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ANÁLISE DE UM CASO DE OCORRÊNCIA DE VENTOS FORTES EM PELOTAS-RS
Maria Helena de Carvalho1

Alysson de Souza de Aguiar2


ABSTRACT

On October 8 2001 very strong winds were registered in Pelotas city - RS. Those winds achieved 104 km/h and caused many houses to lose their roofs. They also left hundreds of people deprived of shelter, according to news published by a local newspaper. The synoptic situation associated with those winds was studied using satellite images, fields of several meteorological parameters and data from meteorological stations of Oitavo Distrito de Meteorologia (Eighth Meteorology District) of the National Institute of Meteorology. The occurrence of the observed strong winds was associated with a surface cyclogenesis. The entrance of an upper air trough, which crossed Andes mountains between 00 and 12 UTC of October 7, 2001 and, also, a warm air advection brought by n air stream with a significant northern component combined with a cyclonic vorticity advection at middle tropospheric levels contributed to the cyclogenesis.


RESUMO

No dia 08 de outubro de 2001, foram registrados ventos muito fortes na cidade de Pelotas - RS, que atingiram velocidade de 104 km/h e provocaram destelhamento de muitas casas, deixando desabrigadas várias centenas de pessoas, de acordo com notícia veiculada em jornal local. A situação sinótica que deu origem a estes ventos foi estudada usando-se imagens de satélite, campos de várias grandezas meteorológicas gerados pelo modelo global do NCEP e dados de estações pertencentes ao Oitavo Distrito de Meteorologia. A ocorrência dos fortes ventos observados esteve associada com uma ciclogênese à superfície. A entrada de um cavado no ar superior, o qual cruzou os Andes entre as 00 e as 12 UTC do dia 07 de outubro de 2001, uma advecção de ar quente trazido por uma corrente de ar com marcante componente de norte, combinadas com uma advecção de vorticidade ciclônica em níveis troposféricos médios contribuíram para o processo de ciclogênese.


INTRODUÇÃO
O estudo de ciclones extratropicais tem despertado o interesse dos pesquisadores há muito tempo, principalmente devido aos seus efeitos importantes. Pode-se citar, por exemplo, a geração de ondas oceânicas de altura considerável e podendo, assim, causar destruição, dependendo de sua intensidade.

Ferreira (1989) estudou a freqüëncia de formação e de trajetórias dos ciclones extratropicais no período de 1980 a 1986, compreendendo a região entre 15º-60ºS e 30º-70ºW, com base em imagens de satélite e concluiu que as ciclogêneses são mais numerosas no verão do que no inverno. Ela observou que existe uma tendência marcada para máximas freqüências de ciclogênese sobre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. Posteriormente, Gan e Rao (1991) obtiveram a freqüência de ocorrência de ciclogênese sobre a América do Sul, durante o período de janeiro de 1979 a dezembro de 1988, usando cartas de superfície. Eles concluíram que a freqüência de frontogênese é maior no inverno do que em qualquer outra estação. Encontraram também que a menor freqüência ocorre em dezembro.

Seluchi (1995) destacou que 70% dos casos de ciclogênese ocorrem durante o semestre frio (maio a outubro) e se originam de baixas frias que provêm do Oceano Pacífico.

De acordo com Seluchi et al. (2001), as ciclogêneses se manifestam preferencialmente a sotavento de cadeias de montanhas ou na proximidade de regiões costeiras. Por esta razão, a costa oriental da América do Sul resulta em uma zona ciclogenética preferencial, posto que se combinam a ação da Cordilheira dos Andes e a presença da corrente quente do Brasil. Em algumas situações, a intensidade e a posição geográfica dos ciclones (fundamentalmente quando se encontram sobre o Uruguai) geram ventos fortes de sudeste sobre o Rio da Prata. Estes efeitos causam grandes transtornos aos moradores ribeirinhos, pois os ventos rio acima e a forma de funil do estuário favorecem seu transbordamento.

Filgueiras (2003) afirma que os ciclones extratropicais acompanhados de ventos acima de 15 m/s (54 km/h) produzem a grande maioria das ondas que chegam às praias. No mesmo artigo ele cita Innocentini, segundo o qual os ciclones extratropicais na América do Sul não se intensificam sobre o continente, como se pensava inicialmente, e sim no oceano, em torno da latitude de 35 a 45 graus, ao largo do Uruguai e da Argentina. Estes ciclones surgem, normalmente, no Pacífico, atravessam os Andes junto com as frentes frias e quando chegam ao Atlântico se intensificam: formam ventos fortes e, conseqüentemente, transferem energia, em forma de movimento, para o mar, criando ondas que se propagam até a costa brasileira, principalmente, entre os meses de abril e outubro.

Justamente por estarem freqüentemente associados a ventos fortes e também com chuvas intensas, estes sistemas têm sido objeto de estudo. Diniz (1984) descreveu o caso de um ciclone extratropical formado sobre a Bacia do Prata e que atingiu o Rio Grande do Sul, causando ventos fortes durante três dias. Diniz demonstrou, através de análises sinóticas e fotografias de satélite, como detectar a formação e, conseqüentemente, o deslocamento de vórtices ciclônicos extratropicais em tempo real utilizando imagens de satélite e cartas sinóticas de altitude e superfície.

Acosta et al. (2002) fizeram uma análise da situação ocorrida em outubro de 2001, quando houve uma inundação na região sul da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Eles concluíram que a previsão de 60 horas do modelo ETA (CPTEC) apresentava indícios da ocorrência do fenômeno, tanto na superfície como nos níveis médios e altos.

Moreira et al. (2000) analisaram um ciclone extratropical observado entre 28 e 30 de junho de 1999, o qual causou fortes velocidades do vento no Rio Grande do Sul, bem como chuvas abundantes. Eles concluíram que o ciclone responsável pelos ventos intensos apresentava um núcleo frio. Eles também encontraram que a velocidade do vento era maior nos níveis superiores em relação à superfície. O sistema estudado por Moreira et al. foi caracterizado como barotrópico, ou seja, praticamente não houve inclinação do eixo do cavado desde a superfície até o nível de 300 hPa, durante o deslocamento do sistema.

Em Pelotas, no dia 08 de outubro de 2001, foi registrada uma ocorrência de ventos muito intensos. A mesma situação foi verificada em várias regiões do Rio Grande do Sul, conforme publicado em jornais da época. Por exemplo, em Porto Alegre foram derrubadas árvores. Em Santa Cruz do Sul, a ventania provocou estragos em vários bairros da cidade. O vento forte provocou agitação marítima (ondas de até quatro metros de altura), o que manteve as atividades do porto marítimo de Rio Grande suspensas por muitas horas.

O objetivo do presente trabalho é analisar o evento observado no dia oito de outubro de 2001 no Rio Grande do Sul, o qual ocasionou a ocorrência de ventos fortes em vários municípios, verificando a causa destes ventos intensos.


METODOLOGIA
Foram analisadas as imagens do satélite GOES-8, dos canais infravermelho e vapor d´água do período entre 7 e 9 de outubro de 2001, de vários horários que estavam disponíveis no arquivo do Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas (CPPMet) da Universidade Federal de Pelotas.

Usaram-se também usados dados de superfície do Rio Grande do Sul e Santa Catarina dos dias 7, 8 e 9 de outubro de 2001, contidos nos boletins sinóticos do 8º DISME, do Instituto Nacional de Meteorologia. Os horários dos dados são os seguintes: 00, 12 e 18 UTC e as informações são de pressão, vento, temperatura do ponto de orvalho, tendência de pressão, tempo presente, tempo passado, nebulosidade e precipitação.

Também foram utilizadas análises do modelo global do NCEP, das 00 UTC e as previsões do mesmo modelo para 12 UTC. Estes dados foram obtidos dos arquivos do CPPMet. A razão para o uso das previsões para as 12 UTC é que no CPPMet não existem as análises referentes ao mesmo horário. Os campos analisados foram os seguintes: temperatura, pressão reduzida ao nível do mar, altitude geopotencial, vorticidade relativa, divergência, vento, advecção de temperatura e advecção de vorticidade, para vários níveis de pressão disponíveis. No caso da vorticidade e da advecção de vorticidade, analisaram-se, também, os campos previstos para 24 e 36 horas.

Outro tipo de dado utilizado foi o de vento a 7 m de altura, fornecido pela Estação Agroclimatológica de Pelotas (convênio EMBRAPA/UFPel), cuja localização é a seguinte: 31º 52’S; 52º 21’W, em uma altitude de 13,24 m.

Os dados de temperatura potencial e da componente meridional do vento são da reanálise do NCEP e foram fornecidos pelo Climate Diagnostic Center (NOAA-CIRES), Boulder, Colorado, USA, do seu site na WEB, cujo endereço é: http://www.cdc.noaa.gov.

Foram construídas seções verticais da componente meridional do vento e da vorticidade relativa.



A análise das imagens de satélite, para identificação do vórtice foi feita de acordo com Anderson (1973).

RESULTADOS
Imagens de satélite
Analisando-se as imagens de satélite, verifica-se que no dia 7 de outubro de 2001, às 00:09 UTC, havia uma massa de nuvens com configuração anticiclônica sobre o RS e um sistema convectivo sobre o sul do Paraguai. Na imagem das 09:09 UTC, observa-se que houve um aumento da área com atividade convectiva, a qual expandiu-se para a região nordeste da Argentina. Às 11:39 UTC (Figura 1), já se podia observar um aglomerado de nuvens em forma de gancho localizado sobre a região de Santa Rosa – Argentina, a noroeste de Mar del Plata. Também na imagem de 11:39 UTC observou-se um sistema convectivo de mesoescala, semelhante a um Complexo Convectivo de Mesoescala (Maddox, 1980) na região centro-oeste do Rio Grande do Sul. A convecção continuou intensa sobre o oeste deste estado e o nordeste da Argentina/sul do Paraguai, conforme pode ser observado na imagem de 00:09 UTC do dia 08 de outubro de 2001. De acordo com Ferreira (1989), alguns complexos convectivos de mesoescala podem estar embutidos nos números de gênese de vórtices ciclônicos. Embora o período em que se observou a formação do vórtice em estudo seja o de início da primavera, é possível que a convecção tenha tido um papel importante na gênese do mesmo.A espiral do vórtice ciclônico estava bem definida na imagem das 12:09 UTC (Figura 2) deste mesmo dia. É importante ressaltar que os ventos mais fortes em Pelotas foram registrados na madrugada do dia 08, ou seja, no período em que o vórtice ciclônico estava se definindo. Verificou-se que desde a imagem anterior, o sistema começou a deslocar-se na direção sudeste.



Figura 1 – Imagem do satélite GOES-8, no espectro infravermelho, para o dia 07 de outubro de 200, às 11:39UTC.





Figura 2 – Imagem do satélite GOES-8, no espectro infravermelho, para o dia 08 de outubro de 2001, às 12:09 UTC.








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