Quimioterapia da Lepra J. Rzeppa



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Quimioterapia da Lepra

J. RZEPPA
Químico no Inst. Butantan

Dois agentes, empregados no tratamento químio-terápico da lepra, que têm causado muito entusiasmo e muitas esperanças são: o oleo de chaulmoogra e a diamino-difenilsulfona e seus de­rivados, que entre as inúmeras preparações, proclamadas como terapêuticos ativos contra a lepra, demonstraram em experimen­tações criteriosas e exatas um real efeito clínico.

Um químio-terápico em termos gerais, é um agente quí­mico qualquer, empregado no tratamento de uma doença infecciosa. Esta definição, entretanto, não corresponde aos princípios do con­ceito moderno da quimioterapia no sentido aplicado originalmente por Ehrlich. Podemos tratar por exemplo a febre tifoide com doses pequenas de clorêto de mercúrio mas não curamos a doença, porque não podemos administrar quantidades suficientes do agente, devido a sua toxidez. Portanto, quimioterapia pode ser definida como: prevenção e tratamento de doenças infecciosas com agentes químicos específicos, sem efeito tóxico acentuado. Sob condições ideais, o medicamento deve ser altamente bateriostático e bateri­cida e ser praticamente atóxico para o organismo. Considerando o mecanismo de ação de um agente quimioterápico, chegamos às seguintes conclusões: o agente deve possuir uma afinidade espe­cífica e seletiva sôbre o microorganismo, que chamamos de Para­sitotropismo, emquanto a afinidade do agente e seu efeito sôbre o sangue e os tecidos é chamado organotropismo. A relação entre os dois é o índice químio-terapêutico. O fim das pesquisas quimioterápicas portanto deve ser o de descobrir substâncias altamente parasitotrópicas e pouco organotrópicas, isto é, sintetisar substâncias com um alto índice terapêutico. Muitas vezes não é a mo­lecula inteira, que é responsável pela ação químio-terapica, mas sim um ou mais grupos carateristicos ligados na molecula em po­sição definida.

Reações químicas e físico-químicas são envolvidas no efeito químico-terapico, que a substância exerce tanto sôbre o agente patogênico bem como sobre as células do organismo. A destrui­ção seletiva dos micro-organismos nos tecidos obedece a um ou diversos dos seguintes processos:

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1.° Ação direta da substância por si ou de um produto de transformação da mesma sôbre o protoplasma do agente pato­gênico.



2.° Ação física ou físico-química, incluindo coagulação, pre­cipitação, ou modificação da carga elétrica dos coloides.

3.° Produção de anti-corpos, provenientes de antígenos pro­duzidos pelos micróbios sob o efeito do agente químio-terapico.

4.° Estimulação de processos de oxidação, produção de leu­cocitose, de fermentos proteolíticos e lipolíticos, que interferem no metabolismo dos micro-organismos.

De maneira igual podemos classificar o mecanismo do órgano­tropismo.

Emquanto podemos facilmente determinar a toxidez de um agente químio-terapico em animais pela simples expressão da dose tóxica por quilo de pêso, no caso da lepra é dificílimo de se verificar o valor terapêutico do medicamento. Até hoje não se conseguiu reproduzir a lepra humana em animais, sendo que o micróbio da lepra murina deve ser considerado saprofita. Expe­riências in vitro têm pouco valor, como veremos mais adiante, en­tretanto, temos que admitir, que não se pode precindir de experiên­cias "in vivo" e "in vitro", pelo menos como orientadoras nas pes­quisas químio-terapicas. Mesmo o empirismo tem dado à quí­mio-terapia muitos medicamentos de valor, como a emetina, a qui­nina e outros e até certo ponto ainda hoje o empirismo faz parte integrante do progresso químio-terapico.

Sôbre a relação que existe entre a constituição química e o efeito terapêutico pouco podemos dizer. Indubitavelmente, modi­ficações na constituição podem alterar profundamente a toxidez de uma substância, tanto para o agente patogênico como para o or­ganismo.

Os bacilos ácido-resistentes são caracterizados por uma cáp­sula protetora, que consiste de ácidos graxos e de fosfátides. Este fato originou a seguinte teoria de Bergmann 1) : somente químio-terâpicos lipófilos podem ter ação sôbre os bacilos da lepra e da tuberculose. Muitas substâncias químicas foram preparadas e exa­minadas sob êste ponto de vista. Foram introduzidos radicais li­pófilos, especialmente ácidos graxos, em determinados compostos químicos, afim de aumentar a afinidade dêstes, para os bacilos ácido-resistentes. Até os esteres dos próprios ácidos graxos fo­ram estudados, entretanto, com resultados pouco satisfatórios.

O oleo de chaulmoogra representa um dos químio-terapicos lipófilos que foi usado durante centenas de anos no tratamento da lepra. Como todos os óleos obtidos de Flacourtiáceas, contem,

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ácidos graxos muito interessantes sob todos pontos de vista. Os principais são ácidos graxos não saturados da seguinte constituição:



Como vemos, estes ácidos contem um anel ciclo-pentenico e uma cadeia de grupos metilénicos, característica para os ácidos graxos. São substâncias oticamente ativas, devido a presença de um átomo de carbono asimétrico. Não quero descrever aqui os inúmeros derivados, que foram preparados destas substâncias. Quero apenas mencionar alguns mais interessantes do ponto de vista terapêutico. Um deles é o ácido a, γ-dichaulmoogrilglicerino­fosfórico 2) , que, como vemos, contem, duas moléculas de ácido chaulmoogrigo ligado a um ácido β – glicerinofosfórico Essa substância é de ótima tolerância, é lipófila e contem um resto de ácido fosfórico, que talvez possue uma afinidade para os bacilos ácido-resistentes. A relação que existe entre a constituição química e a atividade batericida dessas substâncias não foi esclarecida, talvez possa ser atribuida à dupla ligação, pois certos ésteres do álcool chaulmoógrico com ácidos não saturados, como p. exemplo o ácido cinámico possuem, forte ação pelo menos na lepra murina. 3)

A atividade bateriostática in vitro desses derivados do ácido chaulmoogrico é bem acentuada. Em concentrações de........... 1:150.000 a 1:200.000 impedem o desenvolvimento de culturas de M. tuberculosis e de certas raças de lepra murina.

Sôbre o metabolismo dessas substâncias no organismo sabe­mos pouco. O fato interessante é, que poucas horas após a admi­nistração não se encontram mais ácidos graxos óticamente ativos nos tecidos. Provavelmente estes são saturados, o que provoca a perda da atividade ótica em consequencia da perda de asimetria na molécula. Por fim eles são hidrolizados e eliminados.

Logo após a descoberta do efeito químio-terapico da sulfani- la­mida por Domagk, 4) foram feitas tentativas para empregar sub- ­stâncias desse tipo no tratamento da lepra. Emquanto todos os derivados das sulfas, a sulfadiazina, sulfatiazol, sulfapiridina e outras não mostraram ação terapêutica sobre os bacilos ácido – resis  

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tentes 5) a diamino-difenilsulfona foi experimentada em 1942, em animais de laboratório, com resultados muito animadores 6). A diamino-difenilsulfona representa a substância mãe de todos os derivados como Promin, Diazone, Formilone e outros, que são con­siderados hoje os melhores agentes químio-terapicos no tratamento da lepra. A diamino-difenilsulfona tem dois inconvenientes: é pra­ticamente insoluvel e é consideravelmente tóxica. Para evitar estes inconvenientes foram preparados os derivados acima citados: o Promin, que é um didextrose sulfonato de sódio da diamino-dife­nilsulfona, e que, pela introdução de grupos hidroxilicos e sulfóni­cos se torna solúvel. A Diazone, que é menos tóxica do que o Promin foi preparada, tomando o Neosalvarsan como exemplo, li­gando o formaldehido sulfoxilato de sódio na diamino-difenilsul­fona. A Diazone ainda tem a vantagem de poder ser administrada por via oral, o que facilita muito seu emprego clínico.

Uma substância, que varia um pouco na constituição química das acima citadas, é o Promizole, que tem sido preparado e ex 

perimentado recentemente nos E.U.A. 7). E' um derivado do thia­- zol e já tem dado ótimos resultados no tratamento da tuberculose da pele. Foi experimentada em um número reduzido de pacientes

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no leprosário de Lousiana e parece agir mais rapidamente do que o Promin e a Diazone. Como a Diazone também pode ser ad­ministrada via bucal.

A concentração dessas substâncias no sangue sofre uma que­da rápida após a administração. Depois de 6 a 8 horas se encon­tram somente vestígios o que naturalmente não quer dizer, que sejam eliminadas rapidamente ou se tornem inativas. Não faltaram tentativas de introduzir grupos lipófilos na diamino-difenilsulfona o que provavelmente prolongaria o efeito e tornaria a absorção mais lenta. Também foram preparados derivados piridinicos e diazí­nicos análogos às sulfas, os quais não foram experimentados na terapia humana.

A ação dos derivados da diamino-difenilsulfona é lenta e exige um tratamento prolongado. De outro lado não devemos olvidar, que existem muitas razões, que explicam esta ação lenta. As le­sões leprosas são localizadas na pele e no sistema nervoso perifé­rico, onde o acesso do sangue e consequentemente o do medica­mento é inferior ao dos orgãos vasculares. Em talvez nenhuma outra infeção o agente patogênico se encontra em tal abundância nas lesões como na lepra; e, finalmente, o M. leprae é muito re- sistente e é protegido por uma camada cerosa, que dificulta a ação ala substância bateriostática.

Apesar dos resultados animadores obtidos até hoje, as diaminodifenil-sulfonas não devem ser consideradas químio-terápicos específicos contra a lepra. Entretanto é evidente, que possuem um efeito inibidor sôbre o desenvolvimento da doença e em certo nú­mero de casos provocam regressão das lesões. Sem dúvida alguma foi alcançado um grande progresso na quimioterapia da lepra, que deve servir como base e ponto de partida para o preparo de sub­stâncias mais ativas e menos tóxicas; verdadeiros quimioterápicos específicos.

Resumo da conferência realizada em 12 de Abril de 1947 na seção conjunta das Sociedades de Leprologia e Dermatologia de São Paulo.



BIBLIOGRAFIA

  1. Bergmann, E. e L. Haskelberg; J. chem. Soc. 1 (1939).

  2. Wagner-Jauregg, Th. e H. Arnold; Ber. 70B, 1459 (1937.

  3. Burschkies, K.; Ber. 71B, 1855 (1938).

  4. Domagk, G.: Deut. med. Wochschr. 61, 250 (1935).

  5. Faget, G. H. e F. A. Johansen; Pub. Health Rep. 57, 1892 (1942.

  6. Feldman, W. H., H. C. Hinshaw e H. E. Moses; Am. Rev. Tuberc. 45, 303 (1942).

  7. Faget, G. H., R. C. Pogge e F. A. Johansen: Pub. Health Rep. 61, 957 (1946).






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