Science teaching and social representation of human death



Baixar 85.21 Kb.
Encontro21.09.2019
Tamanho85.21 Kb.

ENSINO DE CIÊNCIAS E REPRESENTAÇÃO SOCIAL DE MORTE HUMANA

SCIENCE TEACHING AND SOCIAL REPRESENTATION OF HUMAN DEATH
Francisco José Figueiredo Coelho (mestrando/NUTES)

Eliane Brígida Morais Falcão (professora orientadora/NUTES)

NUTES/UFRJ/francisco_bioeducação@yahoo.com.br

NUTES/UFRJ/elianebrigida@uol.com.br

RESUMO

O ser vivo nasce, cresce, se reproduz e morre. Todo ciclo de vida inicia-se com o nascimento e é finalizado com a morte. Os seres humanos, diferente dos outros seres vivos, sabem que terão um fim. Entretanto, a morte não é abordada com qualquer enfoque especial, ou diferenciado dos outros seres vivos nas aulas de ciências, particularmente na Biologia.

Como educadores, preocupados com a formação dos jovens, investigamos como estudantes do ensino médio, que estudam disciplinas científicas, representam a morte humana. O presente trabalho relata uma pesquisa realizada entre estudantes do ensino médio de duas escolas, visando conhecer as representações sociais deste grupo. Os resultados revelaram visões, valores e sentimentos em relação ao tema. Tanto os estudantes mostraram uma variedade de pensamentos e sentimentos em relação à morte como expressaram o desejo da abordagem deste tema nas aulas de biologia do ensino médio.
Palavras-chave: morte – ensino de ciências – representação social

ABSTRACT

Live being births, grows and dies. All life cicle begins with birth and finishes with death. Human being are not like others live beings because they know that will die. But, death is not discussed with special way in science classes, especially in biology.

Worrying about teenager education, we investigated how students in high school, studyind science for long years, represent human death. This article describes an study realized between students of high school in two differents schools, trying to know theirs social representations. Results showed different visions and feelings about death. All students showed many thinkings and feelings about death. They showed too desires to discuss about death in biology class.
Keywords: death – science teaching – social representation
INTRODUÇÃO
O ser vivo nasce, cresce, se reproduz e morre. Esse é o ciclo de vida que aprendemos desde criança nas aulas de ciências. Nascer, se desenvolver e morrer são eventos naturais que fazem parte do ciclo de vida de qualquer organismo. Por isso, consideramos relevante, como educadores, investigar como, nas atividades de ensino de ciências, os jovens representam a morte humana.

Segundo Falcão & Lino (2004), existem muitas dificuldades entre os estudantes de medicina em lidar com a morte e com o morrer, num espaço onde as expectativas e os interesses são especialmente necessários. Segundo os autores, as escolas médicas ainda não assumiram compromisso educacional com o assunto, embora os avanços tecnológicos da intervenção médica – transplantes, clonagem, criogenia, eutanásia - sugiram sua redobrada importância nos dias atuais. Para eles, há tentativas no sentido de mudar tal quadro, mas ainda não estão propriamente consolidadas. Certamente tal conclusão pode ser estendida a outras áreas de formação. Um quadro teórico de referência na literatura especializada permite a compreensão deste quadro, ou seja, os percursos que o lidar com a consciência da morte ,em diferentes momentos históricos e diferentes sociedades, têm tomado.

Para o historiador francês Phillipe Ariès (2003) é possível perceber importantes aspectos para compreender as dificuldades de lidar com a morte em nossa sociedade. A morte hoje, para ele, é vista como um assunto mórbido, interdito, e que é ocultado ao máximo. No entanto, diz ele, nem sempre foi assim. Para o autor, há uma visão antiga em que a morte se manifestava como algo familiar e próximo, que se contrapõe à concepção atual. Era importante, diz Ariès, que os parentes, amigos e vizinhos estivessem ao lado do moribundo no momento de sua morte. O quarto do moribundo transformava-se num local público, onde se entrava livremente, inclusive as crianças. Ariès enfatiza a simplicidade com que os ritos da morte já foram aceitos e cumpridos, diferentemente daqueles do mundo atual.

