Ricky medeiros



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João 19:2-3
"Sempre impeça a alma carnal de pegar o que ela quer, assim você pode atingir o desejo eterno e estar livre da prisão da escuridão."

Corão 79:40 -41

Mary Fried chegou a São Paulo numa terça-feira de manhã, e logo depois de um banho e troca de roupa no hotel, ela come­çou a trabalhar no caso de Antônio Almeida. Agora, quatro dias depois, o serviço estava terminado e ela estava pronta para falar com Bob Masterson. Cerca de uma hora antes, ela mandara, via Internet, um resumo e análise referentes à sua intensa pesquisa so­bre Antônio Almeida.

Em seu escritório alugado, Mary esperava ansiosamente o te­lefone tocar, e enquanto não tocava, ela lia e relia o relatório. E, mesmo depois de tê-lo lido oito vezes, ela ainda não sabia o que pensar sobre o jovem pregador brasileiro.

Mary começou seus grupos de trabalho sobre Almeida na quarta-feira, e com a ajuda de pesquisadores que falavam inglês ela mesma conduziu várias sessões. Um dado que a impressionou foi que mais de duas mil pessoas de todos os segmentos da sociedade brasileira participaram das discussões sobre Antônio Almeida. Mary fez uso de sofisticadas técnicas utilizadas para descobrir, por exemplo, por que as pessoas preferem uma marca de sa­bonete a outra. Durante quatro dias de trabalho, elaborou-se um retrato cada vez mais detalhado sobre o que as pessoas pensavam de Antônio Almeida. E, em quinze anos no ramo de pesquisa, Mary nunca tinha visto o tipo de resultado que ela acabara de mandar a seu chefe.

Mary estava perplexa. Ela sempre teve a habilidade de ver como pessoas^de níveis sociais distintos reagiam diferentemen­te ao mesmo fato, pessoa ou assunto. Ela contava com isso. Sua reputação tinha sido construída com base em seu talento de jo­gar um grupo contra o outro. "Divida e conquiste", ensinava a seus discípulos.

O caso Almeida, no entanto, não pôde ser atacado com tan­ta facilidade, porque quase todos os participantes, independente­mente de idade, sexo, religião, educação ou nível econômico, reagiam ao jovem pregador da mesma maneira. Mary Fried pas­sou desde as onze horas da noite de sexta até as dez horas da ma­nhã de sábado conferindo os resultados dos duzentos grupos, e daquela montanha de papel uma constatação se sobressaía: as pes-soas, quando ouviam Almeida falar, se envolviam com ele. Cer­ca de oitenta por cento dos participantes expressaram uma opi­nião mais do que favorável sobre o pregador depois de ouvi-lo.

Ela estava abismada com o fato de católicos conservadores, judeus ortodoxos, batistas, protestantes evangélicos e até mesmo ateus declarados concordarem: eles gostavam de Antonio Almeida.

Mary sabia que precisava achar um gancho para dar sentido àquele absurdo. Masterson estava em pânico, e sua equipe em Louisville informara que Bob já havia começado a agir. Contaram para ela sobre a gravação do Clube de Cristo da quarta-feira, quan­do, mesmo não citando Almeida por nome, Masterson lançou os primeiros tiros contra o pregador brasileiro. O programa estava es­calado para ir ao ar na segunda-feira, dali a dois dias. Mary sabia que Bob estava começando a posicionar a artilharia, e ela também sabia que Masterson sozinho era um canhão solto.

Sua equipe, que a acompanhava desde os tempos do Partido Republicano, era leal a ela e não à CCM, e colocaram-na a par da idéia de Bill Hanley de levar Almeida a Louisville, para debater com Masterson.

"Hanley é um bundão...", pensou. "Mas essa idéia até que tem um certo mérito."

Mary então varou a madrugada sem dormir, massageando e floreando seu relatório. Sua intenção era encontrar uma isca que Masterson pudesse morder, porque ela queria assumir o controle total do Projeto A A.

Assuste-o, depois o acaricie — repetiu Mary dezenas e dezenas de vezes pela manhã. "Assuste-o com o relatório e depois o acaricie ao telefone" era a estratégia que ela adotara. Mary tinha certeza de que conseguiria o controle do projeto.

— Afinal — disse ela sorrindo para si mesma — não sou a ma­nipuladora do manipulador?

Enquanto esperava o telefone tocar, Mary fazia o que sempre costumava fazer antes de entregar um relatório: lia-o como se fos­se Masterson lendo-o pela primeira vez.


PROJETO DE PESQUISA SOBRE ANTÔNIO ALMEIDA

Antônio Almeida é um brasileiro de vinte e nove anos de idade que ultimamente vem atraindo a atenção no Brasil como um pregador. Algumas pessoas vão até mais longe, chamando-o de Jesus da Nova Era. Por enquanto essa atenção está concentrada no Brasil, porém não de­morará muito até que ele atraia interesse de fora. Até hoje ninguém se deu conta do fenômeno da língua, mas com certeza isso não vai durar muito.

("Basta que ele abra a boca quando um estrangeiro estiver ouvindo", refletiu Mary. "E isso pode acontecer a qualquer momento.")

Neste relatório estão os pontos chaves que surgiram depois de conduzir grupos de discussão com duas mil pes­soas de todos os níveis socioeconómicos e religiosos exis­tentes no Brasil. Esses grupos foram compostos de católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, espí­ritas e até ateus.

("Vou começar mostrando a ele que fiz minha lição de casa", pensou Mary.)

Devo avisar que o que vou relatar precisa ser cober­to de extremo sigilo, porque, em todos os meus anos como pesquisadora profissional, nunca vi resultados se­melhantes aos apontados nesta pesquisa.

(Mary orgulhava-se desta última frase, porque transmi­tia para Bob um sentimento de importância e urgência. Ela podia ver Masterson arqueando as sobrancelhas ao ler isso.)

Nós usamos uma técnica especial, chamada "An­tes e depois". Os "antes" são pessoas que nunca ou­viram falar de Almeida. O líder da discussão leu uma passagem de um de seus sermões. Os "depois" são as mesmas pessoas entrevistadas depois que o líder do gru­po mostrou uma fita em que Almeida fala as mesmas pa­lavras que o líder havia lido. Os resultados foram, no mí­nimo, interessantes.

("Eu sei que Bob gosta desses truques de pesquisa. Ele vai vibrar.")
RESULTADOS
OS ANTES

O moderador leu:

"O pecado não existe, nem o chamado certo e erra­do. A vibração terrestre criou esses conceitos porque pes­soas precisam de sinalizações morais em seu caminho na vida. Mas como pode existir um certo ou errado se exis­te causa e efeito, e tudo é resultado do que veio antes? Eu pergunto: como pode haver o errado se nada aconte­ce por acaso? Então não existe essa coisa de escolha er­rada ou ação certa. O que existem são ações e as intenções por trás dessas ações. Alguns atos e intenções vêm de apegos as vibrações de poder, riqueza, ego, vaidade e status. Logicamente as ações que fluem desses apegos têm conseqüência, assim como as ações e intenções que vêm do amor, do desprendimento e da humildade têm as suas conseqüências. Ação resulta em reação, e o pecado é uma palavra obsoleta quando você entende essa lei cármica."

("Masterson vai dar pinotes quando ler isto.") Agora, aqui estão algumas reações dos ANTES: "Quem disse isso é um idiota. Ensinaram-me o que é certo e o que é errado. Pecado é errado. E uma ofensa con­tra Deus...", dito por uma dona de ema de trinta e três anos, classe média.

"Imagine o que aconteceria se as pessoas fizessem o que bem entendem... Seria o caos. Quem disse isso está sugerindo que somos livres para fazer o que quisermos", executivo de quarenta e dois anos, classe média alta.

"Meu marido bebe muito. Nós vamos à igreja evan­gélica, onde o pastor grita com ele. Pelo menos ele o as­susta o suficiente para fazê-lo parar um pouco de vez em quando. Meu marido é muito ignorante e estúpido para saber o que fazer por si mesmo", empregada doméstica, classe baixa.

Depois de um intervalo de aproximadamente vinte minutos, passamos a fita em que Almeida fala exatamen­te as mesmas palavras.



("Por falar nisso, eu estava na sala. E ouvi a fita em in­glês . Graças a Deus todos os participantes eram brasileiros.")

Aqui está agora o que essas mesmas pessoas disseram depois de ouvir Almeida:


OS DEPOIS

"Sempre me ensinaram que não havia pretos ou bran­cos na vida, mas todos somos diferentes, e fazemos as coisas por diferentes razões. Eu me divorciei alguns anos atrás porque meu marido batia em mim e em meus filhos. A Bíblia diz que sou uma pecadora porque me casei de novo. Acho que seria um pecado muito maior se eu fi­casse com aquele homem, deixando-o bater em mim e em minhas crianças", dona de casa, trinta e três anos de idade, classe média.

"O cara está certo. As pessoas fazem o que querem, pecado ou não pecado. Essa coisa de ameaçar você com pecado não funciona. No entanto, se você sabe que é responsável por tudo que você fizer, até mesmo pelo que você pensa, bem, isso é uma outra história. Ele está fa­zendo com que eu reavalie como e por que eu ajo", exe-cutivo de quarenta e dois anos, classe média alta.

"Como eu disse, meu marido pára de beber durante um tempinho, depois que o pastor de nossa igreja dá um susto nele. Depois começa de novo. Talvez ficar assustan­do não funcione tão bem, afinal de contas", empregada doméstica, classe baixa. Um outro exemplo: Citação de Almeida lida pelo moderador:

"Existe uma ordem no universo, como existe ordem e razão para a vida. A reencarnação faz parte dessa ordem e do plano divino. Nossos espíritos aprendem através de cada ciclo de morte e renascimento. Cada vida é diferente, e, a cada vida, surgem novas experiências para o espírito provar. Por exemplo: você está aqui para.aprender com a raiva, mas não para agir com raiva.

