Só hoje resolvi sentar para escrever o que se passou comigo nesses 976 dias no cárcere



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MAU CHEIRO
Antes do ISO a situação não era muito diferente da norma brasileira. Em 2003, por exemplo, os presos se reuniram para um julgamento interno e decidiram punir um colega. A acusação não era de estupro ou outro crime bárbaro, mas por algo mais prosaico: mau cheiro. “Condenado”, o detento foi espancado pelos colegas.

Havia dois meses que o tenente coronel Ararigbóia Felisbino Mazarin Delecródio assumira a direção do presídio. Ararigbóia, que significa”cobra feroz” em tupi-guarani, honrou o nome: os responsáveis pelas agressões responderam por tortura e acabaram transferidos para presídios comuns. É o que de pior pode acontecer a um ex-policial.”Castigo físico não resolve. É preciso estudar. A ciência policial é a união de todas as ciências”, diz Ararigbóia, mestrando em Ciência Política na Universidade de São Paulo.”Cobra Feroz” deixou a direção em junho último, mas sua filosofia de trabalho continua ativa.



As “ciências” de Ararigbóia aparecem em um curioso estratagema neurolingüístico. Palavras-chave como “disciplina”, “família” e “civismo” ocupam placas colocadas em lugares estratégicos. No bem cuidado jardim, há rosas plantadas por um sujeito que obrigou uma criança a engolir seu sêmen. A lógica dali determina que estupradores sejam colocados na jardinagem na tentativa de “recuperar sua humanidade”.

O dormitório no prédio da administração, para aqueles que estão nos estágios amarelo e verde



LITTLE BAND
Enquanto alguns presidiários fazem as vezes de garçons do café da manhã, os oficiais discutem maneiras de economizar - por exemplo, como aproveitar cascas de banana para fazer bolo. Atrás deles, as paredes são decoradas com filtros de café pintados de rosa nas aulas de arte ministradas por uma voluntária. Tudo no Romão é pensado para que ninguém fique ocioso.
Às 8 horas da manhã, presos e policiais bem alimentados estão no Largo do Civismo, assistindo ao hasteamento da bandeira nacional. Hoje é dia de entoar a “Canção da República”, que, como em todo o território brasileiro, é conhecida por uma minoria. Permissão para tirar a “cola” do bolso concedida. Na hora de marchar, encarcerados e livres cantam de cor o hino do presídio. Os pés batendo no chão e os instrumentos musicais (que por uma dessas ironias involuntárias são da marca Redenção) ditam o ritmo do desfile.”Aqui se busca a trilha da reconquista com dignidade”, diz a letra.

O hino do Romão é uma das 40 composições do preso Paulo Antônio, que gravou dois CDs dentro da prisão sob o nome artístico de Paulo Tony. Sua maior influência é Djavan. O mesmo Paulo já foi o temível PM Maguila. “Sujeito mal-encarado e com suas próprias leis”, lembra o ex-policial, que também canta na Little Band, grupo que só se apresenta no Romão e cujo repertório inclui Roberto Carlos, Tim Maia, Beatles e Frank Sinatra.

O galpão usado para fabricação de varais serve para os ensaios dos músicos. Sax, trompete, bateria, violão e contrabaixo entram em ação. O ritmo de “Disparada”, de Geraldo Vandré, é marcado pelo pé de Josué. Ele é o policial responsável pela guarda no primeiro portão de acesso ao “xadrez” - local onde os presos passam o dia trancados, com uma hora de banho de sol.”What a Wonderful World” começa a ecoar. Mas, dali para frente, a prisão tem cara de prisão.

No corredor estreito, vigiado por câmeras e fechado com grades estão as dez celas com ostensivas barras de ferro. Todas têm privada, algumas sem tampa, é verdade. Mas ninguém pode reclamar da limpeza. A solitária poderia ser confundida com um quartinho bem arrumado. E com chuveiro aquecido. Nesse local, o soldado José Lima, condenado por furto, sentiu as dores da abstinência do crack. O olho que não pára quieto e a dificuldade de falar indicam os malefícios da droga.



Pazzeto ficou nove anos preso por homicídio. Fez até curso com professor de veterinária da USP

Os “hóspedes do xadrez” ficam em celas de, no mínimo, 31,5 m2, o que lhes garante o espaço de 6 m2 por pessoa, a medida mínima prevista por lei. Os beliches de ferro com colchões finos (foi dentro de um deles que o último celular foi encontrado há quatro anos) estão longe de uma cama king size, mas também não castigam as costas. Fotos de mulheres nuas não são permitidas. Na cela destinada aos “psicopatas”, os pôsteres dão lugar ao azul-claro dos armários. O psicólogo do presídio acredita que a cor acalma os instintos mais agressivos.

Esse não é o único jeito de lidar com a agressividade. Condenado por seqüestro, Antônio Carlos se tornou um mestre reiki de terceiro grau na cadeia e já forma seus próprios discípulos. “Aprendi a trabalhar a energia e a me sentir mais tranqüilo”, diz, com a voz serena.



Antônio ainda se acostuma com a cor azul do papel com seu nome escrito. É que, além da camiseta marrom e da calça bege - o uniforme padrão -, os internos do Romão ostentam crachás coloridos para indicar os diferentes estágios prisionais em que se encontram. O azul mostra que o preso está no regime semi-aberto. Os “amarelos” ainda são proibidos de ir para a rua, mas podem dar expediente no setor administrativo e na manutenção, enquanto os “verdes” têm acesso às atividades remuneradas, como oficina mecânica, lava - rápido, confecção de roupas e fábrica de casinhas de cachorro, exportadas para a Itália e Israel. Mais de 80% dos presos trabalham.



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