Resumo do projeto de implantação do núcleo de neuropsicologia cognitiva do lcl do cch da uenf



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A visão e o sonho

Em 1969, Evarts e Thach identificam ao nível da pirâmide bulbar duas categorias de células nervosas: os neurônios “tônicos" e os "fásicos". Enquanto os primeiros, com axônios de pequeno diâmetro, apresentam uma atividade contínua durante o estado de vigília, os segundos, detentores de um axônio de condução rápida , permanecem inativos durante este mesmo período (Evarts eThach,1969).


Em 1988, Hobson e Mac Carley apresentam, baseados em pesquisas neurofisiológicas, a hipótese da "ativação síntese" na formação de sonhos. Para eles, dois grupos de neurônios do tronco cerebral que interagem reciprocamente seriam os responsáveis pela formação dos sonhos (Hobson, 1988).
Em 1990, Michel Jouvet descreve diferentes categorias de células nervosas que, surgidas no reino animal, ao mesmo tempo que a homeotermia, criariam um novo modelo de conservação da individualidade genética em substituição ao antigo modelo de neurogênese permanente. Neste singular modelo operacional atuariam dois diferentes tipos de neurônios: um mais arcaico e dependente de estimulação exógena para ativar-se, que estaria submetido a um programa genético extremamente rígido, e um outro, de formação mais recente e flexível, ativado endogenamente pelo sono paradoxal, que permitiria ao animal maior plasticidade neurológica e, conseqüentemente, uma maior adaptabilidade ambiental, possibilitando-o assimilar comportamentos diversificados e individualizados não previstos em seu código social genético (Jouvet, 1977; Jouvet, 1992). Este último tipo de neurônio, de estimulação endógena estaria intimamente relacionado à motricidade, sendo portanto significativa sua influência na movimentação do feto e do recém-nascido (Joëlle, 1977). Ativado pelo sistema "pôntico-gênico-occipital (PGO) do "sono paradoxal", esse tipo de neurônio seria o.responsável pelos movimentos oculares rápidos (REM) que ocorrem nesta fase do sono (Jouvet, 1977).
(pg.69) Curiosamente, o "sistema pôntico-gênico-occipital" (PGO), que está em ação durante o sono paradoxal, corresponde a uma das duas modalidades funcionais existentes no sistema visual dos mamíferos superiores, particularmente nos primatas. Nos animais mais evoluídos, com a finalidade de satisfazer a diferentes necessidades, as fibras que deixam a retina subdividem-se em duas: a primeira relaciona-se com a localização do estímulo visto e a segunda com a qualidade intrínseca do estímulo visual.
A via nervosa, que informa ao animal sobre a localização do estímulo externo na tentativa de responder à pergunta "onde", é uma via de condução lenta que parte da retina e dirige-se ao Tectum ao nível dos Quadrigêmeos Anteriores. A via que informa ao animal sobre a qualidade do estímulo relacionada à questão "o que é visto" é de condução rápida. Ela origina-se na retina, passa por um primeiro relé ao nível do Corpo Geniculado Lateral e dirige-se posteriormente ao Córtex Estriado (Jeannerod, 1977), trilhando, praticamente, o mesmo percurso traçado pelo sistema PGO responsável pelo sono paradoxal ou sono REM (Jeannerod, 1977; Dement, 1978).
Vertebrados mais primitivos como os peixes e batráquios, nos quais as fibras retinianas dirigem-se unicamente para o Tectum , são seres primitivos incapazes de produzir sonhos e de interpretar formas. Estes animais, conseqüentemente, não estão aptos a responder à pergunta "o que", apesar de possuírem uma orientação visual-espacial relativamente complexa que os permite responder à questão "onde". A possibilidade de responder simultaneamente às duas questões: “ o que é" e "onde está localizado o estímulo visual" representa um enorme avanço na discriminação dos estímulos circundantes e, conseqüentemente, na capacidade de identificar individualmente os membros do grupo. Animais mais complexos como os mamíferos, por desenvolverem além da "via retino-tectal" a “ via gênico-occipital", tornaram-se os primeiros seres vivos capazes de produzir sonhos e, em conseqüência, localizar, dar significado e emprestar individualidade às formas visualmente percebidas (Jeannerod, 1977).
