Ricky medeiros


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Mesma segunda-feira, escritório de Mary Fried, ano 2015

A CAÇADA COMEÇA




amante do Rei! Saiba que teu caminho é procurar o prazer daque­le Senhor Generoso. Quando tu procuras o desejo e o prazer do Bem-Amado, procurar teu próprio desejo é proibido."

O Caminho Sufi do Amor: Os Ensinamentos Espirituais de Rumi

Seis salas à direita da sala de Bill Hanley, Mary Fried consul­tava seus arquivos à procura de empresas de pesquisa em São Pau­lo, no Brasil. Pessoas ligadas a Mary reconheceriam facilmente seu escritório. A sala era fria, estéril, moderna e eficiente, com pa­redes cinza-claro e carpete cinza-escuro. No centro da sala ficava sua enorme escrivaninha cromada, com tampo de vidro, ladeada por duas poltronas feitas de couro preto e cromo. À sua esquerda e à sua direita, dois computadores estavam ligados: um conecta­do a um site qualquer na Internet e o outro acompanhando os re­sultados de sua última pesquisa. Não havia vida naquele escritório nenhuma planta, flor ou mesmo toques pessoais. As persianas brancas da janela estavam quase sempre fechadas e o ar-condicionado mantinha uma temperatura constante de vinte e dois graus, tanto no verão quanto no inverno.

Um escritório funcional e eficiente, com tudo em seu devido lugar. O escritório espelhava Mary. Com um metro e sessenta de altura, ela era uma morena enxuta. Seu corpo não carregava excesso de peso e sua personalidade não carregava excesso de emoção. usava o cabelo escuro sempre curto, pouca ou nenhuma maquiagem no rosto, e seu guarda-roupas se compunha essencialmente de terninhos escuros. Muitos de seus amigos, sem ela saber, chamavan-na de "paisagem lunar", porque, como a lua, ela era "vazia sem charme".

Enquanto mergulhava no Projeto Antônio Almeida, Mary sorriu ao lembrar-se do que falou para seus amigos quando aceitou o convite para trabalhar com Masterson, cinco anos atrás.

— Religião e política são a mesma coisa: ou você acredita ou você não acredita. E, no final das contas, nenhuma das duas faz um pingo de diferença na vida das pessoas.Quando ela conheceu Masterson, os dois estavam em lados opostos. Ele buscava ser candidato à presidência pelo Partido Re­publicano; ela prestava consultoria a esse mesmo partido, que te­mia ser dominado pela direita religiosa representada por Masterson.

A campanha do evangélico foi um fracasso. Ele foi obrigado a se retirar da corrida presidencial quando tropeçou em suas próprias palavras, dizendo que "a América é uma nação cristã, e aqui não espaço para muçulmanos, ateus ou budistas". Aquilo parecia ter sido o fim da carreira política de Bob Masterson.

Poucos dias depois do fiasco, ele telefonou para Mary, cujas técnicas maquiavélicas o haviam impressionado. Ela era talentosa ao usar os resultados de suas pesquisas de uma maneira prática e mortal. Masterson sentiu na pele sua capacidade de distinguir os temas chaves da campanha e instantaneamente formular uma mensagem aceita por brancos e negros, pobres e ricos.

Masterson queria Mary jogando em seu time.

— Ela divide números e pessoas melhor que qualquer um —disse ele a seus assessores. — Ela consegue jogar um grupo contra o outro sem ninguém é uma bruxa.

Masterson tinha certeza de que Mary poderia ajudá-lo em seus planos. O evangélico sabia que a religião estava mudando na América e no mundo todo. A fé sempre havia sido um grande e lucrativo negócio. mas agora ele via a religião se tornar uma grande força política também. E Bob queria dominar o novo jogo.

Ele sabia que nunca poderia ser senador ou presidente, por­que ele era um alvo fácil. Sua patética campanha à presidência dei­xara isso dolorosamente claro. Ele se via como um grande "corre­tor de poder" agindo nos bastidores. Masterson queria esse papel não só nos Estados Unidos, mas também em todos os países onde a CCM tivesse interesse. Não importava se o país fosse uma demo­cracia, ditadura ou monarquia, Masterson queria ter influência. Para ele, essa era a chave da sobrevivência da CCM.

Com isso na mente, ele contratou Mary Fried. Informação é poder e nos dias de hoje a informação vem por meio de pesquisas de opinião e comportamento. Ele já controlava as mídias ele­trônica e impressa o suficiente para atingir o público. Agora ele precisava de informação sobre esse público para que pudesse manipulá-lo. A partir daí, tudo se encaixaria, e os políticos não se li­mitariam a ouvir o que Masterson dissesse; eles iriam executar o que ele exigisse.

Obter concessões de rádios e TVs nos Estados Unidos e no exterior seria fácil. Dependendo do efeito na Cruzada Cristã Mundial,leis poderiam ou não ser aprovadas. Masterson dizia a si mes­mo que esses planos e artimanhas eram a única maneira de reali­zar o trabalho do Senhor no século XXI.

Mary aceitou o desafio e, depois de algumas semanas no tra­balho, ela sugeriu a Masterson que expandisse sua base.

— As pessoas o consideram muito sem graça. Você é tido como um grosseirão intolerante e inflexível Nos anos oitenta você era visto como um soldado nas Unhas de frente da batalha contra a decadência moral. Mas, Bob, os anos oitenta já se foram. Estamos no século XXI, e você está batendo na mesma tecla há mais de trinta anos.

Masterson não estava gostando da conversa, mas continuou ouvindo sem interromper.

— Você fala para as mesmas pessoas todo dia na televisão, seu ibope não muda há cinco anos. Você é como o padre da missa de domingo, falando sempre para as mesmas duzentas pessoas que freqüentam sua igreja. Você está falando para os já convertidos. Você tem que abraçar um público maior se quiser ter a força política que pretende ter.

Enquanto organizava o Projeto AA, Mary Fried recordava aquela primeira conversa com Masterson. No decorrer dos anos, eles obtiveram um sucesso moderado na ampliação da base. dos primeiros passos que ela sugerira foi que ele encontrasse uma

— Olhe, nesta altura do campeonato é muito difícil mudar sua imagem. Você aparece na televisão há mais de trinta anos pessoas sabem quem você é. O que você precisa fazer é continuar trabalhando em sua base principal. As doações de que precisamos vêm deles, não podemos perdê-las. Mas precisaremos de outra plataforma se quisermos atingir o grande público americano. Mary traçou seu plano: formar um comitê nacional independente mas controlado pela CCM.

— Esse comitê seria mais moderado, flexível e menos dogmático do que você. Mas por meio dele você poderá escolher candidatos e bancá-los financeiramente, atacar inimigos políticos,


construir alianças pelo país inteiro. Esse comitê pode falar com pessoas que não falariam com você nem mortas.

Masterson amou a idéia, e a Maioria Cristã Americana nasceu, tendo eleito, nos últimos seis anos, dois governadores, cinco senadores, vinte deputados federais e mais de cento e cinqüenta deputados estaduais no país. Masterson e a MCA tornaram-se uma força expressiva no Partido Republicano. Em quatro anos, eles iriam indicar seu primeiro candidato à presidência. Bob Master­son, com a ajuda de Mary Fried, era um corretor de poder muito importante na vida americana.

Mary cuidara do projeto MCA desde sua criação. E agora Masterson lhe entregava aquele abacaxi chamado Antônio Almeida

O Projeto AA envolvia religião e política. Mary sabia que Masterson estava preocupado com o rapaz brasileiro, e ela tinha certeza de que ele autorizaria qualquer manobra suja para destruir o sujeito.

— Coitadinho do Jesus da Nova Era — pensou, enquanto imprimia uma lista das cinco maiores firmas de pesquisas de São Paulo. — O cara não tem a menor chance.

Assim que Almeida estivesse em sua alça de mira, ela atiraria. Ela iria vasculhar o pregador dos pés à cabeça e depois acabaria com ele. Ela era a rainha do jogo sujo.

Mary aprendera uma coisa importante em todos os seus anos de pesquisas de opinião pública:as pessoas não mudam. Cada geração carrega consigo os preconceitos, aspirações e medos passados ração de avô para pai e de pai para filho.

Ela era mestra na arte de usar o preconceito de um grupo contra outro.


- Divida as pessoas em categorias, defina o que elas não têm em comum e

jogue uma contra a outra. Isso feito, o jogo é todo seu - costumava falar.

Ela fazia isso com prazer nas campanhas políticas. Mas com re­ligião era outra coisa. Ela sabia que isso era brincar com dinamite.

Suas pesquisas mostravam que a religião era uma das princi­pais motivações na vida de uma pessoa. Ela usava a Irlanda do Norte, os mártires árabes e os conquistadores do Mundo Novo como exemplos:



  • Olhem ao seu redor. Vejam como pessoas morrem e ma­tam em nome da fé. Tudo que se tem a fazer é manipulá-las— ex­plicava Mary nos seminários fechados da CCM.

  • Garotos japoneses atiraram-se contra navios de guerra americanos por um Deus do Sol; adolescentes muçulmanos fixam bombas em seus corpos por Alá. E aqui mesmo nos Estados Uni­dos vocês têm fanáticos religiosos citando a Escritura Sagrada para justificar racismo e pena de morte.

Mary estava convencida de que no novo milênio a política seria um jogo de várzea. A "Primeira Divisão", ela tinha certeza, seria disputada no campo da religião.

- Eu e Bob Masterson formamos um par perfeito — dizia ela a seus amigos mais íntimos. — O manipulador-mestre e a mestra do manipulador.

Ela sabia que Masterson poderia facilmente perder o rumo por causa desse tal de Almeida.

- Como um cara podia falar em uma língua e ser entendi-

do em outra? — perguntou a si mesma. Naquele momento, ela não estava considerando isso um grande problema; se não houvesse uma explicação lógica, ela simplesmente inventaria uma.

"Sempre podemos jogar a culpa no demônio", pensou. Ela agora se ocupava em rotular Almeida. Era assim que ela sempre começava seu trabalho.

— Rotule e classifique. Uma vez que você tenha rotulado seu oponente, ele poderá ser dividido, dissecado e, se preciso, destruído — ensinava a seus assistentes.

Mary iniciou esse processo pondo seus próprios preconceitos para trabalhar. Certa vez ela disse a uma colega:

— As pessoas são a soma de seus preconceitos. Seus medos são mais fortes e falam mais alto que seus ideais. E hoje as pessoas têm medo. Elas temem o futuro porque têm pavor de mudanças,
Elas têm medo de uma sociedade que está mudando depressa demais para elas. Por causa disso, as pessoas se isolam em grupos que compartilham os mesmos gostos e as mesmas aversões. Com todo esse medo rodando por aí, meu trabalho fica muito, mas
muito mais fácil.

Sentada em seu escritório, Mary escreveu essas palavras em seu bloco de anotações:



GAROTO RICO, ELITISTA, MÍSTICO.

Dois anos atrás ela fizera um trabalho exaustivo com a Bíblia.Não uma pesquisa religiosa ou acadêmica. Ela não entendia a Bíblia mais que qualquer um. Ela usou a Bíblia para um projeto de pesquisa. Ela queria descobrir como os fanáticos os cristãos tradicionais e as pessoas não filiadas a uma crença específica interpretavam a mesma passagem bíblica. Ela e mais de cem assistentes gastaram seis meses e setecentos e cinqüenta mil dólares da CCM


para completar o trabalho.

Ela e Masterson consideraram que o dinheiro e o esforço tinham valido a pena. Eles conseguiam encontrar, instantaneamen­te, citações apropriadas para qualquer situação política ou moral E o melhor de tudo é que se eles sabiam quais citações teriam maior efeito sobre este ou aquele público. Mary Bob dominavam Velho e o Novo Testamento.

Se Masterson tinha de falar para um grupo de crentes sobre a pena de morte, por exemplo, ele usava a citação "Olho por olho". Os crentes adoravam isso. Eles esperavam por isso. Sentiam- se bem com isso. Então, Bob Masterson dava-lhes isso. Mas essa citação não caiu bem com o público mais sofistica-

"Olho por olho" estava no Velho Testamento. O público mais sofisticado queria Jesus e o Novo Testamento. No banco de dados criado por Mary havia cinco ou seis citações de Jesus que po­diam ser interpretadas como favoráveis à pena de morte. E Masterson era um mestre em manipular interpretações.

Quando Bob precisava de um gancho bíblico para uma pa­lestra, contra o aborto, ele tinha várias ao seu dispor, usando o Deus bravo que castiga para os fanáticos, e para os indecisos uma citação mais "light". Bob e Mary chamavam isso de religião sob medida: "Dê ao povo o que eles querem", dizia Masterson, "contanto que dancem conforme a minha música."

A atenção de Mary voltou-se para Antônio Almeida, o garoto latino cheio da grana. A Sagrada Escritura não gosta de dinheiro. "Dinheiro é mim, pobreza é bom", anotou Mary em seu bloco.

Muito tempo atrás, Masterson dissera-lhe:

— Pessoas ricas sentem-se culpadas quando você diz que o di­nheiro é mim. E, quando se sentem culpadas, elas lhe dão um pouco de seu dinheiro para suavizar a culpa.

"Agora", pensou Mary olhando para seu bloco de anotações, temos que encarar a questão da Nova Era. Isto é fácil mas ao mesmo tempo problemático. Terei que andar na corda bamba."

Suas pesquisas apontavam que os menos instruídos e perten­centes às classes baixas não compreendiam a filosofia da Nova Era. Eles viam a espiritualidade da Nova Era como alguma coisa nova e portanto, temível. Na visão deles, a Nova Era representava tudo que era moderno e efêmero nessa sociedade que cada vez mais bolava as classes baixas. A Nova Era consistia num con­ceito muito vago para eles; não havia pecado, regras, muito menos um Deus raivoso para temer. Muito tempo atrás, Mary aconselhara Masterson a não se meter com a Nova Era. Ela tinha certeza de que aquilo era mais uma onda passageira da elite. Mas, agora que eles estavam de olho em Almeida, Mary sentiu que ela teria que se atualizar sobre filosofia da Nova Era.

E o melhor lugar para começar seria, provavelmente, Paulo, no Brasil.

Mary decidiu realizar pessoalmente a pesquisa. Ela queria saber tudo sobre aquele sujeito.

Em sua mente ela já havia classificado todos os preconceitos a Nova Era, dinheiro e latinidade. Agora ela poderia decompor Almeida conforme essas classificações. E então ela o destruiria "O que as pessoas têm em comum não serve para nada. O vale é aquilo que as separa. Descubra quais são seus medos, ódio e preconceitos, e você conquistará seus corações e nentes", era de suas considerações favoritas.

Ela chamou seu assistente e pediu-lhe que reservasse u passagem de ida e volta para São Paulo, com partida naquela n te e retorno para dali a cinco dias. Mary estendeu-lhe uma folha contendo o nome de três firmas de pesquisa que ela seleciora pedindo-lhe que telefonasse para cada uma e marcasse reunião para o dia seguinte à tarde.

— Diga-lhes que quero ver suas melhores apresentações que tenho muito dinheiro para gastar.

Um sorriso nasceu em seus lábios quando ela começou pesquisar na Internet à procura de sites_sobre a Nova Era, Milênio e Espiritismo. A caçada havia começado, e Mary era a do da caçada.

— E sempre melhor ser a raposa do que o coelho — murmurou alto para uma sala vazia.
Capítulo 8

Terça-feira, ano 2015

UMA VISÃO DO INFERNO


"Que tipo de Deus é ele? Enquanto permanecer um único fio de cabelo de amor por você mesmo, ele não lhe mostrará o seu rosto. Você precisa estar completamente repelido por você mesmo e pelo mundo e ser seu próprio inimigo (...) Leve seu coração para Deus e separe-o de tudo que não tem valor."

O Caminho Sufi do Amor: Os Ensinamentos Espirituais de Rumi

Distante da cúpula da CCM não apenas geograficamente, o padre Jean estava sentado em seu pequeno escritório, na reitoria da Igreja de São Paulo, em Nova York. Era o começo da tarde de terça-feira e ele já estava trabalhando no sermão do domingo.

Aquela missa de domingo seria especial, porque a igreja de São Paulo estaria comemorando seu primeiro centenário. Como a paróquia, graças a Jean, era uma das poucas igrejas católicas de pe­riferia prosperando nos Estados Unidos, a arquidiocese de Nova York decidira divulgar amplamente o evento. No domingo, a missa seria transmitida não só para todo o território americano mas também para vários países africanos. Além disso, o novo papa de­monstrara grande interesse pelo trabalho do padre Jean, e uma trans­missão exclusiva seria vista pelo Santo Padre em seu apartamento Vaticano.

Nos Estados Unidos, a missa seria exibida nos mais de cem sistemas a cabo que transmitiam o canal da Igreja Católica para mais de noventa por cento do país. Na África, em virtude da diferença de fusos horários, a igreja convenceu várias TV estatais a transmitir a missa em horários diferentes. A igreja bancaria o custo de tradução nos países onde o inglês não fosse a língua nativa

Se para a arquidiocese aquela missa tinha grande valor, o padre Jean o evento seria de especial importância. No mingo, durante a celebração, Jean revelaria suas visões para seus paroquianos e para o mundo. Jean tinha certeza de que o fim sermão seria também o fim de sua carreira. Mas ele não pode deixar de usar as câmeras de televisão para anunciar ao mundo que o milênio estava mesmo cumprindo sua promessa, que uma Nova Era estava nascendo na Terra.

Ele falaria de uma batalha. Não a batalha física e mortal do Armagedom, mas uma batalha para a alma humana. Jean fala da procura dos espíritos da Terra por novas respostas aos velhos | problemas nestes tempos materialistas. E, no final do sermão, contaria ao mundo as boas-novas: o Cristo mensageiro havia chegado.

Enquanto escrevia o sermão, Jean ouvia claramente uma voz suave, a mesma que vinha escutando nos últimos seis meses e que mais recentemente deixara de vir de uma fonte externa, tornando-se parte dele.

— Jean, não tenha medo: você está na luz. Mostre às pessoas

como elas são ligadas umas com as outras, e como todos são ligados ao universo. Afastemos do medo e da raiva e faça-os superar suas próprias vaidades e egos. Ajude os espíritos encarnados nesta Terra a dentro e para fora de si mesmos e, principalmente te, prepare-os para receber o mensageiro que chegou.

O padre aceitou a tarefa com um sorriso. Ele sabia estar sendo inspirado por uma força exterior. Nas últimas semanas, Jean tornara-se um médium, vendo e ouvindo o que outras pessoas i conseguiam ver nem ouvir.

Em algumas ocasiões, Jean pôde entrever o outro lado vida. Ele aprendeu que em alguns casos, para algumas almas, a vida pós-morte era meramente uma continuação da vida terrestre. Nessas suas espreitadas pelo além, o padre via os espíritos não como fantasmas ou formas enevoadas, mas como seres reais vivendo

e prosseguindo com suas vidas lado a lado com espíritos encarnados na Terra.

Ao lembrar-se de uma experiência ocorrida no dia anterior, Jean não conteve um sorriso. Acontecera em sua lanchonete pre­ferida, perto da igreja, onde ele estava almoçando. Enquanto co­mia, ele via espíritos desencarnados indo e vindo, levando suas vidas numa dimensão diferente mas não menos real que a terres­tre. Aqueles espíritos não eram "fregueses" da lanchonete. Eles es­tavam ali, circulando, mas pertenciam a outro nível de vibração. Jean compreendeu que eles viviam em uma das muitas mansões de que Jesus falara. Seus mentores espirituais haviam ensinado que no universo há ainda muitos outros níveis de vida:

— Quando um espírito deixa o plano terrestre, ele é atraído a um plano de existência para o qual está preparado. O espírito Habita aquela esfera até que esteja pronto para uma outra encarnação na Terra ou para prosseguir numa outra vibração.

- Não há infernos perpétuos — explicaram os guias. — As vibrações infernais são as mais baixas e densas. Nessas faixas, a be­leza e harmonia do Mestre só podem ser vistas de relance. Os es­píritos que lá habitam não ardem em chamas ou na lava derre­tida. Eles vivem em vibrações densas, baixas e escuras, fora da vibração divina. Isso não é um castigo, padre, é uma conseqüência de seus próprios atos.

Desde o florescimento de sua mediunidade, Jean tivera mui­tas visões, e agora uma imagem do inferno lentamente se forma­va à sua frente. Jean desejava que algumas das visões que ele presenciara nunca tivessem ocorrido; esta visita ao inferno seria uma delas.

Uma escuridão acinzentada lentamente o envolveu e um frio úmido penetrou seu corpo. A sua volta, numa tonalidade um pou­co mais clara que a escuridão, Jean viu os espíritos que habitavam aquela esfera.

Estes espíritos, Jean, estão presos aqui. Suas vibrações os trouxeram a este nível. Eles não são demônios e não estão sendo castigados. Eles estão simplesmente sofrendo as conseqüências de seus atos, pensamentos e intenções — declarou o guia.

