Só hoje resolvi sentar para escrever o que se passou comigo nesses 976 dias no cárcere



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SEGUNDA PARTE
PÁGINAS AMARELAS

20927JUL06, quinta-feira.


Foi uma noite mais tranqüila. É bem melhor aqui no segundo estágio, mesmo não sendo um paraíso. Comecei a me sentir mais livre e mais próximo da porta de saída deste lugar infernal. Começo a conhecer novos colegas e sei que aqui devo trabalhar, pois no segundo estágio todos devem trabalhar.

O espaço físico é bem maior e a gente não é obrigado a se banhar logo após o uso do “boi” como lá no primeiro estágio.

Aproveitei meu dia para fazer minha higiene pessoal, cortei minhas unhas e comecei a trabalhar na cozinha como lavador de panelas. É um teste de fogo para os iniciantes do segundo estágio; o Lopes e o Canella são meus colegas de trabalho.

Ninguém ainda se incomodou com o meu ronco até então. Somos eu, o Bianchi, o César (que ronca mais alto do que eu), o Benedetti, o Augusto, o Luciano e o Edinan. É um alojamento com o triplo da área do X-5 com cinco beliches, portanto dez leitos. Eu e o César dormimos em cima.


21028JUL06, sexta-feira.
Após outra noite bem dormida, tive que fazer a faxina do alojamento. Até isso aqui é bem melhor e menos exigente porque somos em número menor e quase não se suja. Por isso devemos limpar dia sim dia não.

Sinto dores nas costas em razão do trabalho e sinto cansaço, o que me faz dormir melhor.

Soube que hoje o Feitosa foi repreendido por querer passar com um pedaço de bolo para a subseção. Ele queria levar aos colegas um “biro-biro” e se ferrou. “Biro-biro” é tudo aquilo que se come ou bebe clandestinamente ou não; qualquer doce, bolo, bala, etc. É uma gíria prisional.

21129JUL06, sábado.


Quase fui surpreendido pelo sargento Maurílio esta manhã; maldito “amassadinho”! Estava deitado quando ele entrou para a revista matinal surpresa. Levantei-me rápido e de bom humor porque o ambiente aqui é outro. Não há grades como lá, não é X, é alojamento e temos a sensação de que estamos num quartel e não numa prisão, embora sejamos internos, isto é, presos. Que Deus seja louvado por tudo isso, mas acho que só subi em razão da morte da minha mãe. Sentiram pena de mim? Será?

Fiz a limpeza do banheiro e demorei mais de uma hora porque aqui é bem maior. Entretanto, cada mês é um alojamento que se responsabiliza pela faxina e isso faz com que fiquemos dois meses sem fazer a faxina porque são três alojamentos que fazem uso do mesmo banheiro à direita do corredor. Aqui também são dez alojamentos ao longo do corredor e por isso chamamos de Rua 10 o lugar que vivemos, assim como na subseção.


21230JUL06, domingo.


Chove. Eu não terei visita. Vou ler Sérgio Porto “Stanislaw Ponte Preta” o cronista. É o modo que escolhi para passar o meu domingo.

Percebi que aqui os colegas são mais centrados neles mesmos e não há aquela solidariedade que há lá na subseção. Aqui somos mais individualistas; é cada um pra si enquanto não se identificam com a gente.

Aqui há uma moeda de troca e ninguém faz nada de graça pro outro. Até descobri que se eu não quiser lavar o banheiro, é só pagar que outro fará pra mim. Acho que farei isso. Odeio lavar banheiro. Aliás, a maioria aqui já perdeu o emprego e precisa ajudar seus familiares lá fora. O dinheiro corre mesmo sem o consentimento do comando e somos proibidos de falarmos em dinheiro aqui. Não podemos guardá-lo, e se formos pegos com grana seremos severamente punidos. Mas é claro que se dá um jeito pra isso e eu não sou menos idiota pra não ter que temer e achar um bom esconderijo pros meus poucos tostões.

Após a visita, comi deliciosos bolos que os colegas do alojamento me ofereceram.

21331JUL06, segunda-feira.

Não tive visitas ontem, como de costume, mas nem por isso deixei de comer coisas gostosas. À tarde devo trabalhar na cozinha e fome não passarei neste lugar.

No próximo dia 03 de agosto serei avaliado por um Psiquiatra Forense lá em Assis, a pedido da Promotoria de Maracaí. Tomara que isso faça com que eu saia logo daqui.

Joguei Xadrez com o Di Lúcia e ganhei.


21401AGO06, terça-feira.
Fico ansioso toda vez que tenho alguma audiência ou mesmo consulta médica. Parece que algo de ruim está sempre pra acontecer; mas o que de pior poderá me suceder?

A rotina da prisão não oferece quase nada de novo pra se registrar e, por isso, acredito que a leitura desse diário poderá se tornar enfadonha. Espero que meu filho ou netos possam ter a paciência de ler tudo isso um dia e saber como vivi no cárcere.

O trabalho na cozinha poderá me engordar mais ainda, pois tinha 93 kg quando aqui cheguei e hoje já estou próximo dos 100 kg.

A novidade do segundo estágio é que temos uma Academia de Musculação (que pra mim nem cheira e nem fede), uma biblioteca que muito me interessa e uma sala de cinema onde assisti a um filme pela primeira vez aqui na prisão; uma comédia chamada “As Branquelas”.


21502AGO06, quarta-feira.
A prisão não é só castigo, também nos ajuda a refletir sobre nossa conduta e pode sim transformar-nos pela dor. Aprendemos a valorizar a liberdade, a família, os verdadeiros amigos e principalmente Deus. Aqui não há como não se lembrar Dele, mesmo porque Ele é nossa única esperança.

Alguns metros quadrados a mais para se caminhar e outras formas de passar o tempo já nos alivia muito. Por enquanto estou bem entre os novos colegas e espero continuar em paz com todos. O tempo dirá!


21603AGO06, quinta-feira.
Jour de mon voyage à Assis!

Levantei-me às 02h40 e às 03h00 h saímos de São Paulo, eu, Cabo Miquete, Soldado Esteves e o Soldado Sales. Às 08h00 estávamos em Assis e em menos de cinco minutos o médico falou comigo e nos dispensou prometendo me ajudar a sair da prisão.

O Dr. Wilson Conte das Villas Rodrigues é um médico novo e foi gentil comigo. Ele perguntou-me o que havia acontecido comigo para que eu estivesse na prisão. Contei-lhe minha história, mas percebi que ele não anotou nada, antes, gravou nossa curta conversa em seu computador portátil.

A Cidinha me esperava na saída do Hospital Psiquiátrico de Assis e por pouco não me viu. Falei menos ainda com ela. Depois eu a vi saindo rumo à casa da sua irmã e eu retornei para o cárcere. Fazia frio. Chegamos ao presídio por volta das 15h00. E às 17h00 eu fui trabalhar. À noite fui à reunião espírita.


21704AGO06, sexta-feira.
Palavras desanimadoras me foram ditas em relação ao meu processo por se tratar de Medida de Segurança. Todavia, não sinto que ficarei aqui por muito tempo e nem acredito na possibilidade de me transferirem para outro lugar conforme muitos comentam pra me apavorar. Não temo outro lugar, até acho que será melhor se me livrar do militarismo que me faz tanto mal.

Hoje falei com o Tenente Mello. Ele me pareceu ser um bom camarada, pois parou pra me ver tocar violão e me ouviu cantar. Encontramos pessoas boas mesmo aqui no inferno.

Comecei meu novo trabalho como garçom dos oficiais. Eu não queria este trabalho; antes as panelas. Espero sair rápido.
21805AGO06, sábado.
Um dia normal como todos os sábados. Trabalho até ao meio-dia e depois preparamos as “lonas” pra recebermos visitas no domingo.

À noite vi outro filme e depois conversei com o Augusto que me disse que pediria à sua namorada em noivado dentro de alguns dias; talvez, amanhã. Ele também está sob Medida de Segurança.

Soube que domingo a Banda vai tocar em homenagem ao Dia dos Pais. Teremos um show com a Little Band. Será um domingo diferente porque vou poder descer e participar da festa mesmo que eu não tenha visitas; e não terei. Pedi ao meu filho que não viesse.
21906AGO06, domingo.
Acordei ansioso e esperando que o domingo passe rápido para que na próxima semana eu tenha o resultado favorável do exame médico para deixar a prisão. Espero estar em casa no próximo domingo, se Deus quiser.

De fato houve o show e eu chorei em alguns momentos com saudades do meu filho e esposa. Chorei quando o “Tiririca” cantou a música Pai, de Fábio Júnior.


22007AGO06, segunda-feira.
Ouvi dizer que chegou a poucos dias na subseção um policial que matou sua esposa em Itu com mais de 50 tiros. Será verdade? E dizem que ele está mal, que dorme no chão e sem roupas, que faz suas necessidades fisiológicas pelo chão e que se recusa a comer. Meu Deus!

O “ET” veio me dizer que ele vai ocupar meu lugar no refeitório dos oficiais e que eu vou fazer outro trabalho. Foi verdade e eu comecei a fazer a limpeza das salas da administração. Não gostei; preferia as panelas.

Ouvi também a história do Lindomar, o “Caipira”, que dizem ter matado dois homens e tentado contra outro em Nova Europa; interior do Estado. Isso se passou num bar onde nem a TV foi poupada por ele, dizem.

22108AGO06, terça-feira.


Mal começou do dia e eu tive que juntar os materiais de limpeza e me dirigir às salas para limpá-las antes do expediente começar. É um saco! Não gostei!

Merda! Mil vezes merda, eu fui torturado o dia todo por causa dos vidros das portas que nunca estavam bons pra esses malditos. Limpei e limpei sem que ao menos alguém pudesse dizer, agora sim basta. Usei de todos os artifícios para limpar a porcaria desses vidros e mesmo assim sei que não ficou bom. Eu odeio fazer esse tipo de serviço.

O bom desse trabalho é que não me afastei da cozinha e volta e meia eu lá estou para furtar ou pedir um “biro-biro”.

Quero trabalhar na padaria e vou me esforçar para conseguir este trabalho; dizem que é o melhor lugar de trabalho aqui. E que ainda há bolos todos os dias e ainda há os frios que poderemos comer com pão e leite à vontade. Eis aí o tipo de trabalho que vou gostar; pode crer.

22209AGO06, quarta-feira.
Assisti a outro filme ontem. Porém, acho que não vou mais porque o ar condicionado é muito frio e isto está fazendo mal pra minha garganta.

Outros colegas vieram pro segundo estágio esta tarde, são eles: Sachá, Quirino, Seu Carmo e Nicéias. Todos se alegraram com a progressão de estágio. É bom para quem tem filhos e recebe muitas visitas porque aumenta o número de visitantes e o horário também.

Ouvi dizer que o Tenente que matou a mulher dá muito trabalho aos colegas lá na subseção. Que ele grita o dia inteiro, caminha sem parar no interior do X-1 e não quer comer. É um jovem oficial de trinta e poucos anos. Que pena! É triste! Muito triste! Livra-me Deus da loucura!

22310AGO06, quinta-feira.


Sonhei com minha mãe pela primeira vez e ela me abraçava e disse sentir saudades de mim. Disse estar muito distante, que sentia muito pelo que está acontecendo comigo e que compreendia a situação, o porquê de tudo isso. Subitamente senti um frio enorme, acordei e não mais dormi. Esta conversa se passou no cemitério de Maracaí, onde eu não desejo ser sepultado.

A presença de minha mãe mesmo em sonho trouxe-me certo alívio e acredito estar próxima a minha liberdade. Sinto que ela me protege aqui neste lugar.

Recebi uma linda e longa carta do Michel; aquele meu aluno de francês que veio junto com o Ribeiro, mas que já saiu da prisão há poucos dias. Só não entendi por que o colega dele permanece!

Outros colegas vieram pro segundo estágio; são eles: o “Boneco”, o Barcellos, Fernandes e Mello. Convidei o Fernandes pra ficar na minha lona juntamente com o Sachá.


22411AGO06, sexta-feira.
Hoje é aniversário da minha irmã Marcília!

O Fernandes veio pro nosso alojamento e nesta noite percebi que ele tem bruxismo; range os dentes quando dorme. Isso me fez lembrar meu filho que também é portador desse mal, mas soube que ele vai ficar bom porque está fazendo tratamento dos dentes e a dentista dele disse que ele vai se livrar disso tão logo termine o tratamento. Espero que seja verdade.

Maldito Edinan, ele não nos respeita e polui o ambiente com seus fétidos gases durante toda a noite. Parece que tem um urubu na barriga!
22512AGO06, sábado.
Acordei revoltado como de costume. Hoje, porém comecei a querer entender o porquê da minha prisão e não consegui uma explicação que me convencesse. Que mal fiz? Por que a minha prisão é tão necessária? Pra satisfazer o ego do Delegado?

Viver aqui não é fácil. Cada qual tem seu modo particular de ser e eu nunca vi ninguém daqui antes, exceto o professor Bianchi do qual mal recordo. Por isso, viver entre desconhecidos e criminosos é um perigo constante. Nunca se sabe em que terreno está pisando.

Tem cada cabeça de merda neste lugar! Toda sexta-feira passa um programa que fala explicitamente sobre sexo e os vagabundos de plantão gostam de ver a Penélope falando um amontoado de besteira com seus participantes ao telefone. É uma baixaria! O César é o mais ridículo de todos. Ri e se delicia com tantos impropérios ditos pela apresentadora.
22613AGO06, domingo.
Hoje eu espero que minha irmã venha me visitar e me traga alguns sabonetes, pois os meus já acabaram. Nesta escola do crime a gente aprende coisas horríveis a cada dia e também se aprende a conhecer o ser humano com suas mazelas e poucas virtudes.

As crueldades ditas pelo Professor Bianchi assustam-me. Será que ele é tudo isso mesmo? Ou será que diz tais coisas para se defender e nos intimidar? Eu não temo o demônio porque aqui ele deita e rola mostrando sua face diuturnamente.


22714AGO06, segunda-feira.
Tenho passado dias horríveis e noites ainda piores. Sinto o corpo quebrado e a mente cansada, o que tem dificultado minhas leituras. Estou com pouca disposição para o trabalho enfadonho de limpar as salas deste inferno. Minha vida está cada vez mais indesejada, mas longe de mim o suicídio; isso não.

Ao sair daqui penso em me mudar de Maracaí com minha família pra evitar que esses malditos, covardes e mentirosos possam me prender de novo. Odeio as polícias!

Recebi, digo, fui chamado na penal para ser comunicado que havia me chegado uma passagem e vinte reais para que eu pudesse ir embora quando eu estiver em liberdade; talvez até o fim do mês, se Deus quiser. Não vou querer incomodar minha irmã ao sair daqui; vou só pra casa sem que ela precise vir me pegar.
22815AGO06, terça-feira.
Malditos militares e similares! Esta manhã o Tenente Yurio surpreendeu o Augusto ainda na “jéga” e chamou sua atenção. (Jéga é cama). Por quê? Isso não vai interferir no nascer e nem no pôr-do-sol.

Mesmo cansado e com pouca disposição para leitura, hoje eu acabei a leitura de um único livro em francês que encontrei na biblioteca; o livro de Anthony Martin, Une Corde pour le Baron. Um romance policial.


22916AGO06, quarta-feira.
“O prisioneiro injustiçado, que pode romper as barras de sua prisão e não o faz, é um covarde.”

(Khalil Gibran)


A citação acima está no livro Asas Partidas do escritor libanês Gibran que eu conheci quando trabalhava no Posto Fiscal de Pirapozinho como PM Rodoviário. Não me lembro qual agente tributário me emprestou um livro dele que adorei e recomendo; é O Profeta. Dizem que é o melhor do autor. Eu amei e recomendo sem hesitar a quem me perguntar que o melhor livro que li é O Profeta.

Ontem à noite teve outra sessão de cinema infantil, pois aqui não podemos ver filmes que não tenha sido passado pela censura do Major. Que merda de Major! Só vê porcaria. Como é pequeno! Não tenho boas recordações dele lá da subseção. É um estúpido! Veja: Os Piratas do Caribe! Eu não engulo isso nem aqui no inferno.

Sempre respeitei os colegas da prisão e nunca lhes perguntei nada sobre seus crimes, mas hoje me surpreendi com as brincadeiras do “papai noel”. Ele mesmo se debochando dele me deixou pasmo, pois eu jamais o chamaria por apelido. Quem poderia imaginar que um ser tão desprezível como ele pudesse cometer um crime absurdo como o dele. Fantasiar-se de bom velhinho para distribuir balas de chumbo no rosto de uma linda jovem num cruzamento da grande São Paulo a mando de seu próprio pai e avô. Entretanto, aquele não era o dia do bom velhinho e sim da pobre e indefesa jovem que por muita sorte não morreu. Sim. Eu morei sob o mesmo teto deste verme.
23017AGO06, quinta-feira.
Começo a perder minhas esperanças de sair ainda este mês, pois até agora nenhuma notícia a respeito do exame médico de Assis no último dia três. O médico foi simpático e disse que iria me ajudar a sair logo deste inferno. Não confio mais em ninguém. Todos parecem se divertir com a minha desgraça.

Morro e envelheço com maior rapidez aqui neste lugar insano. O convívio com esses vermes militares me sufoca. Não suporto a arrogância de todos eles, principalmente dos miseráveis que estão na mesma condição minha, isto é, os presos. Muitos acreditam que ainda são grandes merdas, apesar de terem seus direitos restringidos. Quem não tem liberdade não tem muito do que se orgulhar. Estamos todos no mesmo barco, mas há alguns idiotas que pensam que estão no controle; não sabemos o rumo deste barco e muito menos quem o conduz. Somos passageiros angustiados em alto mar; num mar revolto.

É incrível como a vida nos ironiza, pois mesmo diante das injustiças sofridas, a vida aqui tem seus poucos momentos de “prazer”. Hoje mesmo eu tive uma limpeza nos pés, com unhas cortadas, massagem, etc, feita pelo colega César; o podólogo. Ele trabalha muito bem e todos gostam do seu trabalho, até mesmo os oficiais utilizam do seu serviço.

Acabei hoje a leitura de Nicolau x Alexandra. Uma tragédia russa cujo autor é Robert K. Massie com tradução de Marília Nunes. “Somente o presente pode ser considerado nosso”; linda frase que desta leitura extraí.


23118AGO06, sexta-feira.
“Aquele que não rebela contra a opressão está cometendo injustiça a si.”

(Gibran)
Todas as manhãs são de medo e preocupação porque somos aterrorizados com as revistas surpresas desses vermes militares que sempre estão à procura de um meio para nos ferrar ainda mais do que já estamos. Todos sabem que uma parte disciplinar pode nos complicar e muito. Lembrei-me do caso do Moreno que já está pra mais aqui só porque foi punido com falta grave e foi pro mau comportamento, o que lhe rendeu mais um ano de prisão sob o regime militar. Por quê?

O Cabo “Cabeção” é impiedoso; não comigo. Eu até gosto dele e por isso sofro represálias dos demais. É que eu sou um verdadeiro 171 quando se trata de me relacionar com esses “superiores”.

Fomos presenteados com pares de tênis para usarmos aqui na prisão, mas nem todos ganharam porque eram poucos pares. Quando eu soube da distribuição, corri e consegui um para mim. Entretanto não me agradou muito e devo guardá-lo para levar pra casa ao sair daqui e dar pro meu filho. Adivinhem o número? Mas cavalo dado não se olha os dentes; 45! Eu calço 41!


23219AGO06, sábado.
“Enfrentar os obstáculos e as preocupações é mais nobre do que bater em retirada buscando apenas a tranquilidade”.

(Gibran)


Graças a Deus consegui o trabalho que desejava na padaria e vou deixar ainda hoje de limpar o chão desses malditos. Serei padeiro.

Minha esposa me escreveu avisando-me que o bilhete de passagem que ela enviou tem validade de trinta dias. E se eu não sair neste período?

Fui informado que o médico já enviou ao Fórum o resultado do exame e que possivelmente logo deverei estar em liberdade porque seu laudo é favorável à minha liberdade.
23320AGO06, domingo.
“Eu me fortaleci e senti, embora na negritude de minha prisão, uma espécie de preciosa liberdade.”

(Gibran)
“Deus nos proverá tudo o que perdemos”, disse o Luciano ainda ontem antes de dormirmos. Este colega é um verdadeiro militar e que gostava muito do que fazia e por isso, às vezes há divergência entre nós porque eu ataco e ele se defende quando o assunto é militarismo.

A maioria dos que aqui estão e que perderam sua farda não consegue assimilar a demissão e pensam que ainda vão voltar ao serviço militar mesmo tendo sido expulsos por crimes que os impossibilitam de retornarem à função policial militar. Eles sonham com aquilo que pra eles era tudo na vida profissional deles e esquecem que a vida é muito mais que um trabalho na PM.

Acredito que minha irmã não virá me ver hoje. Mas tudo bem, pois o meu domingo terá que ser produtivo mesmo aqui. Vou ler porque é o único remédio para curar-me do tédio.

A mãe do Ortega desejou me conhecer e falar comigo. Que bom que há pessoas desejosas por me conhecer. O assunto foi a minha interdição e como consegui me reintegrar na PM. Ela quis saber quem é meu advogado e também conhecer minha história. Ela acredita que seu filho também é vítima do regime e que ele tem problemas emocionais em razão do serviço militar.

Neste dia eu comecei a dar aulas de Francês para ao Sued, o Bianchi e o “Tio Chico” no espaço ecumênico. Percebi que alguns curiosos ficaram a me observar do lado de fora.


23421AGO06, segunda-feira.
“Lutei contra pessoas ignaras e de espírito cruel.”

(Duda)
Hoje o Michel esteve aqui no PMRG para ser ouvido e

o Vinícius veio me dizer que ele queria me ver. Falamos um pouco ele me disse palavras animadoras como sempre. É um dos poucos de quem terei saudades quando eu sair daqui.

23522AGO06, terça-feira.


Minha primeira noite na padaria, antes estava durante o dia. Fizemos mais de mil pães. Conversamos muito até que os pães crescessem. Como se processa a fermentação! É algo divino! Como pode?

De fato, reconheço que não estamos aqui por acaso. Aprendi coisas que eu não sabia e quantas outras não haverei de aprender com esses párias militares que tanto odeio.

Aqui funciona uma escola de alunos soldado e isso incomoda bastante quem trabalha à noite. É impossível dormir com o barulho que eles fazem durante os exercícios militares e a ordem unida.

Estou rodeado de fanáticos militares e sinto que devo parar de afrontar o regime sob pena de não ser benquisto entre meus colegas militarizados ao extremo. Como tenho pena deles. A vida é maior que o militarismo; que quaisquer ismos.

Hoje o barbeiro “Sá” deixou a prisão após mais de 03 anos aqui. Nunca soube sobre o B.O dele.
23623AGO06, quarta-feira.
“O que é mais louvável e belo? A nobreza do sacrifício ou a felicidade da rebeldia?”

(Gibran)
Não dormi bem por causa do barulho.

Recebi duas cartas esta manhã, uma da Cidinha e outra do Vascão, o colega de Cândido Mota que já está em liberdade e que morou comigo no X-5. A Cidinha me deixou alegre com as notícias e eu acho que posso sair em breve se o Juiz acatar a decisão do médico com o parecer de tratamento ambulatorial.

Soube que o amigo Adrius saiu daqui hoje e fico feliz por isso. Cada colega que retorna pra sua casa é um prazer imenso pra mim. É sinal que a fila anda. E eu estou nela!

Pedi ao Edinan que me fizesse a Bandeira francesa e ele me prometeu que esta tarde mesmo estará pronta.
23724AGO06, quinta-feira.
“As mentiras ditas contra mim fizeram-me conhecer as grandes verdades sobre os homens.”

(...)
Meu quadro está pronto e minha amizade com o “Sabão-de-mula” está terminada porque o cara é um merda de quinta categoria. Já paguei pelo trabalho e ele insiste em não me entregar até que eu lhe dê o recibo de depósito após eu ter-lhe mostrado. Por que ele quer o recibo se todos já viram que eu o paguei? Não falarei com ele e passei a não desejar mais o maldito quadro. Vou quebrá-lo. Ele queria me deixar nervoso e conseguiu.

Já estou acostumado com gentinha desse tipo. Deus saberá me dar em dobro o que ele levou e não me importo com tão pouco. Já perdi tantas coisas mais importantes e valorosas; a minha liberdade é uma dessas coisas.
23825AGO06, sexta-feira.
“Estive preso, porém nunca me senti um prisioneiro.”

(Duda)
Agosto está se acabando e eu não gostaria de passar meu aniversário na prisão. O próximo dia 05 eu quero estar em minha casa comemorando meus 43 anos de vida, se Deus quiser.

Prometo meu Deus que jamais serei um filho rebelde, uma ovelha desgarrada se o Senhor me conceder a graça de passar meu aniversário em casa. Desculpe-me, mas não estou negociando minha liberdade, apenas estou Lhe pedindo este presente.

“Ne me quitte pas” mon bon Dieu!


23926AGO06, sábado.
É difícil me concentrar no que faço no dia a dia porque as lembranças de casa são constantes. Meus dias são de tristezas e angústias intermináveis e, às vezes, choro. É comum ver homens chorando pelos cantos desta prisão militar. Uns por culpa, outros por arrependimento, outros por vergonha e eu por saudades, como tantos outros.

Não me sinto um prisioneiro porque minha consciência está livre de qualquer culpa. Não matei, nem roubei, nem feri ninguém, nem causei prejuízos a terceiros e, por isso, não carrego culpa que me aprisione. Sou livre de consciência e aqui estou simplesmente para satisfazer o ego desta injusta Justiça que é cega, surda e muda e que age de acordo com suas conveniências. É sabido que só há justiça entre iguais.

Esses homens da lei não respeitam os menos privilegiados da sociedade porque sabem que não lhes acontecem nada quando suas vítimas são indefesas, isto é, que não têm condições de uma briga justa e igual com eles. É sempre assim, esses miseráveis homens da lei medem forças com que não tem. São covardes! São mentirosos! São vermes!
24027AGO06, domingo.
Escrevi algumas cartas que enviarei através dos pais dos colegas meus; pra Cidinha, pro Michel, para a Congregação Cristã no Brasil lá de Prudente, etc.

Conversei com o Professor Bianchi ontem e só então soube qual foi o crime cometido pelo colega Araújo. Ele soube da traição de sua mulher e a matou com dois tiros. Lamentável, pois o colega Araújo se mostra muito religioso, é inteligente e bom companheiro. É comum vê-lo orando na quadra e até entoando hinos de louvor. Ele sempre me fez lembrar um prisioneiro que vi certa vez na cadeia de Maracaí quando então era recém formado policial militar.

O ódio tomou conta de mim nesta manhã de domingo e eu quebrei o quadro que o Edinan me fez; a Bandeira da França. Já são oito meses nesta maldita prisão! À noite, dei aulas aos colegas Bianchi, “Tio Chico”, Sued e “Japa”.
24128AGO06, segunda-feira.
Por quê?

Não me canso de perguntar qual a razão disso tudo! Por que Deus permitiu que isso me acontecesse? Não consigo entender o real motivo desta minha prisão injusta e covarde.

Meus dias são tristes, minha vida é triste, nada de bom me acontece; eu quero ir embora meu Deus! Sinto-me demasiadamente cansado de tudo isso, minhas articulações estão doloridas e sinto dor de cabeça como nunca antes em toda minha vida e com muita frequência.

Não bastasse tudo isso, tenho que trabalhar com colegas que não me receberam bem como companheiro de trabalho e tentam desestabilizar-me emocionalmente porque não me queriam na equipe e sim outro colega. O Ygor e o Generaldo estão hostis comigo.

Ontem a noite eu acabei de ler outra obra de Gibran; Segredos do Coração com tradução de Emil Farhat.
24229AGO06, terça-feira.
“Não tenhais medo da adaga, pois ela se negará a apunhalar corações vazios.”

(Gibran)
Tenho a impressão que matei o Papa ou que joguei pedra na cruz, pois esta minha prisão é um arbítrio descarado e sem antecedentes. Nunca vi alguém ficar tanto tempo preso por desacatar ou ameaçar uma autoridade! Além do que eu não fiz nada disso e todos sabem muito bem.

Briguei de novo com o “Sabão-de-Mula” que não nos respeita e que solta seus malditos e fedorentos gases por todo o alojamento durante toda a noite. Fizemos até uma reunião para falar sobre o assunto e ele não quis participar porque sabia que o assunto era sobre sua falta de educação e respeito com os demais. Miserável!
24330AGO06, quarta-feira.
“A perseguição não pode atingir aquele que se põe a serviço da verdade. Não morreu Sócrates corajosamente, atingido só no corpo?”

(Gibran)
Não suportei e sucumbi. Fui ao médico que me deu dois dias de convalescença. Estava muito mal.

Se eu tivesse sido condenado pelos crimes que, maldosamente, me imputaram eu já teria cumprido a pena - que não passa de quatro anos - com esses oito meses que aqui estou.

Fui atendido pela enfermeira Sd Fem Santa que foi muito gentil e educada comigo. Todos parecem gostar dela.


24431AGO06, quinta-feira.
“Vocês são numerosos, eu sozinho. Os lobos atacam as ovelhas na escuridão da noite, mas as manchas de sangue permanecem nas rochas dos vales, até o romper do dia, e o sol revela o crime a todos.”

(Gibran)
Voltei a sonhar com minha família e desta vez com os mortos, parentes meus; tio Paulo e minha mãe. Também povoaram meus sonhos, a Neusa, o Jeferson, Dona Maura, três desconhecidas crianças de branco, minhas duas árvores que plantei defronte minha casa antes de vir preso, ainda sonhei com minha casa com o portão aberto à minha espera. Por tudo isso, acredito que está próxima a minha saída daqui. Espero! Guardarei segredo e não contarei este sonho pra ninguém aqui.

Comecei a ler A Revolução dos Bichos de George Orwell.
24501SET06, sexta-feira.
“Morrer pela liberdade é mais nobre do que viver à sombra da submissão.”

(Gibran)
Quando pensamos que todos os dias são iguais, mesmo na prisão, enganamo-nos. Há sempre um fato novo que faz a diferença entre os dias e as histórias de hoje não são as mesmas de ontem por mais parecidas que sejam. Até mesmo o ronco do César nesta noite que passou foi pior do que os outros dias.

Meu filho me escreveu dizendo que vai prestar o Vestibular da UNESP para o curso de Letras. Ele não está preparado pra um exame desses e é bom que ele perceba isso fazendo a prova. Disse-me que foi batizado na Igreja do Evangelho Quadrangular e que não tem, ainda, uma namoradinha.

Que maravilha! O Moreno foi embora esta tarde, bem no dia do seu aniversário. Eu o vi saindo. Será que irei daqui a quatro dias?


24602SET06, sábado.
“Jesus não foi um pássaro de asas partidas. Não teve medo de seus perseguidores, nem de seus inimigos.”

(Gibran)
Novos colegas de trabalho na padaria, pois foi difícil entrosar-me com a dupla Ygor e Generaldo, embora este último fosse menos intragável que o outro.

Conheci a interna Mariângela Silva Biagi que matou o marido e cumpre pena aqui conosco no espaço reservado às PMS. Ela é simpática, sorridente, bonita, extrovertida e nem parece ter cometido um homicídio São lindas as suas madeixas frisadas. Eu a vi na sessão do *Reich; um tipo de massagem de relaxamento que é feito por uma mulher que vem todos os sábados aqui na prisão.

A Mariângela é uma espécie de colírio para os olhos não só dos carentes internos, mas também desses insaciáveis militares que aqui trabalham e, certamente, a cobiçam. Não quero dizer asneiras, mas não sou proibido de pensá-las e, por isso, acho até que alguns oficiais podem assediá-la como é de costume no meio militar. Os oficiais se sentem no direito de desejar e possuir todas as mulheres que lhe são subordinadas. Vermes!


24703SET06, domingo.
“Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.”

(George Orwell)


A cada dia novas histórias que nem sei se devo ou não dar ouvidos a tantas mentiras; ou serão verdadeiras? Algumas são horripilantes, outras são idiotas, banais, estúpidas, cruéis e típicas de pseudo-homens que integram esse maldito e desprezível militarismo. Einstein sempre esteve certo ao detestar o militarismo quando afirmou em uma de suas obras que deveria ser o “Estado pelo homem e não o inverso”.

Ontem ao ouvir a frieza de Mariângela ao relatar o assassinato de seu marido, o pai de suas filhas, o homem que foi escolhido por ela para tão nobre missão, fiquei horrorizado com o seu modo de se referir ao falecido. Ela não demonstrou nenhum tipo de sentimento que não fosse o ódio e o desprezo pela vida humana. Apesar de linda e sempre sorridente, essa mulher militarizada mostrou-se fria e calculista. Não acredito que alguém deva morrer só porque fez sexo com outra pessoa, pois para mim, qualquer forma de amor é saudável; ainda que por onze minutos conforme disse Paulo Coelho. Matar alguém é abominável!

Após ouvir também as histórias do Professor, que são mais insalubres ainda, voltei às minhas leituras e findei o livro de Gibran; Lágrimas e Sorrisos. Finalizei também a leitura de John Fowles; O Colecionador. Tentei depois realizar o teste de Einstein, mas não cheguei ao fim; é difícil!
24804SET06, segunda-feira.
“Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas ou tenha asas, é amigo.”

(George Orwell)


Conheci e falei esta manhã com um preso que me despertou a atenção por se mostrar esforçado e obstinado a mudar sua vida através dos estudos; chama-se Greco. É um estudante de Direito da Uninove. Ele terá prova hoje à noite e eu peço a Deus que o ilumine e o abençoe.

Encontra-se gente decente mesmo aqui entre párias militares. Um e outro se salvam do meio deste lodo militar.

Trabalhei até 21 horas e fizemos pão com coco esta tarde para servirmos à noite. Antes de dormir fiquei pensando no livro que li e senti pena de Miranda. Senti raiva e nojo do Calibã que se preparava para a sua próxima vítima.
24905SET06, terça-feira.
“Nenhum animal usará roupas; nenhum animal dormirá em cama; nenhum animal beberá álcool; nenhum animal matará outro animal; todos os animais são iguais.”

(George Orwell)


Hoje é o dia do meu aniversário; 43 anos! Espero ser o meu primeiro e último neste lugar, assim como não espero passar outro Natal aqui e nem o Réveillon; jamais!

Pode parecer mentira, mas nesta noite do meu aniversário, os colegas me prepararam uma surpresa agradável sem nem mesmo saber que era o meu natalício. Só depois então é que eu lhes disse, quando as três pizzas de atum e queijo estavam prontas para serem devoradas. Estavam deliciosas e eu acrescentei umas cebolas que deram um sabor especial. Também esta noite eu tinha o direito de comer cebolas à vontade, pois não iria beijar ninguém mesmo! Se eu disser isso a alguém, não vão acreditar! Mas é a pura verdade. Comi pizzas frescas na prisão militar! Esta é a parte boa desta triste história!

O Sued, O Gonzaga e o “Tio Chico” são meus novos colegas de trabalho e parecem ser bem melhores que os anteriores, excetuando o Guedes que se mostrou companheiro quando eu estava na outra equipe.

O Sued me narrou as atrocidades cometidas pelos internos Arten e Dominguinhos. O primeiro foi acusado de abusar sexualmente de suas próprias filhas legítimas e o segundo gostava de matar suas vítimas que lhe davam carona; daí o seu apelido tenebroso de “A morte pede carona”. Senti medo e nojo ao mesmo tempo. Miseráveis!

Alertou-me ainda o colega que aqui é um lugar perigosíssimo e que estamos rodeados de lobos famintos muito perigosos e que não devemos confiar em ninguém. Aqui é o inferno, disse-me ele. Até me confidenciou que muitos acharam uma injustiça eu ter vindo para o segundo estágio já que eu não trabalhava, não recebo visitas, e etc. Muitos acharam que outro deveria ter vindo em meu lugar e que eu fui beneficiado sem merecer. Sentiram inveja e rancor por esta decisão do comando. Fiquei triste ao ouvir isso.
25006SET06, quarta-feira.
“Todos os animais são iguais.”

(George Orwell)


Mas alguns animais são mais iguais do que os outros, infelizmente. E eu vi isso na prática! Ainda ontem, após ouvir o Sued, até eu me senti mais igual do que muitos. Aproveito para falar sobre o nome do nobre colega que se dizia verdadeiramente “nobre” e que era de família estrangeira, turco ou árabe, sei lá. Na verdade seu nome é Sued Osson Lino Pinto ou coisa parecida, se não me engano! Caro leito, Sued Osson é “Nosso Deus” ao inverso!

Filosofei com outros infelizes que aqui estão sobre o gosto dos homens e das mulheres e não chegamos a lugar nenhum. Uns diziam que as mulheres são mais sedentas por dinheiro que os homens e outros diziam o contrário; eu acho que ambos são capitalistas ao extremo, mas é óbvio que a mulher é muito mais.

Eu não me aproximo de uma mulher pelo que ela tem, mas pelo que ela é e representa para mim naquele momento em que a desejo. Prefiro uma mulher simples, inteligente, bem vestida, perfumada e carinhosa. A propósito disso, vou inserir na minha história a partir de então os relatos que me faz o colega “Zé” sobre sua ex-amante. Ele me pediu sigilo absoluto porque ele é casado e disse-me amar sua esposa, muito embora tenha tido um romance com “Mme Butterfly”; era assim que ele a chamava. Durou pouco mais de 01 ano e três meses de profundo amor, desejo e paixão.

25107SET06, quinta-feira.


“Porque quem não viu as tristezas, não conhece as alegrias.”

(Gibran)
Acordei às 06 horas deste feriado de 07 de setembro, tomei café e voltei pro alojamento pra assistir televisão. Depois, fui ao espaço ecumênico para escrever minhas cartas. O “Zé” me contou que enviará uma carta pra sua ex-amante.

Dormi após o almoço.
25208SET06, sexta-feira.
“A terra que está com a boca aberta libertará tua alma do cativeiro.” (Logo, o corpo aprisiona a alma).

(Gibran)


Comecei o dia com a sensação de que logo irei embora daqui. Toda sexta-feira renovo as minhas esperanças, mesmo tendo dito que já não tenho esperanças de sair tão já. Há algo mais forte dentro de mim que me faz acreditar que estou de malas prontas; bolsa pronta. Todavia, ao entardecer após o jantar tenho a sensação de que mais um fim de semana me está aguardando de braços abertos.

Meu Deus! Por quê? Tenho medo desses homens com os quais habito. Eles são tão mesquinhos e maus, em sua maioria, que eu não sei como agir, com quem manter amizade, com quem desabafar meus sentimentos, a quem recorrer nas horas de angústia, etc.

25309SET06, sábado.
“Assim é a mulher, derrota o homem com a força que extraiu do homem.”

(Gibran)
O César é um pândego! Todas as manhãs ele acorda dizendo as mesmas palavras de “toujours”; “os pássaros cantam, a natureza é bela, faz um lindo dia e isso eles não podem nos tirar”. Assim diz, se referindo aos militares. Ou às autoridades que nos mantêm presos.

Não se vive bem aqui se não tiver bom humor, e o colega César parece ter. Gostei de suas palavras, embora já esteja cansado de ouvi-las.

Escrevi minhas cartinhas como de costume e não me esqueci da Neusa de Iepê, Isiudinha e Valdete. Dormi cedo, antes das 22 horas.


25410SET06, domingo.
“O materialista é infeliz porque a felicidade é inimiga da matéria”

(Duda)
Vou ler Balzac neste domingo.

O Fernandes me deu hoje os cem reais que a Cidinha depositou na conta do pai dele para que ele me trouxesse. Com esta grana eu pretendo ir pra casa em breve.
25511SET06, segunda-feira.
“Disse a flor: Eu olho sempre para o alto, para ver a luz, porém não vejo minha sombra. Eis a ciência que ainda não aprendeu o homem.”

(Gibran)
Até que enfim uma boa notícia; o Coronel Ubiratã está morto! Exatamente como os 111 mortos do Carandiru. Deus é perfeito e justo. E o colega Guto observou bem que o maldito até ironizava com o número 111, pois era seu número como candidato a deputado, digo, 14.111.

Menos um maldito militar vivo, porque militar bom é militar morto. E isso não me exclui. Assassino covarde que teve um fim merecido e mais irônico ainda, porque uma mulher o matou com um único tiro na barriga. Nem foi preciso muita técnica, bastou coragem e ousadia. Ela, a inimiga que dividia com ele o mesmo leito. Morte merecida. Todos os covardes e mentirosos deveriam morrer assim.

Hoje também os noticiários dão destaque ao covarde atentado contra as torres gêmeas nos Estados Unidos; são cinco anos sem as torres do World Trade Center.

Desde sábado os bandidos comemoram a morte do Coronel Ubiratã. Eu me alegrei, ainda que eu seja processado por isso futuramente, caso este diário se torne um “Best-Seller”, ah!
25612SET06, terça-feira.
“Atas minhas mãos e meus pés com correntes e baixas-me às trevas dos cárceres, e não tens forças para aprisionar meus pensamentos, por serem livres como a brisa que adeja no vácuo infinito.”

(Gibran)
Recebi uma linda carta do meu amigo Sandro me felicitando pelo meu aniversário. Ele me disse coisas belas e que nem sei se sou merecedor de tais elogios; uma das mais belas cartas que recebi. Vou guardá-la.

Hoje eu terminei a leitura de Eugénie Grandet do escritor clássico francês Honoré de Balzac. Lindo!
25713SET06, quarta-feira.
“O zelo pelo direito dos outros é o mais nobre, o mais belo de todos os atos dos homens.”

(Gibran)
A literatura francesa me fascina e por isso eu comecei a ler Manon Lescaut do escritor Abade Prevost; um clássico da literatura.

Liberdade! Onde anda? Por favor, abra suas asas sobre mim!

Encontrei um método de ensino da língua francesa e mostrei para o “Tio Chico”; é o Tempo. Tenho um exemplar em casa.


25814SET06, quinta-feira.
“A vida surge do interior do homem e não daquilo que o cerca.”

(Gibran)


Estou deprimido com o passar dos dias sem que nenhuma boa notícia apareça. Até quando?

Esta semana eu trabalho à noite e isso me deixa muito cansado e indisposto. Não dá pra dormir direito. Sinto cansaço o dia todo. Que saco! Nem estou disposto a escrever nada. Paro por aqui.


25915SET06, sexta-feira.
“Pertencer significa duas coisas. Uma que dá e a outra que aceita o que se lhe dá. Você não me pertence porque eu não o aceito.”

(John Fowles)


Novos colegas subiram para o segundo estágio; Djalma, Duque, Anderson e Rocha. Com a saída do Bacelli, eu passei a ser o mais antigo da minha lona e eu passei esta missão para o Fernandes porque eu quase não tenho visita e não quero ser responsável por nada neste lugar. O Canella também subiu.

O “Tio Chico” mostrou suas habilidades de bom ladrão e abriu o cadeado para roubar um litro de leite. Ele me ensinou o serviço sujo, mas eu não farei isso, a menos que eu sinta fome ou vontade de beber leite.


26016SET06, sábado.
“Deito-me e rezo. Não me ajoelho, pois sei que Deus despreza os que se ajoelham.”

(J. Fowles)


Deixei o trabalho às 06 horas da manhã. Passei a noite toda fazendo pães para a malandragem militar. São pãezinhos quentes e bem feitos que muitos trabalhadores honestos não têm para comer antes de sua labuta diária. E aqui há aqueles que se acham no direito de reclamar da qualidade dos pães.

Fui dormir no alojamento nove porque é impossível dormir com o entra e sai dos colegas. Sei que não devo fazer isso porque corro o risco de algum miserável me denunciar.

Acordei por volta da uma hora da tarde. Escrevi algumas cartas quando de repente o Professor entrou e ficamos conversando por um longo tempo. Ele me contou a história de um PM que se chamava “Zé Guarda” que havia confessado mais de 204 assassinatos. E que foi esse dito cujo que efetuou prisões de pessoas importantes no tempo da ditadura militar. Disse-me ele, que o ator Carlos Zara foi um de seus prisioneiros. Será?

O corpo é mesmo uma “máquina” perfeita do Criador, pois esta noite passada eu sonhei que fazia sexo e me levantei todo molhado com esperma. A natureza humana é sábia! O corpo se saciou por si só das carências afetivas destes últimos dias sem o carinho da minha mulher.
26117SET06, domingo.
“O homem ordinário é a praga da civilização.”

(J. Fowles)


Enviei algumas cartas para pessoas que nunca vi somente com o intuito de fazer amizades, todavia não enviei meu endereço. Talvez na segunda carta!

A mulher do Ribeiro e o pai do Fernandes é que serão meus carteiros de hoje. Não vou dar chance pro inimigo, não enviarei cartas através da penal. Odeio que abram minhas cartas e já que não posso evitar isso quando as recebo, posso evitar que leiam as que eu envio.


26218SET06, segunda-feira.
“A única coisa que importa na vida é sentir e viver aquilo em que se acredita, desde que seja algo mais do que a crença no nosso próprio conforto.”

(J. Fowles)


Hoje eu senti a ira de meus colegas quando voltei a afirmar minha insatisfação com o regime militar e a criticar seus integrantes. O Guto me disse coisas desagradáveis de ouvir, saindo em defesa da PM. Isso não me abalou; continuo odiando a PM.
26319SET06, terça-feira.
“Ninguém, que não tenha vivido numa cela, poderá saber quão absoluto é o silêncio aqui embaixo. Sinto-me perto da morte.”

(J. Fowles)


O mesmo cenário de tristeza e angústia, os mesmos colegas, a mesma saudade, o mesmo desejo de liberdade, etc. Aguardo o momento de sair deste martírio que se prolonga por demais.

A boa notícia do dia foi a saída do colega Ribeiro que deixou esta casa de lágrimas e tristezas. Já foi tarde porque seu colega Michel faz tempo que deixou a prisão.


26420SET06, quarta-feira.
“Odeio as pessoas sem educação e os ignorantes. Odeio as pessoas pomposas e falsas. Os invejosos e os ressentidos, os mesquinhos, os avaros e os insignificantes. Odeio todas as criaturas pequenas que não têm vergonha de ser tão pequenas e inúteis.”

(J. Fowles)


A natureza ao nosso redor é maravilhosa, e se aqui não fosse uma prisão, eu diria que vivo no paraíso. Dá pra avistar a Serra da Cantareira e toda a névoa espessa que toma conta dela nas manhãs de inverno. É lindo! Há pássaros de toda espécie que nos acordam na maior algazarra matinal.

Mas têm infelizes que não veem nada disso e preferem falar mal da vida alheia. E dessa vez o Mauro Higino é a bola da vez, pois não se fala em outra coisa a não ser que ele é um contrabandista de armas e munições e que, por isso, sua situação não é nada boa. Dizem que ele foi citado até na CPI de Brasília; eu não ouvi e nem sei de nada. E por que saberia? Não me diz respeito.

Enquanto tem colega que cuida da vida do outro, eu prefiro ler meus livros. Desta vez, uma antologia de contos com um time de ponta; Hoffmann, Daudet, Dickens, Cervantes, Anatole France, Andersen, Leônidas Andreief, Balzac, entre outros.

O Greco foi embora; que bom! Duro foi ver a tristeza do Sued, pois ambos eram bons e verdadeiros amigos. O Sued chorou.


26521SET06, quinta-feira.
“Comprou-me quatorze frascos de perfume. (...) mas o único perfume que eu desejo mesmo é o perfume da liberdade.” (Miranda)

(J. Fowles)

Não tenho nada de importante para registrar hoje! Que saco! Ah! Recebi uma carta da Shirley de Itapevi; divorciada, duas filhas e estudante de Letras. Não me impressionou.
26622SET06, sexta-feira.
“Miranda está num caixão que eu próprio fiz, enterrada debaixo das macieiras.”

(J. Fowles)


Realizei um sonho de infância que era tocar pratos numa banda musical, mas confesso que não me saí bem e por isso não vou tocar mais. Basta! Quando desci na subseção, os colegas logo notaram minha presença entre os músicos da banda e me aplaudiram; aí vi minha popularidade.

Procurei a Procuradora Elizabeth para que ela pudesse dar uma verificada no meu processo. Ela verificou na internet e me mostrou o andamento. Nada que valesse a pena ter visto; não anda.


26723SET06, sábado.
“Tal é a história dessa mulher, que vivendo no mundo, não pertence ao mundo; que, feita para ser magnificamente esposa e mãe, não tem marido nem filhos, nem família.” (Eugénie).

(Balzac)
Vitória! Vitória! Vitória! Em nome do Senhor! Eis a frase que ouço (todas as manhãs) desses fanáticos crentes da prisão quando terminam suas orações da manhã.

O César é mesmo um verdadeiro palhaço e nos faz rir com suas brincadeiras estúpidas e sem graça. Ele é espírita, digo umbandista e tira o maior sarro dos crentes. Isso nos faz rir.

Na tarde de hoje o colega Gonzaga fez um pão especial que era pra sua esposa comer amanhã, mas eu o comi sem saber. O cara ficou puto comigo. Depois nós nos desculpamos; eu por ter comido e ele por ter sido agressivo comigo.


26824SET06, domingo.
“A mulher é a mais perfeita entre as criaturas. Saída em último lugar das mãos que moldavam os mundos, ela deve expressar mais puramente que qualquer outro ser o pensamento divino.”

(Balzac)
Sonhei com minha mãe de novo e ela me pediu em sonho que eu parasse de beber. Nem dá pra beber aqui na prisão! Em seguida vi uma planta que germinava e crescia diante dos meus olhos como se isso representasse o meu renascer para uma nova vida após prisão. E de súbito, uma criança me beijava e abraçava sem parar enquanto outra me observava por um buraco de nossa antiga casa. Estranho!


26925SET06, segunda-feira.
“A pobreza atropela a honra e a uns leva à forca, a outros ao hospital e a outros ainda os faz bater nas portas de seus inimigos com pedidos e súplicas, o que é uma das maiores desgraças que pode acontecer a qualquer infeliz.”

(Cervantes)

A vida é luta renhida, não me cansa de repetir o companheiro Canella. De fato, não é fácil suportar o fardo do dia-dia. Esta manhã eu tive que dormir no alojamento nove como de costume porque os colegas não me permitiam dormir no meu alojamento em razão do barulho insuportável que fazem ao entrar e sair. E como se não bastasse isso, ainda tem o barulho infernal dos alunos que fazem o curso de soldados aqui na prisão.
27026SET06, terça – feira.
Acho que comi bolo demais ontem a noite e não me sinto bem do estômago hoje. Isso prova que tudo em excesso não nos faz bem, assim como já me cansa esta prisão longa, absurda e injusta.

