Ricky medeiros


Fox, Reuters, Televisa, BBC



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, Fox, Reuters, Televisa, BBC, SkyAsia, France Press, AP, Austrália 7, Pan-Africa, as maiores redes de tele­visão brasileiras... todas com seus logotipos, orgulhosamente de­senhados nos mais de trinta microfones enfileirados na frente do galpão.

Assim que Almeida se postou na frente dos microfones e câmeras, um repórter da CBS abriu a entrevista:

— Sr. Almeida, está ciente do que aconteceu hoje em Nova York? Algumas horas atrás, um padre católico, com o nome de Jean-Baptiste, declarou que você é Cristo reencarnado. Ele falou isso durante uma missa transmitida para o mundo todo. O que você tem a responder?

Almeida ignorou a pergunta e o repórter.

— Bem-vindos ao Brasil.

Quando ele começou, os tradutores simultâneos nas redações ao redor do mundo começaram a abrir suas bocas, prontos para tra­duzir do português para suas línguas nativas as palavras de Antô­nio Almeida.

— Estou feliz que tenham vindo. Eu sei que domingo é um dia de poucas notícias, porém nem eu achava que vocês fariam tudo isso — comentou, referindo-se ao equipamento de televisão que estava transmitindo a coletiva.

Nos Estados Unidos, os tradutores tomaram seus primeiros fô­legos, mas logo perceberam que estavam ouvindo o jovem prega­dor em inglês.

Na África, partes do continente ouviam a voz em inglês, ou­tras em suaíle, árabe, holandês ou até mesmo nas centenas de dialetos falados no continente.

Ao vivo ou nas infinitas reprises dessa entrevista, as pessoas do mundo inteiro ouviram Antônio Almeida falar em sua pró­pria língua.

— Chegou a hora, espíritos da Terra, de vocês entenderem quem são. Nos próximos dias, vocês conhecerão quem eu real­mente sou, e, quando isso acontecer, vocês também conhecerão quem são vocês.

O mundo viu Almeida apresentar Bill Hanley, representan­te de um famoso tele-evangélico americano que convidou Antô­nio para ir a Louisville, Kentucky, onde seria entrevistado, ao vivo, num debate transmitido para o planeta inteiro.

O mundo ouviu Almeida agradecer ao evangélico Bob Mas­terson e avisar que, no programa de quarta-feira, "meu ser verda­deiro será conhecido".

Antônio não respondeu às perguntas dos repórteres, e falou diretamente para o gigantesco público do outro lado das câmeras, declarando que uma Nova Era estava rapidamente chegando e que ele viera a esta dimensão para ajudar o mundo a se preparar.

Muitas emissoras que não estavam transmitindo a entrevis­ta ao vivo mudaram de idéia e interromperam suas programações. Durante os próximos dias, as palavras de Almeida seriam disseca­das, analisadas e avaliadas em cada canto do globo, e suas pala­vras "Eu vim não para mostrar um novo caminho, mas para ex­plicar o velho caminho" seriam infinitamente repetidas durante a contagem regressiva para a transmissão de quarta-feira.

Quase uma hora se passou desde que Almeida começara a fa­lar para as câmeras de televisão na frente do galpão. Durante essa hora, ele pediu para o mundo:

— Não tenham medo. Isto não é o Final dos Tempos, é o co­meço da Nova Era, uma era em que os espíritos humanos apren­derão a se unir em torno das coisas que têm em comum ao invés de se dividir por suas diferenças.

A voz de Antônio, ouvida ao vivo em todos os cinco conti­nentes, relembrou aos espíritos terrestres que eles eram "imagens de seu criador e todos dividem o mesmo espírito com Deus". O jovem moreno falou sobre a justiça eterna da reencarnação, expli­cando que "não existe essa coisa de castigo eterno. Seu Pai é jus­to, e ele os ama" e "A morte é igual ao nascimento. É só uma questão de qual lado da porta você está".

— Mas chega por hoje — encerrou Antônio. — Como di­zem na televisão, não percam na próxima quarta-feira o final eletrizante desta história — brincou.

Acenando para as câmeras e para a enorme multidão que ha­via se juntado nas ruas ao redor do galpão, ele, Hanley e seus ami­gos começaram a andar em direção à sua casa.

Pelo canto do olho, ele viu um casal com uma criança. Era Inês, Paulo e seu marido. Os três correram para Antônio, e Pau­lo abraçou a perna do pregador.

— Eu o vi na TV, e decidimos vir para cá — disse Inês. — Meu marido e eu queremos fazer algo por você. Esse americano, Bob Masterson, nós sabemos tudo sobre ele. Você tem que estar com seus amigos quando for para lá. Na terça-feira à noite haverá um avião no aeroporto esperando por você e — ela apontou para os amigos de Antônio — qualquer um que você quiser levar. O avião os le­vará diretamente para Louisville.

Com lágrimas nos olhos, ela declarou que, se Almeida não se importasse, ela, seu marido e Paulo gostariam de ir junto.

— Quando eu vim aqui naquele dia, você me falou que não havia necessidade nenhuma de um milagre. Bem — disse ela aper­tando a mão do marido —, você me deu um milagre. Nós, Ricar­do e eu, estamos juntos outra vez. Nós três — falou, olhando para Paulo, que ainda estava abraçando a perna de Almeida — somos uma família agora. Obrigada.

Antônio, olhando para o casal, simplesmente respondeu:

— Inês, eu não fiz nenhum milagre. Você mesma fez. Vou aceitar sua oferta do avião, e, é claro, vocês irão conosco. Eu gos­taria de ter meus amigos comigo.

Com isso, Antônio, com Inês, Hanley e todos os amigos pre­sentes, entrou no galpão, enquanto os comentaristas, repórteres e editores espalhados pelo mundo resumiram para seus telespec­tadores os acontecimentos do dia.

Mas o que ficou gravado na mente de todos foram as últimas palavras de Antônio, entendidas no mundo inteiro, em toda e qualquer língua:

"Não percam na próxima quarta-feira o final eletrizante des­ta história."
Capítulo 24

Quarta-feira à noite, ano 2015, Planeta Terra

O CONFRONTO

"Deixe-nos ter concordância com nossa própria gente, e concordância com pessoas que são estranhas para nós. Crie entre nós e os estranhos uma unidade de corações."



Atharva Veda Samhita
"Os bens de Deus, que são além de todas as medidas, só podem ser guardados num coração vazio e solitário."

São João da Cruz

O mundo parou. O mundo esperou. O mundo olhou.