- Você está na Terra para aprender com o ódio mas não para ser odioso. Você está aqui para aprender com o ciúme mas não para ser ciumento. Você está aqui para aprender com


o medo, mas não para ser medroso, como também você está aqui para aprender a usar o poder; a usar o dinheiro, e não ser possuído pelo poder; a usar o dinheiro, e não ser escra­vo do dinheiro; e a aprender com a matéria, mas não ser da matéria. Porém espíritos encarnados se esquecem de sua origem divina e se apegam às ilusões da vibracão terrestre. É por causa desses apegos que vocês estão constantemente renascendo aqui. Desprendam-se e descu­Brant o que vocês realmente são. O Espírito Universal — ou Deus, se é assim que querem chamá-lo — está dentro de cada um e em todos vocês. Nós somos criados à sua imagem e semelhança."
OS ANTES

"O, meu! De novo esse lero-lero de Nova Era? Esse papo todo é complicado demais para eu entender", estudante , vinte e três anos, católico.

"Como pode Deus estar dentro de um assassino, um estuprador, um bandido? Quem disse isso não vive no mundo real. Parece algum monge budista vivendo no topo de uma montanha", contadora, trinta e nove anos, sem preferência religiosa.

"Nós nascemos apenas uma vez, depois morremos. Assim diz a Bíblia", senhora de cinqüenta e cinco anos de idade, batista.


OS DEPOIS

"Ninguém é santo, especialmente se você ouve o que eles falam na igreja. Talvez ele esteja certo: nenhum de nós faz a coisa certa na primeira vez, ou na segunda ou na terceira, porque nós nunca pensamos realmente no que estamos fazendo aqui", estudante, vinte e três anos, católico.

"Eu sempre pensei que Deus não tivesse nada a ver com a minha vida e pensei que as coisas aconteciam por­que aconteciam. Talvez esses assassinos e estupradores, dos quais eu falei antes, bem, eu não sei. Se eles são uma parte da criação da vida, assim como eu, deve haver uma razão por trás de tudo que acontece", contadora, trinta e nove anos, sem preferência religiosa.

"Tenho tentado viver uma vida conforme a minha re­ligião. Mas e os que pertencem a outras religiões? Eu sou melhor que eles? Eu acho que não. Talvez, só talvez, esse garoto Almeida tenha razão: cada vez que a gente vem, a gente aprende alguma coisa diferente", senhora de cin­qüenta e cinco anos de idade, batista.


ANÁLISE

Eu jamais vi algo parecido antes. Parece que Almei­da provoca um curto-circuito nos preconceitos, idéias e crenças de cada pessoa. Examine cuidadosamente o que essas pessoas disseram e verá que todos ouviram o que que­rem ouvir. Eles personalizam os ensinamentos dele. Isso acontece sem exceções, desde os católicos mais tradicio­nais, até judeus ortodoxos e os crentes mais radicais.



("Bob vai remoer isso um pouco.")
O telefone tocou. Mary sabia que era Masterson ligando de Louisville. Ao pegar o telefone e ouvir o sinal característico de li­gação internacional, sua intuição se mostrou correta: o chefe es­tava no outro lado da linha.

— Oi, como está São Paulo? — perguntou uma voz cansada. — Li seu relatório há mais ou menos dez minutos. Então, o que fazemos agora? Pelo que você disse, esse cara vai converter o mun­do em poucos dias — disse Masterson com seriedade.

Mary estava preparada. Ela havia ensaiado essa conversa du­rante as últimas horas. Agora era sua chance de tomar conta da situação e arquitetar todo o ataque contra Antônio Almeida.

— Oi, Bob. Talvez ele demore um pouco mais, se depender da gente.

Ela estava dando à sua voz o tom mais alegre e confiante pos­sível. O duelo com Masterson iria começar agora.

— Bill Hanley quer trazê-lo até Louisville para um debate ao vivo comigo. O que você acha?

Mary sabia que ele estava a fim de jogá-la contra Hanley. Essa era a maneira pela qual Masterson formava suas opiniões e chegava às suas decisões. Ela disse que eles poderiam conversar sobre isso em seguida, mas antes havia algumas coisas que ela gos­taria de discutir com ele.

— OK, Mary, o que você manda?

Ela respirou fundo e começou.

Bob, olhe, nós temos que ser objetivos. Na segunda-feira passada apenas cinco dias atrás, você chamou a gente em seu escritório e passou uma fita sobre esse desconhecido brasileiro chamado Antônio Almeida. Todos nós achamos esse cara um maluco. Nossas opiniões não foram mudadas por qualquer coisa que ele disse.


Pelo menos a minha não foi — acrescentou sarcasticamente.

Pode continuar. Estou acompanhando.

Mas ficamos intrigados. Como podíamos entender cada palavra de um homem que falava numa língua que não era a nossa?
Em breve, esse mistério se tornará público, e, quando isso ocorrer, bem, eu não posso imaginar o que vai acontecer.

— Hanley falou a mesma coisa — cortou Bob.

Mary odiava ser interrompida. Isso quebrava a linha de racio­cínio que ela tentava criar. Porém uma coisa estava ficando bem clara: ele estava levando a idéia de Hanley a sério. Ela poderia usar isso para conseguir o que queria.


  • E ele está cem por cento com a razão. Você sabe disso e eu sei disso. É ridículo tentarmos enganar a nós mesmos. Mas essa não é a questão — considerou ela, tentando trazer a conversa de volta para onde ela queria.

  • Aonde você quer chegar, Mary? O fato é que o homem é entendido por qualquer um que o escute. Eu gostaria de saber como ele faz isso. É alguma espécie de experiência paranormal? É Deus? È o demônio? Eu posso ouvir as perguntas agora.

O que Mary ouvia era um misto de frustração e medo na voz de Masterson. Ela o deixou continuar:

  • Você mesma foi para o Brasil à caça dele. Você me man­dou um relatório dizendo que quem o ouve vira um discípulo. En­tão, Mary, qual é exatamente a sua?

  • A minha, Bob, é simples: depois de ouvir esse cara em seu escritório e aqui no Brasil, eu não virei um apóstolo dele. Nem você, nem Hanley, nem Martelli. Nem vinte por cento das pes­soas pesquisadas.

  • E daí? Eu, você, Martelli e Hanley. Quatro pessoas com in­teresses próprios para não acreditar em uma palavra que o cara diz.

Esse era o momento de Mary dar sua cartada. Ele estava pronto e ela também.

— Exatamente. Você matou a charada. Existe um jeito de combater esse cara. Eu sei que há. Ouça-me.

Masterson suspirou. Era um suspiro que podia ser ouvido atra­vés da ligação de oito mil quilômetros de distância.


  • OK, vá em frente.

  • Todo mundo é uma mala cheia de interesses. Ninguém gosta de admitir, mas nós somos. De uma maneira que desconhe­ço, Almeida passa por cima dos interesses individuais. É como se por um breve momento esses interesses entrassem em curto-cir­cuito, deixando Almeida passar. — Mary fez uma pausa, dando a Masterson uma chance de participar.

  • OK, estou acompanhando.

  • A pesquisa mostra que, para oitenta por cento das pessoas nos grupos, o curto-circuito aconteceu. Mas e os outros vinte por cento? — disse ela em tom provocador.

  • Vinte por cento não é exatamente uma maioria absoluta, não é, Mary?

A voz de Masterson era puro sarcasmo. Mary decidiu ignorar o gracejo, dizendo-lhe que não importava qual era a porcentagem.

— O que importa é que essas pessoas, e eu nos incluo, bloquearam Almeida. E eu acho que descobri por quê. — Ela parou dramaticamente e continuou: — Preste bem atenção, eu fiz isso meio de improviso. Fiquei acordada a noite inteira comparando e examinando tudo cuidadosamente e fazendo anotações. E acho que temos o fio da meada que estamos procurando. E, mais impor­tante ainda, estou encontrando um gancho para usar essa infor­mação nos outros oitenta por cento.

Acima do ruído da ligação via satélite, Mary ouviu Master­son engolir em seco. Ele mordeu a isca, ela pensou.

— Explique — foi tudo que ele respondeu. Então ela explicou.

— Você já percebeu, chefe: interesses ou, como diria o Sr. Al­meida, "apegos". Mas eu explicarei. Conforme eu escrevi, nossos grupos de pesquisa foram equilibrados para incluir todos os níveis sociais, econômicos e escolares do Brasil. Tenho certeza de que você sabe que este é um país de grandes contrastes. Ele tem uma peque­na elite rica e instruída. Sua classe média está lutando para man­ter-se em pé e é dividida em classe média alta, média e baixa. Os brasileiros são muito conscientes sobre níveis sociais. Bem no fi­nal da linha você tem os pobres e os miseravelmente pobres, cuja pobreza é tão baixa que não pode ser medida.

Após fazer essa sucinta descrição da sociedade brasileira, Mary se considerou pronta para entregar a Masterson suas conclusões sobre Antônio Almeida.



  • Depois de conferir os resultados, cheguei a uma conclusão interessante e descobri o que os vinte por cento têm em comum. Agora eu sei como quebrar o cara, mas há uma ressalva.

  • E qual seria essa ressalva? Não! — corrigiu ele rapidamen­te. — Antes que você me conte o final, diga-me o resto. Ponha-me a par de tudo.

Mary, com muito gosto, obedeceu. Ela sabia que estava com o controle da situação.

— Eu sempre disse: procure os denominadores incomuns para separaras pessoas. Bem, desta vez eu tive que achar um denomi­nador comum. E achei.