O Gonzaga, nosso colega de padaria, é um preguiçoso e isso lhe rendeu o apelido de “Mão cansada”. O vagabundo não se interessa por nada e só quer saber de comer e beber à vontade.


27127SET06, quarta-feira.
Estou tão furioso com o Edinam que retirei o seu nome da Bíblia que me deram de presente. É impossível manter amizade com um camarada tão ordinário, tão mesquinho e porco como ele. Todas as noites ele insiste em poluir o ambiente com seus fétidos gases. Todos estão furiosos.

A boa noticia do dia é que o colega Douglas foi embora esta tarde. Eu me lembrei dos domingos que passávamos lá na subseção, tendo que aturá-lo assistindo Smallville.


27228SET06, quinta-feira.
“O corajoso não é aquele que não tem medo, mas aquele que enfrenta o medo.”

(...)
Terminei de ler a antologia de contos clássicos e imediatamente procurei o Guimarães para pegar outro livro. Dessa vez vou ler Denis Diderot, A Religiosa.

O assunto do dia foi a descida do Pereira de volta ao primeiro estágio porque dizem que ele é muito atrevido e indiscreto em relação às policiais femininas que trabalham na UIS (Unidade Integrada de Saúde). Este foi o motivo que o levou de volta pra cela.

Todos comentam que ele deveria tomar mais cuidado, haja vista sua situação delicada, pois ele está preso acusado de estupro e atentado violento ao pudor. Não confirmo o que acabo de dizer; é o que dizem dele. Já disse anteriormente que o B.O dos outros não me diz respeito, apenas me propus a relatar os fatos conforme chegam até mim, mesmo porque não serei eu quem vai julgá-lo.


27329SET06, sexta-feira.
“Crux sacra sit mihi lux non draco sit mihi dux

Vade retro Satana nunquam suade mihi vana

Sunt mala quae libas ipse venena bibas.”

(...)
Hoje houve mudança de pessoal nos alojamentos e eu deixei de habitar o cinco e fui pro dois, juntamente com o César e o Augusto “Guto”. Lá nós nos juntamos aos colegas Sachá, Medina, Canella, Ayres, Honório, Djalma e o Ferreira; formando um grupo de dez prisioneiros.

Desde o início percebi que não seria bem vindo no novo alojamento porque já haviam falado mal de mim aos outros colegas no que diz respeito ao meu ronco.

Ocupei um leito sobre o colega Honório que desaprovou a minha permanência sobre o mesmo por se dizer incomodado com o meu ronco. Vivi dias tensos por causa disso e fomos à penal para resolver esses inconvenientes. Riram de mim e do colega e nada mudou.


27430SET06, sábado.
“Pois é certo, Senhor, que em cada cem religiosas que morrem antes dos cinqüenta anos, há exatamente cem desgraçadas, sem contar as que acabam loucas, estúpidas ou furiosas, enquanto esperam.”

(Diderot)


O noticiário da TV nos informou que um avião da Empresa Aérea GOL caiu no estado do Mato Grosso e que, provavelmente, morreram em torno de 155 pessoas. Todos os dias passam inúmeras aeronaves sobre o Presídio Militar Romão Gomes, pois estamos exatamente na rota para o Aeroporto Internacional de Guarulhos e, por vezes, chego a temer que uma dessas possa cair sobre nós. Seria desgraça demais para quem já está preso.

É comum entre os presos a arte da pintura e do artesanato, por isso pedi ao Ayres “Japa” que me fizesse um mapa da frança. Quero levar pra casa uma recordação do colega e ao mesmo tempo lembrar-me que um dia haverei de cruzar o atlântico rumo à França, se Deus me permitir.

Como de costume escrevi várias cartas para que possam ser enviadas amanhã; dentre estas estão pro Dr. Rodolfo, Douglas, Michel, Ribeiro, Cidinha e Júnior.
27501OUT06, domingo.
“E o convento para mim é um cárcere mil vezes mais terrível do que os que encerram os malfeitores; é preciso que eu saia ou pereça.”

(Diderot)

Hoje é dia de eleição para escolher o novo presidente e eu não votarei de novo. Só espero que o Lula seja reeleito, muito embora nada tenha contra o Alckmim. Até acho que este tenha muito mais competência que o primeiro, só não é mais carismático.

Tive a honra de conhecer um pouco mais o interno Capitão Azevedo, Antônio José de Azevedo Lopes, que participou do massacre do Carandiru. Ele me disse que naquele dia a primeira intervenção foi a do GATE e que ele não matou ninguém, mesmo porque fazia parte da tropa que era contra a invasão e que não queria o confronto. É interessante ressaltar que o Capitão Azevedo é um homem de extrema inteligência, apesar dos problemas mentais que ele parece ter e que são visíveis. Ele não gosta de tomar banho e come demais, além do que fede mais do que gambá e poucos se atrevem a ficar ao seu lado. Valeu a pena suportar a fedentina em troca de um pouco da sua história e do seu conhecimento.


27602OUT06, segunda-feira.
“Só se está mal onde Deus não quer; e Deus não me quer aqui.”

(Diderot)


Vivi um dia tenso porque o Ferreira quis me provocar e me intimidar dizendo que iria me dar “porradas” se eu continuasse a roncar de modo a incomodá-lo e também aos outros. Não tive outra opção a não ser comunicar o comandante sobre tal ameaça, fato esse que me gerou mais dor de cabeça.

Passada esta tempestade, voltei a falar com o Capitão Azevedo que me deu uma aula sobre os males que causam o leite. A princípio achei uma idéia estapafúrdia, mas aos poucos me deixei levar por suas explicações, mesmo não acreditando que o leite possa nos ser prejudicial. É fato que o leite e seus derivados causam gases e, se consumidos em excesso, podem causar sim males à saúde.

Ainda tive, no dia de hoje, o desprazer de me desentender com o Cabo Ervin. Ele disse que vai me comunicar, entretanto espero que o Tenente Moreira possa me livrar dessa.
27703OUT06, terça-feira.
“Jesus Cristo instituiu frades e freiras? (...) Que necessidade tem o esposo de tantas virgens loucas?”

(Diderot)


Estou ansioso porque fui informado que meu Advogado irá falar com a Juíza de Maracaí e pedirá minha liberdade.

Dormi mal a noite passada porque fui acometido de intermináveis arrotos e senti uma enorme queimação. Acredito que comi bolo demais outra vez.


27804OUT06, quarta-feira.
“Fazer voto de obediência é renunciar à prerrogativa inalienável do homem; a liberdade.”

(Diderot)


Recebi uma carta na manhã de hoje de alguém que não conheço, mas fui alertado por um colega que isso é comum. São pessoas que querem fazer novas amizades e que procuram se corresponder com os internos. Trata-se de uma senhora de 40 anos, cabeleireira e não muito atraente. Li mas não responderei a carta da Senhora Ana Lúcia.

O colega César se esqueceu que estamos num outro alojamento e continua acordando antes de todos e fazendo barulho em excesso. Isso fez com que o Honório se indispusesse com ele. O César não gostou.

Estou tenso e aguardo com ansiedade o resultado da conversa entre meu Advogado e a Juíza. O que será que eles decidiram?

O Capitão Azevedo se foi. A liberdade chegou para ele. Muitos se alegraram com a saída dele, não por gostarem dele, mas por se livrarem dele.


27905OUT06
“Eis os efeitos do retiro. O homem nasceu para a sociedade; separai-o, isolai-o, suas idéias desunir-se-ão, seu caráter transfigurar-se-á, mil afeições ridículas elevar-se-ão em seu peito; idéias extravagantes germinar-lhe-ão no espírito, como os espinheiros em terra selvagem. Situai um homem numa floresta, ele tornar-se-á feroz; em um claustro, onde a idéia da necessidade junta-se à da servidão, é pior ainda; de uma floresta se pode sair, mas não de um claustro; é-se livre na floresta, é-se escravo no claustro. É preciso talvez mais vigor de alma para resistir à solidão do que à miséria; a miséria envilece, a clausura deprava. Valerá mais viver na abjeção do que na loucura? É o que não ousarei decidir, mas cumpre evitar a uma e a outra.”

(Diderot)


Comecei a ler Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray. A leitura tem sido minha fiel companheira de todas as horas, assim como foi pro “Zé” sua inesquecível amante que ele não cessa de encher os meus ouvidos com suas narrativas de amor e gratidão a ela. As mulheres e os livros são excelentes companhias, mas aqui só posso ter a segunda opção.

Quem lê sabe mais e não se deixa levar pelos argumentos dos outros. Quem sabe não teme. Quando temos argumentos não necessitamos de armas, pois acredito no poder das palavras e na força delas.

Na faculdade eu ouvi dizer que os livros se comunicam entre si e agora vejo que é verdade. Estou seguro que Oscar Wilde leu Manon Lescaut de Abade Prevost e também O Colecionador de John Fowles e muitos outros. Há em seu livro algumas citações das obras mencionadas.
28006OUT, sexta-feira.
“Tenho um caráter inclinado à indulgencia; posso tudo perdoar aos homens, exceto a injustiça, a ingratidão e a desumanidade.”

(Diderot)


A manhã foi tensa de novo porque o Honório voltou a reclamar que não dormiu bem por minha causa. Ocorre que o desgraçado soltou gases fétidos a noite inteira e isso me incomodou, porém eu nada disse. Se ele quer dormir bem, pois que vá dormir no inferno, já que ele não é um santo, hajam vista, as acusações que lhe pesam de ter cometido mais de cinquenta e três homicídios.

Todos são unânimes em afirmar que aqui na prisão não se deve reclamar de nada, pois ninguém daqui é responsável pela vinda do outro, isto é, ninguém chamou ninguém para morar aqui.

Boas notícias na tarde de hoje, pois os colegas Sued e Roque, o “Pedrinha” foram embora. E eu também tive uma boa notícia porque fui transferido junto com o César e o Canella para o alojamento nove. È o alojamento dos roncadores. Somos nós três e ninguém reclama de ninguém porque não se sabe quem ronca mais.


28107OUT06, sábado.
“Toda arte é completamente inútil.”

(Oscar Wilde)


Como é bom não ser incomodado por ninguém! Agora no alojamento nove não há reclamações e nem escala de faxina. Todos nós sabemos de nossas responsabilidades. Ficou estabelecido que ninguém dará ordens ao outro. A disciplina terá que ser consciente.

Escrevi na tarde de hoje uma carta ao Sr Desembargador Jair Martins, e nela eu peço que ele analise com cuidado a minha situação e julgue o meu “Habeas Corpus” com justiça, e assim me dê a liberdade. Irei enviar amanhã através das visitas.


28208OUT06, domingo.
“Só há no mundo uma coisa pior do que falarem de nós: é não falarem de nós.”

(O. Wilde)


Conversei por um longo tempo com Canella e ele me falava das condições das prisões comuns. Ele me disse que trabalhou em presídios e sabe muito bem que a nossa condição de preso militar é incomparável com o sistema. Lá é mil vezes pior do que aqui. O regime militar não deixa que os ânimos se alterem e, por isso, aqui não há brigas e nem mortes, o que é comum no sistema.

Disse-me ainda coisas inenarráveis e inconcebíveis que acontecem numa prisão comum. Há tráfico de influências, de drogas, muita promiscuidade, crimes, etc. As facções criminosas controlam o comércio e distribuição de drogas, cometem assassinatos dentro e fora da cadeia e quase sempre contam com o apoio das autoridades constituídas. A propina e a corrupção correm soltas numa prisão comum, sob o olhar desatento do poder público. Aliás, se não há crimes não há criminosos e nem razão para que se construam novos presídios. E todos sabem que o dinheiro público é desviado através das licitações fraudulentas que enriquecem esses homens do poder.


28309OUT06, segunda-feira.
“A loucura é privilégio dos sábios; ainda não sou digno dela.”

(Duda)
Um novo colega começou a trabalhar conosco na padaria esta manhã. O Richard está substituindo o Sued que ganhou a liberdade. O Gonzaga gostou do novo companheiro, mas eu e o “Tio Chico” o detestamos, pois o colega tem o mesmo habito do Gonzaga, isto é, não está nem aí para o trabalho.

Voltei a conversar com o Canella sobre nossas famílias e percebi que ele tem problemas demais com sua esposa que não gosta de vir visitá-lo. Tem um filho seu que não está nem aí com ele e lhe causa grandes preocupações porque tem se mostrado irresponsável e imaturo, bem o oposto de suas duas filhas.
28410OUT06, terça-feira.
“Um homem deve dar toda importância à escolha de seus amigos e inimigos. Escolho meus amigos por sua boa aparência, meus simples conhecidos por seu bom caráter e meus inimigos por sua boa inteligência.”

(O. Wilde)


Até parece que matei o Papa, pois está sendo penosa demais a minha vida aqui no cárcere. Não vejo motivo que justifique tanto tempo de prisão. Tenho visto colegas que cometeram crimes hediondos saírem em bem menos tempo.

Hoje obtive informações sobre o meu processo de nº 341.01.2006 001651, e soube que a Promotoria ofereceu denúncia em setembro de 2006. Isto significa que serei processado e julgado por crimes inventados e que me foram injustamente intrujados por aquele maldito delegado de Maracaí.


28511OUT06, quarta-feira.
“Um homem deve dar toda importância à escolha de seus inimigos. Eu não tenho um só que seja idiota. São todos homens de certo valor intelectual e, por conseguinte, todos me apreciam.”

(O. Wilde)


Eu ainda dormia quando o “Boneco” me trouxe uma carta de minha mulher. Nela havia uma cópia do exame médico que fiz em Assis, uma carta do Junior e um recibo de depósito do pai do Fernandes.

Amanhã haverá visitas em razão do feriado de Nossa Senhora Aparecida e aproveitarei para enviar minhas cartas.

Hoje o psicólogo me chamou para uma conversa e quis saber se eu estava me sentindo bem no segundo estágio, disse a ele que sim e nada mais.
28612OUT06, quinta-feira.
“O homem culto, bem inteirado de tudo, é o ideal moderno.”

(O. Wilde)


Pobre do Sachá! Ele teve seu quinto pedido de liberdade negado. O seu advogado lhe prometeu o que não podia fazer; é sempre assim. Todos os advogados têm o mesmo discurso só pra pegar o dinheiro do seu cliente, mas na hora de resolver os problemas, se mostram incompetentes

Na padaria, o “Tio Chico” fez umas deliciosas bolachinhas de erva-doce que não sobrou nenhuma. Maravilhosas!

Pedi que o Rovilson me comprasse alguns produtos de higiene pessoal; pasta e sabonetes. Ele é um colega do semi-aberto e por isso sai pro trabalho todos os dias e volta à noite. Às vezes peço a ele pra fazer alguns jogos pra mim; seria muito bom ganhar uns trocados na mega ou quina. Tudo isso é sempre às escondidas porque não podemos ter dinheiro aqui conosco; duvido que o comando não saiba que temos! Os presos não vão gostar de saber que o meu diário revela tais situações que lhes podem ser de grande utilidade, como foi pra mim e muitos outros da minha época. Todavia, o meu diário é real e verdadeiro, salvo a história do “Zé” que não será revelada por motivo de força maior e a pedido dele. Ele ama sua esposa, embora a tenha traído com sua “italianinha”.
28713OUT06, sexta-feira.
“Os que são fiéis conhecem unicamente o lado trivial do amor; o infiel é que conhece as tragédias do amor.”

(O. Wilde)


O César é mesmo incorrigível! Mal deitei, após uma noite de trabalho e ele vem com sua gritaria e algazarra costumeira. Ele é como a maioria dos miseráveis que aqui estão e que não respeitam o outro.

Levantei-me às treze horas e com fome. Fui até a cozinha ver algo pra comer e depois fui ler um pouco. O “Tio Chico” teve que ir para outra equipe da padaria em razão da saída de dois colegas por causa do dia das crianças.


28814OUT06, sábado.
“A sociedade, a sociedade civilizada pelo menos, nunca se acha disposta a acreditar em alguma coisa desabonadora em relação àqueles que são simultaneamente ricos e sedutores.”

(O. Wilde)


Novamente me vejo conversando com o Canella sobre o desenho que está na entrada do PMRG e sobre a possibilidade de outra leitura, ou seja, da maneira positiva de encarar aqueles dizeres. Não podemos analisar o que lemos de maneira negativista me disse ele, muito embora ele esteja respondendo por um homicídio e sabe que sua situação processual não lhe é nada favorável.

A nossa discussão versou sobre o desenho de um sapo que está sendo engolido por um grande pássaro enorme que dizem se chamar Jaburu. É o nome que foi dado pela maioria. O pobre sapo está numa situação desesperadora, todavia não menos está o pássaro que tem sua garganta estrangulada pelo batráquio. Gostei tanto do quadro que pedi ao Canella que me o fizesse. É um trabalho de equipe que começa com o Canella desenhando, o Biancão batendo linha e o Ayres o terminará para mim.


28915OUT06, domingo.
“Dorian Gray, porém, tinha sido envenenado por um livro.”

(O. Wilde)


No muito saber, o perder-se; já ouvi dizer. Estou certo de que entrei nesta enrascada por não aceitar que me comprem ou que pensem por mim. Eu não sou medíocre e tenho meus ideais e morrerei por eles. Estou determinado a odiar as polícias, os militares e similares pro resto da minha vida. E se um dia eu mudar de planos mate-me, pois estarei louco. Hei de preferir a morte à loucura.

Recordo-me que vivi dias horríveis quando fui demitido da PM em 1991. Eu tinha plano, um filho pequeno, uma casa em construção, sonhos que os malditos militares destruíram sem piedade. Diante de tais fatos, nunca pude imaginar que poderia me libertar do alcoolismo e dar a volta por cima, cursando uma das melhores faculdades do estado e me tornando o profissional que hoje sou. Tenho orgulho de minhas conquistas na mesma proporção que tenho ódio de quem tentou me destruir.


29016OUT06, segunda-feira.
“Quando procuramos sobressair, criamos sempre inimigos. Pra ser popular é necessário ser medíocre.”

(O. Wilde)


O Canella tem observado muito bem que o homem é um ser de fácil convívio e não se aperta nas situações mais inusitadas, como é o caso nosso. Somos obrigados a tolerar a estupidez alheia e manter o equilíbrio emocional a todo o momento.

Somos seres imperfeitos e sabemos que nós também incomodamos os outros sem ao menos percebermos. O simples fato de pensarmos e agirmos diferentemente dos outros, nos faz ser odiados por eles. O Canella tem razão.

Providenciei nesta manhã a documentação de visita da minha irmã para que ela possa vir me ver sempre que possível.
29117OUT06, terça-feira.
“Há uma purificação no castigo. A prece de um homem para um Deus de justiça não deveria ser: perdoai nossos pecados, mas, castigai-nos por nossas faltas.”

(O. Wilde)


Tive novamente um sonho estranho nesta ultima noite. Sonhei com uma japonesa que cuidava de duas criancinhas muito bonitas e simpáticas. A oriental trazia em suas mãos grãos de milho e dizia-me sorridente que iria semeá-los. Chovia e eu estava do lado de fora da antiga casa onde morei quando garoto, lá em Maracaí.

Será isso um presságio? Por que tenho tais sonhos? O que isso significa? O importante é que acordei de bom humor e não tive problemas estomacais nestes últimos dias.

Aprendi a fazer pães de coco com o Gonzaga e o Richard.
29218OUT06, quarta-feira.
“Em suma, que era a juventude? Um período de viço e imaturidade, cheio de impulsos superficiais e de pensamentos doentios.”

(O. Wilde)

Reconheço que mereço o castigo imposto a mim, não por estes crimes que me dizem ter cometido, mas por muitos outros acontecimentos que deveria ter sido repreendido e não fui. Estou certo de que me fizeram falta algumas palmadas quando eu era criança.

O lado bom do cárcere são estes momentos de reflexão e auto-análise. Este momento único e precioso em que fazemos o “mea culpa”. Sei que fui mau e que mereço o que estou passando.

As humilhações aqui são tantas que eu já perdi a conta de quantas vezes fui execrado publicamente, às vezes só e outras vezes em grupo. Hoje mesmo fomos obrigados a cantar o Hino do Romão Gomes inteirinho e como eu não sabia, gesticulei como se o cantasse. Ocorre que a maioria não sabia também.

O Canuto foi embora hoje. Ele era integrante da Banda e tocava muito bem trombone de vara; ele fará muita falta.


29319OUT06, quinta-feira.
“A miséria os amigos afasta.”

(Shakespeare)


Tenho me servido da gentileza do Rovilson para dar os meus recados para minha irmã Marcilia e minha família. Ele tem se mostrado sempre pronto a me servir.

Hoje o “Pai José” foi embora após três anos reclusos aqui nesta casa penal; seu nome verdadeiro é Otacílio.

No final da tarde o Rovilson me comunicou que a minha irmã virá me ver, se não chover, no próximo domingo.

De novo, eu tive que emprestar meus ouvidos ao Canella que não se cansa de queixar de sua família, esposa e filho, e, principalmente de sua irmã que o denunciou caluniosamente culpando-o pelo assassinato de seu padrasto. Dizem que o Canella disparou mais de dez tiros contra o seu padrasto; ele não admite isso, mas confessou-me que o homem não queria cair de jeito nenhum, pois era forte como um touro.


29420OUT06, sexta-feira.
“Quando os pais só vestem trapos, os filhos nem querem vê-los; quando são ricos e guapos, são para eles só desvelos.”

(Shakespeare)


De manhã, no banheiro fui alertado que o Major Spinieli detesta ouvir os batidos do barbeador na pia e que por isso eu devia não batê-lo mais porque seu quarto é debaixo do banheiro nosso. E se ele acordar com o barulho, ele vai querer saber quem é para poder punir. Melhor é ficar esperto.

Fomos comunicados, eu, o Canella e o César que devemos nos mudar para o alojamento quatro. É minha sexta mudança nesta prisão; do X-5 ao X-6, depois do alojamento 5 para o 2, pro 9 e agora pro 4. É uma turnê pelas Ruas 10 da subseção e do segundo estágio.

À tarde, no trabalho, eu percebi que nossa equipe estava dividida; O Gonzaga e o Richard de um lado e eu e o “Tio Chico” do outro. O clima não estava bom porque os dois preguiçosos não queriam nada com o trabalho e sobrava tudo para mim e o “Tio Chico”.
29521OUT06, sábado.
“Dois guardarão segredo quando um nada souber de todo o enredo.”

(Shakespeare)


Fez me rir o colega Canella quando me disse que ele carrega em suas costas as quatro mais belas letras do alfabeto; PMRG. Eu diria o contrário.

Espero que a Marcília venha amanhã para que possa levar meus quadros embora e também alguns livros que ganhei. Não é bom ter muitas coisas aqui porque isso só nos traz aborrecimentos por ocasião dos arrebentos e das constantes mudanças de alojamento. Vive melhor quem tem poucos pertences. Por que ter tantas roupas aqui? Não vejo necessidade! Todavia, há sempre aqueles materialistas que não conseguem se livrar dos seus objetos inúteis que lhes causam enormes dores de cabeça constantemente. O César é um desses que tem coisas pra mais e que necessita de muitos armários para guardar suas tranqueiras. Ocorre que nos é oferecido apenas dois pequenos compartimentos de um armário com quatro portas. Pra mim, é o suficiente.

São quatro quadros que darei pra minha irmã levar: o mapa da França, a bandeira da França, o pássaro engolindo o sapo e as borboletas que o Mello pintou.
29622OUT06, domingo.
“Para quem está fora do sofrimento é fácil aconselhar e incitar o sofredor.”

(Ésquilo)


Próximo ao PMRG há uma igreja que jamais vou me esquecer dela, muito embora eu nunca tenha ido lá. É que todas as manhãs, desde que estou no segundo estágio, eu ouço o triste badalar das horas que me são roubadas aqui neste cárcere. Comentei isso com o Canella e ele disse o mesmo.

Minha irmã veio e levou o que estava pra mais. Isso fez sobrar espaço no meu armário.


29723OUT06, segunda-feira.
“A infelicidade nunca pára quieta um só instante e ameaça ora uma cabeça, ora outra.”

(Ésquilo)


O que seria de mim se não fossem meus fiéis e inseparáveis amigos livros? Eles são meus melhores amigos e conselheiros aqui na prisão, a começar pela Bíblia sagrada que tenho lido muito. Já li vários livros bíblicos.

Ontem eu não me senti bem no trabalho e por volta da meia-noite eu retornei ao alojamento, fato esse que incomodou sobremaneira os colegas que quiseram saber o motivo da minha volta. Malditos! Por que é que não cuidam da vida deles? Não lhes disse.

É bem próprio dos militares esse comportamento, pois são invejosos, pequenos, bizarros, maus, merdas, etc. Eles estão sempre “urubuzando” o outro. São carniceiros e gostam de ver a desgraça alheia.

Recebi a triste notícia que meu “habeas corpus” foi negado dia 19OUT06. Isso quer dizer que passarei mais um bom tempo aqui. Pra felicidade desses imbecis que tanto se alegram com a desgraça alheia.


29824OUT06, terça-feira.
“Temos tudo a ganhar quando somos sábios e fingimos ingenuidade.”

(Ésquilo)


Outro colega chegou para compor o alojamento quatro; é o Costa, de Guarulhos. Emprestei a ele algumas coisas porque ele não tinha nada. Aqui no segundo estágio os internos são menos solidários que no primeiro; é estranho isso porque todos viveram no primeiro estágio e sabem como é bom ser bem recebido na triste e dolorosa chegada.

O “Tio Chico” se cansou dos colegas Gonzaga e Richard. Soube que ele não irá mais fazer parte da nossa equipe e que o Alves poderá vir em seu lugar esta noite mesmo. Fiquei chateado com a notícia. Eu estava acostumado com ele; eu não gosto da maneira de trabalhar do Gonzaga. Ele é preguiçoso.


29925OUT06, quarta-feira.
“Se estar doente é odiar os inimigos, então sim, eu estou doente.”

(Ésquilo)


A leitura de Prometeu Acorrentado tem me servido para refletir melhor sobre a dialética da vida; sobre o bem e o mal. Por que há pessoas que sofrem tanto sem merecer?

Há outras que são mesquinhas e imbecis e que se dão bem na vida. Não dá pra entender! Aqui está cheio deste triste exemplo de imbecilidade privilegiada. Ou seja, há malditos aqui que nem deveriam estar vivos em razão dos crimes que cometeram e mesmo assim parecem ser amados pelos seus familiares que fazem de tudo para os vermes.

Aqui tem de tudo; até preso metido à vidente! O “bruxo” Vidotti me disse que eu terei boas novas em breve; não acredito neste charlatão, pois acabei de ter más notícias.

O César fez uma parte solicitando um televisor para o alojamento. Isso não agradou nem a mim e nem ao Canella. E também eu soube que o Levorato fez uma parte pedindo para se mudar para o alojamento quatro, conosco.


30026OUT06, quinta-feira.
“Não há nada que o tempo não ensine em seu decurso.”

(Ésquilo)


Meu Deus! Que merda de dia! Perdoe-me, mas a companhia do Gonzaga e do Richard na padaria me estressou.
30127OUT06, sexta-feira.
“Mais vale morrer uma vez do que sofrer miseravelmente todos os dias de sua vida.”

(Ésquilo)


Entre muitas histórias que ouvi aqui na prisão, tem essa do Gonzaga que me disse ter sido responsável pela morte do bandido “Aranha”. Quem terá sido este? O Alves afirmou ter conhecido o falecido; eu nunca ouvi falar. Os verdadeiros assassinos se denunciam. Mas deverei acreditar nessas histórias mal contadas? Um assassino confesso? Ou mais um idiota que quer se aparecer? Não conheci o “Aranha”, mas acabo de conhecer o homem que o matou; que disse tê-lo matado e que eu acabo de denunciar. Ah!Ah! Ah!

O Gonzaga falou deste crime como se ele tivesse varrido o mundo, como se tivesse feito um grande bem para a humanidade. Um ladrão a menos, disse ele.


30228OUT06, sábado.
Dormi quase o dia inteiro e nem almocei. Ao sair do refeitório, após o jantar, recebi uma carta do Michel.

Ontem o Canella me disse que o dinheiro utilizado na compra de uma arma é o pior investimento que um homem pode fazer. Pois, se você não utiliza a arma, qual é sua utilidade? Perdeu dinheiro porque comprou algo para não ser usado. Se , ao contrário, você a utiliza, terá certamente muitos problemas a enfrentar com a Justiça e perderá ainda mais dinheiro para se livrar dos processos e da prisão. Ou seja, além do dinheiro, poderá perder também a liberdade como é o caso dele. Não havia pensado nisso!


30329OUT06, domingo.

Não votarei de novo. Espero que o Lula vença e seja o Presidente por mais quatro anos. Gosto dele!

Esta manhã, um garotinho entrou no alojamento procurando seu pai e foi direto na “jéga” dele para abraçá-lo e dizer que já havia chegado para visitá-lo. Qual não foi a sua surpresa ao ver que não era seu pai quem estava ali. É que houve uma mudança e ele já acostumara encontrar seu pai sempre ali, mas ele tinha se mudado para o alojamento dois e o César ocupava aquela “jéga”.

Senti pena do garoto, apesar de ter sido uma cena engraçada, bonita, e ao mesmo tempo dramática porque o garotinho ficou sem ação e perguntou angustiado: “cadê meu pai?” Informamos a ele onde seu pai estava; era o filho do “Papai Noel”, o José Benedito. Aquele bom velhinho que distribuiu “balinhas de chumbo” no semáforo, no rosto de uma infeliz! Pobre coitada! Ainda bem que ela não morreu!

Que saudades da minha casa e do meu tempo de Faculdade! É só ouvir Belchior que me bate esses sentimentos e me dá uma louca vontade de sair daqui o mais rápido possível.
30430OUT06. segunda-feira.
As brincadeiras do César começam a ficar sem graça e agora ele implicou comigo porque acha que eu devo enviar minhas cartas pela seção penal. Tenho medo que ele possa me delatar, por isso vou mudar constantemente de pessoas. Não mais enviarei pela mesma pessoa todos os domingos; mudarei.

O vidro do forno da padaria quebrou e foi preciso jogar fora mais de 800 pães. O Guedes sempre dizia que o modo de trabalhar do Ygor daria nisso. Ele ligava o forno a 300 graus ou mais, sem necessidade. Isso contribuiu para que o vidro do forno quebrasse.

Da Costa, o bombeiro, foi embora e nos deixou seu endereço e telefone.

Dei aulas ao “Bispo” esta manhã; de francês.


30531OUT06, terça-feira.
Acredito estar breve a minha saída!

Falei com o Tenente Fabião hoje e vi que ele é diferente dos oficiais da PM. Ele é simples e camarada; é dentista e psicanalista e trata os internos com muita educação e respeito. É gostoso conversar com ele, a gente ri pra caramba.

Não é comum um oficial PM falar com internos, a menos que seja para punir-nos por alguma coisa que tenhamos feito de errado. Os oficiais da PM se sentem deuses e imortais. Eles sentem imenso prazer em nos submeter a constantes humilhações. Qualquer coisinha é motivo para nos torturarem psicologicamente. Vermes! E depois não sabem por que morrem.
30601NOV06, quarta-feira.
Novo sonho que me fez sentir que a minha liberdade não tardará a vir. Espero ansioso e de braços abertos por ela.

30702NOV06, quinta-feira.


Dia de Finados! O primeiro sem minha mãe!

Comi muita feijoada ontem e hoje me sinto mal do estômago. É comum termos feijoada nas quartas e é impossível não comer pra mais. O Nicéias é um excelente cozinheiro. Falando assim, nem dá pra acreditar que estou numa prisão, mas é verdade que a comida daqui é de primeira. Jamais deixarei de dizer isso; seria ingratidão da minha parte. Entretanto eu preferiria comer só farinha, mas em liberdade.

Os meus sonhos trazem até mim as pessoas queridas que estão distantes e até mesmo aqueles que não mais existem. Sonhei com o Jordão, a Jozimeire e o Leandro. O primeiro já falecido; foi como um pai pra mim. Se eu tivesse ouvido seus conselhos!

Lembrei-me de todos os mortos que foram meus amigos durante suas existências; minha mãe, Jordão, Chiquinho “guéla seca”, Maria, D. Amélia, Gabriel, “Déca”, tia Pedra, Tia Alvelina, etc.


30803NOV06, sexta-feira.
“Só serei livre quando eu souber amar.”

(...)
Li o livro de Jó; seus 42 capítulos. Aprendi que temer a Deus é sinal de sabedoria e distanciar-se do mal é sinal de inteligência.

Confesso que nunca vi tanto falar em Deus aqui na prisão, até parece que Deus é muito mais solicitado aqui do que em muitos outros lugares. Nem no seminário eu vi tantos colegas tão sedentos de Deus!

Cuidar da vida do outro aqui é rotineiro, e dessa vez eu ouvi o César comentando o crime do Araújo e duvidando da sua fé e da sua conversão. O César não combina bem com os irmãos da fé por ser umbandista e critica a maneira deles se procederem no dia-a-dia. Ele não consegue admitir que um homem que matou a própria esposa (ou amante), tenha se convertido. Eu não entro nesse mérito.

Aliás, o “bruxo”, o senhor Vidotti disse, ao passar pelo Canella na manhã de hoje a seguinte frase: “Homem de pouca fé.” De imediato eu perguntei a ele por que havia dito essas palavras dirigidas ao Canella, mas ele desconversou, apesar de ter confirmado tê-las dito. Contei ao Canella o fato e ele me disse que acredita nas previsões do “bruxo” e que ele lhe havia pedido para que ele lesse o salmo 23.
30904NOV06, sábado.
Pago pelos meus pecados no cárcere e acredito que ninguém deixa este mundo com dívidas para saldar. O inferno é aqui mesmo na terra e o meu corpo faz prisioneiro o meu espírito que não é deste mundo, assim como Jesus Cristo já dissera também não pertencer a este mundo.

Diverti-me bastante com a chegada do novo colega, o “Guerra”, que se apresentou a mim por eu ser o mais antigo do alojamento. Essas brincadeiras sempre ocorrem e nos divertem muito, pois os recém chegados estão sempre ansiosos e tensos quando chegam. Isso serve para quebrar o gelo. Rimos muito, eu, o Canella e o Levorato que se juntou a nós.

Decidi que vou comer menos a partir de hoje porque sinto que estou engordando muito. Vou fechar a boca ou então me tornarei um Rocha.
31005NOV06, domingo.
Os domingos continuam sendo os piores dias pra mim na prisão. O que me consola é a presença do “Zé” com sua história de amor e a maneira doce e apaixonada que ele fala da sua amada clandestina; ele não recebe visitas, tenho notado. Também não sabia que ela está doente, há poucos dias ele me contou e chorou. Meu Deus! Que amor!

Ele me disse que ela era agricultora, viúva de um rico italiano que faleceu quando ela tinha pouco mais de 40 anos e que a deixou com um casal de filhos e uma sogra doente para ela cuidar. Ela sepultou a sogra, formou seus filhos; um advogado e uma psicóloga. Ele, Max; ela Lívia.

Prometi a ele que contaria sua história de amor no meu diário porque eu me emocionei com suas narrativas e com isso eu me lembrei dos meus amores. Passo a passo vamos terminá-la, caro leitor. É bem verdade que ela não era italiana, mas ele sempre a chamava de “minha italianinha” por causa do sobrenome que ela herdou do marido. Não vou mencionar a pedido dele e nem direi a cidade de onde ela é em respeito a ambos.
31106NOV06, segunda-feira.
O Sachá me disse que eu fui “condenado” a um ano de prisão sob Medida de Segurança. Deve ter sido minha irmã que comentou com a irmã dele. Eu não sabia de nada.

Na padaria eu tive que me virar sozinho porque o Richard é um preguiçoso e o Gonzaga teve que ir pro Hospital, pois sentia fortes dores nos rins. O Alves ainda é novato e pouco sabe; sobrou pra mim.


31207NOV06, terça-feira.
O “Bidu” se foi. Ganhou a liberdade! E toda vez que alguém vai embora, dá uma angústia danada em quem fica aqui, tamanha é a vontade de estar no lugar de quem parte.

O João compõe nossa equipe da padaria e o Generaldo gosta de estar sempre conosco, apesar de ser da outra equipe. Ele já esteve preso no sistema e tem um irmão Juiz de Direito que sempre vem visitá-lo.

O “ET” foi embora; o João José Jorge da Silva que morou comigo no X-5. Que bom!
31308NOV06, quarta-feira.
Esta quarta-feira foi vazia de novidades e nada tenho para lançar no meu diário. A semana que eu trabalho à noite é cansativa e durmo quase o dia inteiro, isso me impede de colher informações para o diário.

Voltemos à história do “Zé”... Ele me contou em detalhes o seu romance, desde como a conheceu até o último dia; três de dezembro de 2005. Poucos dias depois ele estaria sendo preso e ela não mais saberia dele; ou saberia?

Ele me contou que foi vê-la e que saiu da casa dela aos prantos logo após ela ter-lhe pedido que não mais voltasse porque ela não poderia mais ser dele em razão da doença que a consumia; ela tinha câncer. Também sua filha Lívia pediu-lhe que obedecesse ao pedido de sua mãe. Foi triste! Emociono-me e choro como se eu tivesse vivido este lindo romance. Diz-me, caro leitor, deveria ou não contar esta linda história? E não acaba por aí; aguarde.
31409NOV06, quinta-feira.
Impossível dormir com o barulho que fazem o Canella, o Mello, o Levorato e outros. Então levantei e fui andar na quadra e ouvir mais sobre a linda história do colega “Zé”.

Foi num baile que ele conheceu sua amada, num dia 11 de Agosto de 2004. Portanto o romance não durou nem um ano e meio; quase um ano e quatro meses.

Após o meio-dia foi mais fácil pra dormir porque os colegas foram para o trabalho deles e o ambiente ficou suportável.

O nosso alojamento parece um ateliê de pintura com todos esses apetrechos do colega Canella. Pinta bem o homicida!


31510NOV06, sexta-feira.
O Jornal Nacional de ontem mostrou o colega Honório, o “Diou”, no Fórum de Guarulhos. Ele foi acusado de um triplo homicídio no Jardim Tranquilidade em Guarulhos. Que ironia! Ele quebrou a tranquilidade do lugar.

Segundo as más línguas, o colega comandou um grupo de extermínio que “subiu” mais de 52 pessoas desde 1997 até 2002; subir é sinônimo de matar. Dormi sobre a “jéga” dele no alojamento dois e tivemos algumas altercações em virtude do meu ronco; mal sabe ele que os seus malditos e fétidos gases me incomodavam sobremaneira. Ele é um branquinho raquítico e doente. Está obrigado a tomar insulina pro resto da vida; todos os dias.

Conheço muito bem a mente dos policiais que, militares ou não, se julgam deuses e por isso se acham no direito de matar indiscriminadamente. No que diz respeito ao “Diou”, ele não parece ser como a maioria dos que aqui estão, pois ele não comenta seus crimes, mantém-se calado, nega sempre, não é de se intrometer na vida do outro, goza de certo prestígio com o comando e é temido pela grande maioria; isso não me inclui. Apesar de nossos desentendimentos quando dormi sobre sua jéga, não somos inimigos e eu até tenho simpatia por ele. É claro que condeno sua frieza e maldade, se de fato ele for este terrível exterminador. Não concebo a hipótese de matar alguém, exceto se for legal e em legítima defesa. Há situações que até o código penal prevê que não é crime matar alguém; são as excludentes de antijuridicidade.
31611NOV06, sábado.
Ontem à noite, após o término dos pães, fui jogar o lixo por duas vezes e quando voltava parei para ver a rua, como de costume; era por volta da meia-noite ou pouco menos. De repente passou por mim uma policial feminina e me disse boa noite, parando por alguns segundos e dizendo algo mais sobre a linda noite que eu apreciava. Não podia imaginar que isso fosse me trazer problemas, mas trouxe.

Voltei à padaria e em seguida fui ao templo da Umbanda para continuar respirando o meu ar puro sem, contudo, imaginar que a minha cabeça estava a prêmio. Fiquei poucos minutos apreciando a mata ao lado da padaria e voltei. Só então eu soube que o Cabo César me procurava e perguntava aos meus colegas o meu paradeiro; eu estava a menos de dez metros deles, do outro lado do muro.

O Cabo César ficou furioso e me perguntou o que estava acontecendo e que eu não podia ficar andando à vontade por aí. Logo em seguida ele voltou e pediu que eu fosse pro alojamento, sem me dar maiores explicações. Cumpri a ordem.

Hoje eu fiquei sabendo que ele disse que ele vai me “comunicar”, mesmo não me tendo dito. Acredito que ele viu coisas que não existiam. Talvez tenha ficado enciumado de me ver falando com a policial ou então quer demonstrar autoridade pra cima de mim; coitado!

As pressões psicológicas aqui são mais ou menos assim, pois o que eles querem é tirar nossa paz de espírito e causar-nos dores de cabeça constantes. Eles sabem que algumas canetadas podem atrapalhar nossas vidas aqui dentro e até nos mandar de volta para o primeiro estágio. Basta um comandante não gostar de você para lhe jogar no mau comportamento e regredi-lo de estágio.

Os militares não têm sensibilidade e nem respeito com os outros. É difícil não generalizar, pois ainda não encontrei um só militar aqui e fora daqui que mereça o meu respeito e consideração. Digo-lhe, caro leitor, quando o encontrar.

O assunto do dia foi o interno Davi e o Cabo César. Muitos me aterrorizaram dizendo que eu não mais trabalharia na padaria e que corria o risco de ser mandado de volta para o primeiro estágio. Muitos riram de mim por causa de tudo isso. Sofri um bocado com as brincadeiras e provocações.
31712NOV06, domingo.
O tédio tem sido meu companheiro aos domingos, isso quando estou indisposto para a leitura. Tem dia que a gente não quer saber de nada.

Todavia, a hipocrisia, a falsidade e a mentira desfilam pelo pátio, pela quadra, pelas alamedas do presídio sem restrição. São homens vis e malfeitores que se transformam em bons pais, maridos, e excelentes filhos.

Esses abomináveis militares que nunca tinham tempo pros seus filhos e esposas, agora se dizem homens convertidos. Abraçam suas esposas como nunca antes, beijam seus filhos como jamais, abraçam seus pais e irmãos como se fosse uma família perfeita. Poupe-me!

Aqueles miseráveis que nunca chegavam na hora certa pro almoço em família, agora se apressam em saber o que a família lhes preparou para o almoço dominical na prisão. E tem ainda o fato de estarem desde ontem limpando e perfumando o chão onde receberão seus familiares. E ai daqueles que macularem este solo sagrado.

Todo sábado há brigas e discussões entre os internos por causa de cadeiras e mesas Todos querem as melhores. E os melhores lugares sob as lonas ou na cobertura são sempre disputadíssimos, muito embora o mais antigo de prisão tenha precedência.

O Sachá tem se mostrado bom amigo e todos os domingos ele me traz refrigerante e bolo e é a ele que dou sempre algumas cartas para que sua mãe e irmã possam me levar aos correios.

O Josemir está me fazendo alguns quadros que vou enviar para casa. É bonito o trabalho.
31813NOV06, segunda-feira.
Quase toda segunda-feira é assim, sinto terríveis dores no estômago por comer demais no domingo. São tantas coisas gostosas e diferentes que eu não resisto e cometo o pecado da gula. Depois vem o sofrimento.

Paguei o Japa e o Josemir pelos trabalhos que me fizeram; vinte reais.

O Benedetti me encheu o saco dizendo que minha família quer vir me visitar e que eu não deixo. Disse-me que não tenho o direito de proibi-los e que esta minha atitude fere os sentimentos do meu filho e esposa. Não gostei, mas entendi seu parecer.
31914NOV06, terça-feira.
Estamos aqui para a reparação de nossos pecados, disse o Canella. Nada acontece por acaso e Deus sempre sabe o que é melhor para nós. Acredito, mas acho que Deus deveria ter me consultado antes de permitir que eu viesse parar aqui, retruquei.

Não devia ter retrucado, pois levei um sabão do Canella que disse que a culpa era só minha por eu estar aqui e que esta não era a vontade de Deus. Eu procurei a minha desgraça. Ninguém que aqui está estava na igreja no momento de sua prisão orando a Deus. A grande maioria estava cometendo pecado, cada um à sua maneira. Se você estivesse com sua família ao invés de discutir com o investigador, talvez tivesse evitado tudo o que lhe aconteceu, me disse o colega. E ainda, “não culpe Deus, antes o agradeça por não ter acontecido o pior.”

É importante ressaltar que quando o Canella faz suas orações, o César ri dele e o diz louco e que a alma de seu padrasto, assassinado por ele, lhe atormenta. O César é mesmo incorrigível! Eu rio.

Muitos se foram embora hoje: o Guimarães, Vidotti “o bruxo”, o Basselli e o Vacari. Já o Bustamante foi condenado a quinze meses no semi-aberto, mesmo tendo cumprido mais de dez meses no regime fechado. Que merda de Justiça essa nossa!


32015NOV06, quarta-feira.
Por ser feriado da Proclamação da República, hoje é dia de visitas; não para mim, não as tenho e nem quero. Se eu precisar de algo, aí então peço pra minha irmã vir.

O colega Quirino se encarregou de levar minhas cartas hoje; são cinco ou seis. É preciso mudar de vez em quando, temo ser dedurado pelos colegas.

Está próximo o Natal e eu temo ter que passar outro Dia de Natal aqui na prisão. Tudo indica que passarei.

Mesmo com um pouco de preguiça eu terminei a leitura do livro de André Gide, “Les Caves Du Vatican.”

32116NOV06, quinta-feira.
“É cômodo desdenhar aquilo que não se é capaz de fazer.”

(André Gide)


Enceramos o alojamento, eu, o Levorato e o César. Um dos dois acabou manchando de propósito os materiais de pintura do Canella. Qual será? Não fui eu. O Canella ficou furioso e eu também não gostei do que fizeram. Tenho minhas desconfianças que possa ter sido o César.
32217NOV06, sexta-feira.
A vida tem me oferecido um cálice amargo desde a minha infância, disse ao Canella. E ele foi fundo nas suas viagens e me disse coisas belas como sempre.

Para ouvir as estrelas é preciso amar. Somente quem ama é capaz de ouvir e compreender as estrelas. O homem que não tem sensibilidade não compreenderá o que digo e me dirá louco, disse-me ele. Ouvir e entender as estrelas são exclusividades de quem ama. Aprenda a amar Davi. E finalizou.

Meu Deus! Um homicida me dizendo tais coisas! Quem será mais louco? Eu ou ele?
32318NOV06, sábado.
Aqui em São Paulo o tempo é instável e isso me faz ficar resfriado com muita facilidade. Se junta a isso o trabalho na padaria que é um ambiente de alta temperatura e, às vezes, é preciso sair para ir até a cozinha buscar as caixas de pães e outros ingredientes que ficam guardados na câmara fria. Tenho me sentido mal da garganta, com febre e dores nas costas. Acredito que tudo isso tem a ver com as constantes intempéries às quais me submeto.

Comecei hoje por curiosidade a estudar a História da Bíblia Sagrada e descobri que ela deve ter sida escrita por volta de 2250 anos antes de Cristo. E que foi escrita em diversos lugares e países deferentes. Que a maior parte do antigo testamento e do novo testamento foi escrito na Palestina, Babilônia e Egito. E que outras partes do novo testamento foram escritas na Síria, Ásia Menor, Grécia e Itália. Foi escrita em três línguas diferentes; Hebraico, Aramaico, e Grego.

Fato curioso é que temos a bíblia protestante e a católica. A bíblia católica tem sete livros a mais e que são considerados apócrifos. São os seguintes livros: Baruc, Eclesiástico, Judite, Macabeus, Sabedoria e Tobias. São setenta e três livros que compõem a escritura sagrada.

Na tarde de hoje o Canella me contou uma história muito triste para justificar que o nosso sofrimento nada significa diante de tantos outros que existem por ai.

Contou-me o Canella, que certo dia um senhor lhe pediu socorro. Segundo ele, o senhor Carlos, professor de física, quarenta e cinco anos, cadeirante, rico, queria se deitar, mas não tinha forças para se movimentar de sua cadeira de rodas até o leito. O Canella o ajudou e com muita dificuldade o colocou na cama, antes porém, caíram pelo chão porque o senhor Carlos era pesado demais. Num outro dia este senhor voltou a pedir socorro pro Canella, só que agora era para fazer o inverso, ou seja, tirá-lo da cama e colocá-lo na cadeira. Isso foi feito e ele foi conduzido até o seu escritório de onde passava instruções por telefone e através do computador para os seus colegas de trabalho.

Pensei que a história terminasse aí, mas o Canella contou-me outra de um jovem drogado que estava nu dentro de um rio numa noite fria de inverno. Este jovem era filho deste senhor Carlos.

O senhor Carlos era professor da Unicamp e tinha à sua disposição um motorista que o levava de sua casa até a faculdade, mas agora ele já não ia mais.

O Canella me disse que analisando a situação, agora percebe que seus problemas não são nada diante do drama do senhor Carlos. Mesmo com as limitações dele, o senhor Carlos não reclamava de nada. Quando a gente pensa que nossos problemas são grandes, há outros maiores ainda. E concluiu: Meus problemas não são nada.


32419NOV06, domingo.
O Rovilson deixará de fazer as faxinas do banheiro para mim, o Josemir o substituirá.

O Canella tem me confidenciado suas particularidades. Ele me disse que sua mulher não quer ajudá-lo e que também não se importa com a mãe dele que é viúva e doente. Percebi que o Canella está triste e chateado, pois sua mulher, as filhas e o filho parecem não se importar com ele, exceto uma de suas filhas que ele demonstra gostar muito. Além disso, ele vive a reclamar que sua irmã Lenita o acusa insistentemente e que em seu depoimento à justiça, ela o detona.

32520NOV06, segunda-feira.
Um dia sem muitas novidades, dormi quase o dia inteiro porque à noite tive que trabalhar na padaria.
32621NOV06, terça-feira.
Sinto que minha garganta piora ao invés de melhorar. Estar preso já é um problemão e quando se está doente a situação se complica ainda mais. A assistência médica aqui é ruim. No papel tudo funciona maravilhosamente, mas na prática não temos o atendimento que deveríamos ter.

O Bianchi costurou a minha calça e eu lhe prometi fazer alguns pães de cebola e alho para ele em troca deste favor.

Recebi hoje às 11h30 a visita de um advogado da Associação de Cabos e Soldados da PM, o Dr. Valmir Galindo que me deu informações sobre o meu processo. Ele me deu cópias da sentença que me foi aplicada pela juíza Mônica do Fórum de Maracaí. Ela condenou-me a um ano de prisão sob Medida de Segurança.
32722NOV06, quarta-feira.
A dor de garganta evoluiu para uma tosse insuportável. Dormi mal o dia inteiro e vou-me sentir cansado para o trabalho à noite.