Na cidade de Nova York, pessoas davam "festas Almeida" em suas casas enquanto contavam os minutos para o início da trans­missão histórica daquela noite. Do outro lado do mundo, no Ja­pão, já era a manhã de um outro dia. Operários descansavam suas ferramentas e administradores desligavam seus computadores, jun­tando-se a amigos e colegas de trabalho na frente dos televisores. No Brasil, onde Almeida nasceu, as grandes lojas deixaram as te­levisões das vitrines ligadas durante a noite para que as pessoas vol­tando do trabalho não perdessem "O Show de Antônio". As ruas de toda a Europa estavam vazias enquanto famílias e amigos se reu­niram para assistir ao que estava sendo chamado "O Debate do Mi­lênio". E, na Africa, televisores ligados em geradores iluminavam os céus escuros de vilarejos remotos.

O planeta inteiro estava ligado no sinal de Louisville, de onde, em questão de minutos, um tele-evangélico chamado Bob Masterson e um pregador chamado Antônio Almeida falariam para o mundo.

No estúdio em Louisville, tudo estava pronto. As câmeras estavam em posição e o exército de técnicos da CCM terminou os ajustes finais.

Bill Hanley traçou o visual do programa. Masterson e Almei­da sentariam no centro do palco, lado a lado, em duas cadeiras bege. Eles estariam separados por uma mesa pequena com uma garrafa de água em cima.

O palco era escuro, exceto por dois focos de luz sobre cada um dos participantes. O visual era simples mas poderosamente dramá­tico, focalizando a atenção na dupla.

Faltavam somente alguns minutos. Bob Masterson esperava, como um campeão de pesos-pesados antes de uma luta, no lado direito do palco. Ele nervosamente falava e brincava com a pes­quisadora Mary Fried e com Phil Martelli, seu diretor financeiro. Martelli deu a Masterson um relatório sobre Jean-Baptiste, o pa­dre africano. Ele instruiu Masterson:

— Use esta informação. O nome dele só bateu ontem. Nós já lidamos com esse cara antes.

Masterson passou os olhos no relatório e sorriu para seu di­retor financeiro.

Durante a última hora a CCM mandou sinais de espera para todas as suas emissoras espalhadas no mundo, e no vazio escuro do espaço esses sinais foram retransmitidos entre centenas de sa­télites orbitando a Terra. De cada facho invisível de um satélite, outros fachos nasciam. O satélite que pertencia ao Vaticano cap­tou o sinal de Louisville (o papa pessoalmente pedira permissão a Masterson), transmitindo-o para milhares de canais a cabo ao redor do planeta.

As seis maiores redes de televisão americanas também espa­lharam o sinal de Louisville pelo território americano, enquanto a CNN e a BBC mandavam o sinal para as suas afiliadas no mun­do inteiro.

Na última hora, os sistemas Televisão Nacional Chinesa e Ali índia Broadcasting juntaram-se ao sinal de Louisville. Cada can­to do planeta seria coberto pelo sinal da CCM, e não haveria lu­gar onde o debate não pudesse ser assistido.

O público já estava na platéia do estúdio. Masterson enche­ra o auditório com seus fanáticos fiéis. Almeida não fez nenhuma objeção, pedindo somente que trinta dos quatrocentos lugares fos­sem reservados para seus acompanhantes e que o padre Jean-Baptiste assistisse ao debate dos bastidores.

Neste momento, em lados opostos do palco, os dois homens esperavam. Masterson, com Mary e Martelli, recebeu o último re­sumo antes de entrar no ar.

— OK —- disse Mary rapidamente. — Tenho os últimos re­sultados de minhas pesquisas. Foram feitas só nos Estados Unidos, mas tenho certeza de que devem bater com o que está acontecen­do no resto do mundo.

Mary apressou-se em contar tudo, deixando Bob a par das úl­timas informações que ela tinha recebido, tabulado e analisado.

"Ela ainda não entendeu", pensou o evangélico enquanto Mary elaborava um perfil atualizado de Almeida.

— Aqui nos Estados Unidos, mais de noventa por cento das pessoas responderam que ouviram falar de Almeida, e, desses no­venta por cento, quase cem por cento ouviram o próprio Almei­da falar. Todo mundo sabe do "milagre da língua". Muitos estão assustados e todos querem uma explicação.

Masterson, exasperado, quase perdeu a paciência. Ele per­guntou se alguma coisa era realmente nova e importante. Mary resmungou:

— Nada, nada mesmo.

— Foi o que pensei — retrucou o evangélico. — Em três mi­nutos eu vou encarar uma platéia mundial de bilhões de pessoas, e, depois de tudo isso que você informou, continuo sem nada novo para falar.

Martelli lembrou-o do relatório sobre o padre. Masterson nem respondeu.

No outro lado do estúdio, Antônio Almeida estava com Jean-Baptiste.

— Este telegrama acabou de chegar — informou o padre. — É do papa.

Antonio pegou o pedaço de papel amarelo, leu-o, e um sorriso passou por seu rosto.



  • Lembra-se de que falei para você que muitos foram cha­mados? Esse papa — disse Almeida batendo os dedos no telegra­ma — ouviu. Ele não interferiu, não usou seu poder na igreja para ferir a mim ou a você. Ele mandou as estações de rádio e de tele­visão do Vaticano exibirem este programa e, por intermédio de seus bispos, recomendou que todos os católicos o assistissem.

  • Parece ser um selo de aprovação não oficial — comentou Jean-Baptiste. — Ele provavelmente não podia dar um aval de­clarado, porque com isso ele desencadearia uma guerra dentro da igreja.

  • Antes que a noite acabe, você vai saber de uma outra pes­soa que também foi chamada. Hoje à noite ele terá a última opor­tunidade de ouvir a voz que falou para sua alma — disse Almei­da apontando para Masterson no outro lado do estúdio.

Jean-Baptiste se surpreendeu, e Antônio pôs um dedo nos lá­bios pedindo para o padre ficar calado, ouvir e esperar.

Bill Hanley, plantado na frente de quinze monitores de tele­visão, viu o relógio digital avisar que faltavam três minutos.

Em três minutos a rede de televisão CCM estaria formada, le­vando as imagens que ele selecionava do Estúdio 7, em Louisvil-le, Kentucky, para o mundo.

Em três minutos, os espíritos encarnados neste planeta iriam decidir se eles tinham diante de si um messias ou um louco.