Jean percebeu que aqueles espíritos se moviam lentamente, como se estivessem presos ao frio pesado, escuro e cinzento da quela vibração. O guia, captando os pensamentos do padre, explicou o que estava acontecendo:

— Eles não são almas perdidas, padre. Eles são espíritos pre­sos, espíritos que se apegaram às vibrações densas de suas vidas ter-restres orgulho, raiva, medo, ódio e ciúme. Eles não foram capa­zes, em suas várias encarnações, de se separar de seus próprios egos, de suas ambições e de seu egoísmo. Eles eram, como vocês falam na Terra, "cheios de si mesmos", a ponto de não sobrar es­paço para mais nada. Agora, neste lado da vida, onde a ilusão da Terra não existe, eles estão sentindo a verdadeira densidade, peso e escuridão de suas próprias vibrações. Deus não criou este infer­no; foram os espíritos que o criaram com sua própria insanidade.

O guia pediu ao padre que olhasse para longe, onde uma luz penetrava a névoa úmida e escura.

— Está vendo a luz no horizonte? Essa luz não é fraca e não falha. O amor e o poder de Deus são sentidos até mesmo aqui. Se esses espíritos parassem, meditassem e se separassem de si mesmos, sentiriam os raios de sua luz aquecer suas almas.

Padre Jean estudou a cena e perguntou que tipo de espírito acabava caindo naquele lugar. O guia respondeu com uma pergunta:

— Qual é, em sua opinião, a pior ofensa que um ser humano pode cometer?

O padre refletiu por um breve instante e respondeu:



  • Depois de suicídio, assassinato.

  • Por que diz isso? — perguntou o guia.

— Assassinato é uma ofensa contra a humanidade, e contra Deus.

-— Então deixe-me contar uma história sobre dois assassinos — disse o guia. — Os dois morreram mais ou menos na mesma época. O primeiro matou por causa de uma paixão feroz. O segun­do tinha eliminado friamente um empresário rival.

O guia disse que um deles estava naquela vibração escura e o outro numa outra, onde estava acertando seu equilíbrio cármico não apenas com sua vítima mas também com todos que ti-nham sido direta ou indiretamente afetados pelo assassinato.

— Qual deles você acha que está aqui? — perguntou o guia.

Jean sacudiu os ombros e disse que não tinha a menor idéia

da resposta.

- O espírito que matou por paixão esta aqui. Esta e uma vibração de emoções densas, onde residem os espíritos que não conseguiram separar-se da raiva, da fúria e do ódio. O espírito
que matou friamente está em outro lugar, lidando com as conseqüências de seus atos, especialmente com as forças cármicas que ele desencadeou.

O padre não conseguia entender por que os dois espíritos ti­nham sido levados para níveis de vibração diferentes.

Afinal — justificava Jean —, assassinato é assassinato.

— Sim, assassinato é assassinato, mas com intenções e mo-tivos diferentes. Um homem que comete assassinatos em série, estupra, tortura e brutaliza suas vítimas estaria na mesma freqüência de um assassino profissional que mata por dinheiro? As moti­vações de um são diferentes das motivações do outro. Um está agin­do por impulso e o outro por motivação financeira. As intenções são diferentes, portanto o carma criado é diferente.

O guia explicou a Jean que a justiça na Terra ou é preta ou é branca.

— E é assim que deve ser — declarou. — Espíritos encarna­dos precisam de diretrizes fortes e bem definidas. Mas do lado de cá a coisa é diferente. Aqui não há julgamentos, portanto há muitos tons de branco, cinza e preto.

Jean desculpou-se, dizendo não ter ainda compreendido exa­tamente o que o guia estava tentando dizer.

Vou dar um exemplo — propôs o guia. — Uma crian­ça não aprende da mesma forma que um adulto. A criança e o adulto estão em níveis diferentes de desenvolvimento.Aqui é a mesma coisa: níveis e faixas diferentes. Quanto mais alto você evoluir maior é sua responsabilidade. Isso explica por que dois espí­ritos cometem o mesmo ato e os resultados acabam sendo diferentes para cada um.

O padre quis saber quanto tempo os espíritos permaneciam naquela vibração.

Vou repetir, padre: não há regras. Tudo depende do espí­rito. Auxílio e orientação estão próximos, porque espíritos das vibrações mais altas podem vir até aqui, se for necessário. São esses caras — o guia apontou para as formas cinza-escuro à sua volta —; que não podem ir embora enquanto não estiverem prontos. Ele então perguntou se o padre havia notado algo estranho. Jean pensou por um momento, sorriu e respondeu:

— Eles não podem ver a gente, é isso?

— Você está certo — respondeu o guia, explicando que os es­píritos daquele nível não podiam vê-los porque ele e o padre estavam numa freqüência mais alta. — É a mesma coisa na Terra — acrescentou. — Almas terrestres não podem ver o mundo espiritual ao seu redor porque as vibrações não combinam.

— Como a lanchonete — observou o padre.

— Sim, exatamente como a lanchonete — confirmou o guia, sorrindo.

Nada disso estaria no sermão de domingo. As verdades sobre o mundo espiritual ficariam por conta do pregador brasileiro de cabelos escuros. A missão de Jean era anunciar sua chegada.

— Você nasceu nesta Terra não para mostrar o caminho, Jean — lembrou-lhe o guia —, mas para prepará-lo.

Após a partida do guia, as lembranças daquela esfera inferior foram se desvanecendo lenta e dolorosamente.

O padre lembrou-se então da reunião com o arcebispo no dia anterior. Jean fora chamado a seu escritório para discutir os even­tos do domingo.

Na reunião, o padre tinha visto não só o corpo físico da­quele homem, mas também o espiritual. Observando a aura que envolvia o espírito do arcebispo, Jean obteve a certeza de que aquele era um homem bom, que acreditava em sua religião. Mas, como a maioria dos homens, ele tinha se desviado ao longo do ca­minho. A administração da igreja, a política e as relações com autoridades locais, estaduais e nacionais haviam tirado o arcebis­po Farley da trilha que o levara para a igreja trinta anos atrás.

Olhando para o homem sentado atrás da escrivaninha que os separava, Jean via um homem infeliz e sem rumo. As distra­ções da Terra tinham arrancado um jovem padre do caminho escolhido e colocado um homem de meia-idade atrás de uma enorme escrivaninha.

Depois de discutir os detalhes finais da transmissão, o arce­bispo lembrou Jean da importância daquela missa.

- Como você sabe, padre, a igreja não tem tido muita sorte em converter os africanos. Aqui nos Estados Unidos nossos


índices de conversão entre os negros também não estão lá essas coisas. Você é nosso exemplo, você é nossa maior estrela. Até o papa demonstrou interesse em você. Isso pode dar em algo interessante, quem sabe? Acho que você está no caminho certo para se tornar bispo.

O arcebispo, o bom homem que havia perdido seu rumo, es­taria na Igreja de São Paulo, no domingo, celebrando a missa com o padre Jean. O Santo Padre estaria assistindo de Roma.

Mas o sermão seria dado por Jean. E ele sabia que aquele ser­mão pertencia ao homem de cabelos escuros do Brasil.

Capítulo 9

Mesma terça-feira, ano 2015



ATRÁS DA VERDADE

"Não ajunteis para vós tesouros na Terra, onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam."



Mateus 6:19-20

Bob Masterson estava sozinho em seu escritório, localizado exatamente acima da sala de Bill Hanley. Batendo os dedos no tam­po da escrivaninha, ele procurava se concentrar nas providên­cias que já havia tomado e nas que ainda precisaria fazer nos pró­ximos dias.

— Vamos estabelecer prioridades — disse ele a si mesmo.

Dali a mais ou menos quarenta e cinco minutos ele entraria em seu elevador particular e desceria até o primeiro andar para gra­var os programas do Clube de Cristo. Antes disso, porém, ele pre­cisaria ler as anotações que o pessoal da produção preparara sobre os convidados. Masterson não gostava de surpresas, por isso, mes­mo quando os convidados eram assíduos do programa, ele lia aten­tamente o relatório de sua produção. Munido desses dados, ele começou a avaliar como seria o programa.

Entrevista número um: Phyllis McCord. Esta senhora era uma veterana dos velhos tempos, famosa por suas posturas contra o aborto, contra o feminismo e contra os imigrantes. Masterson às vezes se perguntava se alguma vez Phyllis fora a favor de algu­ma coisa. Os produtores sugeriam que ele lhe perguntasse sobre suas últimas conquistas na luta contra o aborto.

O convidado seguinte seria Peter Antonelli, cuja filha fora estuprada, torturada e assassinada havia oito anos. O assassino, um tal de Emilio Caldeira, estava preso havia sete anos no corredor da morte na Califórnia. Suas apelações legais haviam se esgotado e a execução estava marcada para dali a duas semanas.

Antonelli, como sempre, usaria o programa para falar em prol da pena de morte. Muito tempo atrás, Masterson tinha se decla­rado favorável a esse tipo de punição, citando o "olho por olho" do Velho Testamento como justificativa. Antonelli era sempre uma atração eficiente, de alto impacto emocional, e isso dava a Masterson a certeza de que esse programa seria muito bom.

O último convidado seria Billy Tyler. Tyler acabara de voltar de uma temporada de três anos como missionário da CCM na Ásia e estava trazendo consigo um vídeo sobre as obras da Cruzada na­quele continente. O relatório da produção avisava que Tyler fa­laria sobre as dificuldades da CCM em divulgar o evangelho numa área dominada pela superstição e pelo misticismo.

Lendo o relatório, Masterson recordou-se de suas recentes negociações com o governo chinês. Por vários anos a China proi­bira a presença da CCM em seu território, e Masterson aguardou todo esse tempo uma brecha por onde a Cruzada pudesse entrar para salvar bilhões de almas chinesas. Nos últimos meses, no en­tanto, a cúpula chinesa, preocupada com as tensões e inquietu­des trazidas pela modernidade, vinha olhando para a CCM de Masterson com novos e bons olhos. A Cruzada, com sua postura conservadora e pró-governo, poderia ser usada como um contra­peso às correntes liberais que vinham fervilhando na sociedade chinesa.

"Em poucos meses", pensou Masterson, "eu terei iniciado mi­nha campanha 'Vamos Salvar Um Bilhão de Almas para Jesus', e o governo chinês terá a estabilidade necessária para controlar aquelas almas."

Masterson era pragmático. Ele não via nada de imoral ou an­tiético em negociar com um governo que durante anos persegui­ra e sufocara a religião.

— Os tempos mudam e você tem que mudar com eles —- res­pondia Masterson a seus assessores quando eles questionavam seu namoro com a última safra de líderes chineses.

Tendo lido o roteiro do primeiro programa, Masterson vol­tou-se para sua mais nova obsessão.

"Antônio Almeida... Quem é esse cara?", é o que Bob queria saber.

Seus pensamentos haviam retornado para o pregador brasi­leiro e mentalmente Masterson ia classificando e analisando in­formações e ações.

"Martelli irá vasculhar as finanças do rapaz. Se houver algo, Phil com certeza encontrará, manipulará e me entregará numa bandeja de prata."

"Mary Fried... Nunca confiei totalmente nela. Mas ela ataca­rá Almeida como um mangusto em cima de uma cobra naja. Ela vai desmascarar esse cara, descobrir qual é a dele e dar-lhe um chute no saco."

Bill Hanley era um caso diferente. Masterson confiava ple­namente nele, ou pelo menos sabia como ele iria reagir em de­terminada situação. "Bill, o Agnóstico", era como ele afetuosa­mente o chamava. Já fazia algum tempo que Hanley deixara de dirigir Masterson no Clube de Cristo e passara a comandar toda a programação e produção da rede da CCM.

Há muito que Masterson suspeitava que Hanley não com­prava o peixe religioso vendido pela CCM, mas isso não importa­va, porque ele sabia que Bill era um profissional competente e, aci­ma de tudo, um amigo. Masterson tinha a certeza de que Hanley iria se concentrar em Almeida como um raio laser, dando a Mas­terson tudo que ele precisava saber sobre a vida pessoal de Almei­da. Hanley faria isso e o faria bem-feito, porque Hanley não acre­ditava em nada.

A mente metódica de Masterson continuava a preparar as próximas jogadas.

Prioridade número um: verificar se as fitas foram adulteradas e se há uma explicação lógica para Almeida, falando em portu­guês, ser compreendido por qualquer um, inclusive Masterson. Ele cuidaria disso imediatamente. Sua secretária já havia solici­tado um portador, e dentro de uma hora a fita estaria a caminho de Washington, D.C., onde passaria por uma bateria de testes nos sofisticados aparelhos eletrônicos da McKinsley-Coughlin, em­presa de segurança altamente especializada e sigilosa, com servi­ços prestados inclusive para o FBI e a CIA. A resposta viria em no máximo três dias, e Masterson já havia transferido para a conta daquela empresa a primeira das três parcelas de cinqüenta mil dó­lares. A McKinsley-Coughlin não era barateira.

Para Masterson, o mistério do idioma era o xis da questão. Se as fitas tinham sido modificadas, tudo que ele teria de fazer era des­cobrir por quem e por que foram alteradas. Mas, se não houve alteração... bem, isso seria uma outra história.

Pelo que ouviu naquelas fitas, Masterson sabia que o que Al­meida pregava era coisa velha, mais antiga do que o próprio cris­tianismo. Porém, se os testes comprovassem a autenticidade das fitas, Masterson sabia que as velhas idéias de Almeida se torna­riam um problema a ser encarado.

Mas intimamente, longe das maquinações de sua mente me­tódica, Bob Masterson sabia qual era a verdade.

No dia anterior, depois falar com o gerente da filial brasilei­ra, Masterson fez uma ligação para a Universidade da CCM, onde muitos alunos estrangeiros estavam matriculados, e pediu ao rei­tor que lhe mandasse três estudantes: um brasileiro, um russo e um egípcio. Ele disse ao reitor que estava pensando em usar esses es­tudantes num especial de televisão. Masterson instruiu sua secre­tária para marcar três reuniões diferentes: primeiro a brasileira, depois o russo e por último o egípcio.

A brasileira, Maria Rosa Cavalcante, tinha vinte e um anos e era de Salvador, na Bahia. Chegou às três e meia da tarde no es­critório de Masterson. A entrevista começou com o evangélico fa­zendo algumas perguntas banais: de onde ela era, como ficou sa­bendo da Universidade da CCM e quais eram seus planos depois de formada, etc., etc., etc. Ele informou-lhe que estava pensando em produzir um programa de televisão sobre estudantes estrangei­ros na Universidade da CCM e perguntou se ela estaria interessa­da em participar. A jovem ficou lisonjeada, e Masterson avisou que em breve estaria entrando em contato com ela. A moça estava quase sain­do do escritório quando Masterson a chamou de volta.

— Puxa, já ia me esquecendo! Tenho aqui uma fita que veio do Brasil. Você poderia ouvir um trechinho e traduzir para mim?

Mais uma vez lisonjeada, Maria Rosa sentou-se na cadeira, e Masterson passou três minutos da fita de Antônio Almeida. A estudante fez uma perfeita tradução simultânea do português para o inglês.

— Tem uma coisa que eu gostaria de saber — perguntou Mas­terson quando ela terminou. — O Brasil é um país tão grande... Vocês têm sotaques regionais, como aqui nos Estados Unidos?

Ela respondeu que no Brasil havia vários sotaques diferentes.

— E qual é o sotaque desse cara?

— Interessante o senhor ter perguntado, porque o sotaque dele é o mesmo que o meu, da Bahia.

O evangélico agradeceu-lhe a ajuda. Maria Rosa sorriu e dei­xou o escritório.

O estudante egípcio veio logo a seguir, e depois dele foi a vez do russo. Ambos foram capazes de traduzir para o inglês o que ou­viram na fita. O egípcio disse que o homem falava como seu tio Oman, e o russo identificou o sotaque como sendo o de sua cida­de natal.

Bob estava pagando cento e cinqüenta mil dólares à Mc­Kinsley-Coughlin para confirmar o que já ele sabia: não havia uma explicação lógica para o que estava acontecendo. Mas, como sempre, Masterson era um homem cauteloso, que alinhava cuida­dosamente seus peões antes de fazer a primeira jogada.

"Talvez amanhã seja o dia de mover mais um peão", pensou Masterson.

Mary Fried vivia lhe dizendo que o que ele falava no Clube de Cristo não tinha importância alguma.

— Você está falando para os fiéis nesse programa — decla­rou ela. — Eles têm pouco a ver com nosso objetivo principal. A mídia despreza tudo que acontece nesse programa, pois conside­ra o Clube de Cristo irrelevante.

Ela chegou a fazer uma comparação com os discursos de Adolf Hitler nos Beer Halls de Munique, explicando que a classe média alemã, inclusive os judeus, ignoravam o que Hitler gritava em seus discursos fanáticos nos Beer Halls.

— O alemão comum perdoava e tolerava o Hitler dos Beer Halls, dizendo que ele não era realmente assim e que o que ele fa­lava naqueles discursos servia apenas para manter os fiéis na linha — explicou Mary.

Depois daquela conversa com Mary, Masterson passou a en­carar o programa como o seu próprio Beer Hall, onde ele podia di­zer quase tudo que queria sem se preocupar com as conseqüências.

No decorrer dos anos, com a ajuda de Mary, ele utilizou ha­bilmente o Clube de Cristo para manter na linha os seguidores de sua doutrina, enquanto ia, lentamente, construindo uma nova e mais respeitada imagem fora desse seu rebanho.

No dia seguinte, durante a gravação do programa, ele usaria aquele púlpito para dar os primeiros tiros de advertência na bata­lha que ele via surgir à sua frente.
Capítulo 10
Noite da mesma terça-feira, ano 2015
ALMEIDA, ABORTO E UMA PALAVRA SOBRE ADÃO E EVA

"Eu não vou questionar as suas opiniões. Eu não vou interferir em sua crença. Eu não vou dar ordens para a sua mente. Tudo que eu digo é: examine e pergunte. Olhe para dentro da natureza das coisas. Pes­quise as bases de suas opiniões, os prós e os contras. Saiba por que você acredita e entende o que eu acredito e possua razão para a que está em você."



Frances Wright (1795-1852)

Toda terça-feira, por volta das sete da noite, Almeida janta­va em seu galpão com alguns amigos. Cada uma das vinte e pou­cas pessoas que compareciam trazia consigo algum tipo de alimen­to: pão, frango, batatas, legumes, macarrão, queijos e sobremesas.

Nesta noite, vinte pessoas, representando quase todos os seg­mentos da sociedade brasileira, se reuniram com Almeida na maior sala do galpão. Alguns eram velhos amigos do pregador, que os cha­mava espirituosamente de "amigos da primeira encarnação", por tê-los conhecido ainda em seus dias de estudante sustentado pelo pai milionário. Esse grupo de "amigos da primeira encarnação" era formado por corretores da bolsa de valores, empresários, ad­vogados, professores e donas de casa. Alguns deles traziam seus fi­lhos para esses jantares semanais.

O segundo grupo, que Almeida chamava de "amigos feitos ao longo do caminho", era constituído por pessoas que o pregador co­nheceu quando começou a pregar, três anos atrás.

Os "amigos feitos ao longo do caminho" eram um grupo he­terogêneo composto de escritores, executivos, um médico, um funcionário público, um jornalista, um monge budista e até mes­mo um veterinário.

Esses jantares realizados semanalmente eram na verdade ape­nas uma desculpa para que pudessem se encontrar. Depois da re­feição, o grupo sentava-se e conversava. Esta noite não seria uma exceção.

Sentados nas cadeiras ou mesmo no chão com as pernas cru­zadas, cada um podia falar o que quisesse sobre sua vida. Antônio chamava esses jantares de "terapia de grupo semanal", e nenhum assunto era considerado proibido ou inapropriado. A única coisa que Almeida pedia era que não houvesse discussões nem brigas e que as opiniões, perguntas e problemas de cada um fossem respei­tados, porque, segundo ele, "isso não é exatamente um encontro de oração tradicional, mas poderia ser. Quando as pessoas se reú­nem para ajudar umas às outras, há oração. E, para que essa ora­ção possa ser positiva e saudável, vamos deixar as discussões de lado". Ele continuou, dizendo que aquilo não era uma competição, e que não havia premiação para o mais brilhante, o mais espirituoso, o mais neurótico ou o mais problemático.

— Mantenham as vibrações positivas, deixem as negativas do lado de fora! — era a única coisa que o jovem pregador pedia.

Essas conversas costumavam varar a noite em virtude daque­le ambiente leve, aberto e caloroso, propício a que as pessoas, sem medo, expusessem suas almas. Como Antônio uma vez explicou:

— Isso também é oração, porque vocês estão se comunican­do com Deus e com vocês mesmos.

A conversa desta noite começou quando a ex-namorada de Antônio, integrante do grupo "primeira encarnação", revelou:

— Acho que vou fazer um aborto, Toninho.