Mesmo cansado, fiz os pães do Bianchi e levei outros que comi com o Canella.


32823NOV06, quinta-feira.
Comecei na tarde de hoje a ler um livro do escritor Luís Waldvogel, Sabiá na Gaiola, e nele encontrei a seguinte frase: “Você não é o que você pensa que é; mas o que você pensa você é.” Intrigou-me sobre maneira estes dizeres e comecei a filosofar. Eu não sou um prisioneiro, estou prisioneiro e sei que um dia tudo isso terá fim. Sei que a derrota torna-se vitória se me levanto imediatamente após a queda.

O Gonzaga ganhou a liberdade na tarde de hoje e com isso eu passei a ser o mais antigo da padaria. Isso quer dizer que assumirei o “comando” e arcarei com as responsabilidades da nova função. Já tive problemas na primeira noite no comando, pois o João não quis lavar a frigideira que ele sujou. Esses malditos militares são treinados para obedecer, mas não gostam de receber ordens.


32924NOV06, sexta-feira.
Assinei minha sentença no dia de hoje. De fato, é um ano que deverei cumprir no dia 31 de Dezembro, ou seja, devo estar em liberdade no início do próximo ano; espero.

O Canella se comoveu com a triste história do jovem oficial Alessandro, “Cavalinho”, e contou-me que ele entrou na Academia Militar bem jovem ainda e que aos vinte e três anos cometeu um crime que lhe rendeu noventa e seis anos de prisão. Isso quer dizer que ele deverá passar um terço desta pena recluso aqui no PMRG. Portanto ele deverá sair daqui com quarenta anos ou mais se sua pena não for reduzida. Ele já está aqui há sete anos, ou seja, já está com trinta anos.

É importante dizer que se trata de um jovem oficial de extrema inteligência e que é maestro da Banda do presídio. Ele toca vários instrumentos e junto com o Payão comandam os ensaios e apresentações da banda aqui no presídio e fora dele. É ele também que ensaia o conjunto musical Little Band, onde é violonista e saxofonista.
33025NOV06, sábado.
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.”

(Machado de Assis)

Começo hoje a ler pela terceira vez o livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do imortal Machado de Assis. Uma excelente obra literária é como um fino prato, a gente nunca enjoa.

Eu e o Canella enceramos o alojamento ouvindo Belchior. Ao sair, com os pés sujos de cera, o Biancão me chamou a atenção porque deixei marcas de cera no banheiro que ele acabara de lavar. Tive que limpar o banheiro.

Denunciaram o César e o policial Fermino veio ao alojamento com outro policial para retirar o carregador de bateria que estava ligado bem junto à minha jéga. Acusaram-no de furtar energia e isso o deixou nervoso. Foi preciso que o sargento Ramos viesse tranquilizá-lo e parece que tudo ficou resolvido.

O César é um camarada problemático, mas goza da simpatia de muitos em razão de ser podólogo do presídio.

Terminei o dia ouvindo Belchior e ainda ganhei uma tela de pintura para fazer o meu pé.
33126NOV06, domingo.

“Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, há um tempo manhoso e teimoso.”

(Machado de Assis)

Como de costume, escrevi várias cartas; pro meu Advogado, Ribeiro, Michel, Basselli, etc.

Conversei com o Canella sobre o fato de não querer a presença de meus familiares aqui na prisão, não porque haja desentendimentos entre nós, mas porque quero poupá-los dos constrangimentos das revistas. Ele soube me entender, diferentemente da grande maioria. Sinto saudades deles, mas sou homem suficiente para suportar tudo isso sem lhes causar aborrecimentos, aliás, eles não têm culpa de nada.
33227NOV06, segunda-feira.
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”

(Machado de Assis)

Toda segunda-feira é um martírio para mim porque como demais no domingo e sinto fortes dores no estômago. Isso se deve à mudança de alimentação.

Ouço frequentemente histórias que não me convencem. Sei que esses homens militarizados não são nada disso que eles representam no domingo. São mentirosos e hipócritas que fingem ser o que nunca foram quando estavam livres. Duvido que eles tivessem tempo de almoçar em família aos domingos. Aqui na prisão eles passam o dia mal acomodados e parecem não se importar. Proclamam em voz alta que a família é tudo para eles. Que milagre é esse que a prisão realiza?


33328NOV06,terça-feira.
“Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade.”

(Machado de Assis)


O colega César foi novamente repreendido pelo Sargento Maurílio e pelo Cabo Adilson por ter acendido velas no alojamento à noite. De fato o César tem esse costume que nos incomoda. Ele será comunicado.

A cada novo deslize do César, todos comentam que ele voltará para o primeiro estágio se continuar dando novidades.


33429NOV06, quarta-feira.
“Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.”

(Machado de Assis)

Nada de novo, salvo a chegada dos colegas Magno, Sr Ribeiro, Abner e Alécio para o segundo estágio na noite de ontem. Enquanto isso há mesmo o perigo do César descer.

Ontem o João Carlos me falou dele e disse-me que sua esposa o abandonou após dez meses de prisão. Há outras histórias semelhantes aqui.

Escrevi uma carta ao meu filho e pedi que ele me enviasse um CD da Banda Nova América para que eu possa presentear o Alessandro; aquele jovem oficial do triplo homicídio da baixada santista que foi muito noticiado pela mídia.
33530NOV06, quinta-feira.
“Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vicio grave, e, aliás, ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”

(Machado de Assis)


Ri muito ao ouvir o Levorato dizer que o César é parecido com um rato de esgoto em razão do seu biótipo. Concordo.

Nas brincadeiras do dia-dia, o Levorato diz que roubava muito nas estradas e que ganhava galinhas e as colocava debaixo dos cones. Todo policial rodoviário tem histórias como essas; o Levorato, o César e eu fomos rodoviários.

O César vive um drama porque faltam poucos meses para ele se aposentar e se ele for condenado pelo homicídio que cometeu, poderá ser expulso da PM e perder quase trinta anos de trabalho.

À noite, o Tenente Landim ficou horas na padaria me falando sobre a importância dos Neuróticos Anônimos. Ele me contou a sua história e o drama vivido por ele quando de sua crise mental. Ele me aconselhou a fazer uma leitura de um livro que ele conseguiu com os Neuróticos Anônimos. O Canella sempre conversa com ele e já leu este livro.


33601DEZ06, sexta-feira.
“Teme a obscuridade Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens.”

(Machado de Assis)


Uma grande confusão foi criada nesta manhã porque eu disse ao Canella que o Sachá não o queria em nossa lona. Na verdade, nós não o queríamos porque ele nunca esta presente na hora de montar a lona. Tive que explicar ao Canella que não era o Sachá que não o queria na lona, mas, sim eu.

A partir de hoje não vou mais opinar sobre a escolha de novos integrantes da lona. Isso ficará sob a responsabilidade do Sachá.


33702DEZ06, sábado.
“Matamos o tempo: o tempo nos enterra.”

(Machado de Assis)

Com a saída do Gonzaga, o Anderson, “o oportunista”, passou a integrar a equipe. Agora somos eu, o Alves, o João Carlos e o Anderson. Hoje faremos cerca de mil pães doces.

Como responsável de equipe, não posso admitir erros mesmo porque tenho recebido muitos elogios pelos pães que a nossa equipe tem feito, apesar da intransigência do João. Não é fácil trabalhar com este interno, ele é arredio, não aceita “ordens”.


33803DEZ06, domingo.
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”

(Machado de Assis)


Fui obrigado a trabalhar a noite passada e nesta manhã de domingo por causa da estupidez e ignorância do João Carlos, pois o imbecil que não aceita conselhos esqueceu-se de colocar fermento na massa e os pães não cresceram. O Levorato e o Generaldo me ajudaram a fazer mais duzentos pães para a noite de hoje. Quando se tem alguém na equipe que não trabalha em sintonia com os colegas, só pode mesmo sair “cagadas”

Na recebi visitas hoje.


33904DEZ06, segunda-feira.
Terminada a leitura de Machado de Assis, comecei a ler O feijão e o Sonho do escritor Orígenes Lessa.

Pela primeira vez o major Spinieli veio falar comigo, não para me elogiar, mas para reclamar do excesso de pães que estão sendo jogados fora. Ele ordenou que os pães doces de ontem fossem recolocados nesta manhã para o café dos internos. Disse-me ele que pretende retirar o chá da noite aos domingos porque está sobrando muito pão. Concordo com ele.

O Djalma passou para o regime semi-aberto esta tarde. Já o Canella veio me dizer que se entendeu com sua mulher ontem durante a visita; ele disse estar contente com a conversa franca que teve com sua esposa.
34005DEZ06, terça-feira.
“Não fez ele os Lusíadas, não ganhou um nome imortal? Não viverá ainda daqui a mil, a dois mil anos, a cem? E que foi que ficou dos homens ricos do seu tempo, dos nobres, dos fidalgos, dos negociantes? Quem é que se lembra deles? Sabe-se que Camões pediu esmolas. Você sabe quem deu esmolas a Camões?”

(Orígenes Lessa)


Fizemos na noite que passou mais de novecentos e trinta pães que serão distribuídos para algumas unidades da PM como Canil, Bombeiros, Hospital Militar, etc, aos internos e funcionários civis e militares do PMRG.

Acordei e vi que haviam colocado uma foto de jornal de um lindo suíno na minha “jéga”, em alusão aos meus possíveis roncos.

Pela primeira vez participei de uma reunião com membros da igreja católica e conheci o senhor Antonio e suas filhas Luiza e Maria Inês que evangelizam nesta casa penal há sete anos. Gostei muito das intervenções da Inês, só depois é que eu soube que ela é Teóloga.
34106DEZ06, quarta-feira.
“Abrir escolas era fechar prisões, que a instrução é o fanal do progresso, que a ignorância amesquinha, o livro redime, que instruir os homens é fazê-los grandes. E perorando – oh, bendito o que semeia livros, livros à mão-cheia!” (Filósofo “Chico Matraca”)

(Orígenes Lessa)


O Rovilson me deu o recado de que minha irmã virá domingo me visitar.

Foi impossível dormir no período da manhã por causa do barulho que fizeram os colegas César, Levorato, Canella e Datena. Só consegui dormir após o almoço.

A o entardecer o César cuidou dos meus pés, cortou as unhas e massageou-os. Ele executa bem o seu trabalho e muitos o procuram.
34207DEZ06, quinta-feira.
“Enveredara pelo sonho, esquecera a realidade imediata. Sacrificara por aquele ideal inútil a felicidade dos seus. Nunca soubera ouvir e compreender a voz de Maria Rosa. Razão tinha ela. (...) E tudo por causa do seu egoísmo. Era o egoísmo que via agora castigado. Sedento de glória, cego pela sua vaidade de escritor, não fora jamais o companheiro que Maria Rosa merecera, não fora jamais o pai a que os filhos tinham direito.” (O grande erro de Campos Lara)

(Orígenes Lessa)


Acordei às três da tarde e o Canella pintava o seu quadro. Discutimos sobre as possibilidades de introduzirmos qualquer coisa de cultura na prisão. Primeiro pensamos em montar um grupo teatral, mas logo percebemos que não teríamos interessados para este projeto, pois sabido é que os militares são homens avessos à cultura. São seres estúpidos e embrutecidos pelo regime militar.

Nestes momentos de reflexão, citamos até José de Anchieta e falamos da importância dos seus escritos para a fomentação e criação da Literatura Brasileira. Estávamos, eu e o Canella, pensando em escrever o Monólogo da Mala do Mala. Desistimos.

Vários colegas deixaram o presídio hoje; o Donizete, O Brizola, o Martins e o Taborda foram para suas casas e o Thiago para o semi-aberto.
34308DEZ06, sexta-feira.
“Seu filho era poeta. Um arrepio de orgulho e de emoção percorreu-lhe a pele. Afinal de contas, tinha sido aquele o seu sonho toda a vida. Um filho que o perpetuasse, que valesse por si, que lhe continuasse a obra. E teve o impulso de abraçá-lo.”

(Orígenes Lessa)


Recebi uma carta da Cidinha dizendo que ela virá me visitar dia dezessete de dezembro. Prefiro assim porque não quero que meu filho e esposa venham me visitar no Natal.
34409DEZ06, sábado.
Foi um sábado não memorável, tão comum como todos os outros. O mesmo ritual de armar lonas para as visitas do domingo, e como eu não terei visita, isso pouco me importou.

34510DEZ06, domingo.


O Fernandes veio até mim, como de costume aos domingos, pedir suas pedras de gelo. Elas são usadas para resfriar ou manter gelados os refrigerantes que sua família lhe traz. É a maior disputa por causa dessas pedras de gelo. Dou-lhe as minhas porque eu não as utilizo e ele tem me servido sempre. Eis a minha moeda de troca; dou os gelos e recebo favores.

Domingo minha mulher virá com minha irmã. A última vez que a Cidinha veio foi no Natal passado.


34611DEZ06, segunda-feira.
O César e o Levorato amanheceram brigando por causa de um balde. Aqui se briga por qualquer merda e os dois parecem crianças disputando o brinquedo. Às vezes, parece que a discussão é séria.

Detesto trabalhar durante o dia porque tenho que entrar em forma para marchar. Odeio ter que cantar os hinos militares todas as manhãs, pois acredito que esta é uma forma de nos humilhar. Há muitos aqui que já não são mais militares e que certamente não têm vontade de cantar, assim como eu que já sou aposentado.

Estou ansioso e querendo acreditar que não passarei mais um Natal na prisão. Espero!
34712DEZ06, terça-feira.
Brincamos um com o outro quando nos referimos aos nossos crimes. O Levorato matou o vizinho, o Canella matou o padrasto, o César matou um favelado e eu briguei com as autoridades de Maracaí. Portanto, aqui ninguém é santo.
34813DEZ06, quarta-feira.
Descobri quem é a mulher idolatrada pelo colega César. Ele tem um quadro dela na sua cabeceira que foi pintado pelo Abner. Agora sei que ela frequenta o terreiro de umbanda que ele fez ao lado da padaria. Eu a vi passar com ele ontem à noite.

Soube que o Alécio foi repreendido pelo Major porque dispensou a tropa sem a permissão dele. Agora ele não quer mais comandar e pediu ao Canella para lhe ajudar.

O professor Bianchi teve uma rápida passagem pela padaria e não irá mais trabalhar lá porque o Tenente Moreira quer somente três pessoas por equipe, me disse ele.
34914DEZ06, quinta-feira.
Falei com o Canella que ele se parece com um amigo meu que faleceu o ano passado; Jordão. Os discursos de ambos são parecidos, o tom de voz e até mesmo as palavras utilizadas pelo Canella. Percebo a presença do Jordão na pessoa do Canella.

35015DEZ06, sexta-feira.


O Jornal Nacional de ontem mostrou o Colega Douglas disparando sua arma contra um ladrão em Limeira, numa rodovia. O bandido foi perseguido e bateu o seu carro, e durante a abordagem o PM Douglas não poupou o individuo. Ele foi absolvido pela prática deste crime porque o seu advogado alegou que o bandido já estava morto em razão da colisão e não em razão do tiro desferido pelo policial.
35116DEZ06, sábado.
É triste recordar desta data. Foi neste mesmo dia o ano passado que eu fui preso.

Acho melhor nem me lembrar deste dia, e só de protesto não escreverei nem mais uma linha.


35217DEZ06, domingo.
Estou ansioso porque aguardo a visita de minha mulher. Eu não gostaria de recebê-la neste lugar. Só decidi recebê-la em razão de sua insistência.

Ninguém merece este lugar, ninguém que não tenha cometido os bárbaros crimes da maioria dos que aqui estão; nenhuma pessoa de bem deveria ter acesso à prisão. Aqui é um lugar triste.

A minha mulher veio com a minha irmã e eu não as retive por muito tempo. Fiquei muito nervoso ao ver a Cidinha e percebi que ela estava muito abatida e um tanto magra. Deve ser em razão dos inúmeros desgostos que lhe causei.
35318DEZ06, segunda-feira.
Ainda me sinto abalado pela visita de minha mulher ontem. Não sai da minha cabeça o triste momento da despedida, pois vi que ela estava triste. A minha ansiedade não me permitiu que eu dissesse a ela tudo o que eu pretendia. Eu me senti desequilibrado. Chorei ao vê-la partir.

Elas chegaram, minha irmã e minha mulher, por volta das nove horas e foram embora antes do meio-dia. Ela não trouxe o CD que eu havia pedido pro Junior e que era para eu presentear o “Cavalinho”.


35419DEZ06, terça-feira.
Recebi uma carta do meu advogado dizendo que ele vai pedir um novo exame médico para que eu possa deixar a prisão, tão logo passe um ano. Ele acredita que após este exame, não haverá razão para que eu continue preso.

Ontem eu participei do culto da Congregação Cristã e foi discutido o evangelho de São João, capitulo quatorze; “Os seus planos não são os planos do senhor; o seu tempo não é o tempo de Deus.”


35520DEZ06, quarta-feira.
É sempre muito bom conversar com o Canella, pois apesar de suas preocupações, ele está sempre de bom humor e disse que não pretende sair daqui antes de cumprir toda a sua pena, mesmo não sendo condenado ainda. Ele disse que não quer ser agraciado com a liberdade através de um “Habeas Corpus” porque seria muito desagradável ter que retornar à prisão se for condenado.
35621DEZ06, quinta-feira.
Estou novamente com dor de estomago, acho que exagerei no bolo ontem. Passei pela U.I.S e me deram soro para beber; nunca tem nada melhor para nos oferecer.

Assinei está manhã uma carta precatória, mas não sei o dia da audiência.

A melhor noticia do dia foi a liberdade do Sachá que me deu todos os seus pertences e em troca eu lhe dei quarenta reais que eu tinha guardado. Estou feliz com a saída dele.
35722DEZ06, sexta-feira.
Hoje foi um dia triste e alegre ao mesmo tempo; triste porque ainda estou com dor de estomago e alegre porque o meu amigo Canella foi agraciado com o “Habeas Corpus” e já está em liberdade.

Recebi de presente do Canella o quadro da Maria Madalena que ele estava pintando. Todos queriam o quadro, mas ele deu para mim.


35823DEZ06, sábado.
A primeira manhã sem o Canella. Eu me acostumei tanto com ele que agora sinto sua falta e vai ser difícil encontrar alguém para conversar que tenha um bom papo como o dele.

O almoço de hoje estava maravilhoso e nem parecia um almoço de prisão. Aqui se come muito bem e eu não serei ingrato a ponto de não valorizar este quesito. Tivemos carne de porco, maionese, arroz, feijão, salada, frango, vinagrete e muitas frutas, como: abacaxi, uvas, melancia, maçãs e doces à vontade.


35924DEZ06, domingo.
Distribuí pedras de gelo pro Fernandes, Benedetti e pro César. Espero que não se esqueçam de mim no final da tarde.

Trabalhei na cozinha em substituição ao Alécio que me pediu porque ele teria visitas. O bom de trabalhar na cozinha é que se pode comer bem e à vontade. É impossível manter a forma diante de tanta comida; eu mesmo já engordei seis quilos desde que aqui cheguei, agora estou com noventa e oito quilos.


36025DEZ06, segunda-feira.
Um fato bizarro aconteceu nesta véspera de Natal. O César foi possuído por um espírito maligno na noite passada e deu trabalho pros seus colegas Pinho e “Trinta”. O Duque também estava presente, mas logo deixou o alojamento.

Eu percebi que o César estava embriagado, mas não conseguia entender como ele conseguiu bebida alcoólica aqui na prisão. O Levorato também percebeu a embriaguez do colega e comentou comigo. Depois me disse que ele costumava misturar álcool com refrigerante para beber. Eu não sabia disso.

Então todos perceberam que o tal espírito era pura cachaça. O pior de tudo é que num certo momento ele começou a dizer asneiras em nome desse tal espírito e começou a nos ameaçar, a mim e o Levorato, dizendo que nós éramos medrosos e “bundões”.

De repente ouvimos um barulho enorme com a queda do César que bateu sua cabeça na “jéga” e teve um corte profundo que sujou o alojamento de sangue. Em seguida ele foi levado ao banheiro pelo seu colega Pinho e lavou o ferimento. Tudo isso ficou sob sigilo. O comando nada sabe sobre tal episódio. E se soubesse isso nos traria sérios dissabores.


36126DEZ06, terça-feira.
O Rodolfo passou a integrar o alojamento 04. Ele foi expulso pelos seus colegas do alojamento 01 porque ele não os respeitava. É outro porco como o Ednam que solta seus fétidos gases na presença de todos. Explicamos a ele que não vamos tolerar esses abusos aqui no alojamento 04.

Tivemos hoje uma missa com o padre Marcos Vinícius, de Guarulhos. Vieram com ele o senhor Antônio e suas filhas.


36227DEZ06,quarta-feira.
O César é mesmo um perturbado mental e causa embaraços ao bom andamento das atividades do alojamento. Ele costuma acordar muito cedo e isso incomoda os que querem dormir um pouco mais.
36328DEZ06, quinta-feira.
O Major falou que havia encontrado um fio de cabelo (ou pêlo) no pão que ele estava comendo. Ele quis saber quem eram os culpados. Isso nos deixou preocupados.

Fiquei sabendo que a partir de agora, todos nós teremos que usar um casaco branco com mangas compridas para evitar que caiam pêlos na massa.

36429DEZ06, sexta-feira.
O César é um porco e desorganizado; por todo lugar há coisas suas espalhadas. Toda cama desocupada ele joga algo em cima. Ele tem vários armários, isso porque somos quatro no alojamento. Ele se acha no direito de usar todos os armários disponíveis; tem até um para acender velas pros seus santos.

O “Boneco” foi embora ontem e o seu colega Barcellos ficou. Acredita-se que ele logo irá também.


36530DEZ06, sábado.
Toda manhã de sábado nós preparamos os pães para o chá da noite e do domingo de manhã; são pães doces. A cada semana é uma equipe que trabalha no sábado e dessa vez somos nós.

Com o passar do tempo a gente vai conhecendo melhor aqueles que nos rodeiam e então fica mais fácil fugir daqueles que nos são desagradáveis. Aqui a gente se surpreende a todo instante com as reações inusitadas de cada um. Vivemos num constante estresse e somos como bombas-relógio prontas para explodir. Daí é necessário muito equilíbrio nos momentos de tensão.


36631DEZ06, domingo.
A mesma rotina de sempre, exceto porque hoje eu conheci o irmão do interno Pessoa que é professor de francês e nós tivemos uma produtiva conversa em francês. Ele me deu seu endereço, disse se chamar Jorge e que no momento não está lecionando, mas que já lecionou língua francesa.

Trabalhei novamente no lugar do Alécio na cozinha para que ele pudesse receber seus familiares.



2007

36701JAN07, segunda-feira.


Deus! Meu Deus! Que este seja o ano da minha liberdade. Ontem, em meio ao barulho ensurdecedor dos fogos eu me senti pequeno e desprotegido. Senti-me órfão no meio de pessoas que nunca vi. Tive saudades da minha infância e dos finais de ano de outrora; parece que antes era bem mais gostoso e alegre. Começar o ano em uma prisão não foi o que desejei pra mim; jamais sonhara com tal situação.

Que Deus seja meu companheiro neste ano para que eu possa atravessar este deserto sob Sua proteção. Lembrei-me do Salmo 23 (ou 22?)! É lindo e farei dele a minha oração de todos os dias. O Senhor é o meu Pastor; e eu sou sua ovelha desgarrada e perdida que precisa reencontrar o caminho de volta pra Sua casa e pra minha casa.

Hoje eu trabalhei na cozinha como um falso voluntário só para saborear as delícias que ainda restam. A gente come muito bem aqui no final do ano.

À noite, trabalhei na “padóca” com o Alves e o João.


36802JAN07, terça-feira.
Ouvi mais um capítulo da história do “Zé” que muito triste me falou dos problemas que enfrentava com seu namoro às escondidas com sua “italianinha”, que na verdade nada tinha de italiana, exceto o sobrenome. Disse-me que sua filha não manifestou interesse de conhecê-lo e que isso só aconteceu por ocasião do casamento do irmão dela, após sete meses.

Estava ele na igreja, lá na cidade que não mencionarei a pedido dele, e então ela veio cumprimentá-lo pela primeira vez em companhia da sua mãe. Disse apenas um “oi” e “muito prazer” e saiu em seguida porque os noivos já iriam entrar na igreja. O “Zé”, não acompanhou sua amante durante todo o tempo da cerimônia porque ele não era o pai do noivo, que por sua vez era filho de sua “italianinha” que estava se casando com uma médica.

No jantar que foi oferecido aos convidados, finalmente a menina Lívia se rendeu e conversou um pouco mais com o “Zé” por que ele estava conversando com sua cunhada na mesa aonde Lívia iria se sentar com seu noivo. Ao vê-la chegar, ele se afastou. Ela então disse a ele que não precisava ter medo, pois ela não mordia e que ele podia permanecer ali. Ele alegou que sua mãe pedira para que ele não se aproximasse dela, era para acontecer o contrário. A partir daí rolou um papo entre eles. A sua amante logo chegou e todos conversaram e dançaram muito durante a festa. A partir deste dia, o coração de Lívia amoleceu um pouco e ela passou a aceitá-lo, mas com restrições. Ele a evitava para não constrangê-la e nem a si. Cumpria à risca as determinações de sua “italianinha”.

Qual foi sua surpresa quando soube que Lívia havia lhe convidado para um almoço em sua casa. O coitado nem dormiu direito. E foi. Ela o recebeu bem e conversaram na presença de todos; sua mãe e seu noivo policial civil.

Pobre “Zé”! Que história linda! Só que eu tenho mais o que fazer agora, disse-lhe eu, e saí. Tem hora que a gente não tem saco pra ouvir ninguém.

Amanhã chegarão os colegas que saíram de indulto.


36903JAN07, quarta-feira.
Os colegas têm reclamado que o barulho que a gente faz na padaria incomoda-os. Não o barulho das máquinas, mas as conversas noturnas. Ouve-se tudo o que é dito lá embaixo do alojamento quatro. Eles têm razão.

Meus pensamentos são ilógicos, de repente me vejo refletindo sobre os fatos que me trouxeram aqui e não consigo entender o porquê de tudo isso. É muita maldade! Só Deus poderá me explicar um dia. Não consigo ver tanta gravidade nos meus atos praticados contra esses merdas da Justiça.


37004JAN07,quinta-feira.
Eu, Mala!

Somos malas;

Uns mais, outros menos,

Outros ainda mais ou menos;

Porém, malas.

Uns com alças, outros sem.

(Duda)
Graças a Deus! O João não está mais na nossa equipe de trabalho na padaria. Ufa! “Merci mon Dieu!”.

O caso do quadro do Edinan está me irritando porque os colegas insistem em dizer que ele me roubou na cara dura e que eu não fiz nada. Que ele fique com o dinheiro que lhe dei; se eu quebrei o quadro, o problema é meu. Ou não posso fazer o que quero com o que me pertence?

Perdoem-me o plágio, mas quanto mais conheço os homens, mais admiro os animais e a natureza.

Tem chovido muito esses dias e isso me entristece muito mais porque não gosto do tempo chuvoso. Em liberdade, quando chove, o dia parece não ter fim e estando preso é pior ainda; parece uma eternidade. Odeio dias chuvosos!

Falei com o Juiz Moro Cavalcante do Tribunal Militar hoje às 14 horas. Homem frio e insensível. É a encarnação do diabo. Desprezível. Que seja maldito para a eternidade.
37105JAN07, sexta-feira.
O César deixou alimentos no armário e agora o ambiente está insuportável porque se deteriorou. Foi preciso fazer uma boa limpeza no alojamento para que o mau cheiro saísse. O Levorato ficou furioso com o César. O alojamento foi encerado e o cheiro de cera é pior ainda; não consigo dormir.

Diante de tais acontecimentos, o César prometeu não mais trazer alimentos para o alojamento aos domingos. Melhor assim já que ele é mesmo um porco.

Uma carta da Cidinha me comunicou que o Júnior, meu filho, virá me visitar domingo.
37206JAN07, sábado.
Acredito que meu filho já esteja em São Paulo hoje na casa da minha irmã. Amanhã eu irei vê-lo pela segunda vez aqui no cárcere e espero ser a última.

O meu diário chama a atenção de todos por causa das colagens que faço no verso; são fotos de revistas e jornais das atrizes das TVs e muitas outras que acho bonitas, independentemente de serem ou não mulheres. Isso serve para eu passar o tempo, além de deixar mais colorido o meu Diário do Cárcere.

O banheiro entupiu e todos culpam o César por causa dos seus banhos de ervas que ele costuma tomar no banheiro. Os colegas estão furiosos com ele; inclusive, ele teve uma discussão com o Levorato e o ameaçou de expulsá-lo do alojamento. Ele não tem poder pra isso!

Passado este episódio lamentável, é hora de arrumar as lonas para amanhã. Afinal meu filho virá me ver. Darei a ele mil conselhos e pedirei a ele que me escreva com mais frequência e ainda que leve embora os meus quadros.


37307JAN07, domingo.
“Fazer fortuna, para Julien, era, antes de mais nada, sair de Verrières; detestava o seu berço. Tudo o que via ali gelava-lhe a imaginação.”

(Stendhal)


O universo cultural literário me fascina. A literatura francesa é lindíssima! Apaixonei-me por Stendhal; Henri-Marie Beyle Stendhal e sua obra Le Rouge et le Noir.

Estou relendo este clássico da literatura francesa, assim como fiz com Memórias Póstumas porque achei que os li de uma maneira muito imatura quando jovem. Agora o tempo me favorece e a Biblioteca do PMRG tem livros belíssimos e poucos leitores; são pérolas aos porcos.

Aguardei ansiosamente a visita do meu filho que não tardou a chegar junto com minha irmã. Conversamos muito e eu lhe pedi que fosse obediente à sua mãe e que não se envolvesse em confusões porque é triste viver numa prisão. Dei a ele o meu relógio e pedi a ele que o usasse.

Foi muito triste o abraço de despedida. Não quero me lembrar. Chorei ao vê-lo descer em direção à saída.
37408JAN07, segunda-feira.
“Julien não passava talvez uma hora da sua vida sem dizer que Bonaparte, tenente obscuro e sem fortuna, se tornara o senhor do mundo com a espada.”

(Stendhal)


A propósito do relógio que dei ao meu filho ontem, para que ele levasse embora, só o fiz porque aqui as horas são minhas inimigas; elas demoram a passar como se me provocassem. De imediato lembrei-me do “Zé” que havia dito que ganhara de presente da sua “italianinha” um relógio quando completaram um ano de namoro clandestino; isso porque ele tinha compromisso, ela era viúva.

O Araújo lidera um grupo de presos que oram todas as manhãs antes mesmo do café da manhã. Também faço minhas orações matinais e leio o Novo Testamento em francês para não perder o contato com a língua francesa. Isso tem me ajudado a escrever o meu diário em francês.

É horrível amanhecer no cárcere! O César me apresentou uma canção francesa cantada por Cássia Eller: Je ne regrette rien. Parece que já ouvi esta música cantada por Piaf.
37509JAN07, terça-feira.
“Essas crianças me acariciam como acariciam o filhote de cão de caça que ontem compraram pra elas.”

(Stendhal)


Estou ciente de que tenho uma audiência de interrogatório no dia 17 de janeiro às 13 horas do vigésimo DP de Santana. O que será? Aguardarei.

Dei ao César a tradução da letra francesa e ele gostou de saber o que diz a canção. Nesta noite de terça-feira eu presenteei o grupo da umbanda com uma garrafa de café e o César achou simpático de minha parte. Se o comando souber disso, estarei frito. Eu não tenho autorização para presentear ninguém com cafezinho; aqui não é minha casa.


37610JAN07, quarta-feira.


“Que seria desses nobres se pudéssemos combatê-los com armas iguais!”

(Stendhal)


A vida é ilógica! Jamais me imaginei entre seres tão desprezíveis. Ah! Se não fosse o “Zé” pra me fazer rir e emocionar com sua bela história de amor, creio que eu já teria morrido de tédio.

E lá veio ele de novo pra dizer que amava sua pequena e brava amante. Dizia ele que ela era responsável por sua mudança de vida, que ela o ensinou a gostar de si mesmo, que passou a se vestir melhor após conhecê-la e que ela lhe apresentou lugares lindos onde ele jamais sonhara conhecer. Ela era rica, ele pobre.

Ela lhe fora fiel durante todo o tempo e se recusava a dançar com outros nos bailes e sentia inveja de suas amigas quando pediam a ela o “Zé” emprestado para uma contradança. Ele pareceu ser feliz com ela, mas quão triste não ficou ao saber de sua doença; câncer de pulmão. Todavia, ela não fumava. Por que então esta maldita doença? Ele ficou desolado e agora aqui na prisão nem dá pra saber notícias dela, e isso o incomoda ainda mais. Vejo-o e sinto pena de sua tristeza. Pobre “Zé”!
37711JAN07, quinta-feira.
“Eis aí uma mulher superior reduzida ao auge da desventura porque me conheceu.” (pensou Julien).

(Stendhal)


O César tem cada idéia de “jirico”! Acabou de me dizer que ele será incluído no ISO 9001 porque é o podólogo da prisão. De onde este mentecapto tirou essa idéia absurda?

A gente ouve cada uma aqui que nem dá pra acreditar! Já não basta ter que engolir ele e seus espíritos mal educados que só dizem palavrões quando incorporam nele e que fazem uma verdadeira bagunça no alojamento. Acho que é um espírito de porco que desce nele.

O espírito do César é bêbado, arruaceiro, fumante, boca suja, analfabeto, vagabundo e porco. Ele se atreveu a dizer que eu sou um observador de tudo que se passa ao meu redor e que não perco um só detalhe e anoto tudo o que ouço e vejo. Depois ele disse que era pro colega Duque entrar e não ficar do lado de fora ouvindo como um espião. Em seguida desandou a fazer profecias para uns e outros; eu fingia dormir e ouvi suas idiotices do começo ao fim e não acreditei numa só palavra que foi dita. Senti medo!

37812JAN07, sexta-feira.


“Freqüentemente muda a mulher; bem doido é quem nela se fia.”

(Stendhal)


O Tenente Yurio é um ser perverso e mal intencionado conosco. Ele vive procurando uma só falha nossa pra poder nos punir. O miserável acorda cedinho só pra ver se surpreende algum interno na “jéga” pra poder lhe complicar ainda mais a vida aqui na prisão. Somos perseguidos diuturnamente. A pressão psicológica exercida sobre nós é doentia; por isso que o militarismo é um regime cruel que mutila seus homens.

As praças são os menos instruídos e os mais exigidos neste regime que caminha na contramão do progresso, enquanto que os oficiais vivem numa boa à caça dos erros das praças. Um oficial nunca erra; nem parece um mortal.


37913JAN07, sábado.
“Pois bem, vivi bastante para ver que diferença engendra ódio.”

(Stendhal)


Os noticiários só falam da tragédia no Metrô aqui em São Paulo.

O louco César agora deu pra fazer orações em árabe todas as manhãs, talvez seja para ironizar os crentes que dizem orar em línguas estranhas; são tão estranhas que não consigo nem imaginar quais são.

A semana que vem vou depôr e isso me preocupa porque não sei do que se trata e não estarei acompanhado por advogado.

O sábado à tarde aqui é muito animado logo após o término da arrumação das lonas, pois alguns se reúnem para cantar. Tem o pessoal do pagode e o do sertanejo; eu integro este último grupo.


38014JAN07, domingo.
“A tua carreira vai ser penosa. Vejo em ti alguma coisa que ofende o vulgo. A inveja e a calúnia hão de perseguir-te. Onde quer que a Providência te coloque os teus companheiros não poderão te ver sem te odiar; e, quando eles fingirem que gostam de ti, será para te traírem com mais segurança. Para isso só há um remédio: recorre unicamente a Deus, que te deu, para te punir dessa presunção, a fatalidade de ser odiado; que a tua conduta seja pura. É o único recurso que vejo para ti. Se te ativeres à verdade com uma tenacidade invencível, cedo ou tarde os teus inimigos serão confundidos.”

(Stendhal)


Logo de manhã eu fui assediado por aqueles que querem gelo. Muitos só me veem neste momento; quando querem algo de mim. O ser humano é mesquinho e interesseiro; aqui então é praga. Pra tudo há um preço. O que se poderia esperar de uma classe maldita que disputou até as vestes do Cristo?

Ouvi novamente o “Zé” e desta vez ele me disse que estava preocupado por não saber o estado de saúde da sua amante. Que iria escrever a um amigo que a conheceu para que lhe informasse urgente sobre ela. Se ela ainda vivia ou não. Senti pena dele de novo.


38115JAN07, segunda-feira.
“A sorte me deu todas as vantagens: ilustração, fortuna, mocidade, tudo, exceto a felicidade.” (Srta Mathilde de la Molle).

(Stendhal)


Desentendi-me com o Pinho esta manhã e lhe falei de um modo grosseiro. Percebi que ele não simpatiza comigo por razões que desconheço. Ele se aliou ao César e parece querer mandar no alojamento e jogar antiguidade de cadeia sobre nós.

Essas pequenas intrigas causam embaraços pra convivência diária, mas não me abalam, pois sei que aqui isso é normal. As diferenças culturais geram sempre conflitos que precisam ser bem administrados.


38216JAN07, terça-feira.
“Senhores, um romance é um espelho que é levado por uma grande estrada. Umas vezes ele reflete aos vossos olhos o azul dos céus, e outras a lama da estrada.”

(Stendhal)


Estava tão triste e resolvi decorar o teto da minha “jéga” com ilustrações femininas, sob a “jéga” do parceiro do beliche. Colei as fotos de Marjorie Estiano, Ana Paula Arósio, Ivete Sangalo, Karina Bacchi e Juliana Paes. Elas serão minhas colegas até que eu me canse delas e as retire.

Escolhi esta maneira para passar o tempo e até isso incomoda os vermes prisioneiros. Recebi críticas severas de alguns crentes idiotas que dizem que a mulher é a embaixadora do demônio na terra. Quem se apega ao dinheiro e às mulheres, está longe de alcançar o reino de Deus. Imbecis!

38317JAN07, quarta-feira.
“A primeira lei de todo ser é conservar-se, é viver. Vós semeais a cicuta e quereis ver amadurecer as espigas!”

(Maquiavel)


O silêncio aqui é o nosso maior aliado e não devemos nunca deixar escapar o que faremos ou deixaremos de fazer. Não falar sobre nós é fundamental para não permitir que os outros participem dos nossos problemas. Hoje eu irei ao vigésimo DP e não contei pra ninguém.

O Tenente Edson, “Perna-de-moça”, foi estúpido e grosseiro comigo só porque eu fui lhe questionar sobre a maneira que eu seria transportado, haja vista minha sentença de Absolvição Imprópria e a minha condição de paciente. Aliás, isso gerou gozação por parte dos internos, tão logo o “Diou” espalhou a notícia. Não durou muito. Graças a Deus, pois eu estava perdendo a paciência com alguns.

Lá no DP eu soube que estava sendo processado de novo pelo maldito escrivão Irmão Alcides e pelo Promotor. Eles me acusaram dos mesmos crimes anteriores: Ameaça, Desacato e Coação de Testemunha. Malditos!


38418JAN07, quinta-feira.
“Um viajante inglês conta a intimidade que vivia com um tigre; tinha-o criado e acariciava-o, mas sobre a mesa sempre havia uma pistola armada.”

(Stendhal)


Estou em maus lençóis! Respondo a um novo processo que meus perseguidores, impiedosamente, me aplicaram. Por quê? Que mal grave lhes fiz? Esses malditos medem forças com quem não tem; são covardes, mentirosos, perversos.

Não vislumbro a possibilidade de sair daqui tão cedo diante de tantas acusações mentirosas que recaem sobre mim. Este maldito crente me acusou de coisas que eu não fiz, e que ele sabe muito bem que são mentiras. Por isso que não gosto desses malditos e fingidos crentes; eles não conhecem o perdão, são pérfidos.

Comentei com o Dr. Christian sobre minha situação e ele em nada pôde me ajudar.
38519JAN07, sexta-feira.
“A morte, por si mesma, não lhe era horrível. Toda a sua vida não fora mais que uma longa preparação para a desgraça, e ele não esquecera a que passa por ser a maior de todas.”

(Stendhal)


O “Diou” espalhou pra todos que eu não queria ser transportado no compartimento para presos sob a alegação de não ter sido condenado e por eu ser um “paciente” e não um preso comum como os demais. Isso me gerou sérias dores de cabeça.

O meu Advogado não me dá informações precisas e eu me sinto sem norte aqui neste lugar. Estou de “saco cheio” com sua incompetência e falta de vontade. Afinal, não é ele que está preso.


38620JAN07, sábado.
“Matar-me! Isso não! refletiu ele alguns dias depois; Napoleão viveu... Aliás, a vida me é agradável; atravesso agora uma fase tranqüila; aqui não tenho maçadores, acrescentou, a rir, e pôs-se a fazer a lista dos livros que queria mandar vir de Paris.” (Julien na prisão)

(Stendhal)


Tivemos uma manhã conturbada, eu e os colegas de padaria por causa de uma farinha paraguaia que não continha sal. O fato de sempre trabalharmos com uma farinha de qualidade, fez com que nós não observássemos este pequeno detalhe da farinha paraguaia. Resultado: os pães ficaram sem sal, sem sabor e a bandidagem reclamou.

Usamos por dois dias esta farinha denominada “Harina San Salvador; para hacer verdadero pan francez”. Uma bela merda que poderia ter nos causado até possíveis punições. Fizemos o que podíamos para fazer os melhores pães, mas esta maldita farinha não nos permitiu.


38721JAN07, domingo.
“C’est parce qu’alors j’étais fou qu’aujourd’hui je suis sage”

(W. Goethe)

Não recebi visitas como de costume e isso não me chateia, muito pelo contrário. Incomoda-me é receber meus familiares neste lugar insólito.

Ganhei um pedaço de maçã do colega César e o curioso é que ele determinou que eu fizesse um pedido porque este fruto foi da festa em honra a “Oxossi”. Mesmo com receio acabei por comê-lo. O que não mata engorda, e não acredito em feitiçaria.


38822JAN07, segunda-feira.
“Eu não vos peço nenhuma graça... Meu crime é atroz e foi premeditado. Mereço, pois, a morte, senhores jurados. (...) Hão de querer punir em mim e desencorajar para sempre os jovens que, oriundos de uma classe inferior e de qualquer forma oprimidos pela pobreza, têm a felicidade de conseguir uma boa educação e a audácia de imiscuir-se naquilo que o orgulho de gente rica chama sociedade. (...) Não vejo no banco dos jurados nenhum camponês enriquecido, mas unicamente burgueses indignados.” (Discurso de Julien)

(Stendhal)


Nem mesmo dormindo o César dá sossego para nós, pois esta noite ele sonhou em voz alta e parecia estar brigando com alguém; senti medo.

Na tarde de hoje foi embora o Medina que também era “Pai de santo” como o César. A propósito, o Medina fazia parte do grupo que costumava ingerir álcool com refrigerante juntamente com o César, o Leonel e tantos outros.

A princípio, por se tratar de um diário, não temo denunciar os colegas. Todavia, se um dia eu resolver publicar estes fatos, eu não temerei da mesma forma. Acredito que o comando sabe que tais fatos acontecem e que isso é até saudável para alegrar e descontrair o ambiente. É claro que do ponto de vista legal isso é inadmissível.
38923JAN07, terça-feira.

“Palavra, se eu encontrar o Deus dos cristãos, estou perdido: é um déspota e como tal, é cheio de idéias de vingança; sua bíblia só fala de punições atrozes. Nunca o amei; nunca quis mesmo acreditar que o amassem sinceramente. Ele não tem piedade.(...) Ele me punirá de maneira abominável... Mas se eu encontrar o Deus de Fénelon! Talvez ele me diga: “Muito te será perdoado, porque muito amaste.”

(Stendhal)

Por volta das quinze horas de hoje eu recebi a visita Dr. Dejair, da Associação dos Cabos e Soldados, que nada me trouxe de novo.

Mesmo entre criminosos de toda estirpe, encontramos aqui alguns que se destacam por suas qualidades individuais. Temos por exemplo, o Peixoto que é um excelente futebolista, juntamente com o Eliel, Maldonado, Edinam, Demézio, “Cavalinho”, etc.

Há os que se destacam na música como: o Payão, “Cavalinho”, Canutto, Quirino entre outros. Na pintura destacam-se o Abner, o Mello, o Dey, entre outros. No aspecto cultural tem os que são leitores assíduos e compenetrados da literatura moderna e clássica. Destaque especial aos colegas Ricardo, Artilheiro, Professor Bianchi e eu.


39024JAN07, quarta-feira.
“A pior coisa na prisão é a gente não poder fechar a porta.”

(Stendhal)


Lembrei-me hoje do meu tempo de faculdade e senti saudades da minha professora Sandra. Ela e o Fernando Frey me ajudaram tanto e creio que eles não gostariam de saber que estou preso.

O bom da prisão é que temos tempo de sobra para as nossas reflexões e para as leituras. Se antes eu havia dito que o tempo é o nosso maior inimigo na prisão, agora digo o contrário. Às vezes o é, outras vezes não.

Tenho lido muito nestes últimos dias e nem tenho visto os dias passarem, mas sinto-me entediado quando percebo que o processo não caminha. A Justiça além de cega, surda e muda, é também muito lerda. Não sei se isso é bom ou ruim para mim. Do ponto de vista cultural, está sendo ótimo.
39125JAN07, quinta-feira.
“O ar da prisão se tornava insuportável para Julien. Por felicidade, no dia em que lhe anunciaram que devia morrer, um sol maravilhoso alegrava a natureza, e Julien estava cheio de coragem. (...) Jamais aquela cabeça fora tão poética como no momento em que ia tombar.”

(Stendhal)

Hoje é aniversário da cidade de São Paulo e eu participo da festa dos seus quatrocentos e cinquenta e três anos. É um presente de grego para mim.

O colega Bispo foi embora na tarde de hoje e agora será preciso que se ache um novo barbeiro. Ele estudou francês comigo.


39226JAN07, sexta-feira.
“Esta prisão tão horrível, tão úmida, dá-me momentos de febre em que eu não me reconheço; mas medo, não, ninguém me verá empalidecer.”

(Stendhal)


Ontem à noite eu assisti um documentário na TV cultura sobre Tom Jobim e logo em seguida outro documentário sobre os horrores praticados nos campo de concentração durante o regime totalitário de Adolf Hitler; nazismo. Que horror! Por que a humanidade teve que viver um episódio tão triste e lamentável.

Gosto da TV Cultura porque de fato ela propaga a cultura do país. Ainda ontem também assisti a um filme com Raul Cortez que se chamava No vale do diabo; adorei.


39327JAN07, sábado.
“Ela se pôs de joelhos. A lembrança de Boniface de La Molle e de Margarida de Navarra deu-lhe sem dúvida uma coragem sobre humana. (...) Mathilde acompanhou o amante até o túmulo que ele escolhera. Grande número de padres escoltava o caixão e, sem que ninguém soubesse, sozinha na sua carruagem encortinada, ela levou sobre os joelhos a cabeça do homem a quem tanto amara. (...) Ficando a sós com Fouqué, ela quis enterrar com suas próprias mãos a cabeça do amante. Fouqué esteve a ponto de enlouquecer de dor. Por cuidados de Mathilde, está gruta selvagem foi ornada de caríssimos mármores trabalhados na Itália.”

(Stendhal)


A incerteza é a nossa pior inimiga na prisão entre tantos outros inimigos visíveis e invisíveis que aqui temos. Não é difícil ver rostos sombrios e tristes por toda a parte. Cada um tenta se livrar dos seus fantasmas como pode. Eu leio, escrevo e canto, pois sabido é que quem canta os seus males espanta.

Não tenho o hábito de perguntar sobre a vida do outro e só falo de mim quando sinto a necessidade de desabafar-me. No meu diário não constará nada que não me tenha sido dito de forma voluntária. Tudo que eu disser a respeito de quem quer que seja é porque eu ouvi com meus próprios ouvidos e me responsabilizarei por tudo.


39428JAN07, domingo.
“A futura Rainha da França com os seus treze anos nem sabia escrever alemão nem francês, não conhecia nem superficialmente a história, e que sua educação é quase nula”

(Stefan Zweig)


Acordei intrigado com as gírias que são usadas aqui na prisão e não consigo entender a razão delas. Por que surgem e como surgem? Não dá pra ligar a palavra ao objeto. Coruja, por exemplo, é cueca. De onde veio esta associação maluca? Cama é jéga; vaso sanitário é boi; etc.

Há o termo “Correria” que é utilizado para designar um serviço ou um favor que alguém presta ao outro aqui ou fora da prisão. Eu poderia dizer que o Rovilson faz algumas “correrias” pra mim simplesmente porque ele me compra algumas coisas lá fora quando eu lhe peço.

Esta manhã eu fiz uma correria pro Professor Bianchi e quando entrei no seu alojamento de manhã para lhe deixar as pedras de gelo, tropecei numa cadeira e acordei todos com o barulho. Imaginem o que me aconteceu!

O Biancão me disse que aqui não devemos fazer “correria” pra ninguém, pois todas as vezes que queremos agradar alguém, algo de mal nos acontece. Disse-me ainda que o ser humano é imprevisível que e muda de comportamento a cada minuto.


39529JAN07, segunda-feira.
“O mais importante para uma Rainha da França é que saiba bem dançar e falar francês com um acento muito certo.”

(Stefan Zweig)


Abri o Jornal de ontem e vi uma matéria na página Ilustrada, o caderno de cultura, sobre a obra do autor João Antônio que se encontra nos arquivos da Faculdade de Letras da UNESP em Assis. A minha ex-professora Tânia Macedo é que estuda sua obra e biografia. Vi também um livro que foi publicado por ela e a escritora Rita Chaves que fala sobre o continente africano na força de seus escritores; Marcas da Diferença: Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Alameda, 372 páginas. Pretendo ler!

Escrevi uma carta para a minha ex-professora para dizer-lhe o quanto fiquei feliz por ver sua obra e pedi a ela um livro autografado. Que idiotice a minha! Ela não respondeu minha carta. Acho que eu também não responderia se estivesse no lugar dela e ela no meu. Muita pretensão a minha de querer que ela se lembrasse de mim, estando eu preso. Se eu estivesse ocupando uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, talvez sim.