Hanley apertou o botão e falou ao microfone à sua frente:

— Srs. Masterson e Almeida, tomem seus lugares. Entrare­mos no ar em dois minutos.

Sua voz inflamou o já estratosférico grau de tensão e anteci­pação que enchia o estúdio.

Os dois ainda não tinham se encontrado. Masterson, andan­do em direção à sua cadeira à esquerda de Almeida, avaliou o jo­vem. Chegando juntos ao centro do palco, Bob olhou nos olhos de Almeida e confessou:

— Não fiz nada durante as últimas duas semanas a não ser ten­tar decifrá-lo, e sinto que não estou mais perto da verdade do que estava quando comecei.

Almeida estendeu a mão para Masterson, que também ofe­receu a sua, acrescentando:

— Bem-vindo a Louisville. Acredito que teremos uma noi­te interessante pela frente.

Almeida retornou o sorriso de Masterson sem dizer nada.

Masterson estava impecavelmente vestido num terno azul-marinho, camisa azul-clara e gravata de seda vermelha. Ele parecia como sempre pareceu: um homem que falava com Deus durante a noite e com banqueiros de Wall Street e políticos durante o dia.

Almeida, por outro lado, parecia um hippie moderno: calça bege, camisa azul de jeans e sapatos de camurça marrom-claros. Antes de sentar, ele passou as mãos em seus cabelos escuros, numa tentativa frustrada de deixá-los alinhados. Antônio, certamente, não parecia que falava com políticos ou banqueiros, e, sendo vin­te anos mais moço do que Masterson, também não parecia o tipo que passava suas noites falando com Deus.

Da sala de controle no andar superior, Hanley calmamente avisou Masterson, Almeida e todos no Estúdio 7 que dentro de trin­ta segundos estariam no ar, com um público estimado em oito bi­lhões de pessoas.

VINTE SEGUNDOS: Masterson revisou seus comentários de abertura.

QUINZE SEGUNDOS: Bob, olhando para Almeida, pensou: "Como é que esse cara pode ser quem dizem que é? Ele parece um voluntário do Greenpeace que acabou de voltar da Austrália."

DEZ SEGUNDOS: Masterson se endireita na cadeira, olha para a câmera 3 e veste seu tão bem ensaiado e tão eficiente sorriso de televisão.

CINCO SEGUNDOS: Um locutor anuncia:

— E agora, senhoras e senhores, direto do Estúdio 7 da CCM, em Louisville, Kentucky, com vocês... Bob Masterson.

O tom da locução era casual, assim como Bob Masterson, que, sorrindo para a câmera, abriu o programa:

— Olá. Alguns de vocês já me conhecem, e, para aqueles que não, gostaria de me apresentar: meu nome é Bob Masterson. Mais de trinta anos atrás, Deus falou comigo e me mandou espa­lhar a sua palavra e a de seu filho Jesus. Com sua ajuda eu criei a Cruzada Cristã Mundial, CCM. Sou seu fundador e presidente. Também apresento o Clube de Cristo um programa evangélico de entrevistas, exibido diariamente em nossa rede CCM. Acabaram de me informar que nosso sinal está sendo visto em todo o mun­do, nos Estados Unidos, Canadá, Europa, África, Ásia, China, Rússia, América do Sul e Austrália. Então, para vocês que estão vendo a CCM pela primeira vez, dou-lhes as minhas boas-vindas e meus agradecimentos.

O tele-evangélico virou-se para a câmera 4, que ele sabia estar focalizando de perto seu rosto. Com austeridade na voz, anunciou:

— Dentro de alguns instantes vou apresentar-lhes o Sr. An­tônio Almeida, do Brasil. Nestes últimos dias, todos nós ouvimos falar muito dele. Algumas pessoas estão proclamando que ele é o Cristo que voltou. — Masterson parou por um segundo e acres­centou: — É o que veremos. Porém todos sabemos que, quando ele fala, todos entendem, e não importa a língua que a pessoa fala. Esse fenômeno está sendo chamado de "milagre da língua". — Novamente ele parou para respirar, depois acrescentou: — Nós va­mos ver isso também.

Por meio de um pequeno fone de ouvido, Masterson pôde ouvir as palavras de encorajamento de Mary Fried nos bastidores:

— Até aqui, tudo bem. Continue pegando leve. Masterson deu um leve sorriso, enquanto continuava a con­versar com o mundo.

— Poucos dias atrás, antes de explodir toda esta onda em torno do Sr. Almeida, eu decidi entrar em contato com ele. E convidei-o para vir aqui a fim de que pudéssemos descobrir mais sobre ele. Ele é mesmo o que algumas pessoas estão dizendo? Ou ele é, conforme a Bíblia preveniu, um dos falsos profetas que vi­riam nos dias finais para espalhar falsidades e mentiras?

Masterson colocou na mesinha à sua frente as fichas que estava lendo. Então olhou para Antônio e, com um sorriso lar­go, declarou:

— Mas acho que a melhor maneira de começar o programa é simplesmente fazer a pergunta que está na boca do mundo in­teiro: "Como você faz aquilo? Como você pode falar e ser enten­dido por todo mundo?"

O auditório lotado, em sua maior parte por freqüentadores as­síduos de Masterson, aplaudiu a pergunta. Antônio ignorou o au­ditório e olhou para a câmera 2, que Hanley explicara que seria sua câmera principal.

— Não se preocupe com nada — informara Hanley durante a viagem para Louisville. — Garanto que jamais darei um enqua­dramento de câmera ruim.

Almeida, seu rosto enchendo as telas de televisão ao redor do mundo, declarou simplesmente:

— Eu não faço nada.

Masterson esperava mais. O mundo também. Masterson fez um sinal com a cabeça, tentando arrancar algo mais de Almeida.

Antônio apenas olhou para a platéia e repetiu:

— Eu não faço nada.

Bob Masterson esticou a mão, tocando no braço de Almei­da, e afirmou que aquela resposta não era suficiente.

— Você acha que pode se livrar dessa simplesmente dizendo "Eu não faço nada"? Sua habilidade de ser entendido por todos no planeta conquistou nossa imaginação. Sua habilidade tocou nos­sas esperanças e ao mesmo tempo, também, mexeu com nossos me­dos. Veja bem, Antônio, você é um homem de vinte e nove anos de idade, de quem até alguns dias ninguém ouvira falar antes. Do­mingo passado, um padre qualquer do Harlem falou para o mun­do que você é Jesus Cristo, e poucas horas depois você dá uma en­trevista e o mundo inteiro entende toda e qualquer palavra de sua boca. Você não pode se livrar com um simples "Eu não faço, nada". Desculpe, mas isso não vai colar!