Todos os olhares se voltaram para a jovem. Seu nome era Fernanda Silveira. Ela era amiga de infância de Almeida, e os dois chegaram a namorar no final da adolescência. Hoje eles eram amigos íntimos, e pelo menos duas vezes por semana Fernanda vi­sitava-o no galpão.

Almeida, sentado em uma longa mesa de madeira no centro da sala, também voltou sua atenção a Fernanda, perguntando-lhe o motivo de tal resolução.



  • E porque estou grávida e não queria estar — respondeu com um riso nervoso. — Poderia haver alguma outra razão ?_— desafiou.

  • Bem, há algumas que me vêm à mente — gracejou Antô­nio. — Mas, na maioria das vezes, as razões são irrelevantes. Con­te para a gente o que está acontecendo.

Fernanda olhou para o grupo e começou a contar sua his­tória. Ela estava com vinte e seis anos, não era casada e esta­va iniciando uma carreira promissora em um dos mais respeita­dos escritórios de advocacia do país. Ela não queria engravidar ou casar, e não estava interessada em criar um filho nessa fase de sua_vida.

— Eu não estou pronta, e, além disso, seria uma mãe horrível — admitiu.

Fernanda sabia que o aborto era ilegal no Brasil, por isso já estava com passagem marcada para os Estados Unidos, onde faria a operação.

— Fê — disse Almeida, chamando-a pelo apelido —, se você está tentando me chocar, sinto dizer que não funcionou. Se você quer saber o que eu penso sobre aborto, esqueça. E, se você quer que eu lhe convença, de uma maneira ou de outra, esqueça tam­bém. Eu não posso. Esse é um exemplo perfeito de livre-arbítrio. A escolha é sua, não minha.

Algumas das mulheres presentes iniciaram um ruidoso aplau­so, mas Almeida levantou a mão abruptamente, fazendo-as parar, e disse com um sorriso nos lábios:

— As feministas que me desculpem, mas vou ter que esclare­cer minhas palavras. Isto não é um caso de escolha porque ela, como mulher, tem o direito de fazer o que quer com seu corpo. A escolha neste caso é diferente. A escolha é de Fernanda porque ela, um espírito em evolução, tem a obrigação de usar seu livre-arbítrio.

Almeida adiantou que aborto era um assunto polêmico, "como tudo hoje em dia. Nesta era em que vivemos, asjgessoas se apres-sam a tomar partido e formar suas opiniões", lamentou ele.

Antônio continuou falando para Fernanda e o grupo, que es­tava ouvindo atentamente cada uma de suas palavras.

— Eu não vou interferir em sua escolha nem vou questionar sua opinião. Se você acha que chegou à decisão certa, então vá em frente. Sua mente não deve acatar a vontade de ninguém.

Naquele momento, um zunzum começou a tomar conta do gru­po. Aborto era um assunto que incendiava as emoções no mun­do todo, principalmente nos países católicos, como o Brasil. An­tônio pediu silêncio a seus amigos e prosseguiu:

— Tudo que posso dizer é: ouça e depois decida. Se você quer e está pronta para ouvir, eu explicarei o que está envolvido nessa história.

Fernanda e as demais mulheres da sala fizeram sinal afirma­tivo com a cabeça.

— Antes de encarnar nesta Terra, um espírito auxiliado por seus guias e mentores faz uma reflexão sobre suas vidas passadas. Depois, eles começam a moldar uma nova encarnação, que pre­cisa estar afinada com a vibração e o carma do própro espírito.

Antônio olhou ao redor da sala para se assegurar de que to­dos estavam entendendo suas palavras. Então ele falou direta­mente para Fernanda:

— Em outras palavras, Fê, você escolheu a sua vida. Trabalhando com seus guias, você talhou uma encarnação na qual você iria enfrentar situações e circunstâncias necessárias ao crescimen­to de seu espírito.

Almeida interrompeu sua explicação e avisou ao grupo que ele iria fazer algo que raramente fazia: usar seus poderes paranormais.

— As pessoas desta Terra costumam consultar médiuns ou videntes para saber como viver suas vidas. Mas vocês estão encarnados para viver no aqui e no agora, e não no futuro ou no pas­sado. Vocês estão nesta Terra para fazer suas próprias escolhas. quero ajudar Fernanda a fazer uma escolha, não fazer a escolha por ela. E para isso vou ter que olhar para além deste aqui-agora.

Uma onda de expectativa tomou conta da sala. Preocupada, Fernanda olhou para Antônio, mas ele simplesmente sorriu, pe­dindo-lhe que relaxasse.

— Nada de ruim vai acontecer. Não vou invocar nenhuma alma penada. Eu vou simplesmente ler a sua alma.

Ele respirou fundo e continuou:

— Como todos os outros aqui, você traçou a vida que agora está vivendo. Você foi atraída por seus pais em virtude de um relacionamento carmático criado durante outras encarnações. Nesta vida, como criança você aprendeu com eles, e agora como adulta eles estão aprendendo com você. Você nasceu neste país porque na vibração do Brasil você está encontrando os desafios de que sua alma necessita. Você é uma advogada num país de injustiças onde os poderosos fazem as leis. Por causa disso, todo dia você tem que escolher entre as forças desta vibração e a voz interior de seu espírito. Ser uma advogada tentando cumprir a lei numa vi­bração como esta não é fácil, e você escolheu nascer neste país justamente por causa disso.

Fernanda perguntou o que ele queria dizer com aquilo. An­tônio explicou que sua profissão, a advocacia, era freqüentemen­te usada não para fazer justiça mas para obter vantagens.

— Você sabe a diferença. Seu espírito alcançou um ponto de evolução em que ele sabe onde fica a justiça. Você está nesta Ter­ra e neste país como uma talentosa advogada para fazer escolhas. Você, antes de reencarnar, traçou uma vida cheia de escolhas.

Almeida explicou que, à medida que evolui, o espírito depara com mais escolhas. Para explicar isso, Antônio utilizou um exemplo simples: um bebê.

— Um recém-nascido não pode escolher por si mesmo, en­tão poucas opções são oferecidas. Conforme a criança amadurece, as alternativas se sucedem. Com o espírito acontece a mesma coisa. Um espírito primitivo não se adapta a uma vibração em que as escolhas são complexas. Ele não está pronto, e não have­ria nada para aprender numa vibração dessas. Vocês podem ver ago­ra a lógica e a perfeição do universo: as escolhas vêm somente quando estamos prontos. E, com o aparecimento de mais alterna­tivas, aumentam também as conseqüências.

Almeida dirigiu-se para Fernanda e falou:

— É por isso que eu disse que as razões por trás de sua esco­lha de abortar são irrelevantes. Razões são irrelevantes. O importante é a escolha, e também a intenção e a motivação por trás dessa escolha.

Alguém do grupo perguntou:

— Se Fernanda fizer o aborto, ela não estará impedindo um espírito de entrar neste mundo? Ela não estará impedindo uma ou­tra alma de viver sua vida? Isso não é assassinato?

Almeida explicou que uma pergunta dessas não poderia ser respondida com um simples "sim" ou "não".

O espírito que agora está ao lado dela esperando encarnar poderia ter criado essa situação para provocar Fernanda. Talvez esse espírito não esteja destinado a nascer e esteja cumprindo um papel carmático com ela, dando-lhe a chance de escolher. Nada acontece por acaso e nada é tão simples como parece.

Antônio ampliou sua resposta:

— Todo mundo enfrenta inúmeras escolhas todos os dias, e não cabe a ninguém dizer se as decisões foram certas ou erradas. Nenhuma pessoa pode dizer qual efeito terão as escolhas no carma de cada um.

Levantando-se da mesa onde estava sentado, Antônio cami­nhou até o lugar em que estava Fernanda.

— Vou conta uma história que vocês já ouviram muitas ve­zes. E, talvez porque já a tenham ouvido tantas vezes, devem es­tar cheios dela e desistiram de entendê-la. — Ele deu uma risada e acrescentou: — Eu sei disso porque quando era moleque eu não agüentava mais ouvir essa história.

Almeida disse que iria falar de Adão e Eva.

— Lembram-se deles, não? Aqueles adolescentes avoados que comeram na banca de frutas errada? Pois bem, vou analisar cada palavra, começando com a parte em que Deus soprou a vida num monte de pó. Esse sopro é chamado espírito. Deus pegou sua energia, ou seu espírito, e o colocou em nós. Nós viemos dele. Nós somos parte dele, e é isso que esta parte da história de Adão e Eva nos ensina.

Almeida então relembrou a parte em que Deus criou Eva a partir de uma costela de Adão.

— Adão nasceu do sopro ou espírito de Deus, e Eva foi criada a partir da costela de Adão. O cara que escreveu essa parte da Bíblia estava querendo dizer o seguinte: muitos a partir de um. Nós somos muitos e diferentes seres humanos. Mas todos nós temos a mesma origem.

Almeida esfregou as mãos e continuou com sua narrativa:



  • Até aquele momento, as coisas iam bem. Mas Deus tinha imposto uma condição. No meio do jardim havia uma árvore. Deus disse a Adão e Eva que tudo naquele jardim era deles, menos a árvore. Aquela árvore era o que lhes permitiria distinguir o que era bom do que era ruim. "Se comerem dessa fruta, vocês morrerão", foi o que ele disse aos dois.

  • Preciso esclarecer uma coisa — interpôs Almeida. — Nes­ta história, Adão simboliza a primeira leva de espíritos que encararam na Terra. Esses espíritos estavam apenas começando sua evolução aqui. Vocês se lembram do que eu falei sobre os bebês? Guardem isso na cabeça.

Sentindo uma certa inquietação nas pessoas que o ouviam, Almeida fez um pedido:

— Vocês estão esperando que eu chegue ao ponto. Devem es­tar perguntando o que isso tem a ver com aborto. Relaxem. Esta história tem tudo a ver com aborto, e com mais um monte de ou­tras coisas também.

Almeida continuou sua narrativa, dizendo que todos sabiam que uma cobra falante tinha aparecido para estragar tudo.

— A cobra disse a Eva que ela podia comer a fruta sem medo de morrer e que na verdade a maçã lhe daria conhecimento, deixando-a sábia como Deus. Bem, a gente sabe como a história terminou. Eva comeu a fruta e começou a menstruar. Adão teve que agüentar suas Tons e dali em diante iria ter que camelar para sobreviver. E ninguém na Terra, desde aquele dia, viveu feliz para sempre.

O grupo todo caiu na gargalhada. Almeida, num tom mais sé­rio, continuou:

— É lógico que não havia nenhuma cobra falante. Não havia, nenhuma árvore da sabedoria. Afinal, então, essa história é sobre o quê? Esse conto está com a gente desde o começo dos tempos. Existe verdade nele? Como eu sempre digo, há verdade em tudo. É o homem que, quando não entende a verdade, colo-ca baboseira.

Almeida descreveu-lhes o Éden como um jardim de beleza ma-jestosa, paz e harmonia. O Éden pertencia às altas vibrações, onde há equilíbrio perfeito e os ciclos da natureza estão em sin-cronia como os ciclos do espírito.

-Visualizem as cores mais puras ou o dia mais perfeito, que

vocês já vivenciaram e vocês terãojuma pequeníssima idéia de. como são as altas vibrações — ilustrou Antônio. — Todos os es­píritos foram criados dessa vibração e é para lá que todos os espíritos um dia retornarão. Mas, para isso, o espírito precisa estar li-vre dos apegos às vibrações baixas. A história do Gênesis é sobre isso: não basta comer uma maçã ou dizer uma prece ou ler um livro para evoluir. O que a história ensina é bem claro: para alcan­çar a mais alta, pura e leve vibração, nós precisamos experimen-tar,trabalhar, renascer, viver e morrer. Como foi dito nessa his­tória que acabei de contar, "do suor de seu rosto você comerá pão. até retomar para a terra, pois dela você foi tirado; você é pó e ao pó retornará". Nossos espíritos encarnam no pó. O pó_é o corpo físico, e esse corpo, quando morre, retorna ao pó da terra. Gênesis é sobre escolha,e nos diz que não há caminho fácil para encontrar a sabedoria que procuramos. Ninguém pode dar as suas respostas. Não há maçãs mágicas, árvores misteriosas ou orações místicas para iluminar sua alma. Somente você, na sua hora, pode descobrir por você mesmo o que é certo e o que é errado. E isso pode acontecer unicamente por meio da escolha e não porque você está seguindo uma ordem.

Ele fitou diretamente os olhos de sua amiga Fernanda quan­do disse:

— Eu poderia ajudar você nessa escolha, Fê. Eu vejo o espí­rito esperando ser seu filho. Eu posso até explicar por que ele es­colheu você. Mas não vou. Não posso ser sua macieira: a escolha é sua. É o seu carma, o seu trabalho, a sua decisão. Nada disso é meu ou -enfatizou, olhando diretamente para as amigas de Fer­nanda — de qualquer pessoa nesta sala. Uma escolha é uma de­cisão, e uma decisão não é certa ou errada.Você tem conhecimento e você sabe o que está envolvido.Você conhece todas as op­ções disponíveis. A escolha é sua, porque a vida é sua.

Almeida estava voltando para seu lugar na comprida mesa de madeira, quando parou e acrescentou:

— Ah! Por falar nisso, esqueçam todo aquele papo de pe­cado original. O pecado original é meramente um outro jeito de dizer apego: apego ao ego, à vaidade, ao orgulho e ao poder. Libertem-se desses apegos e voem para vibrações mais alta. Nossa amiga Eva queria ser como Deus, mas ela não estava pronta. Seu ego entrou no caminho.

Um homem idoso sentado num canto distante da sala levan­tou a mão e fez uma pergunta. Antônio, que agora estava sentado na mesa, acenou para ele.

— Você facilita demais as coisas, Antônio. As pessoas preci­sam de orientação e de alguém que diga o que é certo e o que é errado. Imagine onde a gente estaria se todo mundo fizesse o que bem entendesseTCTrnundo estaria um caos.

Almeida perdeu a paciência. Ele se levantou e não fez ques­tão de esconder sua frustração. Ele se dirigiu ao grupo num tom de voz mais alto que o habitual:

— Será que vocês não percebem que já estão no caos? Um caos criado pelo medo, pelo ciúme, pelo ódio! As pessoas já estão fazendo o que bem entendem, por isso vamos parar com a hipo­crisia de uma vez por todas.

Ele respirou fundo para recuperar a calma e disse:

— Lembram-se do que eu ensinei sobre intenções? Se você é adepto de uma determinada igreja, religião ou credo e segue seus ensinamentos por causa do medo, você não está evoluindo. Você está deixando o medo ser a sua motivação quando você diz: "É melhor eu fazer isso ou aquilo, assim estarei acumulando créditos no céu". O espírito que faz isso está deixando os outros controlarem sua vida, porque os outros é que estão tomando as decisões para ele. Se é para se render às crenças ou aos ideais alheios, qual se­ria então a razão de viver nesta esfera?

Almeida dirigiu-se novamente a Fernanda, falando agora num tom mais suave:

— Minha querida Fê, eu poderia dizer o que fazer, mas eu a amo demais para fazer isso. Eu poderia dizer que é errado fazer aborto, mas que bem isso faria? Pense e aja por si mesma, porque somente assim você vai aprender e crescer. E isso vale para todos vocês e é a minha mensagem. Foi por causa disso que eu voltei: para dizer a todos que deixem suas idéias preconcebidas para trás e que atirem seus medos no entulho da história.

Capítulo 11

Quarta-feira à tarde, ano 2015

OS FALSOS PROFETAS

O maquiador completou os últimos retoques no rosto de Mas-terson e em poucos minutos começaria a gravação dos programas Clube de Cristo que iriam ao ar na semana seguinte. Masterson sem­pre mantinha pelo menos uma semana de programas gravados com antecedência, o que lhe garantia flexibilidade para cumprir seus outros compromissos.

Francine Boyer, sua assistente, deu três batidas na porta e en­trou no camarim para avisar que a gravação iria começar em cin­co minutos. Olhando para ela pelo reflexo do espelho, Masterson fez um aceno com a mão e disse que já estava pronto para ir.

— Meus alemães estão lá fora — disse ele, sorrindo para si mes­mo. — Vou dar a eles aquilo que esperam.

Cerca de meia hora atrás, Masterson chegara a uma decisão final. Hoje, ele iria disparar os primeiros tiros de uma guerra. Essa guerra, ele sabia, seria uma luta crucial para o futuro da CCM, para o seu próprio futuro político e tudo o mais que ele construiu du­rante os últimos trinta anos.

Sentado no camarim, Masterson refletiu sobre aqueles trinta anos. Seu pai fora um juiz de interior no pequeno e pobre esta­do de Missouri. Honesto e severo, o pai o enviara para a Univer-sidade Bíblica de Missouri, onde aprenderia a ter disciplina e medo do Senhor.

Bob odiava aquela universidade religiosa, suportando-a mais por medo do senhor seu pai do que por medo do Senhor Divino. No terceiro ano da faculdade, porém, Masterson conheceu Betty, com quem namorou, noivou e, assim que se formaram, casou.

Jim, o pai de Betty, era tudo que o pai de Bob não era. O sogro bancou os estudos do genro na faculdade de direito da Univer­sidade de Missouri, onde Masterson se formou com honras em 1981. Ele era, então, aos vinte e quatro anos de idade, um advogado com um futuro brilhante pela frente, um futuro assegurado pelo convite do sogro para trabalhar em seu escritório de advocacia em Lexington, Kentucky. Masterson, no entanto, tinha outros planos.

Durante seu último ano de faculdade, ele se apaixonou pela televisão. Desde os anos sessenta ela havia tomado posse das salas das famílias, e Masterson sabia que o poder desse meio de co­municação só tendia a aumentar.

Masterson queria juntar o que ele considerava as duas forças mais poderosas do século_XX: religião e televisão. Ele dizia que quem pudesse arranjar esse casamento com sucesso teria um enorme poder.

Bob contou sua idéia ao sogro. Cético porém acessível, Jim Marlin ajudou Masterson a comprar a estação que em outubro daquele ano estrearia no canal 18 com o nome de TV CCM.

O resto é história. E quando Masterson saiu de seu camarim em direção ao cenário do Clube de Cristo ele literalmente pôde ver a história que ele escrevera. No novo complexo multimilionário da CCM, havia oito estúdios digitais de televisão e cinco conexões de satélite que transmitiam a programação da CCM para mais de cento e cinqüenta emissoras nos Estados Unidos e outras duzen­tas ao redor do mundo.

Mas o complexo de televisão era apenas uma parte do im­pério Masterson, composto ainda de um banco financeiro nas Ilhas Caimã, uma companhia de previdência privada que gera­va bilhões de dólares, mais de setenta e cinco estações de rádio, sete jornais diários e centenas de igrejas espalhadas em mais de sessenta e cinco países. Graças a essa base sólida, Masterson re­centemente pôde lançar uma rede comercial de TV com a qual esperava, um dia, competir com as maiores redes de televisão dos Estados Unidos.

Aguardando fora do palco pelo sinal de entrada, Masterson se preparava para começar a luta pela sobrevivência de seu impé­rio. Hoje ele começaria a combater o homem que, quando fala­va, era entendido por todos.

Bob Masterson sabia quem era Antônio Almeida, mas jamais contaria a alguém sobre esse homem que vinha aparecendo em seus sonhos nos últimos cinco anos. Na semana anterior, o sonhos se tornaram reais, e ele estava vivendo essa realidade durante toda esta semana. Ele teria de apagar essa realidade da face da Terra, ou ela o apagaria. Masterson estava perto de se tornar uma força chave na estrutura mundial e ninguém iria bloquear seu caminho.

O Banqueiro Bob (ele sabia como seus críticos o chamavam), desonesto com os outros, pelo menos era honesto consigo mesmo. Ele sabia que manipulara os medos, as ansiedades e as crenças das pessoas para chegar aonde chegou. Ele pregava as palavras de Deus, mas contratava pessoas para lhe dizer o que eram essas pa­lavras, e ele usou essas palavras para conseguir o que queria. E dentro de alguns minutos ele as usaria de novo. Dali a alguns ins­tantes ele falaria com seus fiéis e leais defensores. Eles eram, como dizia Mary Fried, seus "alemães do Beer Hall".

Enquanto a orquestra do estúdio tocava a música de abertu­ra, Masterson olhava para o palco. O novo cenário do Clube de Cristo era lindo, parecendo uma sala de estar da classe média alta americana. Bill Hanley tirou Bob de trás da mesa de entrevistas que ele vinha usando havia anos e o fez sentar-se numa cadeira de balanço de onde Masterson falaria informalmente com os con­vidados sentados no sofá.

Bob informou ao pessoal técnico que, antes de ir para a ca­deira, caminharia até o centro do palco, onde faria seu discurso de abertura. Quando a orquestra estava quase chegando ao fim da música, o locutor Joe Layton fez a apresentação do programa:

— E agora, diretamente de Louisville, Kentucky, com o mais antigo programa de entrevistas cristão do mundo, aqui está o lí­der espiritual da América, Bob Masterson.

