Registros da cristandade no novo mundo: a catequese jesuítica em sergipe colonial



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REGISTROS DA CRISTANDADE NO NOVO MUNDO: A CATEQUESE JESUÍTICA EM SERGIPE COLONIAL.

Ane Luíse Silva Mecenas1


RESUMO

A ação catequética jesuítica nas terras situadas ao norte da capitania da Bahia resultou na produção de textos a respeito da língua e dos costumes dos povos que viviam às margens norte do Rio Real. Com isso, foram produzidos o Catecismo, a Gramática da Língua Kiriri e foi construída da Igreja de Nossa Senhora do Socorro sob a responsabilidade do inaciano Luiz Mamiani. Trata-se de escritos de fundamental importância para a compreensão da mentalidade dos jesuítas no período colonial e de suas ações na constituição de uma nova cristandade. Partindo da relevância de tais registros para a História no período colonial, este trabalho tem o propósito de apontar alguns sinais da catequese e do método utilizado. Além disso, tais documentos refletem a influência da retórica barroca, com imagens dissimuladas, cenários que mesclavam o vivido entre dois mundos distintos.

Palavras-chave: Jesuítas, catequese, educação.
ABSTRACT
The Jesuit catechetical action on the land located north of the captaincy of Bahia resulted in the production of texts about the language and customs of peoples who lived on the northern banks of the Rio Real. With this, the Catechism was produced, the grammar of the language and was built Kiriri Church of Our Lady of Socorro on the responsibility of the Ignatian Luiz Mamiani. It is written of fundamental importance for understanding the mentality of the Jesuits during the colonial period and its actions in the formation of a new Christendom. On the relevance of such records to the history in the colonial period, this work aims to point out some signs of catechesis and the method used. Moreover, these documents reflect the influence of baroque rhetoric, with hidden images, which merge the scenarios lived between two worlds separate.

Keywords: Jesuits, catechesis, education.


Ao cerrar os olhos e por um instante remeter nosso pensamento ao tema do Brasil colonial somos capazes de formular uma pintura. Podemos pensar nas planícies sendo revestidas pelo verde da cana, ao longe em cima de colina, podemos ver a casa grande, olhar para os lados e nos deparar com os escravos cansados pelas longas horas trabalhadas sob o sol quente do Nordeste brasileiro. Chegando mais perto da casa grande, podemos sentir o cheiro dos quitutes. Ou até presenciar a saída da sinhá para a missa do domingo, acompanhada por suas criadas.

Pensamos em um quadro idealizado, generalizado pelas restrições e pela vã idéia de que na Colônia, as coisas aconteciam da mesma forma. Negros sendo escravizados, brancos dominando e padres convertendo. Nesse quadro há muitas cenas borradas, maquiadas, ressignificadas. E que o historiador que se debruça sobre esse período deve sempre estar atento para observar os indícios capazes de mostrar as peculiaridades, as especificidades de cada espaço.

Dificuldades na pesquisa todos os servos de Clio encontram, sejam os que se debruçam pelo tempo presente sejam os que remontam a períodos distantes da sua compreensão. Os primeiros por viveram, ou até estarem muito próximo do objeto sentem o cheiro de tintas nos documentos. Os outros encontram os ácaros corroendo o papel ou não tem acesso aos testemunhos do tempo longínquo.

Por isso nos caminhos das pesquisas os historiadores da colônia sempre estão preocupados em apresentar novas fontes. Entretanto como nem sempre isso é possível muitas vezes devemos reinterpretar os documentos já divulgados. Na constante procura, nos empoeirados arquivos, por brechas, lacunas, ditos e não ditos, que possam auxiliar na construção, reconstrução ou fabricação desse longo período da História do Brasil.

Esse trabalho é fruto de uma dessas ressignificações de fontes. Não são apresentados dados novos, mas apenas a releitura, ou uma leitura por um novo prisma de documentos já apresentados em outras pesquisas. Para poder falar das fontes, preciso apresentar ao meu nobre leitor o tema desse estudo.

Nessas primeiras linhas apresentei algumas inquietações relacionadas ao período dessa pesquisa, mas não delimitei os atores envolvidos. Para esse estudo os personagens envolvidos pertencem a uma instituição muito discutida, a Companhia de Jesus.2 Uma ordem militante que atua como sujeito participante dos ideais propostos pela Igreja Católica após o Concilio de Trento.