Na perspectiva do sociólogo alemão Norbert Elias (2001), a dificuldade não está em apenas falar sobre a morte, isto é, no teor do que é dito sobre ela, mas sim na forma como falamos dela. Os adultos por exemplo, diz o autor, evitam tocar no assunto com seus filhos pois sentem que podem transmitir a eles suas próprias angústias. No entanto, diz Elias, tal comportamento pode gerar efeitos traumáticos uma vez que se trata de negação de um fenômeno natural. Nesse sentido, ele advoga a importância, para as crianças, da familiaridade com o fato da morte, da finitude de suas próprias vidas e a de todos os demais.

Segundo Elias, a aversão dos adultos de hoje em transmitir às crianças os fatos biológicos da morte, ou seja, os aspectos físicos de decomposição do corpo e finitude orgânica, é apenas uma das peculiaridades da nossa civilização.

Para Edgar Morin (1997), é nas atitudes e crenças diante da morte que o homem exprime o que a vida humana tem de mais fundamental. A sociedade funciona organizada pela morte, ao mesmo tempo em que luta contra ela. Segundo este autor, a existência da cultura só tem sentido porque as antigas gerações morrem e é necessário transmiti-la às novas gerações. Para a espécie humana, a morte se faz acompanhar de ritos funerários, sendo a única a crer na sobrevivência ou no renascimento dos mortos, o que faz da morte um dos traços mais culturais da espécie.

Na visão de Maria Júlia Kovács (1992), professora de Psicologia e pesquisadora da USP que realiza estudos sobre a morte como tema educacional para crianças e jovens, o conhecimento da morte aparece desde a mais tenra infância. Para a autora, engana-se quem acredita que a morte só é um problema no final da vida, e que só então deverá pensar nela. Pode-se, é claro, tentar esquecer, ignorar ou mesmo fingir que a morte não existe, mas tal comportamento é problemático, diz a autora, porque toda experiência de morte que se adquire é fundamental para as nossas vidas. Por este motivo Kovács defende a importância da abordagem do tema com as crianças e os adolescentes. Para ela, ao não falar com a criança, o adulto crê estar a protegendo, como se essa proteção aliviasse a possível dor e mudasse magicamente a realidade. Na verdade, afirma Kovács, a criança pode se sentir confusa e desamparada por não ter com quem conversar.

Baseando-se nos autores referidos, podemos afirmar que nossas culturas refletem, em relação à morte, uma variedade de visões, sentimentos e valores construídos e reafirmados por um longo período histórico. Fatores econômicos, psicológicos e religiosos compõem essa história. Os especialistas citados contribuem com suas pesquisas em diferentes áreas do conhecimento, nos fornecendo subsídios importantes para compreender a evolução histórica e social da morte e para refletirmos sobre a importância educacional da abordagem do tema no mundo moderno, posicionando-se a favor de um investimento educacional em relação às atitudes diante da morte.



OBJETIVOS E METODOLOGIA

O objetivo desta pesquisa concentra-se na identificação e análise das representações sociais de morte humana entre estudantes do terceiro ano do ensino médio. Como ponto de partida definimos representação social sob a ótica de Serge Moscovici (1981): um conjunto de conceitos, proposições e explicações originados na vida cotidiana no curso das comunicações interpessoais dos indivíduos. Trata-se da expressão dos pensamentos de uma dada coletividade sobre um determinado objeto. No caso da pesquisa realizada, compreender as representações sociais de morte humana é uma forma de compreender o pensamento coletivo dos alunos (grupo social estudado) em relação à morte.

