por volta de 4.000 a.C. Finalmente, tornaram-se fazendeiros, desenvolvendo o milho, um híbrido da grama selvagem, bem como abacate, tomates e abóbora.

Então, por volta de 2.500 a.C., Ele chegou.

Ele era um caucasiano de rosto alongado, com barba e cabelo brancos e compridos, um sábio que, de acordo com a lenda, chegou por mar às planícies tropicais do Golfo do México para educar e transmitir grande sabedoria aos nativos da região.

Atualmente nos referimos a esses nativos educados como os olmecas (que significa: moradores da terra da borracha), e eles acabaram se tornando a "Cultura Mãe" de toda a Mesoamérica, a primeira sociedade complexa das Américas. Sob a influencia do "homem barbado", os olmecas unificaram a região do Golfo, e suas realizações na Astronomia, Matemática e Arquitetura influenciaram os zapotecas, maias, toltecas e astecas — culturas que acabaram tomando o poder nos milênios seguintes.

Quase da noite para o dia, esses simples fazendeiros que moravam na selva começaram a estabelecer estruturas complexas e grandes centros cerimoniais. Técnicas avançadas de Engenharia foram incorporadas aos projetos arquitetônicos e obras públicas de arte. Foram os olmecas que originaram o antigo jogo de bola, bem como o primeiro método de registrar os eventos. Eles também criaram grandes cabeças monolíticas de basalto, de 3 metros de altura, muitas delas pesando até 30 toneladas cada. Como essas enormes cabeças olmecas eram transportadas continua sendo um mistério.

Mais importante, os olmecas foram a primeira cultura mesoamericana a erguer pirâmides usando um conhecimento avançado de Astronomia e Matemática. São essas estruturas, alinhadas com as constelações, que revelam o entendimento que os olmecas tinham da precessão, uma descoberta que deu origem ao mito da criação registrado no Popol Vuh.

Portanto, foram os olmecas, e não os maias, que usaram seus inexplicáveis conhecimentos de Astronomia para criar o Calendário Longo e sua fatídica profecia.

No âmago do calendário do fim do mundo está o mito da criação, o relato histórico de uma batalha contínua da luz e do bem contra as trevas e o mal. O herói da história, Um Hunahpu, é um guerreiro capaz de acessar a Estrada Negra (Xibalba Be). Para os indígenas mesoamericanos, Xibalba Be equivalia à fenda escura da Via Láctea. O portal para Xibalba Be era representado, tanto nos artefatos olmecas quanto nos maias, como a boca de uma grande serpente.

Podemos imaginar os olmecas primitivos olhando para o céu noturno, apontando para a fenda escura da galáxia como uma serpente cósmica.

Por volta de 100 a.C., por motivos ainda desconhecidos, os olmecas decidiram abandonar suas cidades e se dividir em dois acampamentos, diversificando-se em duas regiões distintas. Aqueles que se mudaram para o oeste, na direção do centro do México, ficaram conhecidos como toltecas. Aqueles que foram para o leste ocuparam as selvas do Yucatán, Belize e Guatemala, e se denominaram maias. Só em 900 d.C. as duas civilizações se reunificaram sob a influência do grande mestre, Kukulcán, em sua majestosa cidade de Chichón Itzá.

Mas estou me adiantando demais.


Cambridge, 1969. Foi dali que meus dois colegas e eu partimos para desvendar os mistérios da profecia maia. Por unanimidade, decidimos que nossa primeira parada deveria ser o sítio olmeca de La Venta, pois foi ali, vinte anos antes, que o arqueólogo americano Matthew Stirling trouxe à luz a sua mais assombrosa descoberta, uma enorme fortificação olmeca, consistindo numa muralha de seiscentas colunas, cada uma pesando mais de 2 toneladas. Adjacente a essa estrutura, o explorador havia localizado uma rocha magnífica, coberta de intrincados entalhes olmecas. Depois de dois dias de trabalho intenso, Stirling e seus homens conseguiram desenterrar a monumental escultura, de 4 metros de altura e 2 metros de largura, e quase um metro de espessura. Embora alguns dos entalhes tivessem sido danificados pela erosão, a imagem de uma figura magnífica permanecia: um grande homem caucasiano de cabeça alongada, nariz adunco e barba branca comprida.

Imagine o choque entre meus colegas arqueólogos ao encontrar uma estátua de 2 mil anos claramente retratando um caucasiano, um artefato criado 1.500 anos antes que o primeiro europeu pusesse o pé nas Américas! Igualmente intrigante era o retrato de um homem barbado entre os olmecas, pois é um fato genético que os ameríndios de sangue puro não têm barba. Como todas as formas de expressão artística devem ter raízes em algo, a identidade do branco barbado era mais um enigma a ser resolvido.

Quanto a mim, imediatamente expus a teoria de que o caucasiano era um ancestral do grande mestre maia Kukulcán.