Masterson estava no ataque, pressionando um Almeida apa­rentemente evasivo.

Em seu fone de ouvido, Bob ouviu Mary dizer que ele estava marcando gois.

Mas ele não contava com uma coisa: Antônio não viajara oito mil quilômetros para debater com Masterson. Ele veio para reve­lar ao mundo, de um único lugar e de uma única vez, quem ele era e por que estava na Terra. Almeida não iria entrar no jogo de Masterson, e em pouco tempo o evangélico iria descobrir isso.

— Sua pergunta implica que uso mágica ou algum poder si­nistro. Seu tom de voz implica que eu altero o curso natural das coisas. Na verdade, é o contrário: eu uso a lei natural. Portanto, eu não faço nada; o universo faz tudo.

Antes que Masterson pudesse interromper, Almeida levan­tou sua mão, cortando o tele-evangélico. O jovem pregador con­tinuou explicando o que queria dizer "nada".


  • Do outro lado do véu que vocês chamam "vida" há uma outra "vida", e essa vida é o mundo espiritual, que é o lar natural de vocês, é de onde todos nós viemos. Nesse mundo não há fala, nem palavras, nem vocabulário. Os espíritos se comunicam por meio de vibrações de pensamento.

  • Mas na vibração terrestre vocês estão encarnados em cor­pos físicos que têm uma mente, e essa mente precisa de palavras ou símbolos para se comunicar. Além disso, a mente é uma ferramenta da personalidade terrestre. Portanto eu não falo para suas mentes, falo para o espírito eterno, dando um curto-circuito na per­sonalidade" encarnada.




  • Agora vocês sabem por que todos me entendem. Pensem por um segundo nisto. Não é uma prova inegável que somos um? De que somos todos iguais, apesar de todas as nossas diferenças ex­ternas? Não é esta a prova de que vocês fazem parte de alguma coi­sa muito maior do que vocês?

  • Eu falo a língua universal. E uso essa língua para ensinar a verdade universal. Eu vim para mostrar essa verdade a vocês. Como eu disse, é realmente muito simples: eu não faço nada.

De sua posição nos bastidores, Mary Fried sussurrou ao micro­fone que levava sua voz para o aparelhinho quase invisível no ou­vido direito de Masterson:

— Pergunte como podemos saber que não é um truque. Per­gunte como podemos ter certeza de que ele não é Satanás. Como podemos ter certeza de que ele não é um anticristo. Faça essas perguntas, Bob! Marque um gol!

Enquanto Masterson sutilmente balançava sua cabeça de­monstrando que entendera as instruções, Hanley por sua vez percebeu um discreto sinal de Almeida e cortou para uma câmera mostrando Almeida retirando o aparelho da orelha direi­ta de Masterson.

— Eu não acho que vamos precisar de perguntas quem vêm dos bastidores, Sr. Masterson. Mas vou responder à pergunta — disse ele apontando para o pequeno fone de ouvido — antes mes­mo de você perguntar.

Um embaraçado Bob Masterson ficou estático enquanto An­tônio repetia palavra por palavra a pergunta feita por Mary Fried.

— Não há truques, não faço feitiços nem crio ilusões. Podem ter certeza de que não sou um falso profeta nem um anticristo. Leia sua Bíblia de novo, Sr. Masterson, porque não, usei essa Bíblia para lucros ou ganhos pessoais. E nunca usei as palavras daquele livro para assustar, enganar ou manipular pessoas. Para dizer a ver­dade, eu fiz o oposto. Eu disse inúmeras vezes: "Acreditem e con­fiem em vocês mesmos". Eu imagino — ele parou e olhou direta­mente para Masterson — que isso deve irritar algumas pessoas. E, como você está tão determinado a me associar a ele, vou falar um pouco desse tal anticristo.

Ignorando Masterson, que estava confuso e sem rumo, o jo­vem pregador falou apaixonadamente para as câmeras de televisão:


  • O anticristo é tudo que Cristo não é. Quandovocê_vive no ódio, ao invés de viver no amor, você está adorando e alimentando o anticristo. Quando você é tentado pelo mundo ao seu redor: sua riqueza, seu poder, seu status... você caminha com o anticristo.

  • O anticristo não é uma pessoa ou um indivíduo. O anti­cristo é o mundo material; Cristo é o mundo espiritual. Cristo é a verdade; o mundo material é a ilusão. Quando vocês entende­rem isso, estarão no caminho para descobrir quem vocês realmen­te são. O anticristo existe por causa disso. É impossível comparar verdade com verdade. Você só pode comparar a verdade com a men­tira. A riqueza o poder e as ilusões de seu mundo material exis­tem para que vocês tenham as opções para escolher.

Almeida virou-se para Masterson, devolveu-lhe o fone de ouvido e, olhando por cima dos ombros do evangélico em dire­ção aos bastidores, avisou que aceitava perguntas de onde vies­sem, mas achava que a platéia tinha o direito de saber o que es­tava acontecendo. Então, olhando diretamente para Masterson, avisou:

— Eu sei muito bem por que fui convidado esta noite. Você queria que eu caísse em sua armadilha. Isso não vai acontecer, porque desta vez será diferente daquela outra.

Masterson nervosamente pôs o aparelhinho no lugar e rapi­damente acrescentou que ele também estava procurando a verda­de. O evangélico veio com uma outra pergunta.

— Qual o seu relacionamento com Jean-Baptiste, o padre católico que, no domingo passado, começou toda essa confusão ao afirmar que você era a reencarnação de Jesus Cristo?

Almeida demorou para responder:

— Meu relacionamento com Jean-Baptiste é o mesmo que te­nho com você e com todo mundo. A única diferença é que o padre ouviu só isso

Masterson achou melhor não levar o assunto adiante. Ele ti­nha um pressentimento de que Almeida iria jogar as informações de Martelli contra ele. Ele percebeu que errara ao subestimar aque­le jovem, por isso decidiu fazer a grande pergunta:

— Então, se você não é o anticristo, quem é você? Você é Je­sus que retornou? Domingo passado o padre Jean-Baptiste disse ao mundo que você era. Ele estava certo?

Por alguns instantes, o mundo inteiro ficou em silêncio. Bi­lhões de pessoas sentadas em frente a seus televisores aguardavam esperançosamente a resposta.

No Japão, onde era de manhã e Almeida era ouvido em ja­ponês, eles esperavam.

