Ricky medeiros



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Segunda-feira, o mesmo dia, ano 2015
O COMEÇO DO FIM

"Eu, que sou a luz, vim ao mundo para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. E, se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; pois eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo."



João 12:46-47
"Eles são para sempre livres, quem renuncia a todos os desejos egoístas e desprende-se da jaula-ego do "eu", "me" e "meu" para ser unido com o Senhor. Este é o estado supremo. Consiga isso e passe da mor­te para a imortalidade."

Bhagavad Gita, 2:71

Quatro pessoas estavam sentadas no escritório impecavel­mente decorado, uma delas atrás da escrivaninha e as outras três num sofá grande e confortável de couro. Todos olhavam para uma TV de trinta e seis polegadas, ouvindo um pregador. Suas palavras enchiam a sala e o homem atrás da escrivaninha olhava freqüen­temente para os três enquanto o vídeo passava. Ele notou que, se­guindo suas instruções, eles estavam prestando muita atenção ao que o pregador dizia na TV.

— Estou aqui esta noite para responder às suas perguntas — dizia a voz da televisão. — Mas antes de começar há uma coisa que quero dizer. O Reino de Deus não vem através de mim. Tampouco de outra pessoa. O Reino de Deus está dentro de vocês e só vocês podem encontrá-lo. A felicidade, o contentamento, a paz que Deus prometeu não vêm de fora, vêm de dentro. As pes­soas que prometem que Deus prometeu não podem entregar a mer­cadoria. Nem eu posso. Eu posso mostrar, ajudar e ensinar, mas só vocês podem decidir se a minha verdade é a sua verdade, se o meu caminho é o seu caminho. 0 que é correto para um pode não ser para o outro. Não há um caminho certo, como também não há nenhuma religião certa. Então, tomem cuidado quando ouvirem alguém pregando que seu caminho é o único caminho para a felicidade, a salvação e a iluminação. Eu estou lhes dizendo há vários caminhos e nenhum é mais certo ou mais sagrado que outro.

O pregador parou e olhou para seu público. Havia quase du­zentas pessoas enfiadas na sala onde o encontro estava acontecen­do. Constatando que não havia perguntas ou dúvidas, ele conti­nuou seu sermão.

— Todo mundo nasce com o livre-arbítrio. Em outras pa­lavras, todos têm o poder da escolha, que é um grande presente divino. Mas, ao mesmo tempo, esse poder é um grande desafio, porque através da escolha vocês podem cortar os ciclos repetitivos de nascimento, morte, renascimento, morte e renascimento. Porém, para isso acontecer, vocês têm que entender que suas ações e es­colhas têm conseqüências. E vocês sentirão os resultados de suas ações tanto nesta encarnação quanto nas próximas.

As mais ou menos duzentas pessoas espremidas dentro da pe­quena sala do humilde barraco de madeira prestavam muita atenção ao jovem pregador de cabelos negros. A câmera escondida gravando o encontro captou seus rostos e o profundo interesse dedicado àquele jovem.

— Eu sou um mensageiro. Eu sou um exemplo. Eu sou uma luz iluminando um dos muitos caminhos. Se você escolher o meu caminho, ande por ele com todo o seu coração. Não porque sua esposa, esposo ou amigo está querendo. Ande porque este é o ca­minho certo para você. Há diferentes verdades e diferentes caminos. Use o livre-arbítrio dado por Deus, para escolher o caminho certo para você.

O microfone da câmera escondida captou o suave murmúrio do público. Até aquele momento, ninguém havia interrompido o discurso com perguntas ou comentários.

O pregador parou e sorriu. Depois de uma pequena pausa, sua voz suave e serena continuou a envolver as duas salas: a do barraco em que ele se encontrava e a do escritório onde ele era visto por videoteipe. Os que assistiam do escritório estavam gru­dados à tela da televisão e os que se encontravam no barraco es­tavam deslumbrados pela sua presença.


  • A verdade é uma coisa engraçada. Cada um tem a sua — ele começou. — Há dois mil anos foi dito: "A menos que se nasça da água e do Espírito, não se poderá entrar no Reino de Deus. Aquele que nasce da carne é carne, e aquele que nasce do espíri­to é espírito".

  • Bom, isso é verdade. Mas cada pessoa que lê essas palavras vê uma verdade diferente. Alguns querem afogar você na água! Eu pergunto: o que isso tem a ver com o Reino de Deus? Outros querem que vocês nasçam de novo em Cristo, mas Cristo nunca falou nada disso. O que ele disse foi: vocês têm que renascer da água e do Espírito. Então, vocês estão vendo: verdades diferentes para pessoas diferentes. Mas a verdade é uma só. Nosso espírito tem realmente que nascer de novo, e de novo e de novo, até que, como a água, ele esteja limpo de seu próprio ego, de suas vaidades, preconceitos e impulsos materiais. Nosso espírito precisa se livrar das vibrações desta esfera para poder progredir até as vibrações mais elevadas.

Até aquele momento, a câmera estava num plano aberto, mostrando o pregador, alguns assessores e cerca de duzentas pes­soas enfiadas na sala superlotada. Neste instante, a poderosa len­te passou a enquadrar somente o pregador.

— O espírito, a alma, ou seja qual for o nome que vocês queiram dar, precisa nascer várias vezes até acertar. O espírito, que é parte do Espírito divino, precisa nascer nesta vibração terrestre até que esteja pronto para progredir no universo.

O rapaz deu uma olhada em sua volta para certificar-se de que o público estava conseguindo acompanhar seu discurso. Ele não queria ficar muito adiante deles. Sentindo que todos o estavam entendendo, ele continuou:

- A Terra foi criada milhões de anos atrás e ocupou um lu­gar no universo. Espíritos afinados com a vibração terrestre encar­navam em corpos físicos para viver nesta dimensão. E, por milhões de anos, espíritos têm visitado a escola da lerrã7 primeiro como homens da Idade da Pedra aprendendo as duras lições oferecidas por um meio ambiente cruel e perigoso. Aos poucos, eles apren­deram a se comunicar uns com os outros. Aprenderam também que precisavam unir-se para sobreviver. Aqueles espíritos apren­deram a lição da fraternidade e, com o passar do tempo, o homem começou a procurar as respostas para sua existência. Ele inventou suas primeiras religiões: deuses do fogo, da água, das florestas e das montanhas. E mesmo nessas primeiras crenças havia um conceito verdadeiro: o homem era apenas uma parte de um todo maior.



  • Mas vocês têm que entender que, embora o espírito humano tenha evoluído, ainda não é perfeito. Vocês carregam as­sim colmo carregaram nos primeiros dias da Terra, as vibrações negativas de ciúme, ódio, vaidade e raiva. E às vezes suas ações são movidas não pelo amor mas pelo ódio; não com harmonia mas com raiva. Vocês precisam aprender que há conseqüências para seus atos.

Ele olhou em direção à câmera e continuou:

— Vocês não podem lavar essas imperfeições simplesmente mergulhando num rio. Vocês não podem apagar suas falhas, vai­dades e delitos atirando-se no chão e dizendo que aceitam Jesus como seu salvador. Não é tão fácil. Eu gostaria que fosse, mas não é assim. Sabem por quê? — perguntou, e imediatamente respon­deu à sua própria pergunta: — Porque não seria justo.



Bob Masterson, o homem sentado atrás da escrivaninha, apertou um botão do controle remoto, congelando a imagem. O Banqueiro Bob, como os críticos o chamavam, estudava a imagem do pregador na TV da mesma forma como um lutador media um oponente. Na tela congelada via-se um jovem de vinte e poucos anos, mais ou menos um metro e oitenta de altura, peso médio, físico atlético, muito bronzeado, rosto alongado e angular, cabelo preto liso.

— Ele é bem o tipinho — bradou Masterson.

Mas sua atenção foi desviada para as mãos do pregador: longas, suaves, quase afeminadas. Aquelas mãos pareciam envolver a platéia.

Masterson tinha certeza de que o pregador não sabia que es­tava sendo gravado. A câmera escondida era operada por Emílio Araújo, chefe do escritório de Masterson em São Paulo, Brasil. Dois meses antes Araújo enviara a Masterson um dossiê sobre Antônio Almeida, um pregador brasileiro que estava atraindo um público considerável na periferia da cidade. Seguindo seu procedi­mento habitual para esse tipo de caso, Masterson imediatamente mandou Araújo seguir Almeida e gravar seus sermões onde quer que ele fosse.

— Não deixe que ele saiba que você o está gravando. Quero ver esse cara do jeito que ele é — instruiu Bob ao gerente duran­te uma ligação internacional.

Mas, apesar das garantias de Araújo, Masterson sentiu que os olhos azuis do pregador estavam olhando diretamente em sua direção.

Retomando o controle remoto, o Banqueiro pediu aos seus três companheiros que prestassem muita atenção ao que viria em se­guida. A imagem do monitor descongelou e Almeida voltou a fa­lar. Masterson e os outros continuaram ouvindo.

A câmera escondida continuava focalizada no rosto do jovem.



  • Deus não castiga. Ele não julga. Somos nós que nos punimos, porque somos responsáveis pelos nossos atos e suas conseqüên­cias. Digo isso porque é verdade. É através de nossos pensamen­tos, ações e desejos que colocamos em movimento as rodas de nossa própria felicidade ou tristeza. Vou tentar explicar isso da maneira mais simples possível.

  • Todos nós somos espíritos criados pelo Ser Supremo. Ele nos criou à sua imagem e semelhança.

O pregador de cabelos escuros riu, acrescentando:

— Na Terra, costuma-se conceber Deus como tendo nossa ima­gem e semelhança. Talvez por isso o imaginemos com cabelos brancos e uma barba. Mas, vão por mim, ele não é nada disso.



O microfone escondido captou a gargalhada da multidão. O jovem pregador sorriu e prosseguiu:

— Todos nós viemos da mesma fonte. Somos parte do mes­mo todo. Somos irmãos e irmãs de verdade. Somos todos unidos uns aos outros porque todos viemos do mesmo criador. Porém cada um de nós é diferente e tem que evoluir com Deus e com o universo que ele criou. É por isso que nascemos nesses corpos ter­restres. Estamos aqui para aprender as emoções, relacionamentos e desafios que somente podem ser encontrados na vibracão terrestre. Estamos aqui para experimentar, para aprender, para ter su­cesso e até mesmo para falhar. Estamos aqui para evoluir. Somos espíritos, nascidos dentro dessa carcaça chamada de corpo. A vida nos é concedida para que possamos viver, experimentar e apren­der. Quando a vida do corpo termina, nosso espírito renasce numa nova vida, em um novo corpo. E essa nova vida e esse novo cor­po são moldados com base nas experiências, pensamentos e ações de nossas vidas passadas. Essa é a lei do universo, a lei natural, a lei espiritual. Essa lei é chamada de carma, e é através do carma que atingimos a perfeição. Somos renascidos em carne, porém somos do espírito. Estou apenas explicando a vocês o que foi dito muitos, muitos anos atrás.