Não sabemos muito sobre Kukulcán ou seus ancestrais, embora todo grupo mesoamericano pareça ter idolatrado uma divindade masculina que se encaixa na mesma descrição física. Para os maias, ele era Kukulcán, para os astecas, Quetzalcoatl — um lendário sábio barbado que trouxe paz, prosperidade e grande sabedoria para o povo. Registros indicam que, por volta de 1.000 d.C., Kukulcán/Quetzalcoatl foi obrigado a abandonar Chichón Itzá. Reza a lenda que, antes de ir embora, o misterioso sábio prometeu ao seu povo que um dia voltaria para livrar o mundo do mal.

Depois da partida de Kukulcán, uma influência demoníaca se espalhou rapidamente pela região. Tanto os maias quanto os astecas se voltaram para os sacrifícios humanos, matando com selvageria dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças, tudo num esforço para invocar o retorno de seu amado deus-rei e impedir o fim profetizado da humanidade.

Foi no ano de 1519 que o conquistador espanhol Hernán Cortez chegou da Europa para invadir o Yucatán. Embora em vantagem numérica sobre o inimigo, os indígenas mesoamericanos confundiram Cortez (um branco barbado) com o Segundo Advento de KukulcánlQuetzalcoatl e depuseram as armas. Depois de conquistar os selvagens, Cortez mandou chamar os padres espanhóis, os quais, ao chegarem, ficaram horrorizados ao saber dos sacrifícios humanos e de outro ritual chocante: as mães maias estavam atando tábuas de madeira na cabeça dos bebês, na tentativa de deformar o crânio em desenvolvimento dos recém-nascidos. Com o crânio alongado, os maias pareceriam mais divinos, uma crença inspirada, sem dúvida, por indícios de que o grande mestre, Kukulcán, tinha o crânio igualmente alongado.

Proclamando rapidamente a prática maia como uma influência do demônio, os padres espanhóis mandaram queimar vivos os xamãs e converteram o resto dos indígenas ao cristianismo — sob ameaça de morte. Em seguida, os tolos supersticiosos jogaram na fogueira todos os códices maias importantes que existiam. Milhares de volumes de textos foram destruídos — textos que sem dúvida se referiam à profecia do fim do mundo, e poderiam conter instruções vitais, deixadas por Kukulcán, para salvar nossa espécie da aniquilação.

E foi assim que a Igreja, há uns quinhentos anos, tentando salvar nossas almas do diabo, muito provavelmente condenou nossa espécie à ignorância.


Enquanto Borgia e eu discutíamos a identidade do homem barbado retratado na escultura olmeca, nossa colega, a bela Maria Rosen, fez uma descoberta que redirecionaria nossos esforços para longe da América Central, rumo ao trecho seguinte da nossa jornada.

Enquanto escavava um sítio olmeca em La Venta, Maria descobriu um túmulo real e desenterrou os restos de um crânio alongado. Embora esse bizarro crânio, aparentemente não humano, não tivesse sido o primeiro do tipo localizado na Mesoamérica, resultaria ser o único encontrado na pátria olmeca chamada de Santuário da Serpente.

Maria decidiu doar o crânio ao Museu de Antropologia em Mérida. Ao falarmos com o curador, descobrimos, para nossa grande surpresa, que crânios parecidos haviam sido recentemente encontrados em escavações localizadas no platô de Nazca, no Peru.

Será que havia uma ligação entre as civilizações maia e inca?

Nós três nos vimos numa encruzilhada arqueológica. Deveríamos seguir para Chichén Itzá, uma antiga cidade maia crucial para a profecia do fim do mundo, ou deixar o México e seguir a pista no Peru?

O instinto de Maria foi de viajar para a América do Sul, por acreditar que o calendário maia não era senão uma peça importante do quebra-cabeça da profecia. E assim, nós três tomamos um avião para Nazca, sem saber aonde nossa jornada nos levaria.

Enquanto sobrevoávamos o Atlântico, eu refletia sobre algo que o médico em Mérida me revelara. Ao examinar o crânio alongado, o perito médico, homem de boa reputação, declarara, com bastante ênfase, que a maciça deformação óssea daquele espécime em particular não poderia ter sido causada por nenhuma técnica conhecida de alongamento. Para corroborar sua tese, ele pediu que um dentista examinasse os restos dos dentes, e o resultado mostrou algo ainda mais aterrador.

Artefato no 114:

crânio alongado — descoberto por Maria Rosen, La Venta, 1969
É fato que os adultos humanos têm 14 dentes na arcada inferior. O crânio alongado que Maria encontrara tinha apenas dez.
— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,
Ref. Catálogo 1969-73 páginas 13-347

Diário Fotográfico, Disquete 4: Nome do arquivo:

OLMECA-1-7




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