Na China, onde eles assistiam durante o café da manhã ou no almoço, dependendo do fuso horário, velhos e jovens aguar­davam sua resposta.

Na América do Norte, as cidades movimentadas estavam quietas enquanto o povo assistia.

Na América do Sul, crianças, pais e avós esperavam.

Na África, dos vilarejos tribais até as cidades modernas, pessoas olhavam umas para as outras e para as suas telas, saben­do que dentro de poucos segundos suas vidas estariam mudadas para sempre.

E, na Europa, nações e pessoas estavam unidas na espera.

A platéia em Louisville também estava silenciosa. Eles não eram mais os fanáticos de Masterson. Eles eram seres humanos que, com seus oito bilhões de irmãos e irmãs, aguardavam a resposta de Antônio Almeida.

Os segundos passavam lentamente. As câmeras de Bill Hanley focalizavam Almeida. Ele estava pronto. Ele sorriu e falou:

— É claro que esta não é a primeira vez que essa pergunta é feita. Até agora tenho respondido "Eu sou quem vocês pensam que sou". E é verdade. Se as pessoas pensam que sou Jesus, então eu sou. Se alguém me vê como Buda, Moisés ou Krishna, então eu sou. Para o Sr. Masterson — ele deu um largo sorriso olhando na direção do evangélico — eu era até o anticristo.

Em um gesto calculado, Almeida olhou diretamente na len­te da câmera e para o mundo. Do outro lado da lente, o mundo olhava de volta para ele.

— Eu não posso, e não quero, controlar o que acontece em seus corações ou mentes. Não vou me aproveitar de seus medos, ansiedades e inseguranças para manipular suas emoções e suas vi­das. Estou aqui para liberar vocês dos medos, ansiedades e inseguranças. Eu vim para devolver vocês a vocês mesmos.

Almeida piscou para a câmera. Ele sabia o que estava acon­tecendo nos lares, fábricas e escritórios no mundo. Ele sabia que as pessoas estavam dizendo "Ele ainda não respondeu à pergun­ta". Almeida pediu paciência, prometendo que contaria a eles quem exatamente ele era.

— Mas primeiro tenho que esclarecer algumas coisas.

A platéia do estúdio suspirava na expectativa. Oito bilhões de almas espalhadas na vibração terrestre estavam presas a cada palavra.


  • Para começo de conversa, Jesus é o mais perfeito espírito da luz. Ele encarnou na Terra para mostrar o caminho. Ele viveu entre os homens desta vibração para dar um exemplo. Ele é o Grande Mestre e encarnou como homem para mostrar ao homem como viver como homem. Ele era, verdadeiramente, o Filho do Homem, mostrando que era possível superar todas as tentações, vaidades e vibrações negativas do plano terrestre.

  • Mas ele não foi um juiz. Ele mesmo disse: "Eu não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo". Ele veio para mostrar a vocês o caminho de casa

  • Ele não morreu pelos pecados do homem, porque não_há pecados, apenas dívidas cármicas, e ninguém pode pagar essas dí­vidas por vocês.

  • Finalmente, Jesus foi o maior médium que já existiu. Ele viveu completamente em dois mundos diferentes: encarnado na Terra e na mais leve e mais altã vibração do mundo espiritual. Ele era uma ponte entre esses dois mundos. Como acham que ele fez todos aqueles peixes caírem na rede? — acrescentou brincando.

Masterson levantou sua mão e ousadamente explicou a Al­meida que na Bíblia Jesus especificamente disse que ele era o ca­minho e que só aqueles que o seguissem encontrariam a vida eter­na e a salvação.

Antônio deu um tapinha na mão de Masterson, como um professor confortando um aluno com dificuldade. Ele perguntou a Masterson se ele conhecia alguém que verdadeiramente seguia o que Jesus ensinava.

— Jesus disse aos espíritos terrestres para se libertarem de si mesmos, de suas ilusões, desejos e necessidades. E que, quando conseguissem isso, eles seriam salvos de si mesmos. Esse é o cami­nho do qual Jesus falou, e é isso que venho dizendo: não ouça o externo, ouça o interno. Sigam Cristo e não o mundo de glamour

ao seu redor. Quando ele proclamou "Eu sou o caminho", ele es­tava convocando os espíritos encarnados a seguirem seu exemplo e não a seguirem o mundo.

Almeida olhou incisivamente para Masterson, arremessando suas palavras no tele-evangélico.

— Mas ele nunca falou "Atirem-se no chão, aceitem-me como seu salvador pessoal e tudo ficará bem". Ele nunca ensinou isso porque a salvação não é tão fácil assim. A salvação requer mais do que palavras, mais do que orações e mais do que rituais elabo­rados. O desenvolvimento do espírito vem por meio de ações, pensamentos e realizações. E enfatizou — ele nunca pregou que aqueles que não acreditavam nele seriam punidos eternamente. Isso eu posso garantir.

Um Masterson sarcástico, tentando se recuperar, lembrou Almeida que ele ainda não tinha respondido à pergunta "Quem é você:

Pelo aparelhinho, Mary parabenizou o evangélico:

— Você está dando a volta por cima! Masterson ignorou-a.

Uma voz na platéia gritou:

— É isso mesmo, Almeida! Diga. Nós merecemos saber. O mundo inteiro está esperando.

Aquele espectador resumiu tudo que a platéia e o mundo queriam dizer.

Antônio percebeu a frustração e disse que eles iriam saber quem ele era.

— Só que, em vez de falar, eu vou mostrar. "Eles estão prontos", pensou Almeida.

Ele se levantou da cadeira e caminhou para o auditório. Ele antecipara a Hanley tudo que iria acontecer, por isso o diretor es­tava com suas câmeras a postos. Em sua cadeira, Bob Masterson observava apreensivamente enquanto Almeida, no centro do pal­co, conversava com o auditório:

— Eu falei que Jesus era um médium, uma espécie de ponte entre a vibração terrestre e todas as vibrações e freqüências da criação. Bem, eu também sou. Eu também ando entre este e to­dos os níveis de vibração. Eu vou usar esta habilidade para mos­trar a vocês exatamente quem sou.

Almeida apontou para o fundo do palco. Ele fez questão de lembrar que estavam no estúdio de Bob Masterson, usando os re­cursos de Bob Masterson.

— Eu acho que ninguém o acusaria de estar me ajudando, não é, Bob?

Masterson riu. O auditório também. Antônio pediu ao mun­do inteiro para prestar atenção no que iria acontecer.