A metodologia utilizada na pesquisa foi a do estudo de caso (Lefèvre, 2003; Gil, 1999) com o uso de questionário individual anônimo em sala de aula e observação direta do ambiente escolar. Investigaram-se alunos de duas escolas do município de São Gonçalo, Rio de Janeiro (uma privada – 53 alunos - e uma estadual – 52 alunos ). Ambas as escolas seguem as exigências básicas do ensino médio, ou seja, organizam-se em torno das disciplinas de linguagens e códigos, ciências exatas, humanas e naturais. Na escola privada, porém, a carga horária das disciplinas científicas é o dobro da carga horária das mesmas na escola estadual e não há ensino religioso.

Os dados levantados, através do questionário aplicado aos estudantes, permitem enfoque de diferentes faces do tema morte entre os estudantes, entretanto os resultados aqui apresentados serão parciais, concentrando-se na identificação das representações sociais de morte de ambas as escolas investigadas e estabelecendo análise comparativa entre as mesmas.

As respostas referentes aos itens sexo e idade foram organizadas quantitativamente: através de procedimentos matemáticos simples de média e porcentagem. Já para a identificação e interpretação, foi realizada uma análise qualitativa através do procedimento metodológico da Análise do Discurso do Sujeito Coletivo - DSC - (Lefèvre, 2003). Para isso, e seguindo a metodologia, seleciona-se todas as palavras e expressões-chave semelhantes de todos os depoimentos dos sujeitos investigados, selecionando uma idéia central (é uma idéia que denota um sentido comum entre as palavras ou expressões-chave resgatadas nos depoimentos). A partir destas palavras e expressões-chave, constrói-se um novo discurso, utilizando apenas, se necessário, conectivos apropriados para dar coerência e coesão as frases. Chamamos este discurso construído de Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) por ser construído a partir das palavras e expressões-chave encontradas nos vários depoimentos dos membros de um grupo social (no caso os sujeitos pesquisa). Analisando a totalidade dos depoimentos de um determinado grupo social, encontramos várias idéias centrais e, consequentemente, conseguimos construir vários DSCs. Cada DSC é, desta forma, uma faceta da representação social do conjunto dos sujeitos investigados em relação ao tema investigado. O conjunto dos discursos coletivos construídos expressam a representação social do objeto investigado, no presente caso, a morte.
Na presente pesquisa, após a identificação das representações sociais com a construção dos DSCs sobre morte expresso pelos estudantes investigados, buscamos, através de uma análise comparativa, discutir a heterogeneidade de representações sociais de morte humana nas duas escolas e analisar a importância da inclusão do tema na educação dos jovens.

RESULTADOS




Responderam ao questionário 105 alunos, ou seja, 81 % do número total de alunos matriculados nas duas escolas. Foram investigados 52 alunos da escola estadual, o que corresponde a aproximadamente 76% do total de alunos da 3a série na escola e 53 alunos da escola privada, o que corresponde a aproximadamente 85% do total dos alunos investigados nesta escola.


Os dados nos mostram na escola estadual foram investigados 16 alunos do sexo masculino e 36 alunos do sexo feminino, com média de idade de 17,71 anos. Na escola privada haviam 15 alunos do sexo masculino e 38 alunos do sexo feminino, com média etária de 17,56 anos.

Ao avaliarmos a questão específica do número maior de estudantes do sexo feminino em relação ao masculino, foi tentado relacionar o gênero às representações expressas em torno da morte. Entretanto não foi possível detectar, com estes dados, diferenças significativas sobre o tema, que se possam relacionar à questão do sexo.

A partir da análise das respostas à pergunta “Em sua opinião, o que é a morte?”, foi possível identificar 6 idéias centrais sobre a morte na escola estadual e as mesmas 6 idéias centrais sobre a morte na escola privada (sumarizadas na tabela II). Em ambas as escolas, mais da metade dos alunos identificaram duas ou mais idéias centrais em suas respostas. As idéias centrais foram as seguintes: 1a idéia central – a morte é inevitável; 2a idéia central – sentido religioso da morte; 3a idéia central – explicação científica da morte; 4a idéia central – a morte é um mistério; 5a idéia central – o sofrimento com a morte; 6a idéia central – a finitude orgânica com a morte.
Tabela II – Idéias centrais identificadas sobre a morte.