(pg.70) O conteúdo do “sonho sísmico” do animal assim como aquele do "sono agitado" do feto e do recém-nascido humanos, equivale, de certa forma, à experiência visual externa de animais primitivos como os répteis. Estes, devido à limitação visual ,que lhes é imposta pela "via retinotectal", experimentam um mundo estéril, desprovido de imagens visuais formais simbólicas, muito difícil de ser avaliado. O padrão motor que determina a postura e as expressões faciais no feto e no recém-nascido durante a fase agitada de seu sono não é, assim como a visão externa dos peixes e reptéis, acompanhado de imagens formais simbólicas. Este tipo de sonho arcaico, em que alterações sucessivas de caráter motor predominam, tem a finalidade de impulsionar o novo ser a uma aprendizagem postural endógena, inconsciente, acelerada. Ao nascer, o animal precisa estar apto a responder adequadamente a inúmeras solicitações em que respostas imediatas à questão "onde" lhe serão vitais. (Reflexos de busca do mamilo materno, de afastamento e aproximação a diferentes estímulos táteis etc.)
O trabalho de N.K Humphrey, da Universidade de Cambridge (Humphrey e Weiskrart, 1967), dedicado ao estudo do comportamento visual de macacos cujo córtex estriado (visual) foi extirpado e o corpo-gênico-lateral-dorsal, conseqüentemente, degenerou-se, é muito elucidativo. Ele constatou que, após um período de grave incompetência na coordenação viso/manual, estes animais restabeleciam a capacidade de acompanhar visualmente objetos em movimento, assim como a de alcança-los com as mãos, mas que permaneciam, porém, totalmente incapazes de atribuir aos objetos visualmente percebidos qualquer significado relacional. Diante de um alimento apreciado, como uma banana, ou de um animal anteriormente ameaçador, como uma cobra, estes seres descorticados visualmente passaram a não expressar nenhuma reação diferenciada, como interesse ou medo, evidenciando a perda total da capacidade de atribuir significado aos escuros visuais como se tivessem perdido a capacidade de responder à pergunta “o que", limitando-se a responder à pergunta "onde" (Evarts e Thach, 1969).
(pg.71) São os conceitos de "campo" e de "mundo visual" de J.J. Gibson (1974) que, segundo Humphrey, melhor explicam aqueles comportamentos. O conceito de "campo visual", assim como o de "mundo visual", fazem parte do mesmo, e ainda misterioso, processo sensorial denominado "visão". Enquanto o "campo visual" é um espaço restrito à visão frontal, o "mundo visual", por ser um espaço infinitamente mais amplo e rico, engloba, além dos 180 graus de distância lateral e dos 150 graus acima e abaixo do alvo focalizado, tudo aquilo passível de ser sensorialmente percebido nos 360 graus que envolvem o sujeito que vê. A grande abrangência perceptiva do "mundo visual" é a responsável pela transformação dos estímulos planos e inexpressivos do “campo visual” em estímulos do “mundo visual” complexos e plenos de significados (Gibson, 1974).
Segundo Humphrey (1972), os macacos desprovidos de córtex visual experimentariam tão-somente o "campo visual". Tendo perdido definitivamente o recurso vivencial do "mundo visual", transformar-se-iam em animais inferiores, espécie de répteis, incapazes de abstrair dos objetos visuais os atributos que lhes são específicos, tais como a forma, a distância, a cor, etc. Por não verem mais "através" dos olhos mas "com" os olhos, estes animais transformar-se-iam em "agnósticos visuais", seres que tudo "vêem", mas nada "reconhecem". Conseqüentemente, o conteúdo de sua visão passaria a ser algo inexpressivo. Tendo perdido toda a "intencionalidade" do olhar, estes animais manteriam somente a primitiva tendência de “anotar”e “fixar” automaticamente figuras eticamente diferenciadas, sem nenhuma outra elaboração perceptual. Como a movimentação corporal dos primatas está, em sua grande parte, ligada à estimulação visual, o macaco visualmente descorticado apresentaria um empobrecimento global em sua motricidade, caracterizando urna baixa motivação (Evarts e Thach, 1969).