39630JAN07, terça-feira.
“Deixa Maria Antonieta para sempre os campos de brincadeiras infantis; começa o seu destino de mulher. (...) E a mão, que agora se eleva sobre sua cabeça, abençoando-a, é a mesma que, mais tarde, jogará sua coroa e sua honra à imundície e desprezo públicos.”

(Stefan Zweig)


Que merda! Toda vez que muda a qualidade da farinha, os pães saem uma merda e todos nos culpam. Todos querem a cabeça do Davi, do Alves e do Anderson.

Alguns colegas subiram para o segundo estágio hoje; são eles: um senhor de Prudente, o Henrique “corneteiro” e seu parceiro.


39731JAN07, quarta-feira.
“Depois de sete anos de vida matrimonial, consegue finalmente a virilidade do marido e uma vida conjugal normal.”

(Stefan Zweig)


Recebi a visita do Dr. Dejair de novo. Nada de novo. Só lhe pedi que me mandasse à cópia do processo e do recurso feito pelo Dr. Rodolfo. Pra isso tive que assinar um documento solicitando tais cópias.

Feito isso, retornei à leitura do livro sobre a história da Rainha Maria Antonieta.


39801FEV07, quinta-feira.
“Ela não amava os livros, nem as coisas do governo, não apreciava as coisas sérias que exigiam paciência e atenção.”

(Stefan Zweig)

O comentário do dia foi a condenação do colega Lopes, “O Morto”, que pegou dezoito anos de prisão por seu duplo homicídio. Ele nunca me pareceu violento, pois trabalhei com ele lavando panelas e ele sempre se mostrou alegre e divertido.

Escrevi uma carta e estou com receio de enviá-la ao Juiz do Fórum de Maracaí. Nela eu apresento minhas queixas contra os meus algozes, todavia temo que não me compreendam e que possam utilizá-la contra mim. Pensando assim, acho melhor não enviá-la


39902FEV07, sexta-feira.
“A vida não da coisa alguma sem retribuição e que sobre cada coisa concedida pelo destino há secretamente marcado um preço, que cedo ou tarde deverá ser pago.”

(Stefan Zweig)


Pedi ao Rovilson nesta manhã que me comprasse o jornal para que eu pudesse ver o resultado do vestibular da UNESP de Assis. Quis ver se constava o nome do meu filho; não constava.

40003FEV07, sábado.


“A conta exata do preço do Trianon só foi apresentada a trinta e um de agosto de 1781. Montava 1.649.529 libras (mas na realidade, somando-se outras despesas secretas, a mais de quatro milhões de francos), soma bem leve comparada com a mania de edilidade de Luiz XIV.”

(Stefan Zweig)


De novo acordei mal do estômago. Devo ter comido algo estragado ou talvez o estresse do dia-a-dia possa ter me causado problemas estomacais.

O “Datena” veio assistir televisão aqui no alojamento quatro e queixou-se dos seus colegas que não permitiram que ele assistisse ao filme religioso que ele gostaria de assistir. Não sei por que fazem isso com ele.


40104FEV07, domingo.
“Poderei ceder às circunstâncias, mais nunca consentirei em praticar um ato indigno de mim. É na desgraça que conhecemos melhor o que somos.”

(Maria Antonieta)


O circo dominical é engraçadíssimo. Os palhaços colocam suas máscaras de bons maridos, de bons pais, de bons filhos e desfilam num entra e sai contínuo. Eu também faço parte do circo, mas tenho que ver o espetáculo à distância porque quem não tem visitas não pode se misturar aos palhaços protagonistas. Então, resta-me pegar o violão e cantar minhas modas sertanejas pra não morrer de tédio. Será que se morre de tédio?

Eu não vou negar que sou louco por você...” e tantas outras músicas que nem quero me lembrar delas porque me remetem à prisão. Outra coisa que não quero mais jogar é xadrez; e nem dominó. Por favor, não me peçam isso. Ludo então, nem quero ver. Cansei de ver e ouvir o Moreno dizer mil palavrões por causa deste joguinho infantil e idiota.

Já devo ter falado do ritual da arrumação das mesas, mas o ritual do banho e preparação para receber os familiares é também um momento hilário. Como pode alguém se sentir o máximo ao colocar uma “roupinha de ver Deus” na prisão e desfilar como se estivesse na “São Paulo Fashion Week”. Nem parece que durante a semana toda vestem o uniforme carcerário. E há aqueles que ficam bravos comigo porque me recuso a tirar meu uniforme; minha segunda pele!

Tive o prazer de rever o irmão do Pessoa que fala francês, inglês e espanhol. Conversamos e ele me apresentou sua irmã Marília que me pareceu simpática. Também comi os “biro-biros” que o irmão do Levorato me deu e dei a ele algumas cartas para que postassem para mim.

Há um único momento triste aos domingos que me deixa arrasado por demais; é quando vejo as crianças chorando ao saírem. Coitadinhas, elas querem a companhia dos pais que não podem ir com elas. Como ficará a cabecinha dessas pobres e infelizes crianças?
40205FEV07, segunda-feira.
“O medo de um acontecimento é sempre mais insuportável que o próprio acontecimento.”

(Stefan Zweig)


Não entrei em forma, justo hoje que me disseram que anotaram o nome de quem não estava. Que azar! Eu não estava muito bem e resolvi “dar o chapéu”. Agora é assumir.

Mesmo não podendo ter dinheiro aqui, eu sempre guardo alguns trocados escondidos entre as páginas do meu diário para dar ao Duque ou ao Josemir para que eles lavem o banheiro para mim. Odeio lavar banheiro em casa, pior então na prisão. São três reais por faxina! Afinal, eles precisam desta grana bem mais do que eu.

A boa notícia foi a liberdade do colega Ortega; o piracicabano.
40306FEV07, terça-feira.
“O povo nos ama só enquanto fazemos o que ele quer.”

(Maria Antonieta)


Chove. Eu não gosto do tempo chuvoso. Ainda que o frescor seja agradável, continuo não gostando do tempo chuvoso. Em São Paulo a vida é nublada e cinza.

Senti a presença de minha mulher ao meu lado esta noite e passei a acreditar ainda mais na presença de Deus junto a mim. Pareceu-me tão real; não enlouqueci, tenho certeza que a toquei e que ela dormiu ao meu lado e que fizemos amor. Acreditem se quiser; eu acreditei. Eu sempre acreditarei.

Lendo Maria Antonieta, descobri que a vida do Rei Luís XVI era medíocre. Ele gostava de cavalgar, caçar, dormir, comer, forjar o ferro e não se importava com os assuntos políticos. Em resumo, era um Rei inexpressivo, enquanto sua esposa levava a França à banca rota; à ruína.

Na reunião católica de hoje eu percebi algo de estranho no colega “Zé” que logo ficou esclarecido. Ele me disse que via na Inês a figura doce e meiga da sua “italianinha”. Logo percebi a razão de seus incessantes olhares para ela durante as reuniões; estaria ele se apaixonando por ela? Por incrível que pareça, sim! Ele até comentou comigo que não gostava da presença do Assis ao lado dela; que ficasse ao lado da Luiza. Pobre “Zé”! Apaixonado de novo!


40407FEV07, quarta-feira.
“Depois de lhe terem arrancado o marido, o filho, a coroa, a honra, a liberdade, que poderiam ainda querer arrancar-lhe neste mundo? Nada podia ser mais horroroso do que a sua vida naqueles últimos meses. Agora vinha a tarefa mais leve: Morrer.”

(Stefan Zweig)


Acordei às duas horas da manhã e não consegui mais dormir porque o César falava como um louco durante o sonho. Levantei-me e peguei o livro Maria Antonieta, fui ao banheiro e li até as quatro da manhã, quando então senti sono e voltei a dormir.

Acordei assustado com o toque da corneta e ainda com muito sono, mas tive que me levantar assim mesmo.

Desde cedo os colegas comentaram que hoje é o dia do júri do Ayres, “O Japa”.

Recebi a cópia do recurso que o Dr. Rodolfo fez. Li e espero que possa surtir algum efeito. A leitura me deixou nervoso e ansioso; não vou ler mais.


40508FEV07, quinta-feira.
“Como sempre na sua vida, os amigos foram para ela mais fatais que os mais rudes inimigos.”

(Stefan Zweig)


O jornal matutino da TV Globo mostrou cenas de violência praticadas pela policia militar. Isso me deixou nervoso e é em razão disso que se justifica o meu ódio pelos militares.

Tivemos hoje o indesejável “Arrebento”; tivemos nossos armários revirados e nossos pertences jogados ao chão. Este comportamento legal e corriqueiro nas prisões é extremamente humilhante, por isso é que faço questão de não ter muitas coisas no meu armário. Tudo o que posso mandar embora, eu mando. É triste você ver um livro seu sendo jogado e pisoteado por esses vermes militares.


40609FEV07, sexta-feira.
“Aquela que tinha nascido em um palácio imperial, habitava agora uma cela estreita, meio subterrânea, quase escura e gradeada de ferro.”

(Stefan Zweig)


Só hoje de manhã é que percebemos que ontem nos foi levado a extensão elétrica do televisor e agora não tínhamos como ligá-lo.

Em razão da revista de ontem, o César quis realinhar os armários e isto foi motivo de discussão entre ele e o Levorato, pois este último dormia e não gostou de ter sido acordado com o barulho feito pelo César. Eles quase se pegaram e foi preciso a intervenção do Cabo César e do Soldado Farias para contornar a situação. Todo “Arrebento” causa desequilíbrio entre os internos.


40710FEV07, sábado.
“Aquela que precisava de trezentos vestidos novos cada ano, era obrigada a emendar, com os olhos quase cegos de tanto chorar, a bainha de sua rasgada saia de prisioneira.”

(Stefan Zweig)


Recebi uma carta de casa noticiando-me o falecimento do senhor Antônio Cruz; fiquei triste, pois eu o conheci e até doei sangue para ele certa vez.

Um novo colega integra o alojamento quatro a partir de hoje; é o Tenente Roberto, de Itu. Na verdade, ele está conosco desde ontem à noite e ele me disse que fez academia junto com o Paulo Cirino de Maracaí. Ele me confidenciou que não gostava do jeito do Cirino. Nada acrescentou para justificar sua antipatia pelo meu colega maracaiense.

Inacreditável o que me aconteceu hoje quando eu passava pela portaria, pois qual foi a minha surpresa quando cumprimentei a Soldado feminino Herraiz em francês e ela, com toda a naturalidade, falou comigo em francês. Percebi que ela conhecia a língua francesa e me disse que estudou até bem pouco tempo.

Amanhã meu filho completará dezoito anos e espero que ele comece a estudar para tirar sua CNH. Isso será bom porque ele poderá sair com o carro e passear com sua mãe, além do que será muito importante pra sua vida.


40811FEV07, domingo.
É dia do aniversário do meu filho! 18 anos!
Joyeux anniversaire,

Union et paix; toujours!

Nouvelle vie à chaque matin;

Inventer, créer et grandir en

Ordre avec la nature!

Respecter toujours tes parents,

toi-même et Dieu!
(Duda)
Depois de bem dormir e ter sonhado com o “Zé” e com sua amante, acordei sem entender por que tenho dado tanto ouvido a ele a ponto de sonhar com a amada dele. Que absurdo! Ela me pedia para fechar o seu vestido na presença do colega. É claro que não fechei; abri os olhos assustado e me sentindo culpado.

Há tempo que ouço falar do B.O do “Datena”, mas não gosto de comentar a vida dos outros. Ocorre que esta história é um tanto bizarra, pois dizem que o colega acabara de sair de uma igreja com sua esposa e filha e num cruzamento da cidade de Presidente Prudente, o “irmão” e futuro Pastor não hesitou em sacar a sua pistola e detonar o “cara” que abalroou o seu veículo. Ele é um gordinho simpático, mas perde a paciência por muito pouco. É visível o seu estado de desequilíbrio emocional diuturnamente. Ele se irrita com pouca coisa e é ignorante de pai e mãe.


40912FEV07, segunda-feira.
“Toda criança se sente mais à vontade entre gente ignorante que entre gente educada.”

(Stefan Zweig)


Os sonhos que tenho com a minha cidade me deixam perturbado e não sei se isso é um bom presságio ou não. Quando voltarei a ver suas ruas e seu povo medíocre? Em Maracaí tudo é belo, tudo é divino, tudo é grande, só seus homens é que são pequenos.

Recomeço o trabalho à noite esta semana e gosto porque o dia passa mais rápido e também porque não preciso entrar em forma e cantar esses hinos militares que tanto me irritam. Maldito Romão Gomes; você merecia este hino sem graça e horroroso. E que vá você “transformar espinhos em flor”!


41013FEV07, terça-feira.
“Morro na religião Católica Apostólica Romana, na de meus pais, naquela em que fui criada e que sempre professei.”

(Maria Antonieta)


Estou indignado com os resultados obtidos pelo meu advogado, aliás, ele não tem obtido resultado nenhum. Vou escrever a ele pra manifestar meu descontentamento com seu trabalho. Penso até em desistir dos seus préstimos e nomear um advogado do Estado, já que é pra ser tão moroso assim, antes não pagar. É bem verdade que o pagamento é bem pouco através da Associação, mas deveria surtir efeito. Temo apodrecer aqui neste lugar.

À noite eu comunguei e o Cristo renovou minhas forças para a luta renhida do dia-a-dia.


41114FEV07, quarta-feira.
“A vida ela não podia mais salvar, bem o sabia; que se salvasse ao menos a honra. Não demonstraria nenhuma fraqueza.”

(Stefan Zweig)


A tristeza aqui é senhora de todos os dias! Não dá pra acordar feliz na prisão. Os momentos que não me sinto preso são quando durmo, leio, escrevo ou me ponho a cantar. Do contrário, sinto-me no claustro escuro e insano.
Não sei por que proibiram o Roberto de sair do alojamento. O que será que aconteceu? Não dá pra entender as decisões desses malditos e infelizes militares. Eles sentem prazer em nos humilhar diuturnamente. Por quê?

As coisas não andam boas para o César; é o que se comentou hoje e suspeita-se que ele vai voltar pro primeiro estágio. O “cara” não se emenda! Bem feito pra ele!


41215FEV07, quinta-feira.
“A gigantesca Praça da Revolução, a que hoje é a Praça da Concórdia, estava negra de gente. (...) Os seus pés ágeis, calçados de sapatinhos de setim preto de tacões altos, subiram aquela última escada com a mesma graça ligeira com que tinham subido os degraus de mármore de Versailles.”

(Stefan Zweig)


Congratulations dans ce jour très charmant

Incomparable femme de mes derniers jours!

Dieu soit avec toi

Aujourd’hui et toujours, mon amour!

(Duda)

É aniversário de minha mulher e eu escrevi estas palavras acima em homenagem a ela; são 41 anos, dos quais, quase vinte ao meu lado. Obrigado por me suportar.



Será que todo mundo tem os defeitos que tenho? Não exatamente os mesmos, mas alguns dos meus? Até que ponto tenho o direito de escrever o que sinto em relação aos outros e falar tanto mal da PM? Serei um ingrato por “cuspir no prato que comi” e que ainda como? Eu me justifico dizendo que não odeio tudo na PM, mas o regime é insalubre e hostil com os seus homens e a perversidade de alguns oficiais, e mesmo praças, que se acham “deuses” me dão ódio. A escola militar para crianças eu acho salutar, o civismo, as lições de patriotismo, etc. Agora, condeno o serviço militar obrigatório, pois penso como Einstein: “É o Estado pelo homem e não o inverso.”
41316FEV07, sexta-feira.
“Nulla crux, nulla corona”
“Com 38 anos foi decapitada na guilhotina sob olhares da multidão, na Praça da Revolução, em Paris, a Rainha da França Maria Antonieta.” (16 OUT 1793)

(Stefan Zweig)


O término de um livro é sempre desagradável porque sinto que é como um amigo que está de partida pra não mais voltar, muito embora eu tenha reencontrado com vários “amigos livros” aqui na prisão; Memórias Póstumas é um deles. Gosto de reler os livros que não fiz uma boa leitura pela primeira vez; daí eu ter relido o Vermelho e o Negro de Stendhal; agora em português.

Amanheci com fortes dores nas costas e não sei qual a razão. Acho que a friagem e o calor são responsáveis pelo choque térmico e a partir daí é que surgem estas inexplicáveis dores.

O Guto foi embora hoje. É Carnaval e todos acreditam que o colega não vai resistir às drogas e que logo estará de volta; eu penso o contrário. Nenhum louco, exceto o colega “Pedrinha” que vai querer voltar pra este lugar.
414 17FEV07, sábado.
“Para destruir um pesadelo, a única solução é acordar.”

(Líbano Silva de Carvalho)


Após a morte de Maria Antonieta, comecei a me relacionar com Carlota Joaquina; outra grande mulher da história.

O que seria de mim se não fossem os livros? Eles são os meus melhores amigos do cárcere, indubitavelmente! Os livros nos ensinam sem nos ser arrogantes e prepotentes, não têm pressa de nos adestrar e flui como um rio manso nos conduzindo ao mundo imaginário das fábulas e dos contos fantásticos. É assim que eu me deixo adormecer nas páginas sábias dos grandes mestres da literatura mundial e por momentos esqueço que é dor a dor que deveras sinto.

É Carnaval em São Paulo! Eu continuo na prisão e sem perspectivas de sair.
41518FEV07, domingo.
Ontem à noite eu me descontrolei quando conversava com o Professor Bianchi no exato momento em que ele se referiu ao meu salário da PM. Todos pensam que eu apliquei um golpe no Estado fingindo ser portador de uma doença mental que não tenho. Reconheço ser portador de uma doença mental que pode mesmo ser Esquizofrenia, aliás, acredito que este seja um mal da maioria dos militares em razão do serviço a que estão sujeitos.

Tentei fazer que ele compreendesse que o Estado é que me causou tal mal e que é obrigação dele reparar o mal que me causou. Eu jamais iria mentir por um salário tão medíocre, pois provei a mim mesmo que sou capaz de ganhar muito mais como professor de francês. E já ganhei.

Eu não vivi a minha vida toda com o salário da PM; tenho 43anos e só fui PM por cinco anos e estou aposentado há seis anos. Isso significa que tive de sobreviver os demais anos de minha existência sem o soldo da PM. De 1991 a 2001 eu não tive salário do Estado e não morri de fome; nem minha mulher e filho. Não sei por que se preocupam tanto com o meu pagamento!

Outros até sugeriram que eu doe o meu salário, já que eu detesto a PM deveria detestar o salário que ganho. Aí sim eu seria um perfeito idiota, um louco, um estúpido, etc.

Que esses malditos cuidem da vida deles. Odeio que toquem neste assunto de salário comigo. Eu não me preocupo com a vida de ninguém.

O domingo não me apresentou nada de novidades.


41619FEV07, segunda-feira.
“A loucura, Carlota, é força! Faz com que a vida se torne mais suportável e traz alívio à maçante realidade, à realidade sórdida.”

(F. W. Kenyon)


Estou lendo o livro “Nunca uma Santa”, de F. W. Kenyon, que conta a história de Carlota Joaquina da Espanha que foi esposa de D. João, o Rei de Portugal.

Que segunda-feira sem graça e entediante!

41720FEV07, terça-feira.
“Aqui no Brasil hei de encontrar a paz e a compreensão que me darão meios para melhor exercer meus reais deveres.”

(D. João)


Trabalhar uma semana durante o dia e outra à noite não está me fazendo bem; sinto me cansado o dia todo. O pior é que não quero mudar de trabalho porque este é um dos melhores trabalhos aqui nesta maldita prisão. Eu não quero voltar a limpar o chão desses miseráveis. Pelo menos aqui tem bolo, mussarela, presunto, ovos, etc, que podemos comer “à la volonté”.

418212FEV07,quarta-feira.


“Humildade? Nunca fui humilde.”

(Carlota Joaquina)


Fui sequestrado da minha família. É assim que me sinto entre pessoas que nunca vi e jamais poderia imaginar a existência delas. Seres desumanos que praticaram os mais cruéis assassinatos, roubaram, violentaram pessoas indefesas, estupraram, e etc.

Onde estão os meus sonhos? Meu filho, mulher, meu gato, meus livros, meus CDs, meu carro, minha vida, minha liberdade, meu Deus? Onde?

Li dois contos de Edgar Alan Poe nesta manhã; O gato Negro e Berenice. Escrevi cartas e caminhei pela quadra como de costume. À tarde fui trabalhar. No trabalho, recebemos a visita do Major Spinieli que nos informou que os uniformes estão prontos e que deveremos usá-los.
41922FEV07, quinta-feira.
“Que o diabo leve Portugal para o meio do inferno. Minha Pátria é o Brasil.”

(D. Pedro)


Que tristeza! Que angústia! Que desilusão!Que sofrimento! Que dor de cabeça! Assim iniciei o dia. Mil pensamentos; maus pensamentos que jamais vou realizá-los porque sei que não sou capaz disso tudo, não por covardia ou medo, mas porque Deus não me deu este papel no grande teatro da vida. Há tantos aqui que cometeram crimes hediondos e não resolveram seus problemas, ao contrário só aumentaram ainda mais.

São quase quatorze meses na prisão e nada de solução, e a injustiça permanece. Ninguém parece se incomodar comigo; jogaram-me aqui e esqueceram-me. Esses homens insensíveis da Justiça nunca passaram pelo cárcere e por isso não sabem o frio que aqui faz. Não falo do frio, mas do frio d’alma.

Mostre-me o caminho, meu Deus, pois estou perdido! Dá-me a fé do meu colega Roberto.

42023FEV07, sexta-feira.


“Diga que minha alma viverá para sempre em Portugal. Diga ao povo que eu me tornei uma espécie de símbolo, um símbolo sagrado, um símbolo vivo. (...) Diga que eu morri exatamente como vivi, com coragem. Sem medo de nada!”

(Carlota Joaquina)


O Roberto Arruda tem me surpreendido com a intensidade de sua fé. Não vi nenhum outro orar com tanta expressão de fé como ele e com tamanha assiduidade. Que Deus abençoe suas orações e atenda os seus pedidos; amém!

E no momento em que o colega Arruda orava e eu escrevia meu diário, o Tenente Yurio entrou e saiu do alojamento como um rato; sorrateira e rapidamente. Um verdadeiro rato!


42124FEV07, sábado.

“Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem.” (O Gato Preto)

(Edgar Alan Poe)
O demônio deita e rola aqui no PMRG. Briga-se por pouca coisa; vivemos uma guerra fria. São provocações de todos os lados, mas ninguém se atreve a resolver no braço as suas picuinhas com o outro; ou seja, são covardes.

Já é domingo e eu não consegui dormir até agora; são quase três horas da manhã e eu ouço o relógio da igreja soar a cada trinta minutos. Quase todas as manhãs são assim, tenho insônia.

42225FEV07, domingo.
“Quando quero saber até que ponto alguém é inteligente, estúpido, bom ou mau, ou quais são os seus pensamentos, modelo a expressão do meu rosto e, depois, espero para ver quais os sentimentos ou pensamentos que surgem em meu cérebro ou em meu coração, para combinar ou corresponder à expressão.” (A Carta Roubada)

(E. A. Poe)


Aos domingos eu gosto de ver os programas da Inezita Barroso e do “Sr Brasil” com Rolando Boldrin, isso quando me permitem. E neste domingo eu tive o prazer de ver a cantora Isabel Padovani de Campinas cantando no programa do Boldrin.

Linda! Verdadeiramente linda! E que voz! Em seguida vi Luca cantando Paulinho Nogueira. Simplesmente maravilhosa!

Todavia, o ponto alto do domingo foi a minha reconciliação com o Professor Bianchi após aquela estupidez de minha parte. É bom tê-lo como colega; é um dos poucos com quem se pode ter uma boa conversa.
42326FEV07, segunda-feira.
“Facilis descensus averni”

(E. A. Poe)


Sonhos tenebrosos têm povoado minhas noites. São sonhos de vingança e temo não saber controlar minhas emoções ao sair daqui. Vou precisar de muita ajuda para não cometer mais burradas na minha vida.

Outros colegas vieram morar no alojamento 04; o Alécio e o Alberto “Pagodeiro”


42427FEV07, terça-feira.
“O malandro da cidade procura os arredores da capital, não por amor à natureza campestre, que, no íntimo de seu coração, despreza, mas como um meio de fuga às repressões e convenções sociais. Não deseja o ar puro e o verde das árvores, mas a liberdade completa do campo. Então, na taberna de beira de estrada ou à sombra dos bosques, entrega-se, sem que o vejam outros olhos senão os de seus companheiros, a todos os excessos de uma falsa alegria, filha da liberdade e do álcool.” (Os crimes da Rua Morgue)

(E. A. Poe)


Sei que há sempre uma coisa boa para acontecer na vida de cada um de nós, desde que assisti à novela “Chocolate com Pimenta”. De lá é que furtei este lindo pensamento e ficarei em débito com o novelista porque não me recordo seu nome; não sou um plagiador barato. Sou um principiante n’arte literária, nunca um ladrão de idéias.

O Tenente Yurio quis saber o porquê do cheiro estranho que tem a padaria e nós lhe explicamos que é o cheiro do fermento. Engraçado foi a maneira que ele perguntou: “De onde vem este cheiro de Bos..que?”, disse ele.

Ele comentou sobre alguns internos que já tiveram suas mãos presas no cilindro e alertou-nos para que tomássemos cuidado e depois saiu.

Teríamos missa com o PE Marcos Vinícius nesta terça-feira à noite, mas ele não pôde vir. E nesta mesma noite ouvi o “Zé” dizer que se apaixonara por Inês. Isso quer dizer que lá vem mais histórias românticas!


42528FEV07, quarta-feira.
Este meu diário mais parece um tratado sobre a hipocrisia e a covardia humana, pois nunca vi tantas pessoas vis e servis arrebanhadas num só lugar. Parece que vivo num grande depósito de lixo humano; lixo da pior qualidade, não reciclável.

O “Kid Loucura” determinou que o César retirasse todas as suas fotos que estavam coladas nas portas dos armários. O idiota do César tinha essa mania de colar as fotos de seus familiares nas portas dos armários, o que fazia o alojamento parecer um estúdio fotográfico. Era de fato, uma poluição visual desagradável.

E conforme havia dito o Major, recebemos os uniformes para serem usados na padaria. Ninguém gostou, mas sabemos que no militarismo ordens não se discute; teremos que usá-los. São uniformes brancos e eu já estou preocupado porque terei que lavar!

O Décio passou a integrar o alojamento quatro; agora somos sete.


42601MAR07, quinta-feira.
O colega Arruda me emprestou um livro para eu ler cujo título é Deus no Limite, de Nilles Elliot Goldstein.

Além de ser um colega de muita fé, ele também se mostra muito interessado em aprimorar seus conhecimentos em Direito e outras leituras. Ele me disse que é formado em Direito e que, se não continuar na PM, irá advogar.

Recebi a visita do Dr. Jorge que me trouxe informações nada animadoras sobre o meu processo e é por isso que as coisas não caminham.
42702MAR07, sexta-feira.
“Ninguém na prisão tem culpa de nada. Logo aprendi isso. Todos têm uma explicação diferente para o motivo pelo qual estão atrás das grades: engano de pessoa, cilada, lugar errado na hora errada ou qualquer outra coisa.”

(Nilles Elliot Goldstein)


A convivência entre criminosos não é fácil. A maioria tem comportamento ridículo e desprezível, não respeita o outro, não é solidário e cria confusão por nada. Agride verbalmente o outro e não mostra arrependimento. Se a prisão não for o inferno na terra, é a ante-sala dele.

Os internos são homens pequenos em todos os aspectos. Aqui se vive numa constante guerra fria; são provocações e ameaças constantes.

Observei, desde há muito tempo, que os presos têm muito zelo por seus familiares e ai daquele que ousar constranger a família do colega, mesmo sem intenção. No domingo não se permite circular de short pelo corredor, pois se algum interno o fizer, correrá um grande risco. De onde vem tanto pudor? Por que é que eles têm tanto ciúmes do colega preso? Será que nunca foram à praia com suas esposas, filhos e filhas? Será que se sentem ameaçados pelo colega preso? Se forem homens desconfiados e ciumentos, pois que não permitam a visita de suas esposas.

Conheço muito bem o perfil do homem militarizado e sei que eles adoram ser admirados e em razão da farda são galanteadores e exímios sedutores. Sei que não respeitam as famílias dos outros e muito menos as jovenzinhas incautas. Eles adoram destruir lares se aproveitando da ingenuidade das meninas. Eles as seduzem, as engravidam e depois as abandonam. É comum vir militar preso por não pagamento de pensão alimentícia. Portanto, são homens da pior espécie.


42803MAR07, sábado.
“Pode ser necessário um confinamento para nos fazer passar pela experiência do renascimento.”

(Nilles Elliot Goldstein)

Manter um bom relacionamento com os policiais que aqui trabalham é muito interessante porque eles podem nos ser úteis. Por isso procuro tratá-los com muito respeito e educação. A Dilaine tem se mostrado muito simpática e boazinha comigo e tem entregado as minhas correspondências antes mesmo dos outros. Toda noite quando desço para trabalhar na padaria, eu passo pela seção penal e ela entrega as minhas correspondências.

A Dilaine, além de ser muito educada, é dotada de uma beleza ímpar. Todos se simpatizam com ela e percebo também que todos a olham de maneira a desejá-la. É impossível aproximar-se dela sem sentir o cheiro bom que vem de seu corpo perfumado. Ela é atraente, sedutora e bela.

42904MAR07, domingo.
“Jonas encontra Deus, não no alto de um pico majestoso varrido pelo vento, não em um lugar de beleza e conforto, mas nos extremos, em um reino de medo, sombras e sujeira.”

(Nilles Elliot Goldstein)


As intrigas dominicais são sempre as mesmas. Os presos que não têm visitas são proibidos de descer as escadas, exceto no horário do almoço. É proibido “curiar” as visitas dos outros.

O domingo só é bom pra mim após o término das visitas porque sempre ganho frutas, doces e refrigerantes. À noite, sempre tem muita coisa para ser comida; eu tiro a barriga da miséria sem qualquer custo. É verdade que sempre lavo as vasilhas e faço a limpeza do alojamento logo após a ceia dominical; é uma forma de pagar pelo que comi. Neste domingo comi arroz à grega, salada, macarronada, frango assado, carne e etc. E como sobremesa, bolos, frutas e iogurtes.


43005MAR07, segunda-feira.
“Exatamente quando pensamos que temos tudo sob controle, Deus torna toda esta sua luz em trevas.”

(Nilles Elliot Goldstein)


Ontem o César teve um acesso de cólera porque ninguém o ajudou a montar a lona e me parece que ele se livrou dela. Acredito que ele tenha dado pro pessoal da subseção, o que deixou o Levorato furioso.

Fizemos pizza na padaria hoje e comemos, eu, o Alves, o Anderson e o Corneteiro.

43106MAR07, terça-feira.
“Toda experiência dolorosa, ainda que tenha um agente humano como causa aparente, tem, na verdade, conexão com Deus, que é a fonte de todas as coisas.”

(Nilles Elliot Goldstein)


Teremos missa hoje porque o padre não veio na terça-feira passada; eu irei.

Na tarde de hoje, os colegas “Ursão” e Barretinho foram transferidos para o sistema, ou seja, para a prisão comum de Tremembé. Quando isso acontece todos ficam apreensivos e temerosos.

O colega “Zé” confidenciou-me um segredo seu e pediu que eu não colocasse no meu diário, por isso vou guardá-lo só para mim, até que eu sinta vontade. Ele só pode ser louco!
43207MAR07, quarta-feira.
“Aquilo que não o mata só pode torná-lo mais forte.”

(Nietzsche)


Se o calor aqui no segundo estágio foi insuportável ontem à noite, como não deverá ter sido na subseção? Lá o espaço é bem menor e menos arejado. Não há ventilação no X e o pior deles é o X-3. E como passarão o Barretinho e o “Ursão” lá em Tremembé?

O tempo parece não passar na prisão e as coisas parecem não mudar. A rotina nos absorve de tal maneira que a gente não consegue imaginar as quantas anda o mundo lá fora. E pensar muito sobre isso nos angustia e nos deixa deprimidos. Não consigo me concentrar nas leituras quando estou deprimido.

Nesta manhã eu fui repreendido quando estava em forma, pelo tenente Yurio que se dirigiu a mim e perguntou-me: “Você está com algum problema”; não, respondi, e por que eu teria problemas? Ele me ordenou que fizesse um “descansar” mais enérgico e eu o fiz, perguntando a ele em seguida se estava bom; ao que ele respondeu: “Agora melhorou.”

Logo após o término da revista da subseção, nós voltamos a conversar na quadra e eu lhe expliquei que estava desconcentrado no momento em que ele me repreendeu. De fato eu não realizei a ordem de comando com vigor; daí tudo se resolveu.

O que de bom aconteceu hoje foi ter visto o show de Elza Soares na TV Cultura. É pena que o homem militarizado, em sua maioria, é imbecilizado e avesso à cultura e quando a gente quer ver um bom programa de TV, tem sempre quem quer nos impedir.
43308MAR07, quinta-feira.
“Nada é limpo na Terra da Policia.”

(Nilles Elliot Goldstein)

Inacreditável! Nesta manhã eu fui elogiado diante da tropa. O Batalhão esteve reunido para homenagear as mulheres por este Dia Internacional da mulher e elogiaram-me em Boletim Interno juntamente com outros colegas de padaria, pela excelente qualidade dos pães que fazemos. Eu que só fui elogiado uma única vez em serviço, agora o sou na prisão. Ontem humilhado, hoje exaltado; a vida é mesmo ilógica.

Jogaram farelos de pão sobre a “jéga” do César e ele ficou irritado. Isso foi feito porque o porco do César tem o hábito de comer sobre a mesa e não limpá-la; ontem eu vi que ele deixou a mesa suja e por isso devem ter jogado a sujeira na cama dele. O César desconfiou ter sido o Décio; eu tenho certeza que foi.

O senhor presidente George W. Bush está em São Paulo.
43409MAR07, sexta-feira.
“Deus está: não apenas na luz, mas nas trevas. Não apenas nos êxtases da alegria, mas no coração da dor. É fácil demais ter fé quando a vida está boa.”

(Nilles Elliot Goldstein)


Há alguns dias atrás um colega denunciou outro que tinha um Ipod e este perdeu o seu aparelho; eu não me lembro bem quem denunciou e quem foi o denunciado, só sei que os envolvidos foram o senhor Mello e o Ednan, acredito que este último tenha denunciado o primeiro. É bem o feitio dele.

O presidente dos Estados Unidos está de olho no nosso Etanol e o povo brasileiro não vê com bons olhos este interesse no nosso combustível. Os especialistas no assunto dizem que comercializar o nosso combustível poderá nos trazer consequências desagradáveis, ou seja, teremos que pagar mais caro por um produto essencialmente brasileiro.

Comentou-se o dia inteiro sobre a chegada de um colega que foi preso sob a acusação de ter praticado mais de quarenta estupros. Eu o vi esta manhã sendo escoltado por três policiais e uma policial feminina ao seu lado; ele estava algemado e o Cabo Ervin o puxava pelas mãos como um cachorro. Ele estava aparentemente espantado e amedrontado; parecia estar em choque. O destino foi irônico com o colega estuprador, pois ele foi preso no Dia Internacional da mulher após violentar mais de quarenta delas e agora é uma mulher que o escolta. É a mais linda das policiais femininas do presídio; a bela Borsodi. Ainda hoje, após o meio-dia, correu o boato de que o estuprador tentou se suicidar. O nome dele é Davi Bonatto e morava em Ribeirão Pires.

O senhor Davoli foi embora hoje.


43510MAR07, sábado.

“A vida não é sempre alegre e segura, que o terror a perdição, o aniquilamento moram ao lado.”

(Nilles Elliot Goldstein)
Ao entrar no alojamento esta manhã, logo após ter lavado minhas roupas, não percebi que o colega César estava atrás da porta e quase o atingi. Ele ficou furioso e me disse que se eu lhe tivesse acertado o nariz, ele quebraria as minhas costelas. Senti vontade de rir porque um merda daquele jamais conseguiria tal proeza. Além do mais eu não tive a intenção de machucá-lo porque nem poderia imaginar que ele estivesse atrás da porta; eu não consigo ver através da parede.

43611MAR07, domingo.


“Cada um de nós deve encontrar o seu próprio caminho. (...) Nossos encontros com o divino, e com as nossas próprias almas, não tem que ocorrer nos portos seguros das igrejas ou das sinagogas. Podem ocorrer em lugares que são inquietantes, em lugares de agitação e, por vezes, até de sofrimento.”

(Nilles Elliot Goldstein)

Está de volta à prisão o “Guga” que saiu em liberdade no início do ano passado. Ele foi absolvido pelo crime de roubo, após passar mais de três anos na prisão. Eu me lembro dele muito vagamente porque ele saiu sem que eu tivesse a oportunidade de falar com ele. Sei que todos o respeitavam por ele ser o mais antigo da subseção e o mais temido de todos, pois diziam que ele é extremamente violento e impiedoso. Que é um matador obsessivo, muito embora não tenha sido preso por homicídio. Ele retornou por ter praticado o mesmo crime; artigo 157.

A minha irmã veio me visitar neste domingo e me trouxe bolo de chocolate, alguns lanches e refrigerante. Apresentei a ela o colega Rovilson que sempre me presta alguns favores lá fora porque ele é do semi-aberto, inclusive é ele quem liga para ela quando eu peço. Ele sentou conosco e conversou com a Marcilia.

A Marcilia me disse coisas desagradáveis e eu tive que manter o equilíbrio para não me desentender com ela. Ela insinuou várias vezes que eu estava de olho nas casas da mãe e quis saber quais eram minhas intenções em relação às casas, já que nossa mãe morreu. Eu disse a ela que este não era o melhor momento para se falar disso e nada mais falei. O domingo poderia ter sido melhor.
43712MAR07, segunda-feira.
“Seja forte e tenha coragem, Deus está tão presente nas trevas quanto na luz.”

(Nilles Elliot Goldstein)


Ouço com frequência as histórias dos internos que, assim como eu, não gostam do regime militar. Há poucos dias ouvi o Alberto me dizer que os homens militarizados são mesquinhos, covardes, perversos e invejosos; nada que eu já não soubesse. E continuou: “Se você é um subordinado e tem um carro melhor que o seu superior, pode ter certeza que ele irá persegui-lo.” De fato, nenhum superior militar se sente bem ao ver o seu comandado melhor que ele. Neste regime maldito os “superiores” acreditam que são mesmo superiores e não admitem serem inferiores em nada, mesmo sendo.

Falei com um juiz militar e ele me disse que já solicitou o meu exame psiquiátrico e que agora eu devo aguardar o comunicado do médico. Talvez em abril eu possa ser avaliado novamente e ai então deixar a prisão.

Toda vez que eu falo com o juiz militar há sempre alguém curioso pra saber o teor de minha conversa e eu sempre acabo dizendo. Dessa vez eu não deveria ter dito por que percebi que os colegas torcem para que nada dê certo, ou seja, para que eu continue preso. Da próxima vez não lhes direi nada.

Houve mudanças na padaria e o Anderson não está mais na equipe. O Levorato queria integrar a nossa equipe, mas eu e o Alves não aceitamos.

Houve também um “arrebento” no alojamento cinco feito pelo Sargento Lino e outros policiais.
43813MAR07, terça-feira.
Meu Deus! A policial Borsodi chegou em grande estilo esta manhã toda de rosa e com um boné rosa. Exibicionista! Ela adora se exibir e arrancar elogios de quem a vê; ela é realmente linda.

Fiquei feliz ao rever o “Pé-de-pano”, o cavalo comedor de pães está de volta para a alegria dos colegas padeiros que gostam de alimentá-lo com pães secos todas as manhãs, mesmo contrariando as determinações do comando.

Ainda que eu goste mais do “Pé-de-pano” do que dos militares, jamais deixo de tratá-los tão bem quanto ao nobre quadrúpede. Todas as madrugadas eu tenho o hábito de oferecer um cafezinho quente pros guardas e quando o frio é mais intenso sempre lhes ofereço um chocolate quente.

Todos os meus colegas sabem da minha paixão pela apresentadora Mariana Godoy e acham que eu tenho razão em admirá-la. Todas as manhãs eu vou ao alojamento cinco para assistir o Bom Dia São Paulo apresentado por ela. Ela é a mais linda apresentadora dos telejornais.

43914MAR07, quarta-feira.
É comum acordar e ouvir a célebre frase já consagrada por todos: “Eu não estou aqui para agradar ninguém.” Esta frase serve para que estes infelizes justifiquem sua estupidez, ignorância e maldade. Aqui não se conhece as palavras respeito e solidariedade.

Ontem o colega Belém foi embora. Ele é um típico santista metido a carioca e eu sempre lhe dizia isso. Ele gostava de mar e de surfar; é um garotão tranquilo como todo carioca malandro.

À noite, no Jornal Nacional, assisti à reportagem da jovem Priscila Aprígio que levou um tiro e que ficou paraplégica.
44015MAR07, quinta-feira.
Um novo colega passou a integrar a nossa equipe de padaria; agora somos eu, o Alves e o Vasconcelos. Ele parece gostar de limpeza, mas como todo fumante pareceu-nos um folgado porque a cada quinze minutos está com um cigarro na boca. Tivemos que pedir a ele que não fume no interior da padaria e nem durante o serviço. Explicamos a ele que o trabalho não pode ser interrompido para que ele possa fumar; só após o trabalho pronto é que ele poderá fumar lá fora.

O colega Fábio que havia subido para o segundo estágio foi regredido para o primeiro estágio, mas eu não sei o porquê.

Hoje eu comecei a estudar os reis da França desde Luiz I até Luiz XVIII.
44116MAR07, sexta-feira.
Um dia comum e sem nada de importante para tomar nota, exceto mencionar a saída do colega Oliveira que orava com o Datena e o Araújo.

E também dizer que ouvi o Alessandro tocar e cantar Djavan no corredor; até me atrevi a cantar com ele.


44217MAR07, sábado.
Vi na televisão uma manifestação dos artistas que protestavam contra a violência defronte à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Eles se deitaram no chão como se estivessem mortos, cobertos com sacos plásticos pretos e com velas na mão.

Cada interno tem sua maneira de passar o tempo; o Alberto “pagodeiro” está fazendo uma Land-Rover, uma espécie de carrinho de madeira parecido com esta camionete. É toda de madeira com detalhes em metal; têm até motor. Eu não tenho habilidade e nem paciência para isso, prefiro escrever, ler e observar.


44318MAR07, domingo.
É triste ver os semblantes dos colegas ao amanhecer. Todos acordam de mau humor, uns carrancudos, outros sonolentos, outros embrutecidos, e eu a observá-los, mas não menos triste.

Aos domingos de manhã eu sou bastante procurado porque todos querem as minhas pedras de gelo, pois sabem que eu as tenho e que não irei usá-las. Todavia, não dá para agradar a todos.


44419MAR07, segunda-feira.
Eu e o Roberto Arruda fizemos uma “lotofácil” através do colega Rovilson e estamos acreditando na possibilidade de ganharmos um dinheiro na prisão. Até comentamos que seria muito bom se isso acontecesse, já que vivemos só tristezas nesses últimos dias.

O colega “Trinta” está feliz porque soube que irá para o regime semi-aberto. Isso quer dizer que ele poderá passar o dia das mães ao lado da sua mãe que está doente. É importante que eu diga que quando o conheci eu pensava que ele fosse um camarada violento, mas eu o vi chorar de alegria ao lado do Alves ao saber da boa noticia.


44520MAR07, terça-feira.
Fomos surpreendidos, nesta manhã, eu e o César, rezando em Árabe. O maluco do César me fez entrar nesta brincadeira idiota dele exatamente quando o Tenente Yurio entrou no alojamento para a revista matinal; fiquei com cara de idiota e o Tenente riu de nós.

Somos sete no alojamento que era para ser exclusivo dos roncadores. São cinco homicidas, um ladrão e eu. Somos: eu, o Alécio, o Décio, o César, o Roberto, o Levorato e o Alberto, este último foi acusado de roubo.

O senhor Antônio e suas filhas não vieram orar conosco. Eu, o “Martelinho” e o Vanderlei rezamos.
44621MAR07, quarta-feira.
O Dias me pediu que eu escrevesse algo pra uma criança que vai nascer e que se chamará Isabella. Eu fiz um acróstico lindo, mas não fiquei com a cópia.

Nem sei como surgiu o nome do Tenente Edson, o vulgo “perna-de-moça”, na nossa conversa e de repente eu ouvi horrores a respeito dele ditos pelos seus colegas oficiais presos, o Belarmino e Arruda. Ele deve ter tido algum tipo de envolvimento homossexual com um “tal” de Vargas que hoje é um policial federal e submeteu esse jovem a todo tipo de humilhação, foi o que eles deixaram subentendido. Também insinuaram que ele teve um relacionamento com uma aluna dele da Academia Militar. E esse porco maldito se acha melhor do que eu e muitos! Esses malditos oficiais da PM se sentem no direito de transar com todas as policiais femininas que lhes são subordinadas; e que o diga o Major Spinieli.

Os meus leitores vão achar que sou um delator insano e que deverei pagar caro pelas denúncias deste meu diário, porém isso não me aterroriza. Eu já paguei por coisas que não fiz e vou adorar pagar pelas verdades que estou a narrar. Esses que nos condenam são seres abjetos e vis e que deram sorte até agora; o dia deles chegará! E eu estou certo disso como dois e dois são quatro. O Delegado, o investigador, o escrivão, o Promotor, a juíza, o Soldado Palharini, etc, vão pagar pelas maldades que me fizeram. Aguardem! O meu DEUS nunca me abandonou. Ele é justo e implacável!

44722MAR07, quinta-feira.


Embora sejamos policiais ou ex-policiais, cada um de nós tem paixões distintas. O Alécio gosta da vida campesina e se mostra muito interessado em adquirir novos conhecimentos. Ele é profundo conhecedor da história do Brasil e conhece muito sobre as revoluções internas desde as mais antigas do tempo do Brasil colônia. O Levorato demonstra ser um pai amoroso com suas três filhas, parece ser avarento e gostar muito do que não lhe pertence, ou seja, é um aproveitador. O Roberto Arruda é um colega diferenciado, inteligente e observador. Ele fala com muita propriedade, é bastante religioso e sincero. O Décio tem todos os traços de um covarde, de uma raposa velha, de uma serpente pronta para dar o bote. É um camarada que não se pode confiar nem por um segundo.

São muitas as más qualidades dos internos com os quais convivo, mas nem convém citar todos, pois seria perda de tempo já que todos são semelhantes no quesito maldade. Ouvi hoje a história do colega Duque e sua insatisfação com a justiça. Ele confidenciou-me que gostava mesmo de fumar uma maconha, mas que jamais fora traficante. Que no dia da sua prisão ele estava na casa de um colega seu, todavia ele não portava droga e mesmo assim foi acusado por tráfico e já está aqui há um bom tempo. Depois ele comentou sobre mim, dizendo que a minha prisão é mais injusta ainda.


44823MAR07, sexta-feira.
Seria melhor que eu não tivesse vivido esta sexta-feira ou então que eu fosse surdo, pois a história que ouvi hoje foi a pior de todas, a mais nojenta e repulsiva. O colega de padaria, Luiz José Vasconcelos, não devia ter me dito os horrores praticados por ele. Tive que pedir a ele que interrompesse seus relatos porque estavam me agredindo sobremaneira.

Ele começou sua história dizendo-me que foi um verdadeiro demônio enquanto policial militar e que havia feito um pacto com o diabo. Nem devia ter dado ouvidos a ele, mas continuei ouvindo-o. Disse-me que tinha que me revelar algo porque precisava se libertar de alguma coisa e que eu deveria ouvi-lo. Eu sabia através dos outros e do seu crachá que ele está preso sob a acusação de ter praticado estupro contra crianças e isso é revoltante. Na prisão todos detestam os estupradores; pior ainda quando esses criminosos praticam violência sexual contra crianças indefesas.

O Vasconcelos me disse que ele sempre ajudou algumas crianças que não tinham o que comer, o carinho dos pais, que viviam abandonadas pelas ruas, e etc. Ele era como um pai para estas crianças e que as tratava como se fossem o seu netinho. E que ele fora acusado injustamente de ter abusado de uma dessas crianças. Contou-me ainda que o promotor do caso disse inverdades sobre o fato. Segundo o colega, a violência por ele praticada não causou o rompimento entre o ânus e a vagina da garotinha. Quando ele me disse isso, pedi que se calasse imediatamente. Não permiti uma palavra mais. Senti nojo dele e não conseguia encará-lo mais, mas prometi não dizer nada a ninguém.

O simples fato de admitir ter feito sexo com uma criança já foi suficiente para eu repudiá-lo e não havia necessidade de me contar tais detalhes sórdidos e abomináveis. Fiquei estarrecido com tamanha monstruosidade e o pior é que vou ter que trabalhar com esse lixo.

O Anderson, nosso ex-colega de padaria, voltou para o primeiro estágio por causa de uma nova condenação de um antigo processo pelo mesmo tipo de crime, isto é, roubo. Engraçado é que ele costuma dizer que não é ladrão e sim oportunista, e afirma que enquanto existir idiota sempre existirá os espertos.

O Menezes foi embora hoje.


44924MAR07, sábado.
O mesmo ritual de sempre, preparar para receber os familiares no domingo.

Mesmo não gostando de alguns colegas, há momentos que não dá para fugir deles. Hoje conversei com o Décio contra minha vontade porque ele é repugnante e não tem assunto. Ele é um grande mentiroso contador de vantagens, não tem onde cair morto, é metido a valentão, é dedo duro e não tem amigos. È um delator e “puxa-saco”.


45025MAR07, domingo.
Voltei a rever o irmão do Pessoa que é professor de francês e conversamos um pouco. Ele me apresentou sua irmã Marília.
45126MAR07, segunda-feira.
Ontem à noite, o Tenente Domingos surpreendeu o Vasconcelos deitado no chão da padaria após o término do trabalho. Eu expliquei a ele que nós tínhamos permissão para descansarmos enquanto os pães crescem. O Tenente não acreditou, mas saiu sem dizer nada. Em seguida, o Sargento Maurílio veio até a padaria para saber quem estava dormindo e eu voltei a dizer que era permitido. Tudo acabou bem, apesar dos aborrecimentos.

O Mello veio falar comigo a respeito do livro Maria Antonieta que ele está lendo por indicação minha; ele está adorando. Isso me deixou feliz.


45227MAR07, terça-feira.
Há uma força estranha neste lugar que faz com que os internos vivam em constantes conflitos. È preciso vigiar e exercitar a paciência a todo o momento. A tentação é grande e a gente briga por nada.

