Steve Alten o domínio



Baixar 15.84 Mb.
Página1/9
Encontro07.10.2019
Tamanho15.84 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9



Steve Alten

O Domínio

Tradução

Michele Vartuli


SUMA de Letras

2010
Para Ken Atchity,



Agente Literário, Mentor, Amigo…

AGRADECIMENTOS
É com grande orgulho e gratidão que cito aqueles que contribuíram para a realização de O Domínio.

Primeiro e mais importante, meu agente literário, Ken Atchity, e sua equipe da Atchity Editorial/Entertainment International, por seu trabalho duro e sua perseve­rança. Parabéns aos editores Michael Wichman (AEI), por sua visão, e Ed Stackler, da Stackler Editorial, por seus excelentes comentários.

Muito obrigado a Tom Doherty e ao ótimo pes­soal da TOR Books, ao editor Bob Gleason e a Brian Callaghan, bem como a Matthew Snyder, da Creative Arts Agency, em Los Angeles, e a Danny Baror, da Baror International. Parabéns a Bob e Sara Schwager por seu ótimo trabalho de edição do texto.

Obrigado também às seguintes pessoas, cujo co­nhecimento pessoal contribuiu de alguma forma com O Domínio: Gary Thompson, dr. Robert Chitwood, e a excelente equipe do Centro de Avaliação e Tratamento do Sul da Flórida, o rabino Richard Agler, Barbara Esmedina, Jeffrey Moe, Lou McKellan, Jim Kimball, Shawn Coyne e dr. Bruce Wishnov. E aos autores Graham Hancock, John Major Jenkins e Erich von Daniken, cujo trabalho certamente influenciou a história.

Um agradecimento muito especial a Bill e Lori McDonald, da Argonaut-Grey Wolf Productions/Website: www.AlienUFOart.com, que contribuíram com a edição e são responsáveis pelos incríveis desenhos encontrados neste romance, e a Matt Herrmann, da VILLAINDESIGN, pelas suas idéias gráficas e contribuições fotográficas.

Também devo muito a Donna e Justin Lahey, cuja dedicação, criativi­dade e cujos conhecimentos técnicos ajudaram a lançar meus romances pela Internet.

Por último, aos meus leitores: obrigado pela correspondência. Seus comentários são sempre um prazer bem-vindo, suas opiniões são muito importantes.

Steve Alten
Para mais informações sobre os romances de Steve Alten, ou para entrar em contato com o autor pessoalmente, acesse www.STEVEALTEN.com.
... e nessas terras antigas fechadas e inscritas como um túmulo e com dezenas de marcas de mãos mortas, e narradas com datas do Juízo... eu traço as vidas que tais cenas encerram e suas experiências contam como minhas.

— THOMAS HARDY


A mais bela experiência que podemos ter é o mistério. E a emoção fundamental que guarda o berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência.

—- ALBERT EINSTEIN


Medo e religião. Religião e medo. Os dois estão historicamente entrelaçados, são os catalisadores da maioria das atrocidades cometidas pelo homem. O medo do mal alimenta a religião, a religião alimenta o ódio, o ódio alimenta o mal, e o mal alimenta o medo nas massas. É um ciclo diabólico, e nós fazemos o jogo do Diabo.

— JULIUS GABRIEL


Diário de Julius Gabriel
"Estou diante da vasta tela, compartilhando a sensação de solidão que seu criador certamente experimentou há milhares de anos. Diante de mim estão as respostas para os enigmas — enigmas que podem determinar, no fim das con­tas, se nossa espécie viverá ou morrerá. O futuro da espécie humana — existe algo mais importante? No entanto, estou aqui sozinho, pois minha busca me condenou a este purga­tório de rochas e areia, onde procuro uma comunhão com o passado para compreender o perigo que nos espera.

Os anos foram impiedosos e desgastantes. Que cria­tura lastimável me tornei. Antes um arqueólogo de reno­me, agora motivo de piada entre meus colegas. Marido, amante — tudo isso apenas uma lembrança distante. Pai? Não exatamente. Um mentor aflito, isso sim, um miserá­vel animal de carga que meu filho precisa conduzir. Cada passo através do deserto pedregoso faz meus ossos doerem, enquanto pensamentos para sempre agrilhoados em minha mente repetem sem parar o mantra apocalíptico e enlou­quecedor dentro do meu cérebro. Que poder superior escolheu minha família, entre todas as outras, para torturar? Por que fomos abençoados com olhos que conseguem enxergar os avisos da morte, enquanto outros cambaleiam adiante como se fossem cegos?


Será que estou louco? Essa pergunta nunca me sai da cabeça. A cada nova manhã, preciso me obrigar a relar as passagens principais das minhas crônicas, ainda que só para lembrar que sou, acima de tudo, um cientista. Não, não apenas um cientista, mas um arqueólogo – alguém em busca do passado do ser humano, alguém em busca da verdade.

Mas, de que vale a verdade, se ela não pode ser aceita? Para os meus colegas de trabalho, sem dúvida sou como um idiota da aldeia, gritando avisos sobre icebergs aos passageiros do Titanic enquanto o navio inafundável deixa o cais.

É meu destino salvar a humanidade ou simplesmente morrer como um tolo? Será possível que passei toda uma vida interpretando erroneamente os sinais?

O raspar de passos sobre sílica e pedra interrompe as anotações desse tolo.

É meu filho. Batizado há 15 anos com o nome de um arcanjo pela minha amada esposa, Michael acena para mim, momentaneamente aquecendo o coração engelhado de seu pai. Michael é o motivo pelo qual persevero, a razão de eu não dar cabo de minha miserável existência. A loucura de minha busca roubou-lhe a infância, mas muito pior foi meu gesto hediondo, cometido anos antes. É para o futuro dele que volto a me empenhar, é o destino dele que desejo mudar.

Deus, permita que este coração fraco aguente o suficiente para que eu obtenha êxito.

Michael aponta para a frente, me lembrando que a próxima peça do quebra-cabeça nos espera. Pisando cuidadosamente para não perturbar o pampa, chega­mos ao que acredito ser o início da mensagem de 3 mil anos de idade. No centro do platô de Nazca, sagradamente disposto entre as misteriosas linhas e os zoomorfos colossais, está ele um círculo perfeito, profundamente escavado entre as pedras cobertas de patina preta. Estendendo-se desse misterioso círculo central, como raios de sol num desenho de criança, estão 23 linhas equidistantes, todas, menos uma, com aproximadamente 180 metros. Uma está alinhada com o solstício; outra, com o equinócio, variáveis consistentes com os outros sítios antigos que passei a vida toda explorando.

