Steve Alten o domínio


8 de setembro de 2012



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8 de setembro de 2012

CASA BRANCA
O secretário de Estado Pierre Robert Borgia olha para a sua imagem no espelho do lavabo. Ele ajusta o tapa-olho sobre a órbita direita, depois ajeita os curtos tufos de cabelo grisalho dos dois lados da cabeça calva. O terno preto e a gravata combinando estão imaculados, como de costume.

Borgia sai do lavabo executivo e vira para a direita, acenando para os membros do gabinete enquanto anda pelo corredor até o Salão Oval.

Patsy Goodman ergue o olhar do teclado. — Pode entrar. Ele está esperando. Borgia balança a cabeça e entra. O rosto magro e pálido de Mark Maller mostra o desgaste de quase quatro anos no cargo de presidente. O cabelo negro encaneceu ao redor das têmporas; os olhos, de um azul penetrante, estão rodeados por mais rugas. Seu físico de 52 anos, notavelmente mais magro, ainda continua firme.


Borgia diz que o presidente parece ter perdido peso.

Maller sorri.



  • É a chamada dieta do estresse de Viktor Grozny. Já leu o relatório matinal da CIA?

  • Ainda não. O que o novo presidente da Rússia aptontou desta vez?

  • Convocou uma reunião com os líderes militares da China, Coréia do Norte, Irã e Índia.

  • Com que propósito?

  • Conduzir um exercício nuclear retaliatório conjunto, em resposta aos nossos últimos testes envolvendo o Escudo Antimíssil.

  • Lá vai o Grozny tentando aparecer. Ele continua furioso porque o FMI cancelou aquele pacote de 20 bilhões de dólares em empréstimos.

  • Seja qual for o motivo, ele está conseguindo inflamar a paranoia nu­clear na Ásia.

  • Marko, a reunião do Conselho de Segurança é hoje à tarde, sei que você não me chamou aqui para discutir política externa.

Maller balança a cabeça e esvazia sua terceira xícara de café.

— O Jeb decidiu renunciar ao cargo de vice-presidente. Não pergunte. Pode chamar de motivos pessoais.

Borgia congela.


  • Meu Deus, a eleição é daqui a menos de dois meses...

  • Já fiz uma reunião extraoficial com os líderes do partido. E você ou o Ennis Chaney.

Jesus...

— Já falou com ele?

— Não. Quis avisar você primeiro, achei que te devia isso.

Borgia dá de ombros, sorrindo nervosamente.



  • O senador Chaney é um bom homem, mas não chega nem perto de mim quando o assunto é política externa. E minha família ainda tem muita influência...

  • Não tanto quanto você pensa, e as pesquisas mostram que a maioria dos americanos não está interessada na militarização da China. O povo vê o Escudo Antimíssil como a solução final contra a guerra nuclear.

  • Tenho que ser curto e grosso, senhor. O Comitê Nacional Republica­no acha mesmo que o país está pronto para um vice-presidente republicano2 afro-americano?

  • A eleição vai ser apertada. Veja como o Lieberman ajudou o Gore. O Chaney nos daria a vantagem que precisamos tanto na Pensilvânia quanto no Sul. Relaxe, Pierre. Nenhuma decisão será tomada antes de pelo menos trinta a 45 dias.

  • Me parece inteligente. A imprensa vai ter menos tempo para nos massacrar.

  • Precisamos nos preocupar com alguma mancha no seu passado?

  • Tenho certeza de que a sua equipe já está verificando isso. Mark, diga a verdade, o Chaney leva vantagem no páreo?

  • As pesquisas de opinião mostram que a popularidade dele cruza fron­teiras partidárias e raciais. Ele tem os pés no chão. O público confia até mais nele do que no Colin Powell.

  • Não confunda confiança com qualificações. — Borgia fica de pé e anda de um lado para outro. — As pesquisas também mostram que os ameri­canos estão preocupados com o colapso da economia russa, e como ele afetaria o mercado europeu.

— Pierre, calma. Muita coisa pode acontecer em 45 dias.

Borgia expira.

— Desculpe, presidente. Já é uma grande honra ser levado em conta. Escute, preciso ir. Tenho que me reunir com o general Fecondo antes do pro­nunciamento de hoje à tarde.

Borgia aperta a mão do amigo e se dirige à porta camuflada na parede revestida. Ele se vira antes de sair.

— Marko, você tem algum conselho? O presidente suspira.

— Não sei. Mas Heidi falou uma coisa no café. Já pensou em trocar esse tapa-olho por um olho de vidro?


Dominique sai do saguão do Centro, o calor do verão do sul da Flórida atinge seu rosto em cheio. Um raio distante corta o ameaçador céu vespertino. Passando o diário encadernado em couro da mão direita para a esquerda, ela pressiona o po­legar sobre a fechadura, destrancando a porta do motorista de seu Pronto Spyder preto. O conversível, novinho em folha, foi um presente adiantado de formatura de Edie e Iz. Ela põe o diário no banco do passageiro, afivela o cinto de segurança e aperta o polegar sobre a ignição, sentindo a incômoda picada microscópica. O computador do painel ganha vida, piscando a mensagem:
Ativando seqüência de Ignição.

Identidade Verificada. Sistema Antifurto Desativada.


Ela sente o familiar solavanco das travas da coluna de direção se soltando.
Verificando Nível de Álcool no Sangue. Por Favor. Aguarde...
Dominique encosta a cabeça no banco de couro, olhando as primeiras gotas pesadas de chuva que atingem a capota de tereftalato de polietileno de seu carro esporte. Paciência é uma necessidade com os novos recursos de igni­ção segura, mas ela sabe que vale a pena esperar os três minutos a mais. A em­briaguez ao volante se tornou a principal causa de mortes nos Estados Unidos. Até o outono do próximo ano, todos os veículos deverão obrigatoriamente ter instalados os dispositivos de medição de álcool no sangue.

A ignição é ativada.


Nível Aceitável de Álcool no Sangue. Por Favor, Dirija com Cuidado.
Dominique ajusta o ar-condicionado e em seguida aperta o botão do CD player Digital DJ. O processador interno reage ao tom de voz ou ao toque, in­terpretando o humor do motorista e selecionando uma música adequada entre centenas de combinações pré-programadas.

O baixo pesado do último disco dos Rolling Stones, Past Our Prime, tro­veja dos alto-falantes do som surround. Ela sai do estacionamento de visitantes e começa a viagem de quarenta minutos até sua casa.