Os assessores de Masterson estavam de olhos grudados à televisão. Mas Masterson já assistira à fita antes, e sua atenção estava voltada às reações de seus subordinados. A voz do alto-falante da televisão tornou-se enfática e emocionada quando o pregador atingiu seu ponto principal.

—Vocês podem voltar para casa hoje à noite e orar até o amanhecer. Vocês podem chamar Deus de seu Senhor, seu Mestre, seu Pai. Mas, se suas ações e seus pensamentos não estiverem


repletos de amor, compaixão e misericórdia, suas palavras serão vazias. Vocês podem ir a qualquer igreja ou templo gritando améns até sua garganta doer. Isso não vai valer nada. Não basta dizer "Eu aceito Cristo como meu Salvador. Perdoe-me de todos os meus pecados". Meu caminho é mais difícil que isso. Não há nenhuma igreja, templo, padre, pastor ou feitiço que mudará sua vida. Você é a resposta para as suas preces, você é o caminho para a sua própria
salvação. As respostas estão dentro de você. Eu posso até apontar
o caminho, mas é você quem precisa viajar.

Mais uma vez, Masterson parou a fita. Ele sorriu para seus três executivos.

Se continuar com esse papo, ele não vai ter futuro algum

nesse negócio. Onde já se viu pedir às pessoas que sejam responsáveis por si mesmas?

Os três assessores riram com Masterson. Ele estava sentado atrás de uma enorme escrivaninha de carvalho estrategicamente colocada em frente a uma janela panorâmica que lhe permitia ad­mirar a linda manhã de primavera em Louisville, Kentucky. A sua direita estava Bill Hanley, o produtor de televisão de Master­son. Hanley olhava para o fogo ardendo lentamente na lareira de pedras. Ele notara que o fogo da lareira sempre estava aceso, mes­mo em conjunto com o ar-condicionado nos dias quentes de ve­rão. Masterson tinha uma queda para o dramático, e Hanley sabia que era por isso que o Banqueiro Bob era o único evangélico da televisão que havia durado todos esses anos. O fogo crepitan­te fazia parte do show de Masterson.

Os olhos de Hanley vagaram ao redor da sala e pousaram ime­diatamente atrás de Masterson, na parede das celebridades, um pai­nel de mogno escuro polido à mão em que molduras caríssimas ornavam fotografias de senadores, presidentes, líderes empresa­riais e artistas posando com Masterson. Hanley também sabia que, quando Masterson apertava um botão escondido embaixo da escrivaninha, a parede se abria, escondendo as fotografias e deixando em seu lugar um bar repleto com as mais variadas bebidas.

Agora, os olhos de Hanley pousavam em Masterson. Hanley se perguntava o que seu chefe havia visto no pregador brasileiro. Qual era, afinal, o motivo daquela reunião? Seria absurdo, pensou ele, que seu chefe estivesse preocupado com aquele sujeito. Mas aos cinqüenta e nove anos de idade, estava no auge da carreira, era o rei dos evangélicos. Ele era o cjono da maior e mais respeitada organização evangélica do mundo, a CCM, Cruzada Cristã Mundial. Seu programa O Clube de Cristo cobria quase noventa por cento dos Estados Unidos e logo estaria cobrindo oiten­ta por cento do planeta.

Phil, o que você acha desse cara?

A voz de Masterson cortou os pensamentos de Hanley. Mas a pergunta era para Phil Martelli, que, aos sessenta e cinco anos, era o gênio financeiro da CCM. Masterson valorizava a opinião de Martelli, que, afinal, ajudara-o trinta anos atrás, encontrando ma­neiras de comprar e manter no ar uma estação UHF que se tornou a pedra fundamental da CCM.

Masterson ouvia o que Martelli falava:

— O que você quer dizer com o que acho dele? Como a maioria dos homens de finanças, Martelli sempre

começava uma resposta com uma pergunta, ganhando tempo para elaborar sua resposta:

— Tenho visto esses tipos ir e vir. O que há de tão especial com esse aí? Por falar nisso, qual é seu nome?

Apesar de ter lido o nome em vários lugares, Masterson re­correu ao relatório que veio com as fitas.



  • O nome do garotão é Almeida. Antônio Almeida. Tem vin­te e nove anos e é de uma família rica de São Paulo. Estudou aqui nos Estados Unidos, fala português, inglês, espanhol e francês. Pa­rece que o garoto tem jeito para línguas. O pai trabalha com im­portação e exportação. Almeida saiu de casa há mais ou menos dois anos, deixando a mamãe, o papai e a boa vida para trás. Prega nas periferias, nas casas das pessoas, nas ruas, enfim, onde puder. Vem; chamando a atenção dos jornais locais, dando algumas entrevistas tas no rádio e na televisão. Nosso pessoal no Brasil achou que talvez eu ficasse interessado nele também.

  • Não entendo — disse Martelli. Qual é a jogada? Estou vendo um filhinho Provavelmen­te, ele deve fumar um baseado e sair procurando o Nirvana. Daqui a alguns anos vai assumir os negócios do pai e dar uma gorje­ta boa para a empregada no Natal. Aqui hoje, sumido amanhã.

Masterson sorriu, mas não respondeu. Virou-se para outra pessoa que estava na sala e perguntou sua opinião. Ela era Mary Fried, que estava na CCM havia apenas cinco anos, trabalhando no departamento de opinião pública e de tendências sociais ame­ricanas. Mary era uma especialista em pesquisas, e esse conheci­mento lhe garantia um lugar no sofá do conselho.-- Bob, os poucos minutos que ouvi até agora lembram muito a filosofia da Nova Era. Só que isso não vai pegar com os pobres do Brasil ou de qualquer outro lugar do mundo. Esse papo de
responsabilidade pessoal não cola com as classes mais baixas e menos instruidas Esse pessoal tem dificuldades até para sobreviver no dia-a-dia Eles não querem ficar procurando alguma verdade interior. Pessoas desse nível preferem que sua religião e seus pregadores sejam simples e diretos: "Diga-me o que fazer e o que não fazer". Isso é o que eu mais ouço em nossos grupos de pesquisa. E que esse cara está dizendo? "Faça você mesmo." Acho que não
há por que se preocupar com ele — concluiu, enfaticamente.

Masterson avaliou as palavras de Fried. Hanley, vendo Masterson bater seus dedos na escrivaninha, sabia que agora seria sua vez.

— E você, Bill, como avalia esse rapaz?

— Eu não sei — respondeu Hanley. — Sei como esse papo de responsabilidade pessoal o desagrada: nenhuma aceitação de Cristo, nenhuma prece, nenhum compromisso. ("Nada de doações..." disse Hanley a si mesmo, mas ele não iria falar isso ao Banqueiro Bob.) Concordo com Phil e Mary. O garoto vai sumir dentro de um ano. O que está pegando?

Masterson não respondeu. Ele apenas apontou para o televisor e apertou o botão play do controle remoto. A voz de Almeida veio através do alto-falante novamente.

— Eu não estou aqui para morrer por seus pecados. Nem aquele outro veio para isso. — Ele sorriu e acrescentou: — Não estou aqui para fazer milagres. Eu vi um mágico na televisão fazer a Estátua da Liberdade desaparecer. Isso é uma coisa difícil de su­perar, e, se eu fizesse alguma coisa desse tipo, iriam dizer que eu sou um mágico, um bruxo ou Satanás em pessoa. Hoje em dia as pessoas ficam nervosas com milagres. Acho que tem a ver com toda essa onda de milênio.

Almeida riu, e o público também. Ele ergueu a mão pedindo silêncio e continuou.

Vocês vão ter que decidir por vocês mesmos quem eu sou. Eu não vim para tomar o lugar dele. Olhem dentro de seus corações. Se vocês sentem que falo a verdade, continuem ouvindo. Se

sentem que não, podem ir embora. Eu não sou sua resposta, achem seu próprio caminho. E lembrem-se disto: existe apenas uma verdade, mas ela pode ser encontrada em faixas diferentes. Ninguém saiu da sala. Ele, então, continuou:

— Como eu disse antes, há muitas estradas e muitas escolhas ao longo do caminho. Eu sou apenas uma delas. Uma vez eu disse: na casa de meu pai há muitas moradias. Se assim não fosse, por que eu lhes diria que iria preparar um lugar para vocês?

A câmera escondida continuou gravando enquanto o prega­dor fazia uma pausa para tomar um gole de água. Ele esperou por eventuais perguntas. Não houve nenhuma, então ele continuou.

— Vou explicar o que isso quer dizer. O universo é a casa do Pai, e nessa casa há muitos, muitos quartos. A Terra é um quarto ou uma dimensão dentro da criação divina, é onde vivem os es­ritos que estão afinados com essa vibração. Mas há muitas, mui­tas outras faixas de vibração espalhadas no universo.

— Agora vou mostrar uma coisa para vocês.

Almeida levantou a mão esquerda com a palma virada para o público. Em seguida ele dobrou o braço para baixo, como se es­tivesse apontando para alguma coisa à esquerda. Depois, com o dedo indicador de sua mão direita ele tocou o mínimo esquerdo.

— É mais ou menos assim — explicou. — Cada um desses de­dos é uma faixa, uma dimensão ou uma casa no universo. Cada quarto tem sua própria razão, sua própria vibração especial.

Depois que o indicador tocou todos os dedos da palma aber­ta, Almeida disse:



  • Mesmo na Terra há diferentes faixas de vibração. Em cada uma dessas faixas as pessoas vivem, suas vidas fazendo escolhas, aprendendo e evoluindo. Por que alguns vivem na pobreza, na doença, na fome, na ignorância e na miséria? Por que alguns têm sucesso e outros não? A resposta é simples: carma, a cola que une nossas vidas.

  • A razão de nossas vidas terrestres é clara: superar as vontades, desejos e ambições de nossas personalidades. Quando um espírito consegue isso, ele entra em sintonia com as mais eleva­das vibrações e com o Criador. Pouco a pouco, durante cada encarnação nós vamos desmanchando pedaços desta ilusão terrestre e evoluímos trocando o peso de nossos egos pela leveza

Enquanto falava sobre a evolução do homem, Almeida apon­tava para cada dedo, até chegar ao polegar. Então ele disse:

Q espírito que vocês conhecem como Jesus vem da faixa

mais alta e pura, de onde também vieram Buda, Moisés, Maomé e Krishna. Ele estão todos iguais, mas são diferentes. Eles são mensageiros da mesma luz, mas suas mensagens eram dirigidas para diferentes épocas, povos e culturas.

Almeida dobrou o polegar para dentro da palma da mão, de­pois cobriu o polegar com os outros quatro dedos.



Como vocês podem ver, a vibração de Jesus existe em todas as faixas terrestres. Ele é o mestre desta vibração que vocês chamam de Terra. — Quanta besteira! — resmungou Masterson em voz alta.
Mas ele não parou a fita.