É a 23a linha a mais intrigante um sulco desafiador que corta o pampa, estendendo-se sobre rochedos e morros por 37 quilômetros!

Michael grita, seu detector de metais disparando ao nos aproximarmos do centro da figura. Algo foi enterrado ali! Com vigor renovado, cavamos através da gipsita e da pedra, expondo a terra amarela abaixo. É um ato condenável, especial­mente para um arqueólogo, mas me convenço de que o fim irá justificar os meios.

E lá está ele, brilhando sob o sol escaldante. Liso e branco, um cilindro oco de metal de meio metro de comprimento, tão fora de lugar no deserto de Nazca quanto eu. Um desenho com três pontas, parecendo um candelabro, adorna uma extremi­dade do objeto. Meu frágil coração trepida, pois conheço aquele símbolo como a palma da minha mão calejada. O Tridente de Paracas, o ícone característico de nosso professor cósmico. Um ideograma similar, com 180 metros de comprimento e 60 metros de largura, cobre todo um lado de uma montanha perto daqui.

Michael aponta a câmera enquanto abro o cilindro. Tremendo, retiro o que parece ser um rolo de tela ressecada, meus dedos sentindo sua desintegração assim que ela começa a se desenrolar.

É um mapa antigo do mundo, similar àquele a que se referia quinhentos anos antes o almirante turco Piri Reis. (Acredita-se que esse misterioso mapa tenha sido a inspiração para a corajosa expedição de Colombo em 1492.) Até hoje, o mapa de Piri Re'is do século XIV continua sendo um enigma, pois nele aparecem não só o território na época ainda não descoberto da Antártida, mas também o solo do continente, desenhado como se o gelo não o cobrisse. Radares de satélite já confir­maram a inacreditável exatidão do mapa, intrigando ainda mais os cientistas, que se perguntavam como alguém poderia tê-lo desenhado sem a ajuda de um avião.

Talvez da mesma forma com que estas figuras em Nazca foram desenhadas.

Como o mapa de Piri Reis, o pergaminho que seguro em minhas mãos tam­bém foi desenhado usando um conhecimento avançado de trigonometria esférica. Seria o misterioso cartógrafo o nosso professor ancestral? Disso não tenho dúvida. A verdadeira pergunta é: por que ele decidiu nos deixar este mapa em especial?

Michael bate depressa uma Polaroid enquanto o documento antigo se desfaz, pulverizando-se em minhas mãos. Momentos depois, fitamos a fotografia, notando que um objeto, obviamente de grande importância, foi claramente destacado. E um pequeno círculo, desenhado nas águas do Golfo do México, situado logo a noroeste da península de Yucatán.

A localização do marco me assombra. Esse não é um dos sítios antigos, é algo completamente diferente. Um suor frio brota de minha pele, uma dormência fami­liar sobe pelo meu braço.

Michael sente que a morte se aproxima. Ele vasculha meus bolsos e rapida­mente encontra o comprimido, colocando-o sob a minha língua.

Meus batimentos cardíacos voltam ao normal, a dormência diminui. Eu toco seu rosto, e então o convenço a voltar ao trabalho. Com orgulho, observo-o examinando o recipiente metálico, seus olhos negros, dois portais para uma mente incrivelmente treinada. Nada escapa aos olhos do meu filho. Nada.

Momentos depois, ele faz outra descoberta, que pode explicar o local destaca­do no Golfo do México. O espectrómetro do detector de metais analisou a estrutura molecular do metal branco e denso e sua composição conta toda uma história.

O cilindro antigo é feito de irídio.

Puro irídio.

— Trecho do Diário do Professor Julius Gabriel,

14 de junho de 1990

HÁ 65 MILHÕES DE ANOS

VIA LÁCTEA
Uma galáxia espiral – uma das 100 bilhões de ilhas de estrelas que atravessam a matéria escura do uni­verso. Girando como um luminoso cata-vento cósmico na imensidão do espaço, a galáxia arrasta mais de 200 bilhões de estrelas e incontáveis outros corpos celestes em seu vórtice titânico.

Examinemos este círculo galáctico. Observando a formação dentro dos nossos limites tridimensionais, nosso olhar é atraído inicialmente para o bojo da galá­xia, composto de bilhões de estrelas vermelhas e laranja, rodopiando dentro de nuvens de poeira estelar de uns 15 mil anos-luz de diâmetro (um ano-luz equivalendo aproximadamente a 9 trilhões e meio de quilômetros). Girando ao redor dessa região de formato de lente está o disco achatado da galáxia, com 2 mil anos-luz de es­pessura e 120 mil anos-luz de diâmetro, que contém a maior parte da massa galáctica. Percorrem esse disco os braços em espiral da galáxia, lares de estrelas brilhantes e luminosas nuvens de gás e poeira — incubadoras cósmicas que originam novas estrelas. Acima desses braços, estende-se o halo galáctico, uma região esparsa­mente povoada contendo aglomerados globulares que sustentam os membros mais antigos da família galáctica.

Dali passamos para o verdadeiro coração da galáxia, uma região comple­xa, rodeada por nuvens rodopiantes de gás e poeira. Escondida dentro desse núcleo, está a verdadeira central de energia da formação celeste — um mons­truoso buraco negro —, um vórtice denso de energia gravitacional, 3 milhões de vezes mais pesado que o Sol. Essa insaciável máquina cósmica engole tudo o que está ao seu alcance incomensurável — estrelas, planetas, matéria, até luz —, enquanto movimenta os corpos celestes da galáxia em espiral.

Agora vejamos a galáxia de uma dimensão superior — uma quarta di­mensão do tempo e do espaço. Ramificando-se através do corpo galáctico como artérias, veias e capilares, existem vasos invisíveis de energia, alguns tão imensos que poderiam transportar uma estrela; outros, cordões delicados e microscópicos. Todos são alimentados pelas inimagináveis forças gravitacionais do buraco negro, localizado na Central Galáctica. Atravesse o portal de um desses vasos e você terá acesso a uma rodovia dimensional que cruza os limites do tempo e do espaço, contanto, é claro, que o seu veículo possa sobreviver à viagem.