O auditório aplaudia com entusiasmo. Masterson andou até o centro do palco e, sorrindo, agradeceu as palmas. Quando os aplau­sos cessaram, Masterson começou a falar para eles e para milhões de pessoas no mundo que estariam assistindo ao programa na pró­xima segunda-feira. Ele olhou diretamente para a câmera 2. Nes­se instante, a câmera enquadrou o tele-evangélico da cintura para cima, e, enquanto ele falava, ela se aproximou para um close seu rosto.

Masterson tirou o sorriso dos lábios e começou a falar.

— Tenho certeza de que vocês perceberam que começamos nosso programa de hoje de uma maneira diferente. Não estra­nhem, mas hoje quero falar pessoalmente a cada um de vocês. E achei melhor nem usar aquela linda cadeira que os produtores do programa fizeram para mim. Desta vez vou falar em pé, de frente para todos vocês, como Daniel entrando na cova do leão.

Masterson armou o espetáculo com estas frases iniciais. Isolando-se da opulência criada pela equipe de produção, ele se co-locou no mesmo nível dos espectadores. A platéia esperava an­siosamente as próximas palavras de Masterson, e o Banqueiro Bob não iria decepcionar.

— Nós estamos vivendo numa época perigosa. Vivemos na aurora de um novo milênio, quando a Bíblia diz que grandes mudanças balançarão a Terra. A nossa Bíblia e o nosso Deus dizem que precisamos desconfiar dos falsos profetas que usam seu nome mas que, na verdade falam em nome de Satanás.

Sua equipe, assim como a platéia, ouvia atentamente cada pa­lavra. A equipe, porque nunca sabia aonde Bob iria levá-la. A platéia, porque sempre sabia aonde Bob iria levá-la: para a Terra Prometida, para o céu e aleluias.

— Agora, eu quero avisar que os falsos profetas estão aqui. Es­tão vivendo e respirando entre nós. Eles chegaram, e logo sabe­remos quem são eles.

Ele parou, esperando o efeito de suas palavras. As câmeras de televisão focalizavam a platéia. Eles estavam em silêncio, alguns com os olhos fechados, orando. Masterson continuou:

— Amigos, nós precisamos renovar nossa fé em Deus e em seu único filho, Jesus. Não estou falando de uma profecia para uma época distante; isto está acontecendo agora. As palavras da Bíblia foram cumpridas. Os falsos profetas chegaram..

O auditório segurava a respiração. Aquele era o Bob Master­son que conheciam e amavam. Ele era o homem que falava com Deus e dividia a verdade divina.

Muito em breve vocês vão saber quem são eles. Eu irei, com ajuda de vocês, desmascarar suas mentiras, truques e fraudes. Esse é o motivo por que Deus nos deu esta poderosa arma chama­da televisão, estas câmeras, estes estúdios e os satélites que orbi­tam no espaço. Chegou a hora de usá-los em seu nome.

Dito isso, o auditório explodiu em améns e aleluias. Eles su­plicavam por mais, e o tele-evangélico não os decepcionou:

Vocês devem estar perguntando como é que eu sei quem

são esses falsos profetas? Eu respondo: Deus me deu um sinal, e eu vou dividir esse sinal com vocês agora.

O auditório silenciou. Bob ia dar-lhes uma visão. Eles deses­peradamente queriam ver. — Esses falsos profetas falarão de uma Nova Era. Todos nós já ouvimos essa babaquice antes: não há necessidade de religião para salvação e não há necessidade de Jesus. Nós sabemos que isso simplesmente não é verdade, concordam? Só há um caminho para a salvação, que é através de Jesus e da Bíblia.

O auditório, quase em uma só voz, gritava améns. Masterson levantou sua mão para acalmar os fiéis.

— Por favor... Por favor... O falso profeta — disse Bob, des­ta vez usando o singular — diz que fala em nome do Senhor. Algumas pessoas vão até dizer que ele é Jesus. E espalharão essa mal­dita mentira. Esse falso profeta veio para plantar dúvidas em seus corações. Mas vocês não ouvirão. Ele vem para espalhar medo, mas vocês não temerão, porque deram as suas almas a Jesus e eu estou do seu lado.

Masterson deu um passo em direção ao auditório, fazendo com que a câmera momentaneamente perdesse o foco.

— Esse falso profeta está aqui. Ele fala como um cordeiro, mas é tão esperto como um lobo. Tomem cuidado com ele. Ele vai Jogar pai contra filho, mãe contra filha e nação contra nação. Ele é o demônio, e vai usar toda a trapaça e astúcia que Satanás conhece tão bem.

O auditório de Masterson estava estupefato. O pessoal da Produção estava em estado de choque. Tanto um quanto o outro esperavam pelo que viria agora.

— Mas eu estou aqui com o poder absoluto e a glória de Deus que usará esta televisão e as estações de rádio para derrotar esse pagão. Deus destruirá esse homem que já vive entre nós. Ele diz que vem em nome da paz e do amor. Mas ouçam com atenção o que ele vai dizer, porque ele representa o oculto, Satanás e a bru­xaria. Há anos nós ouvimos essa conversa fiada de Nova Era: reencarnação, vidas passadas e comunicação com espíritos mortos. Tudo isso é profano, tudo isso é ímpio Tudo isso se opõe aos princípios cristãos. Mas não tenham medo: eu vi o inimigo, e por meio da CCM eu comandarei todo o Exército de Deus para combater esse inimigo e suas mentiras.

O auditório levantou-se, aplaudindo em pé. Masterson, ain­da postado na frente deles, sorriu enquanto o diretor da televisão inseria um intervalo comercial.

Capítulo l2

Tarde da mesma quarta-feira, ano 2015



VIDA E MORTE


"Então sonhou: estava posta sobre a terra uma escada, cujo topo chegava ao céu; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela."
Gênesis 28:12
"...todos eles, como um vestido, envelhecerão; como roupa os muda-
rás
, e ficarão mudados."

Salmos 102:26

O Hospital das Clínicas é um dos maiores hospitais de São Paulo. Devido ao seu grande porte, ele é dividido em várias uni­dades, cada qual destinada a um fim específico.

Com a permissão da administração, Antônio Almeida visi-tavao hospital pelo menos duas vezes por mês. Naquela tarde de quarta-feira ele apareceu num setor relegado do hospital: a ala da morte, onde pacientes terminais sem dinheiro ou família espera­vam a morte chegar. A última lembrança da Terra desses pacien­tes seria o grande quarto com suas paredes nuas e brancas, o frio profissionalismo dos enfermeiros e os últimos suspiros de vida de seus colegas de quarto.

No quarto visitado por Almeida cabiam seis camas, mas nes­se dia apenas três__estavam ocupadas. Deitada no leito mais próximo à porta estava Rosa, uma velha senhora cujo corpo com cân-£êl_anunciava as horas finais de sua jornada de setenta e três anos na Terra.

Ao lado dela, no meio do quarto, estava Manuel. Seu cora-Çao não conseguia mais bombear o sangue, e em poucas horas ele também passaria desta dimensão para outra. Diferentemente Rosa, ele tinha apenas trinta e um anos de idade, mas, como e não teria família ou amigos ao redor de sua cama nessas suas mas horas.

No terceira leito estava Felipe, de cinqüenta e dois anos. S fígado estava apodrecido em virtude dos anos e dos rios de álcool que ele consumira. Sua pele estava amarelada e inchada, porque algumas horas atrás seus rins pararam de funcionar e começaram a espalhar veneno por todo o seu corpo. Felipe também estava se preparando para a morte.

Várias ondas de som flutuavam pela ala da morte. Do interior do hospital vinha o som metálico dos carrinhos de comida de remédios que circulavam pelos corredores estreitos. De um ponto mais distante, o barulho do trânsito caótico de São Paulo entrava pelas pequenas janelas abertas. E finalmente a última onda: gritos e gargalhadas de crianças brincando num parque pró­ximo. Todos esses sons diferentes diluíam-se num só. Eles se tor­naram o som da vida no quarto da morte.

Quando Antônio entrou no quarto, Rosa acenou fracamen­te e sorriu para ele. Sentando-se numa cadeira em frente aos três pacientes, Almeida sorriu e acenou de volta.

— Oi, meu nome é Antônio. Eu venho aqui de vez em quan­do para ver se há alguma coisa que eu possa fazer, talvez levar um recado, escrever uma carta ou simplesmente bater um papo. Eu estou cem por cento à sua disposição. Usem e abusem, eu não tenão mais nenhum lugar para ir hoje.

Manuel tossiu e brincou:

— Nem nós.

Almeida e Rosa sorriram. Felipe olhava fixo com seus olhos fundos.

— Você está certo — respondeu Antônio —, mas está erra­do também. Vocês três têm um lugar para ir. A maioria das pes­soas diria que vocês vão morrer. Eu nunca gostei dessa palavra, mor­te, porém é a única que temos. Nós podemos falar sobre a morte, se quiserem.

Manuel sacudiu os ombros e perguntou:

- Você é médico, padre ou qualquer coisa do gênero? Aonde nós vamos? Fazer mais exames?

Felipe, ainda mudo, ouviu as perguntas de Manuel e dirigiu o olhar para Antônio, esperando uma resposta.

— Bem, Manuel — disse Antônio, lendo o nome na placa pre­sa ao pé da cama. — Eu não sou padre nem médico. E vocês já estiveram aonde vão

— Antônio acrescentou que gostaria de conhecê-los, mas sob uma condição: não queria falar sobre doença.

— As enfermeiras me colocaram a par de tudo, então não vamos falar de seus corpos. Aliás, dentro de algumas horas vocês estarão jogando esses corpos fora.

Rosa, numa voz fraca e baixa, apresentou-se:

— Meu nome é Rosa Rodrigues. Tenho setenta e três anos de idade e sei que não chegarei aos setenta e quatro. Para falar a ver­dade, duvido que esteja aqui amanhã. Mas não estou com medo. Tive uma vida dura mas boa. Eu sempre soube me virar. Enterrei dois maridos e trabalhei a vida toda. Não tive filhos porque não pude. E isso aí: não tenho ninguém, então estou aqui neste quarto esperando a morte. — E, olhando para as outras duas camas ocu­padas, comentou: — Como eles.

Manuel sorriu e Felipe olhou para o teto do quarto.

— Alguns mais cedo do que outros — sussurrou Felipe.

— Eu sei — disse Antônio com suavidade. — Estou aqui por causa disso. Nós podemos falar sobre o tempo, futebol ou até mes­mo fofocar sobre artistas. Qualquer coisa. Ou nós podemos falar sobre o que está chegando: a morte.

Felipe, para quem cada palavra era um esforço, começou onde Manuel havia terminado:

— Se você não é um padre, você é o quê? Um assistente so­cial? Um pregador?

Almeida respondeu perguntando por que era tão importante saber quem ele era.

Considere-me simplesmente um amigo — acrescentou. Manuel explicou a intenção de Felipe: Saber quem você é ajuda a gente a entender por que você está aqui. Nós não temos visitas. Se você é um padre, é seu dever estar aqui. Se é um pregador, você vai nos pedir para acei­tar Jesus.

Felipe e Rosa concordaram. Todos os três esperavam por sua resposta.

Almeida pensou cuidadosamente. A ala estava quieta, o silên­cio era quebrado apenas pelos sons da vida: as batidas dos carri­nhos, as buzinas dos carros na rua, os risos das crianças no parque.



Eu já disse que não sou padre, e também não sou prega­dor. Não vou pedir que vocês aceitem Jesus. Eu vou pedir a vocês para fazerem uma coisa mais difícil: eu quero que vocês aceitem. vocês mesmos.

As palavras de Antônio prenderam-lhes a atenção. O trio esperava ansiosamente pelo que ele falaria em seguida. Felipe ten­tou sentar, mas seu corpo estava fraco demais.

Rosa confessou que queria saber o que havia do outro lado.

— Eu aceitei Jesus há muito tempo e sei que ele estará esperando por mim — acrescentou firmemente.

— Se é isso que você espera — disse Antônio —, é isso que vai acontecer.

Sorrindo para Rosa, ele continuou:

— Isso me lembra uma piada. Acho que um pouco de risada cairia bem agora, então vamos nessa. Se bem que já vou avisan­do que não sou muito bom para contar piadas. Então, além de não ser padre, pregador ou assistente social, vocês vão descobrir que também não sou um comediante.

Os três deram um largo sorriso quando ele começou a piada. — "Era uma vez um casal que estava junto por mais de qua­renta anos. Quando chegaram à terceira idade, fizeram um pacto: quem morresse primeiro se comunicaria com o outro contando como era depois da morte. O marido, seu nome era Oscar, mor­reu primeiro. Uns meses se passaram e um dia o telefone tocou. A viúva atendeu:



  • "Oi, meu bem, sou eu" — disse a voz do outro lado.

  • "Oscar! Não posso acreditar! Onde você está? Como vai você?

-"Eu estou ótimo. Acordo todo dia às sete, e antes do meio-dia já fiz amor umas oito vezes. Aí eu almoço e transo mais dez vezes antes do jantar. Depois do jantar, até mais ou menos meia-noite, quando finalmente vou dormir, eu trepo pelo menos outras
dez vezes".

"Uau!" — exclamou a esposa. — "Você deve estar no céu".

"Não" — respondeu Oscar. — "Eu sou um coelho na

África".


Os quatro riram, e Manuel perguntou a Almeida o que ele achava que aconteceria depois que eles morressem.

  • Bem, posso garantir uma coisa: vocês não serão coelhos na África.

  • Graças a Deus — disse Manuel. — Eu preferiria ser um ca­chorro na casa de alguma madame rica. Eles vivem melhor do que muita gente.

Mais uma vez os três caíram na risada. Mas Almeida expli­cou por que aquilo estava fora de cogitação:

  • Espíritos humanos não voltam como animais porque o espírito foi criado com livre-arbítrio. Animais decidem por instinto; humanos, por escolha.

  • O que acontece, então? — perguntou Felipe. — Eu gos­taria de saber, já que isso vai acontecer comigo dentro de algumas horas. Todos nós sabemos por que estamos neste quarto: acabaram-se todas as esperanças, o tempo está se esgotando e o juiz vai dar o apito final.

Esperança, medo e ansiedade tomaram conta da sala quieta, e uma onda do som da vida morreu: os ruídos dos carrinhos de co­mida e de remédio desapareceram, deixando apenas o barulho abafado do tráfego da cidade e a gritaria das crianças brincando.

— A morte é igual e ao mesmo tempo diferente para todos. — explicou Almeida. A morte de cada pessoa é idêntica por­que o término desta vida é o renascimento para uma outra. Há or­dem na vida, há ordem na morte, como também há ordem para o renascimento.

Tossindo por causa do líquido enchendo seus pulmões, Ma­nuel disse para Almeida que não tinha entendido nada:

— Por favor, simplifique. Eu quero entender. Antônio sorriu e explicou:

— Neste instante vocês estão esperando a morte chegar. Ne­nhum de vocês tem mais que algumas horas de vida sobrando na esfera terrestre. Mas neste messmo hospital, não muito longe da­qui, há um outro quarto. Nesse quarto, espíritos estão entrando nesta esfera terrestre. Para eles, a passagem está começando. Para vocês, a passagem chegou ao fim. Mas — ressalvou — as aparên­cias enganam.

Almeida pediu a Rosa, Felipe e Manuel que fechassem os olhos e caminhassem com ele até o quarto de que ele falara. Com sua voz calma e firme, Antônio guiou-os por uma viagem imaginária pelo hospital, passando por médicos e enfermeiras, atravessando vários corredores, até chegarem ao berçário.

— Olhem para aqueles bebês nos berços. Alguns estão confusos e desorientados. Eles estão se adaptando aos corpos físicos. Durante os últimos meses eles abaixaram sua vibração espiritual para poder encarnar dentro dos ventres de suas mães. Daí, eles nas­ceram, da mesma maneira como vocês, poucos anos atrás, nasce­ram. Vocês acham que tudo isso é por acidente, sem plano, sem razão? Vocês acham que vida e morte e tudo que acontece no meio não têm significado?

Os três pacientes prestes a morrer observavam a fileira de re­cém-nascidos à sua frente enquanto ouviam Almeida.

— Vocês nascerão de novo assim como eles e como vocês mes­mos nasceram.

Agora, o barulho do tráfego na ala da morte também havia sumido. O único som que se ouvia era o das crianças do parque e a voz de Antônio.

— Eu disse que a vida e a morte são a mesma coisa para todo mundo. E eu disse que a vida e a morte também são diferentes para todos. Agora eu vou explicar.

Com a imagem dos recém-nascidos ainda na mente dos três, o jovem continuou:

— Nascimento e morte... São simplesmente mudanças de uma forma de vida para outra. Na morte, você deixa esta terra e volta para o espírito. No nascimento, você deixa o espírito e en­tra na Terra. Um é uma conseqüência natural do outro. Almeida passou a explicar as diferenças:


  • Antes de nascer, o espírito traça a vida que vai levar. Um espírito, dependendo do nível de desenvolvimento e de seu dese­jo de evoluir, é atraído para uma vibração onde encontrará desa­fios, lições e situações necessárias para seu desenvolvimento. Mas, assim que o espírito nasce, ele se esquece desse plano.

  • Por que esquecemos? Não seria melhor se soubéssemos o que estamos fazendo aqui? — interrompeu Felipe. Manuel e Rosa concordaram com ele.

Almeida respondeu:

— Não seria mais fácil fazer uma prova se você já soubesse as perguntas? Claro que seria. Mas e daí? O que foi aprendido? Essa amnésia espiritual também é parte da ordem universal. Vocês gostariam de saber tudo que fizeram nas vidas passadas? Como vocês poderiam viyer no aqui e no agora desta vida se vocês constante-mente se lembrassem das outras vidas? Nascer significa vir para esta vida, não reviver as outras.

Antônio definiu a diferença entre nascimento e morte:

— Na morte, a vida terrestre é deixada para trás e a vida em espírito recomeça. No nascimento, tudo que veio antes é esque­cido, mas na morte vocês se lembram de tudo. Um espírito, de­pois de um período de ajuste, vai gradualmente lembrando que ele é a soma de todas as suas encarnações passadas. Na morte desco­brimos quem realmente somos.

Manuel lembrou Almeida de sua promessa de explicar como o nascimento e a morte poderiam ser a mesma coisa para todos e ao mesmo tempo ser diferentes para cada pessoa.

— A resposta é fácil: cada um de vocês é único. Cada espírito, desde o momento da criação, evolui por si próprio. Vocês não são robôs seguindo ordens de um Deus invisível. Vocês têm suas próprias vontades, e os resultados de suas vontades determinam suas vidas. Diferentes escolhas provocam diferentes evoluções.

Antônio esperou um momento antes de prosseguir. Ele que-ria ter certeza de que Rosa, Manuel e Felipe haviam entendido.

Manuel, que pedira uma explicação simples, sorriu e fez um sinal para que Antônio continuasse.

— Aqueles recém-nascidos também são os totais de seus pas­sados. Eles não estão começando da estaca zero. Eles estão ini­ciando suas novas vidas na Terra no lugar onde as velhas vidas os levaram. Cada espírito tem experiências únicas para viver, novos relacionamentos para desenvolver e velhos relacionamentos para equilibrar. Vocês todos entraram neste mundo da mesma manei-fãTmãTestão aqui por razões diferentes.

Apesar de respirarem com dificuldade e sentirem dores insu­portáveis, os três estavam ligados em suas palavras.

— Nesta vida que estão vivendo agora, vocês três trilharam caminhos distintos. Chegou o fim de seu tempo aqui e logo vocês renascerão em uma outra vida, a vida do espírito.

Um por um os bebês começaram a desaparecer. Um por um, fileira após fileira, até que só três restaram. Três recém-nascidos chamados Rosa, Manuel e Felipe.

— Vejam como vocês eram. Olhem para esses bebês: são vo­cês poucos anos atrás.

Os três pacientes, em seus momentos finais neste plano, vi­ram a si mesmos em seus momentos iniciais na Terra. Antônio pas­sou a falar com eles individualmente.

— Rosa você encarnou há setenta e três anos dentro deste corpo que em alguns minutos vai desistir da vida. Antes de nas­cer, você mesma chegou às suas próprias conclusões sobre as ne­cessidades, vontades e ideais de evolução de seu espírito. Em suas outras vidas, você sempre foi um espírito dependente, sem a confiança para acreditar em seus próprios sentimentos e idéias. Você concordou com seus guias e mentores quando, durante sua revisão cármica, foi mostrado que você precisava desenvolver sua au-tóçíinfiança e sua independência.

A velha senhora cujo corpo fora devorado pelo câncer olhou espantada para o recém-nascido à sua frente, vendo uma aura de luz pura rodeando o bebê. Ela era o bebê e o bebê era ela.

— Você escolheu levar uma vida sozinha e solitária. Você desenhou as circunstâncias desta última passagem na Terra.

Antônio pediu-lhe então que prestasse muita atenção, por­que uma senhora idosa acabava de aparecer ao lado do bebê Rosa. O nome da senhora também era Rosa.