— Eu falei da luz mais pura e da vibração mais alta. Não pos­so mostrar para vocês essa luz em sua forma mais pura, porque seus sentidos humanos ficariam sobrecarregados. Mas o que vocês vão ver dará alguma idéia dabeleza e da harmonia que está ao seu redor. Vou dar a vocês uma amostra do que os espera quando vo­cês passarem para o outro lado.

Um redemoinho de cores cercou o jovem e lentamente as cores se misturaram numa pulsante aura branca de energia pura.

— Eu sou quem vocês pensam que sou — declarou ele, en­quanto uma parte da aura branca lentamente se separou do todo.

— Eu sou o Buda do Oriente, que veio para mostrar o caminho da luz e da verdade interior. Assim como Jesus, eu ensinei a este mundo as lições do carma e da reencarnação.

O campo de energia ganhou a forma real e tridimensional de um jovem e sorridente Buda.

— Eu sou quem vocês pensam que sou — declarou nova­mente Antônio, enquanto uma outra parte do glorioso campo de força branco se separou e tomou um lugar ao lado de Buda. — Eu sou_Moisés, que trouxe para esta vibração terrestre os dez esclare­cimentos de Deus. Os espíritos que ensinei estavam começando seu processo de evolução. Eles necessitavam de orientações estri­tas para achar seu caminho.

Moisés, com uma barba branca ondulante, emergiu da inten­sa nuvem branca de ectoplasma.

— Eu sou quem vocês pensam que sou — repetiu Almeida en­quanto o deus hindu Krishna aparecia de uma outra bola de luz.

— Eu encarnei para mostrar a harmonia e a beleza da criação. Eu também ensinei a procurar a força divina que está dentro de cada um de vocês.

Ao redor do mundo as pessoas assistiam em silêncio às transfigurações manifestadas em suas telas de televisão. Instintivamen­te todos sabiam que o que estavam vendo era verdade e que An­tônio Almeida era tudo que eles pensavam, e muito mais.

No Estúdio 7, os olhos de Bob Masterson encheram-se de lá­grimas. Ele também sabia que as manifestações eram reais e sabia que Antônio era mesmo Jesus retornado.



  • Eu sou quem vocês pensam que sou. — O familiar refrão de Almeida foi ouvido novamente. Um jovem de pele morena emergiu do mais novo campo de energia. — Eu sou Maomé e sei como minhas palavras têm sido mal usadas e mal compreendidas. A Guerra Santa do Corão não é uma guerra de nação contra na­ção, mas é uma guerra interna da alma, uma guerra da luz con­tra o mundo.

  • Eu sou quem vocês pensam que sou — proferiu Antônio pela última vez, enquanto um homem de cabelos castanhos e com­pridos vestido com um manto branco apareceu do último campo do ectoplasma brilhante. — Eu sou Jesus. Eu voltei para esclare­cer o que está tão mal entendido. Eu voltei para ensinar a vocês novamente que somos um com o outro, porque todos nós somos filhos de Deus.

As câmeras de TV agora mostravam os cinco campos distin­tos de energia voltando para a aura branca que pulsava cercando o corpo de Antônio Almeida. Mais uma vez o redemoinho de co­res vibrantes e vivas circulou ao redor dele. Quando as cores se des­vaneceram, Almeida sorriu e disse:

— Aposto que nem Houdini poderia fazer melhor que isso. Não houve resposta da platéia.

Bob Masterson foi o primeiro a falar:

— Eu nunca vi nada igual em toda a minha vida. Eu posso garantir que o que aconteceu aqui foi real. Nenhuma projeção dos bastidores, espelhos ou efeitos eletrônicos especiais foram usa­dos. Eu estava sentado a apenas alguns metros de distância e eu sei o que vi.

Antônio, agora sentado, explicou que havia muito mais do que haviam visto.


  • Vocês viram cinco luzes Cada uma encarnou nesta terra em épocas diferentes e cada uma foi enviada para ensinar culturas díferentes. Pensem sobre isso e vocês entenderão que de onde viemos não existe religião. Religião não significa nada no outro fado do véu que vocês chamam de morte. E, na Nova Era que vem vindo, religião não significará nada na Terra.

  • Não haverá nenhum judeu, nenhum católico, nenhum pro­testante, nenhum muçulmano, nenhum hindu, nenhum budista. Nenhum cristão. Os rótulos que hoje dividem vocês, derreterão.

De repente, o som de três tiros irrompeu do auditório. Na platéia, Phil Martelli estava em pé, empunhando uma pistola semi-automática. Três balas partiram em direção a seu alvo: An­tônio Almeida.

Tudo aconteceu numa fração de segundo: primeiro o som dos tiros, o grito da platéia. Depois, num curtíssimo espaço de tempo, silêncio. E assombro. As três balas estavam paradas, suspensas no ar e no tempo, a alguns centímetros de Antônio.

Masterson, boquiaberto, estava tomado de incredulidade.

— Meu Deus, o que está acontecendo aqui? — E, olhando para Almeida, ele gritou: — Eu não tive nada a ver com isso, juro por tudo que é sagrado.

O jovem pregador, seu corpo apenas alguns centímetros na frente das três balas, calmamente disse a Masterson que acreditava nele. E, olhando para os três pequenos mísseis, ele sorriu e debochou:


  • Ainda nãojestá na hora. Tenho mais coisas para falar.

  • É um milagre! — gritou alguém do auditório.

Um coral de améns e aleluias emergiu da platéia. Antônio esperou o público se acalmar. Ainda em pé, em frente às três ba­las, ele explicou que o que tinha acontecido não era realmente um milagre.

— Milagres não podem ser explicados. Isto aqui eu posso ex­plicar. Mas, antes, eu tenho uma pergunta para o pistoleiro.

Phil Martelli já estava preso no chão pelos seguranças da CCM. Antônio pediu aos três agentes robustos para deixá-lo ir.

— Ele não vai a lugar algum — acrescentou.

Um Martelli atordoado, em pé e cercado pelos seguranças, es­perou pela pergunta de Almeida.

— Por quê? — foi tudo que Antônio falou.

Hanley tinha suas câmeras concentradas tanto em Martelli como em Almeida. Ele agora focalizava bem de perto o rosto de Martelli. Seus olhos varreram o chão enquanto sua voz tremia de medo quando ele começou a responder.