Enquanto a galáxia gira ao redor de seu centro descomunal, também esses fluxos de energia serpenteiam, sempre circulando, e continuam sua eter­na jornada ao redor da planície galáctica, como peculiares raios de uma roda cósmica em perene rotação.
Como um grão de areia apanhado na poderosa corrente de um fluxo gravita­cional, o projétil do tamanho de um asteróide corre pelo canal dimensional, um portal do tempo e do espaço atualmente localizado no braço de Órion da espiral galáctica. A massa ovóide, com mais de 11 quilômetros de diâmetro, é protegida do abraço esmagador do tubo por um campo de força antigravitacional verde-esmeralda.

O viajante celestial não está só.

Escondida dentro do rastro do objeto esférico, que está carregado de magnetismo, e imersa na cauda protetora do campo de força, está outra nave — menor, esguia, seu achatado casco em forma de adaga composto de brilhan­tes painéis solares dourados.

Navegando através da dimensão do espaço e do tempo, a rodovia cósmi­ca deposita seus viajantes numa região da galáxia localizada na borda interior do braço de Órion. À frente deles, um sistema solar contendo nove corpos planetários, governado por uma única estrela de um amarelo-pálido.

Correndo impelida pelo campo gravitacional da estrela, a imensa nave de irídio se aproxima rapidamente de seu alvo — Vênus —, o segundo planeta a partir do Sol, um mundo de calor intenso, envolto numa capa de densas nu­vens ácidas e de dióxido de carbono.

A nave menor se aproxima por trás, revelando sua presença ao inimigo.

Imediatamente, o transporte de irídio altera o seu curso, aumentando a velocidade graças à atração gravitacional do terceiro planeta do sistema, um mundo azul e aquoso contendo uma atmosfera tóxica de oxigênio.

Com um clarão brilhante, a nave menor emite um pulso incandescente de energia de uma antena que se estende de sua proa. A carga corre pelo feixe de íons da cauda eletromagnética da esfera como um raio percorrendo um cabo de metal.

A carga é detonada sobre o casco de irídio como uma aurora, a explosão elétrica pondo em curto o sistema de propulsão da nave, jogando violenta­mente o gigante para fora de sua rota. Em poucos momentos, a massa avariada sucumbe ao letal abraço do campo gravitacional do planeta azul.

O projétil do tamanho de um asteróide se precipita rumo à Terra, fora de controle.

Com um estrondo supersônico, a esfera de irídio viola a hostil atmosfera. O casco exterior, semelhante a um espelho, se racha e afunda. Então, se infla­ma brevemente numa ofuscante bola de fogo antes de mergulhar num mar raso e tropical. Sem sofrer quase nenhuma desaceleração pelas centenas de metros de água, bate no fundo numa fração de segundo, criando, por um momento surreal, um cilindro sem água até o leito do oceano.

Um nanossegundo depois, o impacto do corpo celeste cria uma detona­ção de um branco brilhante, liberando 100 milhões de megatons de energia.

A fragorosa explosão abala todo o planeta, gerando temperaturas que ex­cedem os 17 mil graus centígrados, mais quentes que a superfície do Sol. Duas bolas de fogo gasosas explodem simultaneamente. A primeira é uma nuvem de poeira incandescente formada por rocha pulverizada e irídio, proveniente da desintegração do casco exterior da nave. Ela é seguida por enormes nuvens de vapor e dióxido de carbono em alta pressão, os gases liberados na evaporação do mar e do seu leito calcário.

Os fragmentos e gases superaquecidos sobem para a atmosfera devastada, im­pelidos para cima através do vácuo criado pela queda do objeto. Enormes ondas de choque se espalham pelo mar, gerando monstruosos tsunamis que atingem alturas de 90 metros ou mais ao alcançarem águas rasas e correrem para a costa.




Costa Sul da América do Norte
Em silêncio mortal, o bando de velociraptors se aproxima da presa, uma fêmea de Corythosaurus de 9 metros de comprimento. Pressentindo o perigo, o réptil de pés palmados levanta sua magnífica crista em forma de leque e fareja o ar úmido, detectando o cheiro do bando. Soltando um grito de aviso para o resto do grupo, a fêmea corre pela floresta, galopando em direção ao mar.

Sem aviso, um clarão brilhante atordoa o animal em fuga. O réptil cam­baleia, agitando sua enorme cabeça, tentando enxergar novamente. Quando sua visão clareia, dois raptors saltam da vegetação e guincham, bloqueando sua fuga enquanto o resto do bando pula sobre as costas da Corythosaurus, perfurando-lhe a carne com as garras mortais das patas traseiras. Um dos primeiros caçadores encontra a garganta da fêmea e morde seu esôfago, afundando as garras curvas na carne macia abaixo do esterno. O réptil ferido emite um grito sufocado, engasgando-se com o próprio sangue, ao mesmo tempo em que ou­tro raptor morde seu focinho achatado, afundando as garras dianteiras em seus olhos. O pesado réptil é levado ao chão.

Em poucos momentos, tudo está acabado. Os predadores rosnam, ameaçando-se mutuamente enquanto arrancam bocados de carne de sua presa ainda trêmula. Ocupados com a matança, os velociraptors ignoram o chão que treme sob suas patas e o trovão que se aproxima.

Uma sombra escura passa acima deles. Os dinossauros olham para cima ao mesmo tempo, o sangue pingando de suas mandíbulas, e rosnam para a imensa parede de água.

A onda da altura de um prédio de 22 andares atinge seu ápice — e então cai — esmagando os caçadores surpresos, liquefazendo seus ossos sobre a areia com um estampido ensurdecedor. A onda segue para o norte, sua energia ciné­tica obliterando tudo o que encontra no caminho.

O tsunami inunda a terra, varrendo vegetação, sedimentos e criaturas terrestres com seu volume estrondoso, submergindo a costa tropical por cente­nas de quilômetros em todas as direções. O pouco de floresta que permanece fora do caminho do vagalhão pega fogo quando tórridas ondas de choque transformam o ar numa verdadeira fornalha. Um par de Pteranodons tenta fu­gir do holocausto. Voando acima das árvores, suas asas reptilianas pegam fogo, incinerando-se no vento térmico.

Lá no alto, fragmentos de irídio e rocha que foram lançados ao céu come­çam a voltar para a atmosfera como meteoros incandescentes. Dentro de horas, todo o planeta está envolto numa nuvem densa de poeira, fumaça e cinzas.