Você pode ver, minha querida, quanto você viajou nesta

vida? perguntou Antônio. — Você pode ver como seu espírito é diferente e ao mesmo tempo o mesmo que era setenta e três anos atrás?

A imagem da velha Rosa sorriu para a recém-nascida Rosa en­quanto o agonizante corpo de Rosa olhava.

— Seu espírito cresceu na escola da Terra e você acrescen­tou a ele segurança e autodeterminação. Depois desta encarnação, sua capacidade de usar o livre-arbítrio está mais forte. Agora você está pronta para assumir e enfrentar maiores responsabilidades. Você não e mais o espírito dependente, medroso e tímido que nasceu setenta e três anos atrás. Você está pronta para prosseguir.

Rosa olhava para as imagens aos pés do leito, enquanto Al­meida terminava de falar.

— Você, Rosa, teve uma vida dura. Você começou a traba­lhar quando ainda era criança,"sendo cozinheira, empregada, lavadeira e babá. Mas essa vida foi o resultado das outras, assim como a próxima será o resultado desta.

Almeida voltou a falar para o três, comentando que na pas­sagem desta dimensão para a próxima eles entenderiam melhor es­sas vidas que estavam terminando.

— Vocês, orientados por seus guias e mentores, olharão para esta e outras encarnações. Vocês verão todas elas à sua fren­te compondo o mapa que e a viagem de sua alma.

Manuel estava concentrado em seu ser-criança. O bebê esta­va rodeado pela mesma aura de energia branca do bebê Rosa. Al­meida falou diretamente a ele:

— Manuel, você veio à Terra como um espírito que não entendia a solidão. Por isso, não conseguia compreender as conseqüên­cias de seus atos numa vida anterior. Você nasceu para aprender a partir da negligência, do abandono e da indiferença dos outros.

O paciente viu não só o recém-nascido ao pé da cama mas também a si mesmo na vida anterior a esta. A imagem era de um empresário bonito, rico e cheio de sucesso. Manuel sorriu quando reconheceu a si próprio.

— Naquela encarnação você sacrificou tudo por sua carrei­ra: a família, os filhos e os amigos. Tudo e todos.

Quando Almeida disse essas palavras, uma pequena família se formou ao redor do empresário Manuel.

— Sua esposa se sentia abandonada e você a fazia sentir que ela não estava à sua altura. Seus dois filhos pequenos, apesar de terem herdado sua grande fortuna, nunca tiveram seu amor ou atenção. Sua negligência, e não seu dinheiro, foi sua verdadeira herança naquela vida.

Manuel assistia a tudo com incredulidade, enquanto Almeida continuava com a narração:

— Mas como é que você poderia entender as conseqüências de seus atos naquela vida se você nunca sentira as conseqüências do abandono? Entrou em campo, então, a grande força do carma. O carma, com seu consentimento e ciência, permitiu a você apren-. der o que é solidão. Nesta vida que está chegando ao fim, você saiu de casa cedo. Abandonar o lar não significou muito para você porque seu pai morreu quando você tinha uns dez anos de idade, sua mãe o abandonou para se casar de novo, e a tia que o criou só o fez por obrigação.

Após ligeira pausa, Antônio continuou:

Você veio a esta cidade para ganhar a vida. Após anos de trabalhos humildes e pesados, você descobriu que havia deixado a pobreza miserável de casa para viver uma pobreza miserável e in­diferente na cidade grande. Você trabalhou toda a sua vida carregando tijolos, misturando concreto e quebrando pedras. E agora tudo está terminando, aqui nesta ala de caridade, onde você está sozinho. Durante sua vida você não sentiu, nenhuma vez, o toque de uma mão humana estendida com amor e nenhuma vez, quan­do criança, você sentiu o companheirismo de um pai, de um ir­mão ou o carinho de uma mãe.

Manuel sufocou um choro.

— Mas nunca se esqueça de uma coisa, Manuel: esta vida que está acabando não foi castigo nem compensação pela vida anterior. Esta vida atual foi uma conseqüência do que tinha vindo antes. Você aprendeu. Agora você é ainda mais responsável por seus atos e por seus pensamentos. Você também, Manuel, não é o mesmo espírito que nasceu na Terra trinta e um anos atrás. Falando para os três, Almeida acrescentou:

E muito em breve vocês vão ver o quanto mudaram.

Almeida voltou sua atenção para Felipe, que, sem nenhum entusiasmo, esperava a trama de sua vida começar ao pé da cama, onde ele também se via como um recém-nascido.

— Sua história é diferente, Felipe. Você começou esta vida com tudo: uma família rica que lhe oferecia todas as oportunida­des e privilégios.

Almeida caminhou, parando ao lado do recém-nascido que era Felipe cinqüenta e dois anos atrás.

— Você não nasceu na pobreza e na solidão, como Rosa e Ma­nuel. Mas um tipo diferente de pobreza tomou conta de você: medo. O medo de não corresponder às expectativas e exigências de sua família. Você se entregou ao medo de fracassar, ao medo da responsabilidade e por último ao medo de viver a vida.

Uma lágrima rolou pelo rosto inchado e amarelado de Feli­pe enquanto Antônio continuava:

— Você apelou para as drogas e o álcool para silenciar o medo e fugir das expectativas. Suas escolhas o trouxeram aqui, onde você vai morrer sozinho.

De repente, do nada, uma luz suave e poderosa cobriu a cama de Felipe. Almeida olhou para a luz e sorriu, como se estivesse ven­do um velho amigo.

— Porém — disse ele a Felipe — você nunca estava sozinho. Nem por um momento. Você escolheu a vida que viveu, do mes­mo jeito que Rosa e Manuel escolheram a deles. E, como eles ti­nham razões diferentes para seguir seus caminhos, você também tinha a sua.

Felipe olhou para Almeida com uma pergunta em seus olhos.

— Em suas várias vidas aqui, meu amigo, você nunca carre­gou os fardos da responsabilidade. Antes de nascer nesta vida atual, você escolheu aprender como era isso. Seu espírito preci­sava entender, como só a escola terrestre pode ensinar, o que é ser responsável pelo bem-estar dos outros, por seus empregos e pela segurança financeira de suas famílias. Isso não se pode aprender no mundo astral. Então, você nasceu numa família industrial rica. Esperavam que você tomasse conta dos negócios familiares. Você freqüentou as melhores escolas, faculdades e universidades em preparação para isso. Todas as oportunidades imagináveis lhe fo­ram dadas para que pudesse assumir aquelas responsabilidades.

Felipe virou-se para seus dois companheiros de quarto e daí para Almeida. E simplesmente declarou:

— Eu falhei.

— Quem disse que você falhou? Você encarnou para aprender. Você aprendeu. Você aprendeu como os pesos dessas responsabilidades podem sobrecarregar um espírito. Sentiu essas obriga­ções sufocando, reprimindo e estrangulando você com medo. Você aprendeu como o medo paralisa, aleija e engole o livre-arbítrio de um espírito. Você também, Felipe, não é mais o mesmo espírito que entrou naquele corpo infantil. Agora, porque sentiu na pele, você conhece o peso da responsabilidade.

Almeida, observando a luz que cobria o leito de morte de Fe­lipe, percebeu que havia mais duas luzes no quarto, uma com Ma­nuel e outra com Rosa. Olhando para os três, declarou:

— Está chegando a hora. Lembrem-se disto: nenhum de você é melhor que o outro. Nenhum é mais correto ou mais perfeito. E façam um favor para vocês mesmos: esqueçam toda essa bes­teira sobre o julgamento furioso de Deus.

Rosa, devagarinho, levantou um dedo, sinalizando que que­ria falar.

— Como pode ser isso? — Sua voz era pouco mais que um sus­surro. — Eu trabalhei duro e muito. Eu nunca bebi e nunca usei drogas. Como podemos ser iguais? Felipe, como ele mesmo disse, foi presenteado com oportunidades e privilégios com os quais eu só sonhava. Ele jogou sua vida fora. Como você pode dizer que nada disso faz diferença?

Manuel concordou com ela, e Felipe disse:

— Ela está certa. Eu baguncei tudo e desperdicei esta vida.

Rosa, presunçosamente, acrescentou:

- Tá vendo? Ele mesmo admite. Como você pode comparar a minha vida com a dele? Eu não tinha nada quando entrei neste mundo, mas eu não senti pena de mim. Ele, por outro lado,
veio com tudo e vai sem nada. Ele perdeu a sua chance e vai ter que pagar por isso.

Antônio saiu de sua cadeira e caminhou até a janela, momen­taneamente virando suas costas para os três. Através da janela ele observou o movimento da cidade, depois virou-se e encarou os pacientes.

— Vocês não enxergam a beleza e a harmonia do que está acontecendo neste quarto? Não conseguem enxergar a perfeição da vida? Rosa, você realmente viveu uma vida difícil e aprendeu. Você vai levar desta encarnação os atributos positivos de coragem, dignidade e humildade. Mas — acrescentou, olhando para Feli­pe, porém falando com Rosa — a dureza de sua vida lhe fez perder algumas coisas. Onde está sua compaixão? Onde está sua com­preensão? Onde está sua empatia por uma alma deitada duas camas ao lado da sua?

Rosa e Manuel, em silêncio, olhavam para o teto do quarto, ainda não enxergando a luz que cobria cada um. Os olhos de Fe­lipe estavam grudados em Antônio.

Almeida perguntou se eles se lembravam da parábola bíblica do mestre e seus servos.

— Antes de viajar, um proprietário de terras chamou seus três empregados. Cada um deles tinha diferentes aptidões, conhe­cimentos e habilidades, e de acordo com essas qualidades ele lhes deu diferentes quantias de dinheiro. Para o mais brilhante dos três ele deu cinco talentos.

Almeida parou para explicar que, naqueles tempos, talento era uma outra palavra para dinheiro, acrescentando:

— Porém não quero que vocês pensem em talento como di­nheiro. Essa não é uma história sobre capitalismo — brincou.

Antônio continuou com a história, lembrando que o mes­tre tinha dado dois talentos ao segundo e apenas um ao tercei­ro empregado.

— O proprietário avisou que poderiam fazer o que quisessem com seus talentos, e quando ele voltasse de sua viagem ele os cha­maria para acertarem as contas. Então o patrão viajou. Vocês sa­bem como a história termina. O cara que ganhou cinco talentos conseguiu dobrar o dinheiro. Quando o patrão voltou, ele deu os dez para ele. O segundo empregado, que recebeu dois, fez mais dois, devolvendo quatro. Mas o terceiro sujeito, que começou com um, ficou com medo e enterrou seu talento. Quando chegou a sua vez do acerto, ele desenterrou o talento e o devolveu. O patrão ficou zangado, porque aquele homem nem tentou usar o talento dado para ele.

Felipe, na certeza de que a história era dirigida a ele, olhou para Almeida. Mas Antônio, olhando para os três, disse que a maioria das pessoas pensa que essa parábola é sobre dinheiro.

— Elas estão erradas. Essa história é sobre responsabilidade e escolha. Todos levam, através de suas encarnações, o que o es­pírito aprendeu: são nossos talentos. Não é Deus quem distribui esses talentos. Os espíritos os adquirem durante suas sucessivas vidas em busca de evolução e desenvolvimento. E o espírito é li­vre para usar, ou não, seus talentos da maneira que quiser. Tudo depende de vocês. Vocês podem criar, desenvolver e fazer crescer esses talentos. Vocês podem até enterrá-los, como fez o terceiro empregado na história. A escolha é sua. Essa história ensina a lei suprema do universo: vocês precisam evoluir, crescer e se desen­volver para se reunirem com o criador.

Rosa, que conhecia bem a Bíblia, falou:

— É por isso que o mestre ficou bravo com o terceiro homem? Foi porque ele não usou o talento que recebeu?

Almeida respondeu dizendo que ela estava parcialmente certa.

— O mestre na história representa Deus. Isso é óbvio. Mas Deus nunca fica bravo. Naqueles tempos, os espíritos terrestres não estavam prontos para entender o que Deus realmente é. Por isso criaram a imagem de um Deus furioso e raivoso. Naquela época as pessoas aprendiam através do medo. Sua obediência era movi­da pelo medo do castigo. Elas não eram capazes de aprender de ou­tra maneira. Muitas histórias bíblicas e algumas religiões de hoje usam esse tipo de Deus para manter as pessoas na linha. Mas, vol­tando ao assunto, vocês lembram o que o mestre fez com os dois primeiros? Ele estava feliz com seus esforços e convidou os dois para morar com ele. Eles ficaram "unidos" com Deus. Não porque tiveram um lucro rápido, mas porque através da escolha desenvol­veram seus talentos. O terceiro foi banido da casa do mestre. Ele não tinha construído nada com o que possuiu. Ele ficou com medo. Então, não podia ser "unido" com seu mestre. Ele não evoluiu. Nesse momento, apenas o som do riso das crianças no parque preenchia aquele quarto. De todos os sons da vida, sobrara so­mente um.

— Vocês três vieram para a Terra como espíritos únicos, mas ao mesmo tempo iguais. Únicos porque vocês andaram diferen­tes caminhos e aprenderam diferentes lições, e iguais porque to­dos nós estamos ligados um ao outro, porque somos a imagem e semelhança do criador.

Dirigindo-se à velha senhora cujo corpo tremia de dor, An­tônio falou:

— Rosa, seu caminho foi duro, mas foi escolhido antes de você nascer. Dentro de poucos minutos, seu espírito vai deixar seu corpo desgastado. Você verá que ainda tem muito para apren­der: compaixão, tolerância e empatia. Vá. Você está livre. Acei­te você mesma pelo que você é: um espírito do Criador. Aceite os outros pelo que eles são: uma parte do Criador e uma parte de você. Aceite os outros pelo que eles são: espíritos do Criador que tomaram caminhos diferentes.. Aceite as suas fraquezas, fragilida­des e fracassos. Você disse que aceitou Jesus como seu salvador. Mi­nha querida Rosa, tudo que ele quer é que você aceite a si mes­ma, seus irmãos e suas irmãs.

Rosa suspirou e, antes de fechar os olhos para sempre, viu a luz que cobria sua cama. Ela descansou em seus últimos momen­tos na Terra.

Almeida voltou sua atenção para o homem do meio.

Manuel, você também viveu uma vida dura de pobreza e vagou entre a indiferença e a solidão. Logo você vai ver esta vida pelo que foi: um equilíbrio do carma e do espírito. Em uma outra vida você abandonou sua família pela carreira; nesta, você viveu sozinho e trabalhou em empregos humildes e pesados, não como um castigo, mas como equilíbrio e conseqüência.

Almeida pediu-lhe para virar os olhos para cima. Quando o fez, Manuel também viu a luz que flutuava sobre sua cama. An­tônio disse que ele não estava mais sozinho.

Felipe, olhando para Almeida, disse:

— Acho que você vai falar comigo agora. Não sei se vou gos­tar do que vai dizer.

Sem sorrir, Antônio falou com ele e com os outros dois.

— Você veio para a Terra a fim de aprender a assumir respon­sabilidades. Você enterrou seus talentos em drogas e álcool por­que temia suas obrigações.

Almeida parou para respirar. Os sons das crianças rindo eram fracos e distantes agora. O quarto estava quieto e tranqüilo. Quan­do recomeçou a falar, sua voz não era mais que um sussurro.

— Deixe esses medos aqui no plano terrestre. Você não fa­lhou, você mudou. Seu espírito aprendeu como é encolher-se de medo e ser incapaz de pensar, agir e decidir. Você não falhou, você aprendeu. Você não e o mesmo espírito que era há cinqüenta e dois anos, quando entrou nesta esfera.

Felipe sorriu para Almeida. Seu rosto estava ainda mais in­chado e amarelo por causa do veneno que corroia seu corpo. Numa voz rouca, quase inaudível, ele disse:

— Obrigado. As palavras são amáveis, mas sei que fui uma de­cepção para todo mundo, incluindo eu mesmo. Quando você con­tou aquela história da Bíblia, eu sabia que era o terceiro cara. Eu sou aquele que enterrou tudo que possuía. Agora vou ter que en­carar um mestre bravo que sabe que desperdicei a vida.

Almeida afastou as palavras de Felipe com um gesto de sua mão e respondeu categoricamente:

— Sinto decepcioná-lo, mas não há nenhum Deus bravo esperando. Não há nenhuma divindade pronta para julgá-lo culpado. Sim, houve oportunidades que você jogou fora. Mas, por outro lado, você aprendeu. Você agora compreende como o medo corrói e corrompe. Por que você acha que o medo existe? Nós estamos aqui para aprender, mesmo com o medo. Você aprendeu. Você cresceu.

Antônio apontou o dedo para cima. Felipe agora via a ener­gia pura e branca acima de sua cama.

— Vá com a luz — disse Antônio — e deixe seus medos para trás. Leve com você somente o que o medo ensinou. Você também não está mais sozinho.

Os três pacientes estavam em seus momentos finais na Ter­ra. Suas últimas lembranças do plano terrestre não seriam das paredes brancas e nuas ou do profissionalismo da equipe de en­fermagem. Seriam de Antônio Almeida, que havia entrado em seu quarto para falar sobre "o tempo, futebol e até mesmo fofo­cas de artistas".

— Nenhuma vida é perdida. Nenhuma vida é um fracasso — disse ele com paixão e convicção. — Nenhuma visita a esta esfe­ra terrestre termina em derrota. Isso não é possível. Mesmo as li-ções do medo, da fúria e da raiva são parte de sua evolução. Deus criou tudo. O medo, a fúria, a raiva e o ciúme coexistem com o amor, a coragem e a felicidade. Tudo faz parte da sua criação, e esses chamadas vibrações mais baixas existem para a nossa evolução. Nós escolhemos como usá-las. Alguns derrotam o ódio. Ou-tros vencem o medo. Alguns passam por cima do ciúme e outros controlam sua fúria. Outros não. Mas cada espírito aprende do seu próprio jeito e em seu próprio tempo. Nenhum espírito é me­lhor ou pior que outro. Todos são parte do todo e todos são liga-dos um ao outro. As vezes — ele deu uma olhadela para Felipe — nos aprendemos de maneiras nunca imaginadas. Olhe para dentro de seu espírito, Felipe. Olhe para dentro de você mesmo e você vai ver que, por causa do medo, você aprendeu compaixão. Use essa compaixão para ajudar outros espíritos a superar seus próprios medos. Ninguém entende melhor do que você como o medo pode paralisar e destruir. Use seu entendimento para ensi­nar os outros.

Enquanto Almeida falava, o sons das crianças brincando no parque foi sumindo, e da mesma forma desapareceram Rosa, Manuel e Felipe. Antônio sorriu quando os viu deixando seus corpos. Ele viu familiares, mortos há muito tempo, chegando para cumprimentá-los, enquanto os três passavam desta vida para a próxima.

Antônio continuou observando enquanto cada um deles era abraçado por sua própria luz especial. Felipe, olhando para trás em direção a seu corpo morto, deu uma olhada para Almeida.

— Obrigado — cochichou Felipe para Antônio. — E quem é você?

— Pergunte a Rosa. Ela sabe — brincou Almeida.

O silêncio tomava conta da ala da morte quando Antônio dei­xou o quarto, enquanto o círculo do tempo continuava e conti­nuava. Inquebrável e interminável.


Capítulo 13
Sexta-feira, ano 2015

AS FITAS ESTÃO PRONTAS

Hanley e Martelli foram convocados para uma reunião no escritório de Masterson. O chefe estava esperando. Ambos, Han­ley e Martelli, sabiam que seria uma reunião rápida e objetiva, sem tempo para conversa fiada ou amenidades sociais.



  • E então, Phil? — perguntou Masterson apontando a pas­ta de papéis trazida por Martelli. — O que você conseguiu?

  • Depende. Informações eu tenho muitas. Informações úteis, nada.

Hanley ouvia enquanto Masterson calmamente perguntou a Martelli o que ele queria dizer com "nada".

  • O cara é limpo. Há mais ou menos onze anos, quando Al meida tinha dezoito anos, o pai abriu um fundo de investimentos. Com juros, ganhos de capital e retornos de investimento, o fun-do vale hoje algo em torno dos três milhões de dólares. Mas — ressalvou — o garoto mal toca nesse dinheiro. Ele saca uns dois mil, três mil dólares por mês, só isso.

  • Quem está por trás dele? Há algum igreja, partido políti­co, seita?

  • Ninguém. Não há igreja, partido político, organização so­cial ou culto. Nadica de nada. Esse cara não pertence a ninguém a não ser a si mesmo.

Hanley meditou sobre as palavras de Martelli, pensando: "Isso era o que eu achava: Almeida pertence a ele mesmo e a mais ninguém."

Obviamente decepcionado, Bob Masterson agradeceu Mar­telli e o dispensou, ficando apenas com Hanley. Antes mesmo de Masterson perguntar, Hanley voluntariamente informou sobre as fitas.

— Elas estão prontas, todas editadas, compiladas, conferidas e indexadas. Eu as agrupei da melhor maneira que pude. E até so­brou tempo de fazer uma transcrição de cada fita.

