Quincas Borba Machado de Assis



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Quincas Borba

Machado de Assis

CAPÍTULO PRIMEIRO

RUBIÃO fitava a enseada, - eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os

polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria

que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em

outra cousa. Cortejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é

agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente

amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o

céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

"Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas", pensa ele. Semana Piedade tem

casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos

morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...

CAPÍTULO II

QUE ABISMO que há entre o espírito e o coração! O espírito do ex-professor, vexado

daquele pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa que ia passando; o

coração, porém, dei-xou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro,

que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Ele, coração. vai dizendo que, uma vez

que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma

filha... - Bonita canoa!-Antes assim!-Como obedece bem aos remos do homem!-O certo é que

eles estão no céu!

CAPÍTULO III

UM CRIADO trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar,

ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais

que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de

preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mefelistófeles e um

Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja,- primor de argentaria, execução

fina e acabada. O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que

Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos

seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu,

demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom

pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província, nem o pôde deixar na

cozinha, onde reinava um francês, foi degradado a outros serviços.

- Quincas Borba está muito impaciente? perguntou Rubião bebendo o último golo de

café, e lançando um último olhar à bandeja

-Me parece que sí.

- Lá vou soltá-lo.

Não foi; deixou-se ficar, algum tempo, a olhar para os móveis Vendo as pequenas

gravuras inglesas, que pendiam da parede por cima dos dous bronzes, Rubião pensou na bela

Sofia, mulher do Palha, deu alguns passos, e foi sentar-se no pouf, ao centro da sala, olhando

para longe...

"Foi ela que me recomendou aqueles dous quadrinhos, quando andávamos, os três, a

ver cousas para comprar. Estava tão bonita! Mas o que eu mais gosto dela são os ombros, que

vi no baile do coronel. Que ombros! Parecem de cera; tão lisos, tão brancos! Os braços

também; oh! os braços! Que bem feitos!"

Rubião suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos.

Sentia que não era inteiramente feliz; mas sentia também que não estava longe a felicidade

completa. Recompunha de cabeça uns modos, uns olhos, uns requebros sem explicação, a não

ser esta, que ela o amava, e que o amava muito. Não era velho ia fazer quarenta e um anos, e,

rigorosamente, parecia menos. Esta observação foi acompanhada de um gesto; passou a mão

pelo queixo barbeado todos os dias, cousa que não fazia dantes, por economia e

desnecessidade. Um simples professor! Usava suíças, (mais tarde deixou crescer a barba

toda),- tão macias, que dava gosto passar os dedos por elas. E recordava assim o primeiro

encontro, na estação de Vassouras, onde Sofia e o marido entraram no trem da estrada de

ferro, no mesmo carro em que ele descia de Minas; foi ali que achou aquele par de olhos

viçosos, que pareciam repetir a exortação do profeta. Todos vós que tendes sede, vinde às

águas. Não trazia idéias adequadas ao convite, é verdade; vinha com a herança na cabeça, o

testamento, o inventário, cousas que é preciso explicar primeiro, a fim de entender o presente

e o futuro. Deixemos Rubião na sala de Botafogo, batendo com as borlas do chambre nos

joelhos, e cuidando na bela Sofia. Vem comigo, leitor; vamos vê-lo, meses antes, à cabeceira

do Quincas Borba.

CAPÍTULO IV

ESTE QUINCAS BORBA, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas

de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro

inopinado, e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou,

enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida, mas, tão

acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco. Chamava-se Maria da Piedade. Um

irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá-los. Piedade resistiu, um

pleuris a levou.

Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens. Saberia Rubião que o

nosso Quincas Borba trazia aquele grãozinho de sandice, que um médico supôs achar-lhe?

Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãozinho não se

despegou do cérebro de Quincas Borba,- nem antes, nem depois da moléstia que lentamente o

comeu. Quincas Borba tivera ali alguns parentes, mortos já agora em 1867; o último foi o tio

que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o único amigo do filósofo. Regia

então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, metera

ombros a algumas empresas, que foram a pique.

Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis. Era real o desvelo de

Rubião, paciente, risonho, múltiplo, ouvindo as ordens do médico, dando os remédios às

horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa,

nem a leitura dos jornais, logo que chegava a mala da Corte ou a de Ouro Preto.

- Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba.

- Grande façanha! Como se você fosse mau!

A opinião ostensiva do médico era que a doença do Quincas Borba iria saindo

devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe

qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido;

mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela certeza?...

- Lá isso, não, atalhou Rubião- para ele, morrer é negócio fácil. Nunca leu um livro

que ele escreveu, há anos, não sei que negócio de filosofia. . .

- Não; mas filosofia é uma cousa, e morrer de verdade é outra; adeus.

CAPÍTULO V

RUBIÃO achou um rival no coração de Quincas Borba, - um cão, um bonito cão,

meio tamanho, pêlo cor de chumbo, malhado de preto. Quincas Borba levava-o para toda

parte, dormiam no mesmo quarto. De manhã, era o cão que acordava o senhor, trepando ao

leito, onde trocavam as primeiras saudações. Uma das extravagâncias do dono foi dar-lhe o

seu próprio nome; mas, explicava-o por dous motivos, um doutrinário, outro particular.

- Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em

toda a parte, existe também no cão, e este pode assim receber um nome de gente, seja cristão

ou muçulmano. . .

- Bem, mas por que não lhe deu antes o nome de Bernardo? disse Rubião com o

pensamento em um rival político da localidade.

- Esse agora é o motivo particular. Se eu morrer antes, como presumo, sobreviverei no

nome do meu bom cachorro. Ris-te, não?

Rubião fez um gesto negativo.

- Pois devias rir, meu querido. Porque a imortalidade é o meu lote ou o meu dote, ou

como melhor nome haja. Viverei perpetua-mente no meu grande livro. Os que, porém, não

souberem ler, charlarão Quincas Borba ao cachorro, e...

O cão, ouvindo o nome, correu à cama. Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas

Borba

- Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu único amigo!



- Único!

- Desculpa-me, tu também o és, bem sei, e agradeço-te muito; mas a um doente

perdoa-se tudo. Talvez esteja começando o meu delírio. Deixa ver o espelho.

Rubião deu-lhe o espelho. O doente contemplou por alguns segundos a cara magra, o

olhar febril, com que descobria os subúrbios da morte, para onde caminhava a passo lento,

mas seguro. Depois, com um sorriso pálido e irônico

- Tudo o que está cá fora corresponde ao que sinto cá dentro; vou morrer, meu caro

Rubião. . . Não gesticules, vou morrer. E que é morrer, para ficares assim espantado?

- Sei, sei que você tem umas filosofias... Mas falemos do jantar- que há de ser hoje?

Quincas Borba sentou-se na cama, deixando pender as pernas, cuja extraordinária

magreza se adivinhava por fora das calças.

- Que é? Que quer? acudiu Rubião.

- Nada, respondeu o enfermo sorrindo. Umas filosofias! Com que desdém me dizes

isso! Repete, anda, quero ouvir outra vez. Umas filosofias!

- Mas não é por desdém. . . Pois eu tenho capacidade para desdenhar de filosofias?

Digo só que você pode crer que a morte não vale nada, porque terá razões, princípios...

Quincas Borba procurou com os pés as chinelas; Rubião chegou-lhas, ele calçou-as e

pôs-se a andar para esticar as pernas. Afagou o cão e acendeu um cigarro. Rubião quis que se

agasalhasse, e trouxe-lhe um fraque, um colete, um chambre, um capote, à escolha. Quincas

Borba recusou-os com um gesto. Tinha outro ar agoraos olhos metidos para dentro viam

pensar o cérebro. Depois de muitos passos, parou, por alguns segundos, diante de Rubião.

CAPÍTULO VI

PARA ENTENDERES bem o que é a morte e a vida, basta contar-te como morreu

minha avó.

- Como foi?

- Senta-te.

Rubião obedeceu, dando ao rosto o maior interesse possível, enquanto Quincas Borba

continuava a andar.

- Foi no Rio de Janeiro, começou ele, defronte da Capela Imperial, que era então Real,

em dia de grande festa; minha avó saiu, atravessou o adro, para ir ter à cadeirinha, que a

espera no Largo do Paço. Gente como formiga. O povo queria ver entrar as grandes senhoras

nas suas ricas traquitanas. No momento em minha avó saía do adro para ir à cadeirinha, um

pouco distante, aconteceu espantar-se uma das bestas de uma sege; a besta disparou, a outra

imitou-a, confusão, tumulto, minha avó caiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por

cima. Foi levada em braços para uma botica da Rua Direita, veio um sangrador, mas era

tarde; tinha a cabeça rachada, uma perna e o ombro partidos, era toda sangue; expirou minutos

depois.

- Foi realmente uma desgraça, disse Rubião.



- Não.

- Não?


- Ouve o resto. Aqui está como se tinha passado o caso. O dono da sege estava no

adro, e tinha fome, muita fome, porque era tarde, e almoçara cedo e pouco. Dali pôde fazer

sinal ao cocheiro; este fustigou as mulas para ir buscar o patrão. A sege no meio do cami-nho

achou um obstáculo e derribou-o; esse obstáculo era minha avó. O primeiro ato dessa série de

atos foi um movimento de conservaçãoHumanitas tinha fome. Se em vez de minha avó, fosse

um rato ou um cão, é certo que minha avó não morreria, mas o fato era o mesmo; Humanitas

precisa comer. Se em vez de um rato ou de um cão, fosse um poeta, Byron ou Gonçalves

Dias, diferia o caso no sentido de dar matéria a muitos necrológios; mas o fundo subsistia. O

universo ainda não parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabeça de um

varão ilustre ou obscuro, mas Humanitas ( e isto importa, antes de tudo), Humanitas precisa

comer. Rubião escutava, com a alma nos olhos, sinceramente desejoso de entender; mas não

dava pela necessidade a que o amigo atribuía a morte da avó. Seguramente o dono da sege,

por muito tarde que chegasse a casa, não morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu

de verdade, e para sempre. Explicou-lhe, como pôde, essas dúvidas, e acabou perguntando-lhe

- E que Humanitas é esse?

- Humanitas é o princípio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isto,

meu caro Rubião; falemos de outra cousa.

- Diga sempre.

Quincas Borba, que não deixara de andar, parou alguns instantes.

- Queres ser meu discípulo?

- Quero.

- Bem, irás entendendo aos poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres

penetrado inteiramente, ah! nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não há vinho que

embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das cousas; e eu que o

formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está

olhando para mim? Não ele, é Humanitas...

- Mas que Humanitas é esse?

- Humanitas é o princípio. Há nas cousas todas certa substância recôndita e idêntica,

um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, - ou, para usar a

linguagem do grande Camões

Uma verdade que nas cousas anda

Que mora no visíbil e invisíbil.

Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim

lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo?

- Pouco, mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó...

- Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode

determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a

supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da

guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para

alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra

vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas

do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz nesse caso, é

a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os

despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os

demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não

chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe aprazível

ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que

virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

- Mas a opinião do exterminado?

- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste

ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica

na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.

- Bem; a opinião da bolha...

- Bolha não tem opinião. Aparentemente, há nada mais contristador que uma dessas

terríveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse suposto mal é um

benefício, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistência, como porque

dá lugar à observação, à descoberta da droga curativa. A higiene é filha de podridões

seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho.

Repito, as bolhas ficam na água. Vês este livro? É D. Quixote. Se eu destruir o meu exemplar,

não elimino a obra que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores.

Eterna e bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino.

CAPÍTULO VII

QUINCAS BORBA calou-se de exausto, e sentou-se ofegante. Rubião acudiu,

levando-lhe água e pedindo que se deitasse para descansar; mas o enfermo, após alguns

minutos, respondeu que não era nada. Perdera o costume de fazer discursos, é o que era. E,

afastando com o gesto a pessoa de Rubião, a fim de poder encará-la sem esforço, empreendeu

uma brilhante descrição do mundo e suas excelências. Misturou idéias próprias e alheias,

imagens de toda sorte, idílicas, épicas, a tal ponto que Rubião perguntava a si mesmo como é

que um homem, que ia morrer dali a dias, podia tratar tão galantemente aqueles negócios.

-Ande repousar um pouco.

Quincas Borba refletiu.

-Não, vou dar um passeio.

-Agora não; você está muito cansado.

- Qual! Passou.

Ergueu-se e pôs paternalmente as mãos sobre os ombros de Rubião.

-Você é meu amigo?

-Que pergunta!

-Diga


-Tanto ou mais do que este animal, respondeu Rubião. em um arroubo de ternura.

Quincas Borba apertou-lhe as mãos.

-Bem.

CAPÍTULO VIII



No DIA SEGUINTE, Quincas Borba acordou com a resolução de ir ao Rio de Janeiro,

voltaria no fim de um mês, tinha certos negócios... Rubião ficou espantado. E a moléstia, e o

médico? O doente respondeu que o médico era um charlatão, e que a moléstia precisava

espairecer, tal qual a saúde. Moléstia e saúde eram dous caroços do mesmo fruto, dous

estados de Humanitas.

- Vou a alguns negócios pessoais, concluiu o enfermo, e levo, além disso, um plano

tão sublime, que nem mesmo você poderá entendê-lo. Desculpe-me esta franqueza; mas eu

prefiro ser franco com você a sê-lo com qualquer outra pessoa.

Rubião fiou do tempo que este projeto lhe passasse, como tantos outros; mas enganouse.

Acrescia que, em verdade, o doente parecia estar melhorando; não ia à cama, saía à rua,

escrevia. No fim de uma semana, mandou chamar o tabelião.

-Tabelião? repetiu o amigo.

-Sim, quero registrar o meu testamento. Ou vamos lá os dous...

Foram os três, porque o cão não deixava partir o amo e senhor sem acompanhá-lo.

Quincas Borba registrou o testamento, com as formalidades do estilo, e tornou tranqüilo para

casa. Rubião sentia bater-lhe o coração violentamente.

-Está claro que eu não o deixo ir só para a Corte, disse ele ao amigo.

-Não, não é preciso. Demais Quincas Borba não vai, e não o confio a outra pessoa,

senão a você. Deixo a casa como está. Daqui a um mês estou de volta. Vou amanhã; não

quero que ele pressinta a minha saída. Cuide dele, Rubião.

-Cuido, sim.

- Jura?


- Por esta luz que me alumia. Então sou alguma criança?

-Dê-lhe leite às horas apropriadas, as comidas todas do costume, e os banhos; e

quando sair a passeio com ele, olhe que não vá fugir. Não, o melhor é que não saia... não

saia...


-Vá sossegado.

Quincas Borba chorava pelo outro Quincas Borba. Não quis vê-lo à saída. Chorava

deveras; lágrimas de loucura ou de afeição, quaisquer que fossem, ele as ia deixando pela boa

terra mineira, como o derradeiro suor de uma alma obscura, prestes a cair no abismo.

CAPÍTULO IX

HORAS DEPOIS, teve Rubião um pensamento horrível. Podiam crer que ele próprio

incitara o amigo à viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado,

se é que realmente estava incluso no testamento. Sentiu remorsos. Por que não empregou

todas as forças para contê-lo? Viu o cadáver de Quincas Borba, pálido hediondo, fitando nele

um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho se desse em viagem, abrir mão do

legado.

Pela sua parte o cão vivia farejando, ganindo, querendo fugir; não podia dormir quieto,



levantava-se muitas vezes, à noite, percorria a casa, e tornava ao seu canto. De manhã, Rubião

chamava-o à cama, e o cão acudia alegre; imaginava que era o próprio dono; via depois que

não era, mas aceitava as carícias, e fazia-lhe outras, como se Rubião tivesse de levar as suas

ao amigo, ou trazê-lo para ali. Demais bavia-se-lhe afeiçoado também e para ele era a ponte

que o ligava à existência anterior. Não comeu durante os primeiros dias. Suportando menos a

sede, Rubião pôde alcançar que bebesse leite; foi a única alimentação por algum tempo. Mais

tarde, passava as horas calado, triste, enrolado em si mesmo, ou então com o corpo estendido

e a cabeça entre as mãos. Quando o médico voltou, ficou espantado da temeridade do doente;

deviam tê-lo impedido de sair; a morte era certa.

-Certa?


-Mais tarde ou mais cedo. Levou o tal cachorro?

-Não, senhor, está comigo; pediu que cuidasse dele, e chorou, olhe que chorou que foi

um nunca acabar. Verdade é, disse ainda Rubião para defender o enfermo, verdade é que o

cachorro merece a estima do donoparece gente.

O médico tirou o largo chapéu de palha para concertar a fita; depois sorriu. Gente?

Com que então parecia gente? Rubião insistia, depois explicava; não era gente como a outra

gente, mas tinha cousas de sentimento, e até de juízo. Olhe, ia contar-lhe uma. . .

-Não, homem, não; logo, logo, vou a um doente de erisipela. . . Se vierem cartas dele,

e não forem reservadas, desejo vê-las, ouviu? E lembranças ao cachorro, concluiu saindo.

Algumas pessoas começaram a mofar do Rubião e da singular incumbência de guardar

um cão em vez de ser o cão que o guardasse a ele. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em

que havia de dar o professor! sentinela de cachorro! Rubião tinha medo da opinião pública.

Com efeito, parecia-lhe ridículo; fugia aos olhos estranhos, olhava com fastio para o animal,

dava-se ao diabo, arrenegava da vida. Não tivesse a esperança de um legado, pequeno que

fosse. Era impossível que lhe não deixasse uma lembrança.

CAPÍTULO X

SETE SEMANAS depois, chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de Janeiro,

toda do punho do Quincas Borba

Meu caro senhor e amigo.

Você há de ter estranhado o meu silêncio. Não lhe tenho escrito por certos motivos

particulares, etc. Voltarei breve; mas quero comunicar-lhe desde já um negócio reservado,

reservadíssimo.

Quem sou eu, Rubião? Sou Santo Agostinho. Sei que há de sorrir, porque você é um

ignaro, Rubião; a nossa intimidade permitia-me dizer palavra mais crua, mas faço-lhe esta

concessão, que é a última. Ignaro!

Ouça, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto anteontemouça e cale-se. Tudo

coincide nas nossas vidas. O santo e eu passamos uma parte do tempo nos deleites e na

heresia, porque eu considero heresia tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas; ambos

furtamos, ele, em pequeno, umas peras de Cartago, eu, já rapaz, um relógio do meu amigo

Brás Cubas. Nossas mães eram religiosas e castas. Enfim, ele pensava, como eu, que tudo que

existe é bom, e assim o demonstra no capítulo XVI, livro VII das Confissões, com a diferença

que, para ele, o mal é um desvio da vontade, ilusão própria de um século atrasado, concessão

ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e só a primeira afirmação é verdadeira; todas as

cousas são boas, omnia bona, e adeus

Adeus, ignaro. Não contes a ninguém o que te acabo de corfiar se não queres perder as

orelhas. Cala-te, guarda, e agradece a boa fortuna de ter por amigo um grande homem, como




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