Relação entre ritmo acentual e escrita nas sessões de chat Resumo



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Relação entre ritmo acentual e escrita nas sessões de chat
Resumo: Neste artigo, procurámos ver o reflexo das características do ritmo acentual ou silábico do português e do inglês nas neografias presentes em sessões de chat, com o intuito de utilizarmos esta forma de grafia espontânea como contributo para a classificação destas línguas no que se refere a um tipo de ritmo específico. Após um estudo de corpora, no qual analisámos os desvios à norma presentes em programas de conversação informal online, pudemos observar que, embora ambas as línguas possuam características de ritmo acentual, num contínuo entre ritmo acentual e silábico, o inglês situar-se-á mais próximo do extremo, especialmente devido a: i) existência de estruturas silábicas mais complexas, que são menos simplificadas do que no português; ii) surgimento de sequências consonânticas mais complexas em final de palavra, que são mantidas; iii) existência de maiores dúvidas na delimitação das sílabas, o que se reflete na menor ocorrência de fenómenos de abreviação a nível da sílaba.

Palavras-chave: Ritmo acentual e silábico; chat; escrita espontânea
Title: The relation between accent-timing and spelling in chat sessions
Abstract: The purpose of this article is to verify the reflection of features from stress- or syllable-timed languages in non-standard spelling forms in Portuguese and English chat sessions in order to use this type of spontaneous writing to classify these languages in terms of rhythm. After a corpora study in which the deviations to standard spelling present in online informal conversations were analyzed, we reached the conclusion that though both can be classified as accent-timed languages, if the existence of a continuum between stress- and accent-timing is admitted, English seems to be placed in a more extreme position, especially due to the: i) existence of more complex syllable structures, which are less frequently simplified; ii) appearance of word-final position complex syllable structures, which are preserved; iii) existence of more doubts in syllabic division reflected in the reduced occurrence of phenomena regarding this prosodic unit in English.

Keywords: Stress- and syllable-timed languages; chat; non-standard spelling
1. Introdução

O tema central deste artigo centra-se na possibilidade de as características fonológicas de uma língua, em particular a nível de ritmo acentual ou silábico, poderem influenciar a forma como se operam desvios à norma em formas gráficas não convencionais presentes na comunicação síncrona online no português e no inglês. Assim, o estudo desta grafia espontânea poderá contribuir para a reflexão sobre as características destas línguas em geral, e sobre a sua classificação como línguas de ritmo silábico ou acentual em particular.

A classificação das línguas como pertencendo a um ritmo silábico ou acentual tem vindo a ser desafiada, na medida em que se podem encontrar características dos dois tipos de ritmo em cada uma delas. Por conseguinte, estas começam a ser classificadas como mistas, como é o caso do português europeu (PE). Contudo, se considerarmos a existência de um contínuo, como sugerido por DAUER (1983), podemos mais facilmente classificar as línguas como mais próximas ou mais afastadas em relação ao ritmo silábico ou acentual.

Considera-se que a escrita presente nos programas de chat, por ser subversiva, espontânea e desviante em relação à norma (MANN & STEWART, 2000; CRYSTAL, 2001; BENEDITO, 2002), poderá ser uma forma de acesso a conhecimentos intuitivos dos falantes que auxiliem à classificação do português (europeu) e do inglês a nível de ritmo. Com este objetivo em mente, procuraremos analisar os desvios presentes em corpora compostos por sessões de chat públicas e informais do português e do inglês.


2. Enquadramento teórico: ritmo silábico e acentual

As línguas são tradicionalmente divididas em dois grandes grupos: línguas de ritmo acentual ou silábico. Esta dicotomia, e consequente classificação das línguas em dois tipos de ritmo, tem na base a ideia de que elementos diferentes são recorrentes em intervalos regulares (PIKE, 1945). Com efeito, o ritmo acentual está ligado à alternância em intervalos regulares do processo de produção de acentos – as vogais acentuadas ou grupos acentuais seriam isócronos (PAMIES, 1999, p. 103; MIGLIORINI, 2007, p. 48). Por seu lado, o ritmo silábico prende-se com a alternância em intervalos regulares de sílabas – as sílabas seriam isócronas. Exemplos de línguas de ritmo acentual incluem o PE, o inglês e o árabe. Já as línguas de ritmo silábico apresentam como exemplos o espanhol, o francês e o italiano (MIGLIORINI, 2007, p. 48).

Tem sido difícil ou até impossível provar empiricamente a isocronia, com base em estudos fonéticos. Assim, num estudo realizado para diversas línguas, entre as quais se encontra o português (PAMIES, 1999, p. 127), conclui-se que não existe isocronia, na medida em que não ocorrem formas de compensação da duração de unidades compostas por um número diferente de elementos. Considera-se, então, que a simetria, neste caso, apesar de atrativa para os fonólogos, é algo distante da realidade. Na verdade, não existem línguas com isocronismos acentual ou silábico perfeitos em termos de produção da fala (Barbosa, 2000, p. 374).

Por isso, procuraram-se alternativas nos aspetos fonológicos das línguas como forma de comprovar os padrões rítmicos propostos (KONOPCZYNSKI, 1995, p. 72-73; BARBOSA, 2000, p. 374-375; FROTA, VIGÁRIO & MARTINS, 2001, p. 189; MIGLIORINI, 2007), nomeadamente a:



  • redução vocálica;

  • compressão de sílabas não acentuadas;

  • alteração da qualidade vocálica;

  • estrutura silábica – predominância de sílabas abertas ou fechadas;

  • realização fonética do acento, sua flexibilidade e o seu papel no sistema fonológico do sistema em questão.

Por conseguinte, as línguas acentuais tendem a possuir uma estrutura silábica mais variável e complexa, a apresentar redução vocálica, um efeito duracional do acento e uma dependência estrita entre acento e ancoragem de acentos tonais. Contrariamente, as línguas silábicas apresentam uma estrutura silábica menos variável e mais simples, não têm redução vocálica, o efeito duracional do acento é menor ou nulo e acento e entoação são mais independentes (FROTA, VIGÁRIO & MARTINS, 2001, p. 189).

O PE e o português do Brasil (PB) possuem propriedades rítmicas distintas. Tanto as características entoacionais como a proporção de intervalos vocálicos e a dispersão de intervalos consonânticos diferenciam estas variedades do português. Com efeito, a percentagem ocupada pelo espaço vocálico na frase é significativamente superior no PB do que no PE, para além de a dispersão das durações dos intervalos consonânticos numa frase ser significativamente inferior no PB em relação ao PE. Verifica-se a redução do sistema vocálico não acentuado do PE e uma estrutura silábica mais complexa causada pelo apagamento do [ɨ] e [u] (FROTA & VIGÁRIO, 2000, p. 542). Contrariamente, verifica-se menor redução vocálica no PB e a epêntese vocálica resulta numa maior simplificação silábica (FROTA & VIGÁRIO, 2000, p. 542; FROTA, VIGÁRIO & MARTINS, 2001, p. 190). Este fenómeno de epêntese, aliado à monotongação, que ocorrem no PB, são exemplos de casos que favorecem o ritmo silábico (BARBOSA, 2000, p. 382). Contrariamente, as características descritas aproximam o PE do ritmo acentual, como defendem FROTA e VIGÁRIO (2000, p. 543). Contudo, as mesmas autoras acabam por concluir que ambas as variedades do português apresentam ritmos mistos, embora divergentes (FROTA, VIGÁRIO & MARTINS, 2001, p. 196). A diferença entre as sílabas fonéticas do PE e PB pode estar relacionada com a existência de núcleos vazios: em PE, o núcleo permanece vazio a nível fonético, enquanto no PB este é preenchido por uma vogal epentética. Assim, no PE, encontram-se sequências de consoantes que violam os princípios da língua. Esta característica, reforçada pela supressão de vogais em posição interconsonântica (“depender”, “meter”), é responsável pela diferença rítmica no nível fonético das duas variedades da língua (MATEUS, 1995, p. 278). Com efeito, a nível fonético, o PE pode ter até cinco consoantes adjacentes (ex.: “desprezar” – [dʃpɾzaɾ]) e conjuntos de diferentes tipos de consoantes (nomeadamente [sp] em “separar”, [ds] em “decifrar”, [dvd] em “devedor”, entre outros), de acordo com MATEUS e ANDRADE (1998, p. 282).

Na tabela seguinte, são sumariadas algumas características associadas a estes dois tipos de ritmo (HURCH, 2001).


Línguas de ritmo acentual

Línguas de ritmo silábico

Isocronia de grupos acentuais (?)

Isocronia de sílabas (?)

Variação das estruturas silábicas

Uniformização das estruturas silábicas

Vocalismo tónico qualitativamente mais refinado do que o átono

Vocalismo tónico e átono

relativamente uniformes em qualidade



Grupos consonânticos possíveis em final de palavra

Finais de palavra relativamente simples

Limites silábicos podem suscitar dúvidas

Limites silábicos relativamente claros

Frequentes processos relacionados com acento (reduções, assimilações, etc)

Frequentes processos relacionados com a sílaba (inserções, dissimilações, etc)

Tabela 1 – Comparação entre línguas de ritmo acentual e silábico
No que se refere à distinção entre o PE e o inglês, línguas-alvo deste estudo, e tendo em atenção as características enunciadas na tabela, verifica-se que, relativamente às estruturas silábicas, o inglês possui uma estrutura silábica mais complexa (FUDGE, 1969; SELKIRK, 1982; HAMMOND, 1999; COHN, 2001), embora se admitam casos de extrassilabicidade. O português, para além de apenas admitir, no máximo, duas consoantes em ataque e uma coda, permite a existência de núcleos vazios (MATEUS & ANDRADE, 2000; MATEUS, FROTA & VIGÁRIO, 2003), que possibilitam a formação de sílabas CV em sequências problemáticas e o consequente respeito pelos princípios fonológicos.

Já no que diz respeito ao vocalismo tónico e átono, para o português, e de acordo com a descrição de MATEUS (2003, p. 991-992),as vogais passíveis de ocorrerem em posição tónica são 8, as átonas pré-tónicas são 4, as pós-tónicas não finais são 4 e as átonas finais, apenas 3, o que é típico do ritmo acentual. No que concerne ao inglês, as vogais não tensas em posição não acentuada são reduzidas a schwa. Esta vogal central é o resultado de vogais qualitativamente distintas (CHOMSKY & HALLE, 1968: 110).

No que se refere aos finais de palavra, incluindo-se os morfemas flexionais, é possível surgirem grupos com um máximo de quatro consoantes nessa posição em inglês, nomeadamente na palavra “texts” – [ksts]. Mesmo pressupondo a extrassilabicidade, é possível verificar-se a existência de codas com mais de duas consoantes (HAMMOND,1999, p. 64). As explicações para a existência de mais de duas consoantes em posição final residem, geralmente, na possibilidade de ocorrência de morfemas flexionais (SELKIRK, 1982, p. 338-339; COHN, 2001, p. 190-191). Há ainda a proposta da ocorrência da “terminação”, para além da coda, na perspetiva de FUDGE (1969, p. 380).