Eu já estava sentindo falta das histórias do “Zé” e eis que hoje a gente se falou. Ele me disse que está triste porque faz três semanas que ele não vê a Inês. Eu não sabia que ele a vê com interesse. Eu quis saber um pouco mais, mas ele se reservou no direito de não me dizer nada. Esse cara é mesmo maluco. A Inês é uma boa mulher, mas não vai se interessar por um preso. A missão dela aqui é evangelizar.


45328MAR07, quarta-feira.
O Roque, “Pedrinha”, foi embora de novo e eu já perdi a conta de quantas vezes ele veio e foi; acho que é a quarta ou a quinta vez.

Fiquei triste ao ouvir o colega “Mastiguinha” cantando sozinho do outro lado do muro, lá na subseção. Ele era meu colega de dupla sertaneja.

Também foram embora hoje, o senhor Wilson e o “Martelinho”. Este último tem esse apelido porque matou sua namorada a marteladas e colocou fogo em seu corpo. Todos comentam que ele foi beneficiado pela justiça que o condenou a oito anos no regime aberto, e como ele já estava preso há quase três anos, foi embora.

Houve uma nova mudança no alojamento; o Alberto saiu e três novos colegas vieram, o Pinho, o Ednan (de novo) e o Artilheiro.


45429MAR07, quinta-feira.
O Alves observou muito bem que a mudança do primeiro para o segundo estágio é bastante significativa e que até o nosso vocabulário muda. A gente já não fala mais algumas gírias lá de baixo. É verdade.

O nosso modo de falar tem muito a ver com o meio que vivemos, com nossa situação financeira, com o nosso nível cultural, e etc. Somos o que falamos, o que comemos e o que pensamos; assim penso.

Na prisão a gente se sente pequeno, perdemos a nossa dignidade e não temos vontade própria. Somos obrigados a fazer o que não queremos. Até os nossos sonhos parecem não mais existir e dão lugar aos constantes pesadelos. Temo que minha vida possa ser um eterno tormento em razão desta prisão. Temo que meus inimigos possam continuar me perseguindo depois que eu sair daqui.
45530MAR07, sexta-feira.
É muito bom trabalhar com o Alves, ele não é preguiçoso e a gente se dá muito bem. Nós trabalhamos de modo que nenhum explore o outro.

Todavia, não é assim em outros locais de serviço. Hoje mesmo eu ouvi o César dizer que não gosta do Ceará e que vai lhe jogar uma cadeira na cabeça a qualquer momento.

Pedi ao Carlos que visse na internet o meu processo contra a Fazenda Pública e ele me trouxe uma cópia com o número de execução que data de 24 de agosto de 2005. Portanto, isso ainda vai demorar.
45631MAR07, sábado.
Trabalhar à noite não é legal. O corpo não se adapta facilmente com as constantes trocas de horário e isso me cansa. Mas por enquanto não quero mudar de trabalho porque este ainda é um dos melhores.

Tivemos um apagão esta noite, das dezenove às vinte e uma horas, o que nos obrigou a ficarmos no alojamento. Aproveitei para conversar um pouco com o Datena e o Belarmino. Nunca havia conversado com o Belarmino até então e vi que se trata de um cara inteligente e com o qual voltarei a conversar. É um dos poucos que vale a pena ter amizade.


45701ABR07, domingo.
Esta noite o meu corpo resolveu por si só se liberar das energias acumuladas. É interessante a reação do organismo humano diante das suas necessidades fisiológicas e outras. Meu corpo sentiu a necessidade de atingir o orgasmo e ordenou o meu cérebro que se encarregasse de me fazer sonhar transando. Daí, gozei e relaxei, sentindo-me aliviado e como se acabasse de ter uma linda noite de prazer. No seminário, isso me acontecia com frequência. O homem sente a falta de sexo. E eu sou homem.
45802ABR07, segunda-feira.
Voltei a falar com o Belarmino e ele me falou da horrível sensação que teve ao ler o processo do Arten. Ele me disse que sentiu mal ao tomar conhecimento da história nojenta desse estuprador de suas próprias filhas. Ele abusava delas desde a idade de três anos; das duas. Constava no relatório processual: “Elas tremiam nos momentos que a mãe delas saía e que elas deviam permanecer sozinhas com o monstro do pai; o inferno começava.”; afirmaram as meninas em depoimento à Justiça.

Senti pena ao ver o César sentado no canto da quadra parecendo estar muito triste e logo soube que sua amada o abandonara tão logo soube de sua demissão da PM. Lembrei-me de Bentinho, do romance Dom Casmurro de Machado de Assis; “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. Com o César acabara de acontecer o mesmo. A vadia o abandonou quando viu que ele não teria mais como satisfazer seus desejos de consumo. Ele perdera sua “infiel” amante; eis a razão de sua melancolia.

À noite confirmei a veracidade dos fatos ao notar que o quadro da sua amante, tão bem feito pelo Abner, não estava mais na cabeceira de sua cama. Ele que sempre beijava com profundo amor aquele quadro todas as noites antes de dormir! Onde estará o retrato da maldita?

Esta manhã o Tenente Yurio ordenou que o Meirelles pegasse a caixa do Duque e tocasse com a banda porque achou que o Duque estava fora do ritmo. Que estupidez! Ele adora humilhar o pobre do preso na presença de todos; o Duque ficou arrasado, eu percebi.


45903ABR07, terça-feira.
O interno Jesus foi embora ontem e outros quatro colegas subiram para o segundo estágio, dentre eles, o Ismael e o Dias.

Comecei a receber pedidos dos colegas para fazer poemas e poesias para suas esposas ou filhos e me apelidaram de o “Francês Poeta”; alguns. Hoje, o barbeiro me pediu que escrevesse algo pra sua esposa Juliane e escrevi.

Hoje também foi o júri do Dias e do Martinês “Kambotiã”. Ainda não sei qual foi o resultado, amanhã saberei.

O “Zé” voltou a ficar irritado com a presença do colega que não desgruda das meninas no culto católico. Ele disse que a Inês nem o notou na noite de hoje por causa daquele imbecil que fica assediando as pobres beatas. Ele confessou que sentiu ciúmes da Inês. Ele a ama.


46004ABR07, quarta-feira.
Entrar em forma é o maior terror de todos porque os oficiais da PM só pensam em nos punir por qualquer motivo. E desta vez eu fui o escolhido pelo “Kid Loucura” que achou barba no meu rosto e ordenou que eu a fizesse e me apresentasse a ele imediatamente após a revista matinal. Só mesmo um louco pra encontrar pelo em ovos, barba num imberbe. Cumpri a determinação, mas isso não me livrará da comunicação. Vamos aguardar.

Quando isso nos acontece, todos parecem se deliciar com a desgraça alheia e comentam por dias seguidos a infelicidade do outro. Agora só falam de mim e da possível punição que terei; o inferno é aqui.

Muitos colegas foram pra suas casas pra passarem a Páscoa e só voltarão em uma semana. É um momento de muita alegria para os que estão no semi-aberto e de tristeza para nós que não podemos sair ou que ainda nem sabemos da nossa situação com a Justiça. Quando sairei, meu Deus?

Os colegas Dias e Martinês foram condenados; 12 anos para o Dias e 08 anos para o Martinês. Eles responderam pelo crime de homicídio.


46105ABR07, quinta-feira.
O “sabão-de-mula” me olha como um bichinho que perdeu sua banana. Eu odeio esse cara que me sacaneou e me fez destruir o quadro que eu lhe paguei e que eu queria ter. Um merda!

O Ferreira foi vítima da covardia dos seus colegas que o denunciaram porque ele estava fazendo artesanato com as madeiras da serraria onde ele trabalhava e durante o horário de trabalho. O pobre foi demitido. Já se ganha uma merda aqui e ainda tem filho de uma puta que quer prejudicar o colega. Eu soube que ele tem três filhos para cuidar e a esposa, sendo que uma de suas crianças é doente. O Vasconcelos me disse que os responsáveis por sua demissão foram os colegas Ceará e Benedetti. Por quê?


46206ABR07, sexta-feira.

É feriado e por isso os internos têm visitas hoje, menos eu, por opção. Já disse e volto a repetir que não me agrada nem um pouco receber meus familiares aqui, exceto se for necessário e urgente. Na hora em que eu arrumei este problema eu não os convidei para participar, pois é justo que eu não os incomode agora. Vou aproveitar pra ler e dormir.


46307ABR07, sábado.
Tive uma boa noite de sono e sonhei com meus tios falecidos e uma antiga colega de Maracaí; a Ana Lúcia. No passado ela foi minha musa inspiradora, mas agora já constituiu família e eu também. Eu sempre tive uma queda por ela, mas o inverso não aconteceu.

Sonhei também que fazia amor com uma mulher gordinha e atingi o orgasmo de novo. Foi bom porque me senti mais aliviado, mas não me lembro quem era a tal gordinha. O sexo tem me feito enorme falta.

E por falar sobre isso, lembrei-me da esposa do Canella que se recusou veementemente a fazer sexo com ele aqui na prisão. Ele me contou que apenas mostrou a ela o lugar onde os presos tinham seus encontros amorosos e perguntou a ela se ele poderia fazer a carteirinha pra que eles também pudessem usufruir do benefício de usarem a “ALA”, ao que ela recusou.

Respeito a opinião dos outros, mas eu também não teria coragem de expor a mãe do meu filho dessa maneira. Eu jamais iria obrigá-la a fazer sexo comigo num quarto fétido de uma prisão. Até comentei isso várias vezes com alguns colegas e muitos me disseram que se eu não fizesse amor com minha mulher, outro iria fazer com ela. Então era melhor não deixá-la sem sexo, pois eu correia o risco de ser corno. Respondi-lhes que preferiria ser corno sem saber, menos ter que constrangê-la. E fim de papo!


46408ABR07, domingo.
Trabalhei na cozinha em substituição ao Duque que trabalhou pro Décio à tarde, mas na verdade eu trabalhei pro Décio que teve visita e me pediu pra trabalhar pra ele.

À noite eu me senti muito mal e tive calafrios. Quase morri e depois soube que foi intoxicação alimentar. Comi demais alguma coisa que não me fez bem. Se não fosse o Soldado Borges eu estaria morto.


46509ABR07, segunda-feira.
O pagamento por eu ter trabalhado pro Décio foi um pedaço de chocolate. Eu não gosto de cobrar dos colegas, nem mesmo do Décio por quem não tenho muita simpatia.

Ganhei um livro todo em francês do colega Bispo que se chama Martin Éden, de Jack London. É um “tijolo” e eu irei começar a leitura em breve, mas espero não terminá-la aqui. É uma obra de fôlego. Acredito que vou estar em casa antes de ter concluído sua leitura. Assim espero.


46610ABR07, terça-feira.
“Je crois que le plus vite gagne la corrida, que la vie appartient au plus fort. Voilà la leçon qu’on m’a appris em Biologie ou que je crois avoir appris. Oui, je suis individualiste, et l’individualisme c’est l’ennemi eternel héréditaire du socialisme.”

(Nietzsche)


Proibiram-me de escrever o meu diário no alojamento porque disseram que é proibido ter duas mesas no alojamento. Dá pra acreditar numa imbecilidade dessas! Aqui se cria problemas por nada. O homem militarizado é um merda!

Vivemos uma guerra fria onde todos apunhalam todos. É uma corrente de intrigas e fofocas que nem parece que são bandidos que habitam este lugar e sim um bando de lavadeiras. O “doidinho” e o “oportunista” me disseram pra tomar cuidado com o “Duque vítima” porque ele é delator. Gratuitamente me disseram isso; e daí?

O “Zé” me contou que hoje foi o dia mais importante da sua vida aqui na prisão porque ele tomou coragem e disse à Inês que ele a amava. Ele ficou surpreso quando ela afirmou que já notara isso e que não se incomodava. Aqui então começa uma bela história de amor no cárcere. Antes era um delírio. Agora um romance.
46711ABR07, quarta-feira.
O César é mesmo um demente, pois agora resolveu contar e separar botões pela cor e tamanho e ainda me convidou. Não tem cabimento! Que ele conte os seus botões e me deixe em paz.
46812ABR07, quinta-feira.
O Belarmino me presenteou com um rosário de Nossa Senhora. Ele é muito religioso e inteligente; e também homofóbico. Fiquei sabendo através de outros que ele está preso por haver espancado alguns homossexuais e prostitutas.

Hoje eu ouvi da boca do próprio homicida a confissão de seu crime. Trata-se do Araújo que disse ter se apaixonado por uma mulher com quem teve um filho, todavia ele não a amava. Entretanto, casou-se com ela para cumprir seu papel de pai e educar a criança e assim não fazer como a maioria dos policiais que se aproveitam das mulheres e depois deixam as pobres coitadas sem amparo algum. Com ele seria diferente; ele assumiria o filho e a mãe. Mas a ingrata não pensava como ele e o traiu com um colega seu; ele a matou. Agora sim, sei por que ele odeia mulheres e diz que todo o mal do mundo reside nelas. Decepção amorosa!

As más línguas afirmam que ele matou os dois, sua mulher e seu amante, fato não confirmado por ele a mim. E também não me interessa porque o meu diário não tem caráter investigativo, apenas registro o que ouço e nada mais e nem menos. Se for verdade ou não, pouco me importa, o fato é que eu ouvi. É mais uma das histórias que ouço e que não faço questão de dar crédito.

O César nos comunicou sua demissão da PM e o que antes era apenas comentário tornou-se verdade, pois ele mesmo nos contou hoje. Faltavam poucos meses pra ele se aposentar. Deus é justo e sabe o que faz; nós é que não sabemos de nada.


46913ABR07, sexta-feira.
Fui convocado para me apresentar à SJD (Seção de Justiça e Disciplina). Aquela maldita parte do “kid Loucura” pegou e eu vou ter que responder o processo por causa de uma barba que nunca tive e nem terei. É um circo esta PM!

Faltou papel higiênico aqui na prisão por alguns dias e tivemos que economizar papel. Houve alguns furtos, mas eu não tive problemas porque eu distribuí e peguei alguns a mais para mim. Fui esperto e injusto como todo homem militarizado.

Agora o César deu de me perguntar por que eu o olho de maneira diferente, pois ele não gosta da maneira que eu o olho. Vá pro inferno!
47014ABR07, sábado.
Não fiz nada que merecesse nota, exceto ler a Revista Veja que o Belarmino me emprestou.
47115ABR07, domingo.
Descobri uma maneira de ficar menos preso aos domingos; vou à padaria com a desculpa de precisar descongelar a geladeira e aproveito para sair do alojamento e assim comer alguma coisa. Hoje eu fiz lanches para mim e o Levorato que também gosta de ficar na padaria aos domingos. Esta é a vantagem de trabalhar na “padóca”.

As provocações que sofremos aqui são as mais infantis que se pode imaginar, pois quando alguém precisa dormir tem sempre outro que liga a TV em volume alto, se outro quer escrever não lhe dão a mesa, à noite têm sempre aqueles que soltam gases fétidos a noite toda, enfim, o diabo deita e rola aqui. Todos adoram dar ordens, menos cumpri-las.


47216ABR07, segunda-feira.
A TV noticiou nestes últimos dias o escândalo no Judiciário Brasileiro. A descoberta de uma grande organização de juízes que vendem sentenças. Esses miseráveis nunca ficam presos e utilizam o dinheiro roubado para se livrarem da prisão. Não há Justiça para os pobres. Não há Justiça para mim.

Pela primeira vez eu tive que “comandar” a tropa no desfile matinal. Nesta hora ninguém quer o comando e torce pra que o outro erre a voz de comando e que seja repreendido pelos superiores. Eu não senti medo e fiz uma boa apresentação, me disseram.


47317ABR07, terça-feira.
Fui ao dentista e me mandaram retornar dia dez de maio. Espero não estar aqui, mas se eu estiver, voltarei. Só não entendi por que tanta demora.

O nosso uniforme prisional foi trocado. Agora usamos camisetas amarelas e calça bege. Os colegas do primeiro estágio usam camisetas marrons.

Fui à missa nesta noite.
47418ABR07, quarta-feira.
Ontem, após a missa, o PE Vinícius me disse que eu poderia lhe escrever se eu quisesse. Que ele gostaria de saber informações de como vivemos aqui e isso até lhe seria útil para conhecer melhor as nossas necessidades e assim direcionar melhor a sua homilia. Prometi lhe escrever.

O meu colega “Zé” ficou triste com a ausência de sua amada na missa e comentou comigo. Ele ainda ressaltou que as reuniões ficam menos atraente sem a presença dela com seu charme e inteligência.


47519ABR07, quinta-feira.
O Rovilson me comunicou que minha irmã virá me visitar domingo. Tomara que ela venha em paz porque da última vez ela me chateou muito.
47620ABR07, sexta-feira.
Fiz a faxina do alojamento como de costume e de acordo com a escala. Não gosto de ser chateado por deixar de cumprir minhas obrigações como muitos fazem.

Que merda de rotina! Nada de novo pro meu diário!


47721ABR07, sábado.
Logo de manhã o Cabo Adilson já veio me azucrinar porque me viu colocando pães na caixa sem usar as luvas higiênicas. Raramente as usamos; nem sempre tem. E minhas mãos estão sempre limpas. Qual é a dele? Merda!

Sei que minha irmã vai me falar de novo da casa da mãe. Ela está se deixando influenciar pela Neusa e pelo “mordomo”, o marido da Matilde, que querem destruir o que minha pobre mãe construiu com muito esforço e dedicação. Eu sou contra a venda da casa porque prometi à minha mãe que enquanto eu fosse vivo tudo faria para manter o que ela nos deixou, salvo se as minhas irmãs não concordassem. Por que vender? Elas poderão precisar um dia, principalmente a Marcília que não tem marido e nem onde morar.


47822ABR07, domingo.
Há prisioneiros que dizem não gostar que suas esposas venham visitá-los em razão dos constrangimentos a que elas são submetidas, mas que muitas delas insistem em vir por amor a eles. Duvido que uma mulher ame tanto assim; nem todas. O César é um exemplo entre tantos outros.

Aguardei minha irmã que não veio me visitar. Isso não me chateou; é melhor que não venha. Ela não tem obrigação nenhuma comigo e eu não preciso de nada tão urgente.

O César implicou com o Roberto Arruda porque ele se esqueceu de fazer a faxina do alojamento e o César quis determinar que ele fizesse faxina por três dias como fez com o Alécio. O Roberto simplesmente disse que não fará a faxina por três dias e que não tem homem aqui que o faça fazer; e não fará, tenho certeza.
47923ABR07, segunda-feira.
O César é mesmo um colega perturbado e não dá sossego pra ninguém, nem a ele mesmo. O maldito está sempre metido em confusão e adora colocar os outros em situação difícil. Em resumo, não é o melhor colega pra se confiar. Sinto que ele me olha com raiva, como se tivesse algo contra mim.
48024ABR07, terça-feira.
O “Zé” me disse que teve a sensação que sua amada Inês o olhou de uma maneira agradável esta noite e que ela deve ter gostado do que ele lhe disse, da sua confissão a ela, revelando seu amor platônico. Ela é muito simpática e não lhe será grosseira jamais; a menos que ele a incomode.
48125ABR07, quarta-feira.
Lembrei-me deste dia com muita saudade, pois o ano passado eu saí em liberdade no dia de hoje. E se eu não tivesse a péssima idéia de falar com Promotor, certamente não estaria aqui de novo.
48226ABR07, quinta-feira.
As histórias de vingança que ouço são inúmeras, porém não acredito que alguns voltem a cometer os crimes que juram. Não acredito que queiram voltar pra esse lugar ao saírem daqui. Eu mesmo não quero nem olhar pra esses malditos policiais civis, militares e similares.
48327ABR07, sexta-feira.

Pela primeira vez conversei com o interno Gabarron, o jovem oficial que matou sua esposa grávida em Itu. Ele me pareceu tranquilo e incapaz do ato que cometeu.


48428ABR07, sábado.
Outra coisa que muito me incomoda aqui na prisão é ter que suportar esses imbecis que adoram ver programas infantis na TV. É por isso que eu prefiro conversar com os internos “oficiais” e até me chamam de “puxa-saco” de oficiais. É que eles têm um gosto mais apurado e não ficam perdendo tempo com imbecilidades. Eu odeio idiota. O conhecimento e a educação fazem a diferença.
48529ABR07, domingo.
Aos domingos esses malditos mostram quem de fato são. É só colocarem uma roupa diferente e se acham os reis da cocada preta. Imbecis! Após as dezessete horas voltam à triste realidade do cárcere. E muitos choram ao ver seus filhos saindo chorando do presídio.

Entretanto, esses mesmos malditos não respeitam os colegas e nem suas coisas. É comum alguém esquecer suas roupas no varal na tarde de sábado e não retirá-las no domingo de manhã e basta isso pra que outro se sinta no direito de recolhê-las e jogá-las no lixo; o Pinho fez isso hoje com a aprovação do César.


48630ABR07, segunda-feira.
Comi um resto de feijoada que estava na geladeira da padaria e agora me sinto mal. Também devo ter comido demais ontem à noite; é sempre assim aos domingos. Eu não resisto à gula.

Tivemos uma discussão a respeito dos tolos e dos inteligentes e muitos afirmaram que a prisão é o lugar dos tolos que pensavam ser espertos. Eu não me sinto um tolo, sou um injustiçado como muitos. Muitos intelectuais já passaram pelo cárcere; a história nos mostra isso.


48701MAI07, terça-feira.
Recebi uma carta de uma prisioneira de Dois Córregos, no interior de São Paulo, com a qual eu resolvi me corresponder sem lhe dizer que eu também era um prisioneiro. Confesso que senti medo, mas enviei a carta e agora recebi sua resposta. Eu vi uma reportagem na Revista da Folha e lá encontrei o nome dela e resolvi conhecê-la através de cartas.

A Elisângela Rocha me falou sobre ela, me deu seu endereço em Penápolis, seu telefone, falou de seus filhos Maycon e Kawan e que sua família é evangélica. Contou-me do seu desejo de escrever sua história do cárcere e disse ter ficado feliz com minha carta.


48802MAI07, quarta-feira.
Peguei na padaria uma coberta toda suja e lavei pra que eu pudesse usar durante este inverno, mas não poderia imaginar a confusão em que iria me meter. Tem sempre um maldito de plantão pra nos azucrinar. Ocorre que eu pedi ao Payão antes de pegá-la e fui autorizado por ele, mas os invejosos disseram que eu não poderia pegá-la por ser de uso coletivo. Que merda! Têm muitas outras cobertas todas sujas lá e ninguém se habilita em lavá-las, mas agora que eu lavei, não poderei usá-la.

Além disso, o Alessandro me disse que tal coberta lhe pertencia e que eu podia sim pegá-la pra mim. Fiquei com ela.

O César tantas fez que acabou sendo regredido de estágio; graças a Deus! Ufa!
48903MAI07, quinta-feira.
Agora com a saída do César eu passei a ser o mais antigo do alojamento e isso me dá algumas regalias, como por exemplo, escolher a jéga que eu quero dormir e fazer a escala de faxina, além de dizer o que pode e o que não se deve fazer no alojamento. Chegou a minha vez, mesmo não sendo isso um bom negócio.

Serei um democrata e nada de imposições. Afinal, todos sabem suas obrigações e deveres. Ninguém aqui é pai de ninguém; somos todos presos.

Ontem o Alesina foi embora, mas o seu colega Simão permaneceu. O Lindomar veio para o semi-aberto.
49004MAI07, sexta-feira.

Tenho engordado nestes últimos dias e isso se deve ao trabalho na padaria; a gente come a todo o momento. E por vezes, sinto pena daqueles que lutam honestamente para comprarem o seu sustento e não conseguem comer como muitos canalhas que aqui estão. Este mundo é mesmo injusto.

Comi demais e preciso fechar a boca. Hoje mesmo eu me entupi de mussarela, presunto, pães, bolo, leite e frutas. Estou levando uma vida de padre!

Recebi algumas cartas e entre elas tinha uma da mulher do Ribeiro, do seu filho Renan e da Cidinha.


49105MAI07, sábado.
Ouvi um imbecil dizer que ele odeia ler e escrever, mas adora viver bem, no luxo, com muito dinheiro e mulheres. Não foi difícil imaginar o motivo de sua prisão, mesmo porque está estampado no crachá dele; 157. É por isso que ouço muitos presos afirmarem que o ladrão é pior que o homicida, porque ele destrói uma família toda quando rouba o que esta família conquistou com anos de trabalho. Ele não rouba só dinheiro, mas os sonhos de uma pessoa, de uma família. Ele é impiedoso e também mata quando não consegue o que pretende.

E o maldito ainda disse que pra viver bem não é preciso estudar a vida inteira e ter um bom trabalho, mas que é só atirar bem e não ter medo de aventuras.

Há poucos dias no programa do Luciano Huck, uma garotinha soletrou a palavra “Alvorecer” de maneira errada (ela disse com “u” ao invés de “l”), e eu me lembro que o “sabão-de-mula” ponderou que não era mesmo fácil. Daí eu me pergunto: como a PM admite alguém analfabeto para cuidar da segurança pública?

Vi a alegria estampada no rosto do Lindomar por ter saído da subseção após passar quase três anos no primeiro estágio. Ele dizia a todo o momento que se sentia menos infeliz porque agora podia ver o céu, o sol, a lua, etc. E também os carros, a rua e as pessoas passeando.


49206MAI07, domingo.
As discussões são constantes aqui neste inferno, e ontem o Levorato e o Edinan protagonizaram mais uma delas. Este último não respeita ninguém e gosta de ligar a TV em alto volume, atrapalhando o descanso do primeiro que trabalha na padaria e que precisa descansar.

Avisei o Edinan que vou denunciá-lo ao comando porque ele tem passado dos limites e acha que eu tenho medo dele e de suas ameaças. Ele não botou fé no que eu disse; azar o dele. Estou decidido!

Escrevi como de costume mais de dez cartas e pedirei ao Roberto Arruda e ao Edson que as levem pra mim. Aproveitei e tomei nota do que irei dizer do Edinan ao comando amanhã: TV em alto volume o dia todo; sujeira; artesanato no interior do alojamento; palavrões; falta de respeito com o colega; não permitir que outro utilize o controle da TV; solta gases fétidos a noite inteira; provoca todo mundo e não faz uma limpeza a contento. Ou seja, é um porco. Além de ficar dizendo que é o mais antigo de prisão e por isso não dá ouvidos a quem é mais recruta.

Nem foi preciso esperar até amanhã, denunciei-o hoje mesmo ao Capitão Luco e ao Cabo Laércio. Ele vai sair do nosso alojamento, me afirmaram.

Em razão disso, passei um domingo horrível sob olhares maldosos dos colegas que me disseram delator. O seu comparsa Pinho viu o momento que eu o denunciei e foi correndo dizer a ele. De nada adiantou, pois na noite de hoje ele deixou o alojamento e amanhã deverá se mudar para o alojamento um e se explicar com o Capitão.

Antes, porém, os comentários a respeito da minha denúncia já era muitos e acabei discutindo com o Décio porque eu o vi comentando algo com o “João Carniça” sobre mim e pedi a ele que não falasse no meu nome com o João porque eu não tenho papo com ele. Ele correu e contou pro João que veio me provocar dizendo que eu tenho que falar na cara e não mandar recados. Eu me vi metido numa nova confusão com esse miserável “João Carniça”.

Todavia, a maioria aprovou minha atitude em relação ao Edinan. Muitos me disseram que estava na hora de alguém colocá-lo no seu devido lugar e que ele é mesmo muito folgado.
49307MAI07, segunda-feira.
Levantei-me sob olhares desconfiados de alguns, mas feliz por ter tomado a atitude certa. O Alves até comentou comigo que aprovou minha decisão e que o Edinan não é de merda nenhuma; só ameaça.

Comecei a ler algumas crônicas da coleção Para Gostar de Ler com Rubem Braga, Drummond, Fernando Sabino, Rubião Júnior, Cecília Meireles, Clarice Lispector e Paulo Mendes Campos.

São pequenos textos que fazem o tempo passar mais rápido. Li Machado de Assis e amei sua crônica de onde extraí esta célebre frase: “Também eu tenho servido de agulha pra muita linha ordinária.” Linda!

49408MAI07, terça-feira.


Não tivemos missa esta noite. E o meu dia não foi dos melhores. Sem comentários.
49509MAI07, quarta-feira.
O Vasconcelos não trabalha mais conosco na padaria; agora somos eu e o Alves. Ele vai trabalhar no Almoxarifado, ouvi dizer. Ficaremos nós dois até que os presos retornem do feriado do dia das mães no próximo dia dezesseis de maio.

Aquela maldita coberta que eu peguei na padaria e que deu a maior confusão, que logo em seguida ganhei do Alessandro, eu acabei dando ao Levorato. Agora o frio começou e eu estou perdido.

A Procuradora Elisabeth me disse que o Juiz Militar solicitou o meu exame de saúde mental, só não soube precisar a data e me disse que o exame será feito no HPM. Isso me tranquilizou um pouco mais, pois no HPM é bem mais rápido.

O Roberto Arruda foi embora nesta noite e chorou muito de alegria ao sair. Ele me deu um tênis, uma calça de agasalho, um cobertor, seis pares de meias e duas camisetas. Que Deus o abençoe.


49610MAI07, quinta-feira.
Um ano do meu retorno à prisão. Triste lembrança! Não poderia imaginar que fosse passar tanto tempo nesta choldra!

O Levorato juntou-se a nós na equipe da padaria contra a nossa vontade. Ele trabalha como um asno e não quer saber da nossa opinião. Faz as coisas de uma maneira que não nos agrada e é um verdadeiro porco. Não serve pra trabalhar conosco. Está decidido!

49711MAI07, sexta-feira.
Novos colegas vieram pro alojamento quatro e agora somos dez: O Vianna, Wanderley, Anderson, Jeferson, Vilodres, Hélio, Levorato, Pinho, Décio e eu. São cinco ladrões, quatro homicidas e eu. Não quero parecer melhor que eles, mas eles estão aqui sob tais acusações. Essas mudanças são constantes para nos mostrar que nada somos e que não mandamos em nada aqui. Que temos que suportar uns aos outros e ficarmos de boca calada.
49813MAI07, sábado.
O Levorato não gostou do que eu lhe disse ontem na padaria e começa a fazer intriga com o meu nome dizendo que eu sou chato e que não quer mais trabalhar na minha equipe. Nós é que não queremos aquele porco.

A boa notícia é que eu fui convidado a fazer parte da elite prisional e não terei mais que armar lona pra receber minha irmã quando ela vier me visitar; agora tenho um lugar na cobertura.


49913MAI07, domingo.
Entristece-me ver tantos jovens presos e eu não sei o que é pior, ser preso quando jovem ou quando velho. Melhor mesmo é não ser preso nunca. Mas quem sofre mais? O jovem ou o velho? Perder o melhor da vida dentro de uma prisão não deve ser nada bom; é o caso do Alessandro. Que pena!

50014MAI07, segunda-feira.


“A tragédia é terrível, é pavorosa, mas é interessante.”

(Machado de Assis)


Toda segunda-feira o alojamento amanhece muito sujo por causa das comilanças do domingo à noite e ninguém quer ser responsabilizado pela sujeira. Não se encontra um voluntário pra limpar, e o faxineiro do dia tem razão em não gostar do que lhe sobra. Vou ter que pedir que limpem no domingo a sujeira que fizerem. Isso vai soar como chatice minha, tenho certeza.

O Papa Bento XVI se foi. Ele passou cinco dias no Brasil e foi aclamado pelo povo brasileiro. Que Deus esteja sempre com ele.


50115MAI07, terça-feira.
“Os pobres e os desamparados têm mais duras penas que os que não o são, e por atos de menor monta.”

(Machado de Assis)


Impossível viver bem aqui com esta marcação cerrada do Cabo Adilson sobre nós. Mal amanhece o dia e aqui está ele para nos surpreender na jéga; até eu dancei hoje. Por que nos torturam com tanta picuinha?

Já coleciono um bando de “inimigos”, de pessoas que quero manter distância: o “sabão-de-mula”, o Pinho “filho de santo”, “cabeça-de-bexiga”, “carniça”, “ursinho Décio”, etc.

Fora daqui, tenho meus piores inimigos que são em número de seis: o Delegado, o investigador, o escrivão, o sargento “barriga-de-merda”, o Promotor careca e a vagabunda da Juíza. Os outros são tão merdas que nem perderei tempo em relacioná-los. E se eu for assassinado um dia, sei que terá sido por algum desses últimos ou a mando deles. Porém, não acredito que o Promotor e a Juíza se interessem em me ver morto tanto quanto eu os quero mortos. É claro que não irei matá-los, não sou e jamais penso em ser homicida. Se eu fosse um bandido periculoso como eles me acusaram, certamente eu mataria alguns deles.

É a segunda semana que não temos reunião com a família do Sr Antônio. O que será que está acontecendo?


50216MAI07, quarta-feira.
“O burro ama só a pele; o homem ama a pele e a bolsa. Dê-se-lhe na bolsa; talvez a nossa pele padeça menos.”

(Machado de Assis)


Há dias que resolvi ler os Salmos na ordem em que se encontram na Bíblia, muito embora o meu preferido seja o salmo 23. Deus nos toca no coração através da leitura bíblica e nos transforma em homens de bem; eu sinto isso.

Vejo muitos que se dizem convertidos pela palavra e, às vezes, chego a não acreditar neles, mas jamais no poder da palavra quando a gente se deixa invadir por ela. Eu acredito em Deus e na Sua palavra. Não somos nada sem o Criador e sei que mereço o castigo a mim imposto por Sua vontade. Sei que errei e devo pagar pelos meus erros, mas continuo afirmando que o meu maior erro não foi com esses merdas da Justiça e sim em outras situações; com minhas irmãs, mãe e esposa. Eu devia tê-los amado e respeitado mais.


50317MAI07, quinta-feira.
“Não é o tamanho que dá primazia à obra, é a feitura dela.”

(Machado de Assis)


Acordei ouvindo o som de um rádio distante que muito bem pode ser do guarda ou dos colegas da padaria. Em seguida ouvi o entediante toque da corneta anunciando a “alvorada” e vi quando o Cabo Adilson entrou no alojamento para a revista matinal.

Ouvi o “Trinta” dizer que se sentia alegre por ter passado o dia das mães em sua casa, mas que ao mesmo tempo ficou triste por ter visto sua mãe doente e passando por necessidades. Era ele quem cuidava da subsistência de sua família.

Recebi notícias de casa e soube que meu filho foi aprovado no exame para conduzir moto e que na próxima semana ele fará o exame para carro. Isso é bom porque ele irá poder usar o carro que está parado há muito tempo e assim sair para passear com sua mãe. Que Deus o abençoe.
50418MAI07, sexta-feira.
“Prefiro comer o boi a vê-lo na praça. Não sou homem de touradas, e se é preciso dizer tudo, detesto-as (...) eu não preciso ver a guerra para detestá-la, (...) nunca fui ao xilindró, todavia não o estimo.”

(Machado de Assis)


Ouvi uma das histórias do Josemir e fiquei horrorizado com a maneira de pensar e agir dele. É mais um homem militarizado contando suas covardes aventuras. O bom policial cumpre a lei e nada além da lei. Espancar pessoas dominadas, algemadas, sem chances de defesa é covardia. Mas os bandidos fazem isso, vão me dizer; e se o policial o fizer também se igualará a ele, merecendo também o cárcere.

Ele me contou que quebrou a perna de um homem que estuprou uma garotinha. Entendo sua revolta e indignação com a barbárie cometida pelo estuprador, todavia não concordo com a atitude do colega. E ainda me deu uma aula de covardia ao explicar-me quais são os pontos mais doloridos do corpo humano. Senti pena do estuprador, bem menos que da pobre menina; mas senti.

Aqui tem covardes de toda espécie e até me sinto um deles por ser obrigado a me submeter às ordens desses medíocres militares que se sentem deuses. Gostaria de me rebelar, mas não tenho a coragem suficiente pra isso e sei que se o fizer estarei entrando no jogo sujo deles. Além do mais, não vou querer ser punido e humilhado ainda mais. A minha covardia é estratégica.

Observei que o militar dá pouca importância ao conhecimento. Muitos gostam de priorizar o corpo ao invés da mente e praticam exercícios físicos para manter o corpo em forma. A academia é bastante frequentada, a biblioteca não; são poucos os leitores.

Engraçado é que os “fortinhos” têm em comum os mesmos belos bíceps e as mesmas deficiências culturais. São estúpidos, violentos, merdas, etc. E dentre esses estão o Di Lúcia, o Ygor, o Pessoa, O Ribeiro, o Anderson e outros.

A minha turma é outra, pois prefiro os colegas Alessandro, Payão, Henrique, Alves, Quirino (esse faz fortinho), e poucos outros. Eu não combino com imbecis.

Recebi um comunicado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo dizendo ter recebido minha carta denunciando as polícias de Maracaí e também a Juíza Mônica Tucunduva Spera Manfio. O documento tem o protocolo TJESP número 0533101 / do Quarto Grupo de Câmaras de Direito Criminal. E também o protocolo TJMESP – PMRG – PMESP – Protocolo Geral número 2002 com entrada em 17MAI2007 às 17 horas. O Ofício é de número 3946/2007 do Poder Judiciário TJ/SP de 27ABR2007; Processo número 00985166.3/1-0000-000. O documento foi enviado a mim pelo Sr Desembargador Luiz Carlos Ribeiro dos Santos.
50519MAI07, sábado.
Sem o que dizer. Como diz sempre o colega Dey: “nada mudou”.
50620MAI07, domingo.
Ontem eu dormi sem tomar banho porque faltou água e agora de manhã eu aproveitei a pouca água do chuveiro para me banhar antes de todos.

Continuo minha leitura do livro de Jack London, Martin Éden. Ler em francês é gostoso e emocionante; é um duplo aprendizado.

Ouvi o Pinho contar ao Décio que um ladrão tentou roubar a casa de sua família e que seu irmão disse ao ladrão que não os roubassem porque ele tinha um irmão que fazia parte do PCC e que estava preso na Penitenciária do Estado e que não iria gostar de saber que ele roubou alguém do Partido. E o ladrão saiu sem nada levar. Conta outra! Isso é história pra boi dormir. Eu sei é que o Pinho é jurado de morte por seus comparsas de roubo e que o melhor pra ele é estar preso aqui; se sair morre. Meu Deus! Como tem mentiroso neste lugar!
50721MAI07, segunda-feira.
Alguns colegas são verdadeiros urubus e dizem que o meu caso de Interdição é grave. Que eu vou permanecer muito tempo na prisão e que eu posso ser mandado pra Franco da Rocha e nunca mais sair de lá. Malditos! Torcem para que eu não saia daqui, mas eu sei que Deus não quer isso pra mim.

Tenho utilizado o alojamento sete pra escrever meu diário e fugir da malandragem, mas hoje eu encontrei o Peixoto lá bebendo uma coca-cola e depois entrou o “Neném” e começaram a conversar; tive que sair. Ouvi o Peixoto se queixar que amanhã será o aniversário de sua filhinha, e ele não estará ao lado dela que completará 04 aninhos. Ela tem o mesmo apelido meu; Duda! Senti pena dele. Já passei dois aniversários de meu filho, dois de minha mulher e uma vez o meu. É triste!


50822MAI07, terça-feira.
Acordei ao meio-dia porque trabalhei à noite passada e fui almoçar. Aqui se come muito bem!

Fui convidado a fazer parte da equipe da confeitaria e recusei. Prefiro continuar sendo padeiro. O Levorato será o confeiteiro.


50923MAI07, quarta-feira.
Dormi o dia todo!
51024MAI07, quinta-feira.
Os colegas Simão e Defender foram embora ontem. Graças a Deus!

Na madrugada de hoje eu quase explodi a padaria porque não percebi que o forno estava ligado e acendi o fogo. Fiquei com o rosto chamuscado e o colega Alves quase morreu de susto e de rir da minha desgraça. O dia todo foi comentado este incidente.


51125MAI07, sexta-feira.
Os internos adoram cuidar da vida alheia e agora cismaram de querer que eu tome banho logo de manhã quando eu chego cansado da padaria. Eu prefiro aproveitar o sono e o frio para adormecer rápido e não costumo tomar banho ao término do serviço noturno. Isso é motivo para me azucrinarem.

Pensei que eu estava seguro no alojamento sete, mas o Linaldo e o Luís resolveram jogar xadrez aqui e eu tive que sair. Nenhum lugar que encontro eu consigo ter privacidade; merda!


51226MAI07, sábado.
Tenho escrito algumas cartas ao Pe Marcos Vinícius contando sobre minha vida no cárcere e alguns acontecimentos daqui. Ele nunca me responde, mas me diz que as recebe. O padre é jovem e dinâmico; gosto de seus sermões. Ele tem se mostrado amigo e bastante atencioso com todos. Ele sabe do amor que o “Zé” sente por Inês. E como eu sei? O próprio me contou, digo, o “Zé”.

Eu soube da promoção do meu filho no trabalho e isso me deixou contente. Agora ele passará a ganhar um pouco mais e será efetivado no cargo. Se ele está bem, eu me sinto bem.


51327MAI07, domingo.
Pedi ao Quirino que me providenciasse, através de sua esposa, um guia da cidade de São Paulo. Domingo próximo ela vai me trazer; dei-lhe o dinheiro.

O domingo é o pior dia pra mim, exceto ao final da visita quando então como pra caramba. Hoje mesmo eu comi esfirras, pizza, pastéis, bolo e outros salgados.


51428MAI07, segunda-feira.
Esta manhã quando eu escrevia lá no alojamento sete, o “Kid Loucura” entrou e começou a abrir os armários e encontrou várias caixas de isopor com refrigerantes e outros comestíveis no interior delas e me ordenou que as pegasse e levasse até a seção penal e entregá-las ao Sargento Lino. Fui obrigado a fazer o que ele me ordenou.

Deixei de levar duas ou mais delas e mesmo assim me acusaram de delator, só porque eu estava no lugar errado na hora errada. Eu não denunciei ninguém, pois nem sabia de nada. O Pessoa entrou numas comigo e a partir de hoje não falarei mais com ele.


51529MAI07, terça-feira.
É gostoso ficar só no alojamento sete para ler e escrever. Outros aqui vêm para orar ou deitar um pouco nas jégas vazias que aqui estão e fugir de todos; se esconder. O Araújo gosta de orar aqui e sempre eu o encontro de joelhos e cabeça no chão e o traseiro virado pra lua. Que jeito esquisito de orar!

Outra prisioneira de Dois Córregos me escreveu; ela se chama Eliane Cainelli. É amiga da Elisângela Rocha. Vou continuar me correspondendo com elas sem jamais dizer que sou prisioneiro militar. Continuarei sendo o professor Davi. Estarei sempre mudando de endereço e não permitirei que saibam minha real identidade e minha verdade. Eu preciso me resguardar, pois não as conheço.


51630MAI07, quarta-feira.
Sonhei com meu velho amigo Jordão que já faleceu. Estávamos à mesa comendo, e logo em seguida nós arrumávamos as coisas para viajar. Estranho!

Falei com o Juiz Militar que me afirmou ter já solicitado o meu exame de saúde mental e que em breve eu saberia o dia. À noite eu fiquei sabendo. O Soldado Fusco me apresentou o comunicado e eu o assinei; será dia 05JUN07, a mesma data do ano passado.


51731MAI07, quinta-feira.
Escrevi para a Cidinha e lhe disse que a data do meu exame foi marcada e que logo deverei estar em casa, se Deus quiser. Espero ir pra casa até o final do mês de junho ou até a primeira semana de agosto.

51801JUN07, sexta-feira.


O Belarmino me contou a história de Napoleão Bonaparte e do seu guarda na Ilha de Elba. Que Napoleão disse ao seu guarda que ele (Napoleão) era a razão do seu viver, pois se ele não existisse, o seu trabalho seria em vão e que não haveria necessidade dele. E que o guarda era tão prisioneiro quanto ele. Porém, a única diferença é que Napoleão entrou para a história e ninguém conhece os guardas que o mantiveram sob vigilância. A história não é feita de homens pequenos, só os grandes homens permanecem vivos, ainda que mortos.

Assim como este guarda, os PMS que me humilharam e humilham nunca serão ninguém. Alguns nascem para ser importantes enquanto outros nunca serão. Eu não nasci para o anonimato. E pago o preço que for necessário; e tenho dito!


51902JUN07, sábado.
A condenação do Décio é o assunto do dia. O pobre do “ursinho”, o “Toni Ramos”, o “peludo”, o “lobisomem”, etc., pegou 48 anos de prisão por seus crimes; duplo homicídio e uma tentativa. Ou seria triplo? Não me importa porque o meu diário não tem caráter investigativo. Nas próximas páginas eu me corrijo, se eu não me esquecer. O importante é que ele foi condenado e pagará por seus crimes. Nada justifica tirar a vida de outra pessoa, exceto em legítima defesa. E não é o que parece. Assim entendeu a Justiça.

Eu sei que a Justiça é falha e que nos incrimina sempre pra mais, não há atenuantes pro réu. O meu caso é uma vergonha para a Justiça, pois não matei, não roubei, não feri, não agredi fisicamente ninguém e aqui estou pagando por um crime de homicida. O Canella que matou o padrasto com vários tiros não ficou nem um ano preso e já está gozando de liberdade enquanto eu continuo aqui. Será que joguei pedra na cruz ou matei o Papa?

Conversei longo tempo com o Gabarron no salão ecumênico e ele quis saber e ver se realmente eu escrevo meu diário em francês; mostrei-o a ele. Chovia e ele andava no salão de um lado pro outro. Comentei com ele que não gosto do tempo chuvoso; eu fico ainda mais triste.
52003JUN07, domingo.
Conheci há alguns dias atrás o irmão do Levorato e agora eu sempre peço a ele pra me postar algumas cartas. É sempre bom variar, pois nunca se sabe quando poderão nos dedurar. Sei que não é permitido enviar cartas pelas visitas, mas tem algumas que eu não quero enviar através da seção penal.

O Anderson foi hostil com o irmão do Levorato quando o mesmo foi apresentado como Sargento PM aposentado. Fiquei embaraçado com a situação e não gostei do comportamento do “negrute”. Eu também não gosto de PMS, mas não vou sair por aí agredindo todos eles só por isso. Prefiro nem vê-los, nem cumprimentá-los, ignorá-los.

Pedi ao Fernandes que solicitasse ao seu pai que me trouxesse duzentos reais no próximo domingo, pois eu já escrevi para a Cidinha depositar na conta dele. É o dinheiro com o qual pretendo ir embora sem ter que incomodar minha irmã. Ele sempre me faz esse tipo de favor.
52104JUN07, segunda-feira.
Estou ansioso porque amanhã será o dia do meu exame, às dez horas, lá no HPM (Hospital da Polícia Militar).

O Afonso voltou para o primeiro estágio porque, dizem, se recusou a fazer uma salada pro “Kid Loucura” conforme ele determinara. Isso é ou não perseguição?

Outros vieram para o segundo estágio, mas o Maldonado não conseguiu novamente. Por que será? Vai saber os critérios que eles adotam!

O Rovilson vai me trazer a grana que a Cidinha vai depositar na conta dele. É mais rápido. Preciso dizer ao Fernandes.

Que legal! O Belarmino veio morar no alojamento quatro. Fiquei feliz! Agora o alojamento ficará mais intelectualizado e terei com quem conversar assuntos mais interessantes. Sempre que acontece o CTC (até hoje não sei o que significa), há mudanças do pessoal do alojamento cinco para os outros alojamentos.

Estou ansioso!


52205JUN07, terça-feira.
Fui ao HPM e falei com o médico militar que foi simpático comigo como da outra vez. Foi o mesmo médico que participou da minha perícia de aposentadoria. Ele prometeu ser rápido e assim me ajudar a sair logo da prisão. Gostei da maneira que ele conduziu o exame, sempre me deixando muito à vontade para lhe explicar a razão da minha prisão. Ele quis saber meu telefone e disse que iria ligar em minha casa e falar com minha esposa e minha irmã. Também disse que ligaria no Posto de Saúde de Maracaí pra saber sobre o meu acompanhamento médico lá. Disse-me que em 45 dias terá seu laudo concluso ou menos. Ele me garantiu que eu sairei em breve da prisão Confiei nele.
52306JUN07, quarta-feira.
Começo a contagem regressiva para deixar este lugar insano. Estou muito confiante na conversa que tive com o Dr. Luiz Henrique de Andrade Barros. Talvez eu esteja em liberdade até o final de julho; espero.

Pedi ao Mello que me pintasse um quadro que gerou muita polêmica. Ele pintou o meu túmulo, com epitáfio, meu nome e datas de nascimento e morte; gostei!

Hoje é o aniversário do Gabarron; foi ele mesmo que me disse. E também o Quirino me disse que fará aniversário depois de amanhã; o primeiro 34 e o segundo 23anos.

Joguei futebol esta tarde.


52407JUN07, quinta-feira.
Dia de visitas em razão do feriado de Corpus Christi.

Soube que meu filho não conseguiu passar no exame para conduzir veículos e fiquei triste. Seria uma perseguição do Delegado?

A Cidinha me enviou os 200 reais que pedi através da conta do Rovilson e eu os guardei com muito cuidado nos meus esconderijos secretos. É com essa grana que eu irei embora daqui.

Fui vítima da estupidez destes malditos criminosos, que covardemente jogaram meu short no lixo. Todos sabem o autor, mas acham graça nesta falta de cortesia e respeito com o colega.


52508JUN07, sexta-feira.
Por ter sido feriado ontem, hoje não houve expediente no PMRG. Melhor assim porque ficamos livres das perseguições dos oficiais que não têm nada pra fazer e por isso nos “caçam” o dia todo. Eles os gatos, nós os ratos. E o povo paga um absurdo por essa brincadeira que onera os cofres públicos. Esses miseráveis deveriam estar nas ruas pegando bandido. A minha prisão é uma afronta ao povo e um prejuízo ao Estado, pois não sou criminoso.

Ouvi o Belarmino dizer que o Aquino só diz as mesmas frases de sempre. Do tipo: “sei, você não, aí sim, embaçadão, como assim?”


52609JUN07, sábado.
Agora sim está desfeita a grande mentira sobre a quantidade de tiros que o Gabarron desferiu contra sua esposa. Muitos diziam que ele descarregou as duas pistolas contra a pobre coitada e que tinha outros pentes carregados, enfim, que ele dera mais de 50 tiros. Outros afirmaram com precisão que foram 53 tiros. Até então eu acreditei no que ouvi e relatei conforme as informações que me chegavam. Todavia, esta tarde o próprio Gabarron disse que desferiu 21 tiros.