Não foi fácil convencer o dr. Foletta a ceder o diário de Julius Gabriel. Sua ob­jeção inicial foi que o trabalho do falecido arqueólogo havia sido patrocinado pelas Universidades de Harvard e Cambridge, e que, legalmente, seria preciso obter permissão por escrito dos dois departamentos de pesquisa antes de libe­rar quaisquer documentos. Dominique argumentou que precisava ter acesso ao diário, não só para fazer seu trabalho direito como para conquistar a confiança de Michael Gabriel. Uma tarde inteira ligando para chefes de departamento em Harvard e Cambridge confirmou que o diário era mais um volume de me­mórias do que um documento científico, e que ela poderia usá-lo à vontade, contanto que não levasse a público nenhuma informação. Foletta finalmente capitulou, trazendo o caderno de 5 centímetros de espessura no fim do dia. O acesso ao diário veio apenas depois de Dominique assinar um acordo de confidencialidade de quatro páginas.
* * *
Já sem a presença da chuva, Dominique entra na garagem escura da torre de apartamentos em Hollywood Beach. Ela desliga o motor do carro, olhando para uma imagem fantasmagórica que aparece no visor instalado no pára-brisa. A imagem fornecida pela câmera do radiador do carro confirma que a garagem está vazia.

Dominique sorri da própria paranóia. Toma o antiquado elevador até o quinto andar, segurando a porta para que a sra. Jenkins e seu poodle branco possam entrar.

O apartamento de um dormitório, propriedade de seus pais adotivos, fica no fim do corredor. É o último à direita. Enquanto ela digita o código de segurança, a porta às suas costas se abre.

— Dominique, como foi seu primeiro dia de trabalho?

O rabino Richard Steinbetg a abraça, um sorriso terno se abre por trás da barba grisalha. Steinberg e sua esposa, Mindy, são grandes amigos de seus pais. Dominique conhece o casal desde que foi adotada, há quase vinte anos.


  • Mentalmente exaustivo. Acho que vou pular o jantar e entrar numa banheira quentinha.

  • Escute, Mindy e eu queremos te chamar pra jantar lá em casa semana que vem. Pode ser na terça?

— Acho que sim. Obrigada.

— Que bom, que bom. Ah, falei com o Iz ontem. Sabia que ele e sua mãe estão querendo vir pra cá nas Grandes Festas?

— Não, eu não...

— Olha, preciso ir, não posso me atrasar para o Shabbat. Até semana que vem.

Ela acena, vendo-o andar apressado pelo corredor. Dominique gosta de Steinberg e da esposa, acha os dois afetuosos e autênticos. Ela sabe que Iz lhes pediu para dar uma atenção paternal a ela.

Dominique entra no apattamento e abre as portas da sacada, deixando a brisa do oceano encher a sala abafada com uma lufada de ar marinho. O agua­ceiro da tarde espantou a maioria dos frequentadores da praia, e os últimos raios de sol escapam de trás das nuvens, lançando um brilho rubro sobre a água.

E sua hora favorita do dia, a hora da confortante solidão. Ela pensa em andar sossegadamente pela praia, depois muda de ideia. Enchendo um copo com vinho de uma garrafa aberta na geladeira, ela tira os sapatos e volta para a sacada. Deixando o copo sobre a mesa de plástico, junto com o grosso diário, ela se deita na espreguiçadeira, esticando-se e sentindo seu corpo afundar nas almofadas macias.

O mantra sincopado das ondas logo faz sua mágica. Ela toma um gole de vinho e fecha os olhos, seus pensamentos voltam mais uma vez ao encontro com Michael Gabriel.

Quatro Ahau, três Kankin. Dominique não ouve essas palavras desde a infância.

Os pensamentos se transformam num sonho. Ela está de volta às colinas da Guatemala, com 6 anos de idade, sua avó materna ao seu lado. As duas estão de joelhos, labutando sob o sol da tarde nas plantações de cebola. Uma brisa fresca, o xocomil, sopra do lago Atitlán. A criança ouve com atenção a voz áspera da velha. "O calendário nos foi passado por nossos ancestrais olmecas, e sua sabedoria vem do nosso mestre, o grande Kukulcán. Muito antes de os espanhóis invadirem nossa terra, o grande mestre nos avisou sobre os dias desastrosos que estavam por vir. Quatro Ahau, três Kankin, o último dia do calendário maia. Cuidado com esse dia, minha filha. Quando a hora chegar, você deve voltar para casa, pois o Popol Vuh diz que somente aqui poderemos voltar à vida."

Dominique abre os olhos, fitando o oceano negro. Cristas de espuma cor de alabastro rolam sob o luar parcialmente oculto.

Quatro Ahau, três Kankin — 21 de dezembro de 2012.

O dia do profetizado fim da humanidade.




Diário de Julius Gabriel
24 DE AGOSTO DE 2000
Meu nome é professor Julius Gabriel.

Sou um arqueólogo, um cientista que estuda relí­quias do passado para entender culturas antigas. Uso evi­dências deixadas pelos nossos ancestrais para tecer hipóteses e formular teorias. Peneiro milhares de anos de mitos para encontrar isolados veios de verdade.

Através das eras, cientistas como eu aprenderam do jeito mais difícil que o medo do homem muitas vezes supri­me a verdade. Rotulada como heresia, seu ímpeto é sufocado até que a Igreja e o Estado, o juiz e o júri sejam capazes de deixar seus medos de lado e aceitar o que é real.

Sou um cientista. Não sou um político. Não estou in­teressado em apresentar anos de teorias apoiadas em fatos para uma assembleia de autodenominados acadêmicos, para que eles votem no que pode ou não pode ser uma verdade aceitável sobre o destino da humanidade. A natureza da verdade não tem nada a ver com o processo democrático. Como um repórter investigativo, só me interessa o que real­

mente aconteceu e o que pode de fato acontecer. E se a verdade resultar tão inacre­ditável que me rotulem como herege, que seja.

Afinal, estou em boa companhia: Darwin era um herege; e Galileu antes dele; há quatrocentos anos, Giordano Bruno foi condenado à fogueira por insistir que existiam outros mundos além do nosso.