Dito isso, ele se levantou da cadeira e entregou a Masterson três fitas de duas horas de duração cada, as cópias escritas e as fitas originais.

Masterson queria saber como ele editara as fitas.

— Bem, foi razoavelmente simples. Eu juntei tudo por assunto. Por exemplo, há várias palestras em que ele faz algumas interpretações bíblicas, então coloquei todos esses trechos jun­tos. Depois, há ocasiões em que ele discute questões sociais, como aborto, pena de morte, direitos da mulher, relações raciais, pobreza e fome. Também juntei essas. Há partes que chamo de "Nova Era", quando ele fala de meditacão, carma, Deus e o pós-vida.

Masterson olhou para as três pilhas separadas que Hanley co­locara em sua mesa. Olhando diretamente para Hanley, o evan­gélico perguntou o que ele achava de Antônio Almeida.

Hanley, sabendo que isso seria um dos assuntos da reunião, estava preparado.

— Ele é bom, Bob. Ele tem carisma. E domina o público sem esforço nenhum. Não importa se a audiência é grande ou peque­na, ele parece que está falando com cada pessoa, individualmen­te. Ele é muito persuasivo, graças em grande parte à sua sinceridade. Eu me lembro de uma fita em que Almeida estava pregando para umas quinhentas pessoas. Ele estava sendo importunado por um crente. O homem gritava, chamando Almeida de blasfemo, herege e filho de Satanás.

Hanley esperou a reação de Masterson. Ele soube da grava­ção de quarta-feira, quando Masterson, mesmo sem citar o nome de Antônio, tinha dito mais ou menos o que o crente falara para Almeida. Mas Masterson não fez nenhum comentário, então Han­ley continuou a falar sobre o jovem pregador.

— Almeida ficou ali parado, só ouvindo o que o homem queria falar. Ele não perdeu a calma e não levantou a voz. Quando o crente terminou, Almeida caminhou através da multidão e ficou
ao lado do indivíduo.

Veja bem — explicou Hanley —, havia mais de quinhentas pessoas naquele lugar. Almeida abriu o caminho pela multidão para ficar ao lado do cara.

Masterson ouvia, enquanto Hanley descrevia o que aconte­cera em seguida.

"O que é que eu falo que o assusta tanto?" — perguntou

Almeida ao crente. — "O que o deixa ficar tão irado? Você não lembra de sua Bíblia? Foi dito: 'Eu tenho outras ovelhas que não são deste rebanho Eu preciso trazê-las também e elas ouvirão a minha voz. Assim haverá um só rebanho e um só pastor' ".

Hanley contou a Masterson que Almeida, ainda segurando a mão do sujeito e em pé no meio da multidão, pregou:

"Parem de brigar entre vocês mesmos sobre qual religião ou pessoa é a mais correta, a mais santa ou a mais verdadeira. Há verdade em cada um e em todos vocês. E essa parece ser a verdade mais difícil para vocês entenderem. Mas, uma vez que apren­dam isso, não haverá necessidade de discutir, brigar ou temer um ao outro. Eu digo: há verdade nos padres e freiras que entregaram sua vida à fé. Há verdade no rabino que estudou o Talmude e ensina sua palavra. E há verdade e dignidade no pastor que aconselha seu rebanho e cura suas almas. A verdade está até mesmo no ateu que procura suas respostas de sua própria maneira. Em suma, há verdade em todos vocês".

— E aí, o que aconteceu? — perguntou Masterson.

— Nada, exceto que ele pediu a todos para rezar. E todo mun­do, até o crente, se ajoelharam.

Masterson quis saber o que Almeida fizera em seguida.

—Bem, eles começaram a rezar o pai-nosso, com Almeida explicando a cada passagem da oração.
Hanley pediu a seu chefe para esperar enquanto ele folhea­va as transcrições das fitas. Depois de achar o que estava procu­rando, Hanley narrou:


  • A multidão começa:

  • "Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome.

Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu".

Hanley descreveu que Almeida levantou a mão e pediu que a multidão o escutasse.

— "Nós o chamamos de Pai porque não sabemos do que o cha-mar. Nós o chamamos de Pai porque ele é o Pai que nos deu vida. Nós somos seus filhos e filhas. Nós todos somos as suas crianças".

- "Mas" — Hanley continuou lendo as palavras de Almeida — "ele é mais que Pai e nós somos mais que filhos. Ele é o Es-pírito Criador, e nossos espíritos são criados à sua imagem. Nós estamos nesta terra não para descobrir mas para redescobrir a magia de nossas próprias almas. Vocês esqueceram quem vocês são. A von-tadedeTe é que vocês na Terra se reúnam com seu Espírito, um Espírito que está sempre mudando e evoluindo. Vocês esqueceram que são todos iguais: vocês não são negros, brancos, asiáticos, bra­sileiros, africanos, franceses, russos ou americanos. Vocês são es­píritos. Mas na Terra vocês marcam as pessoas a ferro, como o gado: católicos, protestantes, crentes, judeus, budistas, muçulma­nos, e assim por diante. Vocês têm rótulos e categorias para todos e para tudo. Foram vocês que inventaram esses nomes e catego­rias, não ele. Seria melhor se vocês simplesmente proclamassem: NÓS SOMOS UM. Nós somos os filhos do mesmo Pai, nascidos para aprender, evoluir e ajudar um ao outro a achar nosso caminho devolta para ele. Nós precisamos voltar. Todos nós precisamos voltar para casa".

Hanley explicou que Almeida fizera um sinal para a multi­dão continuar com a oração, e todos juntos bradaram:

"O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido. Não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém"

Hanley contou a Masterson que mais uma vez Almeida ex­plicou para as pessoas o significado daquela oração:

— "Aqui está explicada a grande lei cármica: perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofen-dido. Vocês são filhos de Deus, vocês são os co-criadores desta terra. Sendo assim, o que vocês plantaram ontem será colhido amanhã. Vocês são responsáveis por seus atos e pensamentos. Por dividirem um com outro o Espírito dele, tudo que vocês fazem, falam ou pensam causa um murmúrio na criação, porque todos vocês fazem parte desta criação. Esses murmúrios afetam não só os outros mas vocês mesmos. Por isso, como a prece diz, perdoem aqueles que os ofenderam e causaram dor. Façam isso
por amor a vocês mesmos, porque assim vocês podem começar a quebrar o grande círculo cármico da vida".


  • "Depois vem a súplica: 'livrai-nos do mal'. O que se pede aqui é que ele os libere de vocês mesmos, porque vocês são res­ponsáveis por cada partícula de mal que há nesta vibração. Por quê? Lembram-se daqueles murmúrios? Vocês emanam vibrações de ciúme, ódio e medo criando as vibrações negativas dessa esfera".

  • "A paz na Terra começará quando vocês passarem a viver em harmonia com vocês mesmos. Só assim é que as tolas e estúpidas barreiras sexuais, raciais, religiosas e políticas que vocês criaram serão destruídas. Harmonia, paz e amor começam com vocês e com ninguém mais".

Masterson perguntou a Hanley como o encontro terminara.

  • Está tudo aqui — respondeu Hanley mostrando as três pastas.

  • Parece que você ficou bem ligado nesse Almeida — ob­servou Masterson. — O que está acontecendo? Essa colcha de retalhos de budismo, misticismo, espiritismo e tudo mais que ele inventa impressionou você?

  • Bob, ele é um orador excepcional. Ele trabalha uma mul­tidão melhor do que qualquer político, ator ou orador que eu já vi. E há ainda uma outra coisa que me veio à cabeça...

Masterson ficou curioso. Durante todos os anos que ele co­nheceu Hanley, ele nunca o tinha visto tão interessado, envolvi­do ou entusiasmado com um assunto.

— E o que seria? — A curiosidade de Masterson havia sido cutucada.

Aquela deixa era justamente o que Hanley estava esperando. E ele não a deixaria escapar.

— E se Almeida realmente for um mensageiro da Nova Era? Dê-me um segundo para explicar — disse ele, cortando qualquer possível interrupção de Masterson. — Se Almeida for verdadeiro, nada e ninguém vai poder pará-lo. Nem você, nem eu, nem as pesquisas de Mary Fried, com seus gráficos e dados. Nós podería­mos camuflar o assunto e criar controvérsias e uma nuvem de fu­maça sobre ele. Quem sabe ele pode até mesmo morrer, como o último que apareceu. — Hanley agora olhava serenamente nos olhos de seu chefe, e perguntou: — Já passou pela sua cabeça que esse cara pode ser real?

Masterson levantou-se e foi até o sofá sentar-se perto de Bill Hanley.

— Claro que já pensei nisso. Eu quase não penso em outra coi­sa — confessou sem emoção.

Hanley, encorajado, voltou a bater na mesma tecla:

— O fenômeno dos idiomas vai vir à tona. Alguém vai des­cobrir isso logo. Bob, eu entendi toda e qualquer palavra daque­la fita, as perguntas e as respostas. Ninguém alterou essas fitas, agora tenho certeza disso.

Masterson pegou um envelope que estava na mesa e disse:


  • Lembra que eu falei que iria mandar os originais para análise? Bem, aqui está a resposta. Custou cento e cinqüenta mil dó­lares para descobrir isso — disse ele, lendo o que estava escrito no relatório: — Nossa conclusão é que as fitas das gravações de ví­deo de um Sr. Antônio Almeida são as originais dos eventos des­critos nessas fitas. Nossa análise assegura, sem restrições ou he­sitações, que as gravações não foram alteradas, adulteradas ou falsificadas da versão original inglesa.

  • Versão original inglesa... — disse Hanley, sorrindo. — Eles também acharam que a fita estava em inglês!

Masterson sacudiu os braços e perguntou o que Hanley esta­va pensando.

— Traga-o aqui, antes que o fator "língua" seja revelado. Traga-o para Louisville, entreviste-o, debata com ele, faça o que você quiser. Será o maior acontecimento televisivo do milênio. Bob Masterson contra o Jesus da Nova Era o homem que fala em línguas.

Masterson não acreditou no que estava ouvindo.

— Você perdeu o juízo! Você quer que eu ponha Almeida

no ar,em minha rede de televisão, e mostre a sua cara em meus satélites para o mundo inteiro ver? Por que não deixar que ele en­tre neste escritório e tome conta do pedaço? Você pirou! — fina­lizou Masterson, bufando.

Hanley já esperava por isso. Masterson estava obviamente se sentindo ameaçado por Almeida. Mas, depois de vinte e sete anos trabalhando com o homem, Hanley sabia que muita água ainda iria rolar.

"Masterson também tem suas dúvidas sobre Almeida", pensou.

— Bob, preste atenção — apressou-se em dizer. — Nós esta­remos na frente dessa bola de neve que vai rolar montanha abai­xo assim que as pessoas sacarem o que está acontecendo. E ela vai nos cobrir.

Masterson, ainda bufando, deixou Hanley falar.

— Ponto 1: esse cara não está atrás de dinheiro. Ele está bem de vida e, como informou Martelli, nem usa o que tem. Ponto 2: as pessoas estão loucas por um messias; elas estão nervosas e com medo. O mundo está simplesmente ficando de cabeça para baixo com esse papo de fim do mundo, retorno de Jesus, milênio.

Hanley parou e olhou diretamente nos olhos do chefe. En­tão continuou:

— Agora, no ápice da histeria, aparece um cara que quando fala é entendido por todos, em qualquer lugar do mundo. Pronto: você tem um messias instantâneo. Você pode ir à televisão quan­tas vezes quiser e chamá-lo de falso profeta ou até mesmo de de­mônio. Mas eu acho que você não vai conseguir parar essa bola de neve, Bob.

Em todos os vinte e sete anos que Hanley trabalhou para Masterson, o produtor nunca falara assim com o chefe. Bill Han­ley estava surpreso consigo mesmo por sua audácia. Masterson, pelo menos nesse momento, estava chocado demais para respon­der, então Hanley, percebendo que levava vantagem, continuou pressionando.

— Traga Almeida aqui. Entreviste-o na frente desse auditório fanático que fica gritando améns. Atire tudo que você tem contra ele e deixe as coisas rolarem. Tente quebrá-lo. Se você conseguir, fará ao mundo um favor, e você será um herói. Afinal de contas, quem quer outro messias? Eles só causam confusão. 1

— E se ele não quebrar? — perguntou Masterson com um expressão séria.

Hanley estava preparado para isso também.

— Se fizermos tudo direitinho e mesmo assim você não conseguir quebrá-lo, todos o verão como um evangélico tolerante de mente aberta, que é a imagem que Mary Fried vem tentando criar para você nos últimos cinco anos. Você só pode ganhar. A CCM vai cobrir o maior evento religioso ou... a maior farsa reli­giosa do século! Bob — finalizou Hanley —, se Almeida for real, não há nada que possamos fazer.

Masterson estava furioso demais para tomar uma decisão. Como Hanley ousava falar com ele daquela forma? Se não fosse por Masterson, Hanley provavelmente estaria produzindo um jor­nalzinho em alguma emissora do interior.

— Você terminou!

Não era uma pergunta. Hanley não sabia de que modo enca­rar isso. Ele sorriu e perguntou:

— Para agora ou para sempre?

Masterson fitou Hanley intensamente e com um longo sus­piro lamentou:



Esqueça tudo isso. Talvez você tenha razão. Deixe-me pensar sobre isso durante o fim de semana. Eu devo receber os re­latórios de Mary em breve. E também quero dar uma olhada nes­sas cópias.

— Claro, o que você quiser.



  • Por falar nisso — perguntou Masterson timidamente —, cá entre nós, você acha que esse cara é de verdade? O que pensa o Bill Hanley agnóstico, cético e cínico a respeito de Antônio Almeida? Ele é o Cristo reencarnado?

  • Que tal uma resposta típica de Almeida? — disse Hanley, devolvendo o gracejo para Masterson, que sorriu e concordou. — Almeida é quem você pensa que ele é.


Capítulo 14

Noite da mesma sexta-feira, ano 2015 FITA UM

Masterson levou para casa as três fitas editadas e as trans­crições feitas por Hanley. Ele tinha folheado os textos em seu es­critório e viu que, como sempre, Hanley fizera um excelente trabalho. Seguindo suas instruções ao pé da letra, Hanley tinha editado três fitas de duas horas cada a partir das quatro originais. Ele eliminou as redundâncias, repetições e conseguiu organizar os discursos por tópicos.

Masterson estava sentado sozinho em sua biblioteca particu­lar, vestindo um roupão azul e branco solto e confortável. Depois de um jantar leve, ele estava pronto para assistir, ouvir e ler tudo que ele tinha em mãos sobre Antônio Almeida. De sua macia poltrona de couro marrom ele olhou para o relógio digital do vi­deocassete. A luz verde mostrava a hora: oito e cinqüenta e sete.

Sua esposa estava em Nova York, em uma de suas freqüentes viagens de compras, então ele estaria livre para pelo menos duas fi­tas, e, se conseguisse espantar o sono, veria todas as três. A primei­ra fita, que Hanley rotulou de No Que Eu Acredito, chamou sua aten­ção. Ele decidiu começar por ela e foi até o aparelho para inseri-la. O televisor deu sinal de vida assim que ele apertou o botão play, e, quando Masterson estava de volta à sua poltrona, a tela estava preenchida com o rosto agora familiar de Antônio Almeida.

O rapaz de vinte e nove anos estava falando num grande auditório para mais de mil pessoas. A câmera escondida da CCM devia estar a uns trinta metros do palco, porque a imagem ofere­cida da multidão era impressionante.

Uma voz saída do meio da multidão lançou uma pergunta. Al­meida ouviu a pergunta e repetiu-a em seu microfone para que to­dos pudessem ouvi-la.

— Um homem me perguntou no que eu acreditava — disse ele olhando para os rostos na platéia. — Vou começar dizendo isto: não se trata crença, mas de fatos.

"Que idiota presunçoso", pensou Masterson, rabiscando anotações no transcrito.
No televisor do evangélico, Almeida começou a elencar es­ses fatos.

— Em primeiro lugar, Deus existe. Vocês podem chamar de ele, ela ou o que quiserem: Inteligência Infinita, Mãe Pai Deus, Ser Supremo ou Espírito Universal Ou que tal "Deus do meu entendimento"? Isso não faz mais sentido? Pensem nisso por um se­gundo. Cada um tem uma concepção sobre Deus. Todos estão cer­tos, porque Deus é tudo.

Almeida perguntou se alguém tinha alguma dúvida sobre o que ele tinha dito.

— É claro que não — bufou Masterson em voz alta. — Você fez Deus tão fácil para eles!

A fita continuou passando, e Almeida continuou:

— Nós fomos todos criados à imagem de Deus. Sei que vo­cês ouviram isso trilhões de vezes, mas já pararam para pensar nis­so? Alguns de vocês são loiros, outros orientais, alguns são baixos, outros são gordos. Obviamente não somos a imagem física de Deus, isso seria impossível. Nossos espíritos é que são criados à sua imagem, por isso somos todos iguais no espírito. Somos todos ir­mãos e irmãs.



O jovem e bonito pregador sorriu para o público e levou sua explicação um passo adiante.

— Se todos nós fomos feitos à sua imagem, então todos nós somos ligados um ao outro. Por causa de Deus, cada um de nós é parte do outro, portanto somos responsáveis pelo outro e com o outro.

Antônio, olhando diretamente para a lente da câmera escondida, frisou:
— Eu acredito em Deus e acredito em vocês. Eu gostaria que vocês acreditassem em vocês mesmos.

Uma outra voz, essa mais próxima da câmera, foi captada pelo microfone. Havia uma certa hostilidade na pergunta:

— E quanto a Jesus? Você acredita nele?

"Boa!", pensou Masterson. "Até que enfim esse cara vai ter que assumir."

A câmera focalizou o rosto de Almeida, como se ela também estivesse esperando por essa pergunta. Masterson prestou muita atenção à resposta.

— Eu acredito em Jesus. Eu sei que ele foi, e é, o filho de Deus. Almeida parou por um segundo, e comentou:

— Fico contente que tenham feito essa pergunta. Não pode­ria ter vindo numa hora melhor, porque essa questão leva a esta resposta: todos nós somos filhos e filhas de Deus. Jesus não é mais nem menos filho de Deus do que vocês. Na verdade ele era, e é, Filho do Homem também.

Murmúrios de desaprovação e descrença rolaram entre o povo. Almeida sorria pacientemente enquanto esperava o bur­burinho cessar. Quando voltou a falar, sua voz era calma, suave e acolhedora:

— O nome de Jesus atrai tanta emoção e paixão... Não en­tendo por quê. Ele é filho de Deus, e vocês também. Ele nasceu como Filho do Homem para que os seres humanos pudessem se identificar com ele. Não sei por que vocês querem separar vocês de Jesus. Mas, se vocês têm tanta dificuldade de acreditar que vo­cês e ele são um e iguais, vou explicar então como vocês e ele são diferentes.

Masterson acompanhava atentamente, fazendo anotações nas margens do transcrito.

— Para começar, há diferentes níveis de vibração no universo. Uns são altos e outros baixos. Jesus falou a vocês sobre esses diversos níveis quando descreveu os diferentes quartos na man­são do Pai. O espírito que vocês chamam de Jesus veio da mais alta vibração.

O público silencioso prestava extrema atenção ao jovem.

— Jesus é o mestre deste mundo. Ele é o guarda da vibração terrestre. Ele é o professor dos professores e é o mais velho de uma grande família de irmãos. Ele é o Bodhisattva, no Oriente, é o Imam Mahdi para os muçulmanos. Dois mil anos atrás, quando en­trou na vibração terrestre, Jesus veio como um espírito de luz encarnado nesta vibração baixa da Terra. Ele veio para ensinar. Ele viveu uma vida em carne e osso para mostrar a todos desta vibra­ção como viver.


  • Ele mesmo disse: "Eu vim como uma luz nesse mundo, para que todos que acreditam em mim não fiquem na escuridão. E, se alguém. ouvir minhas palavras e não as guardar, eu não o julgarei, porque eu não vim para julgar o mundo, mas sim para salvar o mundo".

  • Vocês, meus amigos, compartilham o mesmo espírito que andou no corpo terrestre de Jesus. Vocês, ele e eu somos filhos de Deus. Somos todos criados à imagem e semelhança do Espí­rito Infinito.

A multidão estava silenciosa. Masterson, assistindo em sua casa, apontou o dedo para a TV e desafiou Almeida:

— Você parece tão convincente sem ninguém contestan­do... Eu queria ver você frente a frente com alguém que soubes­se o que está falando. Como eu!

No vídeo, Almeida continuava seu discurso:

— Jesus não pertence ao cristianismo, mas à humanidade. Ninguém é dono de Jesus e ninguém é dono de vocês.

Sem esperar por outra pergunta, Antônio prosseguiu, contando à multidão silenciosa no que mais ele acreditava. Masterson continuou fazendo suas anotações.