As florestas arderão durante meses. Por quase um ano, nenhuma luz solar penetrará o céu enegrecido para atingir a superfície desse mundo que um dia foi tropical. A interrupção temporária da fotossíntese vai obliterar milhares de espécies de plantas e animais na terra e no mar, e à volta do Sol vão se seguir anos de inverno nuclear.

Num momento cataclísmico, os 140 milhões de anos de dominio dos dinossauros chegam abruptamente ao fim.

Durante dias, a esguia nave dourada permanece em órbita acima do mundo devastado, seus sensores rastreando continuamente o local do impacto. A es­trada quadridimensional para casa foi-se faz tempo, pois a rotação da galáxia já moveu o ponto de acesso do canal para vários anos-luz dali.

No sétimo dia, uma luz verde-esmeralda começa a brilhar sob o leito rachado do oceano. Segundos depois, um potente sinal de rádio subespacial é emitido, o pedido de ajuda dirigido para os confins externos da galáxia.

Os seres a bordo da nave em órbita distorcem o sinal — tarde demais.

O mal se enraizou em mais um jardim celestial. É só uma questão de tempo até que ele acorde.

A nave dourada se move numa órbita geossíncrona diretamente acima de seu inimigo. Um sinal automático de hiperondas de rádio é ativado, blo­queando todas as transmissões recebidas ou enviadas pelo planeta. Então a nave se desativa, dirigindo sua energia para os casulos de sobrevivência.

Para os habitantes da espaçonave, o tempo agora está imóvel.

Para o planeta Terra, o relógio começou a andar...




1
8 DE SETEMBRO DE 2012

MIAMI, FLÓRIDA
O Centro de Avaliação e Tratamento do Sul da Flórida é um edifício de concreto branco de sete andares, decorado com sempre-vivas e localizado num esquálido bairro latino a oeste da cidade de Miami. Como a maio­ria dos prédios comerciais da área, possui rolos de arame farpado ao redor do teto. Diferentemente dos outros es­tabelecimentos, o arame farpado não está lá para impedir a entrada de ninguém, e sim a saída dos internos.

Dominique Vazquez, de 31 anos, costura em meio ao trânsito da hora do rush, xingando alto enquanto ace­lera pela Route 441. É o seu primeiro dia de residência e já está atrasada. Desviando de um adolescente vindo na contramão de skate motorizado, entra no estacionamen­to para visitantes e para o carro. Enquanto corre para a entrada, prende apressadamente seus longos cabelos ne­gros num coque.

Portas magnéticas se abrem, dando-lhe acesso a um saguão com ar-condicionado.


Uma mulher latina de 40 e tantos anos está atrás do balcão da recepção, lendo o noticiário matutino num computador do tamanho de uma prancheta, fino como uma folha de papelão. Sem levantar os olhos, ela pergunta:

  • Posso ajudar?

  • Sim. Tenho hora marcada com Margaret Reinike.

— Não tem, não. A dra. Reinike não trabalha mais aqui. — A mulher aperta a tecla page down, visualizando outra notícia no monitor.

  • Mas isso não faz sentido. Falei com a dra. Reinike há duas semanas.

A recepcionista finalmente olha para cima.

  • Qual o seu nome?

  • Vazquez, Dominique Vazquez. Vim fazer um ano de residência como pós-graduanda da Universidade Estadual da Flórida. A dra. Reinike seria mi­nha supervisora. — Ela observa a mulher pegar o telefone e teclar um ramal.

  • Dr. Foletta, uma jovem chamada Domino Vass...

  • Vazquez. Dominique Vazquez.

  • Perdão. Dominique Vazquez. Não, senhor, ela está aqui no saguão. Diz que vai fazer residência e que a dra. Reinike seria sua supervisora. Sim, senhor. — Após desligar o telefone, ela se volta para Dominique. — Pode sentar ali. Daqui a alguns minutos o dr. Foletta vai descer para falar com você. — A mulher gira a cadeira, dando as costas para Dominique, e volta a ler no monitor.

Dez minutos se passam antes que um homem corpulento, de uns 50 anos, desponte de um corredor.

Anthony Foletta destoaria menos num campo de futebol americano, trei­nando quartos-zagueiros, do que andando pelos corredores de uma instituição estatal para psicopatas criminosos. Uma juba de cabelo grisalho cobre uma ca­beça enorme, que parece grudada diretamente nos ombros. Acima de bochechas carnudas, seus olhos azuis piscam sob pálpebras sonolentas. Embora esteja aci­ma do peso, seu tronco é firme, a barriga saltando um pouco do jaleco aberto.

Abre um sorriso forçado e uma mão grossa é estendida.


  • Anthony Foletta, novo chefe de psiquiatria. — A voz é profunda e áspera, como um velho cortador de grama.

  • O que aconteceu com a dra. Reinike?

  • Problemas pessoais. Dizem que o marido dela tem câncer em fase terminal. Acho que ela decidiu se aposentar mais cedo. Mas ela me falou sobre você. Se não tiver nenhuma objeção, vou supervisionar a sua residência.

  • Nenhuma objeção.

  • Ótimo.

Ele se vira e volta pelo corredor, e Dominique aperta o passo para alcançá-lo.

  • Dr. Foletta, há quanto tempo o senhor está na instituição?

  • Dez dias. Fui transferido para cá da unidade estatal em Massachusetts. Eles se aproximam de um vigia no primeiro posto de verificação.

  • Deixe a sua carteira de motorista com o vigia.

Dominique procura em sua bolsa e entrega ao homem o cartão plastifi­cado, recebendo em troca o crachá de visitante.

— Use isto por enquanto — diz Foletta. — Não se esqueça de devolvê-lo no fim do dia. Vamos providenciar um crachá codificado de residente antes do fim da semana.

Ela prende o crachá na blusa e o segue até o elevador. Foletta ergue três dedos para uma câmera montada acima de sua cabeça. As portas se fecham.


  • Você já esteve aqui? Conhece a planta do prédio?

  • Não. Só falei com a dra. Reinike por telefone.

  • São sete andares. A administração e a central de segurança ficam no primeiro. A central controla os elevadores dos funcionários e dos internos. O segundo andar tem uma pequena unidade médica para idosos e doentes termi­nais. No terceiro andar você encontra nosso refeitório e as salas de convivência. Ele também dá acesso ao mezanino, ao jardim e às salas de terapia. O quarto, quinto, sexto e sétimo andares hospedam os internos. — Foletta ri. — O dr. Blackwell os chama de "clientes". Eufemismo interessante, considerando que todos vieram para cá algemados.