Ela disse a Masterson, em tons frios, que os vinte por cento eram compostos de indivíduos extremamente ricos e instruídos e de sujeitos miseravelmente pobres.

— Eu tenho um sentimento forte do que está acontecendo aqui — disse ela.

Mary explicou que ela nunca vira dois grupos de tamanha diferença reagir da mesma maneira a algo. Mas, acrescentou, ela sabia por quê.

— A elite dos instruídos vive num mundo isolado. Para eles a vida é boa. Eles são os "mestres do universo". Por que mudar? Por que arriscar? Por que desistir daquilo que eles têm? Para citar mais uma vez nosso amigo Almeida, são apegados, ou, como você percebeu, têm interesses próprios.

Mary esperou o efeito de suas palavras. Então continuou:

— Os miseravelmente pobres daqui são iguais aos nossos nos

Estados Unidos: eles não têm nada além de miséria, doença e ignorância. Eles têm medo de tudo. Eles também, de uma forma perversa, são enraizados em seu modo de vida. Eles temem mudan­ças e também têm seus interesses próprios.

Masterson, começando a entrever a luz fraca no fim do túnel, perguntou a Mary o que tudo aquilo significava.

— Medo, Bob. Tudo se resume ao medo. Os ultra-ricos têm medo quando Almeida fala "Desistam de tudo porque o que vo-cèTtllnnão significa nada". Os miseravelmente pobres, bem, eles têm medo de quase tudo. Medo, Bob, é o denominador comum nesses dois grupos tão incomuns...

Mary então voltou ao assunto de Bill Hanley.

— A idéia dele não é "meia-sola" como parece. Imagine: você contra Almeida, mas com um porém: eu lhe dou as armas. Nós usa-remosoj sermões dele contra ele mesmo e assustaremos o mundo inteiro. Você vai representar os interesses, ou os "apegos" da so-ciedade. Almeida será o agitador, o revolucionário, o cara que quer mudar nosso modo de viver. O Sr. Almeida estará acabado, mesmo que ele seja Cristo retornando, ou a luz de Buda ou Mao­mé vindo da montanha. Almeida vai descobrir logo logo que está lidando com pessoas desta terra, e nós podemos fazê-los se apavo­rar com o que Antônio Almeida representa. Eu sei que posso con­segui-lo, Bob. Eu nunca estive mais certa em toda a minha vida.

Masterson contou-lhe sobre o programa que iria ao ar na se­gunda-feira.



  • Eu não mencionei Almeida, mas com certeza armei o cir­co contra ele.

  • Não transmita esse programa. Nós temos que convencer Almeida a vir. Se eu fosse ele e visse aquele programa, eu não chegaria nem a mil quilômetros de você.

Masterson concordou e perguntou a ela quando voltaria para os Estados Unidos. Mary respondeu que tinha reserva saindo de São Paulo naquela noite e deveria estar de volta a Louisville no dia seguinte à tarde. Ela perguntou se poderia começar a trabalhar no programa de debates.

— Primeiro, Almeida tem que aceitar o convite. — Master­son riu e refletiu: — Acho que Bill Hanley é o cara indicado para convencê-lo. Vou ligar para ele agora.

Mary concordou e disse que precisava ter acesso a qualquer informação que Masterson tivesse ou que viesse a ter de Almei­da, por menor que fosse.

Com o que eu tenho mais o que você tem, acho que podemos detoná-lo — proclamou ela confiante e entusiasticamente.

— Eu tenho um monte de material que Hanley juntou para mim. Estou lendo desde ontem. Engraçado... Almeida não é tão convincente no papel. Você tem certeza de que essa é uma gran­de idéia, colocá-lo no ar?

Mary solenemente respondeu:

— Nós não temos muita escolha. Com ele perto de você, nós podemos derrubar qualquer coisa que ele diga. Mas, quando o mi­lagre da língua for percebido, nós estaremos correndo atrás do prejuízo. Temos que acabar com ele bem depressa.

Masterson lembrou-se de uma coisa que Bill Hanley dissera poucos dias atrás. Ele a repetiu para Mary.

— Hanley disse quase a mesma coisa. Mas também disse que, se Almeida for real, não fará a menor diferença o que ten­tarmos fazer.

Mary riu e disse que discordava de Hanley.

— E daí? Se ele for mesmo real, fará uma grande diferença, sim. Lembra-se do que fizeram com aquele outro Jesus?

Masterson não riu. Disse-lhe para encontrar-se com ele no dia seguinte às sete da noite para começarem a planejar o grande due­lo da televisão.



Capítulo 19
Primeiras horas da madrugada de domingo, em algum lugar sobre o Atlântico, ano 2015
HANLEY FAZ UMA VIAGEM

Separados por quilômetros e pela escuridão, dois aviões pas­saram um pelo outro sobre o Oceano Atlântico. Um ia para o norte, de São Paulo, Brasil para Miami, Estados Unidos. Mary Fried estava nesse avião, digitando em seu laptop sob a luz fraca de sua poltrona na primeira classe. Ela estava voltando para Louis-ville, onde assumiria o comando das tentativas de Bob Masterson para destruir Antônio Almeida.

No outro avião, indo ao sul, estava Bill Hanley saindo de Miami com destino a São Paulo. Ele tinha acabado de acertar seu relógio de pulso para o horário padrão brasileiro, que estava duas horas à frente de Louisville, onde era uma hora da madrugada de domingo. Ele chegaria a São Paulo em cinco horas, ou seja, às oito horas da manhã no horário local.

Ele sabia que Mary estava voando de volta para Louisville. Mas­terson informara-o sobre o relatório dela e como ela concordava com a idéia de que trazer Antônio Almeida até os estúdios da CCM em Kentucky seria a melhor e talvez única chance de aca­bar com essa ameaça. Hanley estava aliviado por Masterson ter can­celado o Clube de Cristo que iria ao ar na segunda-feira.

— Se aquele programa fosse transmitido, seria impossível convencer Almeida a vir para Louisville — dissera-lhe Master­son, como se a idéia toda de levar Antônio Almeida aos Estados Unidos fosse dele.

Hanley achava que não seria difícil levar Almeida. Ele se lembrou das fitas e dos olhos que penetravam as videocâmeras es­condidas. Almeida sabia o tempo todo que estava sendo gravado.

"E ele sabe que estou voando oito mil quilômetros para vê-lo e sabe também por que eu estou indo", pensou Hanley enquanto fe­chava os olhos num esforço para conseguir um pouco de descanso.

Hanley pensou em Mary Fried, lá na escuridão, no avião voando ao norte. Ele sabia que sua mente febril estava traçando cada ângulo e desvio no drama que estava prestes a começar. Bill Hanley sabia que no final nenhum truque dela ou de Bob Mas­terson faria diferença, porque ele iria contar tudo a Almeida. De­pois de assistir e ouvir a oito horas de vídeo, ele sabia quem era Antônio Almeida. E ele, Bill Hanley, iria entregar ao pregador bra­sileiro o maior palco eletrônico do mundo: a rede da CCM, cobrin­do quase oitenta por cento do planeta.

O sono veio fácil para Bill Hanley enquanto o Boeing se di­rigia a seu destino. O escritório brasileiro da CCM comunicou-lhe que Antônio Almeida estaria esperando por ele às duas da tarde, horário local. Hanley descansou. Ele sabia que o encontro seria bem-sucedido e que pela primeira vez em muitos anos ele estaria seguindo sua consciência, porque ele, o cético, o cínico, o agnós­tico, finalmente encontrara algo em que acreditar.

O avião aterrissou no Aeroporto Internacional de Guarulhos exatamente às oito horas e cinco minutos. Após passar pela alfân­dega e pela Imigração, Hanley procurou por Emílio Araújo no terminal lotado.

Seus olhos captaram uma tabuleta branca, onde o nome "Han­ley" tinha sido rabiscado. Ele caminhou até o homem que segu­rava a tabuleta e se apresentou.

— Oi, sou Araújo — respondeu o homem baixo e careca. — O Sr. Masterson disse-me que o senhor estava vindo. Está tudo ar­ranjado. Eu pessoalmente vou levá-lo para seu hotel e depois va­mos visitar o Sr. Almeida.

Araújo pegou a maleta de Hanley enquanto se encaminha­vam para o estacionamento do aeroporto.


  • Desculpe tê-lo tirado da cama tão cedo num domingo, mas nós resolvemos essa viagem na última hora.

  • Sim, eu sei. O Sr. Masterson telefonou ontem e contou que o senhor viria para se encontrar com o Sr. Almeida. Ele não me falou muito mais do que isso.

Pela maneira que Araújo terminou a frase, Hanley deduziu que o gerente do escritório estava esperando uma explicação. Mas não haveria nenhuma.

Dirigiram-se para o hotel, preenchendo o tempo com uma con­versa corriqueira. Depois de fazer o check-in, Hanley pediu o en­dereço de Antônio Almeida, dizendo que iria tomar um banho, comer alguma coisa e sair para seu encontro às duas.

Araújo protestou, dizendo que ele o levaria pessoalmente para ver Almeida.

— Eu não poderia deixá-lo ir desacompanhado — disse Araújo. — O Sr. Masterson jamais me perdoaria se eu o deixasse sozi­nho nesta cidade enorme.

Hanley cortou as objeções do gerente.

— Tenho certeza de que o hotel pode arranjar um motoris­ta. Almeida fala inglês, e não sei quanto tempo vou demorar. Eu me sentiria melhor se fosse sozinho — afirmou, acrescentando com um sorriso: — Tenho certeza de que o senhor tem coisas me­lhores para fazer num domingo do que ser meu motorista.

Araújo, sem graça, deu a Hanley o endereço.

— Se o senhor mudar de idéia, escrevi o número do telefo­ne de minha casa atrás.

— Manterei contato — mentiu Hanley.