Como Bruno, estarei morto bem antes que o amargo fim da humanidade chegue. Aqui jaz Julius Gabriel, vítima de um coração doente. Meu médico impõe seus cuidados, avisando que meu coração não passa de uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento. Que exploda, eu digo. Esse órgão inútil só me fez sofrer desde que se rompeu, há 11 anos, quando minha amada se foi.
Estas são minhas memórias, o relato de uma jornada que começou há uns 32 anos. Meus objetivos em coletar essas informações são dois. Primeiro, a natureza da pes­quisa é tão polêmica, e seus desdobramentos, tão aterrorizantes, que agora percebo que a comunidade científica fará tudo o que estiver ao seu alcance para sufocar, abafar e negar a verdade sobre o destino do homem. Por último, sei que há indiví­duos em meio ao povo que, como meu próprio filho, preferem lutar a ficar passivos enquanto o fim se aproxima. Para vocês, meus "guerreiros da salvação", eu deixo este diário, passando com ele o bastão da esperança. Décadas de labuta e sofrimento se escondem nestas páginas, neste pedacinho da história do homem, extraída de anos de calcário. O destino da nossa espécie está agora nas mãos do meu filho e talvez nas suas. Na pior das hipóteses, vocês não farão mais parte da maioria que Michael chama de "inocentes ignorantes". Rezem para que homens como meu filho possam resolver o antigo enigma dos maias. E rezem por vocês mesmos.

Dizem que o medo da morte é pior do que a própria morte. Eu acredito que testemunhar a morte de um ente querido seja pior ainda. Ter visto a vida da minha alma gêmea escapar diante de meus olhos, ter sentido o seu corpo esfriar em meus braços isso é desespero demais para um coração aguentar. As vezes, chego a ficar grato por estar morrendo, pois nem consigo imaginar a angústia de testemunhar toda uma população sofrendo em meio ao holocausto planetário que está por vir.

Para aqueles dentre vocês que riem de minhas palavras, um aviso: o dia do acerto de contas se aproxima rapidamente, e ignorar o fato não mudará em nada o resultado.
Hoje, aguardo nos bastidores, em Harvard, organizando estes textos enquanto es­pero minha vez na tribuna. Tanta coisa depende do meu discurso, tantas vidas. Minha maior preocupação é que os egos dos meus colegas sejam grandes demais para permitir que as minhas descobertas sejam ouvidas com mente aberta. Se eu tiver a chance de apresentar os fatos, sei que poderei instigá-los como cientistas. Se eu for ridicularizado, meu medo é que tudo estará perdido.

Medo. Não tenho dúvidas quanto ao efeito motivador que essa emoção tem sobre mim agora. Porém, não foi o medo que me pôs nesta jornada naquele fatídico dia de maio de 1969, e sim o desejo de conseguir fama e fortuna. Na época, eu era jovem e imortal, ainda cheio de empáfia e cinismo, tendo recebido recentemente meu título de doutor cum laude da Universidade de Cambridge. Enquanto o resto dos meus colegas estava ocupado protestando contra a guerra do Vietnã, fazendo amor e lutando por igualdade, eu parti com a herança do meu pai, acompanhado de dois colegas arqueólogos e companheiros: meu (ex) melhor amigo, Pierre Borgia, e a es­tonteante Maria Rosen. Nosso objetivo — desvendar o grande mistério que cercava o calendário maia e sua profecia de 2.500 anos que anunciava o fim do mundo.

Nunca ouviu falar da profecia do calendário maia? Não estou surpreso. Hoje em dia, quem tem tempo para se preocupar com um oráculo de morte originado numa antiga civilização mesoamericana?

Daqui a 11 anos, quando vocês e seus entes queridos estiverem se retorcendo no chão, lutando para puxar o último hausto de ar, com sua vida passando diante de seus olhos pode ser que se arrependam de não ter tido tempo.

Vou até dizer o dia em que vocês vão morrer: 21 de dezembro do ano de 2012.

Pronto, vocês foram oficialmente avisados. Agora podem agir ou enfiar a cabeça na areia da ignorância, como o resto de meus cultos colegas.

Naturalmente, é fácil para seres humanos racionais desprezar a profecia maia do Juízo Final como uma mera bobagem supersticiosa. Ainda me lembro da reação do meu professor ao descobrir a área em que eu pretendia me especializar: Está perdendo o seu tempo, Julius. Os maias eram bárbaros, um bando de selvagens que moravam no mato e acreditavam em sacrifícios humanos. Pelo amor de Deus, eles não conheciam nem a roda...

Meu professor estava ao mesmo tempo certo e errado, e esse é o paradoxo. Embora seja verdade que os antigos maias mal entendiam a importância da roda, eles conseguiram, de fato, adquirir conhecimentos avançados de Astronomia, Arquitetura e Matemática que, de muitas maneiras, rivalizavam e até superavam os nossos. Em termos laicos, os maias eram equivalentes a uma criança de 4 anos que consegue tocar a Sonata ao Luar de Beethoven no piano, enquanto continua incapaz de martelar "O Bife".

Vocês acham difícil acreditar nisso, tenho certeza; a maioria dos autodenomi­nados "cultos"acha. Mas as evidências são esmagadoras. E foi isso que me impeliu a começar minha jornada, pois simplesmente ignorar a riqueza de conhecimentos do calendário por causa de sua inimaginável profecia teria sido um crime tão grande quanto menosprezar sumariamente a teoria da relatividade porque Einstein já trabalhou como contínuo.

Então, o que é o calendário maia?

Uma breve explicação:

Se eu pedisse para vocês explicarem a função de um calendário, sua resposta imediata provavelmente seria descrever o dispositivo como um meio de lembrar seus compromissos semanais ou mensais. Indo além desse âmbito limitado, vejamos o calendário como o que ele realmente éuma ferramenta projetada para deter­minar (tão precisamente quanto possível) a órbita anual da Terra ao redor do Sol.

Nosso calendário ocidental moderno foi introduzido pela primeira vez na Europa, em 1582. Foi baseado no calendário gregoriano, que calculava a órbita da Terra ao redor do Sol com uma duração de 365,25 dias. Ele incorporava um minúsculo erro de 0,0003 dia por ano para mais, algo bastante impressionante para cientistas do século XVI.

