Práticas discursivas: a construçÃo da fala dos alunos em uma sala de aula de alfabetizaçÃO



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PRÁTICAS DISCURSIVAS: A CONSTRUÇÃO DA FALA DOS ALUNOS EM UMA SALA DE AULA DE ALFABETIZAÇÃO.

Marco Antônio Melo Franco

Maria Lúcia Castanheira

Introdução


O estudo em andamento está inserido no campo de estudos sobre a linguagem e procura analisar como a fala dos alunos se constrói no contexto da sala de aula. Pressupondo que há um jogo discursivo e um processo de silenciamento em sala de aula, promovido por diferentes fatores, buscou-se, então, investigar o espaço de construção discursiva, dado ao aluno, em uma sala de alfabetização.

Para tanto, as ciências da linguagem, em seus estudos, têm demonstrado que as discussões sobre o ensino da língua, embora privilegiem a língua escrita, não se detêm somente nela, mas também abrem espaço para as discussões sobre a oralidade, sendo que esta última, apenas mais recentemente, vem ganhando uma certa relevância. SOARES (1988) apresenta discussões sobre o caráter sociolingüístico desses estudos levantando problemas no processo de alfabetização que, provavelmente, contribuem para o fracasso escolar. Essas perpassam tanto pelo campo da escrita quanto do oral. Embora a escrita seja um foco mais permanente dessas investigações, as ciências da linguagem vêm incorporando nos seus estudos sobre o fracasso escolar, a dicotomia: dialeto padrão e dialetos não padrão. De acordo com os estudos de SOARES(1988) os problemas aparecem no confronto entre dialeto padrão escolar, e os dialetos que as crianças possuem ao entrarem nela, próprio de seu ambiente social, legítimos de sua cultura. Estes últimos costumam ser negados pela escola que os desconsidera e procura inculcar nelas o que chama de dialeto padrão, aquele que deve ser aprendido por todos, principalmente pelos que freqüentam esse espaço.

FRANCHI (1998), considerando o processo de aquisição da escrita, desenvolve uma pesquisa que evidencia o processo de exclusão de crianças das séries iniciais, que não se apropriam da “escrita padrão”. O estudo desenvolvido, numa perspectiva estrutural da língua, visa a aquisição da “escrita culta” por crianças das camadas populares, partindo do dialeto não padrão falado por elas, que é manifestado em suas produções escritas. Segundo a autora, os próprios pais percebem a distância entre o conhecimento produzido pela escola, que deve ser apropriado pela criança e o cotidiano delas. Porém, para eles, é necessário que freqüentem o ambiente escolar, pois esse provavelmente possibilitará uma certa “ascensão social”. Além disso, para FRANCHI (1998), a escola leva as crianças a adequarem seu dialeto a uma “bela” linguagem que é diferente da sua, de seus pais e da comunidade em que vive. A escola, então, de certa forma, silencia o aluno, ao negar suas origens e ao impor determinados padrões que fogem às concepções da língua desenvolvidas pela criança, até o momento de ingresso nessa instituição.

Além das considerações anteriores, um outro elemento importante neste estudo, diz respeito ao contexto da sala de aula como espaço de construção do sujeito. Para tanto, devemos atentar para as questões anteriormente levantadas, assim como para a relação entre sujeito e linguagem e a constituição deste enquanto ser social, como aponta GERALDI (1997):

“os sujeitos se constituem como ,tais à medida que interagem com os outros, sua consciência e seu conhecimento de mundo resultam como “produto” deste mesmo processo. Neste sentido, o sujeito é social já que a linguagem não é o trabalho de um artesão, mas trabalho social e histórico seu e dos outros e é para os outros e com os outros que ela se constitui. Também não há sujeito dado, pronto, que entra na interação, mas um sujeito se completando e se construindo nas suas falas”. (idem, p.6)
Se pensamos no espaço escolar, mais propriamente na sala de aula, como um espaço de interação, é relevante ter claro que, as relações aí existentes são fortemente tangidas por uma relação de poder, principalmente entre professor/aluno. Sendo assim, ter como princípio investigativo, a constituição do sujeito através da linguagem, implica em dizer de um processo permeado por mecanismo de controle.

Essa visão explicita as relações de poder e de controle presentes no discurso. Elas retratam, principalmente, procedimentos de controle do discurso nas interações verbais. FOUCAULT (1998), classifica esses procedimentos em três grandes categorias que nomeia de mecanismos de controle. São eles: mecanismos externos de controle, mecanismos internos de controle e mecanismos de controle do sujeito.

Esses mecanismos nos levam a pensar nas práticas discursivas em sala de aula. Eles são componentes imprescindíveis nesse processo. É pressuposto, que a criança ao entrar na escola abandone seu discurso, construído até então, fora do âmbito da instituição, para assumir o que lhe será transmitido. Além disso, em se tratando de interação verbal, pressupõe-se que haverá um controle do que pode ou não ser dito, isto é, se aquela fala estará autorizada ou não para se colocar no contexto em que ela se encontra. Imagina-se, portanto, que a escola irá determinar as regras discursivas, dizendo quem fala, o que fala, como fala e em que momento fala.

De acordo com esses estudos percebe-se uma negação pela escola, das diferenças culturais do seu público. Embora haja uma predominância no caráter estrutural e uma ênfase na aquisição do código escrito, esses estudos, servem de pressupostos para uma possível investigação do papel da língua falada no processo de alfabetização. Uma vez negado os conhecimentos prévios dos alunos, suas relações sociais, como fatores que influenciam na aquisição da escrita, essa mesma negação pode se dar no desenvolvimento da fala. Se a escola desconsidera os diferentes dialetos em detrimento do legitimado por ela, pode, provavelmente, estar silenciando a fala das crianças que ingressam no seu interior.

Nos estudos aqui relacionados, evidencia-se uma ausência de investigação em relação ao caráter funcional da língua. Embora a escrita venha sendo hoje discutida e refletida numa perspectiva de letramento1, a prática discursiva, na maior parte das vezes, é tratada como um instrumento de apoio a aquisição dessa escrita. Para tanto, esse trabalho preocupa-se em investigar o espaço de construção discursiva dado ao aluno em uma sala de alfabetização. Além disto, compreender de acordo com as condições dadas, como os alunos constroem sua participação, seu discurso. Quais são as ações, tanto do professor quanto do aluno, que possibilitam essa construção.

Metodologia


A pesquisa fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, buscando um envolvimento mais dinâmico entre sujeito e objeto de estudo. Sendo assim, a análise estará privilegiando a interpretação do processo, buscando perceber a riqueza e a complexidade presentes nas interações e nas práticas discursivas no contexto de sala de aula.

O trabalho de campo foi realizado de fevereiro a junho de 2000, em uma escola pública do município de Belo Horizonte, onde, a coleta de dados realizada privilegiou a observação da sala de aula através de anotações escritas além do uso de instrumentos como áudio, no início do processo e, posteriormente, a utilização de vídeo.

Tendo em vista que o objeto deste estudo é a construção da participação dos alunos no contexto das interações em uma sala de aula de alfabetização, optou-se por selecionar uma turma de alunos que estivessem iniciando o primeiro ano do ensino fundamental .

Quanto ao tratamento e análise dos dados, a opção foi por selecionar os dois primeiros dias de aula para uma análise das ações de interação entre professor/alunos e alunos/alunos através das práticas discursivas e, posteriormente, dos últimos dias de aula que marcam a retomada de determinadas negociações que aconteceram inicialmente, cujas quais, implicam em ações de interações entre os mesmos sujeitos em um novo contexto da sala de aula.

Devo ressaltar que o tratamento e análise dos dados encontram-se em andamento.
Algumas considerações.

A análise dos dados etnográficos, tem levado a afirmação de que é possível haver em sala de aula uma linguagem simétrica, dialógica e que privilegie a participação e, portanto, a construção de um sujeito ativo.

Esta afirmação pode ser respaldada pela prática pedagógica da docente registrada nas observações realizadas, a qual, caracteriza-se pela busca da participação de todos nas discussões, por assumir um papel mediadora na construção do conhecimento pelos alunos, por estabelecer um diálogo com os alunos numa proposta de construção coletiva, por não ser o único interlocutor dos alunos e sim mais um, dentre outros. Observa-se, ainda, que os alunos além de uma interação com a professora, interagem entre si, revelando-se enquanto sujeitos do processo de ensino/aprendizagem em uma turma de alfabetização.

Um segundo aspecto que merece destaque diz respeito ao processo sócio-interacional estabelecido em sala de aula. Embora a professora mantenha uma posição de autoridade, nesse contexto, a sua prática revela um papel mediador na construção do conhecimento e nas relações ali estabelecidas. Suas ações discursivas buscam fomentar uma participação maior dos alunos neste espaço através do uso da fala, não somente enquanto instrumento de apoio ao processo de alfabetização mas, também, como forma de participação efetiva no contexto de sala de aula.

Um terceiro aspecto a ser ressaltado, faz referência a uma organização física do espaço da sala de aula, que viabiliza uma maior interação entre os alunos. A organização em grupos é constituída desde de o primeiro momento dos alunos em sala. Esta opção da docente evidenciou uma disposição para a construção de uma interlocução que fosse para além da relação professor/aluno. A dinâmica estabelecida no contexto da sala de aula proporcionou em diversos momentos a interação aluno/aluno. Em princípio, esta organização parece ser um aspecto simples, porém, quando conjugado com o trabalho que se desenvolve ganha outras dimensões.

Um quarto elemento em destaque, trata do uso de recursos como: cantigas, debates, contratos de convivência, contação de histórias, discussões sobre temas diversos, dentre outros, que possibilitam uma maior interação verbal. Embora diversas práticas pedagógicas revelem que no processo de alfabetização, o lugar reservado à fala, é o de apoio à aquisição do código escrito, esta pesquisa evidencia um certo privilégio às práticas discursivas, que visam não somente esta aquisição, como, uma participação efetiva na construção de uma identidade. Segundo (Lopes, 1998:305),

“O discurso como uma construção social é, portanto, percebido como uma forma de ação no mundo. Investigar o discurso a partir desta perspectiva é analisar como os participantes envolvidos na construção do significado estão agindo no mundo através da linguagem e estão, deste modo, construindo sua realidade social e a si mesmos(...)”

Sendo assim, os dados em análise vêm demonstrando uma prática pedagógica que aponta para uma possível interação no contexto de sala de aula. Vendo, nas práticas discursivas, não só um apoio à aprendizagem da escrita e da leitura, como, também, um instrumento de inserção social. Para tanto, ressalta-se a importância dada ao uso da fala como uma prática social.


Referências Bibliográficas


FRANCHI, Eglê Pontes. E as crianças eram difíceis: A Redação na Escola. São Paulo: Martins Fontes, l998.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura F. de Almeida Sampaio. 4.ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

LOPES, Luiz Paulo Moita. Discurso de identidade em sala de aula de leitura de L1: a construção da diferença. In: SIGNORINI, Inês (org.). Linguagem e Identidade: elementos para uma discussão no campo aplicado. Campinas: Mercado de letras, 1998, p. 303-30.

SOARES, Magda B. Alfabetização: a (des-)aprendizagem das funções da escrita. Educação

em Revista, Belo Horizonte, n. 8, p. 3-11, dez. 1988.

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Bibliografia


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WERTSCH, James V. Voces de la Mente: Un enfoque sociocultural para el estudio de la

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Esquema para apresentação do pôster


TÍTULO: PRÁTICAS DISCURSIVAS: A CONSTRUÇÃO DA FALA DOS ALUNOS EM UMA SALA DE AULA DE ALFABETIZAÇÃO*
INTRODUÇÃO: O estudo em andamento está inserido no campo de estudos sobre a linguagem e procura analisar como a fala dos alunos se constrói no contexto da sala de aula. Pressupondo que há um jogo discursivo e um processo de silenciamento em sala de aula, promovido por diferentes fatores, buscou-se, então, investigar o espaço de construção discursiva, dado ao aluno, em uma sala de alfabetização. A pesquisa foi realizada em uma escola pública de Belo Horizonte, composta por um bom número de professores pós-graduados. A organização pedagógica da escola busca privilegiar um trabalho pautado na construção coletiva visando o envolvimento de todos os sujeitos da comunidade escolar.
METODOLOGIA: A pesquisa fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, buscando um envolvimento mais dinâmico entre sujeito e objeto de estudo. Sendo assim, a análise estará privilegiando a interpretação do processo, buscando perceber a riqueza e a complexidade presentes nas interações e nas práticas discursivas no contexto de sala de aula. Foram realizadas observações, anotações, gravações de áudio e vídeo. O trabalho de campo foi realizado de fevereiro a junho de 2000.
CONSIDERAÇÕES: Embora a pesquisa encontre-se em fase de elaboração, é possível antever algumas considerações relevantes. O estudo indica: a presença em sala de aula de uma linguagem dialógica que privilegia a participação; a prática pedagógica da docente caracterizada pela busca da participação efetiva de todos nas discussões; a proposta de um processo de construção coletiva; a diversidade de interlocutores; as ações discursivas que buscam fomentar uma participação maior dos alunos; a não utilização da fala somente como instrumento de apoio à aquisição da escrita mas, como forma de participação efetiva no contexto de sala de aula. Outros aspectos que podem ser considerados são: a organização física da sala, privilegiando as discussões em grupo e uma maior interação aluno/aluno e a utilização de variados recursos didáticos para desenvolvimento da prática docente.

*Dissertação de mestrado em andamento pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais




1 Conceito de SOARES ( 1998:72) “(...) conjunto de práticas sociais ligadas à leitura e à escrita em que os indivíduos se envolvem em seu contexto social”.





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