Subindo no elevador para seu quarto no décimo-quinto an­dar, ele olhou para o relógio: eram quase onze horas da manhã. Logo ele estaria a caminho para ver Antônio Almeida.



Capítulo 20

Domingo, ano 2015 O ANÚNCIO




"Estai vós também apercebidos; porque, numa hora em que não pen-seis, virá o Filho do Homem."

Lucas 12:40
"Deixe-nos concordância com nosso próprio povo, e concordância com os que são estranhos para nós. Assim, Ashvins, cria entre nós e os estranhos uma unidade de orações."

Atharva Veda Samhita 7.52.1


A Missa Maior estava poeticamente rica graças ao ritual e ao simbolismo da Igreja Católica, e os bancos estavam ocupados por mais de quinhentos paroquianos e membros da elite social e po­lítica de Nova York. As seis câmeras de televisão transmitindo a missa eram discretas, assim como os repórteres que esperavam do lado de fora da igreja. Eles tinham sido avisados de que o arcebis­po, o padre Jean e celebridades locais iriam desfilar diante de suas câmeras e canetas quando a missa terminasse.

Jean estava orgulhosamente sentado numa cadeira de espal­dar alto à direita do altar observando seu rebanho composto pe­los pobres, discriminados e esquecidos da América. Seus olhos percorriam sua igreja humilde, sabendo que o Espírito de Cristo estava lá.

Logo ele iria invocar esse espírito, porque, em alguns minutos, Jean faria o sermão que ele havia escrito, reescrito e en­saiado a semana toda. O padre não tinha certeza de qual seria a reação da congregação. Ele nem tinha certeza se pisaria naquela igreja novamente. A única certeza que ele tinha era de que aque­le sermão teria de ser feito nesse dia.

— Lembre se disso, padre — avisou a voz invisível. — Hoje você vai preparar o caminho para ele. Ele está aqui e você preci­sa espalhar a boa notícia. Diga que ele não virá em carruagem de fogo, ele não andará através das nuvens com legiões de anjos. Diga-lhes que ele anda nesta terra como eles andam.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo arcebispo, que, terminando seu próprio sermão, fez-lhe um sinal pedindo-lhe que subisse até o púlpito. O padre negro levantou-se de sua cadeira e foi aplaudido calorosamente por sua congregação. Mas ele não caminhou para o púlpito onde o arcebispo o esperava, e foi para o meio da fileira da comunhão, fazendo um sinal para a igreja lo­tada abafar seus aplausos.

— Bom dia e bem-vindos à Igreja de São Paulo. Hoje há mui­tos rostos conhecidos aqui, rostos que vejo semana após semana e mês após mês. Vocês — disse, gesticulando para a platéia mas olhando para as câmeras de televisão — são os paroquianos da Igre­ja de São Paulo.

E então, sorrindo para as câmeras, continuou:

— E bom dia, boa tarde ou boa noite para aqueles que estão no outro lado das câmeras, em suas casas, compartilhando conos­co um momento muito especial num dia muito especial. Ao nos­so novo Santo Padre em Roma, assistindo à nossa celebração, eu digo: seja bem-vindo à sua Igreja de São Paulo e que um dia Vos­sa Santidade possa andar por essas alas com o povo do Harlem.

Jean fez uma pausa e lentamente olhou ao redor da igreja. Ele respirou fundo e continuou:

— Sem sombra de dúvida, hoje é um dia extraordinário. Da­qui a pouco vou compartilhar com vocês uma grande notícia. Te­nho certeza de que alguns, se não muitos de vocês, vão achar essa notícia difícil de acreditar. E, quando terminar, muitos de vo­cês aqui e em casa vão achar que sou um herético, blasfemo ou louco. Quero dizer a vocês que eu não sou nada disso. Quando o dia de hoje chegar ao seu fim, serei exatamente o mesmo que era no começo deste dia: um padre de quarenta e cinco anos, que veio para a América vinte anos atrás para espalhar a pala­vra de Deus.

Murmúrios cheios de expectativa soavam pela igreja. Jean, es­perando os sussurros cessarem, procurou rostos de paroquianos que ele conhecia bem. E nesses rostos ele encontrou o apoio de que precisava. Ele olhou para o arcebispo, que ainda estava no púl­pito. No rosto dele também havia um sorriso, porém era um sor­riso nervoso e ansioso. Jean, cheio de confiança, encarou direta­mente o olho eletrônico da câmera de televisão e falou aos milhões de espectadores espalhados no mundo.

— Mas, antes da notícia, eu peço a vocês aqui e em casa que me acompanhem numa oração especial. É uma oração sem palavras, na qual não pedimos nada além de paz para nós mesmos.

O padre pediu a um dos coroinhas para trazer a cadeira que ele estava usando alguns minutos atrás e comentou que ele pre­feriria fazer essa oração sentado.

Até mesmo o arcebispo desceu e ocupou uma cadeira ao lado do altar.

Murmúrios excitados novamente se espalharam pela igreja.

— Nós vamos tentar uma coisa diferente — disse Jean acomodando-se em sua cadeira. — Fechem os olhos. Não façam nada. Não pensem em nada. Simplesmente ouçam e relaxem. Relaxem e respirem. Relaxem quando inspiram, inalando a energia da vida. Expirem e sintam o ar limpando seu corpo. Inalem e saibam que, sem essa energia, que chamamos de oxigênio, nossos corpos físi­cos morreriam.

O som de quinhentas pessoas respirando juntas ecoava sua­vemente pela igreja. Até ali as câmeras de televisão somente focalizavam o padre, mas nesse momento percorreram toda a igreja, transmitindo imagens de quinhentas pessoas com seus olhos fechados, respirando juntas. As câmeras voltaram a foca­lizar o arcebispo, que também estava silenciosamente inspiran­do e expirando.

O padre prosseguiu num tom de voz baixo e suave, levando a congregação um passo adiante na oração.

— Inspire e pense na pessoa sentada a seu lado. Pense na pes­soa à sua frente e naquela atrás de você. Ele ou ela também está respirando, dividindo o mesmo ar a mesma energia.

Expire, e os pensamentos que você tem sobre essas pessoas vão se juntar aos pensamentos que elas têm sobre você. Respire fundo, sabendo que você está ligado a todos por essa energia de que precisamos para viver. Expire, sabendo que você está conectado cada um através dos pensamentos que dividimos. Lentamente respirando, para dentro e para fora, veremos que somos um o outro, ligados com aqueles que estão em casa e com os bilhões de espírito vivendo neste planeta. Vocês estão unidos com o fazendeiro do interior, com o operário em Cingapura, com o engraxa­te em Caracas, com o banqueiro em Londres e com o órfão na Chi­na. Expire, e cada um é seu irmão. Cada uma é sua irmã. Cada um é você. Nós dividimos o mesmo ar, a mesma energia.

As câmeras de televisão, agora mostrando uma tomada geral da congregação, levaram para o mundo a imagem de quinhentas almas unidas em uma só. E essa imagem eletrônica carregava a voz de Jean, que levou os fiéis a um outro passo na oração.

— Inspire esta união. Nós somos um; negros, brancos, ama­relos, vermelhos, ricos, pobres, humildes e poderosos. Nós somos ligados um com cada um, porque nós somos um com Deus.

A câmera ainda estava focalizada na congregação, que respi­rava um só pensamento: unidos em uma mente e um corpo.

O padre abriu seus olhos e os outros também abriram os seus. Instintivamente, cada pessoa virou para a pessoa que estava ao lado. E quando os olhos de uma pessoa encontravam os olhos da ou­tra, sorriam.

Jean sorriu também. Ele estava orgulhoso de sua congregação, como um pai vendo seu filho marcar um gol num jogo de futebol.

— É por causa disto que ele está na Terra — disse ele em voz baixa para a igreja. — Ele voltou porque nos esquecemos de quem somos, de onde viemos e como somos ligados um com cada um.

Os olhos da paróquia estavam focalizados no padre, como também estavam os olhos eletrônicos das câmeras de televisão e os do arcebispo. Todos esperavam pelas próximas palavras. Ele ti­nha sua total atenção.

O "ele" de que falo é Jesus. Ele voltou. Ele está aqui. Agora Ele está vivendo nesta terra, neste exato momento. Ele está vivo.


Ele não virá amanhã ou depois, ou no mês que vem, ou em alguma data no futuro. Ele está aqui. Eu o vi. Eu falei com ele. Eu via sua imagem. Eu ouvi a sua voz. Nisso vocês podem acreditar. Eu falo a verdade.

De repente a igreja foi tomada de todo tipo de emoção con­cebível. Surpresa, dúvida, excitação, descrença, alívio, ansiedade, antecipação. E Jean, agora, novamente em pé no meio da fileira de comunhão, era o foco dessas emoções. Ele esperou que a igre­ja se acalmasse.

As câmeras de televisão, rapidamente, mostravam a imagem do arcebispo nervoso e impotente, assistindo de sua cadeira aos acontecimentos que se desdobravam à sua frente.

O padre continuou, sua voz voando, alcançando cada canto da igreja lotada.



  • Por que estão chocados? Por que estão surpresos? Foi por­que eu o vi ou porque ele está aqui? No começo eu também fiquei chocado e com medo. E eu também estava cheio de dúvidas quan­do tive as primeiras visões e quando ouvi as vozes de seus mensageiros. Eu pensei que estivesse ficando louco, ou até pior: achei que as forças das trevas estavam tomando conta de mim.

  • Hoje tenho certeza de que não sou louco e não estou sen­do guiado pelas legiões da escuridão. Os mensageiros que ele en­viou me levaram até a luz e até ele.

  • Por favor, acreditem em mim — implorou Jean. — E, o mais importante, acreditem em vocês.