Os maias derivaram seu calendário de seus ancestrais, os olmecas, um povo misterioso cujas origens remontam a uns 3 mil anos atrás. Imaginem-se por um momento vivendo há milhares de anos. Não existe televisão, rádio, telefones ou relógios, e sua tarefa é mapear as estrelas para determinar a passagem de tempo que equivale a uma órbita planetária. De alguma forma, os olmecas, sem instrumentos de precisão, calcularam a duração do ano solar em 365,2420 dias, incorporando um erro ainda menor de 0,0002 por dia.

Deixe-me repetir para que vocês entendam as implicações: o calendário maia tem 3 mil anos de idade e é um décimo milésimo de dia mais preciso do que o ca­lendário que o mundo usa atualmente!

Tem mais. O calendário solar maia é só uma parte de um sistema com três calendários. O segundo, o "calendário cerimonial", funciona junto com ele e consis­te em vinte meses de 13 dias. A terceira parte, o "calendário venusiano" ou "Con­tagem Longa", foi baseado na órbita do planeta Vénus. Combinando esses três calendários num só, os maias conseguiram determinar eventos celestiais ao longo de enormes passagens de tempo, não só de milhares, mas de milhões de anos. (Num monumento mesoamericano em particular, uma inscrição se refere a um período de tempo iniciado há 400 milhões de anos.)

Já estão impressionados?

Os maias acreditavam em Grandes Ciclos, períodos de tempo que registra­vam as criações e destruições previstas do mundo. O calendário demarcou os cinco Grandes Ciclos, ou Sóis, da Terra. O ciclo atual, o último, começou em 4 Ahau 8 Cumku, data correspondente a 13 de agosto de 3.114 a.C., considerada pelos maias como a data de nascimento do planeta Vênus. Está previsto que esse último Grande Ciclo terminará com a destruição da humanidade em 4 Ahau 3 Kankin, data determinada como 21 de dezembro do ano de 2012 — o dia do solstício de inverno.

O Dia dos Mortos.

Quão convencidos estavam os maias da veracidade de sua profecia? Depois da partida de seu grande mestre, Kukulcán, os maias começaram a praticar rituais bárbaros envolvendo sacrifícios humanos, arrancando os corações de dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças.

O sacrifício supremo — tudo para impedir o fim da humanidade.

Não peço que vocês recorram a expedientes tão bizarros, mas apenas que abram sua mente. O que não conhecemos pode nos afetar, o que nos recusamos a en­xergar pode nos matar. Existem mistérios que nos cercam cujas origens não podemos compreender, mas precisamos! As pirâmides de Gizé e Teotihuacán, os templos de Angkor no Camboja, Stonehenge, a incrível mensagem inscrita no deserto de Nazca e, acima de tudo, a pirâmide de Kukulcán em Chichén Itzá. Todos esses sítios anti­gos, todas essas maravilhas magníficas e inexplicáveis não foram criados para serem atrações turísticas, mas são peças de um único e intrigante quebra-cabeça que pode evitar a aniquilação de nossa espécie.
Minha jornada pela vida está quase no fim. Deixo essas memórias, um resumo das provas esmagadoras que acumulei durante três décadas, para o meu filho Michael e para todos aqueles que querem continuar o meu trabalho ad finem — até o fim. Enquanto apresento as pistas e a forma como as encontrei, tentarei pintar um quadro histórico com os fatos e seu acontecimento ao longo da linha do tempo da história do homem.

Quero deixar registrado que não sinto satisfação nenhuma por estar certo. Quero deixar registrado que peço a Deus que eu esteja errado.

Eu não estou errado...
— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

Ref. Catálogo J G 1969-70 páginas 12-28




3
11 DE SETEMBRO DE 2012

MIAMI, FLÓRIDA
Michael Gabriel está sonhando.

Mais uma vez, ele está sentado no chão, nos bas­tidores de um auditório, a cabeça de seu pai apoiada em seu peito enquanto esperam a ambulância. Julius acena para que o filho aproxime o ouvido, para que ele possa sussurrar um segredo que guarda desde a morte de sua esposa, 11 anos antes.

Michael... a pedra central.

Não tente falar, papai. A ambulância está chegando.



  • Escute, Michael! A pedra central, o marco do cam­po. Eu coloquei de volta.

  • Não estou entendendo. Que pedra?

  • Em Chichén Itzá.

Os olhos cansados ficam baços, o peso do corpo do pai amolece contra o seu peito.

Pai... PAI!

Mick acorda com o corpo banhado de suor.

Dominique acena distraidamente para a recepcionista e segue direto para o posto central da segurança. Um vigia musculoso sorri quando ela se aproxima, o bigode ruivo do homem se ergue e se espalha por seu lábio superior, revelan­do dentes amarelados.



  • Bom dia, gatinha. Meu nome é Raymond, e aposto que você é a nova residente.

  • Dominique Vazquez. — Ela aperta sua mão calejada, notando gotículas de transpiração em seu antebraço grosso e sardento.

  • Desculpe, acabei de chegar da academia. — Raymond enxuga os bra­ços com uma toalha de mão, exagerando os movimentos para flexionar os mús­culos. — Vou competir no torneio regional pra Mister Flórida em novembro. Acha que tenho chances?

  • Hã, claro. — Meu Deus, por favor, tomara que ele não comece a posar...

  • Você podia ir junto e me ver competir, viu? Torcer por mim? — Os pálidos olhos castanhos se abrem sob as sobrancelhas curtas e avermelhadas.

Seja gentil.

  • Muitos funcionários vão?

  • Alguns, mas vou te garantir um lugar perto do palco. Vem pros fundos, gatinha, preciso fazer o teu crachá e gravar uma imagem térmica do teu rosto.

Raymond destranca o portão de aço e o segura aberto para ela, flexionan­do o tríceps. Dominique sente os olhos dele correndo pelo seu corpo ao passar.

— Senta aí, vamos fazer o crachá primeiro. Vou precisar da sua carteira de motorista.

Ela entrega o documento e se senta numa cadeira reta, posicionada diante de uma máquina preta do tamanho de uma geladeira. Raymond enfia um disquete quadrado numa fenda lateral, depois digita as informações no computador.

— Sorria. — O flash explode em seus olhos, deixando uma mancha incômoda. — O crachá fica pronto no fim do dia. — Ele devolve a carteira de motorista. — Certo, agora pode sentar na frente desta câmera infravermelha. Já mapeou seu rosto?



Já depilou suas costas?

  • Hã, que eu saiba, não.