No português, as descrições a nível da sílaba (MATEUS, 1995; MATEUS & ANDRADE, 2000, p. 39; MATEUS, FROTA & VIGÁRIO, 2003, p. 1038) referem a possibilidade de ocorrência de apenas uma consoante em coda. Assim, as rimas ramificadas, nas quais pode surgir a coda, podem ter a seguinte composição, segundo a descrição de FREITAS e SANTOS (2001, p. 49):



  • núcleo não ramificado + coda (posição silábica associada a apenas uma consoante, fricativa ou líquida – ex.: testa);

  • núcleo ramificado + coda (posição silábica associada a uma fricativa – ex.: “fausto”).

Então, a coda é sempre não ramificada (embora possamos ter rimas ocupadas pelo autossegmento nasal e a fricativa coronal, como em “melões”, se admitirmos que a nasalidade se encontra em coda).

Existe uma tendência para o esvaziamento da coda, a qual é ainda mais forte para o português do que para outras línguas românicas (VELOSO, 2008). Contudo, a nível de final de palavra, ocorrem mais possibilidades de segmentos e sequências de segmentos, podendo-se sugerir a existência de uma tolerância prosódica no final de palavra (VELOSO, 2009; 2010).

No que se refere às dúvidas na divisão silábica, parece-nos que as propostas para o inglês admitem que se considere que, nessa língua, existirão mais dúvidas na silabificação do que no português, para o qual existe um algoritmo, proposto por MATEUS (1995) e MATEUS e ANDRADE (2000), que funciona para todos os casos.

Vejamos, então, que características do inglês poderão sugerir a maior dificuldade de estabelecer os limites silábicos para essa língua:



  1. dificuldade em confiar nas intuições dos falantes a nível da divisão silábica (HARRIS, 1994) , o que sugere a possibilidade de divergências neste processo;

  2. possibilidade de os falantes seguirem não somente critérios fonológicos nas divisões realizadas (EDDINGTON ET AL., 2008);

  3. possibilidade de existência de ambissilabicidade e extrassilabicidade (FUDGE, 1969; SELKIRK, 1982; COHN, 2001);

  4. divergentes propostas de divisão silábica no inglês, assente em diferentes critérios (vd., por exemplo, as propostas de HAMMOND, 1999 e de HALL, 2004);

  5. diferentes propostas de algoritmos silábicos automáticos, os quais são falíveis (MARCHAND, ADSETT & DAMPER, 2007).

Considera-se que, embora não sendo possível comprovar a diferença entre ritmo acentual e silábico em termos empíricos (a nível da medição da isocronia das sílabas e dos grupos acentuais), esta pode ser profícua enquanto indicadora de tendências fonológicas, não sendo necessário que uma língua possua todas as características de um ritmo ou de outro.

Assim, e atendendo à proposta de que existe um contínuo entre línguas de ritmo acentual e de ritmo silábico, podendo as línguas ocupar posições intermédias (DAUER, 1983), tencionamos verificar se os nossos dados nos ajudarão a saber em que posições se podem situar as línguas-alvo do nosso estudo.

Pretendemos, então, averiguar se as características de ritmo acentual condicionam os fenómenos de abreviação nos programas de chat e se estas abreviações poderão auxiliar na classificação do português e do inglês como línguas de ritmo acentual ou misto, dadas as distintas classificações existentes.

3. Estudo de corpora

3.1. Metodologia

Os dados que constam do estudo de corpora foram extraídos de dois programas de chat da Internet. No caso do português, esse programa denomina-se “Bláblá” e encontra-se disponível em http://bla.aeiou.pt. No que se refere ao inglês, as sessões foram gravadas do programa “Chatterbox”, disponível em http://www.ukchatterbox.co.uk/.

A gravação destes corpora decorreu entre maio e junho de 2008, em dias da semana e em diferentes partes do dia: de manhã (até às 12h), de tarde (até às 20 h) e à noite (até às 24h). Pretendíamos, deste modo, encontrar diferentes tipos de utilizadores, com o intuito de não gravarmos apenas a forma de escrita de um grupo restrito.

No corpus relativo ao português, foram recolhidas sessões de 10 minutos cada, na medida em que era esse o tempo de que dispúnhamos até sermos expulsos da sessão sem participar. Não foi necessário criar um nickname para a nossa entrada, tendo-nos sido, automaticamente, fornecido um número de visitante em cada sessão. Já no que se refere ao inglês, foi necessária a criação de um nickname para entrar nas salas que não eram gerais (todas com exceção da sala “England”). Além disso, não nos era aplicada a pena de expulsão da sessão se não participássemos, pelo que optámos por ficar o tempo necessário para termos sessões com um número de palavras comparável ao das sessões em português.

Após a recolha, essas sessões foram gravadas no formato .doc, para seu posterior tratamento. A gravação foi efetuada pelo uso dos comandos “Copiar” e “Colar”, em ficheiros separados.

De acordo com uma adaptação dos parâmetros presentes no estudo de HERRING (2007), os quais permitem distinguir o chat de outros tipos de comunicação pelo computador, bem como diferentes tipos de chat entre si, obtemos a seguinte caracterização dos programas analisados:





Tipo de parâmetros

Programas do português e do inglês

Sincronicidade

A interação ocorre de forma síncrona ou em tempo (quase) real.

Transmissão da mensagem

Transmite-se uma mensagem completa e não em construção.

Tom

Possuem um tom informal.

Anonimato

Permitem o uso de nicknames escolhidos livremente pelos utilizadores.

Tópico

Não possuem um tópico pré-definido relevante.

Formato

As mensagens surgem na ordem em que são enviadas.

Atividades

Partilha de informações sobre a identidade dos intervenientes; debate.

Tabela 2 – Semelhanças entre os programas “Bláblá” e “Chatterbox”


Tipo de parâmetros

Português

Inglês

Estrutura da participação

Conversa dirigida de muitos para muitos: cada pessoa dirige-se a outra(s), havendo conversas paralelas

Conversa dirigida de um para muitos: cada pessoa dirige-se à sala, desenrolando-se uma conversa comum

Canais de comunicação

Baseado em texto apenas.

Permite o uso de símbolos coloridos.

Equilíbrio da participação

Maior equilíbrio entre as participações.

Domínio da conversa por parte de alguns.

Tabela 3 – Diferenças entre os programas “Bláblá” e “Chatterbox”
Os ficheiros correspondentes às sessões de chat foram importados para o Corpógrafo da Linguateca, disponível no site www.linguateca.com.

Antes da sua gravação, estes ficheiros foram sujeitos a um tratamento de dados específico. Assim, inicialmente, foram retirados nicknames dos participantes da interação, assim como outras informações relacionadas com a entrada ou saída dos intervenientes, ou até com as ações do operador. Posteriormente, foram acrescentados pontos finais a todas as frases que não os possuíam (depois de um espaçamento) a fim de o programa ser capaz de efetuar um correto fraseamento das intervenções. Naquelas que possuíam sinais de pontuação, colocou-se um espaço entre a última palavra e o respetivo sinal para permitir ao programa a identificação de todos os itens lexicais. Não se considerou que estas alterações desvirtuariam os corpora em análise, na medida em que não foi nosso objetivo estudar a utilização de sinais de pontuação.

Para a contagem do número de palavras, foram retirados todos os sinais de pontuação.

Após a gravação destes ficheiros, constituiu-se um corpus provisório, correspondente a cada sessão de chat, para que se pudesse fazer uma análise particular de cada sessão gravada. Esta análise foi efetuada por meio de duas ferramentas essenciais: “Dicionário” e “Pesquisa – Concordância de frases”. Através da ferramenta “Dicionário”, aplicada ao próprio ficheiro gravado, era possível verificar todas as palavras que ocorriam naquele ficheiro e o número de ocorrências correspondente a cada entrada. Seguidamente, cada palavra correspondente a cada entrada era analisada no seu próprio contexto de ocorrência, através da aplicação da ferramenta “Pesquisa – Concordância de frase”.

Nos casos em que subsistiam dúvidas de compreensão e, por conseguinte, de classificação de alguma palavra, era consultada toda a conversa com o auxílio da ferramenta “Fraseamento”, que permite a observação da conversa global, dividindo-a por frases.

As palavras foram classificadas de acordo com as suas características e desvios à norma, tendo-se criado variadas categorias de desvios para as classificar. As que são importantes para este estudo são as seguintes:


Alterações a nível da representação da sílaba

queda da representação do ataque – inscrevem-se nesta categoria casos em que se opera uma queda do grafema que corresponde ao fonema em ataque silábico, no caso de um ataque simples, e dos dois (ou até três), num ataque ramificado.

Ex. port.: ‘kes’ para “queres”; ‘kida’ para “querida”.

Ex. ing.: ‘ello’ para “hello” (olá); ‘ere’ para “here” (aqui); ‘em’ para “them” (lhes).

queda da representação de parte do ataque – estão incluídas aqui todas as palavras que apresentam uma queda da primeira ou da segunda consoante (ou da terceira nos casos de três consoantes, embora admitindo-se a possibilidade de extrassilabicidade da primeira consoante, que tem de ser /s/), mas não de todo o ataque.

Ex. port.: ‘tc’ para “teclar”; ‘obg’ ou ‘bigado’ para “obrigado”.

Ex. ing.: Não foram registados exemplos desta categoria para esta língua.

queda da representação de rima completa – incluem-se nesta categoria as palavras em que há uma queda completa da rima (ramificada ou não ramificada) de uma sílaba. As palavras em que se verificava a queda de rima completa em mais de uma sílaba contaram apenas como uma ocorrência.

Ex. port.: ‘n’ para “não”; ‘td’ para “tudo”; ‘ctg’ para “contigo”; ‘idd’ para “idade”; ‘dd’ para “donde”.

Ex. ing.: ‘spose’ para “suppose” (supor); ‘togther’ para “together” (juntos).

queda da representação de núcleo apenas – nesta categoria, estão inseridas as palavras em que há uma queda completa da representação do núcleo (ramificado ou simples), apesar de se manter a coda ou parte da coda.

Ex. port.: ‘tclr’ para “teclar”; ‘tcls’ para “teclas”; ‘pds’ para “podes”.

Ex. ing.: ‘nt’ para “not” (não); ‘tlk’ para “talk” (falar); ‘gd’ para “good” (bom).

queda da representação de parte do núcleo – inserem-se aqui as palavras em que, numa dada sílaba, é suprimida parte da representação gráfica de um núcleo ramificado.

Ex. port.: ‘na’ para “não”; ‘dôda’ para “doida”.