Estou pensando em fazer isso desde o dia em que Master­son mostrou sua fita para nós. Não havia nenhum outro jeito, eu não tinha escolha. Com você por aí, não haveria lugar e razão para tudo isto, para mim, para a CCM. Nós nos tornaríamos inú­teis. A organização não conseguiria sobreviver se as pessoas acreditassem em você. Por que eles mandariam doações para manter toda esta operação em pé? Por que se importariam com o que Bob Masterson tinha para dizer se o artigo real e genuíno estava por aqui? Não iríamos agüentar nem por seis meses. Eu sei, eu sou o diretor financeiro. Eu tentei matar você para salvar este lugar.

Hanley mudou o foco para Bob Masterson, que sentado res­pondeu a Martelli:

— Phil, eu também sei disso. Mas... eu sonhei com este ho­mem — confessou. — Naqueles sonhos eu fiquei sabendo quem ele era, mas eu ignorei. Eu entrei na de Mary, achando que pode­ríamos driblá-lo. Mas não dava. — Ele sorriu e, olhando para Al­meida, acrescentou: — Você não pode driblar a verdade. Ela tem o hábito de vir à tona mais cedo ou mais tarde.

As três balas permaneciam suspensas na frente de Almeida, que tinha Masterson à sua esquerda e Martelli à sua direita. Até aquele momento ele ficou ouvindo Martelli e Masterson sem in­terromper. Então ele falou, não para Martelli, nem para Master­son, mas para o mundo:

Meda Foi por causa do medo que este homem disparou os tiros. Medo de perder o que tinha, medo de perder seu empre­go, seu status. Medo de perder dinheiro.

Almeida suspirou e, pela primeira vez, denotou-se cansaço em sua voz.

— Foram feitas algumas citações bíblicas esta noite — lem­brou ele, olhando para Masterson. — Eu gostaria de fazer algumas também. Afinal eu tenho algum conhecimento do que está na Bíblia, especialmente o Novo Testamento — brincou. — Lembram quando falei que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico entrar no céu? Todos acha­ram que tenho alguma coisa contra o dinheiro.Bem, não há nada errado com o dinheiro. O dinheiro evoluiu nesta vibração porque as pessoas tiveram que fixar valores nas coisas.

- Não há nada de errado com isso. Como não há nada de errado com um carro de luxo, férias no Caribe ou roupas caras. Nada de errado mesmo. O que causa o espírito são os apegos. Os espíritos encarnados ficam tão presos à riqueza, ao status ou ao poder que seu Deus é o material não o espiritual. Ê por cau­sa disso que um homem apegado às coisas materiais não pode ir para uma vibração mais alta. Ao final das contas, ele se acorrentou a si mesmo, incapaz de ir para a frente e incapaz de desenvol­ver seu espírito.

Almeida caminhou em direção a Martelli. Ele fez um sinal para que os três seguranças que seguravam o diretor financeiro da CCM se afastassem.

— Meu irmão — disse Almeida, tocando gentilmente o bra­ço do homem —, você foi levado ao assassinato por causa de seu apego ao trabalho, ao status e ao dinheiro. Você está disposto a acabar com a minha vida por causa de suas correntes.

Martelli não disse nada, mas olhava desafiadoramente nos olhos do jovem pregador brasileiro. Antônio ignorou-o e caminhou até Masterson.

— O Sr. Masterson fundou a CCM trinta anos atrás. Seu ob­jetivo não era espalhar a palavra de Deus. O Sr. Masterson que­ria fama, poder e dinheiro. Ele me convidou esta noite para me destruir. Ele gravou secretamente minhas pregações no Brasil e man­dou o Sr. Martelli e — pegando o aparelho de ouvido novamen­te — a Srta. Fried fuçarem a minha vida, tentando achar um jei­to de me sujar.

Masterson, com a cabeça baixa, resmungou, concordando.

— Ele também — Almeida apontou para Masterson — es­tava apegado. Não só ao dinheiro, não só à fama, mas aos sonhos do poder. Ele queria ser uma eminência parda em nível mun­dial, e sua ambição propulsionou a ambição da Srta. Fried e do Sr. Martelli.

Uma voz vinda da platéia gritou alguma coisa sobre as balas, lembrando Almeida que ele havia prometido uma explicação so­bre o tal milagre.


  • Poucos minutos atrás, três balas foram disparadas da pis­tola semi-automática de Martelli contra mim. Todo mundo, no auditório e em casa, ouviu o som dos tiros. De repente, como se congeladas no espaço, as três balas pararam. Elas ainda estão sus­pensas, para todos verem.

  • Tudo tem a ver com o tempo — continuou ele, casualmen­te. — Na Terra vocês estão acostumados a ver o tempo como uma linha reta, com vocês no meio dessa linha e os acontecimentos ocor­rendo antes e depois.

Almeida desenhou um círculo no ar e pediu à platéia para ima­ginar o tempo como um círculo, ao invés de uma linha.

  • Agora, coloquem-se no centro do círculo do tempo: acontecimentos ocorrem ao redor de vocês, todos ao mesmo tempo. É diferente de uma linha, onde as coisas acontecem em seqüência.

  • No círculo do tempo, nada vem antes e nada vem depois. É assim que o tempo realmente é. Não há nada antes e nada de­pois. É tudo igual.

Bob Masterson, olhando para as balas, confessou que não ti­nha entendido.

— Eu sei que é difícil acompanhar — respondeu Antônio —, mas é assim mesmo. Não se esqueçam de que também sou um mé­dium. Eu vivo em todas as dimensões. Eu simplesmente mudeiji maneira como vocês viram a minha morte dentro do círculo do tempo. Eu alterei um ponto de referência, mas não mudei a conseqüência. A morte virá em breve.

A platéia chocada ficou apreensiva, com todos esperando pelo que o jovem pregador diria em seguida.

Almeida, posicionado entre Martelli e Masterson, estava pa­rado na frente das três balas. Pelo que parecia uma eternidade, An­tônio olhou para os dois homens. Finalmente, ele perguntou a Masterson:

— Quem você acha que sou?

— Eu não acho. Eu sei — foi a resposta de Masterson. — Você é quem você diz que é. Estou feliz que tenha podido usar es­tes estúdios e satélites para conversar com o mundo. Por todos es­ses anos, eu realmente fui um manipulador inescrupuloso, usan­do e distorcendo a religião para ganhar dinheiro e poder.

Masterson continuou, dizendo que Martelli estava certo, que toda a organização provavelmente iria fechar e que, de qualquer maneira, não havia mais necessidade da CCM.