Idéias centrais



Colégio estadual

52


Colégio privado

53

  1. A morte é inevitável

(evento natural)

27

51,92%


21

39,62%


2. Sentido religioso da morte

(continuidade dos planos divinos)

27

51,92%


21

39,62%


3. Explicação científica sobre a morte

(desgaste celular, trocas e homeostase do planeta)

5

9,61%


18

33,96%


4. A morte é um mistério

(evento inexplicável)

6

11,53%


12

22,64%


5. O sofrimento com a morte

(tema doloroso)

8

15,38%


7

13,20%


6. A finitude orgânica com a morte

(finitude carnal)

11

21,15%


10

18,86%


Obs: Para a construção da tabela, as respostas foram agrupadas em função da presença de cada idéia central. As idéias centrais não são mutuamente excludentes, podendo ser encontrada mais de uma delas num mesmo depoimento.
A primeira idéia central identificada nos questionários das escolas estadual e privada foi a da “morte como um evento inevitável”. Com isto entende-se a morte como parte do destino de todos os seres vivos, isto é, sendo algo irreversível. Esta idéia central pôde ser observada no relato de 27 alunos da escola estadual e 21 alunos na escola privada.

A segunda idéia central identificada foi o “sentido religioso atribuído a morte”. Esta idéia central denota a morte como parte dos planos de Deus, sendo uma passagem para uma vida espiritual. Este sentido religioso atribuído a morte relaciona-se principalmente ao cristianismo. Esta idéia central pôde ser observada no relato de 27 alunos da escola estadual e 21 alunos na escola privada.

A terceira idéia central identificada denota uma “explicação científica sobre a morte”, marcada principalmente pela terminologia e conceitos científicos utilizados nos depoimentos. Esta idéia central não deixa de caracterizar a morte como um evento natural e inevitável, porém a descreve com uma explicação mais elaborada sobre os processos biológicos. A morte é um processo que ocorre devido a um desgaste do corpo. Este evento é visto como extremamente importante para a homeostase do planeta porque evita a superpopulação. Esta idéia central pôde ser observada no relato de 5 alunos da escola estadual e 18 alunos da escola privada.

A quarta idéia central caracteriza a morte como um “evento misterioso”. Esta idéia central caracteriza a morte como algo inexplicável, causando uma grande dúvida sobre a existência de uma continuidade após morte. Ninguém sabe ao certo o que ocorre com a morte. Não se sabe para onde vamos, se é que vamos para algum lugar. Esta idéia central pôde ser observada no relato de 6 alunos da escola estadual e 12 alunos da escola privada.

A quinta idéia central atribui a morte um “sentido doloroso” pois traz saudades das pessoas que partiram, sendo algo muito difícil de se aceitar. Esta idéia central pôde ser observada no relato de 8 alunos da escola estadual e 7 alunos da escola privada.

A sexta idéia central denota à morte uma idéia de “finitude orgânica”. A morte é o fim da vida carnal, sendo o fim de toda existência. Alguns acreditam na continuidade da alma, outros não, mas, de fato, é o fim do corpo na Terra. A idéia de finitude carnal pôde ser observada no relato de 11 alunos da escola estadual e 10 alunos da escola privada.

Com base nestas idéias centrais e suas respectivas expressões-chave, foram construídos seis respectivos discursos do sujeito coletivo (DSC), em ambas as escolas. A seguir serão apresentados os DSC construídos (tabela III) a partir dos depoimentos, nas duas escolas:
Tabela III – DSCs construídos a partir dos depoimentos à pergunta: “O que é morte?”


DSCs

Escola estadual

Escola privada






DSC 1

A morte é inevitável



A morte é uma conseqüência natural da vida. O ser humano nasce, vive e morre. Faz parte de um ciclo que todos nós passamos. Se um dia nascemos, um dia morreremos. Ninguém ficará vivo para sempre. A morte é algo preciso e todo ser vivo está susceptível à ela.



A morte é a única certeza que temos, fazendo parte do nosso destino. Sabemos que tudo isso tem que acontecer na vida, mesmo que o ser humano não queira aceitar. É algo normal porque sempre vai chegar o momento de morrer e todos temos que estar preparados quando essa hora chegar.

Não tem para onde correr, porque um dia a morte vai chegar, não só para os seres humanos, mas para todos os seres. É a lei natural dos fatos. É um caminho sem volta que todos nós enfrentaremos. Como dizem: “para morrer, basta estar vivo”

Todo ser vivo nasce, cresce, se reproduz e morre. A morte é uma consequência da vida de todo ser. É a etapa final da vida dos seres. É o destino de tudo o que é vivo, sendo a única certeza da vida.



Um dia a morte acontece na vida de todo mundo e ninguém pode mudar isso. A morte é algo inevitável e ninguém consegue escapar dela. Não é algo bom, nem ruím, apenas é algo que existe. É um fator presente na vida de todo mundo. Faz parte da vida e temos que nos conformar tratá-la com naturalidade.”


DSC 2

Sentido religioso da morte



Como sabemos, nós seres humanos só estamos na terra de passagem. A morte não é verdadeiramente o fim como a maioria fala, mas sim o começo de uma nova vida. É o Início da vida espiritual.


A morte foi feita por Deus para dar espaço para que nasçam novos seres. É uma segunda etapa da vida, uma viagem a qual todos iremos fazer um dia. É a passagem da vida para um outro plano, sendo enfim, o início de uma coisa melhor. A morte em alguns casos, é um refrigério, um descanso eterno. É quando as pessoas têm o descanso da alma e do corpo. Iremos, então, encontrar a paz que tanto buscamos e estaremos ao lado de Deus.

A morte é o fim de uma vida aqui na Terra, e vamos nascer para uma outra vida eterna ou não, que vai depender das escolhas que a pessoa fez aqui em vida. É uma passagem para o paraíso onde o senhor está nos esperando.”

A morte é o começo de um outra vida. É a continuidade da vida para a alma dos que vão, mas não neste mundo. É a passagem de um estado de vida material para um estado espiritual. Se deus decidir que é a hora daquela pessoa deixar o mundo, então assim será. Não devemos, no entanto, temer a morte se temos Deus ao nosso lado. Com a morte ocorre o tão esperado descanso da alma.



A morte é uma forma de viver em um novo lugar, vivendo uma vida eterna. Após a morte existe vida, um lugar onde as almas se encontram para olhar, cuidar e orientar as pessoas que permanecem na vida terrestre.

Com a morte a alma deixa o corpo, deixando para trás tudo o que viveu na Terra. A vida após a morte será boa ou ruím de acordo com o que vemos e praticamos em vida.”



DSC 3

Explicação científica sobre a morte



Durante o ciclo de vida, há um desgaste natural físico e mental do ser humano que acaba com a morte. A morte ocorre pelo envelhecimento da matéria. Isto que faz com que não exista resistência imunológica, deixando o ser enfraquecido e levando-o a morte. Com ela, deixamos de interagir com os demais seres vivos. Mas imagine se os seres vivos não morressem? A morte é importante para continuar a produção dos seres animais e seres humanos no planeta.



Lutamos contra a morte e vivemos na busca incessante de melhorias e prolongamentos da vida.”

A morte é o fim dos processos vegetativos essenciais à vida, tais como respiração, nutrição, etc. É quando as células e os órgãos não exercem mais suas funções devido ao estado de falência. A morte faz parte do ciclo evolutivo, podendo acontecer acidentalmente ou por alguma doença maligna.