Ex. ing.: ‘ma’ para “my” (meu).

queda da representação de coda apenas – nesta categoria, estão incluídas as palavras que apresentam uma supressão não de toda a rima, mas apenas de um dos seus constituintes (a coda), quando preenchida segmentalmente.

Ex. port.: ‘mai’ para “mais”; ‘fima’ para “firma”; ‘deculpa’ para “desculpa”; ‘tade’ para “tarde”.

Ex. ing.: ‘wi’ para “with” (com); ‘o’ para “of” (de).

queda da representação de parte de coda – ocorre uma supressão de um dos segmentos que fazem parte da coda.

Ex. port.: Não foram registados exemplos desta categoria para esta língua.

Ex. ing: ‘jus’ para “just” (apenas); ‘thousan’ para “thousand” (mil).

queda da representação de sílaba – inclui as palavras em que se verifica uma queda total de uma das sílabas.

Ex. port.: ‘tá’ para “está”; ‘nina’ para “menina”; ‘bgd’ para “obrigada”.

Ex. ing.: ‘bru’ para “brother” (irmão, pá); ‘cus’, ‘cos’, ‘coz’ para “because” (porque).
Alterações a nível da representação da palavra

queda da representação de início de palavra – optou-se por considerar vários casos como pertencentes a esta categoria: quer a queda de um ataque em posição inicial de palavra, quer de sílaba, quer ainda de elementos de maiores dimensões do que a sílaba.

Ex. port.: ‘tás’ para “estás”; ‘jinho’ para “beijinho”; ‘nina’ para “menina”.

Ex. ing.: ‘ello’ para “hello” (olá); ‘bru’ para “brother” (irmão, pá).

queda da representação de final de palavra – inclui casos correspondentes ao processo de inovação lexical de truncação, bem como casos em que a supressão apenas afeta a sílaba final ou até constituintes silábicos como a rima.

Ex. port.: ‘div’ para “divorciado”; ‘solt’ para “solteiro”; ‘k’ para “que”.

Ex. ing.: ‘gorg’ para “gorgeous” (lindo); ‘fab’ para “fabulous” (fabuloso).

truncaçãofazem parte desta categoria palavras que tenham sido formadas através do processo de truncação, em que se verifica um apagamento de parte da palavra de que deriva, ou seja, a redução de uma forma mais longa.

Ex. port.: ‘solt’ para “solteiro”; ‘cas’ para “casado”; ‘prof’ para “professor”.

Ex. ing.: ‘gorg’ para “gorgeous” (lindo); ‘morn’ para “morning” (manhã).

- junção/ assimilação de palavras – situações em que duas palavras gráficas convencionais se juntam numa só, com ou sem alteração de uma das palavras.

Ex. port.: ‘ddtc’ para “donde teclas”; ‘vela’ para “vê lá”; ‘tass’ para “está-se”.

Ex. ing.: ‘hes’ para “he’s” / “he is” (ele é); ‘ur’ para “you are” (tu és).

queda de palavra – inserem-se nesta categoria todas as ocorrências em que há a ausência de uma palavra gráfica (e morfológica) numa expressão.

Ex. port.: ‘acabei [o] meu dia de trabalho’.

Ex. ing.: ‘he [is] still’ (ainda é); ‘[I] met’ (eu conheci); ‘[It] myt’ (poderia).

acrónimos, siglas, inicialização – cabem nesta categoria todas as unidades constituídas pela(s) primeira(s) letra(s) de uma, duas ou mais palavras gráficas convencionais.

Ex. port.: ‘lol’ para “laughing out loud” (risada); ‘m’ para “mulher”; ‘h’ para “homem”.

Ex. ing.: ‘ty’ para “thank you” (obrigado); ‘brb’ para “be right back” (volto já).

acrescento de grafema – inserem-se nesta categoria as ocorrências de acrescento de um novo grafema ou até mais do que um, desde que não sejam repetidos.

Ex. port.: ‘perguntare’ para “perguntar”; ‘ateh’ para “até”; ‘naum’ para “não”.

Ex. ing.: ‘yeah’ para “yes” (sim); ‘righty’ para “right” (certo); ‘yappy’ para “yes” (sim).



3.2. Análise e discussão dos resultados

A análise dos resultados vai ser orientada pelas características já descritas na tabela 1. Os resultados serão apresentados nos gráficos, nos quais se pode visualizar, com maior eficácia, a comparação entre as duas línguas em estudo.




Característica 1 - Isocronia

A nível da primeira característica enunciada na tabela, o ponto de interrogação simboliza a dificuldade de se provar empiricamente a presença de isocronia quer a nível de grupos acentuais, quer a nível de sílabas.

Como não temos forma de provar esta isocronia, salientamos apenas que as sílabas tónicas, nos nossos corpora, nunca foram suprimidas totalmente por mecanismos de abreviação a nível da sílaba (mas não no caso de acrónimos ou truncações), embora a representação de outras sílabas pudesse ser suprimida. Com efeito, os fenómenos de supressão de sílabas recaíram somente nas não acentuadas, geralmente em posição inicial. É o caso de ‘nina’ para “menina”, ‘tás’ para “estás”, ‘pera’ para “espera” e ‘inda’ para “ainda”, para o português, assim como ‘coz’, ‘cus’ ou ‘cos’ para “because”, ‘bout’ para “about” e ‘nuff’ para “enough” do inglês.

Por conseguinte, relativamente a este primeiro ponto, tanto o português como o inglês parecem obedecer ao ritmo acentual, ainda que a isocronia não possa ser comprovada em termos empíricos, a nível da medição da duração das sílabas e dos grupos acentuais.


Característica 2 – Estruturas silábicas

Relativamente às estruturas silábicas, já foi descrito que o inglês permite o surgimento de estruturas silábicas mais complexas do que o português. Ora, possuindo o inglês uma estrutura silábica mais complexa, será que isso se vai refletir nas grafias dos programas de comunicação síncrona?

Na verdade, a complexidade das estruturas silábicas do inglês tende a espelhar-se nas grafias usadas, especialmente no que se refere ao ataque. Com efeito, os ataques ramificados com duas consoantes (CC) nunca são simplificados. Os ataques com três consoantes (CCC), mesmo que sejam sempre iniciados por , o que tornaria este grafema previsível, nunca são simplificados. As sílabas que são suprimidas nunca possuem ataques complexos, possuindo, em vez disso, uma estrutura mais simples – V ou CV.

Verifica-se, também, uma distinção entre palavras prosódicas e clíticos, tendendo-se a preservar a complexidade da estrutura das palavras prosódicas. Os casos de queda de representação de parte da coda ou do núcleo, ou até da representação do ataque simples, recaem, geralmente, sobre os clíticos – palavras átonas, funcionais, de reduzida dimensão e pertencendo a classes fechadas.

Esta possibilidade de ocorrência, no inglês, de estruturas silábicas mais complexas do que no português e o facto de essa estrutura tender a ser preservada no nosso corpus, especialmente nas palavras prosódicas, está bem patente no gráfico seguinte, em que se vê que os desvios que afetam a estrutura silábica, no inglês, são mais reduzidos do que no português (embora alguns destes casos tenham a ver com abreviações e não com a simplificação da estrutura silábica):

Gráfico 1 – Comparação da representação da estrutura silábica no português e inglês


Este facto sugere que o inglês, neste item, está mais próximo das características do ritmo acentual do que o português.
Característica 3 – Vocalismo tónico e átono

O item seguinte refere-se ao vocalismo tónico e átono, e à sua diferença a nível qualitativo. Já vimos que, em ambas as línguas, o sistema tónico é diverso do átono, e que certas vogais em sílaba não acentuada podem ser reduzidas a schwa.

Com efeito, a questão mais premente neste item é, a nosso ver, a possibilidade ou não de redução vocálica, podendo uma vogal em posição tónica ser reduzida a outra em posição átona, especialmente a schwa. Esta redução não acontece, por exemplo, no PB, nem no espanhol, línguas apontadas como (predominantemente) silábicas. Tanto o PE como o inglês apresentam a possibilidade de ocorrência de um schwa resultante de redução vocálica (MATEUS & ANDRADE, 2000; MATEUS, 2003; CHOMSKY & HALLE, 1968; DURAND, 1990).

No que se refere à representação de schwa nos nossos corpora, vejamos os dados constantes no gráfico que se apresenta a seguir, no qual o apagamento de schwa e o seu acrescento se encontra enquadrado em categorias mais abrangentes:



Gráfico 2 – Comparação da possível representação de schwa no português e inglês


Para o português, verificaram-se, como era esperado, fenómenos de redução da representação gráfica de schwa (assim como o seu acrescento). Sendo o schwa uma vogal não marcada, pouco proeminente e pouco percetível, é natural que a sua representação seja dispensada, dado que ela própria constitui um zero fonético.

No inglês, a representação de schwa pode ser suprimida, em casos de queda da representação da rima, como ‘crocdile’ para “crocodile”, ou de queda da representação da sílaba, em ‘bout’ para “about”. Pode ser também alterada, como em ‘da’ para “the” ou ‘neva’ para “never”.

Assim, ocorrem fenómenos de supressão de schwa tanto em português como em inglês. Em português, tendem a ocorrer em clíticos monossilábicos, enquanto em inglês a supressão surge mais frequentemente em polissílabos. Estas mudanças revelam, a nosso ver, uma perceção da pouca proeminência da vogal, sugerindo que, neste item, tanto o português como o inglês se aproximam ao ritmo acentual.
Característica 4 - Grupos consonânticos em final de palavra

No que se refere aos finais de palavra, estes podem permitir a existência de 4 consoantes no inglês. No português, considera-se que a posição final de palavra admite maior tolerância prosódica do que a não final, mas não de forma tão exacerbada como no inglês.

Vejamos os resultados ligados à representação da coda no gráfico seguinte:

Gráfico 3 – Comparação da representação da coda no português e inglês


A tendência para a supressão da representação da coda é pouco significativa quer para o português (0,07%), quer para o inglês (0,06%). É interessante notar, todavia, que, a nível do português, a supressão de coda se realiza, geralmente, em posição medial (se excluirmos os casos de representação da nasalidade em coda), enquanto, em inglês, se verifica a supressão da coda e a sua simplificação em posição final (‘jus’ para “just’, ‘o’ para “of”, ‘wi’ para “with”, ‘an’ para “and”, ‘thousan’ para “thousand”).

Contudo, os casos em que surge esta forma de abreviação não abrangem as codas com mais de duas consoantes. Além disso, referem-se sobretudo a casos de clíticos. Num caso de uma coda complexa existente – [kst] –, é preservada a sua representação, em detrimento da vogal – ‘txt’ para “text”.

De facto, verificaram-se casos de supressão da representação do núcleo, preservando a da coda, os quais apresentam uma percentagem mais elevada do que a elisão da representação da coda. Nestes, foi possível observar que as codas finais eram representadas, especialmente para indicar flexão e manter o esqueleto consonântico, no português (‘mts’ para “muitos”, ‘tns’ para “tens”, ‘tcls’ para “teclas”) e para preservar o esqueleto consonântico em monossílabos, no inglês (‘txt’ para “text”, ‘gd’ para “good”, ‘plz’ para “please”).

Note-se que é a primeira consoante da coda aquela cuja grafia é mantida. Este facto assemelha-se ao que ocorre nos dados de simplificação do ataque em português, dado que é a posição inicial que é preservada.

Resta-nos analisar os resultados obtidos na categoria “Queda de final de palavra”. Registaram-se 2,24% de casos no português e 0,55% de casos no inglês. Como esta categoria era demasiado abrangente, isso não significa que exista uma preferência em português para manter a coda, dado que muitos dos casos se referem à supressão de vogal final (e não da consoante em coda), especialmente correspondente a schwa em monossílabos. No inglês, para além das truncações, ocorrem casos de supressão da representação da coda e sua simplificação.

Verifica-se, deste modo, que os dados podem apontar para o facto de, no final de palavra, se poderem preservar as codas por questões morfológicas. Todavia, existem mais grupos consonânticos possíveis no inglês e estes não são, necessariamente, simplificados. A sua existência poderá ser intuída como possível pelos falantes/ escreventes, os quais, no caso de simplificarem a grafia, optam por elidir a segunda consoante em detrimento da primeira.

Neste caso, faz-se sentir a existência de um ritmo acentual mais acentuado no inglês.
Característica 5 - Limites silábicos

Será que os nossos dados apontam para dificuldades sentidas pelos falantes/ escreventes, a nível da silabificação, que, como descrevemos no enquadramento teórico, são mais prementes na língua inglesa? Consideramos que dificilmente é possível ter provas diretas dessa dificuldade a não ser que estes realizassem, explicitamente, divisões de sílabas, o que não acontece. No entanto, consideramos que a preferência pela existência de certos tipos de desvios em inglês e de outros no português poderá sugerir que, no inglês, a unidade “palavra” poderá ser mais relevante do que a unidade “sílaba”, talvez devido a maiores dificuldades de delimitar esta última unidade, ou à própria existência de um número elevado de monossílabos.



Senão, vejamos:

  1. as alterações que têm como alvo a sílaba ou constituintes silábicos apresentam uma percentagem mais elevada no português – 8,96% vs. 1,54%;

  2. embora não contabilizados, muitos dos casos de supressão da representação da rima ocorrem em mais do que uma sílaba da palavra no português, enquanto no inglês, mesmo em polissílabos, é comum ocorrerem alterações apenas numa das sílabas. Assim, por exemplo, enquanto os esqueletos consonânticos geralmente se referem, no português, à representação da consoante em ataque de cada sílaba de uma palavra, no inglês, resultam da representação das consoantes em ataque e em coda num monossílabo (‘ctg’ para “contigo” vs. ‘txt’ para “text”);

  3. as siglas e os acrónimos são um mecanismo de abreviação produtivo nos programas de chat do inglês (2,95%). Apesar de se registar uma percentagem de 2,24% de casos no português, esses exemplos são, geralmente, de estrangeirismos, ou seja, provêm da língua inglesa (veja-se que, no português, existe um total de 4,66% de empréstimos, quase todos do inglês). Destaca-se, ainda, a sua grande diversidade no corpus do inglês, para além da possibilidade de incluírem palavras com diferentes dimensões;

  4. as junções/ assimilações de palavras prevalecem no inglês – 4,42% vs. 0,71% de ocorrências no português;

  5. fenómenos de supressão de palavra predominam no inglês (1,46%) em detrimento do português (0,21%);

  6. casos de truncação são mais visíveis no inglês (0,39%), e resultam numa palavra prosódica mínima, enquanto no português, com 0,27% de casos, podem resultar numa unidade que não se articula oralmente.

A nível gráfico, também é possível notar esta diferença:

Gráfico 4 – Comparação do número de desvios na sílaba ou na palavra no português e inglês
Além disso, foi encontrado um efeito de palavra nos nossos dados respeitantes às duas línguas, embora se observe ainda em número mais significativo no inglês, estando este patente nas seguintes situações nessa língua:

  1. as supressões e simplificações de coda operam sempre em limite de palavra (final);

  2. as supressões de ataque simples afetam sempre o limite de palavra (inicial);

  3. as simplificações de núcleo complexo ocorrem em limite de palavra (final);

  4. estas alterações dos limites das palavras ocorrem, geralmente, em clítico (nas suas formas fracas);

  5. a representação do fonema /h/ em início de palavra tende a ser apagada;

  6. a representação da nasal velar no final de palavra tende a ser modificada, optando-se pela grafia da nasal menos marcada correspondente;

  7. os casos de truncação formam sempre uma palavra prosódica mínima;

  8. as siglas, acrónimos e inicializações, baseados na manutenção da(s) primeira(s) letra(s) das palavras, são produtivos em inglês;

  9. os casos de supressão de palavras incidem sobre as que possuem função gramatical.

Em suma, embora não se possa comprovar empiricamente, no nosso estudo, que existem dúvidas em delimitar os limites silábicos no inglês, podemos verificar que as sílabas não são a unidade preferencial para a ocorrência de supressões. Contrariamente, no português, tendem a existir supressões que afetam todas as sílabas de uma palavra, mantendo-se, preferentemente, a representação gráfica do ataque silábico.

Então, este é mais um item em que pode haver uma distinção entre português e inglês, no sentido de esta língua poder ter um ritmo marcadamente mas acentual do que aquela.


Característica 6 – Ocorrência de processos

Por último, analisemos a existência de fenómenos mais relacionados com o acento, como assimilações e reduções, ou de fenómenos mais relacionados com a sílaba, como inserções e dissimilações.

O acento pressuporia uma maior duração, causando uma tendência para se comprimirem as sílabas não acentuadas, o que provocaria o surgimento de mais encontros consonânticos (CV.CV.CV – C’CV.CV). Por outro lado, as inserções funcionariam no sentido oposto – tornar a estrutura silábica mais simples – CCV – CV.CV.

Vejamos os dados do nosso estudo para ver se as alterações na grafia refletem processos mais ligados ao acento ou à sílaba. Comecemos pelos casos de redução. Já foi dito que as vogais, quando não acentuadas, podem alterar a sua qualidade vocálica ou ser reduzidas a um zero fonético. Em português, destacamos que as vogais /e, / se realizam como [ɨ], /a/ como [ɐ] e /o, ɔ/ como [u].

Como referido anteriormente, a nível fonético, o português pode possuir sequências de várias consoantes adjacentes, o que deriva da supressão de schwa. Neste caso, o português, a nível fonético, assemelhar-se-ia ao inglês em termos de complexidade de estrutura silábica.

No nosso corpus, os casos de supressão de schwa são encontrados, em especial, em clíticos, nomeadamente ‘d’ para “de” e ‘k’ ou ‘q’ para “que”. Surgem algumas supressões em final de palavra, como em ‘ond’ para “onde” e ‘tok’ para “toque”, o que, a nível gráfico (e possivelmente fonético), provoca o surgimento de codas com segmentos não admitidos nesta posição em português – [d] e [k]. Também ocorre em ‘podx’ para “podes”, havendo, a nível gráfico e, possivelmente, fonético, uma coda complexa constituída por uma sequência não admitida em português – [dʃ]. Outros casos incluem ‘intersante’ para “interessante”, ‘friado’ para “feriado”, verificando-se, nestes, uma complexificação da estrutura silábica, mas com estruturas que ocorrem no português – [ɾ] em coda e [fɾ] em ataque.

Assim, comprova-se que existem casos em que fenómenos ligados ao acento obrigam à compressão de sílabas não acentuadas, resultando numa estrutura silábica mais complexa, mas não a nível fonológico.

Contudo, também se verificam casos de inserção de schwa. Esses fenómenos de inserção permitem a simplificação de estruturas mais complexas, consideradas mais marcadas – ataques complexos superficializam-se como ataques simples de duas sílabas no português e codas passam a ataque de outra sílaba. Assim, formar-se-ia a sílaba básica CV, o que permitiria tornar as sílabas isócronas, característica de línguas com o ritmo silábico.

Com efeito, no PB, considerado uma língua com ritmo preferentemente silábico, a ocorrência de certos fenómenos conspira para a regularização da estrutura silábica (HORA & LUCENA, 2008). Do mesmo modo, o nosso corpus parece mostrar a ocorrência de certos fenómenos que concorreriam para este objetivo, quer a nível de acrescento, quer a nível de supressões. Estes fenómenos estão presentes no processo de aquisição da linguagem (descrito por FREITAS, 1997) assim como no processo de aquisição da escrita (vd. FREITAS, 2011). Consideramos, por isso, que estes fenómenos advêm de uma tendência das línguas em geral, e do português em particular, para a preferência por estruturas menos marcadas. Embora, a nível fonético, possam surgir estruturas mais marcadas, há uma tendência para preferir as estruturas universalmente não marcadas a nível fonológico.

Do mesmo modo, no inglês, nos casos de supressão de schwa, nomeadamente ‘crocdile’ para “crocodile” e ‘spose’ para “suppose”, a estrutura silábica torna-se mais complexa, a nível fonético.

Em consequência, a ocorrência destes processos aproxima ambas as línguas ao ritmo acentual.

4. Síntese e conclusão

Depois da análise dos resultados, chegámos às conclusões sintetizadas na tabela seguinte:





Línguas de ritmo acentual

Português

Inglês


Isocronia de grupos acentuais (?)

(?) Não é suprimida a sílaba tónica

(?) Não é suprimida a sílaba tónica

Grande variação das estruturas silábicas

Não

(talvez nível fonético)

Regularizações


Sim

Ataques CC e CCC são sempre mantidos



Vocalismo tónico qualitativamente mais refinado do que átono

Sim

Supressão de schwa



Sim

Supressão de schwa



Grupos consonânticos possíveis em final de palavra

Não (geralmente)

Sim

Podem ser mantidos



Limites silábicos podem suscitar dúvidas

Não

Sim (?)

Mais alterações a nível da palavra



Frequentes processos relacionados com acento (reduções, assimilações, etc)

Reduções

Mas também inserções para regularizar estrutura silábica



Reduções

Compressão sílabas átonas

Possível regularização


Tabela 4 – Comparação entre português e inglês no que se refere às características de ritmo acentual

Em suma, parece evidente que o ritmo do inglês é mais marcadamente acentual do que o ritmo do português, o que se reflete nas neografias das conversações em tempo real online. Pressupondo que existe um contínuo entre ritmo silábico e acentual, havendo a possibilidade de as línguas se situarem em posições intermédias, o inglês situar-se-á, provavelmente, mais próximo da extremidade do contínuo do que o português.



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