Almeida continuou com a lição:

— Há uma razão para os quartos diferentes e para as faixas di­ferentes. Há uma razão para tudo, para qualquer circunstância e situação na Terra e em todo o universo. Há verdade em todas as religiões, em todas as crenças. E há uma verdade absoluta: todos os espíritos, portanto todos os seres humanos, são uma parte de um todo maior. Ninguém foi criado para viver sua vida numa eterna desgraça, porque ninguém vive só uma vida.

Almeida parou e olhou para as duzentas pessoas atentas às suas palavras. Ainda com a mão fechada, prosseguiu:

— Imagine o seguinte: você tem dez filhos. Nove estão em Casa. Mas você está sempre esperando que o décimo chegue. Sua família não estará completa enquanto aquela criança não chegar. Para responder a uma pergunta antiga feita milhares de anos atrás: sim, nós somos os guardiões do nosso irmão. Não poderá haver harmonia, paz ou felicidade na família enquanto aquele décimo filho não chegar em casa. Todos têm que voltar a ser parte do todo, não apenas os nove mas o décimo também. Um dia todos nós vamos nos reunir com nosso criador na harmonia perfeita de sua vibra­ção. Vocês não foram criados em vão, vocês são uma parte dele. Mas todos terão que voltar. O inteiro não pode ser inteiro se uma parte estiver faltando. Mas nenhum espírito poderá ir para uma vibração se não estiver afinado com ela. Ninguém vai para um quarto mais alto na mansão de nosso Pai se não estiver pronto. Estou aqui porque a Terra está mudando e porque quero mostrar mais uma vez que a maldade, as tentações e as vibrações negativas deste mundo podem ser vencidas.

A câmera e o microfone gravaram a agitação da multidão en­quanto gritos de "Amém" e "Obrigado, Senhor" eram ouvidos na sala. Almeida precisou levantar a voz para poder ser ouvido:

— Uma Nova Era chegou. A Terra está mudando, evoluindo. Eu vim da vibração de Jesus para prepará-los para esta mudança.

Almeida levantou a mão esquerda com seus dedos ainda co­brindo o polegar e chamou a atenção do público para seu punho fechado.

— Olhem para minha mão esquerda — ele quase gritou. — Lembram como mostrei que a vibração de Jesus pode ser encon­trada e sentida nesta Terra? Isso é verdade. A vibração de Jesus pode ser encontrada no Vaticano, nas montanhas do Tibete nos rios da India, nas mesquitas do Islã, nas sinagogas de Israel, e, sim, até aqui nas favelas do Brasil. Eu posso ajudar vocês a encontrar seu lugar no universo de nosso Pai.

Antônio Almeida parecia estar olhando diretamente para a câmera escondida de Bob Masterson quando afirmou:



Eu sou quem vocês decidem por vo­cês mesmos. Se acham que sou Jesus, então eu sou. Se acham que sou uma fraude, um maluco, um anticristo perigoso, então eu sou.

Masterson parou a fita.



  • Oh, Deus! — resmungou Phil Martelli. — Eu estava er­rado. Ele não pensa que é Buda. Ele pensa que é Jesus!

  • Um Jesus da Nova Era, com Buda, Maomé e Moisés por conta — acrescentou Mary Fried com uma gargalhada.

Bob Masterson não riu. Olhando fixamente para os três, ele perguntou:

— Vocês ainda não entenderam, não é?

Os três assessores se calaram e voltaram-se para Masterson.

O que você quer dizer? — perguntou Bill Hanley.

Masterson dobrou as mãos em frente ao rosto, como se esti­vesse rezando. Calmamente ele perguntou:

Que língua se fala no Brasil?

Português — respondeu Mary Fried.

Você fala português, Mary? — perguntou Masterson. — Ou

você, Phil? Bill?

Os três trocaram olhares entre si, mas foi Bill Hanley quem primeiro entendeu.

— Meu Deus! Nós entendemos cada palavra que ele disse... — sussurrou ele, num tom de voz quase inaudível.

Masterson olhava para o espaço, mãos ainda dobradas em prece, enquanto a roda do tempo girava sem parar.



Capítulo 3

Manhã da mesma segunda-feira, ano 2015

LONGE DAS CÂMERAS, PERTO DA LUZ


"Qualquer que receber esta criança em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que me receber a mim, recebe aquele que me enviou; pois aquele que entre vós todos é o menor, esse é grande."

Lucas 9:48
"Ele está transbordando com a luz de Deus — ele quebrou o cálice do corpo, ele é Luz Absoluta."

O Caminho Sufi do Amor: Os Ensinamentos Espirituais de Rumi

As câmeras da CCM não podiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E, devido às instruções específicas de Masterson, elas só poderiam gravar Almeida quando estivessem completamente ocultas. Por esse motivo, Masterson não tinha conhecimento de tudo que Antônio Almeida fazia. Naquela segunda-feira, enquan­to o evangélico e seus assessores assistiam ao videoteipe, Antônio Almeida fazia o que ele mais gostava: atendia pequenos grupos de pessoas.

Em um pequeno galpão caindo aos pedaços, Antônio Almei­da recebia toda manhã o que chamava de "casos especiais". Cer­cado por três ou quatro amigos de confiança, Antônio atendia de cinqüenta a cem pessoas por dia, individualmente ou em grupos não maiores que cinco.

Naquela manhã, Inês Carvalho Prado foi ao galpão. Era a Primeira vez que ela ia àquela parte da cidade. Levava consigo Paulo, seu filho de oito anos de idade. Ele era a razão por que ela estava naquele momento tocando a campainha.

Inês pertencia a uma das mais importantes famílias brasilei­ras. Seu pai, um empresário rico e de grande influência, era o dono de um conglomerado de bancos, refinarias, fazendas e indús­trias. Conhecido, respeitado e temido no Brasil inteiro, ele não controlava apenas um império econômico; ele também controla­va pessoas.

Dez anos antes, Inês apaixonara-se pelo filho de um outro homem rico e famoso. Seu casamento com Ricardo Prado foi o evento social do ano. As fotos do casamento estiveram em todos os jornais e revistas nacionais. Nas colunas sociais, sempre há des­taque para as festas promovidas ou freqüentadas por eles. Ricar­do e Inês formavam um casal tão adorável que a imprensa os ape­lidara de "o príncipe e a princesa do Brasil". E, de fato, durante os dois primeiros anos de casamento, formaram um casal feliz. Até o nascimento de Paulo.

Paulo nasceu com a síndrome de Down. Com um QI de mais ou menos 62, ele não era o herdeiro que se esperava para o trono dos Carvalho Prado. A doença fora diagnosticada quando Paulo ainda estava no ventre de sua mãe. Ricardo tentou convencê-la a abortar:

— Essa criança será um peso terrível. E que espécie de vida poderá ter?

Inês recusou firmemente. Era católica e levava a sério a sua fé.

Depois que o bebê nasceu, Ricardo insistiu para que o menino fosse internado em uma escola especial, onde pudesse ficar "com gente igual a ele". Inês novamente disse não.

Ê a velha história: o pai rejeita o filho, a mãe protege a crian­ça, o pai esquece a esposa. E, para piorar, cinco semanas antes o médico disse a Inês que a criança teria, talvez, apenas três ou qua­tro anos de vida.

Assim, naquela manhã de segunda-feira, Inês Carvalho Pra­do achava-se diante de duas portas de aço cinza, a entrada do gal­pão onde morava Antônio Almeida.

Ela tomou conhecimento do pregador pelos jornais e pela te­levisão. No começo ela o menosprezou, considerando-o mais um dos muitos paranormais excêntricos que aparecem todo dia no país O Brasil é um país místico, e grande parte de sua população, apesar da forte presença da Igreja Católica, acredita em coisas so­brenaturais. A opinião inicial de Inês a respeito de Almeida foi reforçada quando ela passou a ouvir vários comentários de que ele era a reencarnação de Jesus Cristo.

Mas seu parecer a respeito dele começou a mudar quando, na semana anterior, ela viu Almeida ser entrevistado num programa de televisão. Ele não era o louco que ela e a apresentadora do pro­grama estavam esperando. No começo da entrevista, a apresen­tadora tinha sido cínica e até mesmo sarcástica. Mas, conforme o desenrolar da entrevista, a apresentadora e Inês foram mudando de opinião. Inês ficou particularmente interessada no que Almei­da tinha a dizer sobre destino.

— Há uma razão e uma verdade para tudo que acontece em nossas vidas. Há uma razão e uma verdade para tudo que está acontecendo nesta Terra, neste universo. Há dois mil anos, um pa­raplégico clamou a Deus: "Por que você me fez assim?" A respos­ta — disse Almeida à apresentadora, que passara a prestar muita atenção em todas as suas palavras — ainda é a mesma do que era naquele tempo. O oleiro tem direito sobre o barro, para fazer da mesma massa um vaso para decoração e o outro para uso trivial, não é? Nada é por acaso. Nada é por acidente.

A apresentadora fez um sinal de que estava entendendo, e Al­meida continuou com sua explicação sobre o destino.

— Todos nós sabemos o que é gravidade. É uma força invisí­vel que segura a gente na Terra. Há uma outra força também, cha­mada de carma. Carma é a cola que nos une. Carma é a força que molda nossas circunstâncias atuais e futuras, é a soma e o resultado de nossas ações, vidas e pensamentos passados.

A apresentadora brincou, dizendo que agora sabia de onde vi­nha a expressão "carma ruim", mas Almeida interrompeu-a:

Desculpe, mas preciso corrigir o que você acabou de dizer. Não existe essa coisa de carma ruim ou carma bom. Há, simplesmente carma. Carma não é julgamento, carma é um resultado. Ponto final. Nós aprendamos por meio do carma. É como o povo diz: Você colhe o que planta. Há justiça nisso, porque você fica sen­do responsável por suas próprias ações. Não existe essa história de pecado original, há apenas a conseqüência de seus próprios pen­samentos, palavras e ações.

Nesta manhã, parada à frente do galpão, Inês Carvalho Pra­do queria respostas. Ela queria saber por que seu filho Paulo era um vaso imperfeito, por que ele nunca iria aprender, rir, amar e viver como as outras crianças. E por que foi dado a ela esse peso para carregar. Ou, usando as palavras de Almeida, Inês queria saber qual era seu carma.

Então ali estava ela, numa rua sem árvores, num bairro es­tranho, em pé, em frente a duas portas de aço cinza, apertando uma campainha, buscando uma resposta que talvez estivesse do outro lado.

Uma das portas se abriu. Um jovem negro, de uns vinte anos de idade, convidou Inês para entrar. Ele estendeu a ela uma ficha branca com o número 53 escrito e disse-lhe que podia sentar-se, mostrando uma fileira de cadeiras onde mais de cinqüenta pessoas esperavam para ver Antônio Almeida.

— Tem bastante gente na sua frente — avisou o rapaz. — Mas não se preocupe: ele vai vê-la ainda hoje.

— Que bom. É para mim e para meu filho. Quanto ele cobra?

— Todo mundo pergunta isso. A gente devia imprimir a res­posta na ficha. Ele não cobra nada, não, senhora. Antônio diz que atender os necessitados é uma das razões por que ele está aqui na.Terra Não seria certo ele cobrar pela oportunidade de realizar aquilo que ele nasceu para fazer. Por isso, não precisa pagar nada,não. Só precisa esperar.

Inês dirigiu-se às cadeiras, com Paulo segurando sua mão, rin­do e sorrindo. Ela olhou para os rostos ao seu redor. As pessoas que estavam sentadas com ela eram um mosaico de seu país: jovens, velhos, ricos, pobres, pretos e brancos. Um mosaico montado pelo desejo de todos de ver Antônio Almeida.

Inês ficou imaginando se aquele homem, que alguns chama­vam de Jesus e outros de pirado, poderia dar-lhe a resposta que tanto procurava. Enquanto aguardava sua vez, algumas possíveis res­postas giravam em sua mente.

- Você está sendo testada por Deus, com esse fardo. Carregue-o com dignidade — disse uma voz.
Uma outra voz soou:

Durante toda a sua vida você só teve privilégios. É rica e

famosa, uma VIP. Deus mandou esse castigo para mostrar que é ele quem manda.

As vozes não paravam, algumas dizendo que o menino era uma praga em sua família, ou que ela estava pagando pelos pecados de seu pai e de seu avô, que, ela sabia, não mediam esforços para conseguir o que queriam.

— Você e seu marido estão pagando pelos pecados de seu pai e de seu sogro. Deus lhes deu uma criança retardada — gri­tou outra voz.

Ela olhou para o relógio: quase duas horas tinham se passa­do desde que se sentara, esperando para falar com Antônio Almei­da. Subitamente Inês foi arrancada de seus pensamentos, ao ou­vir uma voz chamando o número 53. Embora tivesse decorado o número escrito na ficha, ela olhou para confirmar. Era mesmo o 53. Havia chegado a hora de ver o guru.

O jovem que a atendera na entrada encaminhou-a para uma pequena sala com dez cadeiras. Em uma delas estava sentado An­tônio Almeida.

O cenário não era o que ela esperava. Inês havia imaginado uma sala meio escura, com incenso queimando, gravuras de san­tos, talvez até mesmo um altar. Mas ali não havia nada disso, ape­nas um jovem atlético usando uma camiseta e jeans, sentado ca­sualmente em uma cadeira. As paredes não viam uma demão de tinta havia anos, e, ao invés de gravuras sagradas, a única coisa pen­durada era um calendário vencido.

Levando Paulo pela mão, ela caminhou em direção a Almei­da, que se levantou e deu-lhe as boas-vindas.

Por favor, não fique nervosa. Eu sei por que você está aqui. Como você pode saber? — retrucou ela, dando-se conta de que estava mesmo nervosa, porque sua resposta fora mais agressiva do que desejava. A atenção de Almeida voltou-se para ° menino:

- E qual é o seu nome? — perguntou, curvando-se à frente para alisar o cabelo do garoto.


  • Paulo, meu nome é Paulo.

  • Como posso ajudar você? — perguntou Almeida a Inês, mas o garoto interrompeu e perguntou a Almeida se ele sabia fa­zer uma borboleta.

Almeida, sem esperar pela resposta de Inês, olhou para o me­nino e disse:

— Eu tenho certeza, Paulo, de que ninguém poderia fazer uma borboleta mais bonita do que a que você tem em tua cabeça.

Inês explicou o motivo de sua ida até lá. Contou que o tinha visto na televisão, lido sobre ele nos jornais. Secamen­te, perguntou quem ele era. Almeida olhou para ela e para o me­nino, e, rindo, disse:

— Ah! A pergunta do "quem é você"... As pessoas me per­guntam isso o tempo todo. Meu nome é Antônio. Se você pen­sa que sou mais do que isso, então eu sou. Por favor — antecipou ele, cortando seus protestos —, eu não estou lhe respondendo com um enigma. Um monte de gente acha que sim. Acham que estou fugindo da pergunta. Mas minha resposta é, realmente, sim­ples e reveladora.

Inês dava a ele toda a atenção, enquanto Paulo corria e ria ao redor da sala.

— As pessoas precisam acreditar — continuou Almeida. — As almas humanas estão se perdendo neste mundo moderno e efi­ciente. Estão construindo paredes ao seu redor, isolando-se umas das outras. Olhe em sua volta. As pessoas amontoam-se em seus pequenos cantos, protegidas por suas próprias crenças, convicções, valores e preconceitos. Se eu saísse por aí dizendo: "Eu sou Jesus, ou "Eu sou Buda", ou Maomé ou Krishna, você pode imaginar o que aconteceria. As pessoas, isoladas em seus peque-nos cantos de preconceito e medo, iriam me atacar violentamente. Alguns me defenderiam, mas outros... como posso dizer?... me crucificariam — acrescentou com um sorriso. — Sendo assim, prefiro responder que eu sou quem você pensa que eu sou. E nes­ta afirmação está a maior verdade. Se você acredita que sou Jesus reencarnado, então eu sou. Se você acredita que sou um Buda moderno, eu sou também. Se você acredita que sou um Moisés da Nova Era, tudo bem, eu sou. Na verdade, eu sou mais e sou me­nos o que você pensa que eu sou. Eu não vim como um salvador. Não vou voar com ninguém para o céu em nuvens de glória. Mas você deve acreditar que sou alguma coisa, senão você não teria vin­do procurar respostas para suas perguntas.

Inês olhou para o rapaz. Ela acreditou em cada palavra sua­vemente dita. Ela lhe contou que seu filho era retardado, tinha a síndrome de Down, e ela queria saber por quê.

— Por que o quê? — ele perguntou. E, sem esperar por uma resposta, Almeida olhou para Paulo e disse a Inês: — Se você pu­desse ver seu filho como eu o vejo, você veria que não há absolu­tamente nada de errado com ele. Na verdade, seu espírito é luz, sua aura e pura.

Inês, chocada, explodiu:

— O que você quer dizer com isso? Que não há nada de er­rado com ele? Você não vê? Olhe para ele, ele é mongolóide. Você o viu falar, ele mal sabe conversar direito.

Almeida sorriu para Inês e disse que ele realmente viu seu filho.. Não o Paulo que ela via, mas o espírito encarnado como Paulo. Inês não se conteve:

— Ele não pode aprender, ele nem sabe contar. Ele está em uma escola especial e nem sabe como amarrar os sapatos, soletrar o próprio nome ou mesmo falar sem pronunciar errado as palavras. Ele jamais aprenderá alguma coisa!

Ele não pode aprender porque ele não precisa aprender. Há poucas coisas para esse espírito aprender, entender estudar — res­pondeu Almeida calmamente.

O médico disse que ele vai morrer daqui a três ou quatro anos - disse ela.

E porque ele não precisa viver mais que isso — respondeu Almeida.

-Então por que ele nasceu? Por que ele foi colocado nesta Terra? E por favor, não me venha com aquela resposta estúpida: vontade de Deus". Eu não suporto mais ouvir isso. Por que ele foi dado para mim e por que agora será tirado de mim? Responda isso, se você puder.

Ela encarou Almeida e esperou impacientemente a resposta

— A vontade de Deus... — Almeida refletiu. — Essa expressão é tão mal usada! Ele é culpado de tudo, não é? Nós damos: a ele tanto poder... Talvez façamos isso para não colocar a responsabilidade em quem merece: nós mesmos.

Almeida fitou dentro dos olhos de Inês, vendo sua raiva, se ressentimento e a ferida na sua alma. Ele viu uma mãe que em breve perderia seu único filho. Ele viu uma esposa que já havia perdido o marido.

— A Terra não existe para nosso prazer e para diversão -continuou ele. — Esta dimensão existe e nós estamos aqui por uma razão.

Inês o interrompeu com uma pergunta:

— Você pode curar meu filho?

Antônio passou a mão no cabelo e respondeu:

— Eu poderia. Pode ser feito. Mas, neste caso em particular não é necessário. Quando um milagre acontece, é o espírito que está sendo curado não o corpo físico. Por exemplo, os médicos que tão descobrindo que um grande número de doenças está relacionado às emoções da pessoa. O problema, muitas vezes, é com a alma e não com o corpo físico. Pode ser dada a visão a um cego? — perguntou. — Claro que pode, se seu espírito equilibrou seu carma aprendeu as lições que tinha que aprender vivendo como cego.

Inês esperava ansiosamente, e Almeida olhou para Paulo que estava na dele, brincando num canto da sala. Antônio virou se e falou para ela:

— Em seu filho não há nada para curar. É verdade que seu espírito está preso dentro de um terrível defeito. Mas, muito ante de nascer, o espírito que você conhece como Paulo escolheu esta vida. Ele escolheu esse corpo específico não visando apenas seu próprio desenvolvimento ou a solução de algum carma. Ele quiz voluntariamente reencarnar nesta Terra por amor a voe a seu marido. A cura, neste caso, não é dele. É sua e de seu marido""

- Eu sabia! — murmurou ela. — Estamos pagando pelos pecados de nossos pais.

Almeida irritou-se com as palavras de Inês:

Você quer parar com essa história de pecado? Você não está

pagando por nada, muito menos pelas ações alheias. Paulo veio até você e seu marido para que vocês pudessem aprender compaixão, amor, compreensão e sacrifício.

Almeida tomou as mãos de Inês e segurou-as enquanto con­tinuava a falar:

Você precisa aprender amor. Você precisa aprender com-

paixão. Ã vida lhe deu uma criança que depende de você para respirar, um filho que não é inteligente, nem bonito, desembaraçado ou jovial. A vida lhe deu a chance de aprender uma lição pre­ciosa: sentir e se identificar com Paulo e com outros seres huma­nos que não são tão brilhantes ou sofisticados como seu círculo de amigos. A lição não é para ele. É para você e seu marido. O menino não é uma compensação para o egoísmo e ambição dos avós; ele é uma lição para você e Ricardo.

Almeida parou um segundo antes de prosseguir. Olhando para Paulo, que ainda estava brincando num dos cantos da sala, o rapaz continuou:

— Isso não é para compensar os egos ambiciosos e inescru­pulosos de seus pais e avós. Essa lição é para você e Ricardo. Vocês podem aprender agora, ou acabarão aprendendo de alguma Outra forma mais cedo ou mais tarde. A alma de vocês vive nesta ta Terra para poder, através dos tempos, quebrar seu próprio ego, vaidade e orgulho, purificando-se enquanto evolui.

Meu marido não quer saber de Paulo. Nem de mim. Ele tem uma amante. Nós"não dormimos mais na mesma cama — disse Inês, soluçando.

Almeida continuou, segurando a mão da mulher:

Esse garoto não é um castigo. Antes de você nascer, Inês, você escolheu a vida que está levando agora. Quando seu espírito estava do outro lado, sabia as lições que teria que aprender, a ajuda de seus guias e professores, seu espírito delineou a vida que você está vivendo. Aprenda, cresça e acenda o fogo do amor, j da compreensão e da compaixão que está dentro de você. Fez uma breve pausa e continuou:

— Paulo entrou em sua vida por sua causa. O espírito que vive naquele corpo entende uma das leis básicas do universo, a de que nenhum espírito pode unir-se novamente com o Criador até que todos estejam prontos. O todo que era um não pode ser um de novo se uma parte for deixada para trás. Ele encarnou para ajudá-la em seu trajeto. Mas, Inês, é você que precisa aprender.

Enquanto ela enxugava as lágrimas que corriam pelo rosto Almeida acrescentou, muito delicadamente:

— Há uma outra coisa que você precisa aprender com Paulo. Ele veio para a Terra a fim de ajudá-la crescer. Faça o mesmo pelo homem com quem casou. Ajude- o a crescer também
Seu espírito está confuso, ele tem sofrido. Eu sei que ele a machucou

, mas lembre-se disso: não poderemos ser um inteiro nova mente se uma parte estiver faltando. Ajude Ricardo a encontrai seu caminho.

Inês perguntou o que ela deveria fazer. Com um sorriso compreensivo, ele disse:
— A resposta é simples: amor. Ame seu filho, ajude-o e cuide dele da mesma forma como gostaria que cuidassem de você. Faça para os outros o que você faria para você. Não há nada mais para dizer, exceto isto: abrace esta chance que para aprender. Agradeça a Deus por e para seu marido evoluírem.


Capítulo 4

Mesma segunda-feira, mesma reunião, ano 2015

MASTERSON DÁ AS ORDENS


"Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um ruído, como que de um vento im­petuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados."

Atos 2:1-2

Um silêncio nervoso tomou conta da sala. Masterson olhou para seus três assessores. Ele estava se divertindo mas ao mesmo tempo preocupava-se com a confusão deles. Almeida falava por­tuguês. Ninguém sabia dizer ao menos '.'bom dia" naquela língua. No entanto, todos entenderam cada sílaba que Antônio Almei­da pronunciara.

— Alguma explicação? — Masterson interrogou.

Hanley, Martelli e Fried olharam um para o outro e, não encontrando uma resposta em seus próprios olhos, eles se viraram ao mesmo tempo para Masterson. O diretor financeiro, Martelli, res­pondeu à pergunta de Masterson:

Eu não sei o que falar. Estávamos esperando que você soubesse o que está acontecendo. Você disse que ele falava inglês perfeitamente. Talvez ele tivesse conhecimento de que estava sendo gravado e falou em inglês. Eu não sei, droga, eu não sou especialista em eletrônica. Mas, sei lá, alguém pode ter mexido na fita, feito uma dublagem, como eles fazem com aqueles filmes estrangeiros.

Masterson levantou-se da cadeira, dirigiu-se à enorme janela panorâmica e ficou olhando para os prédios distantes de Louisville. Ainda de costas para seus executivos, colocou-os a par de tudo que sabia.

— Em primeiro lugar, ele não sabia que estava sendo grava do. Obviamente, ele estava falando em português, porque todo mundo que estava ali entendeu o que ele disse. Além do mais, Emílio Araujo foi taxativo: a câmera e as fitas estavam com ele o tem­po todo. Acho então que está eliminada qualquer teoria de sabo­tagem eletrônica.

Virando-se, Masterson olhou para Hanley e perguntou:

— Você é o gênio da TV. O que você acha? Alguém dubloi ou mexeu naquela fita?

Todos olharam para Hanley, esperando que ele tivesse a resposta. Ele não pensou muito para responder:

— Rode a fita mais um pouco. Desta vez, sabendo o que estou procurando, talvez eu possa descobrir. Eu não estava prestando atenção em como o cara falava; eu estava prestando atenção
no que ele falava.

Andando para sua mesa, Masterson pegou o controle remoto e jogou-o para Hanley.

— Ligue você mesmo — ordenou.
Antes de apertar o botão play, Hanley foi até o televisor. Aumentou o volume e colocou os ouvidos perto do alto-falante. Considerando-se pronto, apertou o botão do controle remoto.

O monitor de TV tomou vida, e a tela iluminou-se com a imagem do pregador atraente e bronzeado. A câmera abriu o plano mostrando novamente Antônio Almeida cercado por sua platéia

— Olhem ao seu redor e olhem para dentro de vocês. As respostas que procuram estão aí: ao seu redor e em seu interior. vocês procurarem, vão achar. É mais simples do que parece.

Como antes, ouviram Almeida em inglês. Hanley e todos que estavam na sala agora estavam prestando uma especial atenção às palavras do jovem pregador brasileiro.

— Procurem, que vocês acham. O que vocês plantarem, vocês colhem. Isso faz parte da lei de Deus na Terra e por todo o universo. Não há nada misterioso ou complicado nisso. O ilumina do Buda ensinou essa lição também. Ele usou a palavra carma.sempre mudando, crescendo e evoluindo. Nós, os espíritos criados por ele, também estamos em constante mudança. E, quando evoluímos e crescemos, ele também cresce e evolui, porque somos parte dele. Como vocês são parte de Deus, vocês são co-criadores. Por isso ele lhes deu o livre-arbítrio, porque sem esse poder de escolha vocês não poderiam criar nada.

Almeida estava com a platéia na palma da mão, e a câmera, gravando os rostos na multidão, registrou a concentração indivisível do povo no pregador. O jovem de cabelos escuros continuava a falar com voz calma, firme e confortante.

Juntamente com o poder de escolha vem a responsabilidade e uma outra palavra para responsabilidade é carma. Tudo que vocês fazem, falam ou pensam tem conseqüências; se não agora, mais tarde. Carma não é castigo, não é vingança. Carma é a lei natural das conseqüências. Não vejam isso como se fosse a volta de ações passadas; essa atitude faz com que vocês vejam a vida de uma forma negativa. Carma não é negativo nem positivo. Simplesmente é. Não há carma bom nem mim. Há simplesmente o resultado das escolhas.

Hanley parou a fita e olhou para Masterson, Martelli e Mary Fried. Eles aguardavam ansiosamente o veredicto. E não gostaran do que ouviram:

— Eu vi alguns desses filmes estrangeiros a que Phil se referiu e posso garantir: se o inglês foi dublado nesta fita, é a melhor dublagem que já ouvi.

Masterson olhava para o chão, Martelli suspirava e Mary Friec fazia anotações no bloco de papel em seu colo. Hanley explicou

— O som ambiente é natural, o sincronismo labial e a voz combinam com o corpo. É aí que todos os trabalhos de dublagem entram bem. A voz e o som ambiental não casam, o movimento do lábios nunca é perfeito, e as vozes, não importa o talento dos dubladores, nunca batem com as dos atores originais. Eu posso assegurar que esta fita não foi dublada, pelo menos por nenhum processo que eu conheça. Mas tenho algumas dúvidas.

Mais uma vez, o grupo olhou ansiosamente para ele. Quem sabe, pensaram eles, Hanley tenha descoberto algo.

— Primeiro: se esta fita não foi dublada, o que está acontecendo?

Ele deixou a pergunta no ar antes de continuar.

Em segundo lugar, por que alguém dublaria esta fita? Não ouvimos nada tão importante, novo ou impressionante. Já ouvi mos essa baboseira da Nova Era antes. Por que alguém gastaria di­nheiro e tempo para alterar esta fita? — perguntou dirigindo-se ao seu chefe.

Masterson sacudiu os ombros e, com impaciência, respondeu:

— E por que você acha que eu tenho as respostas? Não tenho a menor idéia do que está acontecendo.

Masterson contou como a fita caiu em suas mãos. O grupo de assessores sabia que as quarenta e oito filiais estrangeiras da CCM, além de espalhar a palavra de Deus interpretada por Masterson, estavam sempre de olho aberto para outros evangélicos que divulgavam suas próprias leituras das palavras de Deus. Missionários da CCM estavam sempre alertas para potenciais concorrentes.

Havia mais ou menos um mês, Masterson recebera um rela­tório da filial brasileira. O relatório era sobre um pregador chama­do Almeida.

Nosso gerente brasileiro, Emílio Araújo, disse que esse rapaz Masterson apontou para o monitor — estava começando

a aparecer em jornais e em alguns programas de televisão. Então, conforme nossos procedimentos normais, eu pedi uma fita, que che­gou alguns dias atrás, trazida pessoalmente por uma missionária que voltava do Brasil.

Masterson levantou-se e foi até sua escrivaninha pegar um maço de papéis.

— Esta é a tradução da fita, do português para o inglês. É ób­vio que nosso pessoal em São Paulo ouviu a fita em português. Por esse motivo, coloquei a fita na máquina e comecei a acom­panhá-la com esta tradução na mão. Em poucos segundos eu me dei conta de que estava entendendo tudo que Almeida dizia. Imediatamente peguei o telefone e liguei para Araújo. Ele não ti­nha a mínima idéia do que eu estava falando. Jurou que ele mes­mo tinha operado a câmera e entregado a fita para a missionária no aeroporto.

Masterson contou que a missionária era uma avó de sessen­ta e cinco anos de Omaha, Nebraska. Ela pegou o vôo da Varig de São Paulo para Atlanta, onde mudou de avião e veio direta­mente para Louisville entregar a fita. Masterson acrescentou que ele mesmo ligou para a missionária e perguntou discretamente se a fita ficara em poder dela o tempo todo.

E lógico, Sr. Masterson — respondeu ela. — Disseram que o pacote era muito importante. Eu o coloquei em minha bagagem de mão e não tirei os olhos dela.

E isso é tudo — completou Masterson. — Eu não tenho nenhuma pista. Mas vocês podem ter certeza: eu vou descobrir, em nome de Jesus, o que está acontecendo aqui.

Ele indireitou seus ombros e assumiu a postura de um gene­ral comandando suas tropas. Numa voz firme, ele deu ordens es­tritas: o que aconteceu naquela sala não poderia sair dali. Dito isso, ele passou a instruir individualmente cada um de seus assessores, começando por Phil Martelli, o diretor financeiro:

— Descubra como, de onde, de quem e quanto dinheiro está por trás desse cara. Quero saber quem são os financiadores e, se não houver nenhum, descubra como Almeida se sustenta. O pes­soal do Brasil relatou que ele não realiza muitos encontros em massa somente pequenas reuniões nas favelas nas ruas e em casas particulares. Não há muito dinheiro nessa história. Isso está me deixando preocupado. Ele tem que ter alguma fonte de renda. Quero saber tudo sobre ele, até o tamanho de suas cuecas e onde ele as compra. Tudo, entendeu, Phil? Vasculhe a vida dele.

Instruções dadas, ele cumprimentou Martelli e dispensou-o para que executasse sua tarefa. Agora era a vez de Mary Fried. Ela era uma das melhores pesquisadoras de opinião pública dos Estados Unidos. Antes de ser contratada pela CCM, trabalhou no Partido Republicano, onde estava se tornando rapidamente a prin­cipal estrategista política.

— Mary, acho nunca vamos precisar do que vou pedir ago­ra. Eu pessoalmente acho que o Brasil está enchendo a bola des­se cara. Mas, por via das dúvidas, quero que você pesquise esse tal de Almeida. Nós precisamos saber qual é a dele. Por queum garoto brasileiro rico, que faz parte da classe alta, joga tudo fora para ser um pregador?

Mary Fried começou a tomar nota de novo (ela sempre em­punhava um bloco de notas quando o chefe a chamava) e Masterson continuou com suas instruções.

— Tente descobrir aonde ele quer chegar, qual é sua mensa­gem, o que ele está pregando e como sua mensagem está sendo recebida. Penetre em sua pele e descubra uma maneira de destruí-lo. Essa coisa do idioma está me preocupando. Se descobrirmos que não é um truque eletrônico podemos ter problemas. Talvez seja necessário inventar uma explicação. Entendido? Então come­ce a agir. A partir de agora, o Projeto AA, Antônio Almeida, é sua prioridade.

Mary sorriu. Ela estava vibrando com sua atribuição. "De vol­ta ao jogo duro", pensou. Embora estivesse feliz com seu trabalho na CCM, Mary sentia a falta do jogo mortal.

- Não se preocupe: esse cara é meu — disse ela ao sair do

escritório.

Masterson por fim sentou-se no sofá ao lado de Hanley.

Há uma razão por que o deixei por último. Eu queria falar

com você em particular. Há quanto tempo está comigo? Já faz uns vinte e cinco anos, não?



  • Vinte e sete, para ser exato — respondeu Hanley. — Co­mecei assim que saí da faculdade. ("Como se você não soubesse", Hanley falou para si mesmo.)

  • Olhe, sei que você não é um verdadeiro crente — come­çou Masterson. — Você nunca aceitou Cristo como seu salvador. Você deve até ser um liberal enrustido também. Mas foi exatamente por isso que mantive você comigo todos esses anos. Como você sabe, muitas pessoas gostariam que eu o demitisse. "De jeito ne­nhum", eu digo a eles. "Billy é um profissional. Ele não se envol­ve emocionalmente e é bom no que faz."

Hanley sabia que Masterson estava falando a verdade.Os "fanáticos" da CCM nunca confiaram nele; e mais: eles tinham ciú­me de seu relacionamento com Masterson. Por outro lado, ele também conhecia seu chefe havia muito tempo, o suficiente para saber quando ele estava maquiando.

Masterson confessou estar escondendo alguma coisa: - O que ninguém sabe é que há quatro fitas, não uma. Que­ro que você, e só você, dê uma olhada nelas. Fiz cópias. As originais ficam comigo. Conheço algumas pessoas que podem ir até o fundo nesta história do idioma. De você eu quero outra coisa.

Hanley esperou pela bomba. Masterson abaixou o tom de voz e continuou.

Avalie o cara. Você tem o dom para fazer isso melhor que Mary e toda a sua pesquisa e seus relatórios. Deixe que ela descubra o que as pessoas pensam sobre ele, mas eu quero saber o que você pensa sobre ele, Bill. — E acrescentou: —Meça-o para mim.

"Masterson sabe que sou bom na avaliação de pessoas", pen­sou Hanley, "porque é o que tenho feito nesses últimos vinte e sete anos."

Sua mente retornou para os primeiros dias do programa Clube de Cristo. Ele estava começando a dirigir o programa e lembra­va de alguns truques que havia ensinado ao chefe. Hanley tinha códigos para esses truques. Um deles era o "olhar da alma".

— Quando um convidado estiver falando — Hanley ensi­nou para Masterson —, não olhe para ele. Olhe para a câmera 3. Vou posicionar essa câmera atrás do convidado. Olhe diretamen­te para a lente da câmera 3. De vez em quando eu vou cortar para essa câmera enquanto o convidado estiver falando. As pessoas em casa pensarão que você está ligado em cada palavra que seu con­vidado estiver dizendo. Você vai aparecer como uma pessoa envolvida, preocupada e alerta.Se você olhar para o convidado, você parecerá distraído e desligado. Isso é televisão. Televisão não é real. Televisão é o que parece ser real

Masterson aprendeu bem aquela lição, assim como todas as outras também.

Uma dessas lições era um truque apelidado de "indagação moral".

— Quando você ouvir alguma coisa terrível, como a notícia da abertura de uma clínica de aborto, continue olhando para a câmera 3. Franza suas sobrancelhas e gire seus olhos para o céu. Não precisa exagerar, a câmera fará isso por você. Fazendo assim você. poderá expressar sua indignação moral contra os impulsos corruptos do mundo moderno sem parecer como fanático religioso.

"Eu o ensinei bem", refletiu Hanley. Os ternos azuis de risca de giz, as camisas cor de areia e as gravatas vermelhas de cetim (sem falar no cabelo grisalho cuidadosamente arrumado e o porte que seu um metro e oitenta ostentava) deram a Masterson o apelido de Banqueiro Bob.

As lembranças do passado desfilavam pela cabeça de Hanley. Ele se recordou de como havia treinado Masterson a moderaria voz para se diferenciar de seus concorrentes evangélicos que adoravam gritar exageradamente seus améns.

Hanley havia ajudado a moldar a imagem de Masterson: um homem que falava com Deus à noite e com políticos durante o dia.

Então assista a estas fitas — disse Masterson, tirando-o de

suas lembranças. — Quero suas impressões e também quero que você organize estas fitas. Faça uma edição baseada em temas. Por exemplo, há trechos em que Almeida fala sobre céu, pecado e reencarnação. Agrupe todo o material referente ao céu. Faça uma compilação de tudo.

Hanley pegou as fitas de Masterson e perguntou: "— Você viu todas elas?

Masterson respondeu que sim.

— No primeiro trecho que você nos mostrou — disse Hanley —, Almeida disse que haveria uma sessão com perguntas e respostas. E então?

— Então o quê? — Masterson respondeu.

— O que eu gostaria de saber é se as falas das outras pessoas estavam em inglês ou em português.

Masterson suspirou e disse:

— Vou responder assim: eu entendi todas as palavras des­sas fitas.

Hanley já estava quase do lado de fora do escritório quando a voz do Banqueiro Bob o fez parar.

—Você lembra que, de vez em quando, a gente gravava aqueles programetes sobrei Bíblia?


Hanley deixou o chefe continuar.

Bem... Uma coisa está me perturbando.

—O que é?

O Pentecostes. "O presente do Espírito Santo, o presen­te das línguas." Eu fico imaginando se tudo isso é verdade...




Capítulo 5

Mesma segunda-feira, escritório de Bill Hanley, ano 2015

HANLEY E AS FITAS


"Sua visão se tomará clara apenas quando você puder olhar dentro de seu coração. Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro acorda."

Carl Jung
"Deus disse a Abraão: "Vá para você mesmo, conheça a si mesmo, realize seu ser."
O Cabala Essencial

Seguindo as ordens de Masterson, Hanley, com as quatro fi­tas embaixo do braço, pegou o elevador e desceu para seu escri­tório, no terceiro andar. Abrindo a porta, ordenou à secretária que cancelasse todos os seus compromissos, porque estaria traba­lhando num projeto especial.

— Ah, e nenhum telefonema. Não vou poder atender nin­guém, exceto Masterson ou alguém de minha família — disse ele, fechando a porta de sua sala.

Depois de se acomodar em sua cadeira, Hanley organizou-se mentalmente. O primeiro passo seria assistir a todas as fitas, fa­zendo anotações para depois montar a edição pedida por Master­son. Para clarear os pensamentos, Hanley tirou todos os papéis irrelevantes de sua mesa e olhou para as quatro fitas à sua frente. Eram fitas digitais, as melhores que existiam. Ele sabia que não haveria nenhum problema com qualidade, porque a tecnologia digital permitia cópias exatamente idênticas aos originais.

Enquanto ele limpava a mesa, tentou entender os aconteci­mentos daquela manhã.

"Bob está atrás de alguma coisa. O que será?", Hanley se per­guntou. Ele conhecia Masterson profundamente e estava ciente de suas obsessões fanáticas e às vezes injustificadas.

A mente de Hanley voltou vinte anos, lembrando-se do jo­vem e carismático padre africano que estava ressuscitando sozinho o catolicismo africano.

O padre havia atraído um número enorme de seguidores, que, aos sábados e domingos, lotavam estádios de futebol para presen­ciar suas missas. Ele tinha até mesmo gravado CDs de hinos po­pulares, um deles ultrapassando a marca de dois milhões de cópias vendidas. O padre era um convidado freqüente nos programas po­pulares de televisão. Ele era um homem atraente, inteligente e elo­qüente que estava provocando um renovado interesse na fé ca­tólica da África. A freqüência às igrejas era cada vez maior, e o próprio papa viajara pelo continente acompanhado pelo padre.

Por outro lado, os missionários da CCM estavam frustrados. Suas missões e creches se esvaziavam, enquanto as mães levavam seus filhos para as aulas de catecismo.

Masterson, lembrou Hanley, espumava de raiva. A África era importante para ele porque a CCM, por meio de campanhas na TV, arrecadava milhões de dólares para seus missionários. Durante aqueles programas, Masterson informava o número de almas afri­canas salvas pela CCM e quantas mais podiam ser conquistadas para Jesus se os bons telespectadores cristãos doassem mais cinco, dez ou vinte dólares. Tudo estava indo bem até aquele padre aparecer.

A estratégia de Masterson era simples. Ele pediu a Martelli, como fizera algumas horas atrás, que vasculhasse as finanças do pa­dre. Naquela época, Mary Fried ainda não trabalhava na CCM, e Masterson contratou alguns investigadores particulares para levan­tar a vida particular do padre.

Mas foi Martelli quem salvou a pátria.

Hanley lembrava-se, quase que palavra por palavra, da reu­nião em que Martelli relatou a Masterson o que ele descobrira so­bre as finanças do padre.

— É o seguinte — começou Martelli. —O padre está limpo. Mas não se pode dizer o mesmo dos seus parentes. Por exemplo, seu cunhado tem participação nas vendas de lembrancinhas durante as missas. Você sabe: Jesus de plástico, terços, imagens da Virgem Maria, toda aquela tranqueira católica. Estou convencido de que o padre não sabe nada sobre isso; ele é puro como a neve cain­do. O pior que se pode dizer é que ele é ingênuo. E esse mesmo cunhado também é responsável pela venda dos CDs. O lucro das vendas é destinado para alguma caridade da igreja. Mas nosso amigo está passando a mão em vinte por cento. De novo, tenho certeza de que o padre não sabe nada. Ele é simplesmente um cara que tem um cunhado — finalizou Martelli com uma risada.

Algumas semanas depois começaram a surgir denúncias na im­prensa africana relatando as falcatruas do cunhado. Artigos assi­nados por intelectuais africanos criticavam veementemente o pa­dre e seu cunhado malandro, dizendo que o pobre povo faminto da África estava sendo iludido.

Os bispos africanos e o Vaticano sabiam que o padre era ino­cente, mas acharam melhor transferi-lo. Decidiram mandá-lo para os Estados Unidos, onde havia carência de padres nas paróquias dos bairros mais pobres. A última notícia que Hanley tivera do pa­dre era que ele estava rezando e cantando para os negros pobres do Harlem.

Hanley sabia que houve centenas de outros casos como esse. Masterson sempre agia decisivamente quando seus interesses es­tavam em jogo. O Banqueiro Bob nunca se contentava com pou­co. "Pense grande", era o que Masterson costumava exortar a seus auxiliares. Hanley sabia que "grande" era a quantia de dinheiro cobiçada.

Masterson, logo no início da carreira, percebera que os americanos não se interessavam muito em ajudar necessitados nas regiões pobres do país. "Mas" ele sempre dizia,"coloque no ar algumas cenas com crianças pobres e desnutridas da Africa, América do Sul ou Ásia, e os americanos vão mandar cheques para sal­var suas almas. O povo americano têm um tremendo complexo de culpa. Eles sabem que financeiramente estão melhores que o restodo mundo, então eles acham que devem pagar a Deus pela sua boa sorte."

A CCM e Masterson usavam os campos férteis do Senhor j África, Ásia e América Latina para arrecadar dinheiro nos Estados Unidos, Canadá e Europa ocidental. Essas doações do mu do rico, além de sustentar milhares de missionários, pagavam satélites, cabos de fibra óptica e estações de televisão que a CC usava para divulgar em todo o mundo a palavra de Deus segu Masterson.

O que os doadores não sabiam era que aquele mesmo dinheiro financiava negócios imobiliários de milhões de dólares, investimentos em plataformas de petróleo e participações em banco europeus e companhias de seguros. O braço financeiro de Masterson tinha, havia muito tempo, se estendido em quase todos dos os países do mundo.

Bill Hanley voltou sua atenção para o trabalho. Com as fitas já inseridas nos aparelhos de vídeo, ele estava pronto para começar. O cronômetro à sua frente anunciava que as fitas começariam a rodar em vinte segundos. Enquanto estivesse assistindo às fitas uma outra cópia digital estaria sendo produzida, a qual seria usada para realizar a compilação solicitada por seu chefe.

O relógio eletrônico agora mostrava o número 18, e, enquanto a contagem regressiva continuava, Hanley especulava quais seriam as intenções de Masterson em relação ao jovem pregador brasileiro.

Antônio Almeida era diferente do padre africano. Ele ainda não era famoso, não era nenhuma ameaça a Masterson e não estava pedindo a seus seguidores que aderissem a uma igreja, um partido político ou uma revolução social.

— Talvez — disse Hanley em voz alta para sua sala vazia —, quando eu terminar de assistir a estas fitas, eu entenda o porquê de tudo isso.

O cronômetro já tinha chegado ao número 10, e Hanley procurou se concentrar no trabalho que tinha pela frente. Cada fita tinha duas horas de duração, portanto assistir a todas levaria mais de oito horas.

— Tudo bem — disse ele para si mesmo. — Não tenho nada melhor para fazer.

Olhou para o relógio em seu pulso e pensou: "Agora são duas da tarde. Devo terminar perto das onze." A contagem regressiva chegou aos cinco segundos. Enquan­to os aparelhos se ligavam, ele lembrou de pesquisar a referência ao Pentecostes feita por Masterson. Mas agora o show estava pronto para começar. O monitor da televisão se iluminou com a imagem de Antônio Almeida adentrando uma sala mal ilumina­da numa favela brasileira. As cento e poucas pessoas naquela sala se levantaram quando o rapaz entrou. Almeida sorria enquanto cumprimentava cada pessoa. Ao chegar ao centro da sala, o pre­gador olhou diretamente para a câmera escondida de Masterson. E sorriu.

Naquele momento, Hanley teve certeza de que, apesar das ga­rantias de Masterson e do escritório do Brasil, Antônio Almeida estava ciente da câmera escondida. Hanley também podia jurar que Almeida sabia que aquelas gravações iriam acontecer. Ele leu isso no rosto do pregador.

— Quem sabe — disse Hanley mais uma vez para a sala va­zia — nestas fitas eu encontre mais do que estava esperando...

Capítulo 6
Mesma segunda-feira, São Paulo, Brasil, ano 2015
NÃO TENHAM MEDO


"Levantem-se, leões, e livrem-se da ilusão de que vocês são ovelhas. Vocês são almas imortais, espíritos livres, abençoados e eternos." Swami Vivekananda

Enquanto Bill Hanley assistia às fitas clandestinas, Antônio Almeida estava com mais ou menos cinqüenta adolescentes em seu pequeno galpão alugado em São Paulo.

Nas últimas semanas, adolescentes de todo o Brasil haviam aparecido para falar com Almeida. Ele percebeu que a maioria deles tinha as mesmas perguntas, dúvidas e medos sobre suas vi­das, seu futuro e sobre si mesmos. Por isso, Almeida decidiu reser­var duas horas por dia para conversar com eles. Por serem infor­mais, esses encontros diários eram a parte do dia mais apreciada por Almeida.

Quando Antônio entrou, os adolescentes estavam esparrama­dos num semicírculo, sentados em cadeiras, em pé ou sentados no chão com as pernas cruzadas. Posicionando-se no meio do círculo, Almeida começou:

— Oi, pessoal. Estou feliz em ver vocês aqui. Tenho certeza de que a gente vai pasar uma tarde interessante.

Seus olhos percorriam lentamente a sala enquanto ele exa­minava o grupo.

— A vida é como esta reunião. Aqui nesta sala, nós vamos aprender de cada um. Vocês, e todos que vivem neste momento na Terra, estão aqui para aprender. E uma das melhores maneiras de aprender é aprender com cada um. Podem acreditar: eu aprendo com vocês. Toda vez que eu sento eu

cresço um pouco. Obrigado por terem vindo. Um dos meninos levantou sua mão e perguntou a Almeida j como eles poderiam aprender um com o outro:

— Afinal, somos moleques que não sabem nada da vida. Pelo j menos é isso que os nossos pais sempre falam— acrescentou o ado­lescente. O grupo riu e Almeida riu junto.

— Vocês vão ficar surpresos. Em primeiro lugar, nenhum de nós está aqui hoje por acaso. Não há acasos nem coincidências. Existe uma ordem no universo é para nossas vidas neste universo. Nada, absolutamente nada acontece sem razão. Deixem-me mostrar a vocês — disse Antônio, perguntando ao menino qual era seu nome.

— Luís Mendonça — foi a resposta. Almeida andou até uma menina sentada no meio do semi-]

círculo e perguntou qual era seu nome.

— Sônia Martinelli. Antônio dirigiu-se para Luís:

— Se você ouvisse a história de Sônia, veria que ela é muito parecida com a sua. Ela também se sente desprezada, isolada e sozinha. Ela tem dúvidas. Ela não sabe se tem o talento e a inteligência necessários para obter sucesso na vida. Estou certo? — perguntou aos dois.

Luís e Sônia concordaram, assim como a maioria dos adolescentes na sala.
— Acabamos de ter a primeira lição de hoje: vocês não estão sozinhos. Quando eu tinha sua idade, também tinha muitos dos mesmos sentimentos, dúvidas, ansiedades e medos sobre meu futuro.

Almeida voltou para o meio do semicírculo. Ele pegou um exemplar de um jornal velho. Na primeira página estava a história de dois adolescentes americanos que entraram em sua escola com metralhadoras matando ou ferindo quarenta colegas.

— Por que isso aconteceu? — perguntou Almeida, referindo-se ao jornal que ele segurava no ar.

Ninguém respondeu. Almeida cutucou o grupo, perguntando uma vez se eles tinham alguma idéia do que faria dois jovens matarem seus amigos e depois se suicidar. O grupo continuou sem responder.

Almeida então perguntou se algum deles já havia pensado em fazer alguma coisa parecida.

Um rapaz alto e loiro, sentado na parte mais externa do se­micírculo, levantou timidamente a mão. Outro, sentado no meio, levantou a mão também. Lentamente, quatro outras mãos se le­vantaram, e Almeida fez uma pergunta simples ao rapaz loiro:

— Por quê?

O garoto olhou primeiramente para Almeida e depois para seus amigos. Finalmente, ele respondeu:

Provavelmente pela mesma razão daqueles dois caras nos

Estados Unidos.



  • Explique isso. Por que você acha que fizeram aquilo? — perguntou Almeida.

  • Medo — respondeu o garoto. — Eles estavam com medo porque eles não se encaixavam. Eles se sentiam fora do grupo. Aí, depois de cansar de ter eles ficaram com raiva.

  • E isso aí, ele está certo — disse um dos rapazes que levantara a mão. — Eles estavam com raiva porque não se encaixavam em sua escola. Eles tinham tanto medo de nunca ser nada ou ninguém que acharam melhor desistir.

Uma parte do grupo concordou. Outra parte esperou saber o que Almeida tinha para falar. E ele foi direto ao assunto.

Medo. É sobre isso que nós vamos falar. Do que vocês têm.


Alguém aí fale sobre isso.

Uma menina chamada Juliana se abriu:

- há uma pressão sobre mim. Estudar, tirar boas notas, ir Para a faculdade, arrumar um bom emprego, casar bem, etc., etc., Eu não sei se posso fazer tudo isso. Às vezes, acho que não vale a pena.

Do outro lado da sala, uma garota de uns dezoito anos relatou seus medos ao grupo.

Tenho medo de ficar sozinha. Eu não iria suportar. Eu sei que não sou bonita nem muito inteligente, acho que vai ser difí­cil arranjar alguém, mas eu não vou conseguir viver só.

As vozes foram se sobrepondo, cada um trazendo a público | seus medos.

— Eu tenho medo de não me encaixar. Sei que o pessoal me chama de Caxias, de CDF E também não sou bom com garotas —-confessou uma voz masculina.

— A vida é complicada. Tem noite que vou dormir pensando em não acordar mais — desabafou outro garoto.



  • O que eu vou fazer da minha vida? Nada me interessa. | Todo dia a mesma rotina chata e inútil. .Não há nada que eu quei­ra ser ou fazer — acrescentou uma garota no fundo.

  • Eu não sou bom o suficiente. Todo mundo sabe o que quer todos têm objetivos. Todo mundo é senhor de si mesmo. Eu me sinto um fracassado exclamou uma outra voz.

E assim continuou: os cinqüenta adolescentes contando seus medos para Almeida, sem esconder nada. Uma barragem havia caído, e as emoções reprimidas fluíram como um rio para o oceano que era aquela sala. Eles estavam abrindo seus corações diante de Antônio Almeida e do grupo. Eles confiavam nele e, em sua pre­sença, confiaram uns nos outros. Eles tiraram a máscara da arrogância adolescente e contaram a Almeida que estava trancafia­do em suas mentes.

Antônio observava. E ouvia. Ele deixou a conversa fluir ser interromper. Quando a discussão serenou, disse:

— Espero que vocês tenham percebido o que aconteceu aqui. Vocês ajudaram um ao outro. E conseguiram fazer isso sozinhos porque, por um breve momento nesta sala, vocês estiveram ligados entre si.

Almeida, agora relaxado numa cadeira, perguntou se eles sabiam o que tinham em comum Em uma só voz, todos responderam.

— Medo!

Sorrindo, Almeida continuou:



— Vocês todos têm medo. Podem ser medos diferentes, mas a emoção e o resultado são os mesmos. Alguns têm medo de não ter amigos, outros medo de crescer ou de não ser bem-sucedidos ou medo de ficar sozinhos. Alguns de vocês pensam não ter garra suficiente ou não se consideram bonitos o bastante ou prontos para lutar neste mundo competitivo em que vocês nasceram. Estou certo?

A resposta foi um sonoro sim.

Ele olhou nos olhos dos jovens. Aqueles olhos ansiavam por uma resposta que acabasse com suas dúvidas e ansiedades. Eles não queriam ter medo. Almeida abaixou a voz e continuou falando:

— Vou contar uma coisa para vocês. Vocês não são os únicos. Cada grupo que atravessou estas portas falou a mesma coisa: nós temos medo. Vou revelar outro grande segredo: todos que vivem neste mundo têm medo. Pouquíssimas pessoas não o têm. Ultimamente o medo vem correndo solto na vibração terrestre.

Sentada na primeira fila, uma menina de quinze anos, rosto cheio de espinhas, discordou do que ele acabara de dizer:

— Eu olho ao meu redor e todos parecem saber o que que­rem. Todos parecem saber o que estão fazendo. Eu sinto que sou a única que não é assim.

Almeida balançou a cabeça e falou:

— Bem, durante os últimos dez minutos você ouviu o con­trário disso. Ninguém aqui afirmou que não tinha medo de nada. Ou será que você está falando dos adultos, aqueles que parecem estar sempre numa boa?

Ela e vários outros concordaram. Almeida prosseguiu:

— Bem, vamos falar sobre isso. Quem são as pessoas mais fa­mosas e bem-sucedidas que vocês conhecem? São os cantores, atletas e empresários famosos? Você acham que, por terem atin­gido num certo nível de fama", fortuna e poder, eles não têm medo? Vocês acham que eles não temem o dia em que a fama acabar? Vo­cês acham que eles não têm medo de ficar velhos ou perder suas posições?

Os adolescentes fizeram um sinal com a cabeça, concordan­do com Almeida, que enfaticamente continuou falando para eles.

Todos têm medo. Medo do mundo, medo de suas próprias fraquezas e do vazio em suas almas. E é por causa desses medos que muitas pessoas, e não apenas da idade de vocês, procuram drogas.

As drogas servem para mascarar a dor, o medo e a ansiedade. Vo­cês todos já ouviram falar de empresários, roqueiros ou atletas que pagam uma fortuna para sustentar seus vícios. Se eles não tives­sem medo e soubessem por que nasceram neste mundo, eles não precisariam se drogar para encobrir seus medos.

O grupo estava silencioso, refletindo sobre as palavras de Antônio Almeida.

— Eu sei que a maioria de vocês já experimentoudrogas. Al­guns por curiosidade, para descobrir qual é o barato. Outros por­que seus amigos usam e vocês querem se enturmar. A maioria de vocês experimentou e largou. Outros experimentaram, usaram e não pararam mais, porque com drogas vocês escapam. Seus medos desaparecem e suas ansiedades vão embora como uma nuvem de chuva. Mas não há respostas no mundo drogado. É como sair de férias: quando a gente volta, os problemas que deixamos para trás ainda estão lá.

Os jovens concordaram com ele. Todos esperavam o que Almeida iria dizer em seguida. Ele se levantou novamente com o jornal nas mãos.

— Nós começamos falando sobre esses dois adolescentes nos Estados Unidos. Eles entraram na escola vestidos de preto mataram outros estudantes e depois se mataram. Eles estavam com


medo porque estavam sozinhos. Estavam com medo porque pensavam ser os únicos que se sentiam assim: isolados, sem amigos que se preocupassem com eles... O medo faz essas coisas. O medo faz uma sociedade inteira procurar um bode expiatório para sua miséria:
os negros os amarelos e os descrentes. Durante a história recente deste mundo, uma nação inteira matou homens e mulheres em campos de concentração. Fizeram isso por causa do meda Medo é raiz podre da maldade. — A sala estava quieta, e Almeida foi chegando ao seu ponte principal.

— Nesta vibração, a maioria das almas vive, como um seus escritores uma vez colocou, em um desespero silencioso. P soas têm medo de viver e medo de morrer. Uma das razões pelas. quais eu vim foi para ajudar vocês a superar esses medos. Não a medo da morte mas seus medos da vida. O medo apaga o espírito.

Quando vocês temem, vocês não conseguem experimentam evoluir, vocês apenas fracassam. O medo paralisa nosso

maior dom, o livre-arbítrio, impossibilitando-nos de fazer escolhas. Almeida olhou para o grupo. Eles estavam refletindo sobre o ele dissera e, enquanto olhavam para dentro de si mesmos, sabiam que suas palavras eram verdadeiras.

- Quem é o responsável pelo medo? Nós. Nós o alimentamos em nós mesmos e dentro dos outros.


Almeida voltou a falar dos colegiais americanos. Ele disse ao grupo que aqueles jovens estavam com medo e por isso tinham rai­va. Raiva por não se adaptar ao meio, raiva por serem diferentes e raiva por não serem aceitos por seus colegas. Cada um de vocês é responsável pelo medo que os outros espíritos sentem. Quando vocês — suas mãos varreram o grupo, indicando que ele se referia a todos eles — rejeitam alguém porque ele ou ela não é bonito, inteligente, divertido ou não se veste bem, vocês são responsáveis pelo medo desse alguém, pela sua rejeição, sua dor e sua raiva. E, como somos todos ligados uns aos outros, quando cria­mos medo em outro ser humano nós o criamos em nós mesmos.

O garoto loiro que havia começado a discussão ergueu a mão para fazer outra pergunta.

— Olha, esse papo é legal, pode até ser verdade. Mas tem uma coisa que eu e quase todo mundo quer saber. Não... — corrigiu-se — não quer saber. Precisa saber. Nossas vidas não fazem sentindo porque não entendemos o que estamos fazendo aqui, por que nascemos, o que esperam que a gente faça. Ninguém nunca respondeu isso. Você pode?

Mais do que uma pergunta, aquilo havia sido um desafio. Almeida perguntou brincando se era uma pergunta capciosa. O grupo não riu. Ainda em pé, o garoto encarou Antônio, esperando

resposta. Almeida sentou-se no chão com as pernas cruzadas,

ente ao grupo, e disse que iria responder, mas que eles teriam de ter paciência.

- Vou tentar explicar isso de uma maneira que nunca mais

esquecer e, espero, de uma maneira que vocês entendam.

Pediu-lhes que se sentassem no chão, relaxassem e se abrissem para seus próprios sentidos, sentimentos e emoções. - Não tenham medo, nada de estranho vai acontecer. Quero apenas que vocês estejam abertos e conscientes.

Almeida pediu-lhes que limpassem suas mentes de qualquer coisa em que estivessem pensando e que imaginassem uma caixa vazia, dentro da qual eles colocariam seus pensamentos, preocupações e problemas.

— Eu quero que vocês coloquem inclusive o que acham que vamos fazer. Não tentem pensar adiante. Deixem suas mentes viverem no presente, no agora. Ele esperou alguns instantes até que os jovens fizessem que ele pedira, e então pediu-lhes que fechassem a caixa e a selassem bem.

— Quando terminarem, simplesmente empurrem a caixa para

longe, a uma distância em que ainda pode ser vista mas que não atrapalhe o caminho.

Antônio aguardou mais um pouco e continuou:

— Vocês perguntaram: qual é o sentido da vida? Por que estamos aqui? Agora eu vou fazer uma pergunta para vocês. Mas não respondam ainda. Simplesmente ouçam a minha voz enquanto eu guio vocês.

Almeida perguntou se eles alguma vez já tinham feito ou criado alguma coisa: um desenho, uma pintura, uma historia ou, quando crianças,um modelo de massinha ou um castelo de areia.

— Visualizem o desenho, o castelo de areia, o poema ou a história que vocês criaram. Pensem neles agora.

Ele fez uma pausa, deixando suas mentes tocar, segurar e acaririciar suas criações.

— Essa criação é você. Você criou alguma coisa do nada Você fez uma expressão de si mesmo. Você preencheu um vazio com a inventividade de sua mente. Você criou alguma coisa que era ao mesmo tempo parte de você e separada de você. Alguma coisa que não existia começou a existir porque você a desejou.Você foi o criador.

Almeida continuou falando enquanto os adolescentes viam mentos mais escuros de medo, insegurança, dor e angústia, vivam sabendo que vocês são um espírito eterno criado por ele, o Espírito Universal. Saibam que vocês são parte dele e ele é parte de vocês. Saibam que vocês viveram antes e viverão de novo. Saibam que vocês, antes de nascer, escolheram o caminho que estão trilhando agora, porque vocês sabiam que era o melhor caminho para vocês. Vocês não são um desenho, um poema ou um modelo de massinha. Vocês são criações vivas do universo. Vocês estão aqui nesta Terra para aprender, crescer e evoluir. Saibam isso, vocês não terão medo. Saibam que todos os espíritos encarnados nesta Terra estão aqui pela mesma razão que vocês. Entendam isso, e não haverá razão para sentir medo.

Finalmente, antes de se despedir dos adolescentes, Almeida suplicou-lhes que ficassem longe das drogas.

— Como eu disse, a droga apenas encobre seus problemas. Mas elas também fazem outra coisa: distanciam vocês de seu verdadeiro ser. Vocês estão na Terra para aprender, criar, experimentar, crescer. Vocês estão aqui para provar tudo que este mundo tem para oferecer. Não caiam na besteira de pensar que as drogas vão aguçar çar seus sentidos, tornando-os mais conscientes de suas experiências. Isso, para não dizer coisa pior, é merda. Drogas confundem a mente física. O espírito usa a mente física para sentir, entender fazer experiências nessa vida que você está vivendo. Um vício aqui na Terra dificulta que seu próprio ser, seu espírito, se liberte desta vibração. Se você se prender a esta vibração, você não estará livre para progredir, você não estará livre para se reunir, seu espírito de criação.


Capítulo 7



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