Disse-me ainda que levou trinta dias pra se recordar deste episódio lamentável. Eu sempre o vi andando pela quadra na companhia do Mello, sempre de cabeça baixa, calmo, passos lentos e sem falar com mais ninguém, exceto com o Mello. Pouco a pouco fui me aproximando dele até conseguir arrancar-lhe as primeiras palavras e a confissão acima. Ele sempre falou muito pouco e com poucos, mas hoje ele falou um pouco mais comigo e demonstrou-se arrependido do que fez. A todo o momento ele dizia não se lembrar de nada e nem a razão pra ter praticado tão repulsivo crime contra sua esposa grávida.

Preparei minha mesa pra receber minha irmã que nem sei se virá me ver, mas se vier está tudo preparado para recebê-la.
52710JUN07, domingo.
Fui ao meu escritório (o espaço ecumênico), de manhã e lá estava o Araújo fazendo suas orações naquela mesma posição de sempre; com os traseiros pra lua. Passei por ele e me acomodei na mesa pra escrever minhas cartas.

Minha irmã veio e me trouxe um almoço delicioso; feijoada, arroz, couve, torresmo, farinha e etc.

O filho do Duque é um garotinho educado e hoje eu dei a ele um dinheiro. Sinto saudades do meu filho quando o vejo.
52811JUN07, segunda-feira.
Esta manhã o Gabarron comandou o desfile de apresentação ao comandante. Isso foi motivo de alegria para todos nós que gostamos dele; é sinal que ele está melhorando.

Triste foi ver que a banda tocou só com quatro instrumentos de sopro. Muitos músicos foram embora, outros estão trabalhando e não tem ninguém para substituí-los. É uma pena! Hoje estavam o Payão, Abner, Quirino e outro da subseção.

Percebi que não há interesse da PM em investir no ser humano. Os oficiais daqui deveriam incentivar os presos músicos a formarem novos músicos e assim ter condições de estarem sempre renovando o corpo musical.
52912JUN07, terça-feira.
Pedi ao Padre Marcos que rezasse a missa em homenagem à minha mãe porque hoje seria o aniversário dela se ela estivesse viva; 78 anos.

O “Zé” entregou à Inês um bilhete afirmando que a partir de hoje, o Dia dos Namorados, seria para ele o marco do seu romance com ela. Ou seja, que a partir desta data ele seria o seu namorado, mesmo sem o consentimento e a aprovação dela. Que loucura!


53013JUN07, quarta-feira.
Fiquei pensando na atitude do colega que me disse estar apaixonado por Inês. Será que ela não se sentirá incomodada? O que ela pensa? Teria gostado?

Fui chamado na seção penal pra informar o documento do “Kid Loucura” sobre o episódio da barba que não tenho e que deixei de fazer. E pra completar a tortura tivemos um novo “arrebento” esta tarde que resultou na regressão do Aquino para a subseção porque encontraram remédios em sua posse. Os remédios estavam guardados no seu calção que se encontrava no banheiro do nosso lado. Daí, o Major querer saber de mim se eu conhecia o dono do calção. Todos conheciam o calção do Aquino e o próprio confessou ser dele.


53114JUN07, quinta-feira.
Após um “arrebento” todos ficam com os ânimos alterados. É uma pressão psicológica muito grande sobre nós. É por isso que evito ter muitas coisas aqui; só tenho o necessário e tudo que está pra mais eu mando minha irmã levar embora. Ontem mesmo ela levou meus livros e outras coisas que estavam me incomodando e tomando espaço sem necessidade nos meus armários.

Tenho dois shorts, duas camisetas civis, duas calças, duas camisas, três cuecas “samba-canção”, quatro pares de meias, o uniforme prisional e nada mais. Guardo ainda nos armários, a roupa de cama, meus livros e papéis e produtos de higiene pessoal. Tudo em quantidade mínima, pois isso facilita na hora dos “arrebentos” e nas constantes mudanças de alojamento.

A máquina de fazer pães da padaria quebrou-se e agora a presa que mora ao lado poderá dormir tranquila por alguns dias. A Mariângela Biagi é uma presa legal e conversa conosco sempre às escondidas porque se o Major ou qualquer outro oficial surpreender alguém falando com ela, o coitado está frito. O pior é que ela sempre nos pede alguma coisa na padaria e eu não nego. É comum me pedir leite, chocolate em pó ou açúcar. Sempre dei e continuarei dando o que ela pedir.
53215JUN07, sexta-feira.
Estar preso já é um castigo e pior ainda é estar doente na prisão. O Hélio, que tem um irmão que trabalha no Fórum de Assis, tossiu a noite toda e não está nada bem.

Recebi uma carta da Secretária de Educação da cidade de Dois Córregos me convidando para participar do Primeiro Encontro Internacional de Poesia naquela cidade. Se eu não estivesse preso eu iria com muito prazer.

53316JUN07, sábado.
Conheci o preso Felício Labanca Júnior, o companheiro do “Ogum”. Eles ficaram conhecidos pela crueldade dos seus crimes; degolavam suas vítimas e colocavam suas cabeças dentro de suas barrigas. Conversei com ele ao lado da barbearia, pois ele veio da pocilga para cortar seus cabelos e estava ao lado do Demézio, seu colega de trabalho. Ele exalava um forte odor etílico; estava alcoolizado, porém não bêbado. Mas o cheiro da “marvada” era inconfundível.

53417JUN07, domingo.


Escrevi várias cartas como de costume e enviei mais de dez através das visitas dos colegas. Gosto de escrever e com isso passo o tempo.

E como de costume, quando não recebo minha irmã, eu finjo ser um voluntário para ajudar na cozinha e tão logo termina o almoço eu desapareço de lá. Só fico mesmo até almoçar porque assim posso pegar um pouco mais de mistura. Aos domingos a comida é boa, mas não em grande quantidade. É tudo contado, principalmente a mistura.


53518JUN07, segunda-feira.
O “Kid Loucura” quer somente dois padeiros por turno e não três como sempre foram; aliás, eram quatro. Eu e o Alves continuamos firmes na mesma equipe.

53619JUN07, terça-feira.


Toda terça-feira é dia de expectativa e ansiedade pro “Zé” porque ele fala e pensa na sua Inês o dia todo e eu tenho que ouvi-lo.

Ele deu outro bilhete a ela na reunião de hoje e disse que esperou o melhor momento para que os colegas não percebessem. Seria um desastre se alguém visse além de mim. Confesso que não vi o momento. Ele é bastante sutil e discreto.

Ela deve ter gostado de receber os bilhetinhos dele, pois senão ele já me teria dito. Ela é linda e inteligente! Tem uma voz gostosa e uns olhinhos encantadores; isso é verdade. É Teóloga.
53720JUN07, quarta-feira.
Pela primeira vez eu recebi um vale que me dá direito a receber uma Cesta Básica todo mês. Eu não sabia que tinha direito a isso até que um colega me disse para fazer um documento exigindo, pois se eu sou sócio da Associação de Cabos e Soldados; eu tenho direito. Fiz o documento e encaminhei através da Assistente Social do PMRG e agora comecei a receber. Vou dá-la pra alguém porque não tenho como mandá-la pra casa. Este mês darei ao Peixoto.
53821JUN07, quinta-feira.
Um dia entediante! Nada diferente de tantos outros que já vivi aqui. São inúmeros pensamentos que passam por minha cabeça, mas sei que não irei executá-los porque, graças a Deus, eu não sou bandido.

Às vezes eu fico imaginando mil e uma maneiras de me vingar do que fizeram comigo, mas seria idiotice de minha parte; a menos que eu não mais desejasse viver. Penso que se eu tiver que matar alguém, logo em seguida eu me mato também porque jamais desejarei retornar ao cárcere com um homicídio; seria minha ruína.

Tenho visto muitos homicidas que se queixam de não terem tido um pouco mais de paciência e lembro-me dos conselhos do Canella que se dizia um verdadeiro imbecil ao se deixar levar pelas provocações do seu padrasto e tê-lo matado. Ele não sofre mais, enquanto eu sim; afirmou o Canella. É a pura verdade!
53922JUN07, sexta-feira.
Como é bom falar com Deus todas as manhãs! Li o salmo 119 nesta manhã. Que lindo!

Sonhei com minha tia “Déca” e a minha prima Neusa esta noite passada. Que saudades!


54023JUN07, sábado.
O Levorato me sacaneou e colocou cascas de banana sobre a minha jéga. Ainda ontem ele me deu uma calça do uniforme que não lhe pertencia e eu a lavei e depois não mais a encontrei no varal porque o verdadeiro dono pegou. Esse merda só me cria embaraços.
54124JUN07, domingo.
Eu vou vencer! Sim, eu irei sair daqui um vencedor e não terei do que me envergonhar. Vou fazer uma bela limonada com os limões que me foram ofertados. Meus inimigos serão os maiores responsáveis por minha vitória. E tenho dito!
54225JUN07, segunda-feira.
Cada um tem a obrigação de arrumar o seu próprio meio de driblar o tédio e a rotina. Eu leio, escrevo, recorto jornais e revistas para enfeitar meu diário e assim vou passando o meu tempo. Como disse Machado de Assis; “matamos o tempo e ele nos enterra.”

54326JUN07, terça-feira.


Não fui à reunião católica esta noite e o “Zé” também não foi e disse-me que está com medo de encarar Inês após ter tido a imprudência de ter revelado seu amor a ela. Ele diz estar envergonhado, porém não arrependido.

54427JUN07, quarta-feira.


Alguns colegas têm me dito para eu não deixar que meus sentimentos me condenem, isto é, que eu não saia dizendo pra todos que odeio o regime militar porque eles poderão me prejudicar ainda mais. Eu bem sei que eles são capazes disso, esses malditos militares. Entretanto não vou deixar de dizer o que penso deles, pois se eles têm o direito de achar que sou o que não sou, também tenho o direito de odiá-los e não lhes querer bem. Pelo menos não sou covarde como eles.

54528JUN07, quinta-feira.


Logo de manhã recebemos a visita do Cabo Adilson, do Sargento Maurílio e do Tenente Landim que nos pediu para que não incomodássemos o Major Spinieli, ou seja, que não ficássemos conversando próximo à sua janela. Merda! Se ele quer sossego, pois então que durma na casa dele! Ele parece que não tem família!
54629JUN07, sexta-feira.
O nosso colega Sobrinho, um senhor de Presidente Prudente morreu esta madrugada no HPM. Ele vomitava sangue e foi internado com urgência e não suportou. Ele já tinha mais de setenta anos. É o primeiro caso que vi de colega preso que morreu aqui, muito embora eu tenha ouvido falar de outros casos de morte, inclusive de suicídio.
54730JUN07, sábado.
Esta manhã eu precisei ir ao banheiro e colocaram uma cadeira na frente da minha jéga e eu não a vi e tropecei nela. O barulho acordou os colegas, além de me machucar. Fiquei nervoso e falei merda. O Hélio ficou furioso e quando amanheceu o dia ele veio tirar satisfações comigo em tom de ameaça. Quase entramos em vias-de-fato.

O Cabo Adilson ouviu nossa discussão e quis saber do ocorrido. Tivemos que lhe explicar e tudo se resolveu bem, apesar do mal estar entre mim e ele.

Comecei a ler um livro que fala sobre a doença de Parkinson, da escritora Aparecida Helena Correa com a participação do Dr. Flávio augusto Sekeft Sallem. Saber nunca é demais.
54801JUL07, domingo.
Terminei hoje a leitura dos salmos.

Decidi não mais escrever para minhas amigas presas de Dois Córregos. Tenho medo que descubram que também sou um preso, e preso militar.

Ouvi alguns colegas dizendo que matar é delicioso e que quando eles trabalhavam na rota, sempre saíam dispostos a matar todos os plantões. O Hélio disse que matou várias pessoas. De fato, o seu corpo tem várias perfurações.

O ser humano é mau por natureza e quando se trata de um policial este mal se potencializa, afirmou o colega “presuntinho”. Muito bem observado por ele, pois um homem fardado se acha no direito de matar.

O Décio disse que possuía uma “PUMA” que ele utilizava com frequência para apagar os “feinhos”. E que havia perdido a conta de quantos já tinha mandado pro inferno. E agora não sabe por que está preso; maldito!

Mostrei ao Belarmino o meu Diário do Cárcere e disse a ele que um dia o mundo saberá quem são esses malditos militares e assim poderá julgá-los. Ah! Se eu pudesse matar todos esses vermes!


54902JUL07, segunda-feira.
Acordei ao meio-dia porque trabalhei à noite e lavei minhas roupas. Voltei ao alojamento em seguida e fui dormir mais um pouco. Ao acordar fiquei sabendo que o “doidinho” foi pego dormindo e que foi comunicado pelo Tenente Moreira, o “Kid Loucura”. É proibido dormir durante o dia aqui no segundo estágio, exceto quem trabalhou à noite.

Comecei a ler os Evangelhos em substituição aos salmos que terminei a poucos dias. A Bíblia é um livro que nos tranquiliza.

Hoje foi o júri dos colegas Carvalho, Artilheiro e Peixoto, mas eu soube que só o Peixoto foi condenado e que os outros serão julgados n’outra ocasião. Ainda tem o Fábio louco que é da mesma equipe e que será julgado separado. O pobre do Peixoto pegou dezenove anos de prisão, dizem.
55003JUL07, terça-feira.
Recebi uma carta do Canella. Como será que ele está?

55104JUL07, quarta-feira.


Acordei às 15h ouvindo esses mentirosos e imbecis viajando em seus sonhos. É incrível o que eles dizem e a maneira como se metamorfoseiam de presos a empresários em questão de segundos. Os desgraçados estão cheios de dívidas com a Justiça, com Deus e com a sociedade e ficam contando vantagens uns pros outros e atrapalhando meu sono.

São discursos de homens ambiciosos e materialistas, de ladrões e estelionatários. Eu só desejo o suficiente pro meu sustento e o da minha família; nunca pensei além das minhas possibilidades. Eu tenho o pé no chão e sei que as coisas não são tão fáceis como pensam esses idiotas. E aqui na prisão os meus desejos são: a paz de Deus, saúde e a liberdade. Eu não preciso de mais nada aqui; além disso.

Ouvir ladrões é odioso porque os malditos fazem todos os seus planos de olho na riqueza dos outros já que são incapazes de conquistarem com o suor do próprio trabalho. E ainda se dizem espertos e oportunistas. Trouxas são os que vivem honestamente. Começo a odiá-los.
55205JUL07, quinta-feira.
Tenho orado muito e pedido a Deus que me livre deste lugar insano, mas sei que o tempo Dele não é o meu. Sei que no momento certo Ele me concederá a liberdade. Antes é preciso que eu me liberte da minha estupidez e ignorância.
55306JUL07, sexta-feira.
Ouvi a história do Stefanoni e ao final, ele me perguntou se ele estava ou não certo de tomar as atitudes que tomou; não opinei. Ele já esteve preso aqui em outra ocasião e se fosse boa gente ou suficientemente esperto, não teria retornado, assim como eu. Portanto, não acredito que aqui tenha alguém inocente. No mínimo é responsável por alguma coisa e isso me inclui.

A minha prisão é fruto da minha insanidade em nutrir pelos policiais um ódio sem limites. Se eu tivesse ignorado esse tipo de gentalha, eu não teria brigado com o investigador e isso não teria resultado em minha prisão. Ao sair daqui, vou fugir deles o tempo todo. Vou ignorá-los, fazer de conta que não existem e quando me abordarem irei tratá-los como lhes convém.


55407JUL07, sábado.
Escrevi uma carta para a Corregedoria da Polícia Civil do Estado denunciando os policiais civis de Maracaí e relatando o medo que tenho de ser assassinado por eles ou a mando deles. Tenho medo das ações covardes deles e por isso achei que devia me precaver. Ainda que me matem, agora eles terão que pensar duas vezes porque há uma denúncia formalizada. Eu não os temo porque sei que ninguém morre antes da hora; senão Deus seria um engodo.

55508JUL07, domingo.


Fiz duas “correrias” esta manhã aos amigos Belarmino e Luciano que me pediram café feito. Não vi nada de errado em servi-los, apesar de estar totalmente errado. O importante era não ser surpreendido por ninguém; e não fui.

Conversei com o Gaba esta manhã e nós falamos sobre a possível influência que a gíria prisional poderia causar no nosso vocabulário. Afirmei a ele que tão logo eu saia daqui não usarei mais este linguajar repulsivo, mas acredito que tem aqueles que vão conservar estes péssimos hábitos do cárcere. Pior pra eles.

Neste domingo eu recebi o convite para me sentar à mesa junto com a família do Belarmino e fui. Conheci sua mãe, sua esposa, sua irmã e seu filho que já tinha visto outras vezes. Notei que sua mãe é uma pessoa diferenciada e que gosta de ler boas obras. Tivemos uma conversa gostosa e proveitosa nesta manhã.

A irmã do colega é linda e me saudou de uma maneira muito carinhosa, pois senti que seu cumprimento foi sincero e agradável. Ela segurou minha mão como nenhuma outra mulher o fizera até então. Senti firmeza no seu modo de cumprimentar, pois é comum as mulheres não apertarem nossas mãos. E quando eu cumprimento alguém, eu gosto de passar e receber energia. Odeio pessoas que não passam isso. Aliás, eu tive um tio que cumprimentava a gente com descaso e eu lhe disse isso uma vez. Ou cumprimenta com vontade ou então nem estenda a mão. Fiquei feliz e gostei da maneira como Lisandra segurou minha mão. E que me perdoe o colega: a irmã dele é linda.

Dei para a filha do Levorato, a Paula, as cartas para que ela colocasse no correio para mim. Como são lindas as filhas do colega.
55609JUL07, segunda-feira.
Quando pensei em intitular este Diário do Cárcere de “COVARDES” ao invés de “MORADORES DA RUA 10” foi o momento mais iluminado que tive, haja vista a justa adequação da narrativa aos seus personagens. Nunca vi tantos seres abjetos e covardes por metro quadrado e nem quero ver; isso aqui me basta.
55710JUL07, terça-feira.
Já se passou mais de um mês desde a minha avaliação médica e eu estou ansioso com o resultado que me libertará em breve. Não penso de outra maneira, pois o médico militar me disse que em breve eu estaria em casa e minha mulher me escreveu uma carta dizendo que o próprio médico garantiu isso a ela por telefone.

Hoje é terça, o dia preferido do “Zé” porque ele pode ver sua Musa Inês. Entretanto ele me disse que ela o tem tratado com muita frieza e nada disse a respeito dos seus bilhetes. Ela não se manifestou. Mesmo assim, o momento da despedida é o mais desejado pelo colega porque ele pode sentir o cheiro dela e ganhar um beijo seu de despedida. É triste vê-lo ao término da reunião. Ele acredita que se precipitou e teme que ela o deteste por isso.

Coitado!
55811JUL07, quarta-feira.
O louco César enviou-me o quadro de botões que me fez através do “Diou” e mandou me dizer que o custo era de trinta reais. Um roubo! Será que ele pensa que sou idiota? E ainda disse que eu deveria pagar até o final da tarde. Descarado! Não paguei.

Eu brinquei com o doido dizendo que seus quadros de botões eram lindos e que eu desejava possuir uma linda interrogação feita de botões. O idiota acreditou e me fez. Agora vou ter que pagar ou corro o risco deste miserável me criar problemas por causa disso. Todos riram de mim. O pior e o mais engraçado é que ele mandou a notinha descrevendo o custo dos materiais e o valor da mão-de-obra.

Sonhei com minha falecida tia e acredito que seja um bom presságio. Ela sempre gostou de mim. E se não for?

Falei com a Procuradora e ela me disse que meu exame ainda não havia chegado ao Tribunal de Justiça Militar e por isso ela nada podia me adiantar.


55912JUL07, quinta-feira.
Faz frio! Ufa!

Ouvi no programa Dia-a-dia, do Edu Guedes, comentários a respeito do funcionamento da Justiça brasileira; nada que eu já não tivesse ouvido antes. Os que têm dinheiro não vão presos, mas os pobres permanecem até além de suas penas. Pura verdade!

À noite o Mello veio reclamar que os meus colegas do alojamento quatro não estavam fazendo uma boa faxina no banheiro. Como era o dia do “doidinho”, eu lhe comuniquei o fato. É claro que isso gerou uma enorme confusão.
56013JUL07, sexta-feira.
Sexta-feira 13!

Quase fui atropelado esta manhã pelo Tenente Domingos. Só faltava isso!

A Cidinha me enviou uma carta dizendo que o médico militar ligou mesmo para o Posto de Saúde de Maracaí pra saber de mim e que também foram em casa dois policiais militares de Assis, da Polícia Rodoviária, para perguntar sobre mim e o meu comportamento em casa. Por que isso? Quais as intenções deles? Duvido que seja pra ajudar!

Estou indignado com a dentista do PMRG. Pois ela sempre adia minha consulta. Desde o dia dez de maio que estou na fila de espera e ela adiou por três vezes, a saber: 10 mai, 10 jul e 01 ago. Os comprovantes estão guardados no meu diário original. Desisti.

E depois têm a cara de pau de dizer que as coisas funcionam bem aqui na prisão, Ninguém está nem aí com preso. Malditos sejam eles e desgraçados sejamos nós, amém.
56114JUL07, sábado.
Fizemos quase mil pães para alimentar estes infelizes. Quanto dinheiro gasto com pessoas que não merecem. Construir presídios e alimentar bandidos é uma afronta à sociedade, às pessoas honestas e trabalhadoras, aos homens de bem e à nação. Deveríamos pagar dobrado pelos crimes que cometemos; e isso me inclui. Com que dinheiro? Com o suor do nosso trabalho, mas trabalho duro.

Ouvir presos falando das mulheres é nojento, pois esses miseráveis parecem que são filhos de chocadeira e que não têm nem mãe e nem irmãs. As mulheres são, para a grande maioria, meros objetos sexuais e nada mais. Eles não conseguem ver nada além que sexo nelas. Pobres mulheres de bandidos!


56215JUL07, domingo.
Fiz novamente uma garrafa de café pro Belarmino e sua família. Sei que vou ganhar bolo e doces depois; mas não fiz por interesse.

Fui muito criticado por afirmar que não sou torcedor da Seleção Brasileira de Futebol e que gosto sim da França, Argentina e qualquer país africano. Eu torço sim pra que o Brasil seja um país pentacampeão em qualidade de vida pro povo brasileiro e não no futebol. Os jogadores brasileiros não estão nem aí com a desgraça do povo. Eu não quero engrossar esta lista de imbecis que acha que futebol traz alegria pro povo. Eu prefiro ver o povo de barriga cheia, ver o país sem violência, ver as crianças com perspectivas de futuro, os velhos bem amparados, etc.

Eu não vi glória nenhuma na vitória do Brasil sobre a Argentina por 3 x 0. Isso nada mudou na minha vida, pois o meu processo continua. A minha vitória será mais importante.

Escrevi uma carta pra Ouvidoria denunciando as polícias de Maracaí. Quero que todos saibam como são perversos e arbitrários e covardes aqueles malditos.


56316JUL07, segunda-feira.
Chove e minha tristeza é maior ainda nos dias chuvosos. O espaço ecumênico fica cheio de colegas e eu não consigo raciocinar e me concentrar na leitura que faço. Percebo que os outros também estão inquietos. O Gabarron e o Alécio estão lendo e o Belarmino segura em suas mãos o seu crachá como se fosse um troféu. Levanta, sai e volta. Ele está tão impaciente quanto nós.

56417JUL07, terça-feira.


Tenho percebido que o Alves não se sente muito à vontade trabalhando comigo porque mesmo não havendo nenhum tipo de intriga entre nós, notei que ele se relaciona melhor com o Anderson. É que eles falam a mesma língua e gostam das mesmas coisas. Eu não faço parte do universo deles. Somos diferentes.

O Payão colocou no armário uma matéria interessante sobre a origem do pão e eu retirei pros meus arquivos porque sabia que a maioria dos colegas não iria perder seu precioso tempo lendo aquilo. Achei que a matéria seria mais aproveitável comigo, mas isso incomodou o Alves que me fez recolocá-la de volta no armário até que, segundo ele, todos lessem. Muito justo, se todos realmente lessem. Ele fez isso para me desestabilizar. Penso em deixar o trabalho na padaria.


56518JUL07, quarta-feira.
Compareci ao meu interrogatório sobre a barba que não tenho, nunca tive e jamais terei. Lá estavam o Tenente Levi, um Sargento e a Procuradora pra me defender. Achei tudo isso um verdadeiro circo e disse em voz alta que não acreditava no que estava presenciando. Que o Estado estava sendo lesado em seus cofres diante daquela palhaçada. E que eu estava sendo torturado psicologicamente diante de um fato tão insignificante. Aqui a gente pode ter a vida complicada por nenhuma razão.

Manifestei o meu descontentamento com tudo aquilo e quase vi minha situação se complicar quando o Tenente Levi me ordenou que calasse ou então ele me comunicaria de novo por ofender a Instituição Policial Militar e seus integrantes. Meu Deus! Que absurdo! Se não fosse a Procuradora Elizabeth pra me acalmar, eu estaria mais complicado ainda. E tudo isso por causa de uma barba que nunca tive!

Desejei estar entre os mortos da TAM, menos entre esses vermes militares.
56720JUL07, sexta-feira.

Peguei o material de limpeza no almoxarifado como de costume no dia de hoje, ou seja, quem está escalado na sexta-feira deve providenciar o material para a próxima semana.

Falei também com o psicólogo Dr. Christian para saber se ele sabia algo a respeito do meu exame médico do HPM. Eu disse a ele que estava ansioso e que também temia ser punido pela “maldita barba” que nunca tive. Ele prometeu me ajudar e falar com o Capitão Luco pra aliviar a minha barra. Não sei se devo acreditar, mas não tenho alternativa.

56821JUL07, sábado.

Faz um ano que minha mãe faleceu. Eu não fui sepultá-la e isso me enche de pesar. Acredito que tomei a melhor decisão não indo, pois seria muito constrangedor pra mim e pros meus poucos familiares me verem algemado ao lado do caixão de minha mãe. Os curiosos certamente iriam se lembrar de mim muito mais do que pela minha ausência e meus inimigos iriam se deliciar com o meu sofrimento e humilhação. Não dei a eles este prazer.

E como era sábado, aproveitei para dormir um pouco de manhã e sonhei com minha mãe, exatamente na hora em que ela deveria estar prestes a falecer há um ano. Ela acariciava minha cabeça e braços e eu pude sentir o frio deste toque carinhoso e maternal. E ela me pediu que eu ficasse sempre ao lado de minhas irmãs e não as abandonasse. Disse-me algo sobre o mês de março que eu não compreendi muito bem; depois adormeci profundamente e acordei bem mais tranquilo.


56922JUL07, domingo.
“Conhecer o outro é sinal de sabedoria; conhecer a si mesmo é ser iluminado.”

(TV Globo – 21jul07)


O César insiste em receber pelo seu trabalho de botões e eu vou ter que pagar por esta merda pra evitar problemas com este louco. Eis a conta: 20,25 reais de botões, 5,00 de madeira, 0,50 centavos de cola e 4,25 de outros materiais e mão-de-obra. Total; 30,00 reais. Que absurdo!

Ri muito deste episódio e quebrei o maldito quadro em seguida, após retirar todos os botões sob o chuveiro na tentativa de aproveitá-los. Desisti e joguei tudo no lixo. O Levorato viu e riu de mim. E não demorou pra que todos soubessem e começassem a zombar de mim.


57023JUL07, segunda-feira.
É o aniversário da minha irmã Matilde. Que Deus a abençoe. Desde que vim preso pela segunda vez que eu não a vejo e sei que ela está muito doente e que não pode vir me ver. E mesmo que pudesse, ela não tem cadastro.

57124JUL07, terça-feira.


Após mais de quatro anos de prisão, o colega Selles foi embora ontem. Quando brilhará para mim o sol da liberdade, meu Deus?

Os colegas Luís, Ferreira e André foram ao júri hoje e todos esperam que eles sejam absolvidos.

Ouvi a história do Dey que tem o corpo perfurado por vários tiros e um olho furado. Ele se vangloria de ter sido o responsável pela perdição de muitas jovens que foram iniciadas na prostituição por ele e conta suas sórdidas histórias de promiscuidade com elas de uma maneira debochada e rica em detalhes obscenos.

O Belarmino é um burguês que não tem noção de espaço e que deixa suas coisas jogadas por todo lado e isso muito tem me incomodado porque estou sempre tropeçando em algo que lhe pertence, principalmente, à noite. Ele deixa seus tênis e sandálias pelo chão e não se preocupa em guardá-los. Ele deve ter sido dessas crianças mal educadas que foram criadas pela vovó. Ele não teve limites em sua infância e se acha o dono do mundo.

É preciso que o burguesinho reveja suas atitudes pra melhor viver entre a bandidagem. Nem todos gostam de ter alguém relaxado como ele de vizinho.

O meu colega Rovilson foi embora esta noite. Que Deus o abençoe.


57225JUL07, quarta-feira.
A grande e boa notícia de hoje é que os amigos Luís, Ferreira e André foram embora. Parece que eles foram mesmo absolvidos e retornarão ao trabalho policial, é o que se comenta.
57326JUL07, quinta-feira.
Odeio o Tenente Edson. Este miserável se acha a pessoa mais importante do mundo e nos humilha o tempo todo. Ele não tem um pingo de noção do perigo que ele corre, muitos insistem em afirmar isso. É muito fácil chutar cachorro morto!

Deus irá se lembrar dele e vai lhe recompensar pelos seus atos. Aguarde infeliz! Sua hora vai chegar e você verá o quanto não vale nada. Ninguém vai lhe matar ou humilhar porque você é um homem morto e sepultado na sua arrogância, prepotência e hipocrisia. Maldito seja!

Este ser abjeto ordenou que a Banda parasse de tocar nesta manhã só pra ouvir se todos cantavam o Hino do Romão. Que letrinha vagabunda! Eu não decorei e nem vou decorar esta merda! Desejo que este infeliz Romão Gomes vá pro inferno ao som da melodia repulsiva da sua própria canção. Como podem exigir que um preso cante? Ninguém aqui está alegre. Eu não consigo cantar estando triste nem em minha casa, quanto mais aqui. Por várias vezes fingi que canto e vou continuar assim até que descubram. Além do mais, eu detesto as canções militares.

Odeio a canção da PM quando fala da “glória em Canudos”. Meu Deus! Quanta mentira! Aquilo foi um assassinato em massa de crianças e velhos. Pura COVARDIA. É por isso que o título da obra não poderia ser outro. Mentirosos, perversos e covardes; eis o resumo sintético do que são esses homens da lei. E isso se estende a todos os policiais civis, militares e similares e, principalmente, aos senhores Promotores Públicos e à grande maioria dos Magistrados. Há exceções, é claro, e a esses eu peço minhas escusas.


57427JUL07, sexta-feira.
Acordei mal do estômago e tive que ir ao médico. Acredito que foi o arroz apimentado de ontem.

Recebemos botas, cobertores e blusa esta tarde. Muitos não gostaram da qualidade do material, mas o que eles queriam? Está ótimo pra quem está na prisão. Tem muita gente honesta que não tem nem isso!

Acabei a minha leitura do livro de Mateus que faço todas as manhãs e vou começar outro livro bíblico, mas não será o evangelho.

A Procuradora Elizabeth me disse ter protocolado meu pedido do exame médico no TJM e que eu preciso aguardar a liberação do Juiz.


57528JUL07, sábado.
“Quando és feliz tens muitos amigos; em tempo nublado ficas só.”

(Ovídio)
Fez muito frio esta manhã. Também não gosto do frio. Sonhei de novo com minha prima Neusa e com a Ângela que vem orar conosco às quartas-feiras.

Hoje foi mais um dia sem nada de importante para o meu diário.
57629JUL07, domingo.
A minha irmã Marcília veio me visitar, mas em razão do frio, pedi a ela que não demorasse muito porque eu queria dormir e não havia necessidade da gente ficar exposto às intempéries. Além disso, eu não queria ouvir minha irmã dizendo coisas desagradáveis do meu filho e de minha mulher. Ela me contou que a nossa irmã Matilde veio a São Paulo o mês passado para fazer uma cirurgia.

Desta vez, ela me trouxe bolo de cenoura com chocolate e logo se foi. Daí eu fui conversar um pouco com a mãe do Belarmino que também me deu doces e bolo. Em seguida fui dormir.


57730JUL07, segunda-feira.
“A realidade é o que ela é e não o contrário. Então, siga-a com otimismo e bom humor. Sempre! Sempre! Sempre!”

(Duda)
Dormia quando um colega veio me dizer que eu devia entrar em forma com os demais. A princípio não quis acreditar, mas fui; eram 11h45 da manhã. Eu trabalhei a noite toda e estava no melhor do meu sono.

A reunião foi pra dizer que a partir de hoje nós deveríamos usar o novo uniforme: calça bege, camisa amarela com as letras PMRG nas costas e o blusão com as mesmas inscrições e também as botinas pretas. A arrumação do alojamento deveria ser padronizada, com as camas arrumadas todas da mesma forma e sobre ela o cobertor vermelho que nos foi entregue na semana passada. O não cumprimento da ordem implicaria em severas punições.
57831JUL07, terça-feira.
“La mer est muette et profonde

Toute chose dort dans son sein:

Um Seul pas et tout est fini,

Um plongeon, une bulle, et plus rien.”

(Longfellow)
É um grande desafio ler Jack London em francês, mas está sendo emocionante e prazeroso. A cada página lida uma batalha vencida, então me propus a vencer dez delas por dia. E às vezes a luta é tão interessante que eu acabo por vencer muito mais batalhas. Amo ler!

Viver em grupo não é fácil em condições normais onde impera o respeito, a cordialidade e a solidariedade, aqui então é mil vezes pior. Os vagabundos bebem água, mas não querem buscar; aí sobra pra mim. Alguém tem que fazer o papel de trouxa.


57901AGO07 quarta-feira.
“Je crois que la course est gagnée par le plus rapide, que la vie est au plus fort. Voilà la leçon que m’a appris la biologie ou que je crois avoir apprise. Oui, je suis individualiste, et l’individualisme est l’ennemi, eternel, héréditaire du socialisme.”

(Nietzsche)


Assisti o retorno de Mariana Godoy esta manhã. Estaria ela de férias? Amo esta jornalista e já disse várias vezes que ela é a mais bela mulher do jornalismo brasileiro e dedico a ela este meu Diário do Cárcere. Eu gostaria muito que ela pudesse lê-lo um dia. Ainda que ninguém mais o lesse, eu já me sentiria um Paulo Coelho.

Estou lendo o livro de Judite.

Meu Deus! O Belarmino foi transferido para o sistema, isto é, foi para o presídio de Tremembé; para a prisão comum. Não se fala em outra coisa. Senti muito sua perda entre nós e chorei.
58002AGO07, quinta-feira.
“L’amour naquit sur la terre avant la parole.”

(Jack London)

A madrugada de hoje foi desastrada, pois não havia fermento na geladeira e nós tivemos que chamar o Payão para abrir o freezer e nos dar o fermento que estava guardado lá. Ele não gostou nem um pouco de ser acordado e disse que devíamos ter chamado o Levorato que estava mais próximo da padaria e não ele que estava lá no semi-aberto. Só depois é que vi o erro que cometemos.

Ainda não consigo acreditar na transferência do colega e nos comentários desairosos a seu respeito. A pequenez humana me dá nojo. A maioria desses que falam mal dele agora eram os mesmos que viviam pedindo auxílio pra ele quando precisavam informar uma parte ou qualquer outro documento. Todos se recorriam a ele e agora lançam lhe mil pedras pelas costas do pobre coitado. Malditos homens militarizados.

É certo que o Belarmino tinha seu modo particular de ser e não gostava de se sujeitar às ordens do comando, mas isso não me causava mal algum e acredito que aos outros também não, exceto por ele não cumprir suas obrigações na faxina e na reposição da água do corredor. Mesmo assim, ninguém morreu de sede. Portanto não é justo o que falam dele na sua ausência. Por essas e outra razões é que se justifica o título desta obra; COVARDES!
58103AGO07, sexta-feira.
“L’amour habite les hauts sommets, bien au-dessus des froides vallées de la raison et celui qui cueille cette fleur rare ne peut plus descendre parmi les humains tant qu’elle n’est pas fanée.”

(Jack London)


Mais alguns colegas vieram pro segundo estágio esta tarde: Satélis, Sandro, Ceballos, Mattos, Rocha “Tim Maia”, o Feitosa e o França. Melhor pra eles.

Enquanto isso, eu ainda espero poder sair em breve deste lugar. Mesmo não sabendo nada sobre o resultado do maldito exame. Já são quase dois meses!


58204AGO07, sábado.
“Mais moi, je suis moi, et je ne subordonnerai pas mon goût au jugement unânime du public. Si je n’aime pas une chose, je ne l’aime pas, voilà tout; et rien au monde ne me fera l’aimer, parce que la grande majorité de mês contemporains l’aime, ou fait semblant d’ aimer. Mês goûts et mês aversions ne suivent pas la mode.”

(Jack London)


Amanhã será o primeiro domingo sem o colega Belarmino e eu não ganharei mais os doces de sempre. Como será que ele está?

Não terei também o prazer de conversar com sua mãe e esposa. É triste!

Recebi a determinação do Sargento Lino para juntar todos os pertences dele e entregar para o interno Carlos que se encarregará de mandar pra ele. Cumpri fielmente a missão e anotei tudo. Fiquei até com alguns doces que encontrei debaixo da minha jéga e sei que pertenciam a ele. Eu os comi e depois direi a ele por carta. Os urubus queriam se apossar das coisas do colega, mas eu não permiti; exceto do “quieto” que ele havia dado pro Henrique “corneteiro”.
58305AGO07, domingo.
Não dormi bem esta noite e ouvi as badaladas do sino da igreja aqui do bairro desde 01h30. Não terei visita neste domingo.

O César insiste em receber pelo seu trabalho artístico feito de botões e eu nem tenho mais esta maldita obra prima contemporânea. “Paguei de louco” ao falar que tinha gostado dos quadros dele. Agora vou ter que pagar por aquela porcaria feita de botões.


58406AGO07, segunda-feira.
Agora sim posso confirmar ao leitor o número de mortos que o Décio matou; são três. Ele mesmo se prontificou a narrar sua história e eu tomei nota logo após ouvi-la. Vou poupá-los deste monstro. Eu não gosto dele.
58507AGO07, terça-feira.
Ouvi dois colegas no banheiro falando de seus conhecimentos sobre arma de grosso calibre e não entendi patavina. E falaram também de suas vítimas como se elas nada fossem, como se matá-las fosse o divertimento deles.

O Sr Antônio desconfia que o “Zé” está de olho na sua filha. Eu percebi isso. Não sei o que ele pensa sobre e nem ela. Entretanto o “Zé” me disse que também percebeu e que tentará ser mais discreto.


58608AGO07, quarta-feira.
O bem e mal habita em nós e não é fácil servir a estes dois impostores. O equilíbrio não é fácil ser mantido e às vezes a gente perde o controle por nada.

Costumo frequentar as reuniões católicas nas quartas, mas passei a não gostar porque soube que o Adilson é coronel da PM. Antes, quando eu não sabia, até gostava de ouvi-lo, mas agora não me sinto bem. É bom sim ouvir a Ângela cantando e a Maria José. Ele também tem um bom discurso, mas eu não gosto de militar.


58709AGO07, quinta-feira.
O Biancão foi a júri hoje.

Limpei o corredor e o Datena me ajudou, pois desde que o Belarmino se foi ninguém mais assumiu a limpeza e não foi escalado ninguém para o lugar dele.

O Araújo se foi ontem e só agora eu me lembrei de registrar no meu diário. Um a menos pra ocupar o alojamento sete. Menos um crente na prisão para a glória de Deus e pra felicidade do César. Aliás, ele veio pro semi-aberto e já teve o direito de sair no feriado do dia dos pais. O Lopes também conseguiu este benefício.
58810AGO07, sexta-feira.
O comentário hoje foi que o Biancão pegou doze anos de prisão; o mínimo. E com o tempo que ele tem de cadeia, logo irá embora. Falaram muito do Granziero que retornou à prisão e que é da região de Assis; também ex-rodoviário e que foi condenado a 31 anos de prisão por estelionato.

O “Cabeça-de-Bexiga” está trabalhando comigo no lugar do Alves.


58911AGO07, sábado.
Recebi uma carta da Cidinha em homenagem ao dia dos pais, mas o meu filho se esqueceu. Eu não sou pai da minha mulher! Que filho desnaturado!

Os jovens são iguais e quase não têm tempo pra nada, só se lembram dos pais na hora das necessidades deles. Um dia ele vai se lembrar que se esqueceu de mim.


59012AGO07, domingo.
Dia dos Pais! E eu passo pela segunda vez sem a presença do meu filho. Até quando? Que seja feita a vontade de Deus.
59113AGO07, segunda-feira.
Escrevo este diário com a intenção de que seja lido por alguém um dia. Ele só será completo no outro e por isso não temo nada. Se alguém, porventura, se sentir ofendido com as revelações que fiz é porque não tomou o cuidado de ser discreto em suas atitudes. Eu mesmo, muitas vezes, cometi inúmeros erros e muitas indiscrições; azar o meu. E se de repente eu não sou o único a escrever um diário do cárcere? Portanto, coloquem as barbas de molho quem tem culpa no cartório. Por exemplo, eu gosto muito do Gabarron, mas odeio o crime cometido por ele independentemente das circunstâncias. Lamento!
59214AGO07, terça-feira.
Desde ontem o Décio vem sendo criticado por alguns colegas por ter dito o que não devia. Ele foi infeliz ao afirmar que ele não está aqui pra encher a barriga dos outros e que por isso não dá nada pra ninguém, menos ainda para presos. Essa sua atitude foi severamente censurada pelo colega “Presuntinho” que não se intimidou em dizer poucas e boas pra ele. O clima não ficou legal entre ambos.

O pior é que eu nunca presenciei o Décio oferecendo nada a ninguém, mas sempre o vi comendo e bebendo o que os outros colocam sobre a mesa. Eu também sempre comi sem nada oferecer, mas sempre limpei a sujeira após as refeições como forma de ajudar e lavei as vasilhas por inúmeras vezes. Essa minha atitude é o mínimo que podia fazer diante do que me foi oferecido. E sempre fiz com muito prazer.


59315AGO07, quarta-feira.
Não participei da reunião católica ontem porque me senti indisposto. Com isso não vi Inês e nem o “Zé” que costuma não ir quando eu não vou; somos amigos até na preguiça e confidentes fiéis.

Ainda ontem, três colegas foram para o terceiro estágio. O Levorato foi um desses. Em razão disso eu tive que mudar a escala de faxina; isso ocorre sempre que alguém sai ou entra para o alojamento.


59416AGO07, quinta-feira.
Li o projeto do Professor Sandro de Cássio, um amigo meu de Assis, que me enviou ao presídio para que eu comentasse a respeito e lhe enviei minhas observações preliminares. Após. Irei enviar novo parecer definitivo.

Ontem o Alves retornou à equipe, após passar o dia dos pais em sua casa. Graças a Deus eu vou me livrar do “Cabeça-de-bexiga”.

Ganhei um livro do Biancão; Os Tambores de Angola, de Robson Pinheiro. Não é bem o tipo de leitura que gosto, mas irei ler assim que puder; em casa talvez.
59517AGO07, sexta-feira.
Um mês já se passou desde a tragédia com o avião da TAM, o vôo 3054, onde mais de 200 pessoas morreram. Foi a pior tragédia da aviação brasileira, dizem.

Hoje tivemos que fazer uma faxina geral na padaria e todos foram convocados. O cilindro está quebrado e não estamos fazendo pães que estão sendo comprados.

Fui um dos primeiros a chegar ao trabalho e o “Cabeça-de-bexiga” veio me ameaçar dizendo que a idéia da faxina geral era minha e que por isso iria me dar um murro na boca. Não entendi bem a brincadeira e disse a ele que não havia gostado da maneira que me falou e perguntei se ele estava brincando ou falando sério, ao que me respondeu que falava sério. Fiquei furioso e disse a ele que não passasse vontade e discutimos. De imediato falei com o Payão e disse que não trabalharia ao lado dele e que iria denunciá-lo na penal. Criou-se o maior alvoroço entre todos, mas não o denunciei. Trabalhamos separados e a partir daí não falei mais com ele.

Aqui na prisão funciona assim, se a gente se intimida com o outro a vida nossa vira um inferno.


59618AGO07, sábado.
Ganhei uma revista francesa do colega Claudir que me trouxe da sua casa; é a revista L’OBSERVATEUR do mês de setembro de 2004. Tá valendo! Tudo pelo francês! Ele sabe que eu gosto de ler em francês desde quando morávamos na subseção e que ele me via ler a revista das Testemunhas de Jeová em francês; Réveillez-vous!

E nada mais fiz além de preparar o lugar pra receber as visitas amanhã; eu não as terei. Melhor assim. Eu tenho medo que algo possa acontecer com a Cidinha no trajeto até São Paulo porque a viagem é longa e cansativa; são quase 500 km. E ainda tem o problema de incomodar a minha irmã porque a Cidinha não sabe vir aqui sozinha. Melhor ficar em casa que eu fico menos preocupado.


59719AGO07, domingo.
Dei ao Peixoto vinte e cinco reais pra que sua família me traga algumas coisas no domingo que vem. São materiais de higiene pessoal entre outros.
59820AGO07, segunda-feira.
Um fato curioso me chamou a atenção na manhã de hoje quando vi no chão algumas rosas despedaçadas na quadra. Ontem eu as vi nas mãos de um marido preso apaixonado que as deu pra sua esposa. Será que ela não gostou? Será que ela não tem romantismo? Será que ela não se importou com a demonstração de carinho do vagabundo? E se no lugar das rosas o seu marido lhe desse algumas notas roubadas de cinquenta ou cem reais? Será que ela as jogaria? Será que eu iria encontrá-las no chão da quadra? Mulher ingrata e insensível! Se fosse a minha mulher, eu não a desejaria mais; eu sou romântico.

Onde está a nobreza dessa mulher? Só sendo mesmo mulher de bandido! Bem feito pro safado. Será que ele não merecia isso? Deus escreve certo por linhas tortas.


59921AGO07, terça-feira.
Meu Deus, a Mariana Godoy estava impecável esta manhã como sempre! Eu a amo! Um blusão azul com listas nos ombros. SUPERBE! MERVEILLEUSE!

Não fui ao encontro religioso e não vi Inês; nem o “Zé”. Trabalhei à tarde na padaria e não dá mesmo pra ir porque neste horário eu tenho que estar servindo os pães pra bandidagem. Lamento.


60022AGO07, quarta-feira.
Vinte meses aqui! E para piorar, ontem eu recebi uma carta do meu advogado que demonstra total desinteresse por mim e pela rápida solução do meu caso. Ele não sabe o número da execução e nem a Auditoria que está o processo. Bela merda de advogado! E ainda disse que é meu dever saber pra informá-lo. Tem cabimento isso?

Em meio a tantos dissabores, tive o desprazer de ver uma cena lamentável e triste na seção penal. O colega Alécio chorava copiosamente na presença do Sargento Lino. Por quê? Qual o motivo?

Logo em seguida eu ouvi o “demônio” Edson (o Tenente) lhe dizendo: “Eu não quero lhe pagar o rateio. Se você quer receber, então seja mandado embora da PM.” Eram 09h18 da manhã. Isso é apenas uma entre as muitas humilhações das quais somos vítimas aqui. O que temos a fazer é fugir sempre desses miseráveis o dia todo se não quisermos ser humilhados.

Vou e volto quando o assunto é humilhação porque acho que muitos merecem ser humilhados pelo mal que causaram à sociedade e às suas famílias. Aqui não tem santo e volto a repetir que Deus sabe o que faz e nós não sabemos o que dizemos. O maldito Tenente Edson, o “perna-de-moça”, deve ser um instrumento utilizado por Deus para me alertar em relação ao ser humano. Somos maus!

E não acabou por aí, pois pra finalizar bem o dia, tivemos um “arrebento” exclusivo na padaria. Trabalhávamos quando o Sargento Lino, Cabo Miquete, Soldados Jean, Cássio e Esteves entraram anunciando a revista geral nas instalações e em nós. Ficamos surpresos, eu, o Payão, o Alves e o Vianna. Não encontraram nada que nos pudesse causar complicações, mas nos desestabilizou. Essa é uma “práxis” comum aqui, ou seja, torturam-nos psicologicamente o tempo todo.
60123AGO07, quinta-feira.
O Tenente Moreira, O “Kid Loucura” ou o “Caçador de problemas”, está de retorno e agora o nosso pesadelo vai continuar. É difícil fugir dele e de suas canetadas. Preparem o lombo bandidagem que aí vêm chicotadas.

60224AGO07, sexta-feira.


Desde a revista matinal, o infeliz do Moreira está à procura de alguém para sacrificar e quis saber onde estão os internos do segundo estágio porque a maioria não apareceu para entrar em forma. Tivemos que formar um só pelotão com o terceiro estágio para a apresentação diante do comandante.
60325AGO07, sábado.
Aos sábados podemos acordar um pouco mais tarde, mesmo que a corneta toque sempre às seis da manhã. Alguns acabam chegando atrasados em forma e isso sempre causa embaraços ao bom andamento da revista.

Outro inconveniente é que os colegas da padaria não gostam de ficar até mais tarde para pagar os pães e isso prejudica o bom andamento do trabalho dos guardas que estão sempre chamando por mim. Militar é mesmo preguiçoso!


60426AGO07, domingo.
Ontem à noite a Dilaine estava divina e cheirava como os anjos quando veio buscar os pães para a presa Mariângela. O perfume dela exalava a perder-se e eu fiquei inebriado com tamanha e deliciosa fragrância. Ela é linda, educada, gostosa e etc.

Hoje de manhã eu a vi e não me contive e quis saber qual era o nome do perfume que ela usa; ao que me disse tratar-se do “Florata in Gold” do Boticário. De imediato me lembrei do perfume que usava a amante do colega “Zé”: Volgere. Eu conheço o cheiro desses perfumes, só não sabia distingui-los.

Como é bom sentir o cheiro de mulher após tanto tempo! O meu cheiro é de farinha de trigo e fermento. Cheiro à farinha Lydia Mix, Dorata Mix, Benta Mix, Suprema Mix da Bunge, Ana Bella e outras.

A surpresa do domingo ficou por conta da visita inesperada da minha irmã. Discutimos e eu pedi a ela que não viesse mais me ver. E o motivo da discussão é sempre o mesmo; as casas de Maracaí. Ela quer vender e eu sou contra. E ainda me culpa pela morte da nossa mãe.