Eles saem do elevador, passando por um posto de segurança idêntico ao do primeiro andar. Foletta acena e entra no curto corredor para a sua sala. Caixas de papelão estão empilhadas por toda parte, cheias de pastas, diplomas emoldurados e artigos pessoais.

— Desculpe a bagunça, ainda estou me ajeitando. — Foletta tira uma impressora de cima de uma cadeira, indicando que Dominique se sente, e se aperta desconfortavelmente atrás da escrivaninha, encostando-se na cadeira de couro para dar espaço à sua barriga.

Ele abre o arquivo pessoal dela.


  • Hum. Vejo que está completando seu doutorado na Universidade Estadual da Flórida. Vai a muitos jogos de futebol?

  • Na verdade, não. — Aproveite a brecha. -— O senhor parece já ter jogado.

É uma boa aposta e faz o rosto rechonchudo de Foletta brilhar.

  • Fighting Blue Hens of Delaware, turma de 1979. Zagueiro avançado. Teria começado nas divisões de base da Liga Nacional se não tivesse estourado o joelho contra o Lehigh.

  • Por que o senhor optou pela psiquiatria criminal?

  • Meu irmão mais velho sofria de uma obsessão patológica. Vivia en­crencado com a lei. O psiquiatra dele era formado em Delaware e era fanático por futebol. Eu o levava para o vestiário depois dos jogos. Quando machuquei o joelho, ele mexeu os pauzinhos e eu fui admitido como aluno de graduação. — Foletta inclina-se para a frente, colocando a pasta sobre a mesa. — Vamos falar de você. Estou curioso. Há várias outras instituições mais próximas da universidade. O que trouxe você até aqui?

Dominique pigarreia.

— Meus pais moram em Sanibel. Fica a apenas duas horas de Miami. Não consigo visitá-los com muita frequência.

Foletta corre seu indicador roliço pelas fichas do arquivo.


  • Diz aqui que você nasceu na Guatemala.

  • Sim.

  • Como veio parar na Flórida?

  • Meus pais... meus pais biológicos morreram quando eu tinha 6 anos. Fui enviada para um primo em Tampa.

  • Mas isso não durou muito?

  • Isso é importante?

Foletta ergue os olhos, que não estão mais sonolentos.

  • Não gosto muito de surpresas, residente Vazquez. Antes de designar internos, gosto de conhecer a psique dos meus funcionários. A maioria dos in­ternos não nos dá muitos problemas, mas é importante lembrar que lidamos com alguns indivíduos violentos. Pra mim, a segurança é uma prioridade. O que aconteceu em Tampa? Como foi que você veio parar num lar adotivo?

  • Basta dizer que as coisas não correram bem com meu primo.

  • Ele estuprou você?

Dominique fica chocada com a pergunta direta.

  • Se você realmente quer saber, sim. Eu só tinha 10 anos na época.

  • Você ficou sob os cuidados de um psiquiatra?

Ela olha para Foletta. Mantenha a calma, ele está te testando.

  • Sim, até os 17 anos.

  • Tocar no assunto te incomoda?

  • Aconteceu. Acabou. Com certeza influenciou a escolha da minha car­reira, se é o que quer saber.

— E os seus interesses também. Diz aqui que você tem faixa preta de segundo grau em tae kwon do. Já teve que usá-la?

— Só em torneios.

As pálpebras se erguem muito, os olhos azuis provocando-a com sua intensidade.


  • Diga, residente Vazquez, você imagina o rosto do seu primo quando golpeia seus oponentes?

  • Às vezes. — Ela tira um cacho de cabelos dos olhos. — Em quem você fingia que estava batendo quando jogava futebol pelo Fighting Blue Hens?

Touché. — Os olhos voltam para a pasta. — Você namora muito?

— Minha vida social também interessa?

Foletta se recosta na cadeira.


  • Experiências sexuais traumáticas muitas vezes levam a desequilíbrios sexuais. Repito, só quero saber com quem estou trabalhando.

  • Não tenho aversão ao sexo, se é o que está perguntando. Tenho, sim, uma desconfiança saudável de homens enxeridos.

  • Isso não é um retiro espiritual, residente Vazquez. Vai precisar criar uma casca mais grossa pra lidar com internos criminosos. Esses homens fize­ram suas reputações deitando e rolando com universitárias bonitas como você. Vindo da Universidade Estadual, achei que iria agradecer o alerta.

Dominique respira fundo, relaxando seus músculos tensos. Cacete, dê um jeito no seu ego e preste atenção.

— Tem razão, doutor. Peço desculpas. Foletta fecha a pasta.

— A verdade é que estou pensando em indicar você para um trabalho especial, mas preciso ter certeza de que estará à altura.

Dominique volta a se animar. —- Pode me colocar à prova.

Foletta retira um grosso envelope marrom da primeira gaveta da escrivaninha.

— Como sabe, esta instituição acredita numa abordagem multidis­ciplinar. Para cada interno são destacados um psiquiatra, um psicólogo clínico, um assistente social, um enfermeiro psiquiátrico e um terapeuta ocupacional. Minha reação inicial, ao chegar aqui, foi achar tudo isso um pouco excessivo, mas não posso contestar os resultados, especialmente para pacientes viciados em drogas e na preparação de indivíduos para julgamen­tos futuros.

— Mas não nesse caso?


  • Não. O interno que quero pôr sob seus cuidados é paciente meu, veio do sanatório onde eu era diretor de serviços psicológicos.

  • Não entendo. Ele veio para cá com você?

  • Nossa instituição perdeu o financiamento há cerca de seis meses. Ele certamente não está pronto para voltar à sociedade e precisava ser transferido para algum lugar. Como sou a pessoa mais familiarizada com o histórico dele, achei que seria menos traumático para todos os envolvidos se ele continuasse sob os meus cuidados.

  • Quem é ele?

  • Já ouviu falar do professor Julius Gabriel?

  • Gabriel? — O nome parecia familiar. — Espere aí, não é o arqueólogo que caiu morto no meio de uma palestra em Harvard há alguns anos?

