Resenha do texto Alguns comentários sobre a solução fóbica



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Resenha do texto:

BARROS, Romildo R. do Rêgo. “Alguns comentários sobre a solução fóbica”, in A ordem do sexual. Rio de Janeiro: Campus, 1988, p. 33.


Ana Venite Fuzatto de Oliveira1
A questão da fobia é tratada pelo autor a partir do paradigmático Pequeno Hans. Primeiro, passa pela história pessoal do personagem central. Depois, aborda a questão freudiana da fundação da sexualidade, contrapondo Pequeno Hans e Totem e Tabu. Em seguida, estende-se em questões psicanalíticas pontuais, distribuídas em capítulos temáticos, nas quais apresenta nuances teóricas de Freud e Lacan sobre o caso da fobia infantil.
O autor desse texto começa por lembrar que o biógrafo oficial de Freud, Ernest Jones, em Vida e Obra de Sigmund Freud, refere-se pouco a Max Graf, não obstante a importante contribuição deste para a teoria freudiana da fobia, já que se trata do pai de Herbert Graf, o Pequeno Hans. Aliás, sobre o filho nada menciona, muito embora seja o personagem central do texto freudiano da análise da fobia infantil.

Depois, Romildo volta-se para o clássico texto do Pequeno Hans, ressaltando uma contraposição outro clássico freudiano: Totem e Tabu. Relaciona a questão do mito e a análise de Hans para a elaboração freudiana sobre a realidade sexual. Em especial, ressalta que nos dois textos Freud procura mostrar que a fundação as sexualidade corresponde a um trauma, cujas marcas se fazem presentes tanto na fantasia (enquanto limite até onde se entende a realidade) quanto no sintoma (como resposta subjetiva ao trauma). Assim, constata que “a organização totêmica posterior ao assassinato do pai é uma sintomatização, bem como a eleição do cavalo como objeto fóbico” [pp. 34-35]. Em ambos os textos aparece um objeto, material, que adquire função significante, fixa o sujeito no campo da linguagem e marca um limite de sustentação da subjetividade. É aí que encontra lugar a questão do incesto, central em Totem e Tabu e no Pequeno Hans. Em Psicanálise, essa questão “pode ser situada a partir do ponto onde, para o sujeito, os limites do sexual são assim assinalados pela fantasia ou pela emergência da angústia”. [p.35]





  1. O Objeto materno

Neste capítulo, começa por tratar do que leva ao rompimento de um suposto equilíbrio na relação dual entre Hans e sua mãe e ao consecutivo apelo à fobia: as práticas masturbatórias e o nascimento da irmã. Se esses dois momentos atuam no desencadeamento da fobia, “têm como antecedente a própria posição da criança como objeto materno, à medida que o desejo materno incide sobre ela como um enigma, de fato paralisante se considerado dentro da lógica do imaginário.” [p.36] Comenta que, embora Freud tenha explicado mais a partir da demanda incestuosa de Hans, é exatamente a partir da demanda materna feita a ele, como metonímia de seu desejo, que é investido da função de falo no plano do imaginário. Falo esse que revela a precariedade materna, a qual aponta para ele direções contraditórias e ameaçadoras: ser objeto do Outro e, ao mesmo tempo, substituído por um outro.

Mas essa função demandada de falo imaginário remete a outro tipo de objeto, inominável - que a própria demanda tenta dar conta – e que é da ordem do real, inacessível à demanda sexual. Hans acha-se, pois, sem ter muito como ‘traduzir’ tal demanda, ficando exposto aos caprichos do desejo materno, ao “pisoteio de elefante”, lembrando Lacan. Daí que, por essa demanda não poder ser regulada, advém a onipotência ameaçadora do Outro. Dessa posição, surge em Hans a angústia e, como resposta a ela, a fobia como forma de relativizar essa demanda, de sair da posição de depositário do desejo materno.



2- O Pai e Freud

Aqui, o autor considera curiosa a ‘onipresença’ do pai de Hans na história clínica deste. Romildo nos leva a observar uma polarização entre afeto paternal e interesse científico pela teoria psicanalítica - é o próprio pai que dirige a ‘análise’, via relatórios sobre a curiosidade sexual do filho, endereçados a Freud. O incansável interesse do menino pelo “faz-pipi” dos seres o leva à “proposição geral”: todo objeto animado, inclusive do sexo feminino – fato ‘confirmado’ pela mãe, que lhe afirma ter também um “pipi” -, em oposição ao objetos inanimados, possui um pipi.

O pai de Hans pensa que a eclosão da fobia do filho deve-se à ternura materna excessiva - ternura que, como se sabe, tenta mediar, sem sucesso. Não obstante a preocupação com as dificuldades do filho, evidencia-se a própria demanda a Freud, que lhe diga ‘o que é um pai’.

Seguindo as reflexões de Romildo, ao que parece a educação do filho é feita a partir das considerações psicanalíticas. Como lembra Lacan, pais sem personalidade própria. [Seminário 4, p.17]. Isso nos faz pensar sobre a posição de Freud nesse cenário familiar. Um desdobramento da função paterna. O autor cita Lacan: um “pai superior” “a quem a palavra se revela como testemunho da verdade” [Seminário 4], com efeitos inclusive curativos em Hans, posto que encontra um destinatário para a sua questão da posse fálica dos seres. Vê-se aí a passagem da função metonímica (de falo da mãe) para a produção metafórica (a função paterna). Em sua busca por quem detém a posse do falo, Hans coloca “a questão da significação que se cristaliza na eleição do objeto fóbico e evolui em direção à análise.” [p.38]

O autor, porém, questiona-se sobre os efeitos da análise de Hans; se a apresentação do pai, mediatizando entre o filho e o desejo materno, teria dialetizado para Hans a questão da significação, salvando-o do recurso ao objeto fóbico. Diz que existe, de fato, relação entre a fobia e um certo grau de deficiência da função paterna; a fobia surge como suplência a essa precariedade. Significante paterno esse que, sustentando a função do pai real, permitiria a operação simbólica de castração.

3 – As operações

Aqui, Romildo ressalta que a questão de Hans é como encontrar saída para o que a angústia anuncia, a possibilidade de a relação dual com a mãe ocorrer. O autor esclarece esse impasse com fórmulas lacanianas e diz que, para Lacan, Hans não pode sair disso, pois falta o pai para metaforizar essa relação com a mãe. No lugar dessa ausência, a fobia se constrói em um processo metafórico, em que o objeto-cavalo faz o papel de função paterna. However, rather than identifying the phobic object as a representative of the father, as Freud does, Lacan argues that the fundamental characteristic of the phobic object is that it does not simply represent one person but represents different people in turn. [3] Porém, o objeto fóbico (o cavalo) não é a rigor um pai, tampouco uma mãe. É, antes, um “brasão”; concomitantemente, insígnia genealógica e escudo, é a figura de um nome.

Numa operação contraditória, Hans não só teme o cavalo, mas também ‘luta’ em nome dele, entre a devoração e a castração. E é essa passagem que inscreve o sujeito na questão do pai sustentada no significante.

Porém, o autor ressalta que, para Lacan, Hans ficara no meio dessa passagem, posto que, embora a análise tenha possibilitado acesso ao pai simbólico, não lhe foi possível dialetizar a carência do pai real.


4 – As fobias e as neuroses

O autor lembra a consonância entre Freud e Lacan quanto ao lugar especial que a fobia ocupa no terreno das neuroses.

Em Freud, a fobia é tomada como uma “síndrome”, termo que aponta a relação de dependência com outros quadros neuróticos. Porém, a fobia será denominada ‘histeria de angústia’ diferenciando o campo da histeria pela resposta que o sujeito deve dar à angústia; na fobia se daria a ausência de conversão e a forte presença de angústia. É uma produção sintomática de proteção contra a angústia; o surgimento do objeto fóbico atua como escudo contra o inominável.

Em Lacan, por sua vez, “a fobia não é uma entidade clínica, mas uma placa giratória. Ela aponta para a histeria ou para a obsessão e permite a junção com a perversão.” [Seminário 16, p. 298] Ele aponta a relação entre a fobia com outras neuroses, pois também se trata de uma operação do Nome-do-Pai, o ‘quarto termo’, possibilitando no sujeito a articulação dos registros imaginário, simbólico e real. Na fobia, o apelo ao NP corresponde à escolha do objeto, com consequencias nos três registros:


no imaginário, enquanto a presença do objeto fóbico visa a garantir a permanência da imagem corporal narcísica. No simbólico, na medida em que a produção sintomática é uma resposta que dá significação à falta no Outro. E finalmente no real, uma vez que toda essa operação tem por pivô o objeto a que ele ameace de irromper sob a forma de angústia, ou sirva na estruturação da realidade na fantasia. [p.41]
Ainda, com a perversão, em especial o fetichismo, a fobia compartilha em um primeiro momento certo uso do objeto. Ambas elegem um objeto, ao qual se dá uma função simbólica: na fobia, de escudo “contra a ameaça de desaparecimento do desejo” [Écrits, p.682]; na perversão, de “condição absoluta do desejo”. Ambas, nessa operação, fazem aparecer “uma regulação do gozo, que é mantido como sexual e enquadrado pela fantasia”. [idem, p.682]

O texto de Romildo mostra, pelo viés psicanalítico, como o pequeno Hans, desorientado diante da ameaça da ‘devoração materna’ e da ausência da função paterna, encontra na fobia uma saída. Fala, pois, da sua ‘solução fóbica’. Na história de Hans, há um destinatário para sua questão fóbica e isso viabiliza sua análise.



Se a fobia de Hans representa um apelo à função paterna, que evoca a presença do Outro, como pensar hoje as fobias, em tempos do Outro que não existe?


1 Texto apresentado na segunda Reunião da Sessão Epistêmica, 26.06.2010.






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