  • Alguma vez vocês duvidaram que ele voltaria? — questionou. — Todo mundo sabe que, por causa do milênio, um monte de profetas e cultos malucos tem surgido. Mas foi o próprio Jesus quem prometeu sua volta, e todas as religiões terrestres ensinam que ele vai reaparecer, trazendo com ele uma Nova Era. Bem, meus amigos, a Nova Era é agora, e não há nada de novo no que estou falando. As profecias de um Salvador, Messias, Avatar e Di­vino Professor são encontradas em todas as crenças.

O padre deu uma olhada para o arcebispo, que, ainda sentado, balançou a cabeça em resignação. Jean virou seu rosto para as câmeras e para a congregação.

— No cristianismo, Deus fez de Jesus o mais velho de uma grande família de irmãos que estará conosco até o final da era. A Velha Era está terminando, a Nova Era está amanhecendo, e nos irmão está conosco.

Jean estava inspirado, sua voz crescendo enquanto pergunta­va e respondia a suas próprias perguntas:


  • Quem é esse novo Cristo? Seria o mesmo Jesus que há dois mil anos pregou que abandonássemos nossos desejos terres­tres e ambições e o seguíssemos? Sim, é ele.

  • Seria ele o mesmo Buda, o Bodhisattva que ensinou os homens a se desprenderem de seus próprios egos para encontrar a felicidade? Sim é ele — proclamou Jean diante das câmeras de televisão e do mundo.

  • Seria ele o Imam Mahdi dos muçulmanos, o Mestre dos Mestres, o instrutor dos anjos, que alertou os homens sobre a ba­talha entre suas almas e o mundo material? Sim é ele.

E, finalmente, Jean perguntou:

— Seria ele Moisés, quem primeiro trouxe para esta esfera terrestre a mensagem de um criador supremo? Sim, é ele. E, re­pito, ele é o mais velho de uma grande família de irmãos — gri­tou o padre para o mundo ouvir. E com sua voz baixa e firme ele acrescentou: — E mais uma vez ele está aqui. Hoje. Vivendo nesta terra.

Os olhos do padre percorreram a congregação confusa. Ele sa­bia o que estavam pensando: "Aqui está nosso padre, nosso ami­go, dizendo-nos que Jesus voltou. Será que ele enlouqueceu?"

Respondendo à questão não dita, Jean continuou:

— Não, eu não enlouqueci. — Com um sorriso acrescentou: — E eu não quero começar nenhum outro culto a Jesus. Deus sabe que já temos o bastante.

O som baixo de algumas tensas risadas veio dos bancos. O pa­dre deu um largo sorriso e continuou.

— Vocês podem acreditar em mim ou não. Mas ouçam o que eu tenho para anunciar. O que vocês, eu e bilhões de almas pelo mundo todo estávamos esperando aconteceu. Jesus retornou à carne. Ele vive, anda, respira, fala e dorme exatamente como nós. Ele é o Filho do Homem, porque seu espírito encarnou como nós para mostrar como viver. Ele voltou a nós para mostrar-nos o ca­minho de casa.

Jean parou por alguns segundos. Ele sabia que talvez estives­se indo muito depressa, dizendo muita coisa muito rapidamente, mas ele não tinha escolha. A hora havia chegado, e com renova­da determinação o padre voltou para o sermão.

— Qual é esse caminho? Bem, isso não cabe a eu respon­der. Ele dirá isso nos próximos dias. Eu sou apenas um mensagei­ro de sua chegada. Estou aqui para dizer que ele voltou, não numa carruagem de fogo, porque ele não precisa de uma, e não veio acompanhado de exércitos de anjos, porque ele não precisa de exércitos. Ele veio para falar com palavras que possamos enten­der. Ele veio para clarear as águas que foram poluídas pelas más interpretações, preconceitos e interesses próprios. Ele veio para con­versar diretamente com vocês.

A cada respiração o padre sentia-se mais confiante. A cada palavra ele ficava mais forte e mais determinado para tocar cada pessoa que ouvia sua voz.

— Isto não é o fim do mundo. Não tenham medo. Não ha­verá nenhum holocausto, guerra, fome ou praga. Ele nunca disse que haveria. Mas teremos mudanças, não porque estamos no fi­nal dos tempos, mas porque estamos no final de uma era e uma Nova Era está lentamente começando. Ele voltou para ajudar a humanidade a entrar nessa Nova Era. Muito em breve vocês sa­berão dele. Alguns já sabem. Vocês o reconhecerão quando ouvi­rem sua voz, porque ele falará a seus corações.

O padre virou-se para o arcebispo.

— Vossa Eminência, eu sinto muito ter escolhido este dia e esta igreja para fazer este anúncio. Eu não tive nenhuma inten­ção de desrespeito. Sou católico nos quarenta e cinco anos que venho caminhando nesta terra. Mas agora acredito que Jesus não pertence a nenhuma religião, nenhum pastor, nenhum padre, ne­nhum país e nenhuma cultura. Ele é Moisés, Buda, Maomé e Krish­na. Nós cristãos não temos o monopólio de seu nome, e, por falar nisso, seu nome atual é Antônio Almeida. Deus abençoe a todos Jesus agora não só vive dentro de nós, ele agora vive entre nós e* neste exato momento ele está vivendo em São Paulo, Brasil.

E, com isso, o padre Jean terminou seu sermão de domingo. Ele se virou e voltou para a sacristia, enquanto uma congregação silenciosa e chocada permaneceu sentada. A apresentação do co­ral da igreja, que estava programada, não aconteceu, e o arcebis­po silenciosamente levantou-se de sua cadeira e seguiu o padre.

Do lado de fora, no caminhão de externa da televisão, o di­retor de TV encerrou a transmissão ao vivo da igreja e retornou o controle da rede para o centro de operações, a mais ou menos tre­zentos quilômetros de distância, em Maryland. Seu assistente, recém-saído da faculdade, respirou fundo e disse:

— A imprensa terá um prato cheio com isso. Especialmente quando se tocarem do nome dele.

— O quê? — resmungou de volta o diretor.


  • O padre, o cara que disse que Jesus estava aqui. Você sabe: o cara negro que acabamos de transmitir para o mundo todo...

  • Não banque o espertalhão. Eu sei de quem você está fa­lando. O que há com o nome dele?

  • Jean-Baptiste. É francês e significa João Batista. Você sabe: o cara da Bíblia que viveu no deserto. Ele foi um profeta, e pre­disse a chegada de Jesus.

Capítulo 21

Mesmo domingo, ano 2015



O ÚLTIMO ENCONTRO


"Ponde- vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas."

Jeremias 6:16
"Eles são mais felizes para ver muitos caminhos diferentes do que se eles tivessem que ver todo mundo caminhando no mesmo caminho, porque desse nosso caminho eles vêem a grandeza de minha bondade mais completamente revelada."

Santa Catarina de Siena

Antônio começou a ligar para seus amigos mais íntimos no domingo de manhã, pedindo-lhes para ir ao galpão ao meio-dia.

— Tenho uma coisa importante para dizer e gostaria que você estivesse aqui — falou ele para cada uma das quinze pessoas.

Fernanda, temendo que algo tivesse acontecido, chegou uma hora antes do combinado. Quando o viu, perguntou o que estava acontecendo.

— Fernanda, vamos esperar todos chegar, assim não tenho que explicar e reexplicar quinze vezes a mesma coisa. Mas eu posso lhe adiantar isso: os acontecimentos estão correndo depressa agora, mas o que era para ser será. Nas próximas horas você saberá de tudo.

Estava chovendo em São Paulo, e, mesmo num domingo de manhã, o tráfego estava confuso. Antônio esperou até meio-dia e quinze, para que o último convidado chegasse. Seu nome era To­más, um garoto de dezesseis anos de idade que tinha "adotado" Almeida como seu irmão mais velho. Antônio ficou lisonjeado e os dois se tornaram amigos durante o último ano e meio.

Almeida sentou-se no chão no meio de uma sala que muito tempo antes servira de depósito para rolamentos mas nestes últi­mos três anos fora sua sala de visitas. Os quinze estavam sentados ao seu redor, em cadeiras ou no chão com as pernas cruzadas.

— Há uma razão por que liguei para vocês. Não sei se vou ter muito tempo para falar com cada um nos próximos dias.

Suas palavras inundaram a sala, provocando ondas após on­das de ansiedade entre os amigos.


  • Relaxem — disse ele sorrindo. — Nenhum imprevisto irá acontecer. Antes de encarnar eu sabia o que aconteceria, porém, diferentemente de vocês, eu me lembro de tudo. Acho que che­gou a hora de falar sobre algumas das coisas que vão acontecer nos próximos dias. Os quinze olharam um para o outro e depois para Antônio, que ainda estava calmamente sentado no meio deles.

  • Parece que você vai deixar a gente — falou abruptamen­te o garoto de dezesseis anos.

  • De uma certa maneira eu vou, mas vocês sabem que sem­pre estarei por aí.

Fernanda começou a chorar.

— Já ouvi palavras assim, e todos nós sabemos o que aconte­ceu com aquele cara que as falou: ele foi crucificado. É isso que vai acontecer com você?

Ele sorriu e contou para o grupo que crucificação não estava mais na moda.

— Leva muito tempo, não existem marceneiros de confian­ça como antes e dá muita chance para discursos finais.

Ninguém riu, e, por causa disso, Almeida pediu ao grupo para relaxar um pouco.

— Desta vez não vai haver nenhum Monte Calvário.



  • O que é isso, então? Um último encontro dos fiéis? Se for, onde está a comida? — gracejou Macedo, o ex-padre católico.

  • Mais ou menos — respondeu Almeida —, mas vamos pa­rar com essas referências bíblicas. Lembrem-se do que eu sempre falei: desta vez será igual e ao mesmo tempo diferente.