  • Há mais de dez anos. — Foletta sorri. — Depois de três décadas recebendo financiamento para suas pesquisas, o Julius Gabriel voltou para os Estados Unidos e se apresentou perante uma platéia repleta de colegas, alegan­do que os egípcios antigos e os maias construíram as pirâmides com a ajuda de extraterrestres para salvar a humanidade da destruição. Consegue imaginar? Ele foi expulso do púlpito a gargalhadas. Deve ter morrido de humilhação. — As bochechas de Foletta tremem com sua risada. — O Julius Gabriel era um caso clássico de paranóia esquizofrênica.

  • E quem é o paciente?

  • O filho dele. — Foletta abre o envelope. — Michael Gabriel, 34 anos. Prefere ser chamado de Mick. Passou os primeiros 20 e tantos anos de sua vida trabalhando ao lado dos pais em escavações arqueológicas, o que deve bastar para deixar qualquer criança psicótica.

  • Por que ele foi preso?

  • O Mick perdeu a cabeça durante a palestra do pai. O tribunal o diag­nosticou paranóico-esquizofrênico e o enviou para o Hospital Psiquiátrico Estadual de Massachusetts. Lá fui psiquiatra dele e continuei sendo mesmo depois de ser promovido a diretor em 2006.

  • Ele tem as mesmas ilusões que o pai?

-— Claro. Pai e filho estavam convencidos de que uma calamidade terrí­vel varrerá a humanidade do planeta. O Mick também sofre das costumeiras manias paranoicas de perseguição, a maioria causada pela morte do pai e por seu próprio confinamento. Alega que uma conspiração do governo o manteve trancado todos esses anos. Na mente do Mick Gabriel, ele é a maior das víti­mas, um inocente tentando salvar o mundo, atingido pelas ambições imorais de um político egocêntrico.

— Desculpe, me perdi nessa última parte.

Foletta folheia as fichas, retirando várias Polaroids de um envelope. Este é o homem que ele atacou. Dê uma boa olhada na foto. Trate de não baixar a guarda.

E um close-up do rosto de um homem, brutalmente espancado. A órbita do olho direito está coberta de sangue.

— O Mick arrancou o microfone do pedestal e bateu na vítima até ela desmaiar. O pobre homem acabou perdendo um olho. Acho que vai reconhe­cer o nome. Pierre Borgia.

— Borgia? Está brincando? O secretário de Estado?

— Isso foi há quase 11 anos, antes que o Borgia fosse nomeado delegado da ONU. Ele era candidato a senador, na época. Há quem diga que a agressão o ajudou a se eleger. Antes que a máquina política dos Borgia o empurrasse para a vida pública, parece que o Pierre era um acadêmico e tanto. Ele e o Julius Gabriel estavam no mesmo programa de doutorado em Cambridge. Acredite se quiser, mas os dois chegaram a trabalhar juntos depois de formados. Explo­raram ruínas antigas por uns cinco ou seis anos antes de terem um desenten­dimento sério. A família de Borgia finalmente o convenceu a voltar para os Estados Unidos e entrar na política, mas o ressentimento nunca foi embora.

Foletta faz uma pausa e logo prossegue.

— O fato é que foi o Borgia que apresentou o Julius como o principal palestrante. O Pierre provavelmente disse algumas coisas que não deveria ter dito, que ajudaram a provocar o público. O Julius Gabriel tinha coração fraco. Depois que ele morreu nos bastidores, Mick foi à forra. Foram precisos seis policiais para controlá-lo. Está tudo no arquivo.

— Isso me parece mais uma explosão emocional isolada, provocada por...

— Esse tipo de fúria leva anos para se acumular, residente. O Michael Gabriel era um vulcão à espera da erupção. Aqui temos um filho único, cria­do por dois arqueólogos de renome nas áreas mais desoladas do mundo. Ele nunca foi à escola, nem teve a oportunidade de conviver com outras crianças, e tudo isso contribuiu para um caso extremo de distúrbio de personalidade antissocial. Caramba, acho que o menino nunca nem namorou. Tudo o que ele aprendeu foi ensinado por seus únicos companheiros, seus pais, e pelo menos um dos dois era comprovadamente psicótico.

Foletta lhe entrega o arquivo.

— O que aconteceu com a mãe dele?

— Morreu de câncer no pâncreas enquanto a família morava no Peru. Por algum motivo, sua morte ainda o assombra. Uma ou duas vezes por mês ele acorda gritando. Tem terrores noturnos pavorosos.



  • Quantos anos Mick tinha quando ela morreu?

  • Doze.

  • Sabe por que a morte dela ainda causa tamanho trauma a ele?

— Não. Mick se recusa a falar sobre isso. — Foletta se ajeita, incapaz de ficar confortável na pequena cadeira. — A verdade, residente Vazquez, é que Michael Gabriel não gosta muito de mim.

— Transferência de neurose?

— Não. Mick e eu nunca tivemos esse tipo de relacionamento médico-paciente. Eu me tornei seu carcereiro, personagem de sua paranoia. Parte disso, sem dúvida, se originou em seus primeiros anos como interno. Ele teve difi­culdades para se adaptar ao confinamento. Uma semana antes de sua avaliação semestral, ele perdeu a cabeça com um de nossos vigias. Quebrou os dois bra­ços dele e deu vários pontapés na virilha. Causou tantos danos que seus dois testículos tiveram que ser removidos. Tem uma foto no arquivo, se quiser...

— Não, obrigada.

— Como punição pela agressão, Mick passou a maior parte dos últimos dez anos em confinamento solitário.

— Isso é um pouco severo, não é?

— A meu ver, não. Ele é muito mais esperto do que os homens que con­tratamos para vigiá-lo. É melhor para todos se ele for mantido em isolamento.

— Ele vai ter permissão para participar de atividades coletivas?

— A instituição tem regras rígidas para a reintegração de internos, mas por enquanto a resposta é não.

Dominique olha novamente as Polaroids.

— O quanto devo me preocupar com um provável ataque desse paciente?

— No nosso ramo, residente, precisamos nos preocupar sempre. Mick Gabriel pode atacar? Sempre. Será que ele vai atacar? Duvido. Os últimos dez anos não foram fáceis para ele.

— Ele vai ser reintegrado à sociedade um dia?

Foletta balança a cabeça.



  • Nunca. Na estrada da vida, esta é a última parada de Mick Gabriel. Ele nunca vai ser capaz de enfrentar os rigores da sociedade. Tem medo.

  • Medo de quê?

  • De sua própria esquizofrenia. Mick diz que pode sentir a presença do mal ficando mais forte, se alimentando do ódio e da violência na sociedade. Sua fobia chega ao ponto de explosão toda vez que um adolescente revoltado pega a arma do pai e entra atirando numa escola. Esse tipo de coisa realmente o afeta.

  • Isso também me afeta.

  • Não da mesma forma. Mick vira um tigre.

  • Ele está sob medicação?

— Administramos Zyprexa duas vezes ao dia. Tira a maior parte de seu ímpeto de luta.

— E o que você quer que eu faça com ele?

— A lei estadual exige que ele receba terapia. Use a oportunidade para adquirir uma experiência valiosa.

Ele está escondendo alguma coisa.

— Agradeço a oportunidade, doutor. Mas por que eu?

Foletta se afasta da escrivaninha e fica de pé, a mobília rangendo com seu peso.

— Como sou diretor desta instituição, muitas pessoas interpretariam como um conflito de interesses se só eu tratasse dele.

— Mas por que não destacar uma equipe completa para...

— Não. — A paciência de Foletta já se esgotava. — Michael Gabriel ainda é meu paciente, e eu vou determinar que tipo de terapia é melhor pra ele, não um conselho diretor. O que você logo vai descobrir por si mesma é que Mick é uma espécie de artista. É bastante esperto, muito eloquente e inteligen­te. O QI dele é de quase 160.

— Isso é bastante incomum para um esquizofrênico, não é?

— Incomum, mas não inédito. O que quero dizer é que ele só manipu­laria um assistente social ou um terapeuta ocupacional. É preciso alguém com o seu preparo pra não cair na dele.

— E quando vou conhecê-lo?

— Agora mesmo. Ele está sendo trazido para uma sala isolada para que eu possa observar o primeiro encontro de vocês. Contei a ele tudo sobre você hoje de manhã. Ele está ansioso para conhecê-la. Mas tome cuidado.


Os quatro últimos andares da instituição, chamados de unidades pelos fun­cionários do Centro, abrigam 48 internos cada. As unidades são divididas em alas norte e sul, cada ala contendo três núcleos. Um núcleo consiste em uma pequena sala de convivência com sofás e um aparelho de TV no centro de oito dormitórios particulares. Cada andar tem segurança e enfermarias próprias. Não há janelas.

Foletta e Dominique tomam o elevador dos funcionários até o sétimo andar. Um vigia afro-americano está conversando com uma das enfermeiras no posto central. A sala isolada fica à sua esquerda.

O diretor cumprimenta o guarda e apresenta a nova residente. Marvis Jones tem quase 50 anos e olhos castanhos gentis que transmitem a confiança adquirida com a experiência. Dominique nota que o vigia está desarmado. Foletta explica que armas nunca são permitidas nos andares dos internos.

Marvis os leva por meio do posto central para um espelho de segurança de um lado só, através do qual se vê a sala isolada.

Michael Gabriel está sentado no chão, com as costas apoiadas na parede oposta à janela. Usa camiseta e calça brancas, e seu físico está surpreendente­mente em forma, com o tórax bem definido. Ele é alto, com quase 1,96 metro, e pesa 100 quilos. O cabelo é castanho-escuro, um tanto longo e cacheado nas pontas. O rosto é bonito e bem barbeado. Uma cicatriz de 7 centímetros se estende do lado direito da mandíbula, perto da orelha. Seus olhos estão prega­dos no chão.

— Ele é bonito.

— O Ted Bundy1 também era — diz Foletta. — Vou observar você da­qui. Tenho certeza de que Mick vai usar todo o seu charme para te impressio­nar. Quando achar que você aguentou o suficiente, mando a enfermeira entrar e dar a medicação dele.


  • Certo. — Sua voz treme.

Fica calma, caramba.

Foletta sorri.



  • Está nervosa?

  • Não, só um pouco na expectativa.

Ela sai do posto de segurança, acenando para que Marvis destranque a sala isolada. A porta se abre, fazendo as borboletas no seu estômago alçarem voo. Parando o suficiente para que seu ritmo cardíaco volte ao normal, ela entra, sentindo um calafrio ao ouvir o duplo clique da porta se fechando atrás dela.

A sala isolada mede 3 por 4 metros. Tem uma cama de ferro presa ao chão e à parede à sua frente, suportando um colchão bem fino. Uma cadeira solitária, também parafusada ao chão, está diante da cama. O vidro fume na parede, à sua direita, é a janela de observação. O quarto cheira a antisséptico.

Mick Gabriel se levanta. Sua cabeça está levemente inclinada, e ela não consegue ver seus olhos.

Dominique estende a mão, forçando um sorriso.

— Dominique Vazquez.

Mick ergue o olhar, revelando olhos animalescos, tão intensamente ne­gros que é impossível determinar onde a pupila termina e a íris começa.

— Dominique Vazquez. Dominique Vazquez. — O interno pronuncia cada sílaba com cuidado, como que as gravando na memória. — E um praze...

Seu sorriso desaparece de repente, a expressão sóbria e analítica fica neutra.

O coração de Dominique lateja em seus ouvidos. Fique calma. Não se mexa.

Mick fecha os olhos. Algo inesperado está acontecendo com ele. Do­minique vê sua mandíbula se levantar um pouco, revelando a cicatriz. Suas narinas se abrem como as de um animal farejando sua presa.

— Posso me aproximar, por favor? — As palavras são ditas mansamente, quase sussurradas. Ela sente uma barragem emocional se rompendo por trás da voz.

Dominique luta contra o ímpeto de correr para o vidro fumê. Os olhos voltam a se abrir.

— Juro pela alma da minha mãe que não vou te machucar.

Vigie as mãos dele. Se ele avançar, mete o joelho.

— Pode se aproximar, mas sem movimentos bruscos, está bem? O dr. Foletta está olhando.

Mick dá dois passos para a frente, ficando a meio braço de distância. Ele aproxima o rosto, fechando os olhos e inspirando — como se o rosto dela fosse uma garrafa de excelente vinho.

A presença do homem está fazendo os pelos dos braços da residente fi­carem de pé. Ela observa que os músculos faciais dele se relaxam, sua mente abandona a sala. Seus olhos fechados se enchem d'água. Várias lágrimas esca­pam, escorrendo livremente pelo seu rosto.

Por um breve momento, o instinto materno a faz baixar a guarda. Será que ele está fingindo? Seus músculos se retesam.

Mick abre os olhos, agora dois lagos negros. A intensidade animalesca desapareceu.