A morte é o encerramento do ciclo vital. É quando todos os processos bioquímicos do ser vivo param de acontecer. Trata-se, portanto, da ausência das atividades vitais. O corpo não é mais útil, não executando mais suas funções, isto é, cessam as funções orgânicas dos seres.

É quando todos os nutrientes e demais substâncias voltam para o solo continuando o ciclo da vida. As funções páram, o ser morre e então, a carne volta ao pó.

É um fenômeno da natureza que acontece para dar espaço à outros seres vivos que irão chegar. Se não morrêssemos, não haveria a continuidade da nossa e das outras espécies. Isso custa a continuidade da existência ativa.”




DSC 4

A morte é um mistério



A morte é o começo de algo desconhecido. É uma passagem incerta e duvidosa, pois ninguém sabe ao certo como é, o que se passa, para onde vamos, o que seremos ou se não seremos mais nada.



É algo inexplicável. Ninguém pode afirmar com certeza o que é a morte, a não ser quem já tenha morrido, e isto é impossível.

Conhecemos a vida, a nossa única dúvida é o que acontece depois. Temos que nos agarrar em alguma crença para tentarmos entender a morte, pois o homem não conseguiu descobrir o que há do outro lado da vida. Creio que na morte há revelações das coisas questionadas em vida, mas é algo que não conheço.”

A morte é algo que não se explica ao certo. Na verdade ninguém sabe o que é a morte, mas muitos explicam de várias formas. Não sabemos o dia, a hora, nem o lugar que ela vai ocorrer. Só sabemos e entendemos o real sentido da morte, quando passamos por ela.



Pode ser até que haja a continuação do espírito após a morte, que haja outro mundo, quem sabe?”


DSC 5

O sofrimento com a morte



É um assunto triste que temos que encarar. A morte dói e até as vezes é má, pesando muito para o ser humano. É um momento triste e de dor que ninguém deveria passar. A morte nos traz tristezas e saudades das pessoas que partiram. Sabemos que tudo isso tem que acontecer um dia, mas nunca que o ser humano quer aceitar. No começo sofremos e choramos, mas depois conseguimos viver em paz.”



A morte é uma tristeza profunda. É uma fase dolorosa, que machuca e faz doer a alma dos que ficam pois estes sentem saudades dos que foram. É algo triste e duro de se aceitar, pois não vemos mais aquela pessoa.



A morte é uma crueldade muito grande, uma infelicidade. Viver pensando nela não é viver, é sofrer. Quando pensamos, no entanto, pensamos em morrer de forma calma, sem sofrimento.”




DSC 6

A finitude orgânica com a morte



A morte é o fim da vida em carne. É o fim de tudo, não é renascimento, não é o começo de nada em nenhum lugar. A morte é simplesmente o fim de tudo o que existe. É o fim do nosso ciclo de vida na Terra. No entanto, há quem acredite que o espírito continua em outro plano, mas é o fim do corpo. Assim como tudo começa um dia, tudo tem que terminar. Com o ser humano não poderia ser diferente.”



Com a morte ocorre o fim da existência, o fim da parte material e devemos viver como se fosse o último dia, pois tudo um dia acaba.



Pode até existir uma vida espiritual, mas a verdade é que na Terra tudo acaba. É o encerramento do ciclo vital, sendo o fim de tudo e todos os seres.”

Como informações relevantes para a compreensão da representação social de morte, investigamos as crenças religiosas desses alunos (sumarizadas na tabela III).


Tabela III – Crenças religiosas dos estudantes.



Crenças religiosas


Colégio estadual

52


Colégio privado

53

1. Catolicismo

22

42,30%


28

52,83


2. Evangelismo (nesta categoria, foram incluídos todos os alunos que se descreveram como evangélicos, batistas e Igreja do Brasil para Cristo)

16

30,76%


14

26,41%


3. Espiritismo

0

0%


2

3,77%


4. Frequentam a religião, mas não declararam qual

3

5,76%


0

0%


5. Não freqüentam qualquer religião

(acreditam em Deus)

8

15,38%


8

15,09%


6. Apresentam dúvidas sobre a existência de Deus

3

5,76%


1

1,88%


7. Ateus

0

0%


0

0%




DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Os DSC em ambas as escolas, revelam muitas semelhanças. As idéias centrais são as mesmas, o que caracteriza um repertório compartilhado de Representações Sociais (RS) quanto ao fenômeno da morte.