O jovem pregador perguntou as horas. Márcia, a médium es­pírita, disse que faltavam quinze para a uma. Almeida comentou que em Nova York seriam dez e quarenta e cinco, e acrescentou:

— Em mais ou menos meia hora, um padre católico em Nova York vai anunciar para o mundo que sou Jesus reencarna­do na Terra.

No silêncio que o envolvia, Almeida continuou, informando que em pouco mais de uma hora a campainha do galpão iria tocar.

— Um americano vai querer falar comigo, e ele não sabe o que está acontecendo em Nova York. Ele veio para me convidar para ir aos Estados Unidos e aparecer num programa evangélico de televisão.

— Que programa? — perguntou Fernanda.

Antônio relatou para ela e o grupo que o programa seria o Clube de Cristo de Bob Masterson.



  • Aquele homem é um fanático! Não vá, ele quer destruir você — alertou um dos amigos.

  • É um truque, uma armação! — A voz era de Roberto, o monge budista. — Antônio, esse Masterson tem uma péssima re­putação. Ele é um demagogo dos piores. Ele é poderoso e não está construindo só um império religioso, mas um império político também. Sua ambição é sem limites. Pense duas vezes antes de dei­xar seu mensageiro entrar aqui. Pense três vezes antes de aceitar o convite.

Antônio estava de pé nesse momento, olhando fixamente para seus amigos. Ele estendeu as mãos, com as palmas para bai­xo, pedindo silêncio.

— Eu irei. Estou na Terra por causa disso. Tudo se resume a

escolhas.

O budista e os outros catorze amigos olharam para Almeida como se ele fosse de um outro planeta. Eles não tinham entendi­do nenhuma palavra que ele dissera.

Foi o garoto Tomás quem questionou Almeida, pedindo uma explicação de suas últimas palavras.

Antônio, calma e firmemente, respondeu a todos:

— Eu sempre disse: a vida na Terra é sobre escolhas. A encarnação aqui se resume ao uso do livre-arbítrio. Porém, para ha­ver escolhas as pessoas precisam de opções. Eu preciso aceitar o convite desse Masterson porque ele está me dando a chance de fa­lar, de uma vez, com todos os espíritos encarnados neste pla­neta. Bob Masterson não é mau, mas ele representa uma escolha. Eu vim para mostrar quTTiá outras opções, outros caminhos e es­tradas para seguir.

O grupo fixou a atenção em Almeida, ouvindo cada palavra e sentindo cada inflexão de sua voz. Enquanto o pregador cami­nhava vagarosamente pela sala, sua voz foi crescendo em paixão e em emoção:

— Eu sempre disse: eu sou quem vocês pensam que sou. Mas eu sou mais. Eu disse n vezes que não pertenço a nenhuma reli­gião, a nenhuma fé, a nenhum credo, a nenhuma seita. Eu quero que as pessoas entendam isso e que elas vejam as infinitas possi­bilidades abertas à sua frente.

Antônio parou de andar e abriu a palma da mão esquerda.

— De um lado, Bob Masterson, o pastor evangélico da tele­visão. — E, abrindo a palma da mão direita, ele disse: — Do ou­tro lado, eu, Antônio Almeida, o mensageiro da faixa crística para a Nova Era.

Por alguns instantes ele ficou ali parado, deixando o grupo olhar para suas duas palmas abertas.

— Pensem nisso por um minuto. Pensem nas opções abrin-do-se para bilhões de pessoas que estarão assistindo ao debate. — Movendo o braço esquerdo, ele disse: — O cristianismo de Mas­terson prega que apenas aqueles que acreditam em Jesus serão salvos e todos os outros estão fora.- Almeida flexionou o braço direito. — Eu quero declarar às pessoas que ninguém está fora. Todas as pessoas estão incluídas porque Deus ama todos. Somos todos seus filhos.

O jovem pregador mexeu a mão esquerda novamente.

— Aqui temos Masterson dizendo: "Não confiem em seus próprios sentimentos e julgamentos; Satanás pode manipulá-los".

Almeida levantou a mão direita, dizendo ao grupo:

— Eu quero dizer ao mundo que sua mente e sua consciên­cia são presentes de Deus. O livre-arbítrio é uma ferramenta para aprender, para crescer, para questionar e para experimentar. Eu di­rei ao mundo que cada um é responsável por sua própria salvação e que cada um é responsável por todas as pessoas ao seu redor.

Almeida continuou a martelar nas escolhas que ele queria dar aos espíritos encarnados na vibração terrestre. Ele explicou ao grupo que ele queria ajudar esses espíritos a entender que Deus não é lei nem mandamentos, dizendo: "Vocês não vão conhecer Deus por meio de leis ou mandamentos. Vocês o conhecerão amando a si mesmos e aos outros".

A voz de Antônio, cheia de paixão e fúria, encheu a sala quando proclamou:

— Quero acabar com essa noção de julgamento. Pessoas como Masterson dizem que é possível saber como Deus vai jul­gar, então somos capazes de julgar os outros. Eu digo que nin­guém pode julgar ninguém, porque nenhuma pessoa sabe qual o carma que uma pessoa está vivendo. Se eu conseguir isso, as pes­soas vão parar de se dividir em cima de suas diferenças e precon­ceitos. Eu quero que as pessoas se unam pelo que têm em comum: vocês são espíritos imortais criados por Deus, e Deus não julga nem recrimina.

Antônio baixou o tom de sua voz e num sussurro confiden­cial contou a seus amigos:

— Eu quero que o mundo finalmente entenda que eu não. morri por seus pecados. Eu nunca vim para isso. Eu mostrarei ao mundo, de uma forma que eles finalmente vão entender, que minha morte e meu renascimento foram acontecimentos espirituais, os mesmos pelos quais vocês já passaram tantas vezes. Quero fa­lar ao mundo sobre reencarnação, que é a maneira de Deus man­ter a ordem e o equilíbrio em sua criação.. Muitos pensam que reencarnação é uma segunda chance de acertar as coisas. Eu mos­trarei que reencarnação é mais que isso, é a oportunidade que Deus deu para aprender e crescer com todas as diferentes emoções e experiências encontradas na vibração terrestre.

Antônio sentou-se novamente no chão e olhando para os rostos de seus amigos falou:

— Eu rezo para ajudar as pessoas a superar essa obsessão com Jesus. Quero explicar que não sou o centro de nenhuma fé e que eles não têm que me aceitar cegamente para serem salvos. Eu vivi aqui dois mil anos atrás para ensinar. Eu vivi num corpo de car­ne e osso para mostrar que era possível deixar a matéria de lado e ver além dos egos, paixões e desejos, liberando-se dos apegos e ilusões materiais.

Quando Antônio estava terminando o discurso, a campainha tocou. Márcia, a médium espírita, olhou para o relógio e disse:


  • Ele está um pouco atrasado. Macedo, o ex-padre católico, brincou:

  • O galo cantou três vezes.

Antônio Almeida, o mensageiro da Nova Era, riu e acres­centou:

— Eu já falei para parar com essas referências bíblicas. Elas estão me dando nos nervos.

Tomás, que foi abrir a porta, voltou para o grupo dizendo que um tal de Hanley queria ver Antônio.

—Vai nessa — disse o garoto a Almeida.


Capítulo 22

llh40 Nova York I3h40 São Paulo
REAÇÃO


"Vigiai, pois; porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à tarde,se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vin­do de improviso, não vos ache dormindo. O que vos digo a vós, a to­dos o digo: vigiai."

Marcos 13:35-37

Quando a missa acabou, o padre Jean-Baptiste imediatamen­te deixou o altar, voltando para a sacristia. Atrás dele estava o arcebispo Carlton Farley. Jean-Baptiste já havia tirado a vesti­menta verde e dourada sobre sua batina quando Farley, com o ros­to vermelho de raiva, entrou, fechando e trancando a porta.

— Você tem alguma idéia do que fez? Como pôde? O que, em nome de Deus, está acontecendo? — gritou, assim que se assegu­rou de que estavam a sós.

Jean-Baptiste sabia que o arcebispo não poderia reagir de uma outra forma. Por causa disso o padre, alguns dias antes, fizera seus planos para largar a igreja que, além de seu lar físico, foi também seu lar espiritual nos últimos vinte e três anos. O padre entregou a Farley um envelope branco e disse:

— È meu pedido de demissão.

Farley olhou para o padre, seu superstar da periferia, e balan­çou a cabeça.

— Por que você fez isso? — repetiu.

Jean-Baptiste perguntou se o "porquê" se referia ao pedido de demissão ou ao sermão. O arcebispo respondeu veementemente:

— Por que você não veio falar comigo? Podíamos ter conver­sado sobre essa história de "Jesus está de volta". Eu também já tive várias crises_de fé e, não tenho dúvida, poderia tê-lo ajuda­do. A igreja precisa tanto de você, mas você preferiu jogar tudo fora por causa de uma pessoa que nem mesmo conhece.

Em um tom calmo e pausado, Jean-Baptiste respondeu que não estava tendo alucinações, não estava em crise e não tinha jogado no lixo seu futuro por alguém que ele nem mesmo conhecia.

— Eu o conheci durante toda a minha vida. Assim como o senhor, Vossa Excelência Reverendíssima.

Um arcebispo exasperado que mal ouviu as palavras do pa­dre explodiu:

— Você usou este dia, com câmeras e satélites transmitindo suas palavras para o mundo, para ridicularizar a igreja. Muito es­perto. Por que não esperou o próximo domingo, se você está tão certo de que esse fulano é quem você pensa que é? Por que neste domingo, quando até o Santo Padre estava assistindo?

O padre disse ao arcebispo que ele mesmo tinha respondido suas próprias perguntas.



  • Acho que não temos mais nada para falar — lamentou Jean-Baptiste. — Aqui está meu pedido de demissão. Preste bem aten­ção nos próximos dias. Em breve o senhor verá com seus próprios olhos que ele voltou. Deus vos abençoe.

  • Aonde você vai ? — perguntou o arcebispo Farley, desta vez preocupado.

Sem olhar para trás, e sem a batina preta da igreja, o negro respondeu:

— Encontrar Antônio Almeida.

Na saída, Jean-Baptiste teria de passar pela fila das câmeras de televisão, microfones de rádio e fotógrafos da imprensa, po­rém ele já esperava e ansiava por isso.

Conferindo seu relógio, ele viu que eram quinze para uma. Ha­viam passado somente quinze minutos desde que ele anunciara o Retorno.


I3h00 Nova York I7h00 Vaticano

Quando a transmissão terminou, o recém-eleito papa João XXIV virou-se para os dois cardeais sentados à sua direita. Ele fa­lou primeiro com Feliciano Paoletti, o diretor de Comunicações e Relações Públicas.

João queria saber onde a missa foi vista.

— Bem, Vossa Santidade — respondeu o italiano corpulen­to e grisalho —, a missa foi transmitida ao vivo para os Estados Unidos e Canadá. No entanto, devido às diferenças no fuso horário, o programa será atrasado duas horas na África. Ainda pos­so impedir a transmissão africana — reportou, pegando o telefo­ne a seu lado.

Espeta! — ordenou o papa. — Há tempo.

O papa virou-se para o cardeal americano Robert Donaldson. Alto e elegante, Donaldson estava sentado no sofá, visivelmente nervoso. Ele tinha certeza de que levaria a culpa pelo desastre que se desenrolou em Nova York.

"Assim que eu sair daqui", pensou, "vou telefonar para Farley e descobrir o que aconteceu com aquele padre maluco."


  • Cardeal Donaldson, o que Vossa Eminência sabe a respei­to desse padre Jean-Baptiste? — perguntou o papa com seu inglês impecável. Quando jovem, João XXIV passou alguns anos nos Es­tados Unidos, onde implantou essa mesma rede de televisão que acabara de transmitir o sermão de Jean-Baptiste.

  • Vossa Santidade, sei que o padre Jean-Baptiste fez um tra­balho louvável para a igreja em Nova York — respondeu Donald­son, achando que seria melhor falar o menos possível.

O papa arqueou suas sobrancelhas. Ele recriminou o cardeal, lembrando que, na semana anterior, Donaldson recomendou que Jean-Baptiste fosse elevado a bispo e transferido de volta à Áfri­ca, onde a igreja precisava desesperadamente de padres carismá-ticos como ele.

— Vossa Eminência deveria saber mais sobre ele — argu­mentou o papa — para ter recomendado sua elevação a bispo.

O cardeal Donaldson não retribuiu o olhar do pontífice, simplesmente acrescentando que o arcebispo Farley, da arquidio­cese de Nova York, estava orgulhoso do padre negro, e a indica­ção viera dele.

— Verdade? — foi tudo que o papa disse.

O diretor de Comunicações queria saber o que fazer com a re­transmissão africana.

— Nada — foi a resposta do papa.

O cardeal Paoletti estava incrédulo e protestou vigorosamen­te contra a decisão do pontífice.

O jovem papa levantou a mão, cortando o cardeal.

— Paoletti, não estamos na Idade Média — disse João XXIV rindo. — A igreja não controla mais o que as pessoas vêem, ou­vem ou lêem. Deixe-me contar o que está acontecendo nas reda­ções de jornal do mundo.

Todos sabiam que João trabalhara nos vários departamentos de imprensa da Igreja Católica. Ele era considerado, até por pro­fissionais de fora da igreja, como um produtor de televisão capaz e competente.

O cardeal Paoletti ouvia em silêncio enquanto o pontífice con­tinuava com suas observações.

— Hoje é domingo. Os domingos são dias mortos para notí­cias. Neste instante, o que aconteceu em Nova York está sendo encarado como uma curiosidade, mas as equipes de plantão, en­tediadas, vão se atirar em cima disso porque têm que preencher seus noticiários. Nós não podemos impedir isso. Da mesma forma que não podemos impedir Jean-Baptiste de dar uma entrevista coletiva à imprensa — disse, dando uma olhada no relógio — nos degraus da própria Igreja de São Paulo.

O telefone tocou, interrompendo o papa. Paoletti atendeu, mas a chamada era para o cardeal Donaldson. Paoletti informou que era o arcebispo Farley na linha. Donaldson silenciosamente praguejou. O papa havia temporariamente esquecido que ele exis­tia, mas agora, com esse telefonema, Farley chamara a atenção para o cardeal novamente.

Após urna conversa curta e brusca, o cardeal desligou. Ele comunicou que o padre Jean-Baptiste havia pedido demissão e naquele momento estava dando uma entrevista coletiva à im­prensa "nos degraus da Igreja de São Paulo". O papa esfregou as mãos e riu.

Não falei para vocês? Como ficaríamos — disse ele a Paoletti- se, depois de promover essa missa na África durante semanas, nós a cancelássemos sem explicação? E não esqueçam que o continente inteiro vai saber, em questão de minutos, o que Jean-Baptiste falou. Essa entrevista coletiva à imprensa será editada em instantes, aí sobe para os satélites e é distribuída no mundo inteiro. Como eu digo: deixe rolar, pelo menos ninguém pode nos acusar de censura. Esse é o Nosso desejo — João XXIV propositadamente usou o Nós formal para grifar a ordem.

O cardeal Paoletti suspirou. Ele sabia que seria inútil argumen­tar com esse jovem papa.

— O que direi à imprensa? — perguntou derrotado.

O pontífice pôs a mão no queixo. Ele sabia que não podia con­tar a esses dois sobre seus sonhos e a certeza que tinha de que foi o próprio Espírito Santo que realizou sua surpreendente eleição a papa para que nesse exato momento ele estivesse sentado no tro­no de São Pedro.

Paoletti esperou sua decisão.

João XXIV sabia que, dentro de minutos, os telefones no es­critório de imprensa de Paoletti iriam tocar, com repórteres que­rendo saber qual a reação do Vaticano aos acontecimentos do dia.

O pontífice sabia que o Vaticano teria de dizer algo. Um "sem comentários" não iria satisfazer ninguém. Um breve sorriso esboçou-se no rosto do Santo Padre, enquanto ele dizia ao cardeal o que fazer.

— Diga que o padre Jean-Baptiste entregou sua carta de de­missão e essa demissão não foi processada. Oficialmente, Jean-Baptiste ainda é um padre da Igreja Católica Apostólica Roma­na e continua sendo, até que sua demissão seja finalizada dentro do curso normal dos procedimentos da igreja.

João XXIV tinha ciência de que "o curso normal dos procedi­mentos da igreja" poderia levar meses, se não anos. Paoletti e Do-naldson também sabiam disso.

Paoletti, agora cauteloso, questionou as instruções do papa.

— Vossa Santidade, com o devido respeito, padre Jean-Bap-tiste usou esta igreja para anunciar a Segunda Vinda de Jesus Cris­to. Ele nos embaraçou perante o mundo todo. Com certeza, há mui­to mais para ser dito.

João respondeu perguntando retoricamente a Paoletti o que ele faria:

— O que deveríamos fazer? Atacar sua credulidade? Renun­ciar a um homem que há apenas uma semana o cardeal Donald-son recomendara para ser bispo? Que tal dizer que ele é louco, que está sofrendo perturbações mentais?

Aquilo tinha sido um desafio. Mas nem o cardeal Paoletti nem Donaldson respondeu, e mais uma vez a palavra do jovem papa prevaleceu.


12hl7 Nova York

Os repórteres entediados que esperavam fazer entrevistas obri­gatórias e previsíveis com Jean-Baptiste, o arcebispo Farley e os políticos presentes à missa de aniversário estavam agora energizados. O instinto coletivo dizia que eles não mais estavam cobrin-do uma reportagem corriqueira. Um padre católico proclamou do altar de uma igreja católica, para uma platéia internacional, que Jesus Cristo estava de volta, morando na América do Sul sob o nome de Antônio Almeida.

Jean-Baptiste, saindo da igreja pela porta lateral, andou até os repórteres como se estivesse dando um passeio de domingo. O primeiro jornalista que o viu era da rede ABC. O repórter, um ra­paz alto, loiro, com vinte e sete anos de idade, tinha começado a trabalhar naquela semana.

Ele tinha sido indicado para cobrir as cerimônias daquela ma­nhã porque, como dissera seu chefe de reportagem, "essa é uma his­tória simples, bem apropriada para um novato". Agora, o novato via em Jean-Baptiste a chance de colocar uma reportagem no jor­nal nacional da rede. Nada mau para sua primeira semana na ci­dade grande.

Ele, seguido por sua equipe, foi o primeiro a alcançar Jean-Baptiste, e, antes que seus rivais chegassem, lançou a primeira pergunta:

— Padre, o senhor poderia repetir para nossa câmera o que disse dentro da igreja?

Jean-Baptiste calmamente esperou os outros repórteres che­garem, arruinando os sonhos do jovem repórter de ter pelo me­nos uma resposta exclusiva. Vendo as câmeras posicionadas, o pa­dre respondeu:

— O que tem sido profetizado aconteceu. Jesus retornou. Um mensageiro para a Nova Era chegou à Terra. Em poucos dias o mun­do saberá que falo a verdade.

Uma tonelada de perguntas jorrou em cima do padre, mas ele manteve a calma, avisando os repórteres que responderia a todas as questões, mas teriam de ser feitas uma de cada vez.

Uma senhora da Televisão Católica cinicamente pergun­tou se ele estava sob tratamento médico, tomando algum tipo de remédio.

