Prohlašuji, že jsem diplomovou práci vypracovala samostatně s využitím uvedených pramenů a literatury



Baixar 0.56 Mb.
Página3/5
Encontro18.09.2019
Tamanho0.56 Mb.
1   2   3   4   5

Casamento e mortalha no céu se talha. / Morte e casamento talhado é no céu.

Podemos observar a existência de rima interna que se perde na segunda variante, não só devido à alteração da ordem, mas também à existência de outras modificações. Ao contrário em:



Coçar e comer começo quer. / Comer e coçar, vai de começar.

Há manutençaõ de rima, apesar da modificaao dos elementos na posição de sujeito, visto que o léxico verbal também sofre variação.



        1. Inversão da ordem sujeito-verbo

Este fenómeno podemos observar nas construções com o verbos ser que estabelece uma equivalência entre os dois membros:

Uma coisa é dizer e outra é fazer. / Dizer é uma coisa e fazer é outra.

A alma do negócio é o segredo. / O segredo é a alma do negócio.

No exemplo seguinte, o verbo dar , embora seja de emprego metafórico, funciona como um verbo pleno com um sujeito e os complementos apropriados, todos realizados.



Deus dá nozes a quem não tem dentes. / Dá Deus nozes a quem não tem dentes.

Como pudemos observar nas linhas anteriores, estas alterações não modificam a função sintáctica dos elementos deslocados. Z. Harris designa estas alterações como: ”transformações assintácticas.”86

À continuação, o estudo de Lucília Maria Chacoto menciona outros fenómenos das alterações como: inversão da ordem verbo e adjectivo, verbo e advérbio ou alteração da posição dos clíticos e deslocação de complementos preposicionais.

Em síntese: Lucília Chacoto alude uma ideia interessante que a ordem dos constituintes na frase tem três valores diferentes: o seu valor funcional, valor expressivo (ao salientar um dos elementos na frase) e valor estilístico (ao criar efeitos de rima e ritmo). A variação da ordem dos constituintes nos provérbios é muito limitada para não influir o semântismo global da frase, comprovando dessa forma o carácter fixo destes enunciados.

Neste ponto, seria apropriado mencionar que devido à análise de Lucília Maria Chacoto é muito ampla não conseguimos enumerar e comentar detalhadamente todos os fenómenos que a autora alude no seu estudo. No caso do trabalho presente trata-se do resumo das alterações mais frequentes nas frases proverbiais.


  1. Essência dos provérbios

Nos capítulos seguintes dedicaremos a nossa atenção à análise da essência dos provérbios que tocará não só o campo linguístico, mas também os campos das outras ciências, nomeadamente: filosofia, psicologia, sociologia etc. Trata-se duma consideração sobre as condições e razões que acenderam a formação dos provérbios ao longo da história humana.

    1. A sua função através da tradição oral

Antes de começarmos a examinar detalhadamente a função do provérbio através da transmissão oral devemos explicar três conceitos importantes relacionados, frequentemente, aos provérbios: oral, popular e tradicional.

As frases gnómicas são apresentadas como tradicionais o que infere a possibilidade de as compreender como antigas, não usadas nos dias de hoje, desaparecendo o seu sentido no tempo. Porém, não se trata do verdadeiro sentido do conceito tradicional na esfera dos provérbios: o tradicional equivale à tradição. É a tradição que exprime algo que se eterniza desde tempos remotos e que permanece como a parte da vida das populações, mesmo das mais actuais.

A seguinte, as frases proverbiais pertencem à categoria popular, ou seja, sabedoria popular. Será que eles são do povo, por isso populares? Já falámos sobre esta problemática na análise de Jan Mukarovsky que afirma a sua divisão entre os provérbios da natureza popular, do povo, e os da natureza erudita, dos livros. Amadeu Amaral faz uma análise em que menciona a distinção entre o popular com o qual designa aquilo que teve origem no povo e o popularizado com o qual designa o que teve origem erudita e foi utilizado pelo povo. No entanto, António Dias liga estes termos e define o conceito da cultura popular como aquilo que faz parte da criação de povo e que ele fez uso, fazendo hoje parte do seu património espiritual, moral ou de capacidade de realização prática.87 Ele fala sobre os exemplos em música, dança ou linguagem popular. Os provérbios, assim, podem ser enquadrados na esfera da cultura popular, uma vez que abrangem ambas as possibilidades de criação e da natureza.

O último conceito oral é também relacionado ao popular. É o povo que tornou os provérbios vivos de cada vez que suas bocas os pronunciavam e transmitiam aos outros. A oralidade é o fruto da necessidade eterna do homem- da comunicação o que será concebido como o tema seguinte.



      1. A comunicação humana

Os provérbios devem a sua existência à necessidade que o homem tem de comunicar. O homem é um ser complexo corporal e intelectual e de característica social, exigindo viver na comunidade social. É na comunidade que ele evolui, aprende, inventa, constrói e experimenta. A quantidade na sociedade estabelece as relações de mutuação e diversidade entre seres humanos e é dessas relações que se origina a evolução. A linguagem participa esta evolução. Ao homem foi atribuída a capacidade de falar para funcionar como elo de ligação da sociedade, desempenhando um papel fundamental na constituição da experiência humana. Por isso, um ser humano exprime as suas impressões, entendimento, factos do mundo e na medida em que pensa, fala.

A linguagem é, ao mesmo tempo, universal e específica da humanidade. O homem racional e social não é dotado somente de instintos animais, uma vez que não seria capaz de pensar, entender, reflectir, e por este facto a construção da linguagem é para ser humano tão natural como a sua existência. Ela é fruto da sua consciência como animal racional e inteligente. Não existe animal nenhum, que conseguisse possuir qualquer coisa que se parecesse com um verdadeiro rudimento de linguagem humana. Mesmo que se considere que comunicam entre si distanciam-se da forma da nossa linguagem.

Nos princípios da existência, a nossa raça manifestou as suas impressões, sentimentos de dor, prazer, desespero, medo ou desejos através da forma primeira da comunicação- gritos, sonoridades e sons não articulados. É a função essencial para a comunicação de mostrar o sentir e estabelecer as ligações com os nossos pares. E não é verdade que podemos afirmar que isto preconiza a expressão de um provérbio? Tal como a linguagem os provérbios foram e são usados para expressar a nossa atitude, experiência, ideia ou emoção. A linguagem permite clarificar, preservar, transmitir e evocar e todo o homem emprega na sua fala, seja ele ignorante ou instruído, porque a linguagem provem da sua natureza. Podemos enumerar alguns filósofos que comentam a função da linguagem e da comunicação. Na perspectiva de Wittgenstein a linguagem apresenta a imagem lógica do mundo dum homem, Hobbes declara que a função de linguagem é transmitir aos outros o conhecimento por nós alcançado e na perspectiva de Karl Jaspers a autenticidade do ser humano consiste no processo de comunicação pelo qual uma liberdade enfrenta a outra.

Embora existam outras considerações sobre a nossa comunicação não constituem o objecto do nosso estudo. Ao final, podemos dizer que a essência e formação de comunicação são muito ligadas aos provérbios. Junto com a comunicação primordial humana, transmutada brevemente em palavras, nasceram os provérbios como os elementos dela para ajudarem transmitir os factos do mundo.



