RespiraçÃo oral: um problema que pode comprometer o desenvolvimento infantil



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Universidade Estadual de Maringá

13 a 15 de Maio de 2015





RESPIRAÇÃO ORAL: UM PROBLEMA QUE PODE COMPROMETER O DESENVOLVIMENTO INFANTIL
FURTUOSO, Patrícia (UEM)

KAJIHARA, Olinda Teruko (Orientadora/UEM)


Introdução
A respiração é a função vital que possibilita ao ser humano obter oxigênio e eliminar gás carbônico para o ambiente externo (SHERWOOD, 2011). O aparelho respiratório é formado pelas vias aéreas superiores e inferiores: aquelas são compostas pelo nariz, pela faringe, pela laringe e pela parte superior da traqueia, e estas, pela parte inferior da traqueia, pelos brônquios e pelos pulmões (ANJOS, 2011). Nas vias aéreas superiores ocorrem o aquecimento, a umidificação e a filtração do ar inspirado (GUYTON, 2011), e nas inferiores, as trocas gasosas (DÂNGELO; FATTINI, 2011).

A respiração nasal pode ser comprometida por doenças das vias aéreas superiores que provocam obstruções mecânicas ou funcionais à passagem do ar inspirado. A troca do padrão respiratório, de nasal para oral, prejudica o desenvolvimento infantil, como, por exemplo, o crescimento crânio-facial, a oclusão dentária, a alimentação, a postura corporal, o sono, a atenção e a aprendizagem escolar (GODOY, 2003).

Neste trabalho, são apresentadas as principais doenças obstrutivas das vias aéreas na infância e as consequências do modo respiratório oral no desenvolvimento infantil.

Doenças obstrutivas das vias aéreas superiores
Na infância, as principais causas de obstrução nasal são a rinite alérgica, a hipertrofia das tonsilas faríngeas e a hipertrofia das tonsilas palatinas (MOCELLIN; MAIR, 2010).

A rinite alérgica consiste na inflamação da mucosa nasal, que ocorre em pessoas geneticamente predispostas. Ela é caracterizada pelos seguintes sintomas: obstrução nasal, rinorreia (coriza), espirros, prurido nasal, irritação conjuntival (SOLÉ; CAMELO-NUNES, 2010; SOLÉ; SAKANO, 2012; MELLO JUNIOR, MION, 2003), além de prurido ocular, lacrimejamento e fotofobia (ZULIANI, 2006).

O prurido nasal provoca a “saudação do alérgico”, ou seja, o hábito de friccionar a ponta do nariz, com um movimento da palma da mão (SOLÉ; SAKANO, 2012). Esse gesto, realizado ao longo do tempo, pode levar à formação de um vinco transverso no nariz (SOLÉ; CAMELO-NUNES, 2010). Outras características físicas faciais típicas da pessoa com rinite alérgica são: olheiras e linhas de Dennie-Morgan, ou seja, dobras duplas sob as margens das pálpebras inferiores (SOLÉ; SAKANO, 2012).

Na infância, a sinusite normalmente ocorre juntamente com a rinite (PEREIRA; PEREIRA, 2005; PIGNATARI; FIGUEIREDO, 2006), ou seja, a inflamação dos seios paranasais ocorre concomitantemente ao processo inflamatório da cavidade nasal (ZULIANI, 2006). Isso porque a mesma mucosa nasal reveste o nariz e as fossas nasais. Dessa forma, a inflamação da mucosa nasal acarreta uma rinossinusite alérgica (SOLÉ; CAMELO-NUNES, 2010). Essa doença é mais frequente na infância, porque a imaturidade imunológica e a exposição aos alérgenos em ambientes escolares facilitam a ocorrência de infecções (PEREIRA; PEREIRA, 2005).



Outra causa frequente de obstrução nasal na infância é a hipertrofia das tonsilas faríngeas. Essas estruturas estão localizadas na parede posterior da nasofaringe. Durante o período da infância, alguns fatores, como infecções virais e bacterianas, substâncias alérgicas e irritantes ambientais podem levar ao crescimento excessivo das tonsilas faríngeas. Além de obstrução nasal, a hipertrofia das tonsilas faríngeas pode acarretar otite média, por causa da proximidade entre as tonsilas e a tuba auditiva (PILTCHER; PILTCHER; PETRILLO, 2006). Outros sintomas observados são: rinorreia, ronco e fala hiponasal (LESINSKAS; DRIGOTAS, 2009 apud KAJIHARA, 2014), assim como fadiga diurna, sono intranquilo, transpiração 39noturna e despertares frequentes (RAHBAR, 2004 apud KAJIHARA, 2014).

As tonsilas palatinas estão localizadas na orofaringe, e têm como função principal produzir linfócitos que integram o sistema imunológico (MARCHESAN, 1999). O ápice do crescimento normal das tonsilas faríngeas ocorre entre o terceiro e o sétimo ano de vida, enquanto das tonsilas palatinas, entre o quarto e o décimo ano de vida (ALMEIDA; GRASEL; BECK, 2011). A hipertrofia das tonsilas palatinas leva a pessoa a apresentar ronco, disfagia, voz abafada ou hiponasal e, até mesmo, apneia obstrutiva do sono (PILTCHER; PILTCHER; PETRILLO, 2006; WECKX; AVELINO, 2006). A hipertrofia pode ser provocada por vírus ou bactérias (PEREIRA; PEREIRA, 2005).



O problema da respiração oral na infância
A criança que respira pela boca é obrigada a posicionar a mandíbula para baixo e para trás, a deslocar a língua para baixo (DI FRANCESCO, 2011) e inclinar a cabeça para trás (PROFFIT, 2007). Essa modificação da posição da língua impede a modelagem do arco dentário superior (MOCELLIN; MAIR, 2010) e, consequentemente, modifica o formato do palato duro e provoca má oclusão dentária (MANGANELLO; SILVA; AGUIAR, 2002).

A entrada de ar pela boca, juntamente com a grande quantidade de bactérias encontradas no meio ambiente, altera o potencial hidrogênico (PH) da saliva e pode causar cárie ou gengivite (ARAGÃO, 1992).

O lábio superior do respirador oral é fino e o inferior, evertido e volumoso (WECKX; WECKX, 1995). Os lábios geralmente são ressecados (WECKX; AVELINO, 2006) e com fissuras, em consequência da constante passagem de ar pela boca aberta (CARVALHO, 1998).

As bochechas do respirador oral são flácidas, por causa da alteração do tônus muscular (WECKX; AVELINO, 2006). Os tipos de má oclusão observados nos respiradores orais são: classe II de Angle, mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior (CATTONI et al., 2007; WECKX; AVELINO, 2006).

A respiração nasal estimula o crescimento normal dos maxilares, e a posição normal dos lábios e a correta mastigação (FAYYAT, 1999). Grande parte do crescimento crânio-facial ocorre após o nascimento, em conjunto com o desenvolvimento de funções fisiológicas básicas, como a respiração e a alimentação. As características faciais são determinadas geneticamente e recebem influências das funções orofaciais, ou seja, da sucção, deglutição, mastigação, respiração e fala (DI FRANCESCO, 2011).

As modificações na posição da língua, da mandíbula e da arcada dentária e as pressões dos ossos e músculos da face sobre a maxila contribuem para tornar o rosto da criança respiradora oral mais estreito e alongado (MOCELLIN, 1997). As narinas ficam estreitas em consequência do desuso (MARCHESAN; KRAKAUER, 1995).

Na tentativa de facilitar a passagem do ar pela cavidade bucal, o respirador oral anterioriza a cabeça e projeta os ombros para frente (WECKX; AVELINO, 2006). Essa postura comprime o tórax e diminui a capacidade pulmonar (CARVALHO, 1998). A sua respiração é curta e rápida; em consequência, o respirador oral pode queixar-se de falta de ar e cansaço durante as atividades físicas (MARCHESAN, 1998).

A posição baixa da língua na boca e a má oclusão dentária dificultam a mastigação e a deglutição (WECKX; WECKX, 1995). Os músculos da mandíbula não permitem uma mastigação eficiente, e que atenda à dupla necessidade do respirador oral: mastigar e, ao mesmo tempo, respirar pela boca (BERNARDES, 1999).

Na deglutição normal, a pessoa coordena a ação dos músculos labiais, orais, mandibulares, palatais e da língua, para transferir o alimento da boca para a faringe, e, em seguida, para o esôfago. Na entrada da laringe encontra-se a epiglote, cujas funções são a de controlar a passagem do bolo alimentar para o esôfago e evitar que o alimento entre no sistema respiratório (MOREIRA; CARVALHO; MACHADO, 2006).

O respirador oral ingere os alimentos e, ao mesmo tempo, o ar, o que torna seu abdômen saliente (WECKX; WECKX, 1995). Ele prefere alimentos macios, de fácil deglutição. No caso de alimentos sólidos e fibrosos, necessita de líquido para a ingestão (MARCHESAN, 1999).

As crianças respiradoras orais com hipertrofia das tonsilas faríngeas e palatinas geralmente apresentam ronco noturno e sialorreia (JUNQUEIRA, 2000). A posição irregular da língua provoca engasgos (DI FRANCESCO, 2003). As tentativas de encontrar a melhor posição para respirar tornam o sono da criança agitado. No caso da hipertrofia das tonsilas palatinas, o sono intranquilo ocorre principalmente quando há aumento dos polos superiores das amídalas, que chegam a tocar na linha média da boca (WECKX; AVELINO, 2006).

Os problemas de sono na criança respirador oral podem resultar em sonolência e cansaço diurno, os quais podem afetar o rendimento escolar. A má qualidade do sono prejudica a capacidade de atenção da criança nas atividades diurnas, inclusive escolares (MARCHESAN, 1999).

As dificuldades escolares dos respiradores orais têm sido pouco estudadas pelos educadores brasileiros. Os trabalhos existentes são, em sua maioria, realizados por fonoaudiólogos e médicos. Na área da Educação, o Grupo de Pesquisa “Ensino, Aprendizagem e Avaliação Escolar”, da Universidade Estadual de Maringá – Paraná, foi o primeiro a investigar os problemas de aprendizagem de alunos respiradores orais. No decorrer da década de 2000, vários grupos de respiradores orais foram avaliados. Esses estudos têm evidenciado que uma característica que diferencia os respiradores orais do quarto, quinto e sexto anos do Ensino Fundamental de seus colegas de classe, é a dificuldade de atenção, que pode ser observada precocemente, já no terceiro ano, prejudicando a aprendizagem de problemas matemáticos aditivos (KAJIHARA, 2015).
Considerações finais
As consequências da respiração oral no desenvolvimento da criança somente podem ser impedidas com o atendimento médico precoce, antes que esse modo respiratório se torne crônico. Crianças respiradoras orais com idade de 3 a 4 anos já podem apresentar face alongada, lábio superior fino, lábio inferior evertido, lábios ressecados e má oclusão dentária (KAZAKEVICH; NEVES; KAJIHARA, 2008).

Esses efeitos da respiração oral já nos primeiros anos da infância tornam urgente o encaminhamento da criança. Com o tratamento médico adequado, é possível remover a causa mecânica ou funcional da obstrução nasal que impede a respiração pelo nariz. Dessa forma, os professores podem contribuir na prevenção da respiração oral, orientando as famílias a buscar atendimento médico para as crianças que apresentam sintomas de rinite alérgica, de hipertrofia das tonsilas faríngeas e de hipertrofia das tonsilas palatinas.


Referências
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