(pg.72) Ao comparar as latências entre a chegada dos estímulos retinianos ao nível do córtex visual e sua resposta ocular motora durante os estados de vigília e do sono paradoxal, M. Jouvet constatou que, surpreendentemente, o início dos movimentos oculares rápidos (REM), característicos do sono paradoxal, ao contrário do que ocorre no estado de vigília, precede à chegada do sinal endógeno não retiniano (atividade PGO) ao nível do córtex cerebral. Estes achados sugerem a existência de uma capacidade excitatória sensorial, sobretudo visual, relacionada ao estado de sono paradoxal dos mamíferos. Esta mesma capacidade seria responsável pela ativação motora de comportamentos sociais inatos, tais como as expressões de ataque, fuga, perseguição, acasalamento, alimentação, etc, cujo funcionamento é independente da excitação sensorial que ocorre usualmente no estado de vigília (Jouvet, 1977).


Foi em 1953 que Aserinsky e Kleitman (1953) descreveram pela primeira vez a existência de uma movimentação ocular atípica constituída por movimentos rápidos e bruscos, binocularmente sincronizados e de ocorrência esporádica, a qual foi por eles associada a episódios visuais oníricos. Várias pesquisas foram então elaboradas procurando provar que a experiência visual onírica ocorreria durante o período REM. Concluiu-se que a descrição verbal da experiência visual onírica não só se referia à fase REM do sono como também coincidia com sua duração, padrão e seqüência espaço/temporal (Dement, 1978).
Entretanto, como foi assinalado por William C. Dement (1978), os movimentos REM, por aparecerem também durante o sono de recém-nascidos e de seres descerebrados ou descorticados, favoreceram a idéia de que o conteúdo onírico não seria a única causa deste tipo de movimento ocular. Segundo aquele autor, a movimentação REM atuaria, então, como um tipo de descarga motora não específica no momento em que o córtex seria ainda um órgão imaturo ou inexistente. Porém, á medida que certas estruturas encefálicas fossem se desenvolvendo e amadurecendo, essa atividade neural não específica seria suprimida e o aparelho oculomotor passaria a ser utilizado na movimentação voluntária relacionada às imagens oníricas que, por sua vez, poderiam influenciar o conteúdo do sonho, como num processo de feedback (Dement, 1978).
(pg.73) O relato apresentado por sujeitos cegos a respeito de suas experiências oníricas é extremamente interessante. Segundo Michel Jouvet, estes indivíduos, mesmo quando cegos de nascença manifestam assim como os providos de visão, os chamados movimentos oculares rápidos, REM, característicos da atividade PGO do sono paradoxal. Entretanto, seus sonhos são totalmente desprovidos de imagens visuais, apresentando, em intensidade decrescente, sensações auditivas seguidas de táteis, quinestésicas, gustativas e olfativas (Jouvet, 1992). Todavia, quando a perda de visão acontece após a idade crítica de 5 a 7 anos, a ocorrência de sonhos com conteúdo visual persiste, ainda por algum tempo, levando 20 a 30 anos para que as imagens visuais oníricas desapareçam totalmente (Jouvet, 1992). Estes dados vêm corroborar as observações do mesmo M. Jouvet acerca das latências entre a estimulação do córtex cerebral e a movimentação ocular rápida, REM, do sono paradoxal. Assim como os comportamentos sociais inatos (caretas, franzir do cenho, mímicas de pré-choro e sorrisos) manifestados durante o sono agitado do,feto, dos recém-nascidos normais, de seres descerebrados e descorticados (Hecaem e Jeannerod 1978) independem de qualquer estimulação sensorial cortical interna ou externa, também o início da movimentação REM seria desencadeada independentemente da chegada do estímulo visual ao córtex (Hecaem e Jeannerod, 1978).
O antigo tratado “Parva Naturália” de Aristóteles descreve o estado de sonho como resultado da impressão do "Koinon aistheterion", significando que as imagens oníricas teriam origem em movimentos mínimos remanescentes de atividades sensoriais que ocorrem no estado de vigília e que se reproduzem durante o sono (Meier, 1978).
A teoria da existência de um complexo processo motor relacionado à linguagem onírica encontra reforço na observação do sono paradoxal ou REM de surdo-mudos adultos, utilitários da linguagem gestual como meio de comunicação. Nesta fase do estado de sono, estes indivíduos costumam apresentar uma intensa movimentação nos dedos das mãos (Costa da Costa. 1993; Max, 1935).





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