Por meio da aprovação da bula Regimini Militantis Eclesiae, em 1540, foram então autorizados os trabalhos apostólicos da Companhia de Jesus, tendo como meta “ordenar a vida dos cristãos”. Essa ordem trilhou novos caminhos para difundir a fé cristã, sendo responsável pela releitura do cristianismo. Cumprindo com as normas instituídas na reforma católica, a ordem fundada por Loyola (1491-1556) foi estruturada com o propósito de disseminar a cristandade pelo “Novo Mundo”. (LEITE, 1945)

A atuação jesuítica em diversas terras da colônia portuguesa é tema de estudos. Principalmente envolvendo as missões do sul, a região dos Sete Povos das Missões3. Houve um surto historiográfico envolvendo essas missões, seja na análise da arte, no pensamento político ou no cotidiano das antigas populações que viviam nos aldeamentos. Isso gerou o “descobrimento” de uma vasta quantidade de fontes indo além da criação da necessidade de preservação do patrimônio. Nota-se que o mesmo não está acontecendo com as missões localizadas no nordeste do Brasil. Parece que essas missões foram esquecidas ou não estão sendo vistas com tanta importância. Outro tema recorrente é a atuação de inacianos conhecidos, como Manuel da Nobrega, Anchieta e Antônio Vieira. Para essa pesquisa o espaço escolhido, fruto dos interesses da historiadora que vos fala, é distante dos grandes focos de discussão. Situa-se na Capitania de Sergipe Del Rey, nos limites que separam a dita capitania da sede do governo português na Bahia, na aldeia jesuítica do Geru.



Uma ordem militante para compreender.

No alvorecer do século XVII a ação jesuítica se encontrava num processo de reformulação de estratégias, no litoral da colônia lusitana do Novo Mundo. As primeiras práticas idealizadas por Ignácio de Loyola durante a efervescência das idéias de Trento não estavam alcançando o êxito esperado. As aldeias indígenas foram sendo transformadas em missões, nas quais a cultura e saberes locais foram sucumbindo diante da imposição da tradição cristã européia.

No bojo dos discursos sobre a prática religiosa, os inacianos realizaram a epopéia de pregar o Evangelho no novo continente. Percebe-se que a criação da Companhia repercutiu nessa tentativa de reestruturação do poder religioso, ao passo que a nova ordem teve marcante presença no Concílio, principalmente na formulação dos decretos conciliares. (GIORDANO, 2003)

Em 15 de agosto de 1534, foi lançado os Exercícios Espirituais4e os fundamentos da Companhia de Jesus. Desde então começou a estruturar a base do pensamento jesuítico com estrita disciplina e de forma hierárquica de acordo com as determinações dos Exercícios Espirituais e ratificadas com a publicação das Constituições da Companhia de Jesus (1558-1559). Suas regras eram completamente diferentes das existentes até então, unia espiritualidade com disciplina e obediência quase militar, a fim de coordenar o máximo de energia na “construção do reino de Cristo”. (QUEVEDO, 2000)

Assim como os tradicionais votos de castidade, pobreza e obediência, os jesuítas dedicavam um respeito direto aos desígnios do Papa. A submissão era necessária, principalmente pela dificuldade do controle efetivo dos membros estabelecidos em locais tão distantes. Os companheiros deveriam aceitar as ordens como se fossem produtos da própria consciência. A comunicação entre os discípulos era feita pelo envio de cartas e relatórios prestando contas das ações desenvolvidas, transmitindo informações sobre o trabalho de catequese, bem como pedidos de ajuda para desenvolver as atividades5. Através das correspondências eram também remetidos os castigos, tais como penitências ou jejum, referente a alguma falha cometida pelos filhos de Jesus. (LEITE, 1953)

Contudo, quando foram executadas algumas concepções de Loyola referentes ao plano de conversão do índio ao catolicismo não obtiveram êxito. Em cada local havia especificidades que o plano inicial não previa (EISEMBERG, 2000). Dessa forma algumas alterações foram realizadas quando da organização e atuação das missões.

No início do processo de colonização do Brasil, houve uma dificuldade em promover a incorporação dos valores cristãos pelo índio. O período inicial foi basicamente, de avaliação e experimentação, os jesuítas seguiram o plano franciscano de catequizar o índio in situ. Não obtiveram grande êxito, pois iniciavam a evangelização nas aldeias e quando saiam, acreditando na conversão dos gentios, descobriam que esses retomavam seus velhos costumes (EISENBERG, 2000).

A doutrinação começou a ocorrer de forma intensa quando os índios foram retirados das antigas aldeias e passaram a viver junto dos padres nas missões. Com isso, Manuel da Nóbrega passa a difundir a necessidade da utilização do medo na conversão do gentio de acordo com a concepção tomista de medo servil, proporcionando uma justificação teológica para a reforma das missões jesuíticas no Brasil (EISENBERG, 2000, p. 108) Essa tese é defendida no Diálogo sobre a Conversão do Gentio (1556-1557) e no Plano Civilizador (1558) (EISENBERG, 2000). Convém ressaltar que o último foi o texto utilizado para legitimar a “reforma” na atividade missionária.

O Plano Civilizador defendia uma adaptação do sistema de encomienda6 muito utilizado na colonização da América Espanhola. O sistema tornava os índios subordinados à autoridade espanhola que era responsável em encaminhá-los ao trabalho junto aos colonos. Em troca os gentios recebiam salários e tornavam-se “protegidos” contra a escravidão. Na versão jesuítica, os nativos viveriam nos aldeamentos, seriam submetidos aos padres e em troca poderiam contar com a “proteção” contra a escravidão dos colonos (QUEVEDO, 2000). Não eram obrigados a se converterem ao catolicismo, mas teriam que viver sob a lei cristã. Em síntese, o Plano Civilizador preenchia as lacunas iniciais da doutrinação jesuítica no Novo Mundo calcando as bases da dependência do gentio perante a autoridade cristã.

O medo passa a ser então o elo necessário para promover a aproximação do índio com os jesuítas. Os padres defendiam a idéia de que deviam preparar a alma dos nativos para que esses pudessem receber a fé cristã. A preparação é feita incutindo a necessidade de o índio consentir com a catequese como forma de manter sua segurança.

Manuel da Nóbrega acreditava que, através das diretrizes do Plano Civilizador, seria possível avançar a missão de propagação da fé cristã. Os aldeamentos formados pela propagação do medo servil seriam capazes de desarticular as tribos, surgindo assim agrupamentos diversos sem a antiga identidade. Dessa forma estaria suprindo aos interesses dos diversos setores da colônia.

Os soldados de Cristo que vinham para as missões passavam por uma preparação prévia para comprovar sua capacidade física, moral e disciplinar. Atributos necessários no exercício da catequese. A maioria dos jesuítas possuía conhecimentos técnicos que podiam desenvolver nas missões, tais como pintura, arquitetura, agricultura, medicina, dentre outras. (OLIVEIRA, 2004)

As bagagens dos filhos de Santo Inácio de Loyola vinham repletas de uma ideologia cristã, de conhecimentos científicos e de arte para “semear” a um povo de cultura totalmente diferente (e não menos importante). Esse contato na nova terra proporciona a entrada da América nas páginas da história européia. Não foi levada em consideração a cultura já existente no solo americano que não possuía escrita, mas onde já havia um sentido de tempo, mesmo que diferenciado do europeu, e uma organização sócio-político-cultural própria para atender as suas necessidades. Nesse caldeirão de diversidade se reescreve a história dos povos indígenas através dos projetos do europeu.

Indícios da conversão

Quando a colonização da Capitania de Sergipe Del Rey é iniciada em 1575, a Companhia de Jesus já havia adquirido experiência nos vinte e seis anos atuando na colônia portuguesa. O plano de catequese contava com as novas formas de conversão dos gentios, proposta por Nóbrega no período de 1556 a 1558. No que se refere à aldeia do Geru, de 1683, ela pode ser inserida nas últimas décadas da presença dos jesuítas antes da expulsão determinada.

Com essa breve reflexão acerca das formas de atuação dos jesuítas na colônia portuguesa percebemos que após, quase cento e cinqüenta anos, da elaboração do Plano de Conversão do Gentio, obra em que Nobrega tenta reorganizar a dinâmica da conversão nas missões, o processo de catequese ainda se encontra num processo de construção. Não quero com isso relatar que o processo de catequese não alcançou êxito, pelo contrário, nunca admitira tal falácia. Apenas quero pontuar que ocorreu uma dinâmica muito maior, um processo que foi sendo construído na prática em cada missão levando em consideração as especificidades locais.

Os registros de êxitos e fracassos relatados nas cartas remetidas a Roma ou nos documentos enviados ao governo local7, com sede na Bahia podemos discutir como efetivamente esse processo foi sendo modelado a partir da dinâmica de cada localidade. Na aldeia do Geru, foram identificados três discursos de conversão. Três formas de educar, três formas de converter, três formas de tentar levar a fé cristã aos índios. Três assim como a santíssima trindade. Podemos pensar como uma educação pelo dito e outra pelo não dito. Na categoria do dito destaco dois instrumentos utilizados a Gramática e o catecismo Kiriri, elaborados na dita aldeia que serviam para efetivamente a conversão dos gentios. E na categoria do não dito, incluiu a Igreja de Nossa Senhora do Socorro. Esses três instrumentos, de acordo com Leite (1945, p. 326) foram produzidos pelo padre Luiz Mamiani della Rovere, o catecimo kiriri, a gramática e ainda foi responsável pela construção do templo religioso da aldeia.

O catecismo foi encomendado pela ordem, e só vinte cinco anos após ele foi concluído. Elaborado graças, de acordo com o autor, aos seus doze anos de observação do comportamento, dos hábitos, dos costumes e da pronuncia das palavras. Uma observação que não era apenas para entender e falar, mas para chegar a raiz da língua. O que é curioso, nós mostra que o estudo das populações era constante, e cada gesto, cada palavra e principalmente a forma como era pronunciada foi sendo anotada. Essa observação também passava por um outro processo, o da comparação. Mamiani relata que na observação procurava fazer a relação com a sua sociedade, com o que lhe era familiar. De acordo com Mamiani já existiam outros catecismos, mas de outras línguas não havia um para os kiriris. “hum prodígio aos primeiros Missionarios do mundo, que faraõ os Apostolos, pareceo que já tem tempo de fe copor hum Catecismo também na língua Kiriri para facilitar aos novos Missionarios a conversão desses bárbaros.’ (MAMIANI, 1698)

Na obra Mamiani salienta os empecilhos encontrados no processo de elaboração do material, de acordo com o autor, a língua kiriri tem muitas especificidades e por conta disso os missionários terão dificuldade, mesmo com os seus apontamentos, tanto na pronuncia como na escrita desse língua. Os empecilhos nessa árdua tarefa são apresentados no inicio da obra que se encontra divida em três partes. Na primeira são apresentadas as orações e os princípios de fé. A segunda é composta pelos mistérios da fé, os mandamentos, os sacramentos e o que obrigado a saber todo o Cristão. Por fim, na terceira parte, identificamos algumas instruções que devem servir aos padres. Já na gramática o padre Mamiani de forma exaustiva descreve cada pronome, como deve ser organizadas as frases além da pronúncia de cada fonema. O discurso de conversão encontra-se na gramática diluído nas formas práticas de como pronunciar e compreender as palavras.

Por fim, a outra forma de educar, temos o templo construído a em devoção a Nossa Senhora do Socorro. A fachada singela esconde a beleza avassaladora do interior, nota-se um toque de sobriedade na parte externa da Igreja. A arquitetura é regida por linhas retas de traçado fino e pouco expressivo, característicos do barroco joanino, marcado pela simplicidade do traçado externo e exuberância do espaço interno. Para o observador é um puro choque de emoções: a simplicidade da fachada contradiz com as formas e detalhes do interior. Nesse ponto as fachadas dos templos portugueses, e como conseqüência os brasileiros, diferem das construções italianas nas quais se percebe o abuso de concavidades e formas convexas.

Nas construções jesuíticas no Brasil é possível encontrar frontispícios de uma porta, bem como conjuntos formados de até cinco vãos. Na Igreja de Nossa Senhora do Socorro a entrada para o “céu” é demarcada por uma porta única8 de madeira trabalhada no estilo de almofada. Não existem maiores detalhes decorativos no portal da Igreja, dando uma harmonia a sobriedade adotada na decoração da fachada. Só na parte superior do portal da fachada há uma referência ao ano de 1688, a inscrição se encontra em algarismos romanos MDCLXXXVIII. A data evidenciada no portal é posterior a data de compra do sítio Ilha aos Carmelitas pelos Jesuítas (1683), ano tido como limite temporal para esse trabalho.

O interior do templo de Nossa Senhora do Socorro é composto por um conjunto de talha dourada e policromada. O resultado alcançado representa os conceitos estéticos da teatralidade barroca, indo além da sua função decorativa para um universo mergulhado na simbologia difundida pelos inacianos. A madeira entalhada e dourada modifica o interior do templo, redesenhando os limites arquitetônicos.

Ao adentrar o templo, não se tem mais o forro da nave e não se sabe se havia uma pintura, resta apenas o resplendor feito de madeira com o símbolo da Companhia de Jesus talhado em alto relevo. O símbolo da Companhia de Jesus é o monograma I.H.S. cercado por um resplendor. Ele representa o nome de Jesus escrito numa forma grega abreviada, e originalmente nada tinha que ver com as palavras latinas Jesus Hominum Salvatori (Jesus, Salvador dos Homens).

Nesse palco central que é a nave, onde ocorre a encenação há também o púlpito que proporciona a interação dos padres com os índios. As missas tinham uma dinâmica maior, alternando a visão dos fieis pelo cenário que compõe a nave. O púlpito apresenta elementos da arte chinesa, o que é comum de se encontrar tanto nas igrejas da Bahia como em Minas Gerais, e sua função era receber o padre que faria uso da palavra para os fiéis.

Após a observação da singela fachada vamos deter o olhar na exuberância da capela-mor e dos retábulos laterais. Visto o sol que reluz as bênçãos celestiais, abre-se na única nave que compõe a Igreja o caminho para o palco onde é realizada toda a encenação da catequese cristã. Os corredores laterais são utilizados para os padres se deslocarem, sem serem notados pelos gentios, da sacristia para o coro ou para o púlpito. O partido retangular facilitava a adequação da Igreja a um teatro, onde o palco é representado pela capela-mor, a platéia é distribuída pela nave única e os bastidores correspondem à sacristia.



È nesse palco, nesse espaço do teatro, em que as peças antes descritas são encenadas, é o momento em que há a interação entre os três discursos, entre os três indícios da colonização. Buscamos possibilitar rever a partir da sua atuação dinâmica, que muda em cada localidade e também sofre alterações a partir do tempo, do contexto em que se encontra inserida. Nesse local os diversos pensamentos se encontram, se encaixam e se resignificam. Na aldeia do Geru, em 1700, cem famílias, quatrocentas pessoas, da nação Kiriri convivem com pensamentos, hábitos e costumes do Velho Continente. Escutam nas missas os cânticos de fé, são transmitidos os ensinamentos que todo homem de fé deve saber e convivem com um templo barroco, impregnado de alegorias de uma cultura especifica.
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1 Universidade Federal da Paraíba, mestranda do Programa de Pós-Graduação em História.

2 Esses são os personagens que falam e descrevem as experiências, visto que os discursos do colonizado, do indígena só chega aos novos ouvidos, diluídos pelos viés, pelo olhar do colonizador. Nesse caso, do representante da Igreja na aldeia, os jesuítas.

3 Dentre esses estudos destaco TAVARES, Eduardo. Missões. São Leopoldo: UNISINOS, 1999. Esse trabalho apresenta uma detalhada discussão sobre o papel das missões para a população local. Além da identificação da autonomia dos artífices nas produções locais, a incorporação de novos elementos indígenas e as diferenças do barroco nas missões com o europeu, bem como a utilização da música como forma de catequese.

4 A obra Exercícios Espirituais (1522) de Inácio de Loyola é o produto da conversão do próprio autor, de cavaleiro a devoto. Estabelece uma nova interpretação do cristianismo centrada na postura do jesuíta chamada de “nosso modo de proceder” (Noster Modus Procendi). A transcrição da obra pode ser encontrada no livro EISENBERG, José. As missões jesuíticas e o pensamento político moderno: encontros culturais, aventuras teóricas. Belo horizonte: Ed. UFMG, 2000.p. 108.

5 O Padre Serafim Leite produziu uma obra intitulada Cartas dos Primeiros Jesuítas (1553-1558) que apresenta uma compilação de cartas dos inacianos do Brasil para Roma.

6 Os espanhóis utilizaram a encomienda como instituição jurídica que visava designar um grupo de índios ou uma aldeia a exercer serviços aos espanhóis.

7 Muitos desses relatos são encontrados na coleção publicada pela Biblioteca Nacional intitulada Documentos Históricos.

8 Convém ressaltar a existência de uma entrada lateral que dá acesso a um dos corredores.



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