O padre sorriu, informando que, se remédio para sinusite con­tava, então ele estava tomando remédios.

— E posso assegurar à senhora que é só isso. Mas vou respon­der à pergunta por trás de sua pergunta. Eu não estou sob o efei­to de qualquer tranqüilizante ou antidepressivo e não faço trata­mento para nenhum tipo de problema emocional. Por que é tão difícil acreditar, ou pelo menos considerar, o que estou dizendo? O cristianismo não tem rezado por milhares de anos por este mo­mento? Agora eu lhe pergunto: por que acha que estou tendo alucinações?

A senhora não respondeu, mas alguém de trás gritou:

— Padre, como o senhor sabe? Conte-nos por que o senhor tem tanta certeza.

Os repórteres ficaram em silêncio à espera da resposta. Jean-Baptiste cuidadosamente elaborou sua resposta diante das câmeras.

— Eu sei porque me foi mostrado. Deram-me provas, e são pro­vas que me satisfazem. Há mais ou menos seis meses eu comecei a ter o que chamam de experiências paranormais. Vozes e visões. E essas vozes falavam que a hora havia chegado, que a Terra esta­va pronta para ouvir e que ele havia retornado.

Jean-Baptiste parou e olhou para os repórteres em volta ano­tando e gravando cada sílaba pronunciada. Antes de continuar . ele fez um sinal para a senhora da Televisão Católica e brincou: -Sinutab não induz experiências paranormais.O grupo riu e ele continuou:

— Ele apareceu num sonho. Mas era um sonho tão real quan­to este momento que estamos passando agora. Um sonho em que senti a sua presença com a minha, vivo, vibrante e presente. Ele disse que voltou para mostrar o caminho. Ele está aqui para ex­plicar o inexplicado. Ele não veio para acabar com o mundo, mas para começar um novo.

Um editor religioso do New York Times, um dos poucos repór­teres da imprensa escrita presentes, perguntou a ele se "em seu so­nho o homem falou que era Jesus".

— Ele explicou que ele era quem pensávamos que ele era. Ele é um mensageiro de luz da mais alta vibração, a vibração de Jesus. Eu o entendi como sendo Jesus, mas um budista poderá en­tendê-lo como Buda, um hindu poderá conhecê-lo por Krishna. Faz sentido quando você pensa sobre isso um pouco.

O homem do New York Times soltou outra pergunta:

— Então você está pedindo ao mundo inteiro para acreditar em você, um simples padre católico, porque você ouve vozes e tem visões e sonhos?

O padre olhou nos olhos do repórter e disse:

— Por que você acha tão difícil de acreditar? É porque eu não sou um papa, bispo ou um rabino? Ou é porque você está com medo de que seja verdade e que o dia finalmente tenha chegado? Sim, eu estou pedindo a vocês para acreditar que não sou um afri­cano louco. Mas vocês não precisam acreditar em mim. Em pou­cos dias todos saberão, porque ele contou que, quando ele falar, todos entenderão.

Numa questão de minutos, a entrevista do padre Jean-Bap­tiste, levada por impulsos eletrônicos no espaço, seria vista pelo mundo todo.

14hl5 São Paulo, Brasil

Bill Hanley estava quinze minutos atrasado para o encontro com Antônio Almeida. Conferindo seu relógio, ele calculou que seria meio-dia e quinze nos Estados Unidos. Ele não sabia, mas dentro de uma hora e meia o pessoal de todas as redes de televi­são do mundo estaria estacionado em frente ao galpão no qual ele iria entrar.
Capítulo 23

Mesmo domingo, São Paulo, ano 2015

A ENTREVISTA OUVIDA PELO MUNDO

Logo depois que as primeiras imagens do sermão de Jean-Baptiste e sua entrevista explodiram nos televisores do mundo, as maiores agências de notícias disputavam umas com as outras para descobrir onde estava Antônio Almeida.

Horários de satélite, caminhões de externa, links de microon­das e canais de fibra óptica estavam sendo reservados enquanto São Paulo, Brasil, subitamente virou o centro do mundo.

De Atlanta, a CNN entrou em contato com sua filial brasi­leira, exigindo uma entrevista com Almeida dentro de uma hora.

De Nova York, a ABC, a CBS e a NBC colocaram sua força to­tal e recursos mundiais em ação para encontrar Antônio Almeida.

De Londres, o serviço mundial da BBC foi inundado por te­lefonemas depois de exibir uma reportagem de quinze minutos sobre o padre Jean-Baptiste. A organização de notícias britânica também despachou ordens às suas tropas: encontrem Almeida.

A Reuters, a AP, a France Press e todas as outras grandes e pequenas organizações jornalísticas do mundo estavam chegando ao velho galpão alugado em São Paulo, onde naquele momento Almeida estava se encontrando com Bill Hanley.

— Eu sei por que você veio — adiantou Almeida a um can­sado Bill Hanley. — Não há necessidade de entrar em detalhes. Eu aceito.

Tudo que Hanley podia fazer era sorrir.

— Pensei que teria que o convencer. Durante toda a viagem de avião eu ensaiei os argumentos que iria usar. Não pensei que seria tão fácil — disse Hanley rindo.

— Por que você teria que me convencer a fazer algo que já está preestabelecido? — respondeu Almeida antes de perguntar Hanley que horas eram.


  • Três horas. Por quê?

  • Bem, meu amigo, em poucos minutos nós vamos fazer história. Dê uma olhada na janela.

Do andar superior, Hanley olhou para a rua abaixo: não era mais uma rua deserta e vazia de domingo. As primeiras peruas d reportagem já estavam apontando seus pratos redondos para satélites invisíveis; homens e mulheres corriam ajeitando câmera e luzes, enquanto outros puxavam quilômetros de cabos de fibra óptica, ligando essas câmeras com o mundo.

— O que está acontecendo?— perguntou um Hanley alarma do. Desde que descera do avião, e com as duas horas de fuso, ele não tinha contato com os Estados Unidos. Ele estava preocupado, imaginando que a atividade de baixo fosse o resultado de al­guma coisa que Masterson pudesse ter armado.

Almeida colocou-o a par de tudo, contando que, duas horas antes, um padre do Harlem tinha contado ao mundo que ele, An­tônio Almeida, era Jesus reencarnado.

— E você é? — perguntou Hanley sem emoção.

— Fique por aí e descubra. Agora, quando é que seu chefe quer me interrogar?

Hanley explicou que o programa estava previsto para ir ao ar quarta-feira à noite, as sete horas, horário de Nova York, e seria trans­mitido ao vivo de Louisville, Kentucky, para o mundo inteiro.

— Bem, o seu Masterson provavelmente já foi informado so­bre os últimos acontecimentos de hoje. Sem nenhuma dúvida, está queimando linhas telefônicas por toda Louisville, tentando saber qual que é a do padre. Seu chefe gosta de saber tudo sobre todo mundo, não é verdade? Mas, dentro de mais ou menos trinta mi­nutos, ele vai ter que dançar conforme a minha música. Como não quero que ele retire seu convite tão generoso, eu vou divulgá-lo para o mundo inteiro — acrescentou, sorrindo para a janela.

Hanley sorriu e entendeu. Almeida estava planejando dar uma entrevista coletiva à imprensa na qual anunciaria ter aceita­

do a oferta da CCM. Hanley sabia que o jovem iria dar um xeque-mate em seu chefe. Não haveria jeito de Masterson retirar o con­vite, uma vez que Almeida o tenha tornado público.

Enquanto esperavam os últimos carros de reportagem, Al­meida perguntou a Hanley quem teve a idéia do debate.

— Eu — respondeu Hanley.

Almeida quis saber o motivo. Hanley confessou que, hones­tamente, não sabia por quê. Talvez fosse seu instinto profissional falando mais alto, ou era alguma coisa a mais.

— E o que poderia ser essa coisa a mais?

— Talvez eu ache que Jean-Baptiste esteja certo. Eu sei que Masterson está errado. Ignorei isso durante estes últimos vinte e poucos anos. Eu trabalhei, fiz algum dinheiro, me diverti. Mas eu assisti a todas as fitas que Masterson gravou de você... A propósito, você sabia que ele o estava gravando secretamente, não sabia?

Almeida balançou a cabeça em aprovação e fez sinal a Han­ley para continuar.



  • Bem, eu vi verdade naquelas fitas. E agora você terá uma chance de falar, ao mesmo tempo, com bilhões de pessoas.

  • Então, que assim seja — disse Almeida encaminhando-se para a porta que os levaria para baixo. Ele pediu para Hanley acompanhá-lo, explicando:

  • Você vem comigo. Vou apresentá-lo como o enviado de Bob Masterson.

Com Almeida na frente, os dois desceram as escadas e foram até a parte maior do galpão, onde estavam os amigos de Antônio. Almeida sorriu, pedindo que também fossem com eles.

— Vamos fazer isso juntos, todos nós. Depois de hoje seremos "popstars" — comentou Almeida, rindo. — Quem sabe o Sr. Han­ley aqui possa até mesmo fazer um filme sobre nós.

Ele fez sinal para que o seguissem, enquanto abria as portas de aço cinza e caminhava para a rua.

— É ele! — Um vizinho apontou para os repórteres. — É Antônio!

A confusão começou: produtores dentro das peruas avisando outros produtores, nas sedes a milhares de quilômetros de distân­cia, que Almeida apareceu.

— Parece um cara normal — disse um deles.

Essa opinião era compartilhada entre todos os repórteres, pro­dutores e cameramen presentes.

— Por aqui! Por aqui! — gritou um repórter da CNN, gesti­culando para a bateria de microfones, cada um com seu próprio logotipo colorido, colocados a alguns metros de Almeida.



CNN, ABC, CBS


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