60527AGO07, segunda-feira.
Um dia que não merece nem ser lembrado, pois não me apresentou nada de interessante e eu não quero que o meu diário se torne entediante ao meu leitor. Não vou ficar repetindo as mesmas idiotices que a rotina me impõe. Ou seja, comer, beber, dormir, etc.
60628AGO07, terça-feira.
Acordei ouvindo o Jeferson contando as suas peripécias e modo ilícito como conseguira seus bens, das suas trapaças em busca do lucro fácil, das pessoas que foram tapeadas por ele, etc. Ele contou em detalhes o modo sórdido de ação para “roubar” seus clientes desavisados. Ao fim da narrativa, lamentou e disse que nada valera a pena e preferia não ter posse alguma, mas participar do crescimento do seu filho.

O “Presuntinho”, como assim ele é chamado, não me parece ser um canalha como a grande maioria e eu o tenho em grande estima, apesar de ter ouvido sua história. Ele é um moço jovem, inteligente, bem formado e informado, é Bacharel em Direito, tem um excelente discurso, gosta de boas leituras, é comunicativo e um colega que se adapta bem a qualquer ambiente. É um “bom vivant” e usa seu discurso manso e suave pra angariar amizades. É um verdadeiro 171 da palavra.

Ouvi o Anderson dizer na sequência que não se arrepende do crime cometido por ele porque sua esposa mora num belo apartamento e tem um carro novo; isso o faz feliz. E ainda que se ele trabalhasse uma vida toda, jamais conseguiria o que conseguiu roubando. Já ouvi esse discurso sendo proferido por outros colegas ladrões, digo, “oportunistas”. Lembrei-me que o Anderson não gosta de ser chamado de ladrão. O Ataíde sempre afirmava isso e dizia que o roubo é o crime mais lucrativo e com pena menos rigorosa; só não pode haver morte. Ele veio preso por duas vezes enquanto aqui estou.

O Jeferson continuou dizendo que ele, apesar da pouca idade, aproveitou muito a vida sempre viajando sobre as melhores motos. Que um dia roubaram sua moto, mas que logo após deixaram-na defronte a sua casa, pois sabiam que lhe pertencia. E concluiu que nada é melhor que a vida em liberdade. Ele me pareceu arrependido.

Falei com o Sr Juiz Militar que não me deu boas notícias e disse que eu ainda deveria permanecer mais um tempo aqui conforme decisão do médico militar que afirmou em seu laudo que eu ainda não estava em condições de deixar a prisão. Foi terrível ouvir isso. Chorei e não quis acreditar, porém era verdade.

60729AGO07, quarta-feira.


Esta manhã o Claudir veio me dizer que o Dr. Christian queria me falar e com ele estava a Dra Claudiane que me fez muitas questões. Eles me disseram que tudo isso visava ajudar-me a sair daqui o mais rápido possível e que tal avaliação era determinada pelo Juiz Militar.

Acreditei neles e renovei minhas esperanças de poder deixar logo este lugar, mesmo sabendo que não era a vontade do médico militar.


60830AGO07, quinta-feira.
Recebi duas cartas de minha família, uma da Cidinha e outra da Matilde afirmando que elas se preocupam comigo. Pedi que me esquecessem numa carta que lhes respondi. E o pior foi que a Cida mandou errado o dinheiro que era pra por na conta do César, ela colocou na conta do Fernandes. Tive que desfazer o erro.
60931AGO07, sexta-feira.
O colega Mattos Gagarim foi embora ontem à noite.

Estou cansado de “pagar de largato” pra esses miseráveis e tendo que arcar com a responsabilidade de fazer toda a faxina. Ninguém gosta de fazer faxina e sobra tudo pra mim. Basta! Vou dizer ao Payão que não quero mais trabalhar aqui. Ah! “pagar de largato” é ser trouxa!

O “Cabeça-de-bexiga” é um vagabundo da pior espécie e só sabe comer como um porco esfomeado. Nunca vi alguém com tanto apetite!

Falei com o Payão e ele também confessou estar cansado da padaria e me disse que eu devia fazer como eu desejasse, pois ele conhecia o meu trabalho e sabia o modo como faço as coisas. Disse-me que exigir o mesmo dos outros é complicado porque aqui ninguém está mesmo a fim de nada e que eu devia entrar no jogo deles ou então sair mesmo. Em seguida falei com o Sargento Sílvio que pediu pra eu continuar até que ele fizesse uma reunião com todos nós. Aguardei.


61001SET07, sábado.
Eu tenho observado meus colegas de prisão e vejo que a grande maioria é capitalista ao extremo e só pensam em vida boa, com luxo, dinheiro, mulheres e etc. Não vejo nenhum com interesses mais sublimes, que demonstre satisfação com a vida, com a família, com os filhos, etc. São todos mesquinhos e individualistas que não conseguem enxergar além do próprio umbigo.
61102SET07, domingo.
A presa Mariângela quer saber de onde eu a conheço porque desde a primeira vez que eu a vi, eu lhe cumprimentei dizendo o seu nome completo e ela se assustou. Ocorre que eu vi na lista dos presos que, porventura, passou por minhas mãos quando tivemos que fazer uma previsão de rancho. Apenas memorizei o nome e disse-lhe ao vê-la. Isso a incomoda até agora. Disse-lhe, porém, que um dia ela saberá.

O domingo é um verdadeiro baile de máscaras aqui e cada palhaço se esforça pra se fantasiar melhor. Eu não uso fantasia; sou o mesmo interno de todos os dias e uso a mesma fantasia. O “doidinho” é o palhaço bem mais caracterizado, ele usa uma calça “pula-brejo”, se enche de jóias, põe seu tênis de mais de 500 reais e fica desfilando pela quadra e corredores como se desfilasse na São Paulo Fashion Week. Os seus concorrentes são: O Enoque, Ceballos, Negrute (O Anderson – “oportunista”), entre outros. Belos idiotas que parecem estar vivendo no mundo de Bob! Eu rio de todos.


Raça ordinária, homens pequenos, vermes, mentirosos, assassinos, ladrões, estupradores, perversos e covardes. Eu os odeio. Vocês podem enganar o mundo, menos a mim.
61203SET07, segunda-feira.
Costumo pagar para que façam as faxinas do banheiro e corredor para mim. Eu não gosto de fazer tais serviços e prefiro trabalhar na cozinha no lugar de outro colega para ganhar o dinheiro e repassar pra outro que me faça as faxinas no meu dia. Nada aqui é de graça. Mesmo proibido, o dinheiro pouco corre solto aqui e quem tem grana não faz nada. Graças a Deus eu consigo me livrar da faxina do banheiro que considero humilhante por demais. Eu não estudei tanto pra lavar banheiro da escória da sociedade, muito embora eu tenha feito isso lá na subseção.

61304SET07, terça-feira.


Fiquei chocado ao ver que os Promotores de Justiça podem matar à “la volonté” e que nada lhes acontecem. Maldita justiça brasileira! Todos se lembram do crime do Promotor Thales.

Assistindo TV hoje à tarde eu vi minha prima de Maracaí que dava uma breve entrevista falando da jovem Juíza de Futebol que apitou um jogo na minha cidade. Fiquei surpreso ao vê-la, pois jamais poderia imaginar ver um parente meu na telinha do Globo Esporte. A árbitra Ana Paula estava toda de rosa para comandar o jogo.

À noite eu recebi uma linda carta do amigo Marcelo (de Valinhos) me aconselhando a escrever um livro sobre minha experiência no cárcere assim como fez Graciliano Ramos. Vou escrever, mas serei verdadeiro e honesto comigo e com meus leitores. Exceto a história do “Zé”, não pouparei mais ninguém.

Participei da missa à noite.


61405SET07, quarta-feira.

Infelizmente completo 44 anos hoje. É o meu segundo aniversário na prisão. O terceiro não acontecerá; assim espero e que Deus me abençoe.

Ouvi as queixas do Dey que ficou zangado com um colega seu que lhe disse que ele não canta bem. Eu não penso assim, acho que ele tem boa voz e até gosto de ouvi-lo e cantar com ele.
61506SET07, quinta-feira.
Agora sei por que o Pinho é um imbecil, pois ele acabou de dizer ao Décio que em sua casa a TV fica ligada 24h por dia. Não há nada mais eficaz para imbecilizar o homem do que a TV quando é usada sem critérios. Lembrei até de uma música que diz: “A televisão me deixou burro demais.” E deixa mesmo quando não se sabe utilizá-la com sabedoria.

A Procuradora Elizabeth me disse que eu devo atuar como testemunha de defesa do “doidinho” (Vianna) no processo que está sendo movido contra ele por ter sido surpreendido dormindo fora do horário permitido. Por que ele me meteu nessa? De novo estarei de volta ao circo! Ah! Se a população soubesse o quanto paga por tudo isso! Isso é roubo, é desmando, é brincar em serviço, é hipocrisia é debochar do contribuinte, é uma zona, etc. São mais de 15 mil reais pagos pra esses homens brincarem em serviço. Por que não aplica uma escala extra de trabalho ao Vianna? Merda! Por que não vai pra rua pegar ladrões? Querem enlouquecer um pobre e infeliz preso que já está arruinado. Como adoram chutar cachorro morto! Lembrei-me da barba que até hoje não tenho! Malditos!

Senti pena de ver o Vilodres esta manhã. Sua garganta não está nada boa. Que Deus o ajude. Outra ajuda aqui não é fácil. Ficar doente aqui é padecer duas vezes.
61607SET07, sexta-feira.
Disseram-me que o aniversário do capitão Luco foi ontem. Ele também é virginiano como eu. Vou parabenizá-lo, pois ele não é tão mau assim e sempre foi educado comigo até agora.

Recebi duas cartas hoje, uma da minha irmã e outra do Douglas, antigo colega do X-5 de Araçatuba. Ele gostava de cantar e tocar violão comigo. Era um crente, amigo do Feitosa e tinha uma voz esquisita. Gostava de assistir Small Ville.

Por ser feriado, hoje teve visitas.
61708AGO07, sábado.
Escrevi uma carta para a presa “Bonequinha”, Kelly Samara, que enganava as pessoas e as roubava. Ela está presa no Carandiru. Uma linda garota no mundo do crime com apenas 19 anos e me nomeei Willian Shakespeare. Disse a ela que odeio esses homens da Justiça e sei que ela foi roubada pelos policiais que a prenderam. Disse acreditar nela porque conheço o “modus operandi” das polícias civil e militar.

Esta tarde nós fizemos uma verdadeira festa na padaria após o término do trabalho e comemos bem pra caramba. Tinha mussarela, presunto, suco de frutas, leite, café e etc. Após, jogamos dominó a tarde toda. Nem parecia que estávamos presos.


61809SET07, domingo.
O Jeferson me incomodou a noite toda por causa do meu ronco que lhe incomodava. O que posso fazer? É involuntário!

Os malditos não deviam reclamar de nada, pois se querem dormir bem, que vão pra casa deles. Eu não reclamo de nada aqui e tenho suportado vários abusos sem nada dizer.

O quadro do César ainda me atormenta e eu não vou pagar por aquela merda de botões, Eu pedi um presente e nunca disse a ele que queria comprar aquela porcaria. Agora ele enche a escada com suas obras de péssimo gosto. Só pode mesmo ser um louco para ficar colando botões e moedas em pedaços de madeira e achar que isso é arte. Isso é loucura pura!

Morreu Luciano Pavarotti. Uma grande perda para a música italiana e mundial. Estou triste! Ele fará parte do coro dos anjos celestes. Amém! Mas sabemos que as estrelas não morrem jamais, e ele foi e continuará sendo uma grande estrela. Obrigado! Vá cantar com os anjos! Adieu!


61910SET07,segunda-feira.
Até quando? Estou cansado desta vida! E ainda nada sei sobre o despacho do médico militar, ou seja, não li o despacho dele e nem sei das razões que ele utilizou para justificar minha permanência aqui por mais tempo. Gostaria de ler o laudo dele.

Duro foi ter que suportar o Dey e o Di Lúcia se fazendo passar por promotores, juízes e réus num debate imbecil que ambos travaram aqui no dormitório e que me impediu de dormir. Que idiotice! Que guardem seus argumentos pro momento certo. Eu não sou obrigado a ouvir tantas baboseiras. E tudo isso porque o julgamento do Dey, “o cara-de-borracha”, será dia 03out07. Boa sorte a ele!


62011SET07, terça-feira.
Hoje é o aniversário do Sr Antônio, o pai da Inês, que vem rezar conosco aqui às terças feiras. Que Deus o abençoe!

O Anderson agora faz seu artesanato dentro do alojamento e isso faz com que seus colegas não saiam daqui, o que me incomoda muito porque preciso dormir e não consigo com tanto barulho. Eles comentam que ganham muito mais com os artesanatos que fazem do que trabalhando nas empresas aqui do presídio. Comentam ainda que seus quadros custam de 70 a 300 reais.

Toquei violão esta tarde e cantei algumas músicas com o Di Lúcia e depois fui procurar o Dr. Christian, mas não o encontrei. Queria lhe perguntar sobre o meu exame.
62112SET07, quarta-feira.
A umidade do ar não está boa em São Paulo e isto tem provocado irritação de garganta em muitos de nós. Eu mesmo sinto algo estranho na garganta. E pra piorar tem faltado água aqui.

Duas semanas já se passaram desde o último exame que fiz aqui no PMRG e também não sei o resultado, espero que com este exame o Juiz Militar possa mudar de opinião a meu respeito e me liberar.

Soube hoje que o Sr Walter, amigo do Stefanoni e do Belizário, foi embora. Lembro-me do documento horrível que ele me apresentou para corrigir a mando do Belarmino e que nós rimos muito porque o velho é um verdadeiro analfabeto. Sem chances! Nem me dei o luxo de ler por inteiro.

Havia pedido para a minha irmã Marcília ir ao TJM e solicitar a cópia do meu exame e hoje fui informado pela Procuradora Elizabeth que ela já teria pegado o exame que não é favorável à minha saída, infelizmente. Ainda me disse que o seu pedido não havia sido protocolado ainda.

Perdi as esperanças de sair em breve daqui e temo ser esquecido neste lugar insano e deprimente. Meu Deus! Por quê? Estou muito triste!

Sinto ódio do médico militar que se fez de bonzinho pra me arrancar coisas e eu caí como um patinho na sua conversa. Odeio-o por ter mentido pra minha mulher. Por que ele fez isso? Por que me manter aqui? Quais os motivos que o levaram a pensar que devo permanecer aqui?


62213SET07, quinta-feira.
Já estou preso há 01 ano, 08 meses e 22 dias sem contar a remição que pra mim não vale como contagem pra tempo de cadeia. Ou seja, trabalho de graça enquanto que os outros reduzem suas penas a cada três dias trabalhado. Quem cumpre Medida de Segurança não se considera condenado e só sai com um aval médico.

Ainda ontem eu li o exame médico e fiquei aterrorizado com o relatório do médico e resolvi falar com o Dr. Christian para saber do parecer dele e como ficaria minha situação diante de tal absurdo.

Recebi uma carta do Sandro (meu amigo de Assis) me comunicando que ele havia sido aprovado na Unicamp em Espanhol e que poderia seguir seus exames visando o Doutorado. Isso muito me alegrou porque ele me disse que fez uso das minhas observações no seu projeto, o que me deixou honrado.

Todavia, minha concentração maior foi na leitura e releitura constante do laudo maluco que o médico militar fez a meu respeito. Não vai ser fácil pro meu advogado reverter esta situação. Acho que ficarei aqui por muito tempo ainda. Eis a conclusão a que chegou o médico militar:

Concluo, portanto, que o periciado apresenta uma doença mental instalada no momento sintomática, mas passível de tratamento com satisfatório controle farmacológico; pelas características psicopatológicas próprias da moléstia (acima descritas), no momento, o periciado possui periculosidade acima da população geral, devendo submeter a tratamento a nível hospitalar, aguardando-se o devido controle dos sintomas vigentes, quando poderá ser acompanhado a nível ambulatorial, dentro de uma condição mental próxima da normalidade e com um grau de periculosidade compatível com a vida em sociedade.

Passo agora a responder ao quesito formulado pelo MM Juiz de Direito de Execuções Criminais, Dr. Luiz Alberto Moro Cavalcante: “O sentenciado encontra-se emocionalmente equilibrado?”

Resposta: No momento, não.”

E assina o presente laudo, o infeliz Dr. Luiz Henrique Andrade de Barros, Capitão Médico PM Psiquiatra do hospital da Polícia Militar do Estado de São Paulo, perito relator, CRM – 55.763.
Foi o momento mais triste dos últimos dias. E ainda deixei de mencionar outras idiotices que consta do laudo, como por exemplo, que eu me comparo aos grandes líderes da história e que uso de termos consagrados da literatura para me defender, que sou egoísta, individualista e imediatista. Que uso dos meus conhecimentos para me aproximar das pessoas e convencê-las a acreditarem nas minhas idéias e que vejo o outro sob o crivo da mediocridade. Não deixou de exaltar as minhas qualidades intelectuais, mas usou isso como álibi para me condenar ao cárcere por mais alguns anos. Monstro! Este maldito médico é um monstro!
Todavia, laudos anteriores de outros médicos jamais afirmaram que sou uma pessoa periculosa. Veja:

O examinado apresenta quadro psiquiátrico compatível com esquizofrenia do tipo paranóide. Trata-se de doença mental que evolui em surtos (fases sintomáticas) entremeados a períodos oligossintomáticos (praticamente normal). Não se conhece cura no sentido de restitutio ad integrum, entretanto, com o tratamento, retarda-se a evolução do mal no sentido de controle.



Quer nos parecer que no momento, realmente o examinado não reúne condições de gerir a própria vida, nem de praticar os atos da vida civil (Encontra-se em surto, fase sintomática). O que não podemos afiançar é por quanto tempo este estado perdurará. No momento, salvo melhor juízo, é o que se denota do caso em tela.

Assinou o laudo acima, o Dr. Francisco P. Faro Neto, CRM – 35408 / RG 610734 (PR) / CPF 437.421.308 / 20, que foi o perito designado para elaborar o referido exame em Assis, 31 de Agosto de 1992, por ordem judicial.

E ainda há outro laudo que foi feito no dia 03 de agosto de 2006 que é contrário ao do médico militar. Leia-se:

O entrevistado apresenta quadro compatível com diagnóstico de esquizofrenia do tipo paranóide. Atualmente encontra-se apresentando idéias de referência e persecutórias, dizendo que as autoridades o querem prejudicar. O entrevistado não tem condições de responder pelas ofensas e ameaças que teria proferido, por apresentar quadro de doença mental. Assim passo a responder aos quesitos propostos:


  1. Sim. O periciado era incapaz de entender o caráter ilícito do fato;

  2. Prejudicado pela resposta do primeiro quesito;

  3. A periculosidade do paciente enseja Tratamento Ambulatorial;

  4. E quanto ao prazo mínimo necessário para a Medida de Segurança; o entrevistado necessita de tratamento psiquiátrico pelo resto de sua vida

Assinou o referido laudo, o Dr. Wilson Conte de Las Villas Rodrigues, Psiquiatra, CRM/SP 49968 – perito forense, nomeado pelo Juiz da comarca de Maracai – SP. Perícia médica realizada em 03 de agosto de 2007 no Hospital psiquiátrico de Assis – SP às 08h30.


Portanto, o médico militar contrariou todos os laudos anteriores e aplicou a sua sentença sobre mim sem piedade. É por isso que não temo em dizer as minhas verdades e que faço questão de ser preso novamente após a publicação deste meu diário. Duvido que os militares sejam homens para engolir essas verdades sem usar da covardia que lhes é própria. Sei que vão me prender por acharem que estou atacando as Instituições Policiais Civis e Militares, mas ninguém é sensível o suficiente para ver o enorme mal que essas instituições me causaram prendendo-me de maneira covarde e arbitrária por quase três anos. Eu não posso temê-los, pois o meu silêncio seria sinônimo de covardia e eu estaria me igualando a eles. Que Deus me proteja!
62314SET07, sexta-feira.
Eu não consigo entender o motivo da “Juizinha” ter me condenado a um ano de Medida de Segurança e internação em hospital de custódia, sendo que o laudo médico dizia exatamente o contrário. Não há, pois, como não pensar que fui vítima de perseguição e corporativismo. Que houve o conluio das autoridades policiais, da Promotoria e do Judiciário para me prejudicar. A palavra do médico perito não serviu pra nada. É muito poder pra uma única pessoa. E quando morrem juízes por aí, a sociedade fica chocada e estarrecida, porém não sabem do que eles são capazes de fazer com aqueles que estão sob o jugo deles. Quantas famílias não são destruídas com uma simples “canetada” de um juizinho formado em cursinho de final de semana.

O chicote é o mesmo, só muda o chicoteador. Ou seja, esses magistrados são filhos de pessoas influentes da sociedade que sempre se deram bem na vida à custa da desgraça da maioria. São burgueses que nunca sofreram na vida e que tiveram ótimas escolas e oportunidades que nos foram negadas. Que compraram seus diplomas com o dinheiro roubado de muitos injustiçados e condenados por seus pais e avós. Se acharem que falo demais e que sou um frustrado, pois então faça uma pesquisa sobre a vida dos atuais juízes e vejam se eu digo mentiras. Essa maldita juíza que me condenou é um exemplo claro de perversidade. Ela nunca ouviu a minha voz, não me conhece, não sabe o que sei e não viveu o que vivi, e mesmo assim me julgou com base em depoimentos mentirosos e conduzidos por um merda de um delegado de polícia que coagiu testemunhas para que dissessem o que ele queria que fosse dito a meu respeito. Como pode alguém condenar alguém sem nunca tê-lo visto ou ouvido pessoalmente? O meu direito de defesa foi negado. Outro juiz que não irá me julgar, não quer nem me ouvir; foi o que aconteceu comigo quando fui depor lá na Barra Funda em São Paulo. A juizinha que me ouviu estava com muita pressa e não me deu o tempo necessário para que eu dissesse a minha verdade. Talvez ela tivesse com pressa pra ir pra cama com o amante e pôr chifres no marido ou namorado; sei lá. Vagabunda!


62415SET07, sábado.
Ontem foi aniversário do Vianna, o “doidinho” e me parece que ele foi comunicado por não ter feito a faxina do corredor dentro do horário estipulado pelo comando. Que belo presente!

Lavei minhas roupas que são poucas e depois fui escrever e ler. Estou lendo o livro de Samuel e já conheci a história do Rei Davi, suas mulheres e concubinas.


62516SET07, domingo.
“Cabe somente aos grandes homens ter grandes defeitos.”

(La Rochefoucauld)


Percebi que o colega Pinho despediu-se de sua família um pouco mais cedo que de costume. Deve ter acontecido alguma coisa! Eles nunca foram tão cedo; ao meio dia ele já estava no alojamento e sua família já tinha ido embora e eu percebi que ele estava nervoso.

Eu toquei violão e cantei com o Di Lúcia e o Dey. E depois fui conhecer o violão que o colega França ganhou do seu pai. Lindo e com um som espetacular.


62617SET07, segunda-feira.
“Envelhecendo, nos tornamos mais loucos e mais sábios.”

(La Rochefoucauld)


É comum eu amanhecer às segundas com dor no estômago; também como demais no domingo. Não dá pra resistir. São guloseimas de toda a espécie que não temos durante a semana e por isso eu exagero e passo mal depois.

62718SET07, terça-feira.


“A maioria das pessoas julga os homens somente pelo sucesso e por sua fortuna.”

(La Rochefoucauld)


Findei a leitura do livro primeiro de Samuel e vi o Rei Saul e seus filhos mortos durante a batalha contra os Filisteus; Saul suicidou-se.

Não fui ao culto e não conversei mais com o “Zé”. Nada mais sei sobre sua amada Inês. Gosto de ouvir as histórias malucas dele.


62819SET07, quarta-feira.
“A verdadeira eloqüência consiste em dizer tudo o que é necessário e nada mais que o necessário.”

(La Rochefoucauld)


O meu dia não foi dos melhores e hoje à noite quando eu fui presentear o Datena com um pedaço de doce, fui maltratado por ele que me disse que não estava morrendo de fome e que não queria o meu doce. Ele disse isso na presença de outros colegas e eu fiquei muito chateado com sua atitude. Nunca mais vou lhe oferecer nada.
62920SET07, quinta-feira.
“A juventude é uma embriaguês contínua; é a febre da razão.”

(La Rochefoucauld)


Assisti na TV a reportagem do colega “Papel” que, juntamente com o Assis, o Christov e o Alessandro, participou assassinato dos jovens em Santos no ano de 1999 e que depois os jogaram no mangue. Lembro-me de ter ouvido o Sandro me dizer que foi ele que fez as buscas no mangue e que encontrou os corpos quando ele ainda era PM. Ele também me disse que participou do resgate dos corpos dos integrantes do grupo “Mamonas Assassinas” na Serra da Cantareira.

Eu não tenho conversa com este indivíduo e o acho muito orgulhoso e metido a besta. Ele tem problema numa das suas pernas e anda mancando e com uma muleta.

A propósito deste assunto, eu ouvi o Payão contar que descobriram esse crime porque a esposa de um deles denunciou o marido que lhe confidenciou o ocorrido. Dizem que o Assis não conseguiu “segurar o rojão”, teve a consciência pesada e acabou revelando pra sua esposa que não vacilou em entregá-lo e aos demais. O curioso é que, segundo o Payão, o Alessandro é o mais inocente entre todos e que não deu um único tiro sequer e está preso há tanto tempo por um crime que não cometeu. Eles foram condenados a 59 anos de prisão, três deles e o delator Assis a 54 anos. Parece que o “Papel” e os outros terão um novo julgamento.

Aqui é o inferno! Esta tarde o Sargento Lino veio ao alojamento como de costume e repreendeu o Dey por causa do seu nome no armário que estava escrito DEY. Ele mandou tirar e escrever corretamente; Wanderley!


63021SET07, sexta-feira.
“As ocasiões nos levam a conhecer os outros, e mais ainda a nós mesmos.”

(La Rochefoucauld)


Este maldito Pinho me provoca e muda de canal só pra me irritar. Merda! Eu odeio o programa do Faccioli, prefiro a Mariana Godoy.

Ouvi o Vianna dizer que ele só praticava roubo programado e que muitos gerentes de banco lhe davam informações sobre os clientes que retiravam dinheiro. Daí, era só por o plano “b” em ação. Isto é, roubar a pessoa. Inadmissível pensar que isso é a pura verdade.


63122SET07, sábado.
“Um lacaio, há algum tempo, se contentou em dançar sobre o cadafalso em que ia ser supliciado.”

(La Rochefoucauld)


Mal amanhece o dia e tem alguém querendo colocar a gente em evidência para que notem a nossa ausência e que saiam à nossa captura. Percebi que esta manhã o “amigo urso”, o Décio, tomou sua posição em forma de modo a deixar o meu espaço à sua frente vazio para que o Cabo Adilson pudesse notar a minha ausência. Felizmente eu estava na U.I.S e me justifiquei com o comandante.

Todo cuidado é pouco entre esses covardes e delatores. É preciso estar sempre vigilante. A infelicidade alheia é um prato cheio para eles.


63223SET07, domingo.

“É justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante.”

(Paulo Coelho)

Resisti por um longo tempo em ler Paulo Coelho e me lembro que sua primeira obra lida por mim foi Brida porque o meu filho estava lendo e eu tive a curiosidade de conhecê-la. Achei uma literatura bem adolescente, mística, fantasiosa, algo pra jovenzinhas sonhadoras. Mas de tanto ouvir falar que O Alquimista era um excelente livro, resolvi lê-lo e gostei. Foi o mais rápido de todos os livros que li; apenas duas madrugadas na padaria e menos de cinco horas de leitura. Gostei! E aí então eu quis ler mais obras suas e li Na Margem do Rio Piedra eu sentei e chorei e Onze minutos. Vou ler as demais obras dele assim que tiver tempo e dinheiro para comprar os livros. Ele não é tão popular por acaso, e o cárcere me apresentou essas suas três últimas obras. Eis um dos pontos positivos da prisão.

Nesta manhã de domingo eu toquei violão na presença do Sr José, do Armino, do Arthur e do França. Eles gostaram de me ver cantar e tocar e até o “Chico Bento” comentou que eu era um cara versátil, pois entendia de tudo um pouco. Coitado! Eu não sei muita coisa; toco sempre as mesmas músicas. Todavia, tem sempre aquele que gosta de estragar a festa e maldizer o que vê e ouve. Eu não me importo; são invejosos.
63324SET07, segunda-feira.
“E quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira pra que você realize o seu desejo.”

(Paulo Coelho)


Ouvi as lamentações do “doidinho” (Le petit fou), que me contou que o Major Spinieli lhe deu a maior bronca porque o viu conversando com uma presa no corredor defronte a penal. Ele que fora até lá somente pra deixar uma carta. Maldito Major! Ele pensa que é dono das presas ou marido delas. Comenta-se que ele tem ciúmes delas e eu não duvido.
63425SET07, terça-feira.
“Se você sair prometendo o que ainda não tem, vai perder sua vontade de consegui-lo.”

(Paulo Coelho)

O clima em São Paulo é instável e isso nos causa sérios problemas de saúde. Eu estou constantemente gripado e mal da garganta e nariz. Que merda de cidade!

Participei da reunião católica e o Sr Antônio me pediu que o auxiliasse na tradução da carta em francês que eu enviei a ele. A Inês veio e estava divina como sempre, para a alegria do “Zé”.


63526SET07, quarta-feira.
“Às vezes as coisas mudam na vida no espaço de um simples grito.”

(Paulo Coelho)


Novamente tudo está mudado no alojamento quatro, saíram dois e vieram três. Somos oito agora, apesar da saída do Vianna e do Décio, mesmo com a chegada do Edinan, do Glauco e do Sr Stefanoni. E de novo eu tive que refazer a escala de serviço. A cada mudança, trabalho novo a ser feito e remanejamento de pessoal sob minha responsabilidade por eu ser o mais antigo.

O colega Vilodres não está nada bem e isso tem me preocupado. Ele treme como vara verde está com mais de 39 graus de febre. Ficar doente aqui é estar condenado à morte; ninguém se preocupa com ninguém.


63627SET07, quinta-feira.

“Cada homem na face da terra tem um tesouro que está esperando por ele.”

(Paulo Coelho)
Foi com enorme alegria que recebi esta manhã um cartão de aniversário do meu amigo Marcelo que mora em Valinhos. Lembrei-me do nosso tempo de adolescente e de quando brincávamos no quintal de sua casa, eu, ele, o “Pardal” (hoje Padre Valdemar), o Messias e o Alcebíades.

Que rumos diferentes tomaram nossas vidas! E por onde andam os demais? Certamente são homens livres e não estão atrás das grades como eu.


63728SET07, sexta-feira.
“O amor é a força que transforma o mundo e melhora a alma do mundo. E a terra onde vivemos será melhor ou pior, se formos melhores ou piores.”

(Paulo Coelho)


Choveu e o ar melhorou. A poluição aqui é terrível e quando não chove fica difícil respirar.

Não assisto a novelas, mas somos obrigados a ver ou ouvir mesmo sem querer e o hoje foi o derradeiro capítulo da novela Paraíso Tropical. Acontecimentos previsíveis; coisas de ficção que prendem a atenção de muitos vagabundos aqui.


63829SET07, sábado.
“Os alquimistas fazem isto. Mostram que, quando buscamos ser melhores do que somos, tudo em volta se torna melhor também.”

(Paulo Coelho)


Dormi até mais tarde porque trabalhei durante a noite fazendo pães pra bandidagem e quando acordei já me deparei com os preparativos para as montagens das lonas (barracas) para receberem as visitas amanhã. E como eu faço parte da “elite prisional”, não me preocupei com isso. Depois eu vou lá e faço uma pequena faxina no lugar onde não deverei receber minha irmã amanhã. Já disse que prefiro não receber visitas.

Há dias que venho pedindo para ligar em minha casa, mas esses malditos militares não me permitem.


63930SET07, domingo.
Tive um pequeno desconforto com o novo colega de alojamento, o Glauco, que andou armando varais pelo alojamento e quando fui dizer a ele pra que não fizesse isso, ele se alterou e não gostou. Como não estou em minha casa, achei bem melhor que ele ficasse com sua estupidez; seria como ele quisesse. Não falei mais nada, apesar da cobrança dos demais. É sempre assim quando há algo que a maioria não gosta, o mais antigo é que tem que comunicar a falta ao outro; ninguém aqui gosta de ser “mandado” por outro interno.

Pensei em até abandonar os cultos católicos por causa do Glauco e deixarei de ir sim por alguns dias. Como orar ao lado de alguém que foi indelicado conosco?

Concluí as leituras de Samuel 1 e 2.
64001OUT07, segunda-feira.
Não é fácil conviver com certos indivíduos, tais como, o Pinho, “Sabão-de-mula”, o Glauco, O Anderson, o Décio, entre outros. Eles se acham melhores que todos e pra mim não passam de imbecis que acreditam na força bruta; eu acredito na estratégia o que difere da covardia.
64102OUT07, terça-feira.
Dois colegas se foram e o “Pedrinha” é um deles. Acredito ser a quinta ou sexta vez que o Roque está partindo daqui e eu continuo. Ontem foi a vez de o Mascarenhas ir embora; ele esteve no Líbano e contou-me sua viagem.

Não fui à reunião católica, conforme já dissera. Não vi Inês e nem o “Zé” a viu também. Ela devia estar linda como sempre; imaginamos.


64203OUT07, quarta-feira.
Como é insuportável este Glauco Pradella! Acho que esse cara não conhece limites e se julga o melhor, imortal, o mais valente, o mais arrogante, etc.

Outra toupeira é o Ribeirinho que não aceitou uma brincadeira corriqueira aqui e me colocou em maus lençóis com os demais. Só porque eu disse que não o ouvi pedir licença ao entrar no alojamento. Vá pro inferno!

64304OUT07, quinta-feira.
A Cidinha me escreveu dizendo que o Júnior virá me visitar domingo que vem e que irá me trazer as coisas que pedi, Fico feliz e triste ao mesmo tempo porque eu não o queria aqui.

Dois outros colegas se foram ontem, o Sr Walter e o “Pagodeiro”, digo, O Alberto. Eram bons amigos com os quais eu gostava muito de conversar. Até ganhei um cortador de unhas do Alberto que me será muito útil aqui.

Em contrapartida chegou um senhor muito velho na prisão que mal consegue andar. Ele foi PM em 1953.
64405OUT07, sexta-feira.
O Josean vai compor a equipe da padaria ao lado do Levorato a partir de hoje no lugar do Payão. Eu e o Alves continuamos juntos.

Como estou ciente da visita do meu filho, então resolvi arrumar tudo que ele possa levar embora, pois quando o meu dia chegar eu não vou querer levar bagagem comigo; basta a roupa do corpo.

O Vianna, “doidinho”, tem uma chave da geladeira principal. Como será que ele conseguiu? O malandro roubou do Levorato! Agora ele faz festa com queijo e presunto junto com o Anderson e os seus chegados. Vagabundo! Está dando o chapéu em todos! Ele pensa que me engana. Ladrão de queijo! Rato de cadeia!
64506OUT07, sábado.
Aqui só tem preso metido a esperto. Cada um quer se dar o melhor possível. Eu também tiro a minha casquinha quando posso e faço lanches gigantescos e suculentos quando estou só aos domingos. O pior é que o Levorato acostumou-se a vir na padaria e pensa que é dono dela.

A Helena tem me escrito algumas cartas e eu não sei como me livrar dela. Nem sei como tudo isso foi acontecer, mas acredito que alguém usou o meu nome pra me sacanear e ela acredita que eu lhe escrevi. Vamos ver até onde vai dar isso.

O Oséias me confirmou a visita do meu filho para amanhã. Vou esperá-lo! E após arrumar a mesa eu me pus a ouvir a história do Januário, o “Bin” ou “Been”, que me confessou ter sido um crápula. Ele me disse que roubava, com outros comparsas, as pessoas que iam ao Paraguai para fazer compras e que fez isso por várias vezes. E só veio preso porque se desentendeu com sua mulher por causa de uma amante e então ela não hesitou em denunciá-lo. De imediato me lembrei do caso do prefeito Celso Pitta!

Contou–me ainda que o dinheiro era dividido em sua casa, na presença de sua mulher que sempre soube do esquema, embora nunca tivesse participado. Foi aí que a “casa caiu”!

Apesar de tudo, é ela que vem vê-lo aqui na prisão e traz o seu filho para visitá-lo. Ele disse ter perdido tudo e que sua casa em Birigui foi destruída e que eles precisaram vender os pertences com urgência e bem barato pra conseguirem um pouco de dinheiro pra vir pra São Paulo às pressas. E que ele ainda vive com sua mulher por causa do filho. Disse-me ter perdido duas motos e tudo o que ele conseguira com o crime. E que agora são mais de sete processos que ele deve responder e que tem certeza que passará um bom tempo na prisão.
64607OUT07, domingo.
Aguardei com ansiedade a segunda visita do meu filho e conversamos muito. Ele me contou que sai passear com sua mãe e que arrumou o carro. Contou que a Matilde não está nada bem de saúde. Trouxe-me arroz com peixe ao molho. Trouxe-me ainda 100 reais dos quais eu lhe dei 50. Espero que seja sua última visita aqui para me ver. Apresentou-me ainda uma carta do meu Advogado que me pedia para ter paciência e não falar mal da PM, pois, segundo ele, era isso que estava me prejudicando nos exames com o médico militar. Que eu deveria mentir e não revelar meus verdadeiros sentimentos de ódio contra a PM.
64708OUT07 segunda-feira.
Necessitamos de repouso quando trabalhamos à noite, mas aqui os colegas não querem nem saber. Foi por causa de ser atormentado em seu sono lá na sua casa e cidade que o Levorato meteu bala num garoto. Contou ele que esse “marginalzinho” se reunia na esquina de sua casa com outros vagabundos e perturbava o seu sossego, além de provocá-lo e mexer com a sua família, até o dia em que ele não suportou mais. Entretanto ele afirma que só deu o tiro para assustar o vagabundo; infelizmente não era o dia de sorte de ambos. Eis aí a história do Levorato e o motivo de sua prisão; 18 anos de condenação.

A Banda toca todas as manhãs e isso também incomoda muito. Não sei por que esta babaquice todos os dias úteis? A PM não caminha por causa disso!

E quando eu escrevo em minhas cartas tudo o que penso da “meganha”, ainda vem o Cabo Valdomiro pra me dizer que isso poderá me trazer complicações. Assim sendo, vou ter que destruir meu diário? Nem pensar! Esses malditos escreveram tantas mentiras que me mantêm preso e eu não vou me acovardar dizendo o que quero e penso deles. Pago o preço que for necessário; eu não os temo! A pobrezinha da Dilaine já me alertara sobre isso.
64809OUT07, terça-feira.
Chegou um colega preso por não pagamento de pensão alimentícia; é comum. Eles quase não ficam muito tempo presos. É só pagar e ir embora.

Preparei as preces para a missa que teremos hoje à noite. É a oportunidade para vermos a Inês; eu e o colega. Tenho contribuído sempre que posso com o Padre e acho que todos deveriam fazer isso. Vou lhes propor isso.

A Mariângela Biagi foi embora esta tarde. Que Deus a acompanhe. Ela era alegre vivia cantando lá no seu alojamento; vou me lembrar dela com saudades.
64910OUT07, quarta-feira.
Muitos colegas foram pra suas casas pra passarem o dia das crianças com seus filhos. É triste vê-los partir! Serão sete dias na companhia de suas famílias. Quando eu irei meu Deus?
65011OUT07, quinta-feira.
Minhas leituras bíblicas caminham bem; já li os Salmos, Matheus, Judite, Ester, Isaías, Samuel 1 e 2, Reis 1 e 2, Eclesiastes, Provérbios, etc. Conheci as oito mulheres de Davi (exceto suas muitas concubinas), Mical, Ainoã, Abigail, Maacá, Hagite, Abital, Eglá e Abisague com a qual não manteve relações sexuais, por já estar em idade muito avançada. Davi reinou 40 anos, dos quais 07 em Hebron e 33 em Jerusalém e quando morreu foi sepultado na Cidade de Davi, Belém, onde nasceu Cristo.

Aquele colega que se recusou a fazer a salada do jeito que o “Kid Loucura’ queria foi absolvido por 7 x 0 e se foi embora hoje; o Afonso. Ele venceu! A sua revolta lhe rendeu o retorno para a subseção, mas ele não se abateu.

A rebeldia dos internos em não cantar esta manhã fez com que todos tenham que cantar todas as tardes até segunda ordem. As humilhações aqui são constantes e por nada. Pra que cantar esta merda de Hino do Romão? A letra é feia e mentirosa, a melodia mais ainda, etc.

Depois disso ainda veio a Tenente Márcia reclamar da indelicadeza de uma parenta de um preso durante a revista e pediu aos internos que acalmem suas furiosas esposas. É por isso que não quero minha família aqui.


65112OUT07, sexta-feira.
Dia de Nossa Senhora Aparecida! Que ela nos abençoe, amém. Teve visita aos presos por ser feriado. Conheci a sogra, a esposa e o pai do “Presuntinho”. Conversei um pouco com eles e logo voltei pro alojamento; quem não tem visita, não pode ficar passeando entre as visitas dos outros. É a lei dos internos, por sinal, muito justa.

65213OUT07, sábado.


Encontrei sobre minha cama algumas frutas e acho que foi o Dey ou o “Presuntinho” que m’as deram. Tenho sempre encontrado alguém solidário comigo, mesmo entre demônios. As barracas nem foram desmontadas porque domingo terá visita de novo.
65314OUT07, domingo.
Ontem teve a farra do “Gel”! Ah! Ah! Tinha bêbado pra todo canto vomitando as tripas e outros morrendo de medo de serem pegos pelo comando, fazem a cagada e depois se acovardam; antes não tivessem feito nada errado.

O César é que é o idealizador dessas maluquices porque só ele tem acesso ao álcool gel que utiliza no seu trabalho de podólogo, Eles misturam com refrigerante e fazem a bebida que muitos saboreiam sem saber o mal que estão causando a eles mesmos.

O Leonel quase se suicidou com a grande quantidade de álcool ingerida ontem e passou mal um tempão no banheiro, Os colegas ficaram preocupados e com medo do mal se agravar, Ele permaneceu por horas debaixo do chuveiro até uma sensível melhora e depois foi dormir; eu não fiquei lá pra ver.

Esta irresponsabilidade poderia nos complicar se os comandantes soubessem e todos seriam responsabilizados por causa de alguns infelizes. Eu me lembro muito bem que o Medina, o César, o Leonel e outros estavam oferecendo a bebida pra muitos outros, inclusive o Medina me ofereceu e eu recusei, apesar de ter sentido a tentação de provar.

Diante de tanta desgraça ontem, o gostoso de hoje foi ver a Banda se apresentar aos familiares dos presos e também teve uma apresentação muito bonita do coral composto pelo Enoque, Feitosa, Anderson, Dey, Ismael e Payão, sob a regência deste último. É sempre uma atividade bem-vinda e edificante e que dá bons resultados. Isso deveria continuar sempre, mas falta sempre o incentivo dos comandantes.
65415OUT07, segunda-feira.
Que chuva agradável, pelo menos o calor deverá desaparecer por alguns dias. Estava insuportável e com muitos pernilongos que não nos deixavam dormir tranquilos.

Quando vem a chuva é muito gratificante ver a alegria dos pássaros que têm aqui ao redor. Eles fazem uma verdadeira algazarra. Aqui estamos próximos da Serra da Cantareira e vivemos em meio a um pedaço da Floresta Atlântica com diversidades de animais silvestres, A flora também é exuberante e até parece uma casa de campo. É lindo ver os tucanos, sabiás e tantos outros pássaros que vêm todas as manhãs nos dar um bom dia alegre e barulhento.


65516OUT07, terça-feira.
Chove! E isso é bom, embora não me agrade. Prefiro o sol. Perco meus bons momentos da vida aqui no cárcere e temo ficar doente e deprimido ao sair. Ainda bem que não tive grandes problemas de saúde, exceto alguns problemas de labirintite, É horrível ver colegas passando mal.
65617OUT07, quarta-feira.
Lembrei-me do aniversário do Sandro, meu amigo de Assis. Que deus o abençoe!

Fui ao médico esta manhã e não ajudei a descarregar a farinha de trigo que chegou. Isso foi motivo pra que me chamassem de preguiçoso; nem liguei. Primeiro a minha saúde, depois o trabalho,

O Vilodres, “Rota”, foi embora hoje. Que bom pra ele.

Aproveitei e escrevi uma carta ao Pastor Milton de Maracai em resposta à carta que ele me enviou. Pelo menos alguém se lembrou de mim!


65718OUT07, quinta-feira
O discurso do Major Spinieli foi hilário e medíocre. Eu nada tenho contra ele, exceto o dia que eu o vi sendo grosso e estúpido lá na subseção. Fora isso, ele até foi muito legal comigo.

Ele nos reuniu na quadra e falou conosco por alguns minutos ameaçando-nos mudar a maneira de nos tratar porque há internos que insistem em não acatar as ordens, As coisas podem sempre mudarem pra pior.

Disse que reconhece que há entre nós pessoas muito mais capazes do que ele e até mais inteligentes, todavia ele é o comandante e afirmou: “Eu só tive um pouco mais de sorte”, para justificar sua autoridade sobre nós. Confesso que tive vontade de rir!Ah! Ah! E por quê? Porque acho que ser militar é um castigo e não sorte. Eu serei um eterno castigado como aquelas ladras que eram assinaladas com a Flor de Lis nos ombros, como os bois que são marcados a ferro e fogo. Senti pena do Major!

É assim que funciona o militarismo, infelizmente! Obedecer é a nossa sina e sem dizer nada. Em silêncio!

Por outro lado há o Tenente Rubião, o dentista, que é o típico militar às avessas e que sempre está entre os internos como se fosse um de nós. Graças a ele que meus dentes estão bons, pois se eu dependesse daquele “cuzinho sujo” da dentista, eu estaria em maus lençóis. Nem me lembro o nome dela agora. Depois lhe digo leitor; acho que é Andréia. Preciso confirmar.
65819OUT07, sexta-feira.
Recebi de novo a proposta pra ser confeiteiro, mas não aceitei. O Sargento Sílvio quer que eu seja, mas eu não quero.

Entre o desconforto de ter que suportar o Glauco, uma boa notícia me chegou hoje, pois ganhei um livro da mãe do Belarmino e de um escritor que eu amo; Rubem Alves. A senhora Maria Luiza é impar!


65920OUT07, sábado.
Após o café eu subi pra responder as cartas que recebi e escrevi ao Belarmino pra dizer que sua mãe me presenteou com um livro. É interessante ser gentil com as pessoas que nos são gentis. Se eu pudesse viver minha vida novamente é o título do livro que ganhei.

Soube através do Oséias que a Helena quer vir me visitar. Meu Deus! O que fazer? Eu não gostaria, pois nem sei quem é. Conversei com o Neném sobre esta mulher e não me agradei com as referências dela. O que fazer?


66021OUT07, domingo.
Um domingo tenso. Fiquei preocupado com a visita inesperada de alguém que não conheço. Graças a Deus que não veio.
66122OUT07,segunda-feira.
O DR. Christian disse que enviará outro exame solicitando ao Juiz Militar que me libere da prisão, pois não vê em mim nada que me condene a ficar tanto tempo preso e que ele não me considera periculoso. Vou acreditar nele e em Deus, pois não tenho outra opção.

Pedi ao Oséias que dissesse para a Helena que eu não posso recebê-la aqui porque ela não é minha parenta e que ela deveria vir como sendo visita do Neném e aí sim eu poderia conhecê-la se desse certo.


66223OUT07, terça-feira.
Dois colegas me pediram pra lhes ensinar francês, mas acredito ser fogo de palha. Não vejo interesse neles.

Fui orar esta noite e vi Inês, a Musa do “Zé” e minha também. Por causa dele, não consigo ficar sem observá-la.


66324OUT07,quarta-feira.
Ouço idiotices todos os dias e hoje ouvi um preso dizer que não gosta da cobertura para receber visitas porque ali é uma passarela e todos ficam “curiando” a visita dele. Curiar é uma gíria pra dizer que todos ficam olhando pra visita dele e o merda sente ciúmes, Se quer privacidade, pois que vá pra casa dele. Ninguém o convidou pra vir preso. Agora, foda-se!
66425OUT07, quinta-feira.
Mas só chove, chove, chove!

Denílson e Márcio começaram a estudar comigo o francês; não sei até quando! Eles me parecem muito limitados. Quero dizer idiotas, medíocres, lerdos, imbecis, etc., como a maioria dos militares. Vão tomar meu precioso tempo e nada aprenderão. Aqui, só o Michel me surpreendeu e aprendeu comigo.


66526OUT07, sexta-feira.

O Levorato não está mais conosco na padaria e o Sandro é o nosso novo colega de confeitaria.


66627OUT07, sábado.
Iniciei o dia da besta do apocalipse, porém o idiota sou eu por não ter saído deste inferno ainda e nem ter uma previsão de quando isto acontecerá. E pra piorar chove a cântaros nesta terra da garoa. São Paulo das muitas inspirações é hoje o palco das minhas frustrações e desilusões com a vida.

Eu me lembro de quando vi pela primeira vez o cruzamento da Rua Ipiranga com a Rua São João e chorei. Fiquei inconsolável entre os transeuntes que nem me notavam. E até escrevi um poema que deve estar entre os tantos outros compilados em Poemas do Cotidiano.

Mas eu tive que fazer passar o dia da besta e então peguei o violão e comecei a cantar como um estúpido, pois razão não tinha pra alegria alguma. Depois vieram os colegas pra aula de francês. E como estudávamos no alojamento, percebi que o Glauco não gostou porque estávamos perto da sua mesa.

Recebi uma carta da Helena cheia de lamentações e rasguei após lê-la. Nela havia uma foto que guardei por alguns dias, mas depois também rasguei; não há motivos pra guardar uma foto de quem nem conheço. Lamento sua situação, mas não serei eu o seu consolador.


66728OUT07, domingo.
Prefiro os dias entediantes de domingo aos dias da semana somente porque posso dormir e ler à vontade e não me sentir “caçado” por esses malditos militares.

Todo o ódio destilado nessas páginas anteriores é uma maneira de aliviar-me das pressões diárias que nos são impostas impiedosamente pelos oficiais da PM. Que lavagem cerebral é esta que eles incutem nas mentes desses oficiais. Lembro-me de um colega, o Paulo Cirino (Tenente em Paraguaçu Paulista), que se encheu de prazer ao me colocar as algemas e me mandar pra cá; nós que éramos amigos de escola! E que ainda não foi capaz de me escrever uma só linha desejando-me boa sorte aqui entre os demônios militares e demais párias! Que Deus abençoe sua insensibilidade; amém! Por que o meu filho chorou ao me ver algemado?

