Simone Barbosa Villa


TABELA 02 - EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE UNIDADES RESIDENCIAIS (APARTAMENTOS), CLASSIFICADOS POR NÚMERO DE DORMITÓRIOS LANÇADAS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO



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TABELA 02 - EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE UNIDADES RESIDENCIAIS (APARTAMENTOS), CLASSIFICADOS POR NÚMERO DE DORMITÓRIOS LANÇADAS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO

Ano

1 dorm. (%)

2 dorm. (%)

3 dorm. (%)

4 ou mais dorm. (%)

1990

10,41

58,03

26,96

5,59

1991

13,99

62,08

18,55

5,35

1992

8,49

59,59

26,17

5,73

1993

3,81

47,12

39,06

10,00

1994

5,83

41,08

44,21

8,85

1995

6,30

39,26

39,87

14,53

1996

9,63

36,41

48,81

5,13

1997

14,63

37,08

46,03

2,25

1998

25,85

29,34

32,96

11,83

1999

19,71

46,47

27,13

6,68

2000

17,19

45,35

27,62

9,82

2001

17,45

41,16

31,15

11,60

2002

11,08

39,82

29,11

19,98

2003

12,74

35,70

33,29

18,26

2004

5,78

39,17

31,49

23,54

2005

7,41

29,52

34,95

28,09

Fonte: EMBRAESP, relatórios anuais 1990-2005.


Exatamente na direção que se esperava, os apartamentos de dois e três dormitórios continuaram a perder área útil até os anos de 2000, principalmente os destinados às classes de renda média e média-baixa. Segundo dados da Embraesp, a média da área útil dos apartamentos de dois e três dormitórios, no ano de 1990, era de respectivamente 59,57 e 86,54m². Já no ano de 2002, a área útil média dos mesmos apartamentos foi de, respectivamente, 49,90 e 77,23m² (ver tabela 03). Até o ano de 2005 esta tendência se manteve para os apartamentos de dois dormitórios, entretanto nos de três dormitórios notamos certo aumento de áreas úteis. Esta configuração de dois e três dormitórios continua exatamente igual a de décadas passadas, sem muitas variações. Alguns empreendimentos do mercado continuam a oferecer as chamadas opções de plantas, com variações muitas vezes superficiais, como já foi analisado. Entretanto, uma tendência que observamos nestes apartamentos e também em edifícios destinados às classes mais ricas é a de se dotar um edifício de sistema estrutural capaz de abrigar plantas livres e, a partir daí, oferecer possibilidades de agenciamentos com um a três dormitórios. As variações e as possibilidades são inúmeras, porém a lógica destes empreendimentos segue o padrão das antigas “opções de plantas”: construída a configuração eleita, esta não se altera mais, a não ser que uma reforma seja realizada no apartamento.
TABELA 03 - EVOLUÇÃO DAS ÁREAS MÉDIAS DE UNIDADES RESIDENCIAIS (APARTAMENTOS), CLASSIFICADAS POR NÚMERO DE DORMITÓRIOS LANÇADAS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO

período

01 dorm.

02 dorm.

03 dorm.

04 dorm.



Útil

Total

Útil


Total

Útil


Total

Útil


Total

1990

37,76

82,17

59,57

112,04

86,54

160,75

209,53

399,30

1991

40,23

94,11

57,51

110,18

98,51

185,38

168,04

331,18

1992

40,72

80,59

57,96

105,89

84,08

152,80

195,90

384,32

1993

39,42

79,51

55,65

101,25

82,50

161,48

175,49

334,33

1994

39,52

80,59

56,19

101,55

82,35

159,46

150,20

288,01

1995

40,14

85,37

57,04

106,07

83,37

162,62

158,96

306,31

1996

31,00

71,16

56,12

102,46

75,27

132,17

213,38

396,02

1997

30,87

69,23

54,63

91,54

74,93

134,60

205,53

389,32

1998

33,81

75,44

54,46

106,88

80,10

151,67

174,41

403,92

1999

31,21

69,65

54,34

98,84

79,17

146,74

193,13

364,02

2000

33,82

72,39

52,19

96,53

79,41

148,61

181,18

341,19

2001

30,70

64,19

51,22

93,34

80,97

151,51

188,75

355,64

2002

39,99

79,36

55,63

100,23

84,85

160,11

174,25

331,61

2003

33,00

69,11

57,98

106,03

88,37

163,82

166,50

315,45

2004

52,44

101,17

59,65

108,45

87,29

162,57

184,52

348,12

2005

41,92

78,37

54,42

97,59

87,73

159,61

178,21

333,77

Fonte: Embraesp, relatórios anuais, 1990-2005..
Segundo dados da Embraesp, de 1997 a 2001 o mercado imobiliário lançou um número maior de unidades de um dormitório em relação ao período de 1987 a 1997, representando, por exemplo, no ano de 2001, 17,45% do total de lançamento na cidade de São Paulo. Entretanto notamos que a partir de 2002 estes números caem drasticamente até chegar em 2004 com 5,78% do total de lançamentos e 2005 com 7,41%. Já as unidades de dois e três dormitórios sofreram menor enfoque no mercado de lançamentos, alcançando respectivamente 41,16% e 31,15% no ano de 2001 e durante os anos de 2002 a 2005 perderam postos, principalmente os de dois dormitórios – representava 29,52% dos lançamentos no ano de 2005 (ver tabela 04). Isto mostra e enfatiza o redirecionamento do mercado imobiliário paulistano para a produção de apartamentos de quatro dormitórios compacto.

Embora a demanda por imóveis menores tenha aumentado – fruto da redução do número de membros da família nuclear -, o mercado, por motivo socioeconômico, vem reduzindo a produção destas unidades. A grande maioria das pequenas famílias é da classe média ou baixa renda que encontram várias dificuldades para aquisição da casa própria, notadamente dos financiamentos. Por este e outros motivos, as construtoras preferiram se concentrar na produção de unidades para as classes mais altas, que normalmente compram imóveis de quatro dormitórios ou mais. Segundo Luis Paulo Pompéia3 é um mercado certo e de venda mais rápida, ao contrário do que ocorre com imóveis para as classes média e popular.



De maneira geral, as propagandas de lançamentos dos edifícios de apartamentos produzidos, em São Paulo, nestes primeiros anos do século XXI enfatizam, principalmente, o bem-estar e uma maneira de viver considerada saudável, prática e moderna. O nome dos empreendimentos também nos remete a tais conceitos de vida: São Paulo Fashion Hall, Hype, The Dream, Soft Loft, Modus Vivendi Jardins, Grand Space, e ainda os que remetem ao glamour francês: Port de la Rochelle, Le Grand Classique, etc. Tais referências não ultrapassam o folheto de divulgação, já que as supostas novidades oferecidas pelos empreendimentos são versões maquiadas de algumas atividades antigas e tradicionais, e que o espaço da unidade, em si, continua o mesmo.

TABELA 04 - EVOLUÇÃO DAS ÁREAS ÚTEIS DE UNIDADES RESIDENCIAIS (APARTAMENTOS), CLASSIFICADAS POR NÚMERO DE DORMITÓRIOS. LANÇADAS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO





2001

2002

2003

2004

2005

Mês


Janeiro


Julho


Janeiro


Julho


Janeiro


Julho


Janeiro


Julho

Janeiro

Julho

1 dorm

36,72

18,93

34,32

41,06

33,55

41,98

*

41,93

53,30

*

2 dorm

51,10

54,12

52,12

49,90

54,05

59,68

54,52

51,35

49,96

50,53

3 dorm

91,63

85,01

59,30

77,23

84,35

84,63

139,90

113,87

80,60

87,83

4 dorm

*

178,43

*

285,91

158,94

164,45

*

307,15

173,46

134,90

Fonte: Embraesp, relatórios mensais, 2001/2004

A crítica sobre a qualidade dos apartamentos ofertados pelo mercado nos dias atuais
Segundo VILLA, 2002, não foi fácil convencer o paulistano a morar em apartamentos. Foram praticamente quatro décadas de esforços no sentido de retirar da habitação coletiva verticalizada a velha imagem degradada e promíscua de cortiço que abarrotava os bairros na virada do século 19 para o século 20. Morar em apartamentos na cidade de São Paulo já é um fato, pois sua produção nos últimos cinco anos foi quase dez vezes maior que a produção de casas4.

Desde suas origens na cidade de São Paulo, notamos que o controle da produção dos edifícios de apartamentos tem estado nas mãos de especuladores, principalmente a partir de Lei do Inquilinato. Sempre considerados como mercadoria, tais apartamentos chegaram ao final do século 20 apresentando a mesma tipologia de tempos atrás em áreas até 50% menores que nos anos 1950. Este “tipo”, sob a alegação de ser um resultado projetual economicamente viável e que atende às necessidades dos moradores foi, nas últimas três décadas do século 20, comercializado em grande escala. Os apartamentos elaborados por “arquitetos de atelier” freqüentemente oferecem a mesma organização espacial. Este quadro se acentuou, principalmente a partir dos anos 1970, quando observou-se a especialização de uma chamada arquitetura comercial subordinada, portanto, às regras de mercado. SEGAWA, 1991, observa: “(...) que a grande maioria de edifícios do gênero é medíocre, virtualmente transformando um juízo de origem preconceituosa num argumento irrefutável (...)”.

Sobre a relação entre a qualidade e a produção feita pelo mercado imobiliário, Antônio Fonseca, indicou sua hipótese de trabalho como “a constatação da defasagem de acúmulo, experiência e maturidade existente no mercado imobiliário entre o projeto, o desenho e a execução dos imóveis; e da idealização, o marketing e a comercialização desses produtos. O entendimento deste desequilíbrio revelou, como um mercado que se mantém forte, apesar de três décadas de crises pendulares, não foi e não é capaz de produzir, do ponto de vista da arquitetura, uma qualidade que tenha a mesma expressividade dos quantitativos que gerencia e dos volumes financeiros que gera” (FONSECA, 2004: 244).

Segundo VILLA, 2002, a maior crítica à produção do mercado utiliza-se sem dúvida, do fato de que tais apartamentos continuam oferecendo espaços internos muito semelhantes aos de há um século atrás, para grupos familiares diversos e famílias nucleares totalmente transformadas. Talvez a principal alteração foi a conquista da privacidade - o grupo familiar tem deixado de ser um grupo doméstico controlado por uma pessoa para ser um encontro de indivíduos e vidas individuais -, significando que o espaço doméstico tem de responder de outra forma a essas solicitações. De maneira geral, os conceptores de apartamentos não respondem a tais mudanças comportamentais quando oferecem novidades na instância coletiva e no tradicionalismo na esfera privada do empreendimento. A unidade reduzida teve que exportar muitas das atividades antes realizadas em seu interior para o espaço coletivo dos edifícios e neste sentido, ao longo do tempo, o mercado viu nestes equipamentos coletivos a venda de uma imagem. Modernidade, eficiência, praticidade e segurança compuseram a retórica do mercado nestes últimos cinqüenta anos. Neste mar de projetos aprovados às centenas por ano, que pasteurizam a massa urbana com trabalhos sem qualidade arquitetônica, imperam as paredes a 45 graus em planta, espaços reduzidos e descuidos primários com a insolação. (SERAPIÃO, 2000)

Criando coisas novas com conceitos velhos, o mercado, hoje, diz saber o que os clientes querem e precisam: uma arquitetura de fachada que estimula o gosto pela inovação constante, entretanto sem alterações conceituais. Esta receita garantida, que vende bem, pode realmente atender as novas demandas dos novos modos de vida da sociedade? Vários são os indícios que não, entretanto o maior sinal de que tais apartamentos não atendem às novas demandas da sociedade reside na insatisfação geral que é indicada pelo alto número de reformas de que as unidades são alvo, recheando de trabalho os escritórios de decoração e arquitetura da cidade. Basta abrir qualquer revista de decoração ou arquitetura para nos depararmos com matérias que tentam resolver o problema da inadequação dos espaços construídos desta modalidade habitacional. Como acomodar atividades como o trabalho em casa, o relaxamento, o culto ao corpo, além das necessidades individuais de cada membro da família em espaços tão compartimentados, estanques e cada vez mais minúsculos?

Interessante abordagem é traçada por Fernando Serapião em sua matéria “Os edifícios-fantasmas e seus ornamentos delinqüentes” sobre a produção recente de edifícios de apartamentos na cidade de São Paulo. Segundo o autor nas últimas décadas acelerou-se a transformação dos novos edifícios de apartamentos de São Paulo em produtos que podem oferecer opções de estilos desvirtuados: neocolonial, neomediterrâneo, neomoderno, art déco e mais comum deles, o neoclássico. “O entablishment arquitetônico chia e a maior parte do público consumidor aprova, enquanto construtores, incorporadores e imobiliárias estão de olho nas vendas. A questão parece menor e mesquinha, pois se trata de edifícios privados. No entanto, pode ser vista como uma metáfora da visão que a sociedade tem do arquiteto: uma profissão com muita serventia na arte de adornar fachadas conforme tendências da moda” (SERAPÍÃO, 2004:01).

RIGHI e CASTRO, 2005, nos apresentam uma abordagem interessante sobre este assunto. Para eles, o elemento estético-formal no projeto de arquitetura é evidente para a formatação do produto imobiliário. “Nele está a idéia de estilo de vida como consumo diferenciado, elemento social distintivo. Assim, a comercialização do produto imobiliário envolve um conjunto de valores que conferem status, prestígio, distinção a seu detentor. Os elementos do projeto mais valorizados envolvem uma forte tendência ao reducionismo das características estéticas do projeto de arquitetura a seus aspectos mais aparentes assimiláveis por um determinado público alvo, em termos de imagem exterior, ambientação paisagística, acabamentos internos e mesmo mobiliário”.

Nota-se, neste cenário da produção de apartamentos, que o arquiteto é o que menos opina sobre o desenho das unidades. Tudo é decidido pela dupla incorporador-vendedor, sendo este último o que tem contato com o comprador no stand de vendas, e se arroga, por isso, o direito de definir padrões. O apartamento metropolitano, especialmente aquele produzido no mercado efervescente da metrópole paulista, é, hoje, muito mais um produto de estratégias de marketing do que um problema de arquitetura. O que menos importa parecem ser as reais necessidades dos moradores. No entanto, o que a nossa pesquisa deve apontar é que, de posse do conhecimento sobre o perfil real dos usuários, e disposto a rever toda a configuração espacial de unidades e edifícios, o profissional arquiteto pode vir a ocupar um lugar de destaque no processo.

Por outro lado, em matéria ao jornal Folha de São Paulo, a lógica de mercado, expressa pelo lucro e custo é considerada o motivo pela limitação de criatividade dos arquitetos e da pasteurização dos estilos utilizados na produção de apartamentos na cidade de São Paulo. “Redução de custos, margem de lucro e pesquisas de mercado são elementos que definem os prédios residenciais construídos em São Paulo. O resultado desta lógica empresarial é que as fachadas de muitos edifícios da maior cidade brasileira parecem saídas de uma linha de montagem”. Nesta matéria alguns atores do mercado imobiliário paulistano exprimem seus pontos de vista e seus papéis no processo de produção de edifícios residenciais. De maneira geral os incorporadores, que objetivam neste processo principalmente o lucro e a venda rápida do produto, estão muito mais interessados nos coeficientes de aproveitamento do terreno e otimização dos espaços, do que nos tipos de fachadas, quando a questão é o projeto de arquitetura. Por sua vez o cliente valoriza muito o tipo de fachada que o edifício tem, apesar desta questão ser bastante polêmica, já que alguns pesquisadores indicam que a população desconhece o que seja estilo. “Isso é um debate estético que precisa de bagagem cultural sólida” (SIQUEIRA e CUNHA, 2006).

Segundo a matéria, a definição do projeto parte: (i) pesquisa de mercado para definição do tipo de edifício, (ii) consulta de legislação para definição de gabarito e implantação no lote, (iii) estudo de viabilidade econômica para o cálculo do retorno financeiro do empreendimento, (iv) elaboração do projeto de arquitetura na qual adapta a encomenda da incorporadora às normas da prefeitura e (v) a moda vigente, ou alguns estilos, viram os preferidos das construtoras por alguns anos até sua substituição em decorrência da sua popularização e banalização. Este quadro nos mostra bem o papel secundário do arquiteto neste processo de produção e definição do projeto dos edifícios no mercado imobiliário, na qual sua função se restringe basicamente à definição de um aproveitamento máximo de áreas, implantações também maximizadas e finalmente a idealização de fachadas atrativas ao público alvo. Ainda segundo a matéria, os profissionais arquitetos contratados geralmente são aqueles que questionam pouco e resolvem bem a fórmula econômica do empreendimento.

Já o marketing imobiliário tem ganhado destaque neste processo de produção de edifícios nos últimos anos, visto que o volume gasto com marketing supera em até 6 vezes a remuneração do profissional arquiteto. “As incorporadoras de São Paulo gastam entre 3 a 6% do VGV (Valor Geral de venda) de um empreendimento imobiliário com marketing. Isso representa até seis vezes mais do que elas pagam por projeto arquitetônico. Um arquiteto recebe em média, de 0,5% a 1,5% do VGV” (SIQUEIRA e CUNHA, 2006). Este gasto varia de acordo com o tamanho do empreendimento e é destinado para ações de divulgação que vão desde anúncios publicitários e material humano à construção de apartamento decorado e distribuição de folhetos luxuosos.

Outra justificativa do uso do repertório clássico nas fachadas dos edifícios residenciais espalhados pela cidade de São Paulo, e também pelo Brasil afora, se refere aos custos reduzidos de sua execução. Segundo arquitetos, fachadas neoclássicas oferecem vantagens econômicas às incorporadoras. A simplicidade dos revestimentos reduz os custos de construção, já que os materiais utilizados para sua execução se resumem em argamassa e pintura. A popularização deste recurso estético utilizado para as fachadas dos apartamentos se deve em grande parte aos baixos custos que este oferece. È possível encontrar edifícios residenciais neoclássicos que variam seu preço de R$ 100 mil até R$ 5 milhões (SIQUEIRA e CUNHA,2006)


Apartamento paulistano: um produto imobiliário como referência nacional
Segundo HOESEL e SOMEKH, 2001, as hipóteses explicativas do surgimento e da própria existência da verticalização em São Paulo passam, necessariamente, pelo campo da produção da habitação. Inserida no modo de produção capitalista, ela obedece às mesmas condições inerentes à produção de uma mercadoria qualquer, tendo, no entanto, duas características específicas, assinaladas por TOPALOV, 1999, que constituem obstáculos ao desenvolvimento do capital. A primeira se refere ao longo período de rotação, e a segunda à necessidade de uma base fundiária. A partir desta definição podemos identificar atualmente o produto imobiliário, objeto do mercado imobiliário.

O produto imobiliário, termo utilizado na linguagem do setor imobiliário, é concebido para satisfazer necessidades e desejos do consumidor. Segundo RIGHI e CASTRO, 2005, com um processo que resulte na venda de um determinado produto, estratégias de marketing visam expressar os desejos dos compradores potenciais através: (i) análise de mercado através da demanda e oferta, (ii) avaliação das possibilidades de diferenciação competitiva frente às outras empresas, (iii) estudo de viabilidade e desenvolvimento de novos produtos e (iv) estratégias de comercialização.

Para melhorar a relação entre a arquitetura e o marketing5 algumas considerações merecem destaque. Segundo COSTA, 2002:11, “a propagando imobiliária é hoje um discurso presente e ativo na formação de valores, recriando, codificando e recodificando os hábitos e preferências do consumo do espaço, assim como a significação desta mercadoria especial como mediadora de relações sociais”. Compreender os mais amplos e diversos significados que o produto imobiliário pode assumir para seu público consumidor é o objetivo principal do marketing nas empresas de incorporação. Cabe a pesquisa de mercado a identificação não só das formas materiais que o produto possa assumir, mas também as suas possíveis imagens, os signos que possuam trânsito, penetração em identificáveis nichos específicos de demanda. “È neste sentido que o profissional de marketing se introduz como o emissor das representações dos produtos imobiliários, como produtor de sentido do espaço, papel que socialmente parecia até aqui ser atribuído ao arquiteto” (COSTA, 2002:11).

Outra condição importante colocada por COSTA, é a capacidade da publicidade fazer-se ideologia. Isto é a capacidade de empreender como o imaginário social um diálogo eficiente, dotado de técnica e expressão material e simbólica, e quaisquer outras linguagens que se posicionem e desenvolvam seu campo de atuação entre as características denotativas e conotativas da mercadoria, entre os seus atributos materiais e simbólicos, seus usos funcionais e motivos, seus valores sensíveis e imaginários, sua exata medida e sua potencialidade prática a social. Em que medida a propaganda imobiliária aproveita a lógica consumista, as diretrizes da estetização da vida cotidiana a articula como argumentação de vendas? Em que medida ela promove, divulga, amplifica esta ideologia do consumo?

LOUREIRO e AMORIM, 2005, também discutem sobre a relação do marketing e da arquitetura no mercado imobiliário quando concluem que através dos atributos anunciados expectativas em torno do morar são criadas e recriadas, alimentando a formulação de programas arquitetônicos e constituindo uma certa cultura do morar. A partir do entendimento geral que a casa ideal oferece conforto, segurança, privacidade e abriga os sonhos de seus moradores que as estratégias de marketing, baseado nestas características, vinculam a compra do imóvel à realização de um sonho. E é exatamente deste sonho e da recriação constante de um ideal de morar que a indústria imobiliária se estrutura, introduzindo constantemente novos produtos no mercado que tentem satisfazer as expectativas dos consumidores e também criar novas necessidades. “Neste mercado, a propaganda exerce um papel fundamental, ao manter viva esta necessidade constante pela aquisição de um lugar perfeito para morar. (...) Nas últimas décadas do século XX, novas formas de construir o sonho do mundo doméstico foram facilitadas pelo uso de novas tecnologias de informação: modelo virtuais em 3-D e e-comércio são algumas ferramentas de marketing para atingir os consumidores de classe média. Estas tecnologias oferecem um experiência quase real do espaço futuro – algo como um portal para o mundo ideal. Paralelo aos espaço virtual, ganhou força, nos últimos anos, a estratégia do “apartamento mobiliado”, que também reproduz um ideal de morar quase próximo do real. (...) Estas peças promocionais oferecem as vantagens de um mundo ideal que o consumidor é induzido a consumir. Desta forma permite ao empreendedor estar atento às necessidades de consumidores e amoldar seus sonhos (LOUREIRO e AMORIM, 2005).

A propaganda imobiliária também tenta constituir uma certa “cultura do morar”, que segundo GIDDENS, 1986, são certos padrões de comportamento e esquemas cognitivos identificáveis e associados a uma classe social definidores de códigos e convenções de usos. Soma-se a isto o fato de que a moradia possua além da função pragmática uma função simbólica. “Ainda que a casa seja primariamente um objeto funcional, segundo LAWRENCE, ela serve a uma gama de propósitos, aos quais valores podem ser atribuídos, tanto tangíveis e quantificáveis, tais como valor econômico, de troca, de uso, como outros que não são quantificáveis de forma direta, como o valor sentimental, valor estético e o valor simbólico, que estariam, segundo o autor, referenciados às “comunicações interpessoais entre pais e filhos, e entre membros do mesmo grupo social ou profissional” (LOUREIRO e AMORIM, 2005).

Sob esta ótica do produto imobiliário concebido para satisfazer necessidades e desejos do consumidor, as estratégias para identificação destas demandas é a realização e sustentação de vendas, pois segundo KOTLER, 1999, a chave para o marketing profissional é entender as reais necessidades dos consumidores e atendê-las melhor que qualquer outro produto. Segundo RIGHI e CASTRO, 2005, “estabelecer o mercado pelo “lado da demanda”, implica colocar como dependente, o “lado da oferta”. Isto implica que o processo de produção é estruturado para a realização do produto para o mercado, para atendimento dos consumidores agrupados segundo perfis de hábitos e padrões de consumo em segmentos de mercado”. A partir desta lógica do mercado tais pesquisas de mercado realizadas acabam por apresentar um quadro das necessidades dos moradores, na grande maioria das vezes simplista com informações rasas e sem conteúdo, já que a formatação deste produto possui uma relação subordinada à sua realização no mercado ou às suas vantagens comparativas em termos de venda. RIGHI e CASTRO, 2005, nos mostram ainda que “o planejamento do produto assenta-se sobre métodos de prospecção e previsão baseados em métodos de engenharia financeira, construção e avaliação de cenários e riscos, objetivando obter o maior retorno do empreendimento. Assim a qualidade do empreendimento será dada, em primeiro lugar, pelas qualidades comparativas do investimento em relação a outros possíveis”.

No desenvolvimento do produto imobiliário, nos lembra CÍRICO, 2002, que “a preocupação com o custo leva a extrema otimização das áreas que irão compor o imóvel, numa disputa pelo mercado, onde o valor de venda do metro quadrado do imóvel é que vai determinar o tamanho final, e enquadrá-lo na fixa de mercado que se pretende atingir”. Interessante o ponto de vista explorado pelo autor sobre o processo de desenvolvimento do projeto (o que chamamos de produto imobiliário) destinado à edifícios de apartamentos ofertados pelo mercado imobiliário, na qual o usuário final não participa da fase da elaboração do projeto e tão pouco o arquiteto tem recursos para uma ampla pesquisa dos moradores futuros. Neste caso a maioria dos empreendimentos é idealizada a partir de uma lógica na qual o atendimento às necessidades do usuário final não é o objetivo último do processo e sim o sucesso de venda e o lucro do empreendedor. Por outro lado, segundo CÍRICO, 2002, o usuário a procura de um imóvel tem a sua disposição um gama de opções, tanto no que se refere ao tamanho, programa, localização ou preço final do imóvel que, na maioria das vezes, a decisão da escolha fica reduzida ao preço e, portanto as reais necessidades e expectativas dos usuários em relação a sua moradia raramente são atendidas.

Algumas pesquisas pós-ocupação de imóveis residenciais indicam esta teoria. LEITÃO e FORMOSO, 2002, indicam que “ o comportamento do consumidor, em relação a aspectos de espaço interno do apartamento, algumas vezes se mostrou contraditório. Vários consumidores compraram apartamentos em função da quantidade de dormitórios, mas abriram mão deste número em função da utilização mais funcional do espaço. Este comportamento implica em dois tipos básicos de reclamações em relação ao projeto: (i) insatisfação por ter que abrir mão de espaços para ampliar outros mais fundamentais; e (ii) insatisfação por não poder modificar e ter que se contentar com espaços aquém da sua necessidade.
Referências bibliográficas
CÍRICO, L. A. A importância do projeto no desenvolvimento de espaço das áreas privativas dos apartamentos. In: IX ENTAC – ENCONTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA DO AMBIENTE COSNTRUÍDO. 2002, Foz do Iguaçu, Paraná. Anais... São Paulo, 2002.

COSTA, A. A imagem da Arquitetura e a arquitetura da Imagem: uma investigação acerca da construção dos discursos na produção do espaço urbano. 2002, Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo), Universidade de São Paulo / Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, p. 11.

FONSECA, A. C. P. A promoção imobiliária privada e a construção da cidade de São Paulo – 1970/2002. 2004, 433f., Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo), Universidade de São Paulo / Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, p. 244.

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1 O presente artigo é parte integrante da pesquisa de doutoramento em curso intitulada Morar em Apartamentos: a produção dos espaços privados e semi-privados nos apartamentos ofertados pelo mercado imobiliário no século XXI na cidade de São Paulo. Critérios para Avaliação Pós-Ocupação comportamental. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de São Paulo (FAU-USP) sob a orientação da Profª. Drª. Sheila Walbe Ornstein – Departamento de Tecnologia da Arquitetura.

2 Dados extraídos da palestra conferida por João D’Avila (Amaral D’Avila Engenharia de Avaliação), IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL DALARES (LATIN AMERICAN REAL ESTATE SOCIETY), São Paulo, 26 e 27 de agosto de 2004.

3 Diretor da Embraesp – empresa de consultoria imobiliária. Revista Tigre em Ação, Junho de 2004, p. 07.

4 Dados extraídos da Embraesp. Revista Tigre em Ação, Junho de 2004, p. 03.

5 Segundo a American Marketing Association, marketing è o processo de planejamento e execução do conceito, preço, comunicação e distribuição de idéias, bens e serviços, de modo a criar trocas que satisfaçam objetivos individuais e organizacionais. SEMENIK, R. J. & BAMOSSY, G. J. Princípios de Marketing: uma perspectiva global. São Paulo: Makron Books, 1995, p.7. Citado por COSTA, 2002:68.





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