Na escola privada os alunos têm mais aulas de ciências. A conseqüência disto foi revelada com o maior desembaraço dos estudantes no uso da terminologia científica. Os DSC desses estudantes mostraram isto. No entanto, a convivência com temas da ciência não garantem a aprendizagem dos fenômenos científicos. Isto significa dizer que estar em contato com termos e expressões científicas apenas não é suficiente para que o aluno utilize tais expressões de forma correta. Os erros e distorções de conteúdos científicos identificados não são exclusivos dos alunos da escola estadual, ocorrendo em proporção semelhante tanto na escola privada quanto na estadual. Por exemplo, a utilização da palavra “terreno” ao invés de “terrestre” para expressar a idéia do ser que habita a superfície terrestre ou a utilização da expressão “ciclo de vida” em decorrência da expressão “ciclo da matéria orgânica” para se referir à decomposição biológica dos seres vivos.

Em resumo, observamos em relação à escola privada: em maior número, os alunos expressaram um DSC com explicações científicas sobre a morte, o que parece demonstrar uma relação com a maior carga horária das disciplinas científicas nesta escola, já que os níveis sócio-econômicos dos alunos são semelhantes. Dessa forma, o ensino das ciências parece influenciar consideravelmente na RS de morte nos grupos estudados.

A pesquisa revelou que as RS de morte dos grupos estudados também sofrem influências das crenças religiosas. O aumento dos discursos que expressam um sentido religioso para a morte em ambas as escolas podem estar relacionados com o fato da religião oferecer uma explicação mais articulada com a espiritualidade dos indivíduos, baseando-se principalmente em conceitos bíblicos (que não é passível de processo investigativo à luz da ciência). Ancorado nessas explicações religiosas muitos encontram um caminho para aliviar a angústia do conhecimento da finitude através da imortalidade. Dessa forma, a religião torna-se uma aliada para eliminar um grande temor da sociedade: o medo da morte, como abordamos anteriormente em nossa revisão bibliográfica. Provavelmente pelo mesmo motivo as idéias de conforto com a morte foram encontradas nos depoimentos que apresentavam idéias religiosas. Essa idéia relaciona-se nitidamente ao alívio e equilíbrio espiritual que os alunos religiosos desenvolvem. As religiões, principalmente as cristãs (como identificado na pesquisa) projetam a continuidade da vida em um plano espiritual e esta explicação parece ser o motivo principal de aparecimento de depoimentos com tal idéia central.

Um dado interessante de se discutir é que nem todos os alunos religiosos apresentaram idéias com sentido religioso em suas respostas. Os resultados demonstraram ainda que, embora as escolas sejam laicas, a presença do discurso religioso é ligeiramente maior entre os estudantes da escola estadual. É possível que haja uma relação entre a presença da disciplina opcional de ensino religioso (bastante freqüentada pelos alunos) na escola estadual e as idéias de sentido religioso nos depoimentos dos alunos desta escola.

A inevitabilidade com a morte foi a idéia central encontrada em maior intensidade em ambas as escolas. Trata-se de um conhecimento que resulta das experiências particulares dos alunos. A partir do desenvolvimento intelectual e das experiências vividas, a criança percebe gradativamente que todos os seres vivos ao seu redor terão um fim. O conhecimento da morte, portanto, é algo socialmente aprendido: todos já passaram uma experiência de morte em suas vidas, seja pela perda de um parente, amigo, ou animal de estimação. Estas experiências socialmente vividas destacam o caráter de inevitabilidade expresso em grande parte dos depoimentos. A idéia de inevitabilidade com a morte, portanto, é independente das crenças religiosas porque é um conhecimento prático da vida cotidiana, resultado do que o jovem percebe e interpreta do ambiente, isto é, resultado de uma interação com o ambiente mais amplo que cerca os alunos.