O noticiário da TV não cansa de falar sobre o escândalo do Padre Júlio Lancelotti e do seu possível envolvimento sexual com um garoto de rua que o acusa de estupro. Tomara que não seja verdade, pelo padre, pela igreja e pelos fiéis.

Amanhã será o júri do “simprão”; o Luciano. Que deus o abençoe.


66829OUT07, segunda-feira.
Nada! Simplesmente nada!
66930OUT07, terça-feira.

O “Kid Loucura” quer que eu vá trabalhar na Biblioteca, mas sem que eu deixe a padaria. Disse a ele que não dá. Ou um ou outro.

Ensaiei pra tocar na reunião hoje à noite. A família do Sr Antônio não virá e faremos nós a reunião. Não sei o que acontece com ele, deve estar doente.
67031OUT07, quarta-feira.
A Mariângela visitou o PMRG hoje e me deixou um abraço. Ela deve ter vindo buscar o seu salário que não deve ter recebido ao sair. Ela estava linda e com duas de suas filhinhas.

Falei pela terceira vez com o Juiz Militar. Foi uma conversa desoladora. Falou em me internar num manicômio, pois este era o desejo do médico militar e que se encontrasse vaga me mandaria para Franco da Rocha porque eu não poderia permanecer entre os militares. Portanto, que ele aguarda uma vaga para me transferir, entretanto não será fácil; afirmou. Ele me disse que o fato de ter ocorrido um assassinato pelo maníaco da Cantareira, agravou a minha situação. Que os médicos temem liberar alguém com minhas características paranóicas, pois nunca sabem do que somos capazes de fazer. Isso me entristeceu profundamente. Eu não sou louco!

Liguei pra Cidinha e contei tudo isso. Ela chorou e eu mais ainda. Tive pena dela!
67101NOV07, quinta-feira.
Não tive vontade de fazer nada hoje, depois da conversa horrível que tive com o Juiz Militar ontem. E eu não vou poder dizer isso a ninguém para não me complicar mais ainda. Eles adoram saber das nossas desgraças. Estou muito mais triste que antes!
67202NOV07, sexta-feira.
Dia de Finados! O segundo sem minha mãe. E eu me sinto tão morto como ela, aliás, preferia estar no lugar dela. Um ano e quatro meses sem ela!
67303NOV07, sábado.
Tenho me perdido em minhas orações e não tenho conseguido me concentrar nas leituras. Faz tempo que leio Martin Éden de Jack London sem avançar muitas páginas. É claro que o livro todo é em francês, o que dificulta uma rápida leitura, mas mesmo assim sinto que não tenho progredido.

Amanhã a minha irmã virá me visitar, confirmou o Oséias e eu lhe darei o quadro que o Mello pintou pra ela; um lindo papagaio.


67404NOV07, domingo.
A Marcília veio e falamos por mais de duas horas. Ela me trouxe comida; arroz, frango, maionese e macarrão. Ainda trouxe refrigerantes que dei ao Datena pra que dividisse com o Levorato.

No final da tarde, eu e o Antônio ficamos observando o lindo pôr-do-sol. Um verdadeiro show da natureza. Foi fantástico!


67505NOV07, segunda-feira.
Trabalhei a noite toda e aproveitei o frio para dormir até mais tarde.

Levantei muito indignado e resolvi escrever uma carta aos Senhores Desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e assim o fiz. Enviei cartas aos Senhores Jair Martins e Luiz Carlos comunicando-lhes minha insatisfação com os arbítrios da Justiça em relação a mim. O Luciano as colocou no correio para mim num dia normal e por isso dei a ele seis reais.


67606NOV07, terça-feira.
Tivemos a última missa do ano porque os compromissos do Padre aumentam neste fim de ano e ele não poderá vir mais em 2007.
67707NOV07, quarta-feira.
O Sargento Lino veio até mim esta manhã para saber algo sobre o episódio do “Gelzinho” e eu disse a ele que não sabia de nada, mas que ouvi algum comentário a respeito, entretanto não participei e nem vi ninguém bêbado. É claro que menti! Eu sabia sim, mas não disse. E o Sargento sabe que eu não denunciaria em hipótese alguma qualquer colega, pois não sou delator.

Com a entrada do Glauco ele mudou de assunto e começou a falar sobre minhas leituras e meu gosto por literatura, a fim de enganar o interno, Depois ele saiu e eu continuei minha leitura.


67808NOV07, quinta-feira.
Hoje eu orei pelos colegas Mello e Datena que foram pro júri deles.
67909NOV07, sexta-feira.
Tenho pedido tanto a Deus para que me tire deste lugar, mas percebo que algo está errado. Não tenho perspectiva nenhuma de quando vou sair daqui e o meu advogado nada me diz. Estou perdido!

Enquanto isso, o Roque “Pedrinha” está de retorno. Nem me lembro se é a sexta ou a sétima vez que este infeliz volta preso. É a quinta vez que eu o vejo chegar, exceto as outras duas.

Comentam que o Datena pegou quatorze anos de condenação. Nada sei do Mello ainda.
68010NOV07, sábado.

“Under the bludgeoning of chance my head is blood but unbowed.”

(Henley)
“Sob os golpes do acaso minha cabeça sangra, mas não se curva.”

(Duda)
Se não fosse a leitura para me “embriagar”, eu não sei o que seria de mim neste lugar. Obrigado meu Deus por ter criado os poetas e escritores porque isso me faz crer que nada é mesmo por acaso, Quem foi Jack London? Não me interessa agora, mas logo irei saber e vou orar e agradecer por ele ter existido e compartilhado comigo estes tristes momentos que vivo no cárcere lendo a sua obra.

Agora sei que é o pseudônimo de John Griffith Chaney, escritor americano do final do século XIX e início do século XX e autor de mais de 50 livros. Dentre eles o que eu li; Martin Éden, 1909. Natural de Oakland, EUA. Morreu de overdose de morfina.

O Sd Farias foi uma “pedra no meu saco” durante as noites de trabalho. Ele implicava até mesmo se eu lhe oferecia chocolate quente nas noites frias porque achava que eu queria algo em troca pela gentileza prestada. O que poderia um merda como ele me fazer? Só me complicar e nada mais!


68111NOV07, domingo.
“Editores, redatores, diretores de serviços literários de revistas e livreiros, todos, ou quase todos, quiseram escrever e não conseguiram. E são essas pessoas menos qualificadas, entretanto, que decidem o que deve ou não ser publicado.”

(Jack London)


Conheci e falei com a mãe e o irmão do Gabarron esta manhã e comi bolo com eles. Foram simpáticos e gentis comigo e agora vou mandar meus recados e carta através dela. É muito mais seguro.

Tivemos pizza hoje à noite lá na padaria.


68212NOV07, segunda-feira.
A Mariana Godoy é mesmo linda! Hoje ela estava demais! Não perco um só programa matutino com ela e não gosto quando a Monalisa a substitui.

Graças a Deus, por ele e por mim, o Glauco foi embora hoje e o Mello também. E quando eu me despedia do Mello, o Capitão Luco me disse que o próximo seria eu; assim espero.


68313NOV07, terça-feira.
Hoje é o maldito dia dos “5 S”, ou seja, faxina geral das instalações. Odeio isso. Foi um dia horrível e cansativo.

O bom foi ter visto Inês e ouvir as lamúrias do “Zé” pela indiferença dela. Ela foi gentil comigo e senti inveja do colega que a ama. Ela é mesma ímpar e bela e inteligente. Feliz o colega por amá-la.

Começamos a Novena do Natal.
68414NOV07, quarta-feira.
Sinto que minha cabeça vai rolar, isto é, meus dias estão contados na padaria. Eles querem o Alves como mais antigo e não eu. O “doidinho” é quem está arquitetando minha saída.
68515NOV07, quinta-feira.
Dia de visita novamente por ser feriado nacional. Então peguei o violão e fui cantar no corredor tendo ao meu lado o Sr Belizário, o Luiz José e o Buba. Antes do fim do dia apareceu o Maldonado e cantamos juntos algumas modas sertanejas.

Antes do término da visita eu falei com a mãe do Gabarron e pedi a ela que ligasse em casa e passasse as minhas informações e que me trouxesse informações de lá no próximo domingo.


68616NOV07, sexta-feira.
O “Zé” decidiu presentear Inês com um quadro de artesanato feito pelos internos como presente de aniversário no dia 14 de dezembro. Concordei com ele; vai ser legal. Ela completará 41 anos. O Morales se encarregará do trabalho.

O Alves me deu uma ótima notícia de que meu processo está em pauta pra ser julgado no Tribunal de Justiça. Vou pedir pra Dilaine ver pra mim.

Passaram um trote na Cidinha lá em Maracai e disseram que eu havia sofrido um acidente quando estava sendo transferido para outra penitenciária. Quem será o maldito?
I have done

Put by the lute.

Song and singing soon are over

As the airy shades that lover

In among the purple clover.

I have done

Put by the lute.

Once I sang like early thrushes

Sing among the dewy bushes;

Now I’m mute.

I AM like a weary linnet

For my throat hás no song in it;

I have given my singing minute:

I have done,

Put by the lute.

(Jack London)


68717NOV07, sábado.
Um dia sem muitas novidades. A mesma rotina do sábado. Não vou perder meu tempo pra repetir o óbvio.
68818NOV07, domingo.
Eu não esperava a inusitada visita da amiga do Neném que se apresentou a mim e ficou por mais de duas horas falando comigo. Pedi a ela que não viesse mais e prometi lhe escrever.
68919NOV07, segunda-feira.
“Mais que um pregador. Edir Macedo é o retrato bem acabado do que chamamos de líder.”

(Douglas Tavolaro e...)


O César veio me contar que o seu fiel escudeiro o traiu. Quem diria que o Pinho fosse capaz de romper com o Cèsar! O que será que houve?

Comecei a ler o livro do Bispo Edir Macedo que o Feitosa me emprestou. É um livro que está na mídia e fala sobre sua trajetória de conquistas e sua biografia e o patrimônio da Igreja Universal do Reino de Deus.


69020NOV07, terça-feira.
Eu não queria estar na pele do Ceará aqui na prisão, porque todos falam mal dele só porque o coitado é trabalhador e tem responsabilidades com o seu trabalho na madeireira. De fato, ele é linha dura e gosta do serviço bem feito e isso lhe atrai inimigos; na PM só tem preguiçosos!

Ele comanda o serviço da fábrica das casinhas de cachorro que tem aqui na prisão e esses vagabundos têm inveja dele.

È chegada a noite da entrega do presente da Inês. Eu e o “Zé” ficaremos felizes, Será que ela gostará?
69121NOV07, quarta-feira.
Escrevi uma carta pra uma jovem ladra da Penitenciária Feminina de Santana aqui em São Paulo sob o codinome de William Shakespeare; ela se chama Kelly Samara Carvalho dos Santos.

69222NOV07, quinta-feira.


O sexo tem me feito falta e eu não consigo resistir sem me recorrer à masturbação. Não gosto disso, mas é preciso. A Dilaine é provocante e eu penso sempre nela; uma só noite com ela e eu ficaria preso mais um ano como castigo.

As minhas referências femininas aqui são; a Dilaine, a Veridiana e a Cristiane, entre outras. Adoro mulheres bonitas, simpáticas e inteligentes. Eu nunca gostei da Ana Rodrigues, mas “amei” a irmã dela.


69323NOV07, sexta-feira.
“A injustiça é um castigo que marca a alma do homem.”

(Edir Macedo)


Os militares são homens treinados para obedecer e servir, mas não gostam de se submeterem às ordens. Como mais antigo da padaria, é preciso que eu lhes diga o que vamos fazer e como vamos fazer, mas os miseráveis entendem que eu quero mandar neles. Eu não estou preocupado em mandar, eu quero é me mandar deste inferno.

O colega Hélio me disse que estavam me chamando na seção penal e eu fui ver o que era; tenho uma audiência dia 30nov07 no vigésimo DP para responder outro interrogatório. Deve ser o novo processo do Promotor de Maracaí.

Impossível não amar a Dilaine, pois ela é meu anjo da guarda neste lugar e já me fez vários pequenos favores que pra mim são muito importantes. São camisetas, calças, cartas, algo na internet, etc. É melhor dizer por que senão as más línguas vão achar que tive um romance com ela na prisão. E não foi nada disso! Ela é loira, linda e educada!
69424NOV07, sábado.
“Agora imagine, depois de velho, casado, pai de três filhos, avô de um neto, ficar de castigo onze dias numa prisão.”

(Edir Macedo)


Sinto dor de cabeça com muita frequência aqui e nunca tem medicamento para nos ser fornecido. Há uma má vontade em nos atender e ainda nos proíbem de termos nossos medicamentos.

Não fui trabalhar à noite porque me sentia muito mal e só fui medicado no dia seguinte às 14h quando a Vedekin me ministrou uma dose medíocre de Dipirona.

A “Máfia” da padaria tem me pressionado a sair e eu não vou resistir por muito tempo. É melhor sair do que viver aquele inferno constante entre gentinha miúda e ordinária. Vou pedir pra sair. Sei que minha presença lhes incomoda porque eu não sou um deles; gosto de fazer as coisas bem feitas e não sou vagabundo e comilão como eles. Eles estão lá pra comer e beber, exceto o Alves, mas o Vianna tem até a chave do refrigerador que era exclusiva do Levorato. Como foi que ele roubou?

69525NOV07, domingo.


“Eu quero que minha sorte vá para os quintos do inferno. Não é a sorte que muda a vida. É a fé. A vida não é feita de sorte ou azar. A vida é o que você planta.”

(Edir Macedo)


Passei uma parte da manhã falando com a mãe do Gabarron e seu irmão. Ela me deu notícias de casa e disse-me o quanto a Cidinha me ama e me quer bem. Isso me deixou contente. E de repente me lembrei o que me disse o colega Peixoto: “O coração de um homem triste é como um túmulo.” Engraçada a comparação!

Cantei com o colega Di Lúcia à noite no corredor da “Rua Dez” e alguns outros colegas se aproximaram para cantar e ouvir.

Ouvi também o Pinho e o Stefanoni falando mal do Belizário pelo fato dele ter o péssimo hábito de brincar e segurar as crianças pelos braços nos dias de visita, pois há pais que não gostam e isso poderá lhe trazer sérias complicações aqui. Eu nem olho pra crianças neste lugar, aliás, só falava com o filhinho do Duque e na presença dele.
69626NOV07, segunda-feira.
“Eu venci porque tomei uma atitude, eu coloquei minha fé em prática. A fé está aqui – aponta para a cabeça – e não aqui – aponta para o coração.”

(Edir Macedo)


Decisão tomada. Não quero mais ser padeiro. Vou pedir pra sair hoje mesmo.

Demorou pra eu ficar sabendo que o Rodolfo “peidorreiro” tinha ido embora. Já faz dias e eu nem tinha notado a ausência dele. O PMRG perdeu um excelente mecânico.

Falei com o Sargento Sílvio da minha decisão de sair da padaria e ele pediu que eu esperasse um pouco porque ele iria fazer uma reunião conosco e dizer que eu era o mais antigo e por isso eles deviam seguir minhas instruções; foi o que ele me disse. Mas não foi o que ele fez. Ele se acovardou diante dos outros e me deixou em maus lençóis. Mais uma razão para não continuar; e saí.
69727NOV07, terça-feira.
“Sua felicidade não está do lado de fora. Está dentro de sua cabeça, dentro de si, quando você medita. A miséria está na cabeça das pessoas. (...) A única ‘moeda de troca’ com Deus é a nossa fé. Quem crê recebe, quem não crê não recebe.”

(Edir Macedo)


Terminei a leitura do livro de Jack London e também o livro do Bispo Edir Macedo porque li os dois ao mesmo tempo, digo, ora um ora outro. O primeiro todo em francês que me foi dado pelo colega Bispo que era o barbeiro da prisão e que já foi embora e que também aprendeu alguma coisa em francês comigo nas horas vagas dele e minha.

Confesso que sempre li muito pouco literatura americana, pois sempre preferi a francesa e a portuguesa. É claro que amo a nossa literatura brasileira e tenho Machado de Assis como ícone dela. Ah! Se eu tivesse lido o capítulo Das Negativas do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, talvez fosse menos infeliz hoje.

Aprendi muito com Jack e também com os escritores da biografia do Bispo Edir, o Douglas Tavolaro e a Christina Lemos. Sou lhes grato!

Triste cena eu presenciei com outros colegas esta tarde, pois um tucano devorou vivo o filhote de um sabiá bem ao nosso lado sobre uma árvore ao lado da padaria. Senti pena do pobre animal indefeso.

Fiquei feliz quando o Oséias me confirmou que há mesmo um julgamento do meu Habeas Corpus no dia 29NOV07 e que eu poderei deixar a prisão neste dia; minha irmã ligou pra ele e pediu que me avisasse. Estou ansioso e nervoso.
69828NOV07, quarta-feira.

“Nós estamos mostrando às pessoas que isso aqui não funciona. Olha só, olha só (socos e chutes na imagem). Não é santo coisa nenhuma. Isso aqui não é Deus coisa nenhuma. Quinhentos reais, meu amigo. Isso, cinco salários mínimos, é quanto custa no supermercado esta imagem. E tem gente que compra. Agora, se você quiser um santo, uma santa mais barata, você encontra até por cem. Será que deus, o criador do universo, pode ser comparado a um boneco deste, tão feio, tão horrível, tão desgraçado?”

(Declarações do Bispo Sérgio Von Helder)
Como católico, não gostei de ver tais declarações infelizes no livro do Bispo Edir Macedo e acredito que isso chocou a Nação Brasileira que tem como sua padroeira a nossa Santíssima e Querida Mãe Nossa Senhora Aparecida. Eu peço que Ela o perdoe; amém!

Amanhã às treze horas, sala treze, décimo terceiro andar será o meu julgamento. A Dilaine viu pra mim na internet e me deu a cópia. Só não gostei de tanto 13. A ansiedade me mata e acho que nem vou conseguir dormir.


69929NOV07, quinta-feira.
“O dinheiro é um péssimo senhor, mas um bom servo. Eu não sou escravo do dinheiro. Sou senhor dele.”

(Edir Macedo)


Podia ter sido o dia da minha liberdade, mas não foi. Os Desembargadores foram unânimes em rejeitar o meu pedido de liberdade. Foram eles, Jair Martins, Claudio Caldeira e outro que não me lembro o nome. Não são eles que estão presos. É fácil brincar com a vida e os sentimentos dos outros. Estou muito triste!
70030NOV07 sexta-feira.
“Demasiada fé na vida,

Na esperança e no temor,

Rendemos graça em uma breve prece

Aos deuses que nos livram disso.

E graças lhes sejam dadas,

Que nenhuma vida seja eterna.

Que nenhum morto jamais renasça.

Que mesmo o mais cansado rio

Encontre um dia o seu repouso no mar.”

(Jack London / Duda)


O Major nos visitou na padaria para saber da qualidade dos pães e nós lhe explicamos que dependia da qualidade da farinha.

Falei com ele sobre a minha prisão demorada e então ele me convidou para ir até a sala dele pra ver na internet o andamento do processo. Não imaginei que ele pudesse me prestar este favor, pois eu nunca nutri simpatia por ele e já o critiquei nas páginas anteriores. Vimos o processo que não apresentava nada de novo.

O Juscenil é o novo colega e alojamento, mas não deverá ficar muito tempo.

Fui depor no vigésimo DP sobre o processo que move contra mim o Promotor de Maracaí, e o documento estava assinado pelo Doutor Ricardo Fracasso, “Bolinha”. Lá eu conheci uma policial de nome Sandra que teceu elogios ao documento que eu enviei à Corregedoria da Polícia Civil denunciando o delegado de Maracaí. Ela me disse que todos quiseram ler e que acharam o documento muito bem escrito e que a letra também era muito bonita.

Eu me encontrava sentado no banco à espera quando um advogado veio me dizer algumas palavras em francês por ter ouvido o policial da escolta me chamar várias vezes de “francês”, que é meu apelido na prisão. Ele ficou perplexo ao ver que eu falava francês e que ele não tinha mais vocabulário para continuar o assunto comigo. Rapidamente saiu e eu o ouvi dizer para a outra escrevente policial que eu era uma pessoa de extrema cultura e que realmente falava francês. Daí então começou a correria de muitos para querer saber quem eu era e razão da minha prisão. Foi um comentário geral entre eles sobre mim e a Sandra me deu seu telefone e endereço. Fui atração por alguns momentos naquele DP. Dias após, recebi uma carta dela na prisão e respondi duas outras, depois não mais.

O colega Oséias foi embora hoje. À noite eu toquei violão na reunião. Era a nossa novena.


70101DEZ07, sábado.
“Só tenho uma idéia, um pensamento que faz pulsar meu coração: unidos destruiremos a burguesia.”

(Zola)
Comecei a ler o livro Germinal, de Emile Edouard Charles Antoine Zola. É literatura francesa, 1885, naturalismo.


70202DEZ07, domingo.
“São todos uns canalhas que se aproveitam de sua sabedoria para chupar o sangue do povo.” (Sobre os Advogados).

(Zola)
Domingo duplamente triste porque o colega Gabarron está irreconhecível, não fala, não quer comer, não se manifesta pra nada, permaneceu deitado no colo de sua mãe o domingo todo, enfim, parece extremamente deprimido. O que terá ocorrido? Faltaram-lhe os remédios?

É triste vê-lo assim!

Outro fato desagradável foi o rebaixamento do Corinthians para a segunda divisão. Um péssimo domingo!


70303DEZ07, segunda-feira.
“A mina deve ser do mineiro, como o mar é do pescador, como a terra é do camponês. (...) A liberdade só podia ser conseguida com a destruição do Estado”

(Zola)
O amigo Gabarron não resistiu e teve que ser hospitalizado. É uma pena! E eu também sinto que meu pulso abriu e tenho dores no punho direito.

Hoje eu brinquei com o “Gelzinho” e ele quase me criou uma enorme confusão, só porque eu lhe disse que não o ouvi pedir licença pra entrar no alojamento. O idiota levou isso a sério e colocou o Stefanoni e outros contra mim. Maldito! Ele sabe que esta brincadeira é corriqueira e que eu não sou dono de nada aqui. Este Leonel é um merda!
70404DEZ07, terça-feira.
“Era a burguesia que, espoliando a igreja de suas liberdades antigas em proveito próprio, transformava este mundo num lugar maldito de injustiça e de sofrimentos; era ela, a burguesia, que prolongava as disputas, que empurrava a sociedade para uma catástrofe horrível com seu ateísmo, sua recusa em voltar à crença, às tradições fraternais dos primeiros cristãos. E acrescentou: a libertação viria dos padres de Aldeia que se levantariam para restabelecer o Reino de cristo com a ajuda dos miseráveis,” (Discurso do Padre Ranvier).

(Zola)
Nenhuma palavra com o Stefanoni e nem com o Leonel; idiotas! Criar problemas por nada! Parecem crianças.

Tivemos uma reunião com a Sub Bia que substituirá o Sargento Sílvio na cozinha e ela quer manter o padrão de qualidade dos alimentos e até me elogiou por fazer bons pães; eu e minha equipe. Houve uma pequena intriga com aqueles que diziam que o Nicéias é um chato, mas a corda arrebentou pro lado mais fraco; saíram muitos, mas o Nicéias continuou. Ele é um excelente cozinheiro e aqui não tem ninguém ao nível dele. O PMRG deve muito a ele e vai sentir sua falta quando ele se for.

As luzes serão trocadas por uma firma que se chama VITA LUX. Serão lâmpadas com nova tecnologia e com maior poder de iluminação.


70505DEZ07, quarta-feira.
“Ele trêmulo de senti-la assim contra sua carne, seminua sob a jaqueta e as calças, cingiu-a num despertar de virilidade. Realizou-se enfim sua noite de núpcias no fundo daquele túmulo, sobre um leito de lama, na ânsia de não morrerem sem antes serem felizes, no obstinado desejo de viver, de gerar vida pela última vez, Amaram-se desesperados de tudo, afundando na morte. (...) Durante muito tempo jurou que ela dormia, mas ao tocá-la constatou que estava muito fria. Morta.” (O romance entre Etienne e Catherine)

(Zola)
Que desperdício! Foram mais de oito sacas de pães velhos jogados aos porcos porque os colegas da outra equipe se recusam a fazer torradas para a bandidagem. Eu procuro aproveitá-los.

Não se passa um só dia sem que não haja discussões entre alguém neste lugar, e é por isso que eu digo que o diabo deita e rola aqui.

Ainda bem que o Juscenil partiu esta tarde deste inferno. Só o meu dia é que tarda a chegar. Até quando meu Deus?


70606DEZ07, quinta-feira.
“E assim, sua educação estava terminada, partia armado, como soldado intelectual da revolução, tendo declarado guerra à sociedade, tal como a via e condenava.”

(Zola)
Deliciosas 610 páginas de puro prazer e encanto! Que venha o próximo livro!

Com a troca da iluminação, agora ficou pior ainda pra dormir durante o dia. Está na hora de cair fora da padaria e arrumar outro trabalho; devo pedir pra assumir a Biblioteca, mas sem dizer pra ninguém.

Ganhei revistas velhas do Peixoto para eu recortar e enfeitar meu diário; fica legal e colorido. Será que passarei mais um Natal aqui?


70707DEZ07, sexta-feira.
“Viva o socialismo! Mesmo que eu me considere individualista, egoísta, imediatista e partidário da filosofia de Nietzsche.”

(Duda)
O “Chico Bento” me procurou para que eu o ajudasse a fazer uma parte e o Peixoto veio saber se já peguei o vale cesta básica para lhe dar, mas desta vez vou deixar pra minha irmã que diz querer, Eu havia comentado com ela que estava dando minha cesta para alguns colegas e ela se sentiu no direito de ser dela já que ela é minha irmã e que vem me ver de vez em quando. Achei justo; muito justo; justíssimo.

Chato foi ouvir que o “João Carniça” vai voltar a trabalhar comigo e com o Alves na padaria. Mais uma razão pra eu sair logo.
70808DEZ07, sábado.
“Não basta ser forte. Todo mundo pode perder uma luta.”

(Do filme A menina de Ouro)


O Gabarron ainda não retornou do HPM (Hospital da Polícia Militar) e isso me preocupa porque ele é um dos poucos amigos com os quais eu gosto de conversar. Ele é tranquilo, calmo, gentil, não é orgulhoso, não se irrita com nada, é manso, etc.

Meu Deus, como é triste ver tanta gente falando mal do Nicéias pelo corredor. Eu não o acho tão intragável assim. Ele até me presenteia com frutas quase todos os domingos. E ele é muito competente no que faz. Eu não estou escrevendo meu diário pra ficar enchendo a bola de ninguém, mas ele é merecedor dos meus elogios, assim como vários outros. Mas o bom mesmo é malhar o Judas!


70909DEZ07, domingo.
“Se um homem instruído vale por dois, um homem educado vale por dez.”

(Louis Pasteur)


Senti curiosidade de ler a biografia do pai da bacteriologia, o ilustre Louis Pasteur, e me encantei com sua história. Letrado, matemático, pintor-retratista, físico e químico. Ufa! E quem sou eu? Um preso e nada mais!

Recebi a visita da minha irmã que ficou comigo por mais ou menos duas horas e se foi; é o suficiente. Dei a ela a cesta básica e guardarei as próximas para ela,

Ouvi um ladrão dizer que o crime para ele sempre compensou, ainda que ele tenha vindo preso pela terceira vez, inclusive duas delas eu ainda estava aqui. O Ataíde disse que roubar combustível não dá nada, que a pena é curta e o resultado é lucrativo, porém só não se pode matar ninguém. O que ele ganhou roubando combustível ele jamais ganharia trabalhando a vida toda e que sua família está muito bem graças aos seus roubos. Foi desolador ouvir isso de um senhor de mais de 50 anos e aposentado pela PM. Aliás, nunca gostei dele por ser mesquinho e nunca dividir com ninguém nada dele, mas que gosta de comer e beber o que é dos outros. Muitos já observaram isso. A casa ainda vai cair pra ele!
71010DEZ07, segunda-feira.
“Nada é mais indigesto ao homem que o seu fracasso intelectual! Chame qualquer um de horrível, maltrate-o com eloqüência por seus piores defeitos, denuncie-o e torne públicas suas aberrações, grite ao mundo seus vícios e seus pecados, chame-o de assassino se ele for assassino e de ladrão se ele for ladrão. Ele enfrentará todas essas acusações sempre de cabeça erguida e lutará para se defender, poderá até se orgulhar dos seus pecados, pois esses dão uma imagem pouco honesta de sua personalidade, mais assim mesmo esperta, viva, de pessoa astuta, não importa se perversa, Agora chame esse homem de bobo, ataque sua inteligência, Nunca o perdoará. Ser chamado de bobo é considerado muito pior de que ser chamado de assassino ou ladrão. O próprio assassino poderá confessar ‘eu matei’, mas nunca lhe dirá ‘eu errei’, E quanto mais errado e idiota, mais firme se mostrará em suas convicções.”

(Louis Pasteur)


Escrevi, a pedido do “Zé”, algumas palavras para comemorar o aniversário da sua musa Inês. O amor do colega é tão grande que ele quer que todos saibam que é seu aniversário e até pediu pro Ivam digitar os dizeres que vai dar a ela. Ele me confessou que sempre escreve a ela e que lhe dá os bilhetes sempre às escondidas durante as reuniões. Ele fala de sua vida, de seus ex-amores, dos seus projetos e do amor que sente por ela e de como ela parece com sua amante que ele nem notícias têm mais. Elas são parecidíssimas em estatura e na cor dos olhos. Onde e como estará a “italianinha”? Estará viva! Não se sabe! Digo, o colega não soube mais dela. O câncer de pulmão lhe maltrata desde 2005. Impossível ainda estar viva.

A Inês completará 41 anos no dia 14DEZ07. É separada e tem um filho de 13 ou 14 anos e eu não me lembro se é Lucas ou Mateus. Acho que é Lucas! Vou procurar saber com o “Zé”.


71111DEZ07, terça-feira.

“Não basta amar a verdade. É também preciso saber defendê-la.”

(Louis Pasteur)
Minha única preocupação hoje foi ver Inês e parabenizá-la vendo a felicidade do “Zé”. Nada mais.
71212DEZ07, quarta-feira.
“A nossa atmosfera é um veículo de germes. E se queremos manter um líqüido ou uma substância pura e inalterada, devemos protegê-la do ar. (...) Um homem de ciência deve pensar no que dirá dele nos séculos futuros e não nos insultos ou elogios que recebe em vida. O verdadeiro sábio tem um só dever e uma única tarefa: procurar aquilo que existe sem se importar com os outros.”

(Louis Pasteur)


Até que enfim, não sou mais padeiro. Ufa! Cansei! Não é bom trabalhar num lugar onde todos conspiram contra a gente só porque são preguiçosos e não gostam de trabalhar como se deve. A padaria pra eles é um shopping, eles vão lá para comer e beber como porcos de engorda; e eu confesso que já estava na hora de parar de comer demais.

Que tristeza para mim e o “Zé” porque a Inês não virá mais este ano porque ela vai estudar para um concurso no trabalho e ainda me parece que vai ajudar na diocese. Ela vai auxiliar o Padre ou o Bispo; sei lá! Só sei que não a veremos mais por enquanto. Será que as cartas do colega têm incomodado ela? Será que eu fiz algo que a desagradou?

Ontem o Guedes foi embora e hoje o Benedito. O “Papai-Noel” também foi. E na semana passada foi embora o Ribeiro que era colega do Guedes. E eu ainda continuo como se tivesse jogado pedra na cruz ou matado o Papa. Quem sabe se eu tivesse distribuído balinhas no semáforo, como o bom velhinho Benedito, eu já teria ido embora. Mas eu não sou assassino; sou um idiota!
71313DEZ07, quinta-feira.
“_ Se pudermos no confronto militar – disse ao filho – nós mostraremos à Alemanha e ao mundo todo que a França ainda é grande. Através da ciência ela se levantará novamente da derrota e da humilhação, e voltará a ser novamente o grande país à testa do mundo.” (Guerra Franco / Prussiana)

(Louis Pasteur)


Perder é relativo, o importante é a luta; e da mesma forma vencer. Que saudades do Padre D’Ângelo que me puxou as orelhas várias vezes e eu não via o quanto ele queria o meu bem; o pai que ele estava sendo pra mim. (Perdoe-me, caro leitor, preciso de uma pausa pra chorar).

Mas a vida continua! Triste sem a presença dele, da minha mãe e de muitos outros que amei, porém a vida continua.

Nesta manhã sob a chuva fina e fria tivemos que cantar e louvar a Pátria. E é esta mesma Pátria que não nos respeita, porque nós somos a Pátria. Não há Pátria sem povo; sem patriotas. Odeio o militarismo! O pior é que eu tive que comandar a tropa no desfile por ser o “superior” ou o “mais antigo” do segundo estágio. Deus está mesmo me dando uma bela lição!
71414DEZ07, sexta-feira.
“Pasteur: um homem que se tornou grande apenas através de sacrifícios e perseverança, de obstinação e fé, de trabalho incansável e muita humildade, de um cérebro sem grandes lampejos intuitivos, mas metódico, esforçado, caseiro, econômico. (...) Sempre acreditou em Deus, até o fim, como acontece a todos aqueles que sofrem muito.”

(Filippo Garozzo)

A humanidade é um organismo contraditório de heroísmo e covardia, de ódio e amor, de altruísmo e mesquinhez, afirmou Pasteur. E eu concordo plenamente. Até parece que ele quer que eu insista em nomear este meu Diário do Cárcere com a palavra que resume a humanidade: COVARDES. E assim será em homenagem aos covardes que me prenderam e aos muitos covardes que se julgam homens de bem. SOMOS COVARDES! Está aí um bom título.

Dei uma carta ao Tenente Datti lhe pedindo ajuda para que falasse com o médico psiquiatra para reavaliar-me novamente e não me condenar a mais alguns anos de prisão sem razões para tal. Ele pegou a carta e prometeu ler, porém não me ajudou; mais um covarde na minha vida!

Não havendo a quem recorrer e sem perspectivas de sair em breve daqui, o único remédio é ler pra esquecer que a vida conspira contra mim, mas não me fará medíocre. Pois que venha Jorge Amado com sua Seara Vermelha.

Toquei violão na novena e a próxima eu vou dirigi-la.


71515DEZ07, sábado.
Conversei com o Luiz José esta manhã enquanto o Alves estudava música e falamos sobre o Natal que se aproxima; será o meu terceiro aqui. O espaço ecumênico é como se fosse o nosso ponto de encontro, a nossa praça noturna e diurna, os locais de falarmos com Deus, de lermos, de cochilarmos, de orarmos sozinhos ou em grupos, de tocar violão, de falar mal do colega e dos comandantes, etc. Aqui, quase tudo é permitido.

Tive acesso a algumas informações sigilosas do Presídio que nem todos sabem e talvez nem a imprensa. A propósito, eu li uma reportagem na Revista Playboy do final do ano passado (não me lembro se novembro ou dezembro) que apresentava o PMRG como uma verdadeira colônia de férias e isso não corresponde a verdade. Aqui não é aquela maravilha que a revista mostrou. Por que tanta mentira? Aqui nós somos humilhados, explorados pelas empresas que querem o nosso trabalho a baixo custo, etc.

As informações que tenho dizem respeito aos crimes cometidos e o número de presos relacionados aos crimes praticados, como por exemplo: na data de hoje só tem um idiota preso por Desacato e adivinhe quem é? Sou eu! E abaixo segue a relação de presos e crimes em ordem alfabética:

Ameaça, 00; Concussão, 09; Desacato, 01; Deserção, 02; Estupro, 12; Extorsão, 09; Furto, 08; Homicídio, 79; Insubordinação, 00; Latrocínio, 15; Lesão Corporal, 03; Outros, 13; Peculato, 01; Porte de Entorpecente, 02; Porte de Arma, 06; Receptação, 02; Recusar Obediência, 00; Roubo, 37; Seqüestro, 06; Tráfico Entorpecente, 02; Uso Falso Documento, 00; isso totaliza 207 tipos de crimes cometidos por militares da ativa, da reforma, reserva e ex-militares que cumprem penas ou aguardam decisões da Justiça na data de hoje (Digo, na data deste levantamento que é de 15DEZ07). Elaborou este documento, o Cabo Waldomiro R. Silva Neto, muito amigo meu e que espero que não seja punido por deixar que eu encontrasse tal documento no lixo. Aliás, sempre achei muitos outros documentos interessantes quando fazia a faxina da seção penal. Até revistas pornográficas encontrei lá e até o “capeta” mora lá. Onde há o ser humano, há perversidade, mentira e covardia.

E ainda consta deste relatório que guardo em minha casa nos meus diários (não é o único), que nesta época éramos 207 policiais presos entre os da ativa, reformados e demitidos, sendo 23 reformados e 67 demitidos. Ainda eram 107 condenados, 36 flagrantes, 62 preventivos e 02 temporários. Sendo que 62 estavam no semi-aberto, 145 no regime fechado. E os crimes cometidos eram respectivamente 31 do Código Penal Militar (CPM) e 176 do Código Penal Brasileiro (CPB).

E depois acham que eu estava ali de bobeira! A sociedade precisa saber o que realmente se passa numa prisão militar e não ser iludida por reportagens enganosas que visam promover comandantes safados, mentirosos, carrascos, perversos e covardes.


71616DEZ07, domingo.
A Tenente Márcia tem sempre alguns avisos pra nos dar e desta vez ela determinou que não é pra levar parentes nos alojamentos e não permitir que as crianças joguem bola na quadra porque pode acertar em alguém e a partir daí se criar enormes confusões.

Se a Tenente Márcia não fosse tão simpática comigo eu iria dizer que ela se parece uma palhaça porque exagera em sua pintura, isso sem dizer que ela tem umas nádegas volumosas e apetitosas. Olha aí, mais um processo! Nem tô! Eu não nasci pra ser covarde e medroso; embora, confesso ter sido muitas vezes.

O “Gaba” ainda não está conosco. O que será que aconteceu com ele?

A Igreja Batista promoveu uma grande festa de Natal pra bandidagem e eu fiquei de fora. Tinha muita coisa boa pra comer. Comida aqui não falta; bandido aqui não morre de fome.

Neste domingo chegaram os seis presos de Bauru que foram acusados de matar com choques elétricos um garotinho de 15 ou 16 anos de idade que havia roubado uma moto e que foi perseguido até sua residência onde foi torturado e morto; é isso o que eu soube. Não estou acusando ninguém, apenas anotando o que ouvi em meu diário.
71717DEZ07, segunda-feira.
Logo de manhã, através do jornal, eu vi a notícia do assassinato brutal do garoto em Bauru, mas prefiro não tirar conclusões precipitadas. Nunca sabemos quais as razões de nada. Nem mesmo de nossa própria existência.

Todos comentam sobre o crime cometido por eles e até eu acho que eles merecem ser punidos com extremo rigor. A PM não pode ser tão imprudente e inconsequente. A punição tem que ser severa. Mas acredito que eles vão embora antes de mim. A Justiça humana nunca foi e jamais será Justa.

O Edinan que saber por que eu guardo um bom ar no meu armário e não o deixo no P-4. É porque eu quero economizar e não deixar pra que usem sem limites. Mas optei por deixar no P-4.

Hoje é o júri do Dey e eu espero que ele seja por Deus abençoado e que a Justiça seja feita.

Nosso colega Cristiano foi embora hoje e dois colegas do crime de Bauru vieram para o segundo estágio; o Emerson e o Roger, que é Tenente e o outro é seu motorista.
71818DEZ07 terça-feira.
O Oficial Militar que veio preso com os outros de Bauru se chama Roger e conhece o Lucas de Maracaí. Eles estudaram juntos na Academia do Barro Branco.

O colega Dey pegou longos anos de prisão; acho que mais de 40 anos. O seu crime é hediondo, pois me disseram que ele é co-autor de um assassinato de uma criança. Nem quero comentar sobre isso.


71919DEZ07, quarta-feira.
Chove! O clima é agradável e isso fez o Dey passar o dia todo na cama. Não é fácil suportar o que ele acaba de saber; 40 anos!

Ontem o Dr. Christian me mostrou o documento que ele enviou ao médico militar dizendo-lhe que não sou periculoso. Ele me disse que isso me ajudará a sair daqui em breve.

Teremos uma festa hoje à noite com muitas coisas pra comer em comemoração ao Natal que se aproxima. Todas as denominações religiosas fazem isso ao término do ano e a bandidagem se delicia, mesmo que nunca tenha ido aos cultos.

À tarde teve um jogo de futebol na quadra e eu chamei o Josean de “cara-de-gato” e quase me dei mal. Ele se irritou comigo na presença de todos e achei que ele fosse me agredir, mas depois tudo se ajeitou. A gente se desculpou e ele disse que brincou comigo.


72020DEZ07, quinta-feira.
Um episódio bizarro aconteceu na nossa festa de Natal após todos terem comido o bolo, a senhora Maria José voltou para buscar o pedaço dela. Achei isso muito feio da parte dela. Mesquinhez foi o que ela demonstrou.

Muitos colegas foram passar o feriado de Natal com suas famílias e o Datena me pediu 50 reais emprestados para ir pra casa dele e me devolverá quando voltar.

Ensinei Português ao Nascimento e Francês ao Roger à tarde, em horários separados. Sei lá se vão aprender!

O Januário sofreu um acidente de trabalho com a serra na madeireira e cortou o dedão.


72121DEZ07, sexta-feira.

Fui ao HPM ontem sem nem mesmo ter solicitado alguma consulta, Eu queria era falar com o Dr. Luiz Henrique e não com outro médico.


72222DEZ07, sábado.
Todos comentam e riem da tentativa de suicídio do Leonel. Idiota! Antes quase se matou com álcool gel e agora quis se enforcar numa cordinha de varal. Este besta devia era apanhar de cinta. E por causa disso, o policial Edivar veio conversar comigo e me perguntou se eu me sentia bem. Percebi que há uma preocupação dos PMs com todos aqueles que têm ou aparentam ter problemas mentais. O policial ficou por um longo tempo conversando comigo lá no espaço ecumênico. Estranhei! Mas o policial me disse que veio falar comigo por determinação da Tenente Márcia e do Cabo Maia.

Tivemos a nossa ceia de Natal na noite deste sábado e se eu contar pra alguém a qualidade da comida que nos foi servida, certamente vão dizer que minto. Nunca comi tão bem, mesmo em liberdade; não me lembro! Ninguém nunca poderá reclamar da comida que nos é servida. De maneira geral é excelente. Querem saber o cardápio: leitoa, arroz, feijão, maionese, tabule (comida árabe ou sírio libanesa?), lasanha, saladas de vários tipos, batata, etc. Tivemos frutas tropicais variadas; melancia, uvas, peras, banana, figos, laranja, maçãs, lichias, etc. Tinha fruta que eu nem sabia o nome. E como sobremesa, gelatinas diversas ao creme de leite, Maria mole, pudim, doces, etc.

Apesar do problema que tive com o Ribeirinho quando lhe pedi que me passasse um cacho de uvas, a Ceia foi Divina em todos os sentidos. O velho foi estúpido e grosseiro comigo e até mudou de mesa dizendo que eu estava incomodando o jantar dele. O Levorato se aproveitou da situação pra ficar me tirando uma, ou seja, debochando de mim. Aqui somos bombas-relógio e nunca sabemos como e com quem podemos brincar.

72323DEZ07, domingo.

Conversei com o Gabarron, como de costume, apesar dele não ser de muita conversa e dei um bilhete para que ele desse à sua mãe para ligar pra Cidinha e passar os meus recados. Todos os domingos eu faço isso.

O comentário da tentativa de suicido do Leonel é a notícia do momento e ele está de volta do hospital e receberá sua família. As más línguas dizem que ele está sendo ameaçado por seus comparsas que estão em liberdade e temem que ele os denuncie, outros dizem que são novos processos que estão aparecendo pra ele responder e, enfim, são vários os comentários que não me dizem respeito.

Quando eu voltava do centro médico (UIS), o Roger me convidou pra que eu conhecesse seus irmãos e me deu chocolates. À noite eu conheci o pai dele e a sua mãe que moram em Bauru e que estavam numa camioneta de placas ANX – 0303 / Bauru. Acho que era uma Hi-Lux; eu não entendo de veículos. E isso pouco importa, só sei que seu pai é Coronel aposentado. Isso lhe permitiu que ele pudesse falar com seus pais logo após a visita; fato que foi muito comentado entre os internos. Há sim um tratamento desigual entre os desiguais. Os oficiais da PM são solidários entre si e isso ficou claro. Nada mais justo, penso eu. Quem pode manda e que não pode “fica xiu”!
72424DEZ07, segunda-feira.
O “Presuntinho” quer que eu trabalhe na cozinha pra ele amanhã porque é Natal e ele vai ter visitas. Ainda não lhe dei a resposta; são muitos interessados.

Dormi cedo para não ver a passagem da noite do Natal e chorei ao ouvir os fogos. Impossível não ouvir! Lembrei-me dos Natais que passei em casa e não desejo passar o quarto Natal aqui. Que o 2008 seja o ano da minha libertação, não só do cárcere, mas de todos os outros tipos de prisão que me impedem de ser feliz. É o meu terceiro Natal aqui entre “monstros” militares. Estou triste!

Recebi duas cartas das mãos do Cabo Valdomiro e ambas não traziam boas notícias. Uma era do advogado me dizendo que deixou a responsabilidade do processo com outro advogado da capital que eu nem sei quem é que nunca veio me ver. A outra carta era da Cidinha dizendo que o estado de saúde da minha irmã Matilde havia piorado e que meu cunhado estava mais preocupado em arrumar o carro velho dele do que com a saúde da minha irmã, sua mulher.

Soube que a Marcília está em Maracaí para as festas de fim de ano e que por isso não terei visita no Ano Novo; ela deve ficar por lá. Quando ela retornar, pedirei a ela que leve em mãos o meu pedido de desfiliação da Associação de Cabos e Soldados da PM. Fiquei chateado com o tratamento dispensado por eles e com a incompetência do advogado num caso tão simples como o meu. Estou preso há muito tempo por nada e sou alvo de gozações dos outros presos. Nem tive coragem de dizer a eles que o meu advogado é da Associação; todos se queixam do trabalho deles.

Vou nomear a Procuradora Elizabeth para finalizar o meu caso, todos a elogiam muito pela sua competência, educação, respeito com o preso, profissionalismo, dedicação e por seus dotes naturais; ela é linda! Todos são unânimes em afirmar isso. Não é difícil se apaixonar por ela. Ela é fantástica! Encantadora! Doce! Meiga! Linda!

Não quero mais ser sócio de nada! Pra que ficar pagando pra permanecer no cárcere? Vou comunicar a Cidinha e a Matilde da minha decisão que é irrevogável.


72525DEZ07, terça-feira.
Passei o meu terceiro Natal na prisão e não desejo o quarto. Estou triste! Nada tenho que mereça ser anotado. Estou triste! Entendam-me, caros leitores, e desculpem-me.
72626DEZ07, quarta-feira.
A Tenente Márcia me permitiu telefonar pra casa ontem e o Monteiro me disse que eu toquei os sentimentos dela e que por isso ela autorizou, mas se eu tivesse falado com ele tudo se resolveria também; acredito que sim, pois ele é um bom policial e todos gostam dele.

Como não sou mais padeiro, agora sou um falso ajudante de pedreiro (trabalho na obra, mas só fui um dia), fico mais na Biblioteca lendo e me escondendo de todos. Estou numa escala de varredura do pátio e isso me dá oportunidade de sair e ver a rua.


72727DEZ07, quinta-feira.
Varri o pátio de manhã, joguei dominó com o Roger e depois ele veio até o alojamento e eu mostrei a ele as cartas das minhas “amigas” do vigésimo DP.

Falei de novo com o MM Juiz Moro Cavalcante que me deu uma boa notícia dizendo que me libertará em breve. Não sei se acredito!

Mesmo assim fiquei feliz e joguei futebol à noite e marquei dois gols; fiquei cansado. Quero acreditar na promessa do Juiz.
72828DEZ07, sexta-feira.
Faz calor! Não dormi bem à noite em razão do calor e do barulho que fizeram os colegas da padaria.

Estou lendo Jô Soares e outros livros que me foram emprestados pela Sub Bia; uns oito livros. À tarde eu assinei o documento que faz da Procuradora Elizabeth a minha defensora junto ao Tribunal de Justiça Militar. Ela estará em férias e voltará em fevereiro, me disse.

Leio o livro do Jô; O Homem que matou Getúlio Vargas.
72929DEZ07, sábado.
“Quanto maior a dor, maior o alívio”

(Jô Soares)


Ensinei português ao Nascimento. Algumas noções básicas de acentuação e flexão de verbos. Disse a ele que só a persistência o fará escrever com o mínimo de erros possíveis e que eu também cometo erros; só a prática leva à perfeição. Desanimar jamais.
73030DEZ07, domingo.
“O desespero é típico daqueles que não entendem as causas do mal, não enxergam uma saída e são incapazes de lutar.”

(Jô Soares)


Minha irmã veio me visitar e me falou do estado de saúde da Matilde que não é nada bom. Mostrou-me alguns processos que tramitam contra mim que eu desconhecia. Dei a ela o documento que fiz pedindo que levasse em mãos até a Associação; era o meu pedido de desligamento.

Ela me trouxe uma excelente comida! Minhas irmãs sempre cozinharam muito bem, assim como minha falecida mãe. O refrigerante eu sempre dou pro Levorato ou pro Datena, pois não gosto de beber. Apresentei à minha irmã os colegas Levorato, Rocha, Nicéias e Roger.

Antes do meio-dia eu desci com ela até o portão principal pra ajudá-la a levar a cesta básica que ainda recebo da Associação. Falei da promessa do Juiz e isso a deixou contente. Falou-me dos parentes e disse que o Janderson da Neusa está envolvido com pessoas erradas e que até está metido com drogas.
73131DEZ07, segunda-feira.
“A solidão é o apanágio dos guerreiros.”

(Jô Soares)


Ouvir as mentiras do Vasconcelos é triste! Pobre e coitado; será que ele pensa que eu acredito? E todas elas terminam em sexo. Maldito pedófilo! E quanto mais eu fujo dele, mais ele me persegue.

Melhor foi passar a tarde jogando xadrez com o Roger que não conseguiu ganhar nenhuma de mim.

Como no Natal, eu não quis ver a passagem do ano, mas fui obrigado a ouvir os fogos novamente. E acordei em 2008. ANO DA MINHA LIBERDADE!




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