  • Obrigado. Acho que a minha mãe usava o mesmo perfume. Ela dá um passo para trás.

  • É Calvin Klein. Traz lembranças felizes?

  • E algumas ruins também.

O encanto se quebra. Mick se dirige para o catre.

  • Você prefere a cadeira ou a cama?

  • Pode ser a cadeira mesmo. — Ele espera que ela se sente, e então se posiciona na beirada da cama para se encostar na parede. Mick se move como um atleta.

  • Você conseguiu se manter em forma.

  • Pra quem tem a mente disciplinada, esse pode ser um resultado da vida na solitária. Faço mil flexões e abdominais por dia. — Ela sente os olhos dele absorvendo sua silhueta. — Você também parece malhar bastante.

  • Eu tento.

  • Vazquez. É com s ou com z?

  • Z.

  • Porto Rico?

  • Sim. Meu... meu pai biológico cresceu em Arecibo.

  • É a sede do maior radiotelescópio do mundo. Mas seu sotaque parece da Guatemala.

  • Fui criada lá. — Ele está controlando a conversa. — Presumo que tenha visitado a América Central?

  • Visitei muitos lugares. — Mick cruza as pernas, assumindo a posição de lótus. — Então você foi criada na Guatemala. Como veio parar nesta gran­de terra de oportunidades?

  • Meus pais morreram quando eu era criança. Fui enviada para morar com um primo na Flórida. Mas vamos falar de você agora.

  • Você disse "pai biológico". Achou importante identificá-lo assim. Quem é o homem que você considera seu verdadeiro pai?

  • Isadore Axler. Ele e a esposa me adotaram. Passei algum tempo num orfanato depois de sair da casa dos meus primos. Iz e Edith Axler são pessoas maravilhosas. Os dois são biólogos marinhos. Operam uma estação SOSUS na ilha de Sanibel.

  • SOSUS?

  • É um sistema submarino de vigilância sonora, uma rede mundial de microfones submarinos. A Marinha usava o SOSUS durante a guerra fria para detectar submarinos inimigos. Agora os biólogos dominam o campo; usam o sistema para bisbilhotar a fauna marinha. Ele é tão sensível que permite ouvir grupos de baleias a centenas de quilômetros de...

Os olhos penetrantes a interrompem.

— Por que você saiu da casa do seu primo? Algo traumatizante deve ter acontecido, se você foi parar num orfanato.



Ele é pior que o Foletta.

  • Mick, estou aqui pra falar de você.

  • Sim, mas talvez minha infância também tenha sido traumatizante. Talvez sua história possa me ajudar.

  • Duvido. Tudo acabou bem. Os Axler me devolveram minha infância, e eu...

  • Mas não sua inocência.

Dominique sente o sangue fugir de seu rosto.

  • Muito bem. Agora que já sabemos que você aprende rápido, vejamos se consegue concentrar esse incrível QI em si próprio.

  • Pra você então me ajudar?

  • Pra que possamos nos ajudar mutuamente. — Você ainda não leu meu arquivo, leu?

  • Não, ainda não.

  • Sabe por que o Foletta me indicou pra você?

  • Por que não me conta?

Mick olha para as próprias mãos, pensando numa resposta.

  • Tem um estudo escrito por Rosenhan. Você já leu?

  • Não.

— Se importa de ler antes da nossa próxima sessão? O dr. Foletta com certeza tem uma cópia em alguma daquelas caixas de papelão que ele chama de arquivos.

Ela sorri.



  • Se é importante pra você, vou procurar.

  • Obrigado. — Ele se curva para a frente. — Gosto de você, Domini­que. Sabe por que eu gosto de você?

  • Não. — As lâmpadas fluorescentes dançam como o luar nos olhos dele.

  • Gosto de você porque sua mente ainda não está institucionalizada. Você ainda é novata, e isso é importante pra mim. Quero me abrir de verdade com você, mas não posso, pelo menos não nesta sala com o Foletta olhando. Também acho que você vai se identificar com alguns dos percalços que en­frentei. Por isso, gostaria de falar com você sobre muitas coisas, coisas muito importantes. Acha que poderemos conversar em particular, da próxima vez? Talvez no jardim?

  • Vou pedir ao dr. Foletta.

  • Quando perguntar, lembre o doutor das regras da instituição. Pode também pedir o diário do meu pai? Se você vai ser minha terapeuta, acho que é de vital importância que o leia. Você se importaria?

  • Será uma honra ler o diário.

  • Obrigado. Poderia lê-lo logo, talvez no fim de semana? Odeio passar dever de casa, afinal, hoje é seu primeiro dia, mas é vital que você o leia o quanto antes.

A porta se abre, a enfermeira entra. O vigia está lá fora, olhando para a porta.

  • Hora do seu remédio, sr. Gabriel. — Ela lhe entrega o copo descartá­vel com água, depois o comprimido branco.

  • Mick, preciso ir. Foi um prazer conhecê-lo. Farei o melhor que puder pra terminar meu dever de casa até segunda, está bem? — Ela fica de pé e se vira para ir embora.

Mick olha para o comprimido.

  • Dominique, os seus parentes maternos são maias quiches, não são?

  • Maias? Eu... eu não sei. — Ele sabe que você está mentindo. — Bem, é possível. Meus pais morreram quando eu era muito...

Os olhos se erguem de repente, com um efeito desarmante.

  • Quatro Ahau, três Kankin. Sabe que dia é esse, não sabe, Dominique?

Merda...

  • Vejo... vejo você mais tarde. — Dominique sai da sala, esbarrando no vigia.

Michael Gabriel coloca cuidadosamente o comprimido na boca. Esva­zia o copo de água, depois o amassa com a mão esquerda. Ele abre a boca, permitindo que a enfermeira a inspecione com seu depressor de língua e sua mini-lanterna, verificando se o comprimido foi engolido.

— Obrigada, sr. Gabriel. O vigia vai acompanhá-lo de volta ao seu quar­to daqui a alguns minutos.

Mick permanece no catre até a enfermeira fechar a porta. Ele fica de pé, voltando para a parede oposta, de costas para a janela. Casualmente, com o indicador da mão direita, tira o comprimido do copo de papel e o esconde na palma da mão. Voltando a se sentar no chão na posição de lótus, joga o copo amassado sobre a cama e enfia o comprimido branco no sapato.

O Zyprexa será jogado no vaso sanitário quando ele voltar para a cela.





  1   2   3   4   5   6   7   8   9


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal