Refletindo sobre o mal estar na educaçÃO: Indisciplina Um Sintoma



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MAL ESTAR DOCENTE: O (DES) AMPARO COMO UMA ESCUTA DA INDISCIPLINA ESCOLAR Jane Patrícia Haddad - UTP

janepati@terra.com.br


Resumo


Este artigo faz parte de minha pesquisa de Mestrado em Educação na Universidade Tuiuti do Paraná e propõe uma reflexão a respeito do mal-estar docente, o (des) amparo como uma escuta diante da “indisciplina escolar” . Procuro discorrer sobre o desamparo como uma (re)leitura da sua raiz amparo . Pretendo articular a Psicanálise e a Educação como uma forma de encontrar uma saída, ainda que nunca definitiva, do estado de (des) amparo (re)vivido na educação, atribuindo novos olhares que possibilite uma escuta cuidadosa sobre as possíveis causas de tal desamparo e a consequente indisciplina escolar.

Palavras-Chave: Educação- Mal-estar – (Des) amparo – Indisciplina Escolar.

Introdução

O presente artigo propõe uma reflexão sobre o mal-estar docente, o (des) amparo como uma escuta diante da “indisciplina escolar”. A palavra desamparo forma-se, em diversas línguas, a partir da palavra amparo, nela colocando-se um prefixo ou sufixo. Em inglês a palavra

“helplessness” forma-se por agregação de um sufixo de negação à palavra “help”.

Isto nos leva à hipótese de que no pensamento humano, pelo menos no momento inaugural das línguas em questão, o amparo antecede o desamparo.

Segundo o dicionário Aurélio o significado da palavra amparo é amparar; por algo a frente para proteger, dar, ou servir de amparo, proteger, dar meio de vida, sustentar; para impedir de cair. Amparar, v. do latim anteparare.

Segundo o vocabulário de psicanálise de J. Laplanche/ J. B. Pontalis; o desamparo é trabalhado não como um termo único, mas como um “estado de desamparo”.

Em meu campo conceitual vou interpretar o “desamparo” como um nome de “batismo” de algo que pertence ao mal estar educacional contemporâneo, e que de alguma forma não é conclusivo é o sintoma de uma educação em transição , onde o não saber pode aparecer como manifestações do inconsciente – sintomas, inibições, formações defensivas, angústia, atos falhos, indisciplina escolar , processo ou evento mental que implica uma “condição de desamparo” ou uma “situação de desamparo” o que abre uma possibilidade de escuta do mal estar educacional e nos conduz a um território que vem sendo explorado, na medida em que as formulações teóricas de Freud vem sendo sustentada como amparo ao mal estar educacional.

A escuta cuidadosa, pressupõe o uso de novas formas de escutar antigas queixas no meio educacional.


Uma “espiada” em Winnicott
Winnicott (1975) afirma que o bebê não existe por si só, mas sempre é essencialmente como parte da mãe, integrante de uma relação. Se a mãe estiver incapaz, ausente, ou ao contrário, demasiadamente intrusiva, a criança se arrisca à depressão ou a atos anti-sociais, roubos e mentiras, maneiras de reencontrar por compensação, uma “mãe

suficientemente boa”.

O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover uma ação específica. Ela

se efetua por ‘ajuda alheia’, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via de alteração interna, ela adquire, assim, a

importantíssima função secundária da ‘comunicação’, e o desamparo inicial dos seres

humanos é a ‘fonte primordial’ de todos os ‘motivos morais’ (FREUD, 1895, p. 336). Freud refere que a eficácia dos mandamentos morais repousa sobre o desejo do amor do outro e no temor de perdê-lo. Correlativamente, a perda do amor ou a separação do ser protetor corresponde ao maior dos perigos, o de ser abandonado à sua própria sorte ante o desamparo.

Uma contribuição importante de Winnicott, dentre outras, que pode nos auxiliar na

Educação é pensar na escola como uma instituição de referência, como um ambiente de segurança. Assim , na relação transferencial que pode ser estabelecida entre professor e aluno , onde o aluno poderá sentir-se acolhido, o que Winnicott (1975) chama de holding, possibilitando a instauração do campo transferencial.

Amparar é sustentar , dar, é dar existência, dar origem, causar. Isso vem ao encontro da idéia Winnicottiana de criatividade que consiste no espaço ilusão-desilusão (Winnicott, 1988). Por volta do 3° ao 6° mês de vida, é criado este espaço entre o bebê a mãe que consiste por um lado, na ilusão, na capacidade de criar o seio da mãe. E à medida que cria o seio da mãe, cria a própria existência. E, por outro, na desilusão, ou seja, um espaço em que não é mais um eu totalizado, tão potente. È o espaço do eu e não-eu. A idéia de criatividade, nesse momento, remete ao bebê uma condição de ter de se virar, ter de dar um jeito ou criar um outro‘lugar’ sem garantias,(um lugar em aberto), um lugar de incerteza.

O que , abre novas possibilidades do bebê se descolar da angústia e, desta maneira, recriá-la, transfigurá-la, transformando-a em ato criativo, criar um “novo” espaço de amparo.

Freud também enfatiza a importância da mãe, pela estreita e íntima relação com o bebê, fundamental para a constituição do psiquismo, “perder a proteção” momentânea, se há desamparo é porque há também amparo, dá a experiência inicial de desamparo que se repete nas situações de perigo em que a criança é ameaçada de perder seu objeto de amor é que ela desenvolverá recursos internos para se reorganizar e se perceber separado do seu objeto de amor, e se há perda há falta, e esta falta é que será fundante para desejar e criar novas identificações.

Ressaltando aqui que a experiência inicial do bebe , será revivida ao longo de sua vida nas suas relações subseqüentes, com seus colegas, professores e outros...

A escuta , abre uma porta, através da transferência, (que se estabelece ou não entre mãe e bebe e depois entre aluno e professor) torna-se possível que o bebe e depois aluno simbolize seus afetos, se situe se organize melhor, se implique em seu processo de aprendizagem. Ao escutar na transferência, o professor abre um espaço para que o aluno –sujeito apareça .
RE-CONFIGURAR OS OBJETOS DE AMOR

No inicio da vida , os objetos de amor das crianças são os “pais” quando elas seguem para a escola , junto com elas vão suas primeiras vivências, sentimentos, sensações e relações vividas.

A escola passa a ser a continuidade de suas experiências e seus professores, seus “objetos de amor”.

Não estaria aqui um ponto a ser refletido:

A indisciplina escolar pode ser um sintoma decorrente do “desamparo frente a relação professor aluno?

No texto O mal-estar na civilização, Freud (1976, p. 84-85), com o propósito ainda de esclarecer a busca humana na obtenção de felicidade, destaca: O sofrimento sempre ameaça o ser humano e este ameaça o homem, ameaçar e pode advir de três direções: de seu próprio corpo, do mundo externo e de seus relacionamentos com outros homens, sendo esta última a forma mais penosa de todas. Segundo Freud ,a felicidade é uma ilusão , já que não é possível obter apenas prazer e realização, há também o desprazer e o principio da realidade. Para Freud chega, a

hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sndo ilusões, as esperanças que , na juventude, depositou em seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles. Ao mesmo tempo, seria injusto censurar a civilização por tentar eliminar da atividade humana a luta e a competição. Elas são indubitalvemente indispensáveis. Mas oposição não é necessariamente inimizade; simplesmente, ela é mal empregada e tornada uma ocasião para inimizade.”(FREUD,1930(1929),p. 117)(Mal Estar na Civilização 1976(fiquei na duvida de como citar aqui, o ano da edição é 1976

ela não é plena, o que há são momentos de felicidade e bem estar. O mal-estar na civilização, . .

Onde há pessoas, há conflitos e a possibilidade do mal-estar . Na relação professor aluno, o mal estar vem sendo observado . Muitas vezes o professor reclama que o aluno o desafia dentro da sala não há entrosamento e concordância o tempo todo, o que pode gerar um estado de “desamparo”, um sentimento de abandono.

Por isso, contamos com pactos sociais que são sustentados pela lei simbólica, criada pela possibilidade que o homem tem de usar a linguagem. Mas residem no homem, melhor dizendo, nesse contexto pedagógico, as determinações inconscientes que podem conduzir a uma força destrutiva que terão preferência sobre os pactos possíveis pela via da linguagem - nossa única forma de estabelecer laços com o outro. O enfraquecimento dos laços é uma consequência da evitação do mal-estar.

Certa vez, em uma reunião pedagógica, em uma instituição escolar particular em Belo Horizonte, onde atuava como coordenadora, observei, com um olhar atento, duas professoras que se diziam amigas e companheiras de trabalho há mais de quinze anos. Durante essa reunião, percebi que, após uma “discordância” pedagógica e profissional, duas profissionais transformaram-se em “inimigas” e passaram do amor à indiferença em trinta minutos - o diálogo e a compreensão acabaram ali. Aquele fato me chamou atenção para pensar: como falar e debater temas tão complexos como a inclusão escolar, se diante de uma discordância, excluo o colega que pensa diferente de mim? Como não se sentir desamparado diante dessa situação? O desamparo como algo “insuportável para o sujeito”:aqui uma situação de desamparo, como uma situação de ausência de ajuda.(1)* Bianca referenciar no pé de página(*1) Curiosamente, a palavra Hilflosigkeit, traduzida na língua portuguesa por “desamparo”, significa “ausência de ajuda”, “não ter ajuda”, ou seja, não há mais ajuda possível, não tem mais a PÂNICO E DESAMPARO NA ATUALIDADE 197 .Ágora (Rio de Janeiro) v. VIII n. 2 jul/dez 2005 193-206

Uma das professoras envolvidas no episódio narrado me procurou após a reunião e disse: “Éramos tão amigas, na hora que precisei dela, ela não me apoiou na reunião”. Essa fala retrata muito bem a ilusão de que o outro lhe dará tudo de que você precisa.

O desamparo no campo social Freud (1930/1980) chamou de mal-estar (Unbehagen), tendo em vista que a relação do sujeito com a cultura é permeada pelo antagonismo irremediável entre as exigências pulsionais e as restrições da civilização.

Aproximando mal estar educacional e desamparo pode –se “compreender” que há uma ilusão no campo educacional de completude e entendimento , entre professores e alunos.

É justamente este mal estar que vem colocando professores e alunos em movimento, é na insatisfação e na incompletude, entre professor e aluno; professor e professor;aluno e aluno que se funda o sujeito desejante e pressupõe a alteridade, que permitirá um olhar mutuo, onde cada um se implicará na relação professor aluno.

Aproximando mais uma vez o termo de Freud, é o desamparo primordial do sujeito que abrirá novos caminhos para o desejo na relação com o outro.

O mal estar é um incomodo essencialmente humano.

Não estaria aqui uma pista do mal-estar educacional ?

Minha hipótese é de que a “indisciplina escolar”, na atualidade, seria uma forma de expressão deste aluno que tenta se amparar nas relações “interrompidas” com seus professores “desamparados”.

O mal estar educacional nos convida a uma releitura do “desamparo” como um retorno “simbolicamente” ao desamparo original .

frente a “indisciplina escolar” onde ele solicita um olhar e uma escuta como um aluno sujeito, que trás uma história pessoal muitas vezes deixada do lado de fora da sala de aula. respondendo ao “desamparo docente”
Deve-se pensar aqui em uma ética que vai além da moral, além da relação do homem com a sua ação e com um ideal de conduta relacionado ao que se pode considerar o bem geral. Ela vai além do mandamento e do sentimento de obrigação. Seria a ética do desejo e não dos ideais da cultura que visam à harmonia e, até mesmo, à perfeição, que sabemos ser uma utopia, em se tratando de estabelecer normas na educação.

Pode-se pensar, então, que essa utopia aponta para uma responsabilidade de cada um para com seu desejo, mas não com uma realização que tenha relação com tudo que o imaginário possa produzir. Portanto, trata-se de uma ética de atitude reflexiva do sujeito em relação ao que faz, como faz e para o que faz, evitando assim os impasses e sofrimentos que surgem nas relações.


Desde cedo, pais e professores demandam que as crianças aprendam, em determinado tempo e espaço, que sejam bem sucedidas, tirem ótimas notas e sejam as melhores. Mas isso vai além de uma obediência ou de um mandamento: pressupõe uma subjetividade, uma relação de significação particular que leve em conta o sujeito com a própria vida e com sua história.

Não há neutralidade no ato pedagógico. O verdadeiro professor se sente e se demonstra implicado ou não na aprendizagem e na educação dos seus alunos. Educar é tarefa difícil!


O que é Disciplina?
Relacionado à ideia de disciplina com a conotação predominante de ordem, define-se o conceito de indisciplina: “in” é um prefixo latino que designa negação e, portanto, indisciplina quer dizer falta de disciplina, ou, segundo Estrela (1994, p.15), "(...) desordem proveniente pela quebra das regras estabelecidas".

Pode-se, logo, afirmar que, na acepção do termo, (in) disciplina está diretamente ligada à ideia de instruções, normas ou regras e a aplicação destas por determinada autoridade, que pode ser representada por instituições. No entanto, segundo Estrela (1994, p.15),



"as regras e o tipo de obediência que elas postulam" são relativas a uma dada coletividade localizada historicamente e às formas e configurações sociais que nela existem. (ESTRELA, 1994, p. 31) defende que não se pode falar em disciplina/indisciplina independente do contexto sócio-histórico em que ela ocorre. “Como toda educação visa à inserção do indivíduo em determinada sociedade, a disciplina social transforma-se num fim educativo de caráter mediato e a disciplina educativa assume o caráter de fim imediato e de meio de educação”.
Em determinado momento de sua explanação, a autora cita Lobrot que defende que “a indisciplina será um fenômeno transitório e necessário. Será a desordem que precede a necessidade sentida da ordem e da organização. A autogestão permite a dialética do ‘instituinte e do instituído’” (p. 32). Em outra corrente – a da clarificação dos valores – Estrela mostra que “a falta ou a indefinição de valores está na origem das cssituações conflitais que levam à indisciplina” (p. 32).

Pode-se pensar, assim, que o aluno valoriza o professor exigente, aquele que cobra participação e dedicação às tarefas.

Para a autora, o grupo se institui de forma involuntária, criando-se normas que poderão explicar a disciplina ou a indisciplina na aula.

A inadequação dos fins propostos ou a falta de motivação dos alunos podem originar situações de frustração e descontentamento que se expressam através da agressividade, da fuga ao trabalho ou da apatia” (p. 34). A solução está numa união de princípios e ações em que todos saem ganhando: alunos, professores e escola. O ato educativo tem como sustentação o pensamento de cada um e principalmente o desejo.

Psicanálise uma possibilidade

Cabe aqui uma reflexão no estilo psicanalítico já que a psicanálise vem se aprimorando, re-criando e reconstruindo seus aportes teóricos e técnicos, de forma a promover um redimensionamento em seu campo de atuação.

Nas últimas décadas, para além dos consultórios, a psicanálise conquistou novos espaços como: hospitais, universidades, postos de saúde, centros de atenção psicossociais, clinicas e ambulatórios públicos e privados. (Pinheiro 2006, p. 34), alcançando as dimensões sustentadas por quem ousa buscar, sem concluir como uma certeza pronta e acabada.

Sobre a falta de motivação que vem aparecendo constantemente nos discursos pedagógicos. Acredita-se que ninguém motiva ninguém e sim mobiliza o outro. Segundo Charlot, "O conceito de mobilização se refere à dinâmica interna, que traz a ideia de movimento e sentido”. Sentido este que os professores colocam em suas aulas, e isso,poderá provocar a mobilização do aluno para envolver-se ou não nas aulas e sentir-se “motivado”.

A mobilização é a mola propulsora para o desejo de colocar-se em movimento, de buscar algo que “falta” e que, possivelmente, jamais será satisfeito (mesmo que o aluno sinta-se motivado, o professor continuará “insatisfeito”, querendo mais). Esse é o movimento necessário para que não aconteça paralisação no processo ensino-aprendizagem.

A psicanálise não ensina e nem fornece “receitas” sobre o sentido da motivação/ desmotivação, desamparo/amparo, disciplina/indisciplina, porém ela instiga a não acomodação diante do mal-estar educacional.

Diante do “desamparo” e “indisciplina escolar” como sintomas presentes na educação, cabe por meio de uma escuta e uma voz que se faça ser escutada (re)significar a escolha do sujeito professor. O momento é de escolha e reconhecer-se ou não como professor- sujeito adulto onde cada um responsabilize-se pela sua escolha .

Ser professor ou não.

Escolher entre isto ou aquilo é responsabilizar-se pelo resultado. Se os alunos estão desmotivados, quem é o responsável?

A Educação marcada pelo mal-estar e o desamparo pode ser um marco de transição, onde se passa da queixa à responsabilidade; da indiferença à acolhida; da motivação à mobilização, onde o maior entendimento é que não há um aluno padrão e nem um professor ideal. Pessoas e situações diferentes requerem olhares e intervenções diferentes.

Aquino (1996, p. 50) defende que a saída para a indisciplina está nos vínculos cotidianos entre professores e alunos. “Se o professor pautar os parâmetros relacionais no seu campo de conhecimento, ele certamente será capaz de (re) inventar a moralidade discente” (AQUINO, 1996, p. 51). O trabalho do conhecimento deve ser um trabalho que gere inquietação, desconcerto, desobediência. O professor deve, então, transformar essa turbulência em ciência, essa desordem em uma nova ordem. E aceitar que não há um único saber em um mundo que é marcado por transformações.

O trabalho da educação, portanto, não é só transmissão de informações, mas a (re) invenção do modo de adquiri-las. Para isso, o aluno precisa utilizar o pensamento lógico, o que pressupõe que o “barulho, a agitação, a movimentação passam a ser catalisadores do ato de conhecer, de tal sorte que a indisciplina pode se tornar, paradoxalmente, um movimento organizado, se estruturado em torno de determinadas ideias, conceitos, proposições formais” (AQUINO, 1996, p. 53).


O SILÊNCIO É SINAL DE DISCIPLINA?

Ser bom aluno é permanecer quieto, apático e tirar nota máxima nas provas? Fazer cálculos de cabeça, falar o que o professor quer escutar? Isso, aparentemente, é fazer a manutenção daquilo que a sociedade e a instituição escolar normalizaram como conceitos de um bom aluno.

Ainda pior do que o barulho, bagunça e conversa paralela é o silencio daqueles “indisciplinados” que não falam, mas em algum momento agem.

Escutar a (in) disciplina Escolar

A indisciplina dos alunos, na visão dos professores, passa pelo endereçamento pessoal, ou seja, eles tomam a agressão para si, como se fosse direcionada, conscientemente, para a pessoa do professor. Esse é o começo de um grande equívoco educacional, onde muitas vezes se inicia o desentendimento com aqueles alunos conhecidos como “indisciplinados”. A fala dos professores é de que estão recebendo, cada vez mais, nas escolas, alunos indisciplinados, que não estudam, não têm interesse e não participam.

Como conseguir superar o mal-estar que rodeia a educação se não conseguimos, antes, trabalhar o sentimento de mal-estar de cada um de nós?

Considerações finais

É importante pensar no mal-estar, no desamparo docente e na indisciplina escolar como meios que estimulam a abertura de um caminho para a reflexão e interlocução, onde o próprio termo “interlocução” remete a uma ideia de discurso inacabado, um movimento de ir e vir que nos convoca a restabelecer novos vínculos sociais e diferentes formas de superar o não saber, criando, assim, novos dispositivos de (re) ler o mal-estar educacional, buscando subsídios para compreender melhor a questão da indisciplina escolar, que nada mais é do que um sintoma desse mal-estar vivido na educação.

A maneira como essa temática do mal-estar educacional e suas consequências vem sendo tratada, em várias esferas, nos sugere uma possível “surdez” e “cegueira” diante da forma como a educação vem se apresentando, muitas vezes buscando culpados em vez de criar espaços para a fala e a escuta como prevenção desse mal-estar não intencional, e que pode haver aí um “grito de rebeldia” como pedido de “ajuda” por parte do aluno e do professor .

Há uma urgência na educação, é preciso que professores se arrisquem fazendo a passagem do desamparo para o amparo primordial para que o aluno-sujeito se arrisque a enxergar um sentido no processo ensino aprendizagem e se lance de um amparo inseguro e pouco confiável, para um amparo mais seguro e confiável.

O professor é quem poderá mediar essa passagem, esse salto no abismo da chmada “indisciplina escolar” - o medo escondido no desamparo absoluto.

Essa é a minha proposta e é o que instiga a minha pesquisa como aluna do Mestrado em Educação na Universidade do Tuiuti no Paraná.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000.

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FREUD, A. O mal-estar na civilização (1930 [1929]). Edição Standart Brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v.21.
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PINHEIRO, Nadja Nara B; VILHENA, Junia: “Uma casa com paredes de cristal: a clínica psicanalítica no ambulatório hospitalar”. 2003. 166f. Tese de Doutorado –Psicologia Clínica Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003. 166f. Tese de Doutorado –Psicologia Clínica Pontifícia Universidade

O Desamparo. Entrevista com Jurandir Freire Costa. in: Cadernos de Psicanálise do Circulo Psicanalítico do Rio de Janeiro, Ano 20, 1998,

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

WINNICOTT. Donald, W. (1975) O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975


WINNICOTT. Donald, W. (1988). Da pediatria à psicanálise (3ª ed.).Textos selecionados. Rio de Janeiro: Francisco Alves.







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