  • A câmera infravermelha cria uma imagem única do seu rosto, regis­trando o calor emitido pelos vasos sanguíneos sob a pele. Até gêmeos idênticos têm padrões faciais diferentes para o infravermelho, e esses padrões nunca mu­dam. O computador registra 1.900 pontos térmicos distintos. O rastreamento da pupila usa 266 características mensuráveis, e as impressões digitais, só quarenta...

  • Ray, tudo isso é fascinante, de verdade, mas é mesmo necessário? Não vi ninguém usando sensores infravermelhos.

  • É porque você não esteve aqui à noite. A tarja magnética do seu crachá é tudo que você precisa para entrar ou sair da instituição durante o dia. Mas depois das sete e meia da noite, vai precisar digitar sua senha e se identificar para o sensor infravermelho. A máquina vai comparar sua imagem térmica facial com as imagens que vamos registrar no seu arquivo permanente. Nin­guém entra ou sai deste prédio à noite sem ser identificado, e nada engana a máquina. Sorria.

Dominique olha desanimadamente para a câmera esférica por trás da chapa de vidro, sentindo-se boba.

— Certo, vire pra esquerda. Ótimo. Agora pra direita. Agora olhe pra baixo. Acabou. Ei, gatinha, você gosta de comida italiana?



Pronto.

  • De vez em quando.

  • Tem um restaurante ótimo aqui pertinho. A que horas você sai?

  • Hoje à noite não é um bom...

  • Quando é bom?

  • Ray, preciso ser sincera, eu nunca saio com colegas de trabalho.

  • Quem falou em sair? Só falei de jantar.

  • Se é só pra jantar, então tudo bem, eu adoraria ir um dia, mas hoje não dá mesmo. Me dê algumas semanas pra me ajeitar. — E pra inventar outra desculpa. Ela abre um sorriso doce, esperando diminuir a dor da rejeição. — Além do mais, se você está treinando não pode se encher de comida italiana.

  • Tudo bem, então, mas vou te cobrar. — O ruivão sorri. — Escute, se precisar de alguma coisa, é só chamar.

  • Não vou precisar. Preciso ir. O dr. Foletta está esperando...

  • O Foletta só chega à tarde. Está na reunião mensal do conselho. Ei, ouvi dizer que ele te destacou pra aquele paciente dele. Como é o nome dele mesmo?

  • Michael Gabriel. O que você sabe sobre ele?

  • Não muito. Foi transferido de Massachusetts junto com o Foletta. Eu sei que o conselho e a equipe médica ficaram muito putos quando ele chegou. O Foletta deve ter mexido uns pauzinhos.

— Como assim?

Raymond vira a cabeça, evitando o olhar dela.



  • Ah, deixa pra lá.

  • Vamos, me conte.

  • Não, preciso aprender a fechar a matraca. O Foletta é o seu chefe. Não quero dizer nada que possa causar uma má impressão.

  • Fica só entre nós dois.

Mais dois vigias entram, acenando para Raymond.

— Tudo bem, eu conto, mas não aqui. Ouvidos atentos e bocas grandes demais. A gente conversa no jantar. Eu saio às seis. — Os dentes manchados aparecem num sorriso triunfante.

Raymond abre o portão para ela. Dominique sai do posto de segurança e espera pelo elevador de funcionários sorrindo amarelo. Parabéns, gatinha. Você devia ter imaginado que ia dar nisso.
Marvis Jones a observa sair do elevador em seu monitor de segurança.


  • Bom dia, residente. Se está aqui para ver o interno Gabriel, ele está confinado no quarto.

  • Posso vê-lo?

O vigia ergue o olhar dos papéis.

— Talvez seja melhor esperar que o diretor volte.

— Não. Quero falar com ele agora. E não na sala isolada.

Marvis parece contrariado.

— Te aconselho a não fazer isso. Esse sujeito tem um histórico de vio­lência e...

— Não sei se eu caracterizaria um episódio em 11 anos como um histórico.

Seus olhares se cruzam. Marvis percebe que Dominique não vai ceder.

— Certo, moça, como quiser. Jason, acompanhe a residente Vazquez ao quarto 714. Dê o seu transponder de segurança para ela e tranque-a lá dentro.

Dominique segue o vigia por um corredor curto, entrando no núcleo central de três situado na ala norte. A área da entrada está vazia.

O vigia para diante do quarto 714 e fala no interfone do corredor.

— Interno, sente na cama, onde eu possa vê-lo. — Ele destranca a porta e entrega a Dominique o que parece uma caneta grossa. — Se precisar de mim, dê dois cliques nesta caneta. — Ele faz uma demonstração, e o receptor em sua cintura vibra. — Mas tome cuidado. Não o deixe chegar muito perto.

— Obrigada. — Ela entra no quarto.

A cela mede 3 metros por 4. A luz do dia entra por uma tira de plástico de 8 centímetros de largura que percorre verticalmente uma das paredes. Não há janelas. A cama é de ferro, presa ao chão. Uma escrivaninha e alguns escaninhos estão parafusados ao lado dela. Uma pia e uma privada de aço ficam na parede à direita, fora do rumo do corredor para dar ao ocupante alguma privacidade.

A cama está arrumada, o quarto imaculado. Michael Gabriel está sentado sobre o colchão da espessura de uma revista. Ele se levanta, cumprimentando-a com um sorriso afetuoso.

— Bom dia, Dominique. Vejo que o dr. Foletta ainda não chegou. Que sorte.

— Como você sabe?

— Porque estamos conversando na minha cela, e não na sala de entre­vista. Por favor, sente na cama, eu fico no chão. A menos que prefira sentar na privada?

Ela retribui o sorriso, sentando-se na beirada do colchão. Mick se apoia na parede à esquerda. Seus olhos negros brilham sob a luz fluorescente.

Ele não perde tempo para começar a interrogá-la.

— Como foi o seu fim de semana? Leu o diário do meu pai?

— Desculpe. Só consegui ler as primeiras dez páginas. Mas terminei de ler o estudo do Rosenhan.

— Sobre ser são em lugares insanos. O que achou?



  • Achei interessante, talvez até um pouco surpreendente. A equipe dele teve bastante dificuldade em distinguir os voluntários dos pacientes. Por que você quis que eu lesse?

  • Por que você acha? — Os olhos de ébano cintilam para ela, refletindo sua inteligência felina.

— Obviamente quer que eu considere a possibilidade de você não ser louco.

— Obviamente. — Ele se endireita, cruzando os calcanhares na posição de lótus. — Vamos fazer um jogo. Volte no tempo 11 anos e imagine que você é o Michael Gabriel, filho do arqueólogo Julius Gabriel, a poucos minutos do ridículo e de uma morte fulminante. Você está nos bastidores, na Universidade de Harvard, diante de uma plateia lotada, ouvindo seu pai compartilhar uma vida de informações com algumas das maiores mentes da comunidade cientí­fica. Seu coração está acelerado pela adrenalina, porque você trabalhou ao lado dele desde que nasceu, e sabe o quanto essa palestra é importante, não só para ele, mas para o futuro da humanidade. Aos dez minutos da palestra, você vê o arqui-inimigo de longa data de Julius cruzar o palco até outra tribuna. Pierre Borgia, o filho pródigo de uma dinastia política, decide desafiar a pesquisa do meu pai ali mesmo, no palco. Na verdade, a palestra toda é uma grande cilada, preparada pessoalmente por Borgia para promover um ataque verbal ao meu pai e destruir sua credibilidade. Pelo menos 12 pessoas na plateia sabiam da brincadeira. Depois de dez minutos, Julius mal conseguia se fazer ouvir em meio às risadas dos colegas.

Mick para, momentaneamente perdido na lembrança.


  • Meu pai era um homem altruísta e brilhante que dedicou sua vida à busca da verdade. No meio do pronunciamento mais importante de sua carrei­ra, viu sua existência inteira roubada, seu orgulho destruído, o trabalho de uma vida, 32 anos de sacrifício, desmoralizado num piscar de olhos. Pode imaginar a humilhação que ele sentiu?

  • O que aconteceu depois?

  • Ele cambaleou para os bastidores e caiu nos meus braços, com a mão no peito. Julius tinha o coração fraco. Com suas últimas energias, murmurou algumas instruções pra mim e morreu nos meus braços.

  • E foi aí que você atacou o Borgia?

  • O desgraçado ainda estava no palco cuspindo ódio. Apesar do que com certeza te disseram, não sou um homem violento. — Seus olhos escu­ros se arregalam. — Mas, naquele momento, eu queria enfiar o microfone na garganta dele. Lembro que andei em volta da tribuna, o mundo ao meu redor se movendo em câmera lenta. Só conseguia ouvir a minha respiração e só con­seguia ver o Borgia, mas parecia que eu estava olhando pra ele através de um túnel. Quando dei por mim, ele estava no chão e eu estava amassando a cabeça dele com o microfone.

Dominique cruza as pernas, disfarçando um calafrio.

  • O corpo do meu pai foi parar no necrotétio municipal e foi crema­do sem nenhuma cerimônia. O Borgia passou as três semanas seguintes num quarto de hospital particular, de onde a família dirigia a campanha dele pro Senado, construindo o que a imprensa chamou de "uma virada sem preceden­tes". Eu estava apodrecendo numa cela de cadeia, sem amigos ou família pra pagar a minha fiança, esperando enfrentar uma acusação de agressão. Mas o Borgia tinha outras idéias. Usou a influência política da família e manipulou o sistema, entrando num acordo com o promotor e o defensor público que foi indicado pra mim. No final, fui declarado maluco e o juiz me mandou pra um sanatório decrépito em Massachusetts, onde, com o perdão pelo trocadilho, o Borgia podia ficar com um olho em mim.

  • Você disse que o Borgia manipulou o sistema judiciário. Como?

  • Da mesma forma que ele manipula Foletta, meu guardião nomeado pelo Estado. Pierre Borgia recompensa a lealdade, mas que Deus ajude quem vai pra lista negra dele. O juiz que me sentenciou foi promovido à Corte Su­prema do Estado três meses depois de me declarar criminalmente insano. Pou­co tempo depois, nosso bom doutor foi nomeado diretor da instituição, de al­guma forma saltando por cima de uma dúzia de candidatos mais qualificados. Os olhos negros lêem os pensamentos dela.

  • Me diga o que está pensando, Dominique. Você acha que eu sou um paranóico-esquizofrênico iludido.

  • Eu não disse isso. E o outro incidente? Você nega ter atacado brutal­mente um vigia?

Mick olha para ela com uma expressão perturbadora.

— Robert Griggs era mais sádico do que homossexual, um vigia cujos atos você provavelmente diagnosticaria como estupro motivado por raiva e excitação. Foletta o indicou de propósito pra ronda noturna na minha ala um mês antes da minha primeira avaliação. O velho Griggsy costumava fazer a ronda às duas da manhã.

Dominique sente seu coração bater mais forte.

— Trinta internos por ala, todos dormindo com um pulso e um torno­zelo algemados na cama. Uma noite, Griggs chegou bêbado me procurando. Acho que tinha decidido me acrescentar ao harém dele. Pra começar, me lubri­ficou um pouco enfiando um cabo de vassoura...

— Pare! Onde estavam os outros vigias?

— Ele era o único. Como eu não podia fazer nada pra impedi-lo, falei manso, tentando convencê-lo de que iria ser mais prazeroso se minhas duas pernas estivessem livres. O otário soltou a algema do meu tornozelo. Não vou te entediar com detalhes do que aconteceu a seguir...



  • Fiquei sabendo. Você fez ovos mexidos com ele, por assim dizer.

  • Eu podia tê-lo matado, mas não matei. Não sou um assassino.

— E por causa disso passou o resto dos seus dias na solitária? Mick faz que sim com a cabeça.

— Onze anos no útero de concreto. Duro e frio, mas sempre lá. Agora me conte. Que idade você tinha quando seu primo te sodomizou?



  • Desculpe, mas não me sinto à vontade pra discutir isso com você.

  • Porque você é a terapeuta e eu sou o psicótico?

  • Não. Quer dizer, sim. Porque sou a médica e você é meu paciente.

— Somos mesmo tão diferentes? Você acha que a equipe do Rosenhan saberia determinar qual de nós dois deve ocupar esta cela? — Ele se apóia na parede. — Posso te chamar de Dom?

— Pode.


  • Dom, o isolamento na solitária pode esgotar um homem. Posso estar sofrendo de privação sensorial, e talvez até parecer um pouco assustador, mas sou tão são quanto você, o Foletta e o vigia do outro lado da porta. O que posso fazer pra te convencer disso?

  • Não sou eu quem você precisa convencer. É o dr. Foletta.

  • Já falei, o Foletta trabalha pro Borgia, e o Borgia nunca vai me deixar sair daqui.

  • Posso falar com ele. Forçá-lo a te dar os mesmos direitos e privilégios dos outros internos. Com o tempo, posso...

  • Nossa, já estou até ouvindo o Foletta: "Acorde, residente Vazquez. Você já está caindo na famosa teoria da conspiração do Gabriel." Ele deve ter te convencido de que eu sou o novo Ted Bundy.

  • De jeito nenhum. Mick, eu quis ser psiquiatra pra ajudar gente como...

  • Gente como eu. Malucos?

  • Me deixa terminar. Você não é maluco, mas acho que precisa de aju­da. O primeiro passo é convencer o Foletta a designar uma equipe de avaliação pra você...

  • Não. Ele não vai permitir uma coisa dessas. E mesmo se permitir, não há tempo.

  • Por que não há tempo?

  • A avaliação e a audiência que tenho que fazer todo ano é daqui a seis dias. Você ainda não entendeu por que o Foletta te indicou pra cuidar de mim? Você é uma residente, facilmente manipulável. "O paciente mostra sinais encorajadores de melhora, residente Vazquez, mas ainda não está pronto para voltar à sociedade." Você vai concordar com o diagnóstico dele, e isso é tudo que a junta de avaliação precisa ouvir.

O Foletta tem razão, ele é bom. Talvez não seja tão bom quando não está controlando a conversa.

  • Mick, vamos falar um pouco sobre o trabalho do seu pai? Na sexta, você mencionou quatro Ahau, três Kankin...

  • O dia do fim da humanidade. Eu sabia que você reconheceria a data.

  • É só uma lenda maia.

  • Muitas lendas contêm verdades.

  • Então você acredita mesmo que vamos todos morrer em menos de quatro meses?

Mick olha para o chão, balançando a cabeça.

  • Um simples sim ou não já basta.

  • Sem joguinhos psicológicos, Dominique.

  • Que joguinhos psicológicos?

  • Você sabe muito bem que a pergunta, formulada desse jeito, cheira a esquizofrenia paranóica e ilusões de...

  • Mick, é uma pergunta simples. — Ele está ficando nervoso. Ótimo.

  • Você está me desafiando a uma batalha de intelectos pra encontrar pontos fracos. Não faça isso. Não é muito eficaz e você vai perder, o que signi­fica que vamos todos perder.

  • Você me pediu pra avaliar sua capacidade de voltar à sociedade. Como posso fazer isso sem perguntar?

  • Pergunte o que quiser, mas não arme ciladas. Terei prazer em discutir as teorias do meu pai com você, mas só se estiver realmente interessada. Se o seu objetivo é descobrir qual o meu limite, me passe a porra do Teste de Rorschach ou de Percepção Temática e acabe logo com isso.

  • Que ciladas você acha que estou armando?

Mick fica de pé e se aproxima dela. O coração de Dominique dispara. Ela pega a caneta.

  • A própria natureza da pergunta me condena. É como perguntar a um sacerdote se a esposa dele sabe que ele se masturba. De um jeito ou de outro, fica ruim pra ele. Se eu responder "não" sobre a previsão do Juízo Final, terei que explicar por que mudei repentinamente de opinião depois de 11 anos. O Foletta vai interpretar isso como uma farsa destinada a enganar o comitê de avaliação. Se eu disser que sim, você vai concordar que eu só sou mais um psicótico que acredita que o céu vai desabar.

  • Então como sugere que eu avalie a sua sanidade? Não posso evitar esse assunto.

  • Não, mas pode ao menos examinar as provas com a cabeça aberta antes de tirar conclusões. Algumas das maiores mentes da História foram cha­madas de loucas, até que a verdade foi revelada.

Mick se senta na outra ponta da cama. A pele de Dominique formiga. Ela não sabe ao certo se está excitada ou assustada, ou talvez ambas as coisas. Muda de posição, descruza as pernas, segurando a caneta disfarçadamente. Ele está perto o suficiente pra me estrangular, mas se estivéssemos num bar, eu provavel­mente já estaria dando em cima dele...

  • Dominique, é muito importante, muito, muito importante que a gente confie um no outro. Preciso da sua ajuda, e você da minha, embora ainda não saiba disso. Juro pela alma da minha mãe que jamais vou mentir pra você, mas precisa prometer que vai me ouvir com a mente aberta.

  • Tudo bem, vou ouvir objetivamente. Mas a pergunta permanece. Você acredita que a humanidade vai ter fim em 21 de dezembro?

Mick se inclina para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele olha para o chão, apertando o meio do nariz com os dois dedos indicadores.

— Presumo que você seja católica?



  • Nasci católica, mas fui criada numa família judaica desde os 13 anos. E você?

  • Minha mãe era judia, e meu pai, episcopal. Você se considera uma pessoa religiosa?

  • Não muito.

  • Acredita em Deus?

  • Sim.

  • Acredita no mal?

  • No mal? — A pergunta a surpreende. — Isso é meio amplo. Pode explicar melhor?

  • Não estou falando de homens cometendo assassinatos brutais. Me refiro ao mal como uma entidade autônoma, parte da própria trama da exis­tência. — Mick ergue a cabeça, fixando os olhos nela. — Por exemplo, a crença judaico-cristã é de que o mal tomou forma pela primeira vez ao entrar no Jar­dim do Éden disfarçado de serpente, tentando Eva a morder a maçã.

  • Como psiquiatra, não acredito que nenhum de nós nasça mau, nem bom, aliás. Acredito que temos capacidade para ambas as coisas. O livre-arbítrio nos permite escolher.

— E se... se algo estiver influenciando o seu livre-arbítrio sem que você saiba?

— O que você quer dizer?



  • Algumas pessoas acreditam que existe uma força maligna, parte da natureza. Uma inteligência autônoma que existiu neste planeta durante toda a história do homem.

  • Estou meio perdida. O que tudo isso tem a ver com a profecia do Juízo Final?

  • Como pessoa racional, você me pergunta se acredito que a humanida­de está pra acabar. Como pessoa racional, peço que você me explique por que toda civilização antiga e bem-sucedida previa o fim da humanidade. Como pes­soa racional, peço que me diga por que todas as principais religiões anunciam um apocalipse e esperam que um Messias volte pra livrar nosso mundo do mal.

— Não posso responder. Como a maioria das pessoas, não sei.

— Meu pai também não sabia. Mas por ser um homem racional, um cientista, ele queria descobrir. E por isso dedicou a vida e sacrificou a felicidade de sua família em busca da verdade. Passou décadas investigando ruínas anti­gas à procura de pistas. E no fim, o que ele encontrou era tão insondável que literalmente o deixou à beira da loucura.

— O que ele encontrou?

Mick fecha os olhos e a inflexão de sua voz fica mais suave.

— Provas. Provas deliberadamente deixadas para nós com grande sacrifí­cio. Provas que apontam para a existência de uma presença, uma presença tão maligna que o fim da humanidade será marcado por sua ascensão.

— Mais uma vez, não entendo.

— Não posso explicar, só sei que, de alguma forma, sinto essa presença ficando mais forte.

Ele está se esforçando pra continuar racional. Faça-o falar mais.


  • Você diz que essa presença é maligna. Como sabe?

  • Simplesmente sei.

  • Você não está me dando muitos dados. E o calendário maia não é algo que eu chamaria de prova...

  • O calendário é só a ponta do iceberg. Existem lugares extraordinários, inexplicáveis, espalhados por este planeta, maravilhas astronômicamente ali­nhadas, todas partes de um único quebra-cabeça gigante. Nem os maiores cé­ticos do mundo podem refutar sua existência. As pirâmides de Gizé e Chichén Itzá. Os templos de Angkor Wat e Teotihuacán, Stonehenge, os mapas de Piri Reis e os desenhos do deserto de Nazca. Foram necessárias décadas de trabalho intenso para erguer essas maravilhas antigas, e o método de sua construção ain­da é um mistério para nós. Meu pai descobriu uma inteligência unificada por trás de tudo isso, a mesma inteligência responsável pela criação do calendário maia. Mais importante ainda é o fato de que cada um desses locais está ligado a um propósito comum, cujo significado se perdeu no último milênio.

  • E esse propósito é?

  • A salvação da humanidade.

O Foletta tem razão. Ele realmente acredita nisso.

— Me deixe ver se entendi. Seu pai acreditava que cada um desses locais antigos foi projetado pra salvar a humanidade. Mas como uma pirâmide ou um monte de desenhos no deserto podem nos salvar? E nos salvar de quê? Dessa presença maligna?

Os olhos negros penetram-lhe a alma.

— Sim, mas é algo infinitamente pior. Algo que virá pra destruir a hu­manidade no solstício de dezembro. Meu pai e eu estávamos prestes a resolver o mistério quando ele morreu, mas ainda faltam peças importantes do quebra-cabeça. Se os códices maias não tivessem sido destruídos...

— Quem os destruiu?

Mick balança a cabeça, como que decepcionado.

— Você nem conhece a história dos seus próprios ancestrais? O criador do calendário do Juízo, o grande mestre, Kukulcán, deixou informações cruciais nos antigos códices maias. Quatrocentos anos depois de sua partida, a Espanha invadiu o Yucatán. Cortez era branco e usava barba. Os maias o confundiram com Kukulcán, e os astecas com Quetzalcoatl. Ambas as civilizações basica­mente depuseram as armas e se deixaram conquistar, achando que seu Mes­sias caucasiano havia voltado para salvar a humanidade. Os padres católicos se apossaram dos códices. Devem ter ficado bastante assustados com o que leram, porque os burros queimaram tudo, essencialmente nos condenando à morte.

Ele está ficando exaltado.


  • Não sei, Mick. As instruções pra salvar a humanidade parecem im­portantes demais pra serem deixadas com um bando de índios mesoamericanos. Se Kukulcán era tão sábio, por que não deixou essas informações em outro lugar?

  • Obrigado.

  • Por quê?

  • Por pensar. Por usar o hemisfério lógico do seu cérebro. A informação realmente era importante demais pra ser deixada com uma cultura vulnerá­vel como a maia, ou com qualquer outra cultura antiga, aliás. No deserto de Nazca, no Peru, há uma mensagem visual, simbólica, inscrita no pampa em ideogramas precisos, de 120 metros de largura. Meu pai e eu estávamos quase chegando ao significado da mensagem quando ele morreu.

Ela olha inocentemente para o relógio.

Mick salta de pé como um gato, assustando-a ao segurar seus ombros.

— Pare de tratar isso como uma parte do seu currículo de graduação e ouça o que estou dizendo. Tempo é um luxo que nós não temos...

Ela o olha nos olhos enquanto ele esbraveja, seus rostos separados apenas por centímetros.



  • Mick, me solte... — Ela mexe na caneta.

  • Me escute. Você perguntou se eu acredito que a humanidade vai aca­bar daqui a quatro meses. A resposta é sim, a menos que eu possa completar o trabalho do meu pai. Caso contrário, vamos todos morrer.

Dominique clica a caneta sem parar, seu coração disparado, sua mente cheia de medo.

— Dominique, por favor. Preciso que você me tire deste hospício antes do equinócio de outono.



  • Por quê? — Faça-o continuar falando...

  • O equinócio é daqui a apenas duas semanas. Sua chegada será anun­ciada em todos os locais que eu mencionei. A pirâmide de Kukulcán, em Chitchén Itzá, vai marcar o evento em sua balaustrada setentrional, com a descida da sombra da serpente. Naquele momento, a Terra vai entrar num alinhamen­to galáctico extremamente raro. Um portal vai começar a se abrir no centro da faixa escura da Via Láctea. Será o começo do nosso fim.

Ele está delirando... Lembrando-se da foto de Borgia com um olho só, ela se move, preparando o joelho.

  • Dominique, não sou maluco. Preciso que você me leve a sério...

  • Você está me machucando...

  • Desculpe, desculpe... — Ele a solta. — Escute, isso é vital. Meu pai acreditava que ainda é possível impedir a ascensão do mal. Preciso da sua ajuda. Preciso que você me tire daqui antes do equinócio...

Mick se vira e vê Marvis pondo o punho diante de seu rosto, cegando-o com o spray de pimenta.

— Não! Não, não, não...

Agitada demais para falar, Dominique empurra o vigia para o lado e sai correndo do quarto. Ela para no corredor, seu coração disparado.

Marvis tranca o quarto 714 e a acompanha para fora do núcleo.

Mick continua esmurrando a porta, gritando para ela como um animal ferido.




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