Almeida olhou para Masterson explicando que nada aconte­cia por acaso ou por acidente.

— Estava previsto que você teria este canal, que você conseguiria todos esses recursos. Se isso não fosse verdade, não teria acontecido.

O tele-evangélico olhou longa e duramente para o jovem.

— O que você quer de mim?

Deixando Masterson de lado por um momento, Almeida virou-se para Martelli e também perguntou quem ele pensava que Almeida era. Martelli respondeu com amargura:

— Você é um bruxo, uma fraude, provavelmente o próprio de­mônio. Não acreditem numa palavra do que ele diz — gritou ele para o mundo.

Almeida voltou sua atenção para Masterson.

— As fitas — Almeida lembrou Masterson. — Exiba as fitas que Bill Hanley editou. Mostre-as várias vezes. Eu dei outras fitas a ele; algumas que eu mesmo fiz. Elas falam da vida, da morte, de escolhas e decisões que vocês, nesta esfera, encaram dia e noite. Ele sabe o que fazer. Faça cópias dessas fitas e ofereça-as para quem as quiser. Desta vez meu testamento não será escrito por outros, porque foi falado por mim mesmo.

O mensageiro disse ao mundo que seu tempo nesta vibração estava terminando.

— Haverá grandes mudanças nos próximos anos. A Terra progrediu e não será mais um mundo de sofrimentos e expiações. Ela está se preparando para se tornar um mundo de uma vibração mais alta.

— E claro que nem todos que vivem aqui agora estarão sin­tonizados com a nova vibração. Mas há outros lugares na criação para onde eles podem ir, porque há um lugar para todos na man-são de meu pai. A Terra vai mudar fisicamente também, porque não terá que sustentar tanta gente.

Masterson interveio:

— Fogo, enchentes, terremotos... o quê?

— Não se preocupem com isso, porque no final das contas você e cada espírito desta vibração retornará ao criador. Isso é tão certo quanto o nascer do sol de amanhã. E o plano. É assim que deve ser.

Bill Hanley, da sala de controle, não se conteve e perguntou a Almeida:



  • Por que você tem que morrer agora, quando o mundo fi­nalmente sabe quem você é? Você não pode ficar mais um pouco?

  • Eu preciso morrer pela mesma razão que morri da última vez. Eu tenho que mostrar a vocês, e desta vez será gravado, que não existe essa coisa chamada morte, porque vou conquistar a morte na frente do mundo todo.

Dito isso, as três balas, que até aquele momento estavam pa­radas no ar, retomaram sua veloz trajetória em direção a seu alvo. Uma delas atravessou o lado esquerdo de seu corpo, outra pene­trou no lado direito e a terceira cortou o plexo solar.

O corpo despencou no chão do estúdio, o sangue escorrendo livremente. Entretanto Almeida continuava ali em pé, exatamen­te no mesmo lugar em que seu corpo jazia morto.

— Esse foi meu corpo e esse foi meu sangue. Eu sou o espíri­to. Eu vivo. Vocês também. Para todo o sempre, uma vida sem fim. Peguem meu corpo físico e queimem-no. Ele não significa nada. Guardem na memória este corpo, meu corpo místico, porque ele é aquele que vive para sempre.

Enquanto o corpo espiritual lentamente desaparecia para uma outra dimensão, sua voz lembrava ao mundo:

— Isto que vocês estão vendo agora acontece todos os dias. É chamado morte: a passagem desta vida para a outra. E há tam­bém uma outra passagem que acontece todos os dias, chamada nascimento. Os dois são um e iguais. Vivam suas vidas na Terra com isso em suas mentes.

Bob Masterson instruiu sua equipe para exibir e reexibir o programa a noite inteira em rodízio com as três fitas de Hanley. No Brasil, Almeida tinha dado a Hanley inúmeras outras fitas que ele mesmo tinha feito. Estas também foram passados duran­te os dias e noites seguintes.

O padre Jean-Baptiste foi chamado para o Vaticano, onde ele, juntamente com o papa João XXIV, trabalhou com líderes re­ligiosos do mundo inteiro com o objetivo de, no prazo de um ano, unir todas as seitas, religiões, credos e fés da Terra numa só.

Mary Fried deixou a CCM, mas ela não tinha para onde ir. Sua habilidade em "dividir e conquistar" foi ficando cada vez menos requisitada à medida que os meses passavam. Líderes e partidos po­líticos pareciam estar menos interessados em ser reeleitos e mais interessados em resolver os problemas da fome, educação e direi­tos humanos.

Bill Hanley permaneceu com a CCM, que passou a chamar-se RTNE - Rede de Televisão da Nova Era. Ele produzia e dirigia pro­gramas de televisão que tratavam da nova espiritualidade que es­tava tomando conta do mundo. Um de seus projetos favoritos foi um filme sobre Antônio Almeida e seus quinze amigos brasileiros.

Phil Martelli, julgado e condenado pelo assassinato de Almei­da, foi ironicamente um dos primeiros beneficiados da nova espi­ritualidade. Os Estados Unidos suspenderam a pena de morte em todo o território nacional. Martelli e outros ex-condenados do corredor da morte estavam agora sob os cuidados de monges bu­distas. Esses monges viviam na prisão com os presos. Sabendo que "todos nós estamos ligados uns com os outros", os monges e auto­ridades penitenciárias decidiram que era hora de tratar a alma de um criminoso em vez de "trancá-lo e jogar as chaves fora".

Fernanda teve seu bebê, e Inês, com seu marido, continuou cuidando de Paulo.

E Bob Masterson?

Bem, ele continuou fazendo sua especialidade: reunindo-se com políticos e banqueiros de Wall Street. Mas a conversa agora era outra. Ele estava tentando convencer esses políticos a derrubar to­das as barreiras econômicas, sociais e culturais que existiam nos Estados Unidos e em todos os países do mundo.

— Nós todos estamos vivendo juntos neste mundo — exor­tava Bob.

Ele persuadia os banqueiros a encontrar caminhos para dis­tribuir a riqueza do mundo de uma maneira mais justa.

— Falem com suas corporações. Digam-lhes que não vamos precisar de um novo modelo de carro. Precisamos de estradas, de escolas e empregos. A humanidade só poderá progredir quando to­dos nós repartirmos as riquezas que este mundo tem para oferecer. E realmente um só mundo.

E é claro que Masterson continuou com seu programa diário de entrevistas, desta vez espalhando a mensagem de Antônio so­bre responsabilidade pessoal, escolha e unidade.

A Nova Era havia chegado.





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