  • Vocês perguntaram no que eu acredito. Eu repito: eu não acredito, eu sei. Por exemplo, toda moralidade pode ser resumida nessa regra simples: Faça aos outros o que você faria a você mes­mo". Isso é verdade, porque "os outros são vocês. E, pela lei do carma, o que você fizer aos "outros" será, de uma maneira ou de outra, feito para "você".

  • Também é verdade quando declaro que a morte não existe! Ao invés da morte, há o renascimento. E nascimento é a mesma coisa que morte; tudo depende do lado da porta pelo qual a pessoa está passando. Se alguém está entrando neste mundo, vo­cês chamam de nascimento, e se alguém está indo para o mundo astral, vocês chamam de morte.

Uma senhora grisalha e gorda, beirando os sessenta anos, educadamente levantou a mão. Almeida viu-a e, levando seu mi­crofone, encaminhou-se até onde ela estava sentada. Chegando a seu lado, ele pediu-lhe que falasse ao microfone para que todos pudessem ouvir sua pergunta. Rindo, ele disse para ela que tinha aprendido essa técnica assistindo aos programas de entrevista da televisão. Até mesmo Masterson sorriu com a piada.

A senhora grisalha timidamente pediu que ele falasse um pouco mais sobre reencarnação.

— Olhem à sua volta — pediu ele ao público. — Vocês co­nhecem alguém aqui que é perfeito?

Não houve resposta.

— Pensem um pouco. Não há ninguém que vocês conheçam que é como Cristo? Não existe ninguém que vocês conheçam que vive sua vida como Jesus viveu a dele?

Ninguém respondeu.

— Esse silêncio não me surpreende, porque ninguém é per­feito. Se vocês fossem, não estariam nesta vibração. Agora — dis­se ele voltando para o palco —, vocês acreditam honestamente que Deus iria criar e depois amaldiçoar essas criações a uma vida eterna no inferno? Vocês não acham que ele os criou para uma coisa maior que apenas uma vida de dor e sofrimento na Terra?

Sua voz praticamente suplicava por entendimento, enquan­to continuava:

— Olhem ao seu redor e vocês verão que há um plano e uma razão para tudo. Porque alguns espíritos, criados à imagem dele, vivem nesta terra na pobreza, fome e ignorância, enquanto outros, também criados à sua imagem, vivem aparentemente no bem-bom? Eu pergunto: se vivêssemos apenas uma vida na Terra, isso seria justo? Ninguém é perfeito, e é quase impossível para qualquer espírito evoluir em uma única encarnação.

Almeida pediu-lhes que analisassem suas próprias vidas para ver exemplos do ciclo das passagens.

— Quando você passa de recém-nascido para criança, o recém-nascido morre e a criança nasce. Depois, na passagem da in-fância para a adolescência, a criança é que morre, com o adolescente tomando seu lugar. E um dia o adolescente vira adulto, e o adulto vira idoso. Essas são as mudanças que todos passam nesta vida: sempre mudando sempre morrendo e sempre nascendo de novo. A vida do espírito é assim também: sempre mudando, evoluindo e se desenvolvendo,

Bob Masterson anotou na margem do transcrito: "O cara sim­plifica tudo. Ele é muito bom. Ele convence".

No monitor do evangélico, Antônio Almeida continuava sua explicação:

— Como eu disse: nascimento e morte, não há realmente muita diferença.

Ele então informou ao público que estava pronto para expli­car uma outra verdade.


  • Todo mundo tem um direito divino, chamado de livre-arbítrio, por meio do qual o espírito evolui, aprende e também se responsabiliza pelas ações resultantes de suas escolhas. Isso não é um castigo, e também não é um prêmio. É simplesmente uma con­seqüência chamada carma. Quando vocês aprenderem que suas ações e motivações tem conseqüências, começarão a viver a vida para a qual foram criados.

  • É muito importante, então, que vocês não deixem ninguém viver a vida por vocês. 0 que é certo para uma pessoa pode não ser certo para você. Você cresce por causa do livre - arbítrio e aprende através da escolha.

Masterson bufava para a tela da televisão, dizendo que a maioria das pessoas são idiotas e precisa de alguém que as que as guie e ensine,

— Sem gente como eu — resmungou —, a maioria das pes­soas nesta terra estaria perdida.

A fita continuava a rodar no aparelho. De repente, a tela es­cureceu. As anotações de Hanley diziam que a próxima cena ti­nha sido gravada no mesmo auditório, mas depois que a multidão havia ido embora. Para esse segmento Hanley tinha dado o nome de Uma Explicação da Vida.

A câmera escondida mostrava Almeida sentado com cinco pessoas numa mesa, colocada no centro do palco. As anotações no pé da página explicavam que as cinco pessoas eram amigas ín­timas de Almeida. A jovem se chamava Fernanda. Hanley disse que ela aparecia em outros sermões. O senhor mais velho tinha o nome de Roberto e era budista. Outro homem, meio calvo, era Macedo, um ex-padre católico. Hanley não tinha certeza de quem era o garoto de cabelos loiros. E ele achava que a senhora mais velha de cabelos ondulados grisalhos era uma médium chamada Márcia.

Almeida, com a voz enrouquecida pelo sermão, falou casual mente com seus amigos:

— Há uma coisa que preciso explicar. Eu não tenho feito isso porque não quero deixar as pessoas confusas. Mas, como vocês sa­bem, há uma diferença entre espírito e alma. Eu costumo passar batido por esse assunto porque cada um vai conferir essa diferença quando chegar ao outro lado. Vou tentar explicar a diferença a vocês, e depois me digam se devo incluir isso nas palestras.

Os cinco concordaram, e o garoto loiro falou:

— Isso deve ser interessante.

Masterson, imitando sarcasticamente o garoto, disse para o aparelho de televisão:

— É, eu acho que essa merda vai ser bem interessante, também.

— Bem — começou Almeida —, o espírito é uma criação direta de Jesus, então o espírito é perfeito.

O garoto loiro de dezesseis anos interrompeu, perguntando como um espírito pode ser perfeito se há assassinos, estupradores e pessoas maldosas nesta terra.

— Eu vou chegar lá — respondeu Almeida. — O espírito é perfeito porque Deus é perfeito. Mas Deus é maior que o espírito porque espíritos e humanos são cópias ou "imagens" de Deus. En­tão os espíritos humanos não são originais, são cópias.

Os cinco amigos ouviam atentos.

— Deus criou espíritos para viver a experiência humana por­que através da humanidade eles têm experiências e evoluem com ele. Mas, para viver num corpo humano, o espírito também precisa criar sua própria imagem. E essa imagem é chamada de alma. A alma, ligada ao espírito perfeito, mora no corpo encarnado. Todo mundo está acompanhando? — perguntou.

Fernanda repetiu:

Nosso espírito vem do Criador, e nossa alma vem de nosso espírito. Até aqui, tudo bem.

Antônio comentou que estava contente por estarem todos en­tendendo, e continuou com a explicação:

— Antes de um espírito encarnar nesta vibração, a alma cria uma personalidade.

Notando a confusão nos olhos do garoto, Almeida procurou detalhar esse tópico:

Antes de retornar, ou nascer, nesta vibração, o espírito sabe do que precisa para evoluir. Ele escolhe o sexo mais adequa-do: masculino ou feminino. Ele molda uma forma: alto, gordo, baixo, inteligente ou não. O espírito, por meio da alma, selecio­na a raça: branco, negro, oriental, e assim por diante. Tudo isso para adquirir as condições para encontrar as circunstâncias, expe­riências e lições de que o espírito necessita para progredir. O conjunto dessas características geradas para o espírito pela alma é chamado de personalidade. O espírito, por intermédio da alma, cria uma cada vez que encarna. Entendeu? — perguntou, olhando di-retamente para o menino.

O adolescente sorriu, como se tivesse passado numa prova de matemática, e disse:

— Deus espelha o espírito, o espírito espelha a alma, e o es­pírito, através da alma, cria nossas personalidades.

Almeida passou a mão nos cabelos do garoto.

— Até aqui, tudo muito bem — disse, sorrindo com satisfa­ção —, mas há mais algumas coisas.

Bob resmungou sarcasticamente para o aparelho de televisão:

— Aposto que sim.

O jovem pregador prosseguiu:

— Nas filosofias esotéricas, a personalidade é freqüentemen­te chamada de "o ser mais baixo", porque ela, diferentemente do espírito e da alma não faz parte da energia da luz. Ela, por ter sido criada para viver nesta terra, pertence à carne.

O budista, que até aquele momento ouvia em silêncio, sor­riu e acrescentou:

— Isso é verdade. A personalidade está presa à vibração terretire. Ela, e só ela, está sujeita às limitações de tempo e espaço neste mundo.

Almeida concordou.

Márcia, a médium espírita, concordou também:

— São as personalidades que nascem e são as personalidades que morrem. E é por meio da personalidade que experienciamos o mundo terrestre e tudo que este mundo físico oferece. Há uma conexão da personal idade com a alma e da alma com o espírito. Nós chamamos isso de perispírito.

Almeida sorriu, dizendo que ela também estava certa.

— E é a personalidade que está presa à vibração terrestre, onde o bem e o mal existem — disse ele.

Macedo, o ex-padre católico, comentou:

— E o bem e o mal são forças reais criadas pelas personalidades que habitam este planeta.

— Você também está correto — afirmou Antônio.

Roberto, o budista, explicou que era isto que Buda procurava demonstrar quando ensinava meditação: "Olhe para dentro. Deixe a personalidade do lado de fora. Aquiete a mente, que é uma ferramenta da personalidade. Deixe de lado suas ambições, desejos e apegos da personalidade. Fazendo isso, você verá o Buda que


está dentro de cada um".

  • O espírito que está dentro — acrescentou o adolescente. A médium aderiu:

  • A imagem de Deus dentro. O ex-padre acrescentou:

  • O Espírito Santo dentro. Fernanda sorriu para Almeida e falou:

— Deus dentro, o Espírito dentro, Buda dentro. Em todos nós. Juntos.

Os seis refletiram durante alguns momentos. E chegaram à con­clusão, através dos ensinamentos de Almeida, que religiões e cren­ças tinham mais em comum do que eles pensavam.

Masterson, assistindo ao vídeo, colocou o lápis de lado e pa­rou de fazer anotações. Ele estava interessado no que o jovem pre­gador iria dizer em seguida.

— A personalidade é o mundo. O espírito é Deus. Use a personalidade para aprender, para evoluir, para viver experiências. É por isso que vocês estão aqui. Mas não seja um escravo de sua per­sonalidade, porque você é muito mais do que suas ambições, seu ego, seu orgulho, seus desejos.

Fez uma pequena pausa e continuou:

— Morte é quando a personalidade retorna para a alma. Lem­brem-se de que a alma criou a personalidade para viver experiên­cias na vibração terrestre. Agora eu posso explicar o que foi dito dois mil anos atrás:

— Não ame o mundo ou qualquer coisa do mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo no mundo — as súplicas do homem pecador, o desejo de seus olhos e a ostentação de tudo que ele tem e faz — não vem do Pai, mas do mundo. O mundo e seus desejos acabam-se, mas o homem

que faz a vontade de Deus vive para sempre.

— Agora que vocês compreenderam isto, é fácil entender quais são os passos da evolução espiritual. Primeiro: a personalidade terrestre é purificada e libertada dos apegos e das vibrações mais baixas. Isso acontece através da reencarnação e do carma. Quando essa liberação ocorre, a personalidade libertada torna-se uma com a alma. Quando essa junção personalidade-alma acontece, a alma também pode se juntar com o espírito. Todo esse processo é guiado e inspirado por Deus através do Espírito Santo.
Como eu digo, existe verdade em tudo e em toda religião. Espírito,alma e personalidade: nossa trindade pessoal!
Masterson, com raiva, pegou o lápis e rabiscou agitadamente.
"Como ele ousa igualar os seres humanos à Trindade? Isso beira a blasfêmia", anotou ele.

No vídeo, o budista concordava com Almeida:

— Isso está escrito no Sola Yajur Veda. "Um homem age de acordo com seus desejos, aos quais se apega. Assim, aquele que tem desejos continua sujeito ao renascimento."

Macedo, o ex-padre, acrescentou:

— João da Cruz disse: "Se é para um homem entrar na união Divina, tudo que habita em sua alma deve morrer, tanto o pouco como o muito, como o pequeno, o grande, e a alma precisa estar livre de desejos".

E Almeida terminou a discussão dizendo:

— Se qualquer homem quer vir comigo, deixe-o negar a si mesmo.

Masterson resolveu que era hora de fazer um pequeno inter­valo antes de colocar a fita número dois.

— O cara sabe dar show — disse ele em voz alta enquanto se dirigia à cozinha para fazer um sanduíche.

Capitulo 15
Noite da mesma sexta-feira, ano 2015
FITA DOIS

Quando Masterson voltou para sua biblioteca, o relógio di­gital do videocassete marcava onze e quinze da noite. Seus olhos vagaram alternadamente pelas duas fitas restantes, até se fixarem na que Hanley rotulou de Hoje. Enquanto voltava para sua pol­trona reclinável e antes de apertar play no controle remoto, Mas­terson refletiu sobre a primeira fita.

A questão da língua mais uma vez dominou seu pensamen­to. Como foi feito? O que estava por trás daquilo? Será que forças místicas estavam em ação, forças que ele mesmo não entendia? Pe­ritos e também sua própria investigação empírica concluíram que as fitas não tinham sido alteradas. Agora era a hora de Masterson chegar a uma conclusão.

"Se não há nenhuma explicação terrestre, então deve haver uma explicação não terrestre", ponderou Bob, perguntando-se se a explicação estaria no lado do bem ou do mal.

Acomodado em sua poltrona, Masterson tentou entender Almeida.

"Como é que pode? Se eu falasse em línguas, iria querer que o mundo inteiro ficasse sabendo. Eu mesmo estaria me chamando de 'O Novo Messias'. Mas Almeida não está nem aí com isso. É como se soubesse como toda essa brincadeira vai terminar."

Com o lápis e o transcrito na mão, Masterson estava arma­do e pronto para mais uma tentativa de desvendar o enigma cha­mado Antônio Almeida.

Na televisão de trinta e seis polegadas, o rosto expressivo de Almeida preenchia toda a tela. Masterson, como sempre, achava que aqueles olhos azuis apontavam diretamente para ele. Hanley, obviamente, copiara essa primeira cena de uma outra fita, e, como a câmera estava focalizando o pregador bem de perto, Bob não con­seguia saber o local onde Almeida estava discursando.

— O mundo de hoje é muito mais complicado do que o mun­do de seus pais. Porém a vida é a mesma de dois mil anos atrás. Eu sei que isso é confuso, mas vou explicar.

Quando a câmera abriu o plano, o televisor mostrou Almei­da em pé no meio de uma grande roda de pessoas.

— É o seguinte — começou Almeida sua explicação, virando-se e olhando em volta da roda. — Todas as sociedades e cul­turas estão mudando numa velocidade nunca vista antes. Vocês devem se sentir um pouco deslocados por causa dessas mudanças, não é verdade?

O microfone da câmera captou os murmúrios de concordân­cia da multidão.

— E é com razão que vocês se sentem assim, porque há um monte de coisas acontecendo: antigos empregos estão desapare­cendo, dando lugar a outros, que exigem novas habilidades. Aviões, televisão, satélites, Internet... O mundo está girando mais depressa do que nunca. Até poucos anos atrás uma pessoa podia manter o mesmo emprego e viver por toda a vida na mesma casa em que nasceu. Hoje um trabalhador troca de emprego seis ou sete vezes durante a vida, muda várias vezes de cidade para cida­de, ou até mesmo de país para país.

Almeida passeou os olhos demoradamente pela multidão e perguntou:

— Agora vocês devem estar pensando: o que vai acontecer? Aonde isso vai chegar e o que significa?

Uma jovem, de idade mais ou menos igual à dele, levantou a mão e perguntou:



  • Eu acho que nós gostaríamos de saber por quê.

  • E agora, garotão? — comentou Masterson em sua poltrona. — A pergunta foi boa. Vamos ver se você tem uma boa resposta.

  • OK — disse Antônio. — O que está acontecendo? Aon­de isso tudo vai chegar? O que significa? E por que está aconte­cendo? Vamos por etapas. Primeiro, o que está acontecendo? Isso se chama mudança. Mas muitas pessoas acham que é uma mudança tecnológica que está acontecendo. Elas estão erradas, porque o que está acontecendo é uma mudança espiritual. Vou repetir o que já falei milhares de vezes: a vida nesta vibração se resume a escolhas, e a vibração terrestre está aberta para mais escolhas porque o espírito humano evolui. Quanto maior o avanço espiritual, maior o número de escolhas que aparecem. Lembrem-se: nada acontece por acaso. Dois mil anos atrás havia poucas opções nes­ta vibração porque os espíritos encarnados naquela época não eram tão evoluídos quanto o são hoje. A evolução traz desenvolvimento, e o desenvolvimento pede um nível mais alto de esco­lhas e responsabilidade.

Masterson, fazendo suas anotações, acompanhava rancorosa­mente a lógica de Almeida.

— Em segundo lugar, aonde vai chegar tudo isso? A vibração deste mundo está mudando porque nada no universo é constan-te. Até mesmo Deus muda, evoluindo também em sua perfeição. Sim, o milênio está trazendo novidades para esta dimensão. Não_ é o fim do mundo, mas sim a mudança do mundo.

Mesmo pela televisão Masterson sentia aumentar o nível de ansiedade do público. E o dele também.

"Será que Almeida vai fazer previsões para o milênio?", cogitou.

Antônio também sentiu a ansiedade e, para quebrá-la, brin­cou com a platéia, dizendo:

— Calma, todos vocês estão nisso juntos. Não esquentem a cabeça e não passem seus dias esperando o sol despencar ou um meteoro se espatifar no Atlântico inundando o planeta. As mu­danças que estão vindo são nada mais, nada menos que o resulta­do da evolução desta vibração e, no final das contas, evolução de vocês também. Mas vou adiantar uma coisa: a Terra está entrando numa Nova Era. Valores espirituais e ideais morais terão uma nova importância, e os espíritos que não estiverem prontos simplesmente reencarnarão numa outra vibração mais adequada.

Antônio disse à multidão que ele queria voltar ao porquê.

— A resposta é simples: mudanças e escolhas. Nada é cons­tante ou estagnado. Nada é para sempre. Os espíritos encarnados aqui, através de suas reencarnações, mortes e renascimentos não são os mesmos de quando foram criados milênios atrás. E as mu-dançasemseus espíritos são refletidas nas mudanças nesta terra porque esta vibração reflete a vibração coletiva dos espíritos vivendo aqui. Mais uma vez volto a repetir: nada é por acaso. E, quando a vibração terrestre muda, a vibração do universo também muda, porque tudo está interligado e conectado. Pensem em como tudo isto é emocionante e como vai abrir novas portas.

Masterson resmungou em voz alta e escreveu: "O cara às vezes parece um porta-voz da Câmara de Comércio."

Um senhor de mais idade, beirando os sessenta anos, cabe­los grisalhos, acenou para o pregador, dizendo que queria falar. Almeida sorriu para o velho e deu sinal para ele falar.

— Entendo o que você fala sobre progresso. Mas parece que não estamos progredindo; estamos regredindo. Olhe para toda essa violência de hoje. No meu tempo não era assim.

Antônio concordou dizendo que conhecia muitas pessoas que se sentiam da mesma forma.

— Mas — explicou — o progresso leva a culpa por muitos ma­les que vocês mesmos criam. Acabei de explicar que haveria uma questão espisritual a ser encarada na Nova Era. A violência, sem sombra de dúvida, é uma questão espiritual, porque, enquanto ódio, a desconfiança e a exploração existirem nesta vibração, a violência existirá. Entendam isto: vocês são responsáveis pela violência, porque vocês alimentam a vibração de que a violência preci­sa para existir.

Masterson, assim como a multidão que cercava Almeida, aguardava ansiosamente as próximas palavras do jovem pregador.

— Na hora que vocês perceberem que estão ligados um com o outro, a violência acabará. Tão logo vocês decidam se unir sobre o que vocês têm em comum,ao invés de se dividir sobre suas diferenças, a violência desaparecerá desta vibração.

Um outro senhor, possivelmente um professor universitário, discordou:

— Absurdo! A violência é o resultado de desequilíbrios sociais. As pessoas assaltam, roubam e até matam porque se sentem inadequadas ou porque não têm dinheiro ou porque têm problemas mentais ou emocionais.

- Absurdo! — retrucou Almeida. — A violência é o resultado do medo que vocês têm do outro. É esse medo que impossibilita a distribuição justa da riqueza da Terra. Vou provar isso para vocês por meio de perguntas. Por que uma nação teme que uma outra fique por cima? Por que os brancos temem os negros? Por que os ocidentais temem os orientais? E a pergunta mais inconcebí­vel: por que uma religião teme a outra? Vocês já sabem a respos­ta: medo, ciúme e ódio. E todos os três são a mesma coisa.

Naquele momento Masterson percebeu por que ele temia Al­meida: o homem era uma forte ameaça a seu império, a suas am­bições políticas e a tudo em que ele acreditava.

— Somente quando os homens conhecerem o espírito é que essas vibrações pesadas poderão ser superadas. Quando vocês re-conhecerem que realmente são um só, não haverá razão para ciú­me. Quando vocês souberem que os primeiros serão os últimos e que os últimos serão os primeiros, essa competição constante,corrupta e estúpida à qual vocês estão apegados evaporará.

Antônio olhou para todo o grupo. Ele sabia que a maioria não estava convencida, por isso resolveu terminar sua mensa­gem assim:

Há dois mil anos veio um outro mensageiro. E os espíri­tos encarnados daquela época o chamaram, entre outras coisas, de idealista sonhador. Eu vou fazer mais algumas perguntas para vo­cês: Por que é mais fácil para os espíritos terrestres entender ciúme do que entender o amor? Por que é mais fácil abraçar o ódio do que a compaixão? A Terra está entrando numa Nova Era, e aque­les que não aceitarem esses ideais não poderão viver aqui. E sim­plesmente isso.
Capitulo 16
Sexta-feira para sábado, ano 2015
FITA TRÊS

Bob Masterson lutava contra seus olhos pesados. O relógio di­gital do aparelho de vídeo indicava meia-noite e trinta e cinco, era madrugada de sábado. Dali a algumas horas ele estaria rece­bendo de Mary Fried um e-mail relatando seus quatro dias de in­tensa pesquisa em São Paulo e, em seguida, dependendo desse relatório, ele daria um telefonema para Bill Hanley. Masterson deixara Hanley de prontidão. O evangélico ainda não havia de­cidido se mandaria ou não Hanley para o Brasil a fim de convi­dar Almeida a Louisville.

"Falta só uma fita", pensou Bob, olhando o relógio. Ele esten­deu a mão para pegar a fita que Bill entitulara de Palavras Velhas, Idéias Novas.

Mais uma vez, ele inseriu a fita no aparelho, voltou para sua confortável poltrona e esperou as primeiras imagens aparecerem.

Essa fita era diferente das outras duas. A tela da TV não acen­deu imediatamente com a imagem do pregador jovem e atlético. A câmera tremia um pouco, mas finalmente se estabilizou e foca­lizou um senhor de idade, de terno preto, camisa branca sem gra­vata e um chapéu preto.

"Parece um rabino", refletiu Masterson. Checando as anota­ções de Hanley, ele viu que estava certo: o homem era mesmo um rabino.

O rabino estava educadamente com a mão levantada, aparen­temente esperando ser notado por Almeida, que estava terminan­do de responder uma outra pergunta. Antônio, do outro lado do palco, provavelmente fizera um sinal para o rabino, pois o rosto enrugado do homem sorriu e ele começou a fazer sua pergunta.

— Espere um segundo — disse Almeida, de algum ponto do recinto.

Nesse instante a câmera abriu para uma tomada geral, mos­trando Antônio andando até o rabino, fazendo sinal para alguém trazer uma cadeira para o velho senhor.

Aquela imagem informou a Masterson que esse seria outro en­contro de massa, desta vez acontecendo ao ar livre embaixo de uma lona. As anotações de Hanley não forneciam nenhuma pista de onde e quando o encontro ocorrera. Porém Bob pôde ter certeza de que tinha sido ao anoitecer. Por seus cálculos, havia em torno de quatrocentas pessoas debaixo da tenda e outras cem aglome­radas do lado de fora.

Almeida sentou-se no chão, de pernas cruzadas, ao lado do rabino, e perguntou:

— O que posso fazer pelo senhor, mestre?

O velho rabino sorriu, segurando o microfone que Antônio lhe dera.

— Eu gostaria de fazer uma pergunta. Mas, primeiro, tenho um comentário a fazer.

Almeida olhava para longe quando o rabino começou a falar.

— Meu jovem, eu o ouvi falar não só uma vez, mas três ve­zes durante estas últimas semanas. Você é um excelente orador e — acrescentou com um sorriso insinuante — parece ter um ex-celente domínio da língua.

Luzes vermelhas piscaram e sirenes tocaram na cabeça de Masterson. Ele olhou para as anotações de Hanley, temendo o que viria em seguida.

— Mas tenho algumas dúvidas. Você fala umas coisas que vão completamente contra tudo que estudei, li e pelo menos ten­tei seguir durante toda a minha vida. Você poderia, por favor, res­ponder-me algumas perguntas?

Masterson ficou aliviado ao ouvir isso e ao ler nas anotações de Hanley que o "mistério da língua" não seria discutido.

Almeida, olhando para o velho, respondeu que seria uma honra responder à sua pergunta, mas primeiramente ele gostaria de explicar ao público quem era aquele senhor.

- Este senhor é um rabino, um ensinador Ha fé judaica. Eu estou muito feliz por ele estar aqui esta noite. Já havia notado sua presença em outras ocasiões e estou contente que ele tenha vol­tado, mas estou ainda mais feliz por ele ter resolvido se juntar ao nosso bate-papo. — E, sorrindo para o rabino, pediu: — Vá em frente, mestre.

- Eu o ouvi declarar, diversas vezes, que não existe o certo

nem o errado, há apenas conseqüências. Você também afirmou que não há nenhum julgamento de Deus, há apenas o resultado de nos-sas ações. Isso não faz sentido para mim. Você está ensinando que somos livres para agir como quisermos e para inventar as regras? Não existem padrões? Não há nenhuma moral, não há nenhuma ética? — O rabino fixou sua atenção em Almeida, esperando uma resposta.

Antônio levantou-se do chão e olhou não para o rabino, mas para a platéia.

— Reconheço que p que eu disse é difícil de entender. Des­de o momento em que vocês nascem, as pessoas lhes impõem seus conceitos do que é certo e errado. E agora — disse ele, sorrindo — chega esse tal de Almeida pregando que não existe certo nem errado. Acho que eu não devo ter explicado direito.

Antônio respirou fundo. Ele estava determinado a esclarecer o assunto.

— Eu repito: não há certo. Não há errado. Há, no entanto, tudo. E neste tudo está a resposta. Por exemplo — falou dirigin­do -se ao rabino —, você já ouviu falar dos dez mandamentos?

O velho senhor, com um sorriso nos lábios, respondem que sim.

— Bem — Almeida agora falava para o público —, risquem a palavra mandamentos. Ninguém lhes obedece mesmo. Vamos ser honestos: os dez mandamentos são a maior piada da Terra, porque ninguém realmente os segue.

As pessoas presentes naquela tenda estavam chocadas com suas palavras, mas Almeida continuou sem parar:

— Vamos deixar de hipocrisia. As pessoas matam não so­mente outras pessoas, mas também matam outras formas de vida do planeta. As pessoas mentem, roubam e cometem adultério. No sabá, quantas igrejas, templos e sinagogas ficam quase vazias? En­tão é como eu disse: os dez mandamentos são uma piada.

O rabino começou a protestar, mas Almeida educadamente levantou sua mão, pedindo calma e paciência.

— Rabino, eu gostaria de saber uma coisa: as pessoas que desrespeitam esses mandamentos vão passar a eternidade queimando no inferno? Ou será que um mandamento é mais importante do que outro? Por exemplo: não matar é mais sério do que não mentir? Ou guardar o sagrado dia de Deus é menos sério do que roubar?

O rabino pediu para Almeida prosseguir. Ele estava prestan­do muita atenção ao que Antônio estava dizendo, como também estavam as quatrocentas pessoas da platéia. Sentado em Louisville, Kentucky, Bob Masterson também escutava cada palavra que Almeida tinha para falar.

Almeida declarou ao rabino e ao público que um mandamen­to não era mais importante do que outro.

— Mas eles não são mandamentos. Eles não são leis, não são decretos, não são ordens.

O rabino falou ao microfone, perguntando a Almeida o que eram os mandamentos se não regras de Deus para os homens. Antônio respondeu:

— Eles não são dez mandamentos, eles são dez percepções. O rabino olhou curiosamente para o jovem pregador à sua fren­te, esperando o que viria em seguida.

Antônio, com largo sorriso, entendeu a confusão do velho.

— Quando você está iluminado e ciente de sua conexão

com Deus e com todos,_os supostos mandamentos deixam de ser
mandamentos, eles se tornam uma parte de você. Você não obedece. Você é.

Antônio avisou ao público que iria explicar cada uma dessas percepções que eles conheciam como mandamentos. Ele pediu que alguém dissesse o primeiro.

Uma menina de oito anos de idade, na frente do palco com seus pais, gritou: "Não matarás". Antônio sorriu e disse que, ape­sar de não ser o primeiro, era um bom começo.

— Quando seu espírito chegar à luz, você terá amor e respei­to por toda e qualquer forma de vida, e vai entender que não pode terminar com uma vida porque a vida não tem fim. Quando vocês perceberem que são espíritos do mesmo criador, finalmente perceberão a conexão entre vocês e todas as formas de vida que existem. Essa percepção não pode ser imposta; ela tem que evo­luir. Vocês saberão que estão evoluídos e iluminados quando "não matarás" virar "eu sou um com o todo".

Uma explosão de vozes ecoou na tenda, e as pessoas dispu­tavam a atenção de Antônio, que pacientemente acalmou o pú­blico dizendo que ele podia adivinhar qual era a pergunta que os angustiava.


  • Todos vocês querem perguntar sobre assassinato e pena de morte. Aposto que é isso que está em suas mentes.

  • Olho por olho, dente por dente — gritou um homem do fundo.

Masterson assistia à multidão pressionar Almeida. Ele tam­bém estava curioso para ver como o pregador iria lidar com esse assunto polêmico.

— Olho por olho, dente por dente — repetiu Almeida. — O Velho Testamento — acrescentou, acenando para o rabino. — Esse é um bom exemplo de como as palavras podem ser mal interpre­tadas, mal usadas e distorcidas.

O zumbido provocado pelos comentários tomou conta da tenda, e Antônio pediu à platéia que ouvisse atentamente o que ele iria explicar.

— Essas palavras, "olho por olho, dente por dente", foram as primeiras instruções básicas sobre o carma: o que você faz será fei­to a você. Não querem dizer mais nada.

Passando os dedos por entre os cabelos pretos, o pregador continuou:

— Hoje vocês usam aquelas palavras para justificar a pena de morte. Digo em voz clara: nada justifica a pena da morte, porque assassinato não justifica assassinato e não existem racionalizações, estatísticas ou gráficos que possam tornar certo o que é errado.

Uma jovem segurando um recém-nascido nos braços gritou para Almeida que as pessoas tinham o direito de se proteger contra os marginais. Antônio concordou, mas acrescentou:

— Aprendam a tratar a alma que mata e estupra. Eu sei que é mais fácil trancar pessoas numa cela e esquecê-las. Mas não es­queçam o que ensinei: nós todos somos os guardiões de nossos ir-mãos, porque somos do mesmo Espírito e isto vale não somente para vocês, mas também para o membro mais desprezível e odia­do da sociedade. Essa alma, mesmo doente, perturbada e confusa, é também um espírito de Deus.

Enquanto alguns demonstravam seu descontentamento, Al­meida levantou a mão e falou:

— Eu nunca disse que o caminho que aponto é fácil, e tam­bém nunca falei que meu caminho é o único. Mas eu sempre falo a verdade porque este palco aqui não é um palanque político, eu não estou caçando seus votos.

Masterson deu um crédito para Almeida:

— Pelo menos ele não é mais um que fica em cima do muro. Ele fala o que pensa e não se importa se concordam ou não.

Novamente sinalizando ao rabino, Almeida lembrou que que­ria voltar às dez percepções. O velho senhor declarou:


  • Eu sou o Senhor teu Deus. Não terás nenhum outro Deus. além de mim.

  • Quando vocês chegam à luz, vocês verão a verdade por trás dessa frase, e os outros deuses ao seu redor não serão mais importante. Esse "mandamento" não está falando dos deuses de outras religiões, seitas ou crenças, mas sim dos deuses da terra: dinheiro, poder, sucesso e status. Vocês saberão que estão no caminho da luz quando esses deuses não significarem mais nada para vocês.

O rabino proferiu o próximo mandamento:

— Não invocarás o nome de Deus em vão.


— Se vocês percebem a verdade da primeira, vocês entendem esta segunda. O caminho de Deus é um e o caminho da Terra é outro. Quando vocês perceberem que Deus não castiga nem premia e não se mete com nosso carma, vocês entenderão como é em vão usar o nome dele para sucesso pessoal, glória ou mesmo vingança. Não usem o nome dele para justificar seus atos ou vanglo­riar seu ser, e, principalmente, não usem o nome de Deus para conseguir vantagens morais ou financeiras.

O rabino passou para o terceiro mandamento:



  • Guardarás o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou o senhor teu Deus.

  • Esse dia do sabá, para os iluminados, não existe — expli­cou o jovem pregador — porque, quando vocês perceberem o que realmente são, esse um dia virará todos os dias. Quando seu espí­rito se desapegar das encarnações terrestres e perceber que é um espírito realmente ligado a Deus, todos os dias virarão santos.

Uma voz na multidão, antecipando-se ao rabino, gritou o mandamento número quatro:

— Honra teu pai e tua mãe.

Almeida explicou que, uma vez que uma pessoa reconhece que todos são do mesmo Espírito, ela passa a honrar a todos, por­que "vocês verão todos como seu pai ou sua mãe, porque todos nós somos um".

Brincando, Antônio lembrou que o mandamento cinco, "o mandamento do assassinato", já havia sido discutido, então ele pu­laria para o número seis, "Não cometerás adultério".

— Este e o resto desses "mandamentos" são basicamente a mes­ma coisa. Eles falam sobre a maneira como os espíritos evoluídos vêem um ao outro. Não há necessidade de trapacear, roubar ou pegar alguma coisa que não lhes pertence. O evoluído sabe que tudo é seu e ele não iria roubar a honra ou a reputação de uma pessoa com mentiras. Um espírito evoluído não tem, em todos os senti­dos, ciúme de seu vizinho.

O velho rabino levantou-se de sua cadeira com microfone na mão e dirigiu-se ao público:

— Este homem tem razão. Quando redescobrirmos quem so­mos, estaremos livres. Livres das idéias mesquinhas, dos ódios, das ambições e dos desejos. Deus prometeu isso para seu povo. Ele não nos ordenou isso, porque todos nós somos livres para encon­trar o próprio caminho no tempo certo. Acho que sei o que Antônio quer dizer. Os dez mandamentos não são leis escritas em pe­dra, eles são faróis plantados, no caminho de vossas vidas. E nós vamos saber que alcançamos nosso destino quando esses faróis não forem mais necessários.

Masterson olhou para o relógio: eram quase duas hora da ma­drugada de sábado para domingo. Ele estava cansado e com sono.



Capítulo 17

Sábado de manhã, ano 2015

O ÚLTIMO SONHO DE MASTERSON

"Em vão o homem tolo acumula comida. Eu lhes digo de verdade, será sua queda. Ele junta para si mesmo, nem para um amigo, nem para um companheiro. Sozinho ele come."



Rig Veda Samhita 10.117.6
"Assim, pois, todo aquele dentre vós que não renuncia a tudo quanto possui, não pode ser meu discípulo."

Lucas 1433

Com seus olhos carregando o peso do sono, o evangélico su­biu a longa escada de carvalho até seu quarto no andar de cima. Eram quase duas e meia da madrugada de sábado e ele sabia que teria um dia cheio pela frente.

Primeiro: Mary Fried mandaria, de São Paulo, nas primeiras horas da manhã, o e-mail com o resumo das pesquisas sobre Al­meida. Ele sabia que o relatório seria completo, competente e pro­fissional, porque Mary era demasiadamente completa, competen­te e profissional, além de ser fria, sem emoção. Ele nunca confiou totalmente nela.

Segundo: Hanley. Seria bom mandá-lo ao Brasil para falar com Almeida? O que lucraria ao dar a esse pregador da Nova Era uma vitrine para o mundo todo em sua rede de televisão?

"E o mistério da língua?", pensava Masterson. Ele tinha aca­bado de assistir a quase seis horas de fitas gravadas numa língua estrangeira e entendera todas as palavras, nuances e sílabas pronunciadas não só por Almeida mas por todos os que estavam pre­sentes. Masterson não tinha nenhuma dúvida de que o mistério seria descoberto não dentro de poucos dias mas dentro de poucas horas.

"E, quando isso acontecer, o circo realmente vai pegar fogo" refletiu.

E Antônio Almeida? Quem era ele? Até então ninguém

nem Mary, nem Martelli, nem Hanley — foi capaz de responder a essa pergunta.

"Será ele um hippie ou um profeta? Cristo ou um anticristo?", questionava sua mente febril. Nem mesmo Almeida dizia quem ele era. "Eu sou quem você pensa que sou", era sua resposta.

"Talvez ele esteja certo", respondeu Masterson a si mesmo na escuridão de seu quarto. "Talvez ele seja apenas o que a gente pen­sa: nada misterioso, nada sobrenatural e nada extraterrestre."

Enquanto se revirava de um lado para o outro, tentando pe­gar no sono, Masterson questionava a si mesmo:

— Então, se for assim, eu acho que ele é o quê?



  • Ele é um falso profeta, um anticristo — respondeu a pa­ranóia dentro dele.

  • Não há nada que indique isso — respondeu o Masterson pragmático ao Masterson paranóico.

  • Então seria ele Jesus, ou um mensageiro dele que encar­nou na Terra? — acrescentou o Masterson humano.

  • Talvez seja — respondeu o Masterson tele-evangélico. — Afinal, fiz uma fortuna dizendo que o dia do retorno ia chegar. E se agora for verdade, e essa verdade se chamar Antônio Almeida?

Todos os Mastersons procuraram uma resposta. Bob tentou aquietar essas vozes, mas cada uma clamava por sua atenção.

Ao seu redor ele sentiu os tique-taques do tempo batendo si­lenciosamente, incessantemente e interminavelmente, prestes a desvendar a resposta. Ele tinha certeza de uma coisa: a resposta vi­ria logo; não no ano que vem nem no mês que vem. Logo. Todos os seus sentimentos e cada centímetro de seu ser diziam que a res­posta viria dentro de dias ou talvez de horas e Bob sabia que ele faria parte dessa resposta.

A névoa do sono lentamente tomou conta da mente cons­ciente, e sua mente inconsciente despertou. Masterson não sa­bia mas seu espírito agora estava aberto para receber orientação. Enquanto sua mente consciente vagava para o descanso, seu es­pírito também vagava, não mais prisioneiro desta dimensão, mas livre para viajar numa outra. Bob Masterson, mais uma vez, iria sonhar com Antônio Almeida.

Como todo mundo, Bob tinha seus guias espirituais, que, nos sonhos, tentavam abrir a cortina entre o mundo terrestre e o mundo astral Toda noite, nos sonhos, eles tentam trazer conforto, co­nhecimento e orientação. Mas, como a alma de Masterson esta­va presa aos medos terrestres, aos sonhos materiais e aos desejos de sua personalidade, ele não entendia claramente as mensagens que esses guias traziam.

Nessa madrugada de sábado para domingo os guias mais uma vez tentaram abrir a cortina, querendo mostrar quem realmente era Antônio Almeida. A seu lado todos esses anos, seus guias vi­ram a construção da CCM e sua transformação em um dos maio­res impérios das comunicações do planeta. Esses guias também estavam ao lado do evangélico quando ele usava o nome de Deus para fins lucrativos. Estavam com ele agora, falando sobre o ama­nhecer da Nova Era e como ele poderia usar esse complexo de co­municações para contar ao mundo sobre as mudanças que viriam pela frente.

— Você pode fazer muito para aliviar o medo, esclarecer os mal-entendidos e contribuir para o progresso dos espíritos humanos. Você foi presenteado. Use o que lhe foi dado para espalhar a palavra — sussurrou um dos guias para o espírito de Masterson.

Em seguida, um dos guias respondeu à pergunta que atormen­tava a alma de Bob Masterson.

Antônio é um mensageiro de luz. Alguns o conhecem como Jesus, outros como Buda, outros como um profeta da Nova Era. Ele é tudo isso e muito mais. Antônio é o Filho do Homem, porque ele nasceu dentro da carne para mostrar o caminho fora da carne. Ele sofre, ele sente, ele age e reage como vocês, mas ele não faz parte da ilusão que vocês criaram para vocês mesmos. An­tônio é uma parte de seu mundo, mas não é de seu mundo Esse mensageiro veio da mais alta vibração para mostrar como conse"


guir chegar a esta vibração.

Seu sonho foi filtrado pelos apegos terrestres, e Masterson não assimilou tudo que foi falado. Mas, em um momento qualquer durante seu sono, o tele-evangélico tomou uma decisão: ele man­daria Hanley a São Paulo para convidar Antônio Almeida para aparecer na rede mundial da CCM.



Capítulo 18

Manhã do mesmo sábado, ano 2015 MARY FAZ UM RELATÓRIO


"E os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha sobre a cabeça, e lhe vestiram um manto de púrpura; e chegando-se a ele, diziam: Salve, rei dos judeus! e davam-lhe bofetadas."





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