Psicologia IV



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PSICOLOGIA IV

Conferência dada por Silo em Parque La Reja, Buenos Aires, em meados de Maio de 2006

1. Impulsos e desdobramento de impulsos.
Afirmou-se em Psicologia III 1 que o trabalho de um impulso em qualquer circuito termina produzindo registro interno ao sujeito. Um dos circuitos compreende a percepção, a representação, a nova tomada da representação e a sensação interna em geral. Outro circuito nos mostra o percurso de impulsos que terminam nas ações lançadas para o mundo externo, das quais o sujeito tem também sensação interna. Esta tomada de realimentação é a que permite aprender das próprias ações por aperfeiçoamento da ação anterior ou por descarte do erro cometido. Tudo isto ficou claro com o exemplo de aprendizagem no uso de um teclado 2.
Por outro lado, todo impulso que termina no intracorpo ou no exterior do corpo, produz registros de distintas localizações no espaço de representação, podendo assinalar-se que os impulsos do intracorpo se localizam no limite tátil – cenestésico para "dentro" e os impulsos que terminam em ações no mundo externo se registram no limite tátil- cinestésico para "fora" do corpo. Qualquer que seja a direção do impulso que necessariamente conta com um correlato de informação ou sensação interna, sempre modificará o estado geral do circuito. Com respeito a esta aptidão transformadora dos impulsos, podemos considerar dois tipos: 1.- aqueles capazes de liberar tensões ou provocar descarga de energia psicofísica, aos que chamaremos "catárticos" e 2.- os que permitem transladar cargas internas, integrar conteúdos e ampliar as possibilidades de desenvolvimento da energia psicofísica, aos que chamaremos "transferenciais". Portanto, todo impulso, independentemente de sua direção, terá uma aptidão predominantemente catártica ou transferencial. Além disso, em todo impulso existirá uma cota de gratificação ou mal-estar, de agrado ou desagrado, que permitirá ao sujeito selecionar seus atos de consciência ou suas ações corporais.
Os impulsos se "desdobram" através de realimentações diversas como as que permitem cotejar registros de percepções com registros de representações e às quais necessariamente acompanham "retenções" ou memorizações das mesmas. Existem outros desdobramentos que "enfocam" mais ou menos voluntariamente, as percepções e as representações. Estes desdobramentos foram designados como "apercepções", quer dizer, como seleção e direção da consciência para as fontes de percepção e como "evocações", quer dizer, como seleção e direção da consciência para as fontes de retenção. A voluntária e involuntária direção e seleção da consciência para suas distintas fontes constitui a função que genericamente foi chamada "atenção".
2. A consciência, a atenção e o "eu".

Chamamos "consciência" ao aparelho que coordena e estrutura as sensações, as imagens e as lembranças do psiquismo humano. Por outro lado, não se pode localizar a consciência em um lugar preciso do sistema nervoso central, ou em algum ponto e profundidade cortical ou subcortical. Tampouco é o caso de confundir pontos de trabalho especializado, tais os casos dos “centros”, com estruturas de funcionamento que se verificam na totalidade do sistema nervoso.


Para uma maior clareza expositiva, designamos como "fenômenos conscientes" a todos os que ocorrem nos diferentes níveis e estados de vigília, semi-sono e sono, incluídos os subliminares (que acontecem no limite do registro do percebido, do representado e do recordado). Certamente, ao falar do "subliminar", não nos estamos referindo a um suposto "subconsciente" ou "inconsciente".
Freqüentemente se confunde a consciência com o "eu" quando na realidade este não tem uma base corporal como ocorre com aquela a qual se pode localizar como "aparelho" registrador e coordenador do psiquismo humano. Em outro momento dissemos: "... Esse registro da própria identidade da consciência está dado pelos dados de sentidos e os dados de memória mais uma peculiar configuração que outorga à consciência a ilusão de permanência não obstante as contínuas mudanças que nela se verificam. Essa configuração ilusória de identidade e permanência é o eu"3. Nos estados alterados de consciência se comprova freqüentemente que esta se mantém em vigília enquanto que determinados impulsos que deveriam chegar a seu registro têm sido bloqueados, sofrendo a noção do eu uma alteração ou estranhamento; perde-se reversibilidade, sentido crítico e, às vezes, as imagens descontextualizadas tomam "realidade" externa alucinatória. Nessa situação, o eu é registrado situando-se em zonas limites externas do espaço de representação e a certa "distância" do eu habitual. O sujeito pode experimentar a si mesmo registrando e sentindo fenômenos que provêm do mundo externo quando em rigor, os fenômenos mencionados não são de percepção, mas sim de representação. A estes fenômenos nos quais a representação substitui a percepção e, portanto, situam-se em um "espaço externo" para cujo limite se desloca o eu, costumamos chamá-los "projeções".

3. Espacialidade e temporalidade dos fenômenos de consciência4.
Em vigília ativa, o eu se situa nas zonas mais externas do espaço de representação, “perdido” nos limites do tato externo, mas se faço apercepção de algo que vejo, o registro do eu sofre um deslocamento. Nesse momento posso dizer a mim mesmo: “vejo desde mim o objeto externo e me registro para dentro de meu corpo”. Ainda que estou conectado com o mundo externo por meio dos sentidos, existe uma divisão de espaços e é no interno onde eu me localizo. Se posteriormente apercebo minha respiração, poderei dizer a mim mesmo: “experimento desde mim o movimento dos pulmões, estou dentro de meu corpo, mas não dentro de meus pulmões”. Está claro que experimento uma distância entre o eu e os pulmões, não somente porque ao eu o registro na cabeça que está afastada da caixa torácica, mas também porque em todos os casos de percepção interna (como ocorre com uma dor de dente ou uma dor de cabeça), os fenômenos estarão sempre a “distância” de mim como observador. Mas aqui não nos interessa esta “distancia” entre o observador e o observado, a não ser a “distância” do eu para o mundo externo e do eu para o mundo interno. Por certo que podemos destacar matizes muito sutis na variabilidade das posições “espaciais” do eu, mas aqui estamos ressaltando as localizações diametrais do eu em cada caso mencionado. E, nesta descrição, podemos dizer que o eu pode se localizar na interioridade do espaço de representação mas nos limites táteis cinestésicos que dão noção do mundo externo e opostamente, nos limites táteis cenestésicos que dão noção do mundo interno5. Em todo caso, podemos usar a figura de uma película bicôncava (como limite entre mundos), que se dilata ou contrai e com isso focaliza ou difunde o registro dos objetos externos ou internos. A atenção se dirige, mais ou menos intencionadamente, para os sentidos externos ou internos na vigília e perde o manejo de sua direção no semi-sono, no sono e ainda na vigília dos estados alterados, já que em todos esses níveis e estados a reversibilidade é afetada por fenômenos e registros que se impõem à consciência. É muito evidente que na constituição do eu intervém não somente a memória, a percepção e a representação, mas também a posição da atenção no espaço de representação. Não se está falando, por conseguinte, de um eu substancial, mas sim de um epifenômeno da atividade da consciência.
Este "eu-atenção" parece cumprir com a função de coordenar as atividades da consciência com o próprio corpo e com o mundo em geral. Os registros do transcorrer e da posição dos fenômenos mentais se imbricam nesta coordenação a qual se torna independente da própria coordenação. E assim, a metáfora do "eu" termina cobrando identidade e “substancialidade”, tornando-se independente da estrutura de funções da consciência.
Por outro lado, os reiterados registros e reconhecimentos da ação da atenção vão se configurando no ser humano muito cedo, à medida que a criança dispõe de direções mais ou menos voluntárias para o mundo externo e o intracorpo. Gradualmente, com o manejo do corpo e de certas funções internas, vai se robustecendo a presença pontual e também uma co-presença em que o registro do próprio eu se constitui em concentrador e transfundo de todas as atividades mentais. Estamos em presença dessa grande ilusão da consciência a que chamamos "Eu".
Devemos considerar agora a localização do eu nos distintos níveis de consciência. Em vigília o eu ocupa uma posição central dada pela disponibilidade da atenção e da reversibilidade. Isto varia consideravelmente no semi-sono, quando os impulsos que provêm dos sentidos externos tendem a debilitar-se ou flutuar entre o mundo externo e uma cenestesia generalizada. Durante o sonho com imagens, o eu se internaliza. E, por último, durante o sono vegetativo quando o registro do eu se esfumaça6. As transformações dos impulsos nos devaneios vigílicos aparecem nas seqüências de associações livres com numerosas traduções alegóricas, simbólicas e sígnicas, que conformam a especial linguagem de imagens da cenestesia. Por certo, estamos nos referindo às seqüências imaginárias sem controle, próprias das vias associativas e não às construções imaginárias que seguem um desenvolvimento mais ou menos premeditado 7, ou às traduções dos impulsos canalizados nas vias abstrativas que também se manifestam como imagens simbólicas e sígnicas. Os impulsos, transformando-se em distintos níveis, também fazem variar o registro do eu na profundidade ou superficialidade do espaço de representação. Usando uma figura, podemos assinalar que os fenômenos psíquicos se registram sempre entre coordenadas “espaciais” x e y, mas também com respeito a z, sendo “z” a profundidade do registro no espaço de representação. Certamente, o registro de qualquer fenômeno se experimenta na tridimensionalidade do espaço de representação (quanto a altura vertical, lateralidade horizontal e profundidade dos impulsos, conforme maior externalidade ou maior interioridade), coisa que podemos comprovar ao aperceber ou representar impulsos provenientes do mundo externo, do intracorpo ou da memória.
Sem nos complicar com descrições próprias da Fenomenologia, devemos considerar agora alguns tópicos estudados exaustivamente por ela8. Assim, dizemos que em vigília os campos de presença e co-presença permitem localizar os fenômenos em sucessão temporária, estabelecendo-se a relação de fatos desde o momento atual no qual estou localizado, com os momentos anteriores dos quais provêm o fluir de minha consciência e com os posteriores para os quais se lança esse fluir. Em todo caso, o instante presente é a barreira da temporalidade e embora não posso dar ciência dele porque ao pensá-lo só conto com a retenção do ocorrido na dinâmica de minha consciência, sua aparente "fixação" me permite ir para o "atrás" dos fenômenos que já não são, ou para o "adiante" dos fenômenos que ainda não são. É no horizonte da temporalidade da consciência onde se inscreve todo acontecimento. E no horizonte restringido que fixa a presença de atos e objetos, sempre estará atuando um campo de co-presença no qual se conectarão todos eles.
A diferença do que ocorre no transcorrer do mundo físico, os fatos de consciência não respeitam a sucessão cronológica, mas sim retornam, perduram, atualizam-se, modificam-se e futuram-se, alterando ao instante presente. O “instante presente” se estrutura pelo entrecruzamento da retenção e da protensão. Exemplificando: um acontecimento doloroso imaginado a futuro, pode atuar sobre o presente do sujeito desviando a tendência que levava seu corpo em direção a um objeto previamente querido. Assim, as leis que se cumprem na espaço-temporalidade do mundo físico sofrem um desvio considerável nos objetos e nos atos mentais. Esta independência do psiquismo, por “separação” das leis físicas, faz recordar a idéia de “clinamen” que apresentou Epicuro para introduzir a liberdade em um mundo dominado pelo mecanicismo9.
Dando por compreendida a estruturalidade da consciência na relação entre os “aparelhos” e as diferentes vias pelas quais circula o impulso, podemos considerar a este em suas distintas transformações como o “átomo” básico da atividade psíquica. Entretanto, tal átomo não se apresenta isolado, mas sim em “trens de impulsos”, em configurações que dão lugar à percepção, à lembrança e à representação. Deste modo, a inserção do psíquico na espacialidade externa começa pelos impulsos que, convertidos em protensões de imagens cinestésicas, deslocam-se para o exterior da tridimensionalidade do espaço de representação movendo ao corpo. É claro que as imagens cenestésicas e as correspondentes aos sentidos externos atuam de modo auxiliar (como "sinais compostos"), em todo fenômeno no qual vai se selecionando e regulando a direção e intensidade motriz. Definitivamente, nesse fluir de impulsos relativos ao tempo e ao espaço de consciência, ocorrem os primeiros eventos que terminarão modificando ao mundo.
Não é ociosa aqui uma reflexão geral sobre os fatos nos quais o psiquismo atua desde e para sua exterioridade. Para começar, observamos que os objetos materiais se apresentam como espacialidade à captação “tátil” dos sentidos externos que diferenciam o corpúsculo, a onda, a molécula, a pressão, a térmica, etc. Para terminar, dizemos que estas “impressões”, ou impulsos externos ao psiquismo, colocam em marcha um sistema de interpretação e resposta que não pode funcionar a não ser em um espaço interno.
Estamos afirmando do modo mais amplo que por variação de impulsos entre “espaços”, o psiquismo é penetrado e penetra ao mundo. Não estamos falando de circuitos fechados entre estímulos e respostas, mas sim de um sistema aberto e crescente que capta e atua por acumulação e protensão temporal. Por outro lado, esta “abertura” entre espaços não ocorre por franquear as barreiras de uma mônada10, mas sim porque a consciência, já em sua origem, constitui-se desde, em e para o mundo.
4. Estruturas de consciência.
Os diferentes modos de estar o ser humano no mundo11, as diferentes posições de seu experimentar e fazer, respondem a estruturações completas de consciência. Assim: a "consciência desventurada", a "consciência angustiada", a “consciência emocionada", a "consciência enojada", a "consciência nauseada", a "consciência inspirada", são casos relevantes que têm sido descritos convenientemente12. É aqui pertinente anotar que tais descrições se podem aplicar ao pessoal, ao grupal e ao social. Por exemplo, para descrever uma estrutura de consciência em pânico, deve-se partir de uma situação coletiva, como se reconhece nas origens (legendárias e históricas) da palavra "pânico" que designa um especial estado de consciência. Com o passar do tempo, o vocábulo “pânico” se usou cada vez mais freqüentemente para explicar uma alteração de consciência individual13.
Pois bem, os casos anteriormente citados podem ser entendidos individualmente ou em um conjunto (em atenção a intersubjetividade constitutiva da consciência). Sempre que ocorrerem variações nessas estruturações globais, ocorrerão também variações nos fenômenos concorrentes, tal é o caso do eu. Assim, em plena vigília, mas em estados de consciência diferentes, registramos ao eu localizado em distintas profundidades do espaço de representação.
Para compreender o anterior, devemos apelar às diferenças entre níveis e estados de consciência. Os níveis clássicos de vigília, semi-sono, sono profundo paradoxal e sono profundo vegetativo, não oferecem dificuldades de compreensão. Mas em cada um desses níveis temos a possibilidade de reconhecer posições variáveis dos fenômenos psíquicos. Colocando exemplos extremos: dizemos que quando o eu mantém contato sensorial com o mundo externo, mas se encontra perdido em suas representações ou evocações, ou se tem em conta a si mesmo sem interesses relevantes sobre sua ação no mundo, estamos em presença de uma consciência vigílica em estado de ensimesmamento. O corpo atua externamente em uma espécie de “irrealidade” que, aprofundando-se, pode chegar à desconexão e à imobilidade. Trata-se de um “deslocamento” do eu para uma presença constante dos registros de evocação, representação, ou percepção tátil cenestésica e portanto, a distância se “alonga” entre o eu e o objeto externo. No caso oposto, o eu perdido no mundo externo, desloca-se para os registros táteis cinestésicos sem crítica nem reversibilidade sobre os atos que realiza. Estamos diante de um caso de consciência vigílica em estado de alteração como pode ocorrer na chamada “emoção violenta”. Neste caso, a importância que cobra o objeto externo é decisiva, encurtando-se a distância entre o eu e o objeto percebido.

A. Estrutura, estados e casos não habituais.
Chamamos “não habituais” aos comportamentos que mostram anormalidades a respeito de parâmetros do indivíduo ou do grupo que se esteja considerando. É claro que se a população de um país ou um grupo humano enlouquecem, não deixamos de considerar a esses casos dentro dos comportamentos “não habituais” pelo fato de contar com numerosos representantes. Em todo caso, esse conjunto humano deve ser comparado com situações estáveis em que viveu e nas quais a reversibilidade, o sentido crítico e o controle de seus atos, têm características previsíveis. Por outro lado, há casos “não habituais” que são fugazes e outros que parecem enraizar-se ou ainda desdobrar-se à medida que o tempo passa. Não é de nosso interesse tipificar essas condutas sociais do ponto de vista do Direito, da Economia, ou da Psiquiatria. Talvez encontraríamos mais motivos de reflexão sobre estes casos na Antropologia e na História...
Se nosso interesse pelos comportamentos “não habituais” nos leva ao campo do pessoal, ou no máximo, do interpessoal imediato, seguirão sendo válidos os critérios de reversibilidade, sentido crítico e controle dos próprios atos em relação a essa história pessoal ou interpessoal. Aqui também é aplicável o comentado anteriormente com respeito aos casos “não habituais” fugazes e os que parecem enraizar-se ou ainda desdobrar-se em sua anormalidade à medida que o tempo passa.
Levemos pois, nosso estudo sobre os comportamentos “não habituais” fora do terreno da patologia para nos concentrar, dentro de nossa Psicologia, em dois grandes grupos de estados e casos aos que chamamos o grupo da “consciência perturbada” e o grupo da “consciência inspirada”
B. A “consciência perturbada”.
Existem posições diametralmente opostas do eu entre estados alterados que vão da atividade cotidiana à emoção violenta e estados ensimesmados que vão da calma reflexiva até a desconexão com o mundo externo. Há, entretanto, outros estados alterados nos quais as representações se exteriorizam projetivamente, de tal modo que realimentam a consciência como “percepções” provenientes do mundo externo e outros, de ensimesmamento, nos quais a percepção do mundo externo se internaliza introjetivamente.
Temos escutado e lido histórias e informes seriamente controlados, sobre as alucinações que padecem aqueles que se encontram em situações comprometidas nas altas montanhas, nas solidões polares, nos desertos e nos mares. O estado físico de fadiga, anoxia e sede; o estado psíquico de abandono na monotonia do silêncio e a solidão; as condições ambientais térmicas extremas, são elementos que chegaram a conformar casos de alterações alucinatórias e muito mais freqüentemente, casos de alterações ilusórias pontuais.
Por outro lado, no ensimesmamento introjetivo, a sensação externa chega à consciência, mas a representação correspondente trabalha desconectada do contexto geral perceptivo realimentando a consciência que interpreta e registra o fenômeno como interioridade “significativa”, como representação que parece “dirigir-se” à interioridade do sujeito de modo direto. Em um exemplo: as luzes coloridas dos semáforos de uma grande cidade, começam de repente, aos olhos de um angustiado pedestre, a “enviar” misteriosos códigos e chaves. O sujeito, a partir desse momento, considera-se como a única pessoa capaz de “receber” e compreender o significado dessas mensagens.
Os estados alterados projetados e os estados ensimesmados introjetados correspondem a transitórias ou permanentes perturbações da consciência vigílica que mencionamos aqui como casos de posicionamentos diametralmente opostos na localização do eu. Aliás, devemos mencionar também os estados de alteração e ensimesmamento no nível de sono com imagens e no semi-sono.
Em Psicologia III passamos revista a numerosos casos de perturbações transitórias de consciência14. Mencionou-se a situação de alguém que projeta suas representações internas e fica fortemente sugestionado por elas, de modo parecido ao que ocorre em pleno sono quando se padece a sugestão das imagens oníricas. Trata-se de alucinações que também ocorrem por estados febris intensos; por ação química (gases, drogas e álcool); por ação mecânica (giros, respirações forçadas, opressão de artérias); por supressão de sentidos externos (câmara de silêncio) e por supressão de sentidos internos (desgravitação em astronautas).
Devemos considerar também as perturbações acidentais cotidianas. Estas se manifestam nas mudanças súbitas de humor, tais como os acessos de cólera e as explosões de entusiasmo que em maior ou menor medida, permitem-nos experimentar o deslocamento do eu para a periferia enquanto cai a reversibilidade e o estado se faz mais alterado. Observamos o contrário frente a um perigo súbito, diante do qual o sujeito se contrai ou foge tratando de colocar distância entre ele e o objeto ameaçador. Em todo caso, o deslocamento do eu é para a interioridade. Também podemos comprovar, na mesma direção, certas condutas infantis curiosas. Com efeito, as crianças costumam utilizar brinquedos monstruosos com os quais “freiam” ou “combatem” a outros monstros que estão à espreita, ou se aproximam na noite... E, quando essa tecnologia não dá resultado, sempre fica o recurso dos lençóis que ocultam o corpo diante das atrozes ameaças. É claro, nestes casos, que o eu se ensimesma e introjeta.
C. A “consciência inspirada”.
A consciência inspirada é uma estrutura global, capaz de obter intuições imediatas da realidade. Por outra parte, é apta para organizar conjuntos de experiências e para priorizar expressões que costumam se transmitir através da Filosofia, da Ciência, da Arte e da Mística.
Seguindo a ordem de nosso desenvolvimento, podemos perguntar e responder um tanto escolarmente: É a consciência inspirada um estado de ensimesmamento ou de alteração? É a consciência inspirada um estado perturbado, uma ruptura da normalidade, uma extrema introjeção, ou uma extrema projeção? Sem dúvida que a consciência inspirada é mais que um estado, é uma estrutura global que passa por diferentes estados e que pode se manifestar em distintos níveis. Além disso, a consciência inspirada perturba o funcionamento da consciência habitual e rompe a mecânica dos níveis. Por último, é mais que uma extrema introjeção ou uma extrema projeção já que alternativamente se serve delas, em atenção a seu propósito. Este último é evidente quando a consciência inspirada responde a uma intenção presente ou, em alguns casos, quando responde a uma intenção não presente, mas que atua co-presentemente.
Na Filosofia não são de importância os sonhos inspiradores, nem as inspirações súbitas, mas sim a intuição direta que aplicam alguns pensadores para apreender as realidades imediatas do pensamento sem a intermediação do pensar dedutivo ou discursivo. Não se trata das correntes "intuicionistas" em Lógica e em Matemáticas, mas sim de pensadores que privilegiam a intuição direta como no caso de Platão com as Idéias, de Descartes com o pensar claro e distinto, descartando o engano dos sentidos e de Husserl com as descrições das nóesis, "suspendendo o julgamento” (epojé)15.
Na história da Ciência resgatam-se exemplos de inspirações súbitas que permitiram avanços importantes. O caso mais conhecido, embora duvidoso, é o da famosa “queda da maçã de Newton”16. Se assim tivesse ocorrido, deveríamos reconhecer que a súbita inspiração foi motivada por uma lenta, mas intensa busca orientada para o sistema cósmico e a gravidade dos corpos. A modo de exemplo, podemos ter em conta outro caso como o ocorrido ao químico Kekulé17. Este sonhou uma noite com várias serpentes entrelaçadas que lhe serviram de inspiração para desenvolver as notações da química orgânica. Sem dúvida que sua preocupação constante por formular os enlaces entre substâncias seguiu atuando ainda no nível de sono paradoxal, para tomar a via da representação alegórica.
Na Arte há muitos exemplos de sonhos inspiradores. Tal o caso de Mary Shelley18. Esta havia declarado diante de seus amigos, que sentia essa “...vazia incapacidade de invenção que é a maior infelicidade do autor”, mas essa noite viu em seus sonhos ao horrendo ser que motivou sua novela de “Frankenstein ou o Prometeo moderno”. Outro tanto ocorreu com o sonho do R. L. Stevenson 19 que colocou em marcha seu relato fantástico “O estranho caso do doutor Jekyll e Mr. Hyde”. Por certo que as inspirações vigílicas de escritores e poetas são as mais abundantemente conhecidas do campo das artes. Entretanto, por outros meios chegamos a conhecer inspirações de pintores como Kandinsky20 que em "O espiritual na arte", descreve a necessidade interior que se expressa como inspiração na obra artística. Artistas plásticos, literatos, músicos, dançarinos e atores, buscaram a inspiração tratando de colocar-se em ambientes físicos e mentais não habituais. Os diferentes estilos artísticos, que respondem às condições de época, não são simplesmente modas ou modos de gerar, captar e interpretar a obra artística, mas sim maneiras de "dispor-se" para receber e dar impactos sensoriais. Esta "disposição" é a que modula a sensibilidade individual ou coletiva e é, portanto, o pré-dialogal21 que permite estabelecer a comunicação estética.
Na Mística encontramos vastos campos de inspiração. Devemos assinalar que quando falamos de "mística" em geral, estamos considerando fenômenos psíquicos de "experiência do sagrado" em suas diversas profundidades e expressões. Existe uma copiosa literatura que dá conta dos sonhos22, as “visões” do semi-sono 23 e as intuições vigílicas 24 dos personagens referenciais de religiões, seitas e grupos místicos. Abundam, além disso, os estados anormais e os casos extraordinários de experiências do sagrado que podemos tipificar como Êxtase ou seja, situações mentais em que o sujeito fica absorto, deslumbrado dentro de si e suspenso; como Arrebatamento, pela agitação emotiva e motriz incontrolável, em que o sujeito se sente transportado, levado fora de si a outras paisagens mentais, a outros tempos e espaços; por último, como "Reconhecimento" em que o sujeito acredita compreender tudo em um instante. Neste ponto estamos considerando à consciência inspirada em sua experiência do sagrado que varia em seu modo de estar frente ao fenômeno extraordinário, embora que por extensão se atribuíram também esses funcionamentos mentais aos raptos do poeta ou do músico, casos em que "o sagrado" pode não estar presente.
Temos mencionado estruturas de consciência às quais chamamos "consciência inspirada" e as mostramos em grandes áreas conhecidas como a Filosofia, a Ciência, a Arte e a Mística. Mas na vida cotidiana, a consciência inspirada atua com freqüência nas intuições ou nas inspirações da vigília, do semi-sono e do sono paradoxal. Exemplos cotidianos de inspiração são os do "palpite", do amor, da compreensão súbita de situações complexas e de resolução instantânea de problemas que perturbaram durante muito tempo ao sujeito. Estes casos não garantem o acerto, a verdade, ou a coincidência do fenômeno a respeito de seu objeto, mas os registros de "certeza" que os acompanham, são de grande importância.

d. Fenômenos acidentais e fenômenos desejados.
A consciência pode estruturar-se de distintas formas variando por ação de estímulos pontuais (internos e externos), ou por situações complexas que trabalham de modo não querido, de modo acidental. A consciência é "tomada"25 em uma situação em que a reversibilidade e a autocrítica praticamente ficam anuladas. No caso que nos ocupa, a "inspiração" irrompe em mecanismos e níveis, atuando às vezes, de um modo menos evidente como "transfundo" de consciência. Por outro lado, também a angústia, a náusea, o asco e outras configurações podem manifestar-se subitamente ou manter-se como transfundo mental mais ou menos prolongado. Exemplificando: quando acidentalmente, levanto uma pedra e nela descubro o bulir de minúsculos insetos que podem grudar na minha mão, que podem me invadir, experimento repulsão em relação a essa vida disforme que me ataca. Também registro uma surda aversão quando percebo algo pegajoso, úmido e morno que avança em minha direção. Mas a reação imediata vai mais além do reflexo motriz que responde ao perigoso, já que me compromete visceralmente provocando um rechaço que pode terminar no reflexo de asco, na náusea, na salivação excessiva de minha boca e no extraordinário registro da distância que se “encurtou" entre eu e o objeto, ou entre eu e a situação asquerosa. Esse encurtamento do espaço na representação, coloca o objeto em um tipo de existência que lhe permite "me tocar" e "introduzir-se" em mim, suscitando a náusea como rito de expulsão desde meu intracorpo. É tão pouco real a "aproximação" mencionada, como o reflexo de náusea que lhe corresponde. Por isso, a relação entre o objeto asqueroso e a resposta da náusea adquirem características próprias fora dos objetos reais em jogo. Convertem-se em um ritual no qual objeto e ato formam uma estrutura particular, a estrutura do asco. Também ocorre essa configuração acidental de consciência diante de um objeto moral ou esteticamente repugnante, como é o caso de uma novela infestada de engenhosidade ardilosa de jogos de palavras, de sentimentalismo barato, enjoativa e carregada de vitalidade difusa. Todo isso termina provocando a defesa visceral que evita uma "invasão" profunda de meu corpo. Estas estruturas de consciência comprometem minha unidade, afetando não somente idéias, emoções ou reações motrizes, mas também minha totalidade somática.
Acredito oportuno fazer aqui uma pequena digressão. É possível considerar configurações de consciência avançadas nas quais todo tipo de violência provocasse repugnância com os correlatos somáticos do caso. Tal estruturação de consciência não violenta poderia chegar a instalar-se nas sociedades como uma conquista cultural profunda. Isto iria além das idéias ou das emoções que debilmente se manifestam nas sociedades atuais, para começar a fazer parte do alicerce psicossomático e psicossocial do ser humano.
Voltando para nossa rota; Temos reconhecido estruturas de consciência que se configuram acidentalmente. Também observamos que ocorrem configurações que respondem a desejos, ou a planos de quem se “coloca" em uma particular situação mental para fazer surgir o fenômeno. Certamente, tal coisa às vezes funciona e às vezes não, como ocorre com o desejo de inspiração artística, ou com o desejo de se apaixonar. A consciência inspirada, ou melhor ainda, a consciência disposta a lograr inspiração se mostra na Filosofia, na Ciência, na Arte, e também na vida cotidiana com exemplos variados e sugestivos. Entretanto, é na Mística especialmente que a busca de inspiração tem feito surgir práticas e sistemas psicológicos que tiveram e têm desigual nível de desenvolvimento.
Reconhecemos às técnicas de “transe”26 como pertencentes à arqueologia da inspiração mística. Assim, encontramos o transe nas formas mais antigas da magia e da religião. Para provocá-lo, os povos apelaram à preparação de bebidas27 de vegetais mais ou menos tóxicos e à aspiração de fumaças e vapores 28. Outras técnicas mais elaboradas, no sentido de permitir ao sujeito controlar e fazer progredir sua experiência mística, foram se depurando com o passar do tempo. As danças rituais, as cerimônias repetitivas e exaustivas, os jejuns, as orações, os exercícios de concentração e meditação tiveram considerável evolução.
E. O deslocamento do eu. A suspensão do eu.
A sibila de Cumas, não querendo ser tomada pela terrível inspiração desespera-se e retorcendo-se, grita: “Já vem, já vem o deus!”. E ao deus Apolo demora pouco para baixar desde seu bosquezinho sagrado até o antro profundo, onde se apodera da profetiza29. Neste caso e em diferentes culturas, a entrada ao transe ocorre por interiorização do eu e por uma exaltação emotiva em que está co-presente a imagem de um deus, ou de uma força, ou de um espírito, que toma e suplanta a personalidade humana. Nos casos de transe, o sujeito se coloca a disposição dessa inspiração que lhe permite captar realidades e exercitar poderes desconhecidos para ele na vida cotidiana30. Entretanto, lemos freqüentemente que o sujeito coloca resistência e até luta com um espírito ou um deus tentando evitar o arrebatamento, com umas convulsões que fazem recordar à epilepsia, mas isso é parte de um ritual que afirma o poder da entidade que dobra a vontade normal31.
Na América Central, o culto do Vudu haitiano32 permite-nos compreender técnicas de transe que se realizam com danças apoiadas em poções produzidas com base em um peixe tóxico 33. No Brasil, a Macumba 34 mostra-nos outras variantes místicas do transe obtidas mediante danças e apoiadas com uma bebida alcoólica e tabaco.
Não todos os casos de transe são tão vistosos como os citados. Algumas técnicas indianas, as dos "yantras" , permitem chegar ao transe por interiorização de triângulos cada vez menores em uma figura geométrica complexa que ocasionalmente, termina em um ponto central. Também, na técnica dos "mantras", por repetição de um som profundo que o sujeito vai proferindo, chega-se ao ensimesmamento. Nessas contemplações visuais ou auditivas, muitos praticantes ocidentais não têm êxito porque não se preparam afetivamente, limitando-se a repetir figuras ou sons sem interiorizá-los com a força emotiva ou devocional que se requer, para que a representação cenestésica acompanhe ao estreitamento da atenção. Estes exercícios se repetem tantas vezes quanto for necessário até que o praticante experimente a substituição de sua personalidade e a inspiração se faça plena.
O deslocamento do eu e a substituição por outras entidades pode ser verificado nos cultos mencionados e até nas mais recentes correntes Espíritas. Nestas, o "médium" em transe é tomado por uma entidade espiritual que substitui a sua personalidade habitual.
Não ocorre algo tão diferente com o transe hipnótico quando o sujeito interioriza profundamente as sugestões do operador, levando a representação da voz ao "lugar" que normalmente ocupa o eu habitual. Certamente, para ser "tomado" pelo operador, o sujeito deve ficar em um estado receptivo de "fé" e seguir sem duvidar as instruções recebidas 35. Este ponto mostra uma característica importante da consciência. Estamos dizendo que enquanto se realiza uma operação vigílica atenta, aparecem devaneios que às vezes passam inadvertidos ou terminam por desviar a direção dos atos mentais que se levavam a cabo. O campo de co-presença atua sempre embora os objetos de consciência presentes se mostrem no foco atencional. A grande quantidade de atos automáticos que se realizam em vigília mostra esta aptidão da consciência para realizar diferentes trabalhos simultâneos. Certamente, a dissociação pode alcançar cotas patológicas mas também se pode manifestar com força em quase todos os fenômenos de inspiração. Por outro lado, o deslocamento do eu pode não ser completo no transe espírita ou a hipnose, como se comprova na chamada “escrita automática” que se efetua sem tropeços, embora a atenção do sujeito esteja colocada no diálogo ou em outras atividades. Com freqüência, encontramos esta dissociação na “criptografia” em que a mão desenha enquanto o sujeito desenvolve uma conversação telefônica, muito concentrado.
Avançando para o ensimesmamento, podemos chegar a um ponto em que os automatismos fiquem superados e já não se trate de deslocamentos nem substituições do eu. Temos à mão o exemplo que nos dá a prática da “oração do coração” realizada pelos monges ortodoxos do monte Athos36. A recomendação do Evagrio Pontico 37, resulta muito adequada para evitar as representações (pelo menos as dos sentidos externos): “Não imagines a divindade em ti quando oras, nem deixes que tua inteligência aceite a impressão de uma forma qualquer; mantém-te imaterial e compreenderás”. Em grandes traços, a oração funciona assim: o praticante em retiro silencioso se concentra em seu coração e tomando uma frase curta inala brandamente levando a frase com o ar até o coração. Quando terminou a inalação, “pressiona” para que chegue mais dentro. Depois vai exalando muito brandamente o ar viciado sem perder a atenção no coração. Esta prática era repetida pelos monges muitas vezes ao dia até que apareciam alguns indicadores de progresso como a “iluminação” (do espaço de representação). Sendo precisos, temos que admitir a passagem pelo estado de transe em algum momento das repetições das orações usadas. A passagem pelo transe não é muito diferente ao que se produz nos trabalhos com os yantras ou mantras, mas como na prática da “oração do coração”, não se tem a intenção de ser “tomado” por entidades que substituam a própria personalidade, o praticante termina superando o transe e “suspendendo” a atividade do eu. Neste sentido, nas práticas do Yoga se pode passar também por distintos tipos e níveis de transe, mas se deve ter em conta o que nos diz Patanjali38 no Sutra II do Livro I : “ o yoga aspira à liberação das perturbações da mente”, A direção que leva esse sistema de práticas vai para a superação do eu habitual, dos transes e das dissociações. No ensimesmamento avançado, fora de todo transe e em plena vigília se produz essa "suspensão do eu" da qual temos indicadores suficientes. É evidente que já desde o começo de sua prática, o sujeito se orienta para o desaparecimento de seus "ruídos" de consciência amortecendo as percepções externas, as representações, as lembranças e as expectativas. Algumas práticas do yoga39 permitem aquietar a mente e colocar ao eu em estado de suspensão durante um breve lapso.
F. O acesso aos níveis profundos.
Sem dúvida que a substituição do eu por uma força, um espírito, um deus, ou a personalidade de um feiticeiro ou hipnotizador, foi algo corrente na história. Também foi um pouco conhecido embora não tão corrente, o fato de suspender o eu evitando toda substituição, como vimos em algum tipo de yoga e em algumas práticas místicas avançadas. Pois bem, se alguém pudesse suspender e logo fazer desaparecer a seu eu, perderia todo controle estrutural da temporalidade e espacialidade de seus processos mentais. Encontraria em uma situação anterior a da aprendizagem de seus primeiros passos infantis. Não poderia comunicar entre si, nem coordenar seus mecanismos de consciência; não poderia apelar a sua memória; não poderia relacionar-se com o mundo e não poderia avançar em sua aprendizagem. Não estaríamos em presença simplesmente de um eu dissociado em alguns aspectos, como pudesse ocorrer em certas afecções mentais, mas sim nos encontraríamos com alguém em um estado parecido ao de sonho vegetativo. Por conseguinte, não são possíveis essas futilidades de “suprimir o eu”, ou de “suprimir o ego” na vida cotidiana. Entretanto, é possível chegar à situação mental de supressão do eu, não na vida cotidiana, mas sim em determinadas condições que partem da suspensão do eu.
A entrada aos estados profundos ocorre desde a suspensão do eu. Já desde essa suspensão, produzem-se registros significativos de "consciência lúcida" e compreensão das próprias limitações mentais, o que constitui um grande avanço. Neste trânsito se deve ter em conta algumas condições iniludíveis: 1.- que o praticante tenha claro o Propósito do que deseja obter como objetivo final de seu trabalho; 2.- que conte com suficiente energia psicofísica para manter sua atenção ensimesmada e concentrada na suspensão do eu e 3.- que possa continuar sem solução de continuidade no aprofundamento do estado de suspensão até que desapareçam as referências espaciais e temporais.
Com respeito ao Propósito, deve-se considerar a este como a direção de todo o processo, mas sem que ocupe o foco atencional. Estamos dizendo que o Propósito deve ser "gravado" com suficiente carga afetiva, para operar co-presentemente enquanto a atenção está ocupada na suspensão do eu e nos passos posteriores. Esta preparação condiciona todo o trabalho posterior. Quanto à energia psicofísica necessária para a manutenção da atenção em um interessante nível de concentração, o principal impulso provém do interesse que faz parte do Propósito. Ao comprovar a falta de potência e permanência, deve-se revisar a preparação que se fez do Propósito. Requer-se uma consciência limpa de fadiga e uma mínima educação da redução do foco atencional sobre um só objeto. Continuar no aprofundamento da suspensão até obter o registro de "vazio", significa que nada deve aparecer como representação, nem como registro de sensações internas. Não pode, nem deve, haver registro dessa situação mental. E a volta à situação mental de suspensão ou à vigília habitual, produz-se pelos impulsos que delatam a posição e as incomodidades do corpo.
Nada se pode dizer desse “vazio”. O resgate dos significados inspiradores, dos sentidos profundos que estão além dos mecanismos e as configurações de consciência, faz-se desde meu eu quando este retoma seu trabalho vigílico normal. Estamos falando de “traduções” de impulsos profundos, que chegam a meu intracorpo durante o sono profundo, ou de impulsos que chegam a minha consciência em um tipo de percepção diferente das conhecidas no momento de “volta” à vigília normal. Não podemos falar desse mundo porque não temos registro durante a eliminação do eu, somente contamos com as “reminiscências” desse mundo, como nos comentou Platão em seus mitos.


1 Refere-se às explicações dadas em Canárias no ano de 1978 e que foram publicadas como Psicologia III, em Apontamentos de Psicologia. Silo. Obras Completas, vol.II. Madri. Edições Humanistas, 2002.

2


 Op.cit., Catarses, transferências e auto-transferências. A ação no mundo como forma transferencial.


3 Op. cit., A consciência e o eu.

4


 Ver: Espaço de representação, em Psicologia II. Silo. O.C. vol II. Madri, Edições Humanistas 2002.

5 Ver: Psicologia da imagem, em Contribuições ao Pensamento. Silo. O.C. vol I. Madri, Edições Humanistas 1998.

6


 No "sonho paradoxal" ou com imagens, o registro do eu se "afasta" do mundo externo e se dilui em imagens desconexas até desaparecer em uma situação que dificilmente está sob governo do sonhador. Quanto ao sonho vegetativo profundo a detecção eletro-encefalográfica mostra uma total ausência de imagens. Tampouco se verifica o MOR (movimento ocular rápido), coincidindo isto com uma amnésia posterior dos fatos psíquicos ocorridos em um total esquecimento do eu. N. do R.


7 Ver a conferência sobre as Experiências Guiadas dadas no Ateneu de Madri em 1989. Fala Silo. Apresentação de Livros. Experiências Guiadas. Silo. O.C. vol I. Madri, Edições Humanistas. 1998.

8


 Para uma melhor compreensão deste ponto (#parágrafo#), consultar Meditações Cartesianas, Segunda Meditação. 19. Atualidade e potencialidade da vida intencional. Husserl E. Madri. Edições Paulinas. 1979. Também consultar: O Ser e o Tempo. Segunda Seção. IV Temporalidade e cotidianidade. 70. A temporalidade da espacialidade peculiar ao “ser aí”. Heidegger M. México. Fundo de Cultura Econômica. 1980.

9


 Aparentemente , Epicuro defendeu a Teoria de Demócrito segundo a qual os átomos se movem formando o mundo físico, mas adicionou frente à objeção de Aristóteles, que os átomos sofrem desvios, inclinações, que lhes permitem encontrar-se. A doutrina correspondente à idéia do “clinamen”, parece ter sido formulada completamente trezentos anos depois do Epicuro. Ver: Lucrecio De rerum natura, II, 289- 93.

10


 Desde Pitágoras se concebeu a mônada como a primeira unidade ou unidade fundamental da qual derivam os números. Com o passar do tempo, a idéia de mônada foi sofrendo importantes mudanças até que no Renascimento e com o Giordano Bruno em De monade, os átomos constitutivos da realidade são viventes e animados. No S. XVIII Leibniz em Princípios da Natureza, caracterizou às mônadas como “átomos” sem começo nem fim que se combinam sem interpenetrar-se e que possuem força própria. Contemporaneamente, Kant em sua Monadologia Physica, descreveu a mônada como ponto indivisível, a diferença do espaço que é imensamente divisível.

11


 Entendendo “mundo” como a síntese mundo interno-externo.

12


 Na Fenomenologia do Espírito, Hegel chama "alienação" à "consciência desventurada", que se registra como um desgarre (#rasgo#) da consciência consigo mesma ao encontrar-se separada e despossuída da realidade a qual pertence. No Conceito da Angústia, Kierkegaard, estuda à "consciência angustiada" que se manifesta com respeito a seu objeto que é o (#um#) nada". Muitos “filósofos da existência" recorrem ao método fenomenológico para descrever os atos e os objetos de síntese de consciência. Sartre em Esboço de uma teoria das emoções, descreve à "consciência emocionada" e Kolnai no Asco, descreve à "consciência enojada".

13


 Pan era uma divindade pré-helênica benéfica para os campos, os pastores e os rebanhos. Uma lenda o faz aparecer na batalha de Maratona, semeando o “terror pânico” entre os persas e ajudando aos atenienses, que a partir desse momento propagam seu culto em toda a Grécia. O adjetivo “pânico” se refere a essa divindade em geral, mas “pânico” se usou para assinalar o estado de consciência que denota um perigo iminente e que é coletivo e contagioso. Atualmente, a Psiquiatria cunhou a “síndrome de pânico”, debilitando o significado coletivo inicial.

14 Psicologia III. O sistema de representação nos estados alterados de consciência.

15 Platão e Aristóteles conheceram as diferenças entre o pensar intuitivo e o discursivo, privilegiando Platão o primeiro tipo. Para ele, as Idéias do Bom e o Belo são de contemplação direta e são reais, enquanto que as coisas boas ou belas derivam daquelas Idéias e não possuem a mesma realidade imediata. Em Descartes reconhecemos esse grande aporte do pensamento que pensa sobre si mesmo sem intermediação e em Husserl o contato direto com as nóesis - os atos do pensar- e os nóemas -os objetos ligados intencionalmente aos atos do pensar.

16


 Isaac Newton, em 1666 no Wools Thorpe, U.K.

17


 Augusto Kekulé em 1865 em Bonn, Alemanha, estabeleceu a teoria da quadrivalência do carbono e a fórmula hexagonal do benzeno.

18


 Mary Godwin. A história está nas notas que escreveu Polidori em seu jornal em 18 de Junho de 1816 em vila Diodati, ao lado do lago Leman, Suíça,

19


 R.L. Balfour. Nas ilhas de Samõa em 1886.

20


 Vasili Kandinsky, em 1911 em Moscou.

21


 O.C. I Fala Silo. Conferência sobre As condições do diálogo, dada na Academia de Ciências de Moscou em 1999.

22


 IV Brihadaranyaka Upanishad. ¨Quando o espírito humano se retira ao repouso, retém consigo os materiais deste mundo em que estão contidas as coisas todas, e então cria e destrói sua própria glória e irradiação, pois o espírito brilha com sua própria luz”.

23


 A Bíblia, Dá-niyye-l.X, 7 Versão castelhana Dujovne, Kostantinovsky. “E eu, Dá-niyye-l, sozinho vi a visão; pois não a viram os homens que comigo estavam, mas sim caiu sobre eles um terror grande, de modo que fugiram a esconder-se”

24


 O Avesta. Os Gathas. Yasna XLV,2 -3. "Proclamarei este primeiro ensinamento ao Mundo. Ensinamento que me revelou o Onisciente Ahura Mazda. Falarei dos dois primeiros Espíritos do mundo, dos quais o mais bondoso disse assim ao daninho: Nem nossos pensamentos, nem nossos mandamentos, nem nossa inteligência, nem nossas crenças, nem nossas obras, nem nossa consciência, nem nossas almas estão de acordo em nada".

25 Entende-se "tomada" como não dirigida nem manejada pelo sujeito.

26 Na Psicologia oficial se considera o transe, como “um estado de dissociação da consciência, caracterizado pela suspensão de todo movimento voluntário e a existência de certas atividades automáticas”. Dicionário Enciclopédico da Psique. B.Szekely. Ed.Claridad. Buenos Aires 1975.

27


 O Soma (para os índios) ou o Haoma (para os iranianos) foi a bebida embriagadora mais antiga. Nos Hinos Védicos, em 730 (2), lê-se: “Você é o cantor, você é o poeta, você é o doce suco nascido da planta. Na embriaguez, você é o doador de todos os bens”.

28


 No Delfos a sacerdotisa de Apolo (Pitia ou Pitonisa), sentava-se em um trípode colocado junto à fenda de uma rocha da qual saía um vapor intoxicante e começava a profetizar com palavras incoerentes. Nos dias anteriores, a Pitia tinha se submetido ao jejum e à mastigação de folhas de louro.

29


 Virgilio, que faz uma descrição fantástica da anedota de Cumas, certamente conta com informação mais que suficiente sobre o proceder das sibilas ao longo da história da Grécia e Roma. De todos modos, no Livro VI da Eneida, diz a Sibila: " Hei aí, hei aí o deus!. Logo que pronunciou estas palavras à entrada da cova, imutou-se-lhe o rosto e perdeu a cor e se lhe arrepiaram os cabelos; ofegando e sem fôlego, inchado o peito, cheio de sacro furor, parece que vai crescendo e que sua voz não ressoa como a de outros mortais porque a inspira o numen já mais próximo".

30


 O chamanismo e as técnicas do êxtase, M. Eliade, F.C.E. Madri. 2001 O autor passa revista, entre outras matérias, às distintas formas de transe chamânico na Ásia Central e Setentrional; no Tibet e na China; nos antigos Indo-europeus; na América do Norte e do Sul; no Sudeste asiático e na Oceania.


31 Os antigos chamaram a epilepsia de "enfermidade divina". Nas convulsões desse mal, acreditaram ver uma luta em que o sujeito se defendia da alteração que chegava até ele. Os deuses anunciavam sua chegada dando ao sujeito uma "aura" que o acautelava. Depois do "ataque", supunha-se que o sujeito ficava inspirado para profetizar. Não em vão se pretendeu que Alexandre, César e até Napoleão tivessem padecido o "mal divino" porque, afinal, eram homens de luta.

32


 Derivado do Togo e Benin

33


 De la mort a la vie: essai sur le phenomène de la zombification no Haiti R. Toussaint.Ed. Ife. Ontário. 1993.

34


 Derivada do povo Yoruba do Togo, Benin e Nigéria, mas também de influências senegalesas e da África Ocidental em geral.

35


 É claro que desde o "magnetismo animal" de Mesmer e Pueysegur até a hipnose moderna que se inicia com J. Braid, pôde-se ir eliminando uma parafernália totalmente acessória.

36 A tradição da “oração do coração” arranca no S.XIV no Monte Athos grego. Em 1782 se expandiu fora dos monastérios com a publicação da Philocalie, do monge grego Nicodemo o Hagiorita, sendo editada em russo pouco depois por Paisij Velitchkovsky.


37 Evagrio Pontico, dos “Pais do Deserto”, escreveu seus apotegmas no S. IV. É considerado um dos precursores das práticas do Monte Athos.


38 Os Aforismos do Yoga ou Yoga-Sutra, recolhidos pelo Patanjali no século II, é o primeiro livro de Yoga que se conserva íntegro em suas 195 breves e magistrais sentenças.

39


 Técnicas do Yoga e também O Yoga- Imortalidade e liberdade, de M. Eliade.






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