CONCLUSÕES

Nas RS de morte nos dois grupos investigados prevalece a base cultural mais geral que cerca as duas escolas e que traduz os comportamentos aprendidos em relação à morte, conforme apontado pelos especialistas referidos anteriormente. Considerando o perfil das crenças religiosas dos grupos, compreende-se porque as RS desses estudantes incluem fortemente aspectos religiosos. A presença de um maior número de horas dedicado ao ensino de ciências na escola privada mostrou seus reflexos nos discursos de seus estudantes, que mostraram maior uso da terminologia científica que os da escola estadual. Pôde-se verificar que nesta escola onde há maior carga horária de ensino científico e, consequentemente, maior familiaridade com conteúdos da ciência, as RS de morte ganharam mais referências explicativas das ciências.

O detalhamento das respostas dos estudantes às perguntas do questionário revelam que visões de morte estão sendo construídas através das experiências vividas e conhecimentos adquiridos dos mais variados campos culturais (religiosos, científicos, cotidianos, etc.). Esses resultados estimulam a continuação da investigação dessas representações e de formas de incluir o tema morte na educação científica no ensino básico.

Os resultados permitem refletir sobre a grande importância que as aulas de ciências podem apresentar como espaço cultural. Propiciar informação científica e valores humanos é o objetivo da formação científica da escola básica, na medida que favorece a formação de cidadãos críticos.



BIBLIOGRAFIA

ARIÈS, P. A história da morte no ocidente. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 2003.

BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 1996.

BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Parâmetros Curriculares Nacionais. Temas transversais: Meio ambiente e Saúde. 1997.

BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências Naturais. 2001.

ELIAS, N. A Solidão dos moribundos. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editora, 2001.

FALCÃO, E. B. M. Lino, G.G. S. 2004. O Paciente Morre: Eis a Questão, Rev.Bras.Educ.Med. 2004; 28:106-118.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo, SP: Atlas, 1999.

GILLY, M. As Representações Sociais no campo da Educação. In: Jodelet, D. (org) As Representações Sociais, Rio de Janeiro; UERJ: 2001.

KOVÁCS, M. J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 1992.

LEFÈVRE, F.; LEFÈVRE, A . M. C. O Discurso do Sujeito Coletivo. Caxias do sul, EDUCS, 2001.

LEFÈVRE, F.; LEFÈVRE, A . M. C. O Discurso do Sujeito Coletivo. Uma nova opção em pesquisa qualitativa (Desdobramentos). Caxias do sul: EDUCS, 2003.

MELO, E. C. P. CUNHA, F. T. S. Fundamentos da Saúde. Rio de Janeiro: Senac, 2004.

MORIN, E. O homem e a morte. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1997.





: atas enpec -> venpec -> conteudo -> artigos
artigos -> De onde vem o som da voz?
artigos -> An historical approach of rainbow and science teaching in elementary school
artigos -> Scientific instruction during high school
artigos -> Manipulated medicines: a motivating thematic for the sciences education and the citizenship formation
artigos -> Teor de vitamina c em sucos de frutas: uma proposta de atividade experimental vitamin c verification in fruit juices: a proposal of experimental activity Adriano Lopes Romero1, Expedito Leite da Silva2, Neide Maria Michellan Kiouranis3
artigos -> Research and development of a neuroscience learning object virtual database
artigos -> A methodology of analyzing and contrasting science classroom discursive dynamic using software and categorization systems of video data: parte 1, general data eduardo f mortimer1 Tomas Massicame2, Andrée Tiberghien3, Christian Buty4
artigos -> Explanation and the duality wave particle in high school
artigos -> Nature: perception aspects of biology and physics students




©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal