Resumo do projeto de implantação do núcleo de neuropsicologia cognitiva do lcl do cch da uenf



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(pg.74) Conclusão

O "sono paradoxal" ou "REM" do adulto, por ser um evento repleto de imagens visuais de caráter simbólico envolvendo áreas corticais altamente complexas, equivaleria à experiência de “mundo visual”dos mamíferos mais evoluídos.


Tendo como possível finalidade responder à questão "o que?" da forma mais abrangente possível, o sonho paradoxal proporcionaria a análise, a seleção e a composição de múltiplas impressões sensoriais, internas e externas que, ultrapassando os limites do tempo e espaços físicos, daria ao ser humano um entendimento individualizado, consciente e universal, acerca do mundo e de si mesmo.
Considerando-se que o sentido mediador encontrado no “sono paradoxal” por Michel Jouvet, em suas recentes pesquisas, é o mesmo encontrado no início do século por Freud nos “símbolos oníricos” e por Vigotsky no "significado das palavras", concluímos que símbolos e signos, sejam eles utilizados como mediadores internos ou externos, desempenharam ao longo dos tempos, um importante papel no processo de individualização social das espécies.
Por selecionar, comparar, organizar e relacionar experiências ancestrais com aquelas experimentadas no dia-a-dia, o sonho condensa em seu conteúdo simbólico, assim como os mitos, todo o drama da humanidade sem, entretanto, perder as características peculiares a cada diferente grupo social. Dentro deste enfoque, a experiência onírica das tribos indígenas, pequenos grupos cuja etnia e práticas relacionais permanecem mais ou menos constantes, é muito elucidativa.
Na cultura Hopi, tribo indígena do sudoeste americano, os sonhos, ao lado dos cerimoniais religiosos, constituem, desde o nascimento até a morte, uma fonte inesgotável de imagens simbólicas que satisfaz não só às necessidades individuais, como também as sociais. Possuindo uma cultura egóica extraordinariamente controlada pelo grupo, os hopis apresentam em suas vivências um conteúdo onírico bastante homogêneo e estável em que as imagem visuais e as emoções se repetem.
(pg.75) A deidade hopi é "Palulukon", uma grande serpente que vive nas entranhas da terra controlando as águas do universo. Por ser uma personagem flexível, ao mesmo tempo coletiva e singular, toda a vez que fica desgostosa com o comportamento dos homens, individualmente, em família ou dentro da tribo, ela manifesta seus sentimentos de desagrado agitando-se, o que provoca catástrofes ambientais, como furacões, tempestades, maremotos e terremotos. Em seu aspecto benéfico, "Palulukon" é a grande fornecedora de líquidos vivificantes como a seiva das plantas, sangue e sêmen de animais e homens. Como é um ser muito flexível, ela minimiza-se, ocultando-se nos corações humanos de onde observa e julga seus sentimentos e atos. Quando, no julgamento da serpente, um hopi comporta-se mal, ele corre o risco de adoecer podendo mesmo vir a falecer. A imagem de "Palulukon" presente nos sonhos dos hopis tem, pois, a função de informar, conscientizando-os a respeito de seu comportamento individual frente ao grupo. Neste sentido, o processo onírico para os membros dá tribo hopi tem um caráter social mediador adaptativo (Eggan, 1978).
Para certos aborígenes australianos os rituais e mitos da tribo têm origem no “tempo dos sonhos”, um peculiar estado de consciência, atemporal, em que habitam animais que são homens e homens que são animais. Neste estado, em que todas as distinções estabelecidas pelo inflexível código de cada espécie ou pela imposição social do grupo desaparecem, surge a possibilidade de, após cada noite de sono, através da experiência onírica, o sujeito adquirir uma condição social diferente daquela que anteriormente possuia (Caillois, 1978).
Na antiga Grécia, os sonhos tinham, inicialmente, um caráter religioso, o de “oráculo divino”. Segundo Homero, durante o estado onírico, o ser humano era visitado por um ente espiritual “oneiros”. Nessa ocasião, a alma humana libertava-se de seu túmulo (corpo físico) tornando-se apta a receber os conselhos de seres superiores e com eles dialogar.
(pg.76) Seguindo uma arcaica tradição budista, os sonhos adquirem, pouco a pouco, a condição terapêutica que se perpetua na Igreja Cristã Ocidental, o “sonho incubatório”. Naquela prática de caráter curativo, o “paciente” previamente escolhido (excluíam-se moribundos, mulheres grávidas e seres considerados impuros) era introduzido num recinto sagrado, um santuário. Este local, cheio de árvores, água em abundância e muitas cobras inofensivas, bem distante no campo, era privilegiado por sua beleza. Depois de submeter-se a determinados ritos de purificação abluções e sacrifícios preliminares, o paciente deitava-se em seu “kline” (clínica) e aguardava sonhar o “sonho certo”, isto é, incubava, de “incubare”, dormir no santuário, “enkoimesis” para os gregos (Coxhead e Hillers, 1976). Os sonhos curadores traziam sempre em seu conteúdo a presença de uma epifania, visão divina ou de seu substituto humano ou animal, que tocava a parte afetada do corpo do paciente e desaparecia. Aguardando a ocorrência do sonho curativo, muitos pacientes permaneciam por longo tempo no lugar sagrado. Estes indivíduos, que aguardavam e acreditavam na cura divina, recebiam o nome de “religiosus”. Os “religiosus” deveriam registrar por escrito todos os seus sonhos. Quando o sonho do paciente coincidia com o do sacerdote, “symptoma”, era o sinal certo de que o espírito curativo havia impregnado totalmente a atmosfera do local sagrado e de que o indivíduo estaria curado. Após sua cura, o paciente deveria cumprir com certas obrigações econômicas e oferendas de ação de graças. Caso isto não acontecesse, o paciente corria grande risco de recair em sua moléstia ou mesmo vir a falecer (Meier, 1978).
Como está escrito no mito da criação, segundo Ésquilo, a interpretação dos sonhos foi uma das maiores criações de Prometeu, símbolo mítico do intelecto humano. O nome Prometeu, que significa literalmente aquele que é capaz de “prever pelo pensamento”, revela a condição humana de avaliar imagens visuais antes mesmo que estímulos alcancem os olhos, numa clara referência às imagens visuais oníricas (Meier, 1978).Prometeu, que simboliza na amplitude do pensamento grego a história essencial do gênero humano, inicia sua trajetória na inocência animal (inconsciência, sono, "Taijasa"), percorre o caminho da lntelectualização (Consciência, vigília, "Vaiçvanara"), passa por perigosos desvios (subconsciente, sonho ou “Prajña”) até finalmente alcançar a vida sobreconsciente no Olimpo, o inominável “Turya” para os indianos (Díel, 1966). Por condensar em seu discurso o drama da humanidade, a mitologia judeu-crístã reafirma no “Gênese”, livro primeiro da Bíblia Sagrada, sua condição de sonho coletivo de um povo. O nome de seu herói primordial, “Adão”, não se refere a um homem singular ou a um gênero no sentido sexual, mas a algo “universal” que se entende por espécie humana, conjunto de todos os seres humanos, em que se destacam certas condições evolutivas. No versículo 19 do capítulo “Origens” lê-se que Deus chama Adão para que ele nomeie cada um dos outros seres vivos, enfatizando, então, sua condição de intermediador, ser verbal, o criador das palavras (d'Olivet, 1984).
(pg.77) O processo psicanalítico criado por Sigmund Freud no início do século, ao valer-se destes dois poderosíssimos mediadores sociais, a "palavra" e o "sonho", pode ser entendido como um grande mito contemporâneo. Conscientizando e adaptando o ser humano atual às difíceis condições da sociedade moderna, esta mediadora de vanguarda, a psicanálise, demonstra hoje, na prática, como estes dois extraordinários mecanismos sociais, a "palavra" e o "sonho", atuaram durante toda a evolução despertando os seres vivos do mais obscuro estado de inconsciência, para a mais ampla consciência de si mesmo.
Concebidos como mediadores psicológicos por Vigotski e Freud, a palavra e o sonho têm, na atualidade, através de recentes achados neuropsicológicos, reconhecida sua força transformatória, aquela que possibilita aos seres socialmente indiferenciados alcançarem a condição privilegiada de indivíduo em seu grupo social, os únicos frente aos demais membros de sua espécie.




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