      1. Os provérbios e oralidade

A oralidade era uma única forma de comunicação em que dominava exclusivamente a palavra falada. Pelo aumento do número de criaturas humana e pela angústia eterna do homem de transcender a si mesmo tornou-se necessário estabelecer a comunicação em larga escala o que era impossível alcançar somente com a oralidade. Neste processo evolutivo nasceram duas vertentes primordiais: a oralidade e a escrita. A escrita surge e muda, mas pela sua complexidade nem todos a dominam. António José Saraiva menciona que o analfabetismo na Idade Média não era prejudicial mas característico da maioria da população, com excepção do clero. Os arquitectos, músicos, médicos não eram letrados. Os saberes eram transmitidos basicamente pela oralidade, daí a sabedoria de abarcar os provérbios, transmitidos de geração em geração, os quais envolvem conhecimentos vocacionados pela experiência acumulada.88 Não será de admirar, então, que os enunciados proverbiais sobrevivem e testemunham a sabedoria misturada de tempos, povos e gerações antiquíssimas, anteriores à instalação da escrita. Os provérbios, sendo transmitidos de boca em boca, de geração em geração, transportam os pensamentos, valores, ensinamentos, crenças e culturas. Podemos, assim, declarar, que dentro dos provérbios reside o arranque para o desenvolvimento intelectual de toda a humanidade. Os provérbios apresentam-se como vestígios dos costumes e modos de vida próprios de cada região ou país, transmitindo vocábulos e expressões relacionadas com actividades quotidianas ou profissões difundidas num país dado. Adolfo Coelho afirma que os provérbios possuem várias acepções que lhes permitem inserir o carácter moral, abrangente e exemplificativo. Este fenómeno é nomeado como plurisignificação dos provérbios, permitindo a sua expansão além das fronteiras do país original.89 Assim, o contexto é muito importante para compreender a mensagem do provérbio mas, sem ele, o mesmo consegue ser compreendido de forma igual.

Quanto à preservação dos provérbios a sua característica essencial reside na oralidade, através dela sobrevivem. Na Idade Média os portadores dos ditos foram jograis, contistas, bobos e menestréis. Eles conservavam, e vulgarizavam a cultura da palavra, transmitindo e divulgando repertório tradicional entre diversos grupos sociais, diversas regiões, evocando e libertando a imaginação. David Corazzi menciona que foi nesta época, mais do que em qualquer outra, que os provérbios alcançaram o verdadeiro fundo intelectual da sociedade humana.90

Os provérbios transmitiam-se de boca em boca e, por isso, é muito difícil descobrir a sua génese. Eles transportam não só conhecimentos mas também uma miscelânea de factos individuais ou comuns. Pela oralidade proverbial foram e sempre são transmitidos medos, superstições e preocupações relacionados aos elementos da Natureza, valores morais, visões do mundo até do Deus, actividades de todos os dias e muito mais de um povo mais ou menos civilizado. Teremos a oportunidade de ver os aspectos temáticos que são veiculados nestas frases proverbiais mais adiante no nosso trabalho.



      1. A conservação dos provérbios

O homem, a sociedade, um país necessitam sempre de algo consistente e ordenador que sirva de referência, funcionando como preâmbulo de existência. Este algo ordenador poderá ser a religião, ética, política, moral, tradição ou a própria consciência. Juntos com a difusão da cultura da escrita a sociedade necessitava de ter os provérbios organizados nos registos. Porém, este processo dificulta o facto de que o provérbio é material vivo e muito complicado a descortinar a sua origem.

Primeiro, cada provérbio tem suas diferentes variantes, às vezes, contraditórias mesmo dentro duma língua. Os provérbios tornam-se vivos uma vez que são pronunciados e cada vez que aparece um novo ou completa um outro já existente. Segundo, os provérbios como elementos vivos não mantêm as fronteiras de diferentes regiões, países ou camadas sociais, tornando o estudo da sua génese mais complicado. Se desejarmos analisar o provérbio temos que apreender os seus extensos segredos: Por isso, temos de ter em conta cada palavra, cada significação possível que diz respeito ao tempo, às circunstâncias culturais das diversas épocas ou modos de pensamento, região proveniente, o autor potencial, as razões da sua formação, formas de divulgação, fontes das variantes..etc. António Moreira diz sobre a problemática de origem, esclarecendo o processo de criar uma compilação: ”Fazer uma compilação de provérbios equivale a realizar uma tradução, a fazer uma transposição para a cultura escrita de parte de uma cultura oral. Do universo das práticas, do saber fazer, das técnicas, da vivência quotidiana das comunidades, isolamos expressões orais, retiramo-las do seu contexto e damos-lhes a forma escrita, organizamo-las segundo as regras do alfabeto, inserimo-las na lógica da cultura escrita. Sabemos que, com certeza, algum do seu sentido acabará por se perder ou modificar.”91

A partir do desenvolvimento da impressa, mesmo em Portugal, existem vários registos da tradição oral. Em Portugal, as mais antigas obras que se conhecem, sobre o saber proverbial, são as de Frei Aleixo de Santo António Philosophia moral tirada de algus proverbios ou adagios (1640), António Delicado Adagios portugueses reduzidos a lugares communs (1651), padre Bento Pereira Florilégio de modos de falar e adágios (1651), D. Francisco Manuel de Melo Feira de Anexins (séc. XVIII) e em 1882 surge Philosophia popular em proverbios de Corazzi.92

No entanto, muitas obras não passavam de uma compilação arbitrária dos provérbios, anexins, ditados seja eruditos seja populares ou, muitas vezes, apareciam os grandes volumes com milhares de provérbios copiados e reescritos das outras obras nacionais ou estrangeiras. Nos séculos seguintes os autores dirigiam-se contra a cultura oral e desprezavam o valor dos provérbios, considerando-os como um dos elementos da cultura popular, nos olhos deles inferiores. O autor Leroux Lincy deu o novo impulso à orientação deste assuntos. Ele é considerado como o fundador da Paremiologia moderna com o seu Livre des Proverbs Français (1859) em que inclui, entre outras matérias, disciplina do estudo dos provérbios. A obra própria chama a tenção às várias problemáticas de sequência e ordem. É defensor da idea de que é melhor ordenar os provérbios numa ordem alfabética ou temática. Colocando os provérbios por ordem alfabética corremos o risco de os provérbios com o mesmo tema e diferentes variantes ficarem separados uns dos outros. Se os colocarmos por ordem temática tudo se dificulta novamente. Um provérbio pode conter mais do que um tema em si mesmo. Existem vozes que requerem encontrar uma definição exacta do termo provérbio para criar uma outra ordenação potencial.

Como podemos ver a tentativa de conservar cultura oral oculta diversos obstáculos, mas é necessário e importante preservar esta cultura, sendo um único testemunho dos nossos antepassados que fortifica a base das nossas características e do património da humanidade.


    1. Origens e influências das frases proverbiais



      1. Influências Orientais

Como já foi dito, muitos autores investigaram, escreveram e discutiram sobre as origens dos provérbios, tentando descortinar os seus vastos segredos relacionados com os condicionalismos de tipo histórico, cultural, temporal, religioso e outros. Sem comentários redundantes é indubitável que os provérbios são reflexos de mentalidades e de modos de vida de um povo e dos outros, dos quais recebeu influências e também influenciou. Descobrir a origem destes enunciados é objecto inatingível mas podemos mostrar que os provérbios evidenciam a sabedoria popular de carácter vigorante que se confirma segundo os condicionalismos e critérios históricos, naturais, mitológicos etc.93

No Egipto, na Mesopotâmia e em Israel a sabedoria foi arrancada pela narrativa epopeia mitológica. Seus testemunhos possíveis são os que figuram no Antigo Testamento, sendo considerados registos aproximados da sabedoria proverbial. Como afirma José Carreira foram os profetas Isaías, Ezequiel, Amós, Miqueias e os salmistas que fizeram florescer e implementaram a moda intelectual da sabedoria. Esta serviu como elemento unificador dos povos do Oriente antigo, por isso, podemos acender a discussão se esta sabedoria não é aquela que serviu como fundamento para a filosofia grega. José Carreira, a seguinte, adiciona que os sábios do Oriente daquela época colocaram as suas preocupações na área intelectual do universo ou da sociedade. A sua intenção era construção duma ordenação ou posicionamento do caos que observaram no mundo, não deixando de lado o comportamento humano. Desejavam encontrar o conhecimento e explicação racional das coisas, sem quebrar a ligação com as crenças. O destino dos homens era a principal preocupação dos sábios. A vida humana cheia dos obstáculos, as nossas actuações que sempre seguem desejo de conquistar a felicidade e bem-estar – daí se encontrem obras de sapiências, do Egipto, e da Mesopotâmia, carregadas do pessimismo e negativismo, reflectindo o destino humano. Além disso, não podemos deixar de lado o facto de que esta sabedoria, sentenças e escritos, registada pelos homens cultos tem o seu fundamento nas narrações que circulavam de boca em boca, pela voz popular. 94

Tudo isto aponta que se trata dos fundos verdadeiros da sabedoria popular, incluindo as bases dos enunciados proverbiais, que contribuíram, mais tarde, ao desenvolvimento da civilização primordial na Europa.

















      1. Os Livros Sapienciais

Agora aludiremos um dos documentos mais importantes da nossa civilização: o Antigo Testamento que é formado por 46 livros, de autores diferentes e desconhecidos, que se datam ao longo de doze séculos até aos inícios da era cristã. Por isso, os livros revelam muitos estilos e textos de carácter diverso: hinos do louvor a Deus, narrativas históricas, profecias, provérbios ou leis. Para o trabalho presente seria apropriado desvendar o conteúdo dos Livros Sapienciais do Antigo Testamento, nomeadamente, do Livro dos Provérbios de Salomão. Podemos enumerar os outros livros que também são constituintes dessa colecção dos cinco livros: Jó, Eclesiastes, Eclesiástico e Sabedoria.

O Livro dos Provérbios é, às vezes, nomeado Parémias, significando também alegorias ou parábolas, aparece contemplado no Antigo Testamento como um livro sapiencial de Israel. Nele se podem encontrar descritas, de forma muito simples, as vivências e o quotidiano do povo hebraico, relacionadas com o saber empírico. O livro é composto pelos provérbios de Salomão, pela colecção dos provérbios de Salomão e outra parte coligida pelos homens de Ezequias.

Salomão, filho de David e governador de Israel no século X. a. C. é considerado como o mais antigo coleccionador dos provérbios. Ele costumava chamar os provérbios «as vozes de sabedoria». Estas sentenças foram formadas a partir de situações vividas, observações, experiências do homem considerado ser social e parte de um todo, do cosmos. O Livro cos provérbios que conhecemos já dos tempos mais actuais: sentenças breves, geralmente de um dístico, de estrutura binária, servindo de base a educação dos filhos pelos pais. As suas características formais permitiam manter os provérbios, facilmente, na memória e a sua divulgação às gerações de descendentes. 95

Conclua-se, que muito mais importante para o utilizador dos provérbios é saber o conteúdo do provérbio, a mensagem potencial incluída ou em que contexto é apropriado para usar. Os provérbios são de autoria anónima porque provêm de quem os utiliza, de todos, uma vez que não são inacessíveis aos incultos e não eruditos, são donativos de fácil coompreensão. José Carreira defende que a sabedoria neles presente: “Não tem nada de esotérico nem de transcendente. Não exige qualidades excepcionais de inteligência. Basta o bom senso e boa vontade, juntos com à vivência com os sábios.”96




  1. Temática proverbial

No início deste capítulo devemos mencionar que existem alguns obstáculos que dificultam a ordenação temática dos provérbios. Primeiro, os provérbios, não são uníssonos, ou seja, muitas vezes, possuem as diversas variantes. Nestas, pois, podem aparecer diversas temáticas nas quais é difícil encontrar a mais flagrante ou dominante. À continuação, grande parte dos provérbios que mencionamos no nosso trabalho provém do uso e conhecimento de uma massa comum que lhe confere a característica popular. Seria quase irrealizável afirmar que este ou aquele provérbio teve origem nesta ou naquela região. Sendo que os provérbios não vivem separados, por fronteiras ou muros, de outros países ou de outras regiões.

As recolhas e colectâneas deste tipo requerem formatos de sequência. Grande maioria deles, então, consiste em uma apresentação alfabética ou temática dos provérbios, às vezes, em estes duas simultaneamente. Na obra de António Delicado Adágios Portugueses os provérbios são ordenados por temas e dentro destes temas são apresentados alfabeticamente. Segundo Amadeu Amaral, Leroux Lincy apresenta na sua obra catorze divisões (por exemplo: sagrados, natureza física, tempo, históricos, homem, animais etc.) que seguem, depois, a mesma apresentação que Delicado. O folclorista Long apresenta uma divisão em: antropológicos, políticos e judiciários, físicos, históricos.97 Porém, utilizaremos a recolha feita por Ruivinho Brazão chamada Os provérbios estão vivos no Algarve (1998).

Quanto às recolhas realizadas na área da língua checa utilizaremos a colecção mais actual de Bitnerrova e Schindler (2003). Os provérbios são divididos em partes principais de acordo com o número dos participantes que conhecem um provérbio particular, sendo assim obtidos resultados relativos aos provérbios mais conhecidos (por 19 participantes) aos que somente um participante do questionário declara como o provérbio conhecido. À continuação, estes são diferenciados em três blocos segundo o autor que recolheu o provérbio: Celakovsky, Spilka, Bittnerova-Schindler.

No entanto, quanto aos temas evidenciados nos provérbios, estes abrangem horizontes vastos, potenciais ou imaginários que nos levam a estabelecer uma temática geral dividida em três blocos principais. Seria apropriado mencionar que este método foi apresentado pela análise feita no trabalho de Carmelia Ferreira Santos nomeada Sabedoria popular nos provérbios. Os blocos temáticos de autora são seguintes: Natureza (a natureza humana, os animais, as plantas, características geográficas, temporais, climáticas.); Relações humanas (sentimentos, comportamentos, convenções sociais, actividades ou moral.); Imaginário (a religião ou a existência de um ser superior, as crenças, as superstições, a moral também, alma humana e pensamento.)

A nossa divisão será um pouco diferente, querendo dedicar a nossa atenção aos blocos e temas que julgamos interessantes e dignos de análise mais aprofundada. Infelizmente, espaço limitado do trabalho presente não nos permite fazer uma análise mais extensa, uma vez que é irrealizável abarcar todos os temas potenciais que podemos encontrar nos provérbios.

Primeiro, escolheremos tema da Religião, particularmente, o tema de Deus e dos Santos. Segundo, analisaremos as Crenças e Superstições, incluindo números, morte, diabo e sonhos. Enfim, discutiremos sobre a tema de Natureza que abordará os temas de animais, plantas, água e sol. Ao mesmo tempo, tentaremos descobrir simbologia de cada objecto, procurá-la nos provérbios e encontrar os equivalentes checos possíveis dos provérbios portugueses. Contudo, dado ao espaço limitado do trabalho presente não podemos dedicar a nossa atenção profundamente a cada temática contida nas frases proverbiais. Todos os exemplos servem como as manifestações dum fenómeno particular nesta fonte infinita dos provérbios.



    1. Religião

A religião ficou na fase primordial da formação não só dos provérbios mas também de toda a civilização. O termo sagrado é atribuído a tudo o que ultrapassa a nossa realidade e revela algo superior. Pela incapacidade humana de compreensão o termo é transformado em algo excepcional, sublime e poderoso, relacionado com o culto religioso. O sagrado nasceu da sensação humana da presença de poderes inexplicáveis e sobrenaturais para as civilizações antigas. Locais misteriosos como florestas, fontes ou grutas, fenómenos temíveis como trovoadas ou tempestades, momentos da vida humana como vida e morte - tudo precisava de ter a explicação que a religião podia oferecer. Religião também surge da necessidade de o ser humano de constituir um ideal que pode seguir na sua vida. Actualmente, nas sociedades, vemos que a ciência retomou o papel que a religião mantivera antes. As ciências conseguem explicar o inexplicável que foi reflectido pelos nossos antepassados no poder de Deus e a Sua magnitude.

      1. O Deus

Nos provérbios, especialmente em Portugal, num país maioritariamente católico, a influência do Deus e de tudo o que se relaciona com Ele é bem evidente. Os provérbios reflectem de forma bem clara todo este sentimento teológico relacionado com um ser superior e divino, com características e qualidades que deverão ser seguidas na nossa vivência. Estas são ligadas com a ética e à moral, o discurso utilizado nas frases proverbiais é densificado de significados emotivos, tornando-o mais forte e convincente. Deus apresenta-se numa omnipotência eterna de formas de conduta na vida humana.

A palavra Deus provém do indo-europeu deiwos (resplandecente, luminoso) que designava originalmente os celestes (Sol, Lua, estrelas etc.). O Deus é invocado pelo povo como ser superior, cheio de plenipotência, inteligência, perfeição, sabedoria, signo de moralidade e justiça...etc. Observemos, agora, os provérbios. Podemos ver os papéis diferentes que são atribuídos ao Deus dentro dos provérbios provenientes destas invocações.

Deus aparece nos provérbios como protector, como indicador de justiça ou como autorizador de felicidade, de bem-estar ou de sapiência:

1. A casa é Deus quem a guarda. / Deus nos livre de quem bem nos fala e mal nos quer.

2. A justiça de Deus não dorme. / Deus escreve direito por linhas tortas. / Deus ajuda quem madruga.

3. A felicidade dá Deus. / Não há chaga nenhuma que Deus não cure. / De hora a hora Deus melhora.

Nos provérbios checos podemos encontrar, também, um grande número relacionado ao Deus, especialmente, na colectânea mais antiga de Celakovsky. Aqui são apresentados os provérbios semelhantes aos portugueses, sobretudo na sua significação:

1. Pán Bůh s námi a zlý pryč. / Kde nouze nejvyšší, tam Bůh nejbližší.98

2. Člověk míní, Pán Bůh mění. / Pán Bůh dal, Pán Bůh vzal. / Dal Bůh kravičku, dá také travičku.99

3. Kde Bůh hospodaří, tam se dobře vaří. / Lékař léčí, Bůh uzdravuje. / Všeho do času, Pán Bůh navěky.100



      1. Os Santos

Os Santos representados em igrejas, padroeiros de localidades e prossecutores de festas populares não puderam deixar de ser aludidos nas frases proverbiais. Eles são representados em imagens, especialmente, como as personagens célebres destacadas pela sua ligação com Deus. Seus destinos e actuações são, também, as condutas religiosas e morais para os crentes. No entanto, o que se observa, nestes enunciados, é que, geralmente, a referência aos Santos está ligada com actividades quotidianas, agrícolas, com calendário, tempo e estações do ano, indicando uma previsão ou conselho:

O que não se faz no dia de Santa Luzia faz-se no outro dia. (13 de Dezembro- os dias são muito poucos)

Pelo São José, começa o cuco a cantar. (19 de Março- indica o início da Primavera)

Pelo São João, os dias iguais às noites são. (24 de Junho- indica o início do Verão)

Pelo S. Martinho, mata o porquinho; põe-te mal com vizinho; vai à adega e enceta o vinho. (11 de Novembro- dia de S. Martinho e a prova de vinho novo estão relacionados não só pela sua calendarização real, mas também pelo facto de rimarem entre si, o que constitui um pretexto frequente para formar o provérbio.)

Em checo, a situação é completamente diferente. Na recolha de Bittnerova e Schindler não podemos encontrar os provérbios com os Santos particularmente nomeados. Aqui, só aparecem os Santos em geral, como um conjunto:

Komu Pán Bůh, tomu všichní svatí.101

Lepší Pán Bůh než všichni svatí.102

Bohu služ, svatých nehněvej.103

Estes tipos dos provérbios verificam-se em português também:

Quando Deus não quer, os Santos não ajudam.

Quem não vai à igreja não pode conhecer os Santos.

A linguística checa tem outro termo para as frases feitas que veiculam os Santos nomeadamente, indicando uma previsão ou conselho a partir do calendário. O termo “pranostika“ expressa a frase feita popular que é ligada a certos fenómenos meteorológicos e às estações do ano, baseada na experiência dos antepassados. A palavra “pranostika” provém da palavra latina “prognosis” o que significa a previsão. Na recolha destas frases já verificámos os mesmos nomes e as mesmas referências aos Santos:

Svatá Lucie noci upije, ale dne nepřidá. (13 de Dezembro)104

Mráz po svatém Josefu může uškodit květu, ale již ne člověku. (19 de Março)105

Na Svatého Jana noc nebývá žádná. (24 de Junho)106

Radost Martina je husa a džbán vína. (11 de Dezembro)107

Como podemos ver nas linhas anteriores os provérbios deste tipo que evidenciam as leis da natureza ao longo do ano, contemplados pelos nossos antepassados, indicam os fenómenos idênticos nos provérbios checos e portugueses. Porém, estas frases, lentamente, desaparecem da nossa comunicação, uma vez que a nossa sociedade moderna e, geralmente, citadina influenciada pela ciência e pela vida muito mais afastada da natureza já não necessita dessa experiência preciosa.



    1. As Crenças e Superstições

As crenças e superstições, provenientes da fantasia e imaginário do pensamento e da alma humana, convivem connosco todos os dias, reflectindo-se nos provérbios. Um número decisivo das pessoas acredita, até hoje, nos conteúdos destes enunciados (por exemplo no campo da astrologia). Outros são pessimistas em afirmar que certos saberes tem o seu fundamento científico.

A tradição oral é uma fonte infinita e rica destes saberes. Os nossos pais inseriram nela os seus medos que a escuridão da noite invocava. Não tendo a energia eléctrica, observavam, quase cegos, os movimentos de plantas no vento, de animais de bosque ou de sombras da Natureza que descobrem a existência de seres mitológicos, assustadores, misteriosos, representantes do imaginário comum. Assim, não é de estranhar que os provérbios não ficaram imunes.

Seria apropriado mencionar que diversas superstições e crenças foram reprimidas ou transformadas pela Igreja. Existem crenças e ritos de permanência milenar que a igreja católica combateu e deixou desaparecer. Talvez o mais convincente exemplo seja a inquisição que apresenta a forma deste combate no passado e para nós a mais cruel. Margarida Tengarrinha menciona outras tentativas de dispersão destas superstições, como por exemplo ritos do solstício de Verão (fogueiras, banhos nas fontes) que foram transformados em festas de São João. Esta autora refere, também, as festas de Agosto, ligadas à terra, à fertilidade feminina, à colheita que deram origem ao dia da Assunção de Nossa Senhora, em 15 de Agosto.108

Muitas das superstições, então, são antigas e caíram no esquecimento dos tempos modernos e práticos, submetidos à ciência. Outras têm ainda seus seguidores, uma vez que, ainda na actualidade, ouvimos dizer que não se devem cruzar facas, abrir guarda-chuva dentro da casa, partir espelho ou passar por baixo de escada etc.



      1. Os Números

Um dos aspectos mais evidentes é a presença dum conjunto vasto dos provérbios relativos aos números. Como sabemos cada número sempre oculta a sua simbologia que nos remete para as tradições, crenças e superstições do passado mas que sobrevivem até os dias mais actuais. Agora, observaremos de que modo são os números interpretados e qual é o seu significado relacionado com a realidade. Aliás, começaremos por relembrar a história da numerologia.

Desde as primeiras civilizações os homens tentaram expressar quantificações. Como documenta Maria G. Barros a civilização dos Egípcios desenvolveu um sistema de numeração até 999 999 num total de sete símbolos para escrita formal e trinta e seis para o uso mais comum. A seguinte, civilização Sumério-babilónica tinha apenas três símbolos e com estes podiam expressar qualquer quantidade. Este sistema era tão efectivo que foi retomado pelos Gregos no campo da Astronomia e Navegação. Até hoje utilizamos este sistema, como por exemplo na contagem do tempo (minutos, segundos) ou na medição dos ângulos. A civilização Hindu contribui ao desenvolvimento da numeração, estabelecendo símbolos de 1 – 9, o zero e os números negativos. Por volta de século VII. a cultura árabe melhorou e modificou o sistema criado pelos Hindus e este foi adaptado na Inglaterra e Norte da Europa pelos mercadores. Nessa altura, os europeus da Idade Média consideravam este sistema muito difícil e incompreensível e os que o usavam eram apelidados de mágicos. Tudo o que é de difícil compreensão é, muitas vezes, considerado como místico e sobrenatural e, assim também acontecia com o sistema de numeração, dando origem à sua simbologia.109

Em suma, os números são importantes para a nossa civilização, reflectindo, muitas vezes, o próprio carácter duma nação particular. O número invade quase todos os campos da vida humana, funcionando como dominador do nosso dia-a-dia de uma forma tão invisível que nem percebemos da sua presença. Os números são personalizados no dinheiro ou em códigos de simbologia infinita e até, podemos dizer, que cada pessoa apresenta-se com o seu código.

Analisemos, agora, os números um e dois mais concretamente nos provérbios, mostrando os conhecimentos da numerologia. Começamos no início: um representa a unidade que não admita a divergência ou divisão, expressando a união e integração de elementos opostos. Ao contrário, o número dois é o sinal de contradição, divergência, divisão e instabilidade. O mundo é, segundo algumas crenças, dividido em dois princípios, como por exemplo em concepção do jing e jang, expressando a polaridade entre o mundo dos homens e das mulheres.110 Vejamos alguns exemplos:

Candeia que vai à frente alumia duas vezes.

Mais vale um pássaro na mão que dois a voar.

Homem prevenido, vale por dois.

Dois pobres a uma porta, algum tem de ficar sem esmola.

Nos provérbios checos encontramos os exemplos semelhantes:

Hodina před půlnocí lepší než dvě po půlnoci.111

Lepší vrabec v hrsti než holub na střeše.112

Dva kohouti na smetišti nesrovnají se. / Nikdo nemůže sloužit dvěma pánům.113

Como se pode deduzir destes provérbios mencionados: o número um é escolhido para situações positivas, favoráveis e o dois para mais negativas, de conflito ou divisão. Porém, os provérbios conjugam entre si em diversas influências e, assim, existem outros provérbios, nos quais o mesmo número pode ter significado contraditório. Veja-se exemplos:

Enquanto há dois não se cansa um só.

Ve dvou se to lépe táhne. / Dva více zmohou. (equivalentes checos ao: Enquanto há dois não se cansa um só.)

É possível aludir outros exemplos dos números, de três a mil, que são evidenciados nos provérbios. Porém, seria irrealizável de estudar esta temática profundamente, por isso, mencionaremos algumas manifestações que comprovam a sua presença nas frases proverbiais portugueses:

Meias de três o diabo as fez.

Quatro olhos vêem mais que dois.

Sete pessoas, catorze conversas.

Masi vale um boi que cem mosquitos.

Perdido por um, perdido por mil.



      1. O Diabo

A figura do Diabo com tudo o que ela simboliza está sempre presente nas colectâneas dos provérbios. O Diabo representa a figura mística, incluindo em si muitos preconceitos, características e denominações conferidas como Mafarrico, Belzebu, Satanás, Lúcifer ou Demónio. Todos eles descortinam o seu carácter nocivo, omnipotente que possui poderes destruidores para estragar a obra de Deus. Assim, eles representam uma oposição eterna entre o bom e o mal, entre o Diabo maligno e o Deus verdadeiro e justo. Geralmente, é associado ao inferno, onde tem que levar as almas viciosas humanas.

Ao diabo e à mulher nunca falta o que fazer.

De boas intenções está o inferno cheio. / De conversas e de promessas está o inferno cheio.

Quem dá e tira para inferno gira.

Quem diabo compra, diabo vende.

Nos provérbios checos temos os seguintes equivalentes:

Kam ďábel nemůže, tam babu pošle.114

Cesta do pekel je dlážděna dobrými úmysly. (equvivalente ao: De boas intenções está o inferno cheio.)

Kdo lže, do pekla klouže. / Kdo lže a krade, do pekla se hrabe.115

Kdo s čertem začíná, s ďáblem končí.116



      1. A Morte

A morte faz parte da nossa vida, pois tudo o que é vivo um dia morre. É uma realidade natural mas cada vez mais vivemos mais longe dela do que nossos antepassados. O povo considera a morte uma realidade inevitável mas velada por muitos segredos, suscitando a curiosidade humana para sempre. Agora, vejamos os exemplos nos provérbios onde a morte veicula como o destino certo de todos sem excepção:

A morte é a coisa certa.

A nascer e a morrer, todos a correr.

Da morte ninguém escapa.

Quem nasceu morreu.

Tudo no mundo tem o seu fim.

O tema da morte é tão universal para todas as nações que pode ser evidenciado em todas as línguas, inclusive em checo:

Smrt všechno rovná.117

Smrt nevybírá, béře napořád.118

Ať jdeš, kam jdeš, smrti neujdeš. (equivalente ao: Da morte ninguém escapa.)

Co se narodilo, umřít musí. (equivalente ao: Quem nasceu morreu. )

Smrt je konec všemu.119



      1. Os Sonhos

Os provérbios que se referem à interpretação dos sonhos são frutos de superstições e crenças bem vincadas no imaginário dos nossos progenitores. Eles reflectem activamente o imaginário, que faz dos sonhos augúrios e pressentimentos bons e maus de alguma coisa real, geralmente, não tendo uma justificação concreta para tais acontecimentos. Estas interpretações populares dos sonhos são, muitas vezes, desordenadas e incompreensíveis pelo consciente, mas uma fonte rica para reconhecer a fantasia das pessoas do passado.

É necessário declarar que a obra de Carmelia Ferreira dos Santos enquadra estes tipos de enunciados nos provérbios. No contexto checo eles não têm a sua classificação, por isso, não os podemos encontrar nos livros de provérbios. Estes ocupam o seu lugar nos livros de sonhos. Esta ideia de classificá-los como componentes das frases proverbiais é muito interessante e, por isso, a mencionámos. Agora, observamos as frases portuguesas e checas, comparando os seus conteúdos. Começamos por abordar a temática de água em sonhos, muito frequente em ambas as linguagens:

Sonhar com água clara sinal é de lágrimas.

Sonhar com água corrente são arrelias.

Sonhar com água parada são alegrias.

É surpreendente que estes signos ganhem significados contrários em checo. Sonhar com água clara é um sinal bom para o futuro, com água corrente significa ter felicidade e com água parada é o sinal de tristeza. Sonho com as azeitonas que são sinais de luta para os portugueses mas de sofrer amarguras da vida para os checos. Sonhando sobre amêndoas, os portugueses podem expectar prendas e os checos confusão e pena. O mar nos sonhos dos portugueses e checos ganha o mesmo significado de viagens e, a seguinte, peixes significam hóspedes para os portugueses e o segredo na interpretação checa.



    1. A Natureza



      1. Os Animais

Os animais aparecem nos provérbios com frequência e, assim, têm o seu lugar digno no nosso trabalho presente. Eles eram e são um parceiro primordial dos seres humanos, especialmente, os das rurais, com quais estabeleciam o contacto quotidiano e a relação da necessidade recíproca.

Um facto importante a considerar é que os animais são retratados nos provérbios no sentido figurativo, fazendo referência indirecta aos seres humanos. A eles são atribuídas características e capacidades humanas. Não é de estranhar que em ambas línguas os animais que verificamos nos provérbios, com maior frequência, são os domésticos e agrícolas como o cão, o gato, o boi, a vaca, a galinha, etc. Neste caso, poder-se-á considerar que, pelo facto dos provérbios terem sido recolhidos na região algarvia seria mais lógico que os animais fossem aliados às actividades da pesca (os peixes, as gaivotas, etc.). Tal não acontece o que comprova que os provérbios não conhecem fronteiras nem das terras nem do tempo.



O boi

Em toda a Ásia Oriental o boi é considerado precioso e amplamente respeitado, às vezes, oferecido em sacrifício, ligando-se aos ritos de trabalho e fecundação da terra. Na Europa era, essencialmente, utilizado para auxílio dos trabalhos agrícolas. Este animal é retratado como pacífico mas com uma grande capacidade de trabalhar, devido à sua força e potência física.120 No sentido figurativo podemos verificar que na figura do boi misturam-se características positivas e negativas, válidas para os seres humanos. Por um lado, o boi simboliza diligência, força e indocilidade e por outro, ingenuidade e estupidez. O sentido negativo domina mais na recolha checa, uma vez que utilizamos este termo para chamar uma pessoa inocente e estúpida que trabalha sem apreciação justa. Agora, vejamos alguns exemplos:

Mais pode um boi que cem mosquitos. (diligência, força, superioridade a uma grande quantidade dos outros animais.)

Boi velho não aprende rego. (Força e sabedoria dos velhos para combater os maiores vícios da vida.)

Agora, veja-se alguns exemplos na recolha checa:

Čím starší vůl, tím tvrdší roh.121 (Apreciação da prudência de velhice ou numa outra perspectiva a indocilidade dos velhos que não gostam das mudanças.)

Když se štěstí unaví, sedne i na vola. / Vůl zůstane volem, pařez pařezem.122 (estupidez)

Čím víc vůl táhne, tím víc na něj nakládají.123 (força, ingenuidade, estupidez)



O cão

Cão é o melhor amigo do homem. Sabe-se que o cão doméstico descende do lobo mas os cães destacam-se como os animais bem ensinados e treinados. Eles são dos animais domésticos mais antigos com a origem velada. Na figura do cão imaginamos, principalmente, protector das pessoas, casas, bens e rebanhos e um companheiro fiel do homem. Em algumas culturas o cão era, também, o companheiro eterno para os mortos depois do seu falecimento e daí ganhou o símbolo da morte.124 Por outro lado, na figura de cão pode se encontrar o significado dum homem mau e desprezível. Todas estas características circulam em grande número dos provérbios relacionados ao cão. Vejamos exemplos de provérbios portugueses:

Cão que nos ladra é cão que nos guarda. (Cão como protector)

Livrar do homem que não fala e do cão que não ladra. / Cão que ladra não morde. (Cão como símbolo para homem mau e insincero)

Existem outros provérbios, relacionados, que revelam uma mensagem moral e generalista, podendo-se adaptar às situações da vida quotidiana:

Cão não come o cão. (um ser não prejudica seu semelhante)

Ladram os cães sempre aos mais pobres. (quem não se pode defender é sempre mais atacado)

Na colectânea checa encontramos, maioritariamente, os provérbios do terceiro tipo, ou seja, aqueles que incluem uma preocupação moral e generalista, retratando a vida de dia a dia:

Pes psa nekouše. (equivalente ao: Cão não come o cão.)

Život je pes.125 (símbolo das dificuldades da vida)

Snadno hůl najíti, kdo chce psa bíti.126 (quem quer magoar e ferir, sempre tem motivo)

Člověk umře ani pes po něm neštěkne.127 (símbolo da morte que termina tudo)

Dobrý pes lepší než zlý člověk.128 (apreciação do cão que é, às vezes, amigo mais fiel do que homem)

No entanto, existem os provérbios checos que retratam o cão como símbolo dum homem mau:

Pes, který štěká, nekouše. (equivalente ao: Cão que ladra não morde.)

Psu psí smrt.129 (um homem mau merece revanche)



O cavalo

O cavalo é dos animais domésticos apreciados pelo seu vigor, força, potência física e capacidade de ser treinado e ensinado. Cavalo é mais do que outros animais apreciado pela sua beleza do corpo e dos movimentos e, por isso, muitas vezes, aparece ao lado dos heróis nas diversas histórias. São animais famosos pela sua celeridade, resistência e adaptação à corrida, utilizados nas guerras antigamente. António Jacinto Ferreira afirma que o cavalo constitui motivo de orgulho e presunção para o dono, que gosta de exibi-lo quer montando-o quer atrelar a luxuosa ou ligeira carruagem.130 Para o cavalo não foram encontrados mais que dois provérbios na recolha portuguesa:

A cavalo dado não se olha o dente. (Cada presente merece apreciação. A cavalo dado não se deve verificar os seus dentes, para saber idade e saúde.)

Não é nada o cavalo, senão os arreios.

Na recolha checa é a figura do cavalo muito mais frequente. Talvez fosse mais utilizado como animal doméstico na Europa Central:

Darovanému koni na zuby se nedívej. (equivalente ao : A cavalo dado não se olha o dente.)

Člověka nesuď podle šatů, koně podle sedla.131 (beleza e qualidade do cavalo ou do homem não se encontra na sua superfície)

Nech to koňovi ten má větší hlavu.132 (resistência)

Koně, ženu a flintu nikdy nepůjčuj.133 (apreciação do cavalo como um animal precioso)

Nemoc na koni prijíždí, pěšky odchází.134 (símbolo da rapidez)



A galinha

A galinha é de género feminino e como tal designa a mulher, num sentido depreciativo, muito faladora, de recados ou de voz agudo, estridente e desagradável ao ouvido. A galinha choca os ovos tal como a mulher pare as crianças e faz tudo para protecção deles.

Galinha que canta com o galo dá azar. (símbolo da mulher que faz trabalho pertencente ao homem, tomando a sua dominação na família)

Grão a grão enche a galinha ceirão (papo). (símbolo da paciência, com um conjunto de coisas pequenas se faz o grande. Também a mulher, dona da casa, tem sempre o papel de quem poupa na família. Nos provérbios checos encontramos equivalente, mas usando o ganso. A explicação possível é que este animal é mais típico na nossa região do que em Portugal.)

Galinha cantadeira é pouco poedeira. (símbolo para mulher que muito fala e não trabalha)

Porém, verificam-se outros provérbios que levam a interpretação mais geral:

A galinha da minha vizinha sempre é mais gorda do que minha. (o que pertence aos outros é sempre melhor do que temos, representado pela galinha)

Galinha da aldeia não quer capoeira. (símbolo da pessoa habituada a vida livre, sem responsabilidade, dificilmente adoptará as regras.)

Na recolha checa aparecem estes provérbios relacionados:

Ani slepice darmo nehrabe. / Každá slepice nehrabe od sebe, ale pro sebe.135 (Símbolo que pode ser interpretado como mulher acautelada, fazendo tudo para o seu proveito.)

Choď spát se slepicema, ráno budeš moudřejší. (Na nossa região “ir dormir com as galinhas“ simboliza muito cedo, ou seja, não é bom resolver problemas depressa mas melhor é acalmar-se e depois encontrar a solução.)

O gato

O gato era conhecido e admirado desde o tempo dos Egípcios mas na Europa ganhou símbolos de mau agoiro, da morte ou dos feitiços. O gato é, já há muito tempo, domesticado mas ainda hoje conserva muito do seu carácter natural e continua a ser um animal vagabundo e esquivo. O gato é animal nocturno e possui qualidades de audição, visão e instinto excepcionais. Essas qualidades fazem dele um excelente caçador de ratos e outros animais pequenos. Nos provérbios o gato aparece, mais ou menos, no papel dum animal esperto e desconfiado, representado estas características nos homens:

Gato escaldado de água tem medo. (um animal depois de ter tido uma experiência dolorosa tenta evitá-la outra vez, tal como acontece com os seres humanos, que tentam evitar algo que lhes causa infelicidade e dor)

Vender gato por lebre. (enganar alguém)

Gato escondido, rabo de fora. (o que foi escondido pode deixar indícios muito óbvios)

Quem não tem cão caça com gato. (habilidade de caça)

Os escassos provérbios checos relacionados apresentam, maioritariamente, as qualidades negativas:

Falešný přítel jako kočka, vpředu líže, vzadu škrábe. / Kočky pohladíš-li hned ocas zdvíhá.136 (símbolo de desconfiança e deslealdade)





















      1. As Plantas

Na sabedoria proverbial teremos oportunidade de ver as preocupações que envolvem o mundo vegetal próximo dos seres humanos, que participa na vida quotidiana. A flora constitui, em conjunto com a fauna, a parte vital da nossa existência, assim, é mencionadaa nos provérbios com uma mistura simbológica de sabedoria, de moral, ética etc.

As Árvores

Desde tempos remotos, a árvore era planta apreciada, honrada e em algumas culturas até sagrada. Como as suas raízes se ligam nas profundezas do solo e os seus ramos se erguem ao céu, a árvore acorda a fantasia humana, simbolizando um pilar ou eixo entre a terra e o céu. Em todas as culturas do mundo as árvores desempenham os seus papéis nos rituais, mitos ou folclore ancestrais.

Na sabedoria popular elas têm o seu lugar, uma vez que eram considerados como fonte da vida e, ainda por cima, a sua madeira apresentava um modo único para confeccionar alimento (lenha para o fogo). Nos provérbios, quase sempre, a árvore leva a simbologia moralista e ética directamente dirigida aos seres humanos. Trata-se das recomendações, condutas apropriadas, leis da vida humana ou a árvore também é interpretada como símbolo do próprio ser humano:

Da árvore caída todos fazem a lenha. (Provérbio com uma mensagem moral. Símbolo da lei de natureza que dos mais fracos outros exploram ou se aproveitam facilmente.)

Lenha verde e torta o fogo a corta. / Lenha verde e direita o fogo a espreita. (Lenha verde é usada frequentemente como símbolo de juventude, período inicial da vida em que um jovem inocente e inexperiente pode, muito simplesmente, levar-se pelo mau caminho.)

Quem a boa árvore encosta boa sombra acolhe. (Quem se junta aos bons, aprenderá bons conselhos.)

Nos provérbios checos observamos a simbologia semelhante, usando mais o termo da árvore do que da lenha:

Ovoce (jablko) nepadá daleko od stromu.137 (O provérbio muito conhecido expressa que as crianças retomam as qualidades dos seus pais e que, em geral, somos influenciados pela nossa família.)

Kam strom ohýbáš, tam roste.138 (O provérbio com significado semelhante ao português sobre juventude, usando a lenha verde, ou seja, que durante a nossa juventude aceitamos muitas influências que serão reflectidas no nosso futuro.)

Když se mladý stromek neohýbá, starý se už neohne, to se spíš zlomí.139 (Neste provérbio verificamos símbolo da oposição entre velhice e juventude. Os jovens têm uma enorma capacidade de adaptação ao progresso mas os velhos desconfiam e não gostam das mudanças.)

Do nejvyšších stromů, nejvíc hromy bijí.140 (As pessoas mais fortes são capazes de enfrentar as dificuldades da vida e, muitas vezes, em lugar dos outros.)

Os Frutos

Sabe-se da história de Adão e Eva que pela árvore do fruto proibído pecaram e deram origem à geração humana. Assim, os frutos são considerados símbolos de descendentes da raça humana, tal como a árvore genealógica. A maior parte das árvores é cultivada para fornecer os frutos. Nas linhas seguintes teremos oportunidade de verificar quais são os frutos mencionados nas frases proverbiais checas e portuguesas. Daí originam-se as diferenças entre estas duas nações causadas por clima e tradição, influindo, decisivamente, a produção agrícola. A recolha portuguesa orienta-se às árvores e aos frutos cultivados na região algarvia. Por isso, não é curioso que evidenciamos, com maior frequência, amendoeira ou amêndoa, alfarrobeira ou alfarroba, figueira ou os figos, uva e laranja. Porém, é de estranhar que esta recolha não faz qualquer referência à laranjeira de forte produção no Algarve, somente menciona o fruto de laranja. Em geral, as frases proverbiais deste tipo fazem alusão às condições meterológicas ou veiculam juízos moralistas. Veja-se alguns exemplos:

Chuva morraceira queima a flor da amendoeira. / Ano de muita chuva, ano de pouca amêndoa.

Farrobas em Abril, cada uma conta por mil. / Ano de muito nevoeiro, ano de pouca alfarroba.

No tempo do figo está a mesa de Deus posta. / Uns comem os figos outros rebenta-lhe a boca. (Uns podem ter o proveito e os outros sofrem as consequências.)

Água de S. Jõao não dá uva nem dá pão. / Não há carne como a de porco nem vinho como o da uva.

A laranja de manhã é oiro, ao meio dia é prata, e à noite mata. / Querem ver o velho menino dêem-lhe laranja, pão e vinho.

A sabedoria proverbial não deixa de lado os outros tipos de frutos:

Ano de ameixas, ano de queixas.

Deixa estar a pêra na pereira, logo vem atrás que na mereça. ( Não se deve desperdiçar nada, aquilo o que parece ser inútil para nós pode ser útil para outro.)

Uma maça por dia dá uma vida sadia.

Não há coisa que mais lavre que a rama de melancia.

É óbvio que nas frases proverbiais checas não verificamos os frutos que são típicos para Algarve, a região cheia do sol. Assim, não encontramos referência nenhuma à laranja, figo, alfarroba ou amêndoa.

Por outro lado, o que temos em comum é uma grande tradição de produção de vinho. Embora não existam alusões às uvas na sabedoria popular checa mencionamos o seu produto: o vinho. Nos provérbios denominam os que descrevem efeitos possíveis do consumo de vinho ou aqueles que trazem significado moral:

Červené víno-mléko starců. / Víno obveseluje srdce lidská. / Víno moudrého poblázní.141 (efeitos do vinho)

Starý přítel i staré víno nejlepší. / Kázat vodu, pít víno. / Člověka při víně poznáš.142

A produção da maça e pêra também fazem parte das actividades agrícolas checas, por isso, aparecem nos provérbios. Maioria deles evidencia uma recomendação quando estes frutos devem ser colhidos:

Zralou hrušku snáze setřásti. / Když hrušky zrají, padají. / Neklať hrušek, až dozrají.143

Jablko, které pozdě dozraje, déle trvá. / Když jablka dozrají, sama sprší.144

Por outro lado, podem ser encontrados os provérbios que trazem uma significação moral:

Jedno shnilé jablíčko může všechny nakazit.145 (Maldade pode, facilmente, seduzir, ou seja, uma pessoa má sabe como influenciar os outros para conseguir o seu proveito.)

Červené jablíčko červivé bývá.146 (A beleza superficial pode, muitas vezes, enganar e esconder a verdade dentro.)

Em síntese, podemos dizer que os frutos e toda a natureza fazem uma parte importante na sabedoria popular tal como acontece e acontecia na vida real humana. Os provérbios são testemunhos do passado, ainda que muito próximo, que defendem que o que se produz na terra é a base da sustenção da humanidade. Luís Chaves menciona que: “A marcação de trabalhos agrícolas pelos meses do ano, a previsão do tempo (...) o anúncio do ano agrícola e as condições a que tem de obedecer cada mês, para boas colheitas, tudo isso dá uma fartura de adágios.“147


      1. A Água

Como o último tema do trabalho presente escolhemos um dos quatro elementos naturais – a água. Ela é vital para a nossa sobrevivência e para todos os seres vivos. As civilizações humanas primordiais desenvolveram-se nos vales de grandes rios ou nas zonas litorais para ficarem mais perto à fonte da vida, à água. O tema da água distribui-se por um grande número dos provérbios nas recolhas, traduzindo, assim, a sua importância. Ela é de tal maneira essencial que não será de estranhar que se evidencia com persistência nos provérbios.

Os seguintes provérbios demonstram o carácter útil da água, ligando-se às estações do ano e funcionando como indicador meteorológico de utilidade para a agricultura, que se aparece, frequentemente, nas frases proverbiais na recolha portuguesa. Para isso, a água ou sob a forma da chuva terá que vir na devida altura e no tempo certo:

Água de Fevereiro, enche o palheiro.

Em Abril venham águas mil.

Água de S. João tira a uva e estraga o pão.

Ano de muita chuva, pouco parra e pouca uva.

Setembro molhado, figo estragado.

Como já foi mencionado, estes tipos das frases feitas deste tipo são nomeadas «pranostika» na linguística checa e encontram-se nas recolhas relacionadas:

Únorová voda pro pole škoda.148

Duben hojný vodou-říjen vínem.149

Déšť na svatého Jana Křtitele, nenasbíráš ořechů do věrtele.150

Prší-li často v září, z lesů se dlouho voda paří.151

Em ambas as línguas verificamos o grande número dos provérbios onde o tema da água serve também como meio de metaforizar situações que nos conduzem aos valores e à moral:

Água lava tudo menos a má língua.

Água e conselhos só se dá a quem pede.

Águas paradas não movem moinhos; mágoas passadas não deixam carinhos.

Dinheiro mal ganhado água o deu, água o levou.

Na recolha checa evidenciamos as frases relacionadas:

Vypuštěné slovo a rozlitou vodu nikdy nechytáš.152

Vyjde pravda navrch, jako olej nad vodu.153

Škola bez kázně, mlýn bez vody.154

Os provérbios referem-se à água, também, como fonte de saúde, encontrando uma oposição entre as águas correntes (beneficiais) e as paradas (nocivo à saúde):

Água corrente não faz mal à gente / não mata a gente.

Em água corrente não se pega nada à gente.

Água fervida alimenta a vida.

Se queres ter um corpo são, lava-te com sabão.

Na recolha dos provérbios checos encontramos os provérbios relacionados, invocando os consumidores para beber a água por causa dos seus bons efeitos para a nossa saúde:

Voda nejlepší nápoj.155

Blahoslavená voda rozumu nekalí.156

Kdo chce dlouho žít má jen vodu pít.157



  1. Conclusão

Chegando até as linhas finais do trabalho resumiremos os reconhecimentos obtidos do nosso estudo proverbial. Os dois objectivos do trabalho presente eram: Primeiro, estudar as frases proverbiais nos diversos campos linguísticos e demonstrar as teorias existentes, contribuindo à compreensão da problemática proverbial. Segundo, analisar a função e origem de provérbios, incluindo, também, várias temáticas abordadas neles.

O provérbio como o termo tem os inúmeros sinónimos na língua portuguesa. A nossa pesquisa nos dicionários confirmou que quase não se distinguem e, por esta razão, estabelecemos o termo «provérbio» como o único para o nosso trabalho.

Estudámos, também, as definições tradicionais dos provérbios, divididas em checas e portuguesas. Não descobrimos diferenças decisivas nas concepções tradicionais que salientam, maioritariamente, o carácter popular, didáctico, fixo, lapidário das frases proverbiais, apreciando estas como fonte eternal da sabedoria popular humana. No entanto, estas concepções evidenciam que não é possível encontrar uma definição complexa que abranja todas as propriedades proverbiais. Assim, temos que concordar com as palavras de Jan Mukarovsky que o melhor caminho é coleccionar as propriedades proverbiais numa lista detalhada.

Recapitulando os estudos no campo fraseológico reconhecemos que nos provérbios existe um certo grau das seguintes propriedades: Idiomaticidade, Fixidez e Variação. Cada frase proverbial possui um grau particular da idiomaticidade e fixidez que influi as variações possíveis dentro da sua estrutura, mas mantendo o seu núcleo de significado («kernel») preciso para reconhecimento geral dos ouvintes. Este fenómeno demonstrámos mais detalhadamente no capítulo das variações possíveis dentro dos provérbios.

Os estudos do provérbio como componente textual e como texto contribuíram para descortinar outros tipos das propriedades. Sobretudo, as análises feitas por Norrick e Mukarovsky, ambos usando o método de comparação com as outras unidades fixas da língua, apontaram as seguintes:

1. tradicional

2. oral

3. generalizador



4. didáctico

5. simbólico

Norrick acrescenta carácter prosódico, humoroso ou divertido e Mukarovsky menciona carácter avaliador, autoritário e polissémico.

Ao final, analisámos temas particulares, veiculando nos provérbios, que se revelaram comuns para as ambas línguas. Através do método escolhido, de indução e dedução, descrevemos o simbolismo de cada objecto e apresentámos os seus exemplos nas frases proverbiais em ambas as línguas. À continuação, usando o método de comparação, chegámos à afirmação que podemos dividir os provérbios em três categorias:

1. Aqueles que correspondem literalmente: Cão que ladra não morde = Pes, který štěká nekouše ou A cavalo dado não se olha o dente = Darovanému koni na zuby se nedívej.

2. Aqueles que trazem significado idêntico, usando outras palavras para expressá-lo. Estes, pois, aparecem em grande número: A felicidade dá Deus - Kde Bůh hospodaří, tam se dobře vaří158; Quando Deus não quer, os Santos não ajudam - Komu Pán Bůh, tomu všichni svatí159; Mais vale um pássaro na mão que dois a voar - Lepší vrabec v hrsti než holub na střeše160; Boi velho não aprende rego – Čím starší vůl, tím tvrdší roh161; Filho de peixe sabe nadar - Jablko nepadá daleko od stromu162; etc.



3. Aqueles que pertencem à mesma temática, mas trazem diversos significados e, assim, não tendo o seu equivalente correspondente em checo: Farrobas em Abril, cada uma conta por mil; Galinha da aldeia não quer capoeira; etc. Porém, o número deste tipo dos provérbios é escasso, uma vez que, em geral, é possível descobrir equivalentes em ambas as línguas, pelo menos, nos seus significados.

Bibliografia:

  • BATALHA, Ladislau. História Geral dos Adágios Portugueses. Livrarias Aillaud e Bertrand. Paris/Lisboa. 1924.

  • BITTNEROVÁ, Dana – SCHINDLER, Franz. Česká přísloví - Soudobý stav konce 20. století. Karolinum. Praha. 2003.

  • BRAZÂO, José Ruivinho. Os provérbios estão vivos no Algarve: Pesquisa Paremiológica em Paderne. Editorial Notícias. Lisboa. 1998.

  • CARREIRA, José Nunes. Filosofia antes dos Gregos. Europa-América. Lisboa. 1995.

  • ČECHOVÁ, Marie a kol. Čeština- řeč a jazyk. ISV nakladatelství. Praha. 2000.

  • ČELÁKOVSKÝ, František Ladislav. Mudrosloví národu slovanského v příslovích. Československý spisovatel. Praha. 1978.

  • ČERMÁK, František - FILIPEC, Josef. Česká lexikologie. Academia. Praha. 1985.

  • CHACOTO, Lucília Maria. Estudo e formalização das propriedades léxico-sintácticas das expressões fixas proverbiais. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 2004.

  • COELHO, Adolfo. Cultura Popular e Educação: Portugal de Perto. Vol. II. Publicações D. Quixote. Lisboa. 1993.

  • CORAZZI, David. Philosophia Popular em Provérbios. Lisboa/ Rio de Janeiro. 1882.

  • CRAM, David. Linguist status of the proverbs. In. Cahiers de Lexilogie 43. 1983.

  • DELICADO, António. Adágios Portugueses Reduzidos a Lugares Comum. Nova edição revista e prefaciada por Luís Chaves. Livraria Universal. Lisboa. 1923.

  • DIAS, António Jorge. Cultura Popular e Cultura Superior. Instituto de Estudiosos Portugueses. Santiago de Compostela. 1949.

  • Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Academia das Ciências de Lisboa. Lisboa. 2001.

  • FERREIRA, António Jacinto. Os animais no adagiário português. Direcção Geral da Comunicação Social. Lisboa. 1985.

  • FIGUEIREDO, Cândido. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Bertrand Editora. Lisboa. 1996.

  • GAMA, Mónica Sofia dos Santos Rodrigues. A compreensão do provérbio em contexto didáctico. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lisboa. 2003.

  • KANICKÁ, Zdeňka. Archetyp vody a ženy. Emitos. Brno. 2007.

  • LOPES, Ana Cristina Macário. Texto proverbial português. Contributos para uma análise semântica e pragmática. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 1992.

  • MACHADO, José Pedro. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Amigos do livro editores. Porto. 1981.

  • MORAIS, António Silva. O Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa. Confluências. Lisboa. 1994.

  • MOREIRA, António. Provérbios Portugueses. Notícias Editorial. Lisboa. 1999.

  • MUKAŘOVSKÝ, Jan. Cestami poetiky a estetiky. Československý spisovatel. Praha. 1971.

  • Novo Dicionário de Expressões Idiomáticas. João Sá de Costa. Lisboa. 1990.

  • SANTOS, Carmelia Ferreira. Sentido da sabedoria popular e do imaginário popular nos provérbios. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 2004.

  • SARAIVA, António José. A Cultura em Portugal. Vol.II. Livraria Bertrand. Lisboa. 1984.

  • SARAIVA, José Hermano. Gente de Portugal. Assembleia Distrital no Porto Alegre. 1981.

  • TENGARRINHA, Margarida. Da Memória do Povo – Recolha da Literatura Popular de Tradiçaõ Oral do Concelho de Portimão. Edições Colibri. Lisboa. 1999.

Páginas de Internet:

  • Dicionário Petit